Trovadores em Ordem Alfabética

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sábado, 12 de setembro de 2026

Lendas e Contos Populares do Paraná 1


CIDADE: ANTONIO OLINTO
Padre João

O Padre João Michalczuch, da Igreja ucraniana, tinha grandes atividades no município como médico, professor, lavrador, entre outras coisas. Ele obrigava os fiéis a colaborarem com três dias de serviço no plantio e na colheita, gratuitamente. Era muito famoso pelo seu atendimento como médico de crianças e idosos.

Relata-se que ele coletou entre os fiéis diamantes, pedras preciosas e ouro para a confecção do quadro, existente até hoje, da Nossa Senhora dos Corais. Contam que possuía muitas coisas valiosas, como objetos em ouro. Quando morreu, seus pertences de valor foram enterrados junto no caixão, guardado por uma cobra, que muitas pessoas dizem ter visto.

O achado

Certa noite de lua cheia, um homem chamado Sebastião Chaves saiu de sua residência para pegar água, era mais ou menos meia-noite. Aí começou a sair fumaça de um tronco. Ele começou a se apavorar, mas ficou por ali; de repente saiu uma mulher fumando cachimbo e falou:

– Tenho um Guardado para você.

Ele respondeu:

– O que você quer em troca?

Ela falou:

– Quero que mande rezar cem missas para mim, aí poderá pegar o seu Guardado.

Ele mandou rezar as missas. Numa outra noite de lua cheia, ele foi ver o seu Guardado. No local, começou a cavar onde a mulher aparecera. De repente, ouviu um barulho e olhou para trás, era um cavalo. Continuou a cavar e novamente ouviu o barulho, olhou era o cavalo que, em seguida, se transformou em mulher. Ela então perguntou ao Sebastião:

– Mandou rezar as missas para mim?

Ele respondeu:

– Sim, mandei como você me pediu.

A mulher disse:

– Pode pegar o seu Guardado.

Ele olhou no buraco que havia cavado e viu uma caveira, que era de seu tio.

O pote de ouro

Aconteceu no dia 22 de dezembro de 1991. Essa história tem como personagens o senhor Casimiro e Joacir. Esses dois homens acreditavam que nas redondezas de um rio, que divide as localidades de Lagoa da Cruz e Arroio da Cruz, existiam coisas de valor, como moedas de ouro ou pedras preciosas.

No dia 22 de dezembro, os dois homens beberam um pouquinho a mais da conta e resolveram partir em busca do tesouro que acreditavam que existia. Levaram de casa algumas sacolas, ferramentas para cavar, um rosário e água benta. Chegando à beira do rio, começaram a cavar e, como estavam embriagados, encontraram coisas que afirmavam existir.

Contavam que tinham encontrado várias correntes e pedras de valor. Tudo o que eles tiravam, lavaram com água benta, antes de guardar na sacola. Em casa começaram a alardear, falando que eram ricos e não precisariam mais trabalhar. O povo, já atormentado com o discurso dos dois, abriu as sacolas para ver o que havia de tão valioso. Ao abrirem, encontraram pedras de cascalho e maços de capim. Os dois, sem saber o que falar e passando uma enorme vergonha em frente das pessoas, disseram que tudo aquilo era obra do demônio e que ao colocaram água benta nas pedras e correntes, esta as transformou em cascalho e capim.

CIDADE: ARAPOTI
O pote de ouro

Segundo antigos moradores da Fábrica de Papel, há muito tempo atrás alguém enterrou um pote de ouro próximo ao rio do Chico. Dizem que algumas pessoas recebiam as visões do local através de sonhos. Segundo as revelações que lhes eram feitas, deveriam ir à noite para desenterrar a fortuna.

Porém, cada vez que alguém se aventurava a arriscar a sorte dirigindo-se ao local, aparecia um esqueleto falante ordenando que o levasse a determinado lugar, e, sem a permissão da pessoa, montava em suas costas afirmando que, se fizesse isso, dar-lhe-ia em troca o pote de ouro. Muitas pessoas que por ali passam, à meia-noite, afirmam ouvir gemidos e barulho de ossos estalando.

Os mais antigos dizem que são os ossos do esqueleto que fazem barulho e que os ruídos são os gemidos das pessoas, que querem se libertar do fardo macabro que têm às costas. Ouvem-se, também, os gemidos desesperados pedindo socorro e os gritos de dor causados pelos ossos pontiagudos do esqueleto.

CIDADE: BALSA NOVA
Tesouro dos Carros

Na fazenda dos Carros, município de Balsa Nova, na parte que fica em baixo da serra havia uns pés de canela bem altos e diziam que lá havia dinheiro enterrado. Dizem que um tal de Avelino Louco foi lá procurar e apareceu um negrinho, que disse que se ele matasse o filho mais velho e levasse o corpo ele mostrava o enterro. Alguns dizem que ele chegou a levar o filho até a beira do capão, mas o piá desconfiou e fugiu; o homem ficou meio variado depois disso, e esta é a razão do seu apelido.

Com relação ao guardião do dinheiro dos Carros, contam que, quando o dono foi enterrar a panela, perguntou a um escravo se ele tomava conta do dinheiro e como o negro disse que sim, ele matou o homem e enterrou junto; o escravo é a visagem que cuida do tesouro enterrado

CIDADE: CAMPINA DO SIMÃO
Lenda do caixão branco

Conta-se que antigamente havia na região um senhor muito sovina. Ele economizava até na alimentação. Quando chegavam visitas em sua casa, recebia-as somente na varanda, não recolhendo-as ao interior da casa.

Não desejava correr o risco de ter que alimentá-las, não oferecia nem mesmo o costumeiro chimarrão.

Quando chegava o horário das principais refeições chamava sua esposa para conversar com as visitas, ia até a cozinha para comer e voltava rapidamente para continuar a conversa. As pessoas mais idosas contam que o sovina enterrava todo o dinheiro que recebia dos pinheiros que comercializava.

Ocorre que após o seu falecimento passaram a acontecer coisas estranhas. Conta-se que se alguém passar depois da meia-noite em frente à casa onde ele morava, aparece um caixão branco, que voa em direção onde ele enterrou o dinheiro. Atualmente, as terras que lhe pertenciam foram compradas. O novo dono não faz outra coisa, a não ser procurar o dinheiro enterrado.

Fonte:
Renato Augusto Carneiro Jr. (coordenador). Lendas e Contos Populares do Paraná. 21. ed. Curitiba : Secretaria de Estado da Cultura , 2005. (Cadernos Paraná da Gente 3).

A. A. de Assis (A Província do Guairá: Um pouco da história do antes de Maringá) Parte I

A gente nova do Paraná precisa conhecer a história desta terra.
Bento Munhoz da Rocha Neto

Toda história é feita de muitas histórias, a partir de uma pré-história. Para contar, portanto, a história do Paraná, é preciso revirar as raízes remotas da América do Sul, recordar as origens da Província do Guairá, rever enfim, pelo menos em parte, a formação da comunidade paranaense.

Aqui se tenta fazê-lo, sucinta e descontraidamente, em forma de hipotética entrevista com um contador de histórias. Primeiro fala-se dos índios, dos colonizadores europeus e das reduções jesuíticas; em seguida entram em cena os mineradores e os tropeiros; finalmente aparecem os pioneiros do café, que se instalaram no norte e noroeste do Paraná a partir dos anos 1930.

Com exceção de Bartolomeu Torales, que comprovadamente existiu, os demais Torales citados neste relato são fictícios, convivendo com personagens e fatos da história real.
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Calçadão em frente à prefeitura, Maringá, 1982, num domingo, manhã de sol. O velhinho caminhava sem pressa, enrolando um cigarro de palha. Abordou-me perguntando as horas. Mas queria mesmo era puxar conversa.

-Gosto muito desta praça, disse. Ela se compôs de tal modo que pode ser considerada uma homenagem aos primeiros habitantes da região.

-O senhor fala dos pioneiros da cidade?

-Falo dos índios que viveram aqui por perto, nas reduções implantadas pelos jesuítas no início do século 17. Repare bem: este conjunto é uma réplica daquelas antigas reduções.

Eu estava, sem dúvida, diante de um contador de histórias. Alto, magro, olhos de filósofo, cabelos lisos e negros com raros fios grisalhos, pele tostada. Apresentou-se:

-Meu nome é Rodrigo Antônio Torales, seu criado. Tenho um sítio no município de Ivatuba, que agora os filhos tocam. Acho que com 83 anos nas costas já posso descansar. Moro naquele prédio ali, com uma filha.

-Muito prazer. Mas o que tem a praça a ver com as reduções?

-O amigo já deve ter ouvido ou lido a respeito. As reduções (do verbo “reduzir”, que na “gíria” dos missionários significava “reunir para catequizar”) eram aldeias nas quais os jesuítas nucleavam os índios. Em cada redução havia uma grande praça, como esta em que agora estamos. No centro, a área de festas e esportes. Em torno, a igreja, a escola, o gabinete do alcaide, a corregedoria, a casa de hóspedes, e os grandes pavilhões residenciais em que cada família indígena tinha o seu aposento.

-Começo a perceber a semelhança.

-Observe: temos ali a catedral, com uma escola ao lado (o Instituto de Educação); temos também a prefeitura (gabinete do alcaide), o fórum (que corresponde à corregedoria), a área de lazer (centro de convivência) e nas imediações temos os hotéis e os prédios de apartamentos. O quadro é o mesmo, apenas com uma diferença: agora é tudo de cimento.

-O senhor tem imaginação fértil...

-Meu mais antigo avô, o índio Catu, nasceu numa redução jesuítica, não muito longe daqui.

-O senhor é paranaense?

-Nasci paulista, em Sorocaba. Cheguei ao Paraná em 1932, exatos 300 anos depois que o índio Catu deixou estas paragens. Fiquei 10 anos em Londrina; em 1942 me instalei em Maringá e fui abrir o sitiozinho de que lhe falei, nas margens do rio Ivaí. Em Sorocaba fui oficial de farmácia.

-O senhor me parece um homem instruído.

-Leitura e tarimba de vida. Escola mesmo foi pouca. Sempre gostei muito de ler e de conversar com os mais velhos. Meu avô João Afonso, que era o dono da farmácia, tinha a estante cheia de livros e me ensinou a ser curioso. Foi também ele quem me contou as histórias de nossa família.

-Mas o senhor falava de outro avô, o índio Catu...

-Vou-lhe contar. Se o amigo tiver paciência e disposição, pode tomar nota e até depois escrever um livro.

-Pois então me conte tudo, desde o começo.

-Para contar desde o começo, eu teria que recitar o Gênesis... a história ficaria muito comprida. Podemos partir do século 15, um pouco antes do descobrimento do Brasil.

Percebendo que a prosa iria longe, sugeri ao velho Rodrigo que nos sentássemos num dos bancos da Avenida Getúlio Vargas. Ele tomou fôlego, pediu a um passante que lhe acendesse o cigarro, acendeu junto a memória. E que memória!

NAQUELE TEMPO...

-Naquele tempo, esta região toda era habitada pelos índios: guaranis e outros grupos. Viviam da caça, da pesca, da colheita de frutos nativos e de algumas formas de agricultura. Um paraíso, com a natureza lhes servindo permanente banquete. Nas “horas vagas”, divertiam-se com alguns esportes, dizem que até com um jogo parecido com o futebol de hoje. Dedicavam-se também a diversas modalidades de arte, no que, aliás, suponho que só
perdessem para os incas, os mais adiantados da América do Sul.

-Ah, os incas do Peru... Fale-me deles.

-Se você quer, vamos lá: o fabuloso império inca desenvolveu-se nas grimpas dos Andes durante o século 15, com sede em Cuzco. Dominavam toda a cordilheira, desde o Equador até o Chile. Praticavam intensa agricultura, com eficiente sistema de irrigação e outras técnicas surpreendentes para a época. Exploravam minas, produziam excelente artesanato, sabiam tecer, tinham noções de medicina e astronomia. Realizaram também notáveis trabalhos de engenharia e arquitetura: edificações gigantescas, pontes, além de muitas estradas... cerca de 20 mil quilômetros de estradas. Alcançaram nível de tecnologia semelhante ao dos astecas do México e dos maias da América Central.

-E qual era o sistema de governo?

-Eram governados por uma espécie de imperador, tido como “descendente do Sol”, e um conselho de nobres. A sociedade era dividida em classes, que podemos chamar de nobres, militares, plebeus e escravos.

-Escravos?!

-Tinham escravos, sim. Não eram tão “anjinhos” como se poderia imaginar. Iam abrindo estradas e submetendo as tribos menos fortes. Punham os vencidos a seu serviço nas minas e nas lavouras.

-Chegaram a escravizar guaranis?

-Os guaranis eram valentes e muito numerosos. Os incas não ousariam atacá-los. Há, porém, evidências de que os dois povos se comunicavam e mantinham relações comerciais e culturais. Pode ter sido graças a esse intercâmbio que os guaranis aprenderam a trabalhar com cerâmica e a construir estradas.

O CAMINHO DO PEABIRU

-Já li alguma coisa sobre um tal “Caminho do Peabiru”...

-Bem lembrado. Mas não era, na verdade, uma trilha única. Era uma rede de caminhos, ligando o interior ao litoral atlântico. O tronco principal, a partir das proximidades do salto das Sete Quedas, passava perto de Campo Mourão, continuava até onde está hoje Fênix, chegava a Castro e ali se bipartia: um ramo se dirigia ao litoral de Santa Catarina; outro, o mais movimentado, seguia rumo a São Paulo de Piratininga e descia a serra para alcançar São Vicente. Na direção oeste, do outro lado do rio Paraná, o caminho passava por Assunção do Paraguai e chegava às encostas dos Andes, fazendo conexão com a rede viária dos incas.

-Até o oceano Pacífico?

-Veja que proeza: uma “ponte” transcontinental ligando o Atlântico ao Pacífico!

-E por que se chamava “Peabiru”?

“Peabiru” significaria “Caminho da Montanha do Sol”, aludindo, certamente, às serras andinas, descritas como “resplandecentes” pela existência ali de muito ouro e prata. Outra versão diz que “Peabiru” vem de “Tapé Aviru”, significando “Caminho Fofo”. Os índios abriam a picada (com oito palmos de largura) e plantavam sobre o leito uma relva macia que assegurava a conservação, impedindo que naquele espaço crescessem árvores ou espinhais. Dessa forma, coberto de relva, o caminho ficava realmente fofo, atapetado. Imagine o trabalho deles: só de São Vicente até as barrancas do rio Paraná eram cerca de 200 léguas...

-Utilizando machados de pedra, devem ter levado anos nessa obra...

-Mas existe outro detalhe deveras interessante: os guaranis referiam-se àquelas trilhas chamando-as também “Caminho do Sumé”, ou “Zumé”. Segundo os jesuítas, era uma alusão ao apóstolo São Tomé, que teria andado por aqui.

-E aí então...

-Bem... não demorou muito e chegaram os europeus...

-E o paraíso perdeu a virgindade.

ESPANHÓIS E PORTUGUESES

-No final do século 15, com o aperfeiçoamento da bússola, espanhóis e portugueses lançaram-se ao mar à procura de novas terras. Em 1492, o genovês Cristóvão Colombo, a serviço do rei de Espanha, desembarcou na América Central. Dois anos depois, em 1494, Portugal e Espanha, vizinhos e rivais na península Ibérica, assinaram o Tratado de Tordesilhas, dividindo entre si as terras descobertas e por descobrir no Novo Mundo, como se fossem herdeiros diretos de Adão e Eva. Em 1500, Pedro Álvares Cabral ancorou na costa brasileira, ficando ali a bandeira lusitana.

-Onde ficavam exatamente as fronteiras?

-O Tratado de Tordesilhas baseou-se numa linha imaginária que passava onde está hoje Belém do Pará e descia numa reta até Laguna, no litoral catarinense. O que houvesse a oeste da linha demarcatória seria da Espanha; o que existisse a leste seria de Portugal.

-Mas assim o Brasil ficaria pequeno...

-E foi justamente por isso que portugueses e espanhóis brigaram tanto, por muitos e muitos anos, até chegar-se à definição das fronteiras atuais.

-O Paraná era da Espanha?...

-Correto. Aqui onde nós estamos era território espanhol, até as encostas da serra do Mar, aos cuidados de um governador sediado em Assunção do Paraguai, que por sua vez era subordinado ao vice-rei do Peru.

-Que confusão!

-Creio ser necessário dar-lhe um resumo da história da América do Sul, para que você entenda melhor o contexto.

-Estou anotando.

-Pois bem: no início do século 16, enquanto os portugueses começavam a colonizar o Brasil, os espanhóis desciam da América Central e expandiam seu domínio na banda ocidental da América do Sul. Em 1532, numa expedição chefiada por Francisco Pizarro, chegaram ao Peru. Os incas, na época, estavam envolvidos numa tremenda guerra civil e os espanhóis aproveitaram para esmagá-los.

-Destruíram toda aquela antiga civilização?

-Quase toda. Restaram apenas algumas ruínas, que hoje constituem a maior atração turística do Peru. Pizarro estabeleceu-se primeiramente em Cuzco. Em 1535, fundou a cidade de Lima, perto do mar, instalando ali o ponto de partida para outras expedições. Em 1542, foi criado o vice-reinado do Peru, com a capital em Lima e jurisdição desde o Equador até os confins do Chile e da Argentina. O Peru tornou-se logo uma das “meninas dos olhos” do rei de Espanha: pela existência de numerosa mão de obra indígena (com os incas passando de senhores a escravos) e, sobretudo, pela fartura de minerais preciosos, a exemplo das minas do Potosi (hoje em território boliviano).

-Se entendi bem, o Paraná fazia parte desse vasto vice-reinado...

-O Paraná sim, como extensão do Paraguai. Daqui a pouco voltaremos a conversar sobre isso.

-Prossiga.

-Os espanhóis continuaram avançando em duas direções: de norte para sul, a partir de Lima; de sul para norte, a partir do rio da Prata, que eles haviam descoberto em 1516. Em 1536 já haviam fundado o núcleo inicial de Buenos Aires. Ao mesmo tempo, no lado brasileiro, os portugueses firmavam suas raízes, agora sob o sistema de capitanias hereditárias. Em 1580, um fato novo: o soberano português Dom Sebastião morreu na célebre batalha de Alcácer-Quibir. Filipe II, rei de Espanha, herdou o trono de Portugal. Houve assim a união dos dois reinos, até 1640.

-Significa que, nesse período, o Brasil ficou sendo colônia espanhola...

-Exatamente. Portugal, porém, embora sujeito ao trono espanhol, continuou como estado mais ou menos autônomo, de tal forma que os portugueses e seus descendentes permaneceram donos do Brasil, em constantes escaramuças com os colonizadores castelhanos.

-Até quando eles brigaram?

-Até 1777. Nesse ano Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Santo Ildefonso, que retocou o Tratado de Madri de 1750, reconheceu finalmente a expansão da fronteira oeste da América Portuguesa e fixou novos limites. Mas ainda falta anotar alguns fatos importantes.

-Diga.

-Um ano antes do Tratado, em 1776, havia sido criado o vice-reinado do rio da Prata, com a capital em Buenos Aires e abrangendo a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e o território que mais tarde viria a ser a Bolívia. Com isso Buenos Aires assumiu a liderança política e econômica da região, enquanto o Chile, por sua vez, passou a ser uma capitania geral, subordinada ao vice-reinado do Peru.

-E aí, ao que me consta, começaram as lutas pela independência...

-Perfeito. Os ideais de liberdade que inspiraram a independência dos Estados Unidos em 1776 e deflagraram a Revolução Francesa em 1789 sacudiram a América do Sul a partir do início do século 19. Em 1810, os dominadores espanhóis já haviam sido expulsos da Argentina e do Uruguai. Iniciaram-se assim as lutas pela libertação de todo o hemisfério. Em 1811, o Paraguai conquistou a independência em campanha chefiada por José Gaspar Rodrigues Francia, o famoso Dr. Francia. Em 1817, o general argentino José de San Martin atravessou os Andes a cavalo, libertou o Chile em 1818 e proclamou a independência do Peru em 1820. Encontrou-se ali com o líder venezuelano Simón Bolívar, que em 1819 libertara a Venezuela e os territórios onde estão hoje a Colômbia e o Equador. Juntos, San Martin e Bolívar prosseguiram a luta até 1824, quando, vitoriosos na histórica batalha de Ayacucho, determinaram o fim do domínio espanhol na América do Sul. Dois anos antes, em 1822, Dom Pedro I havia proclamado a independência do Brasil, rompendo os laços com o trono português.

-E a Bolívia?

-A Bolívia é a antiga região do Alto Peru, que se separou do governo de Lima em 1825. O nome “Bolívia” é uma homenagem ao libertador Simón Bolívar.

-O senhor sabe das coisas!

-Leitura, seu moço. Leitura e boa memória.

A PROVÍNCIA DO GUAIRÁ

-Conversa vai, conversa vem, parece que perdemos o fio da meada. Falávamos do seu avô Catu...

-Voltemos então ao final do século 16. Estas terras, como lhe disse, pertenciam à Espanha, aos cuidados do governador de Assunção, compondo o imenso vice-reinado do Peru. Os colonizadores espanhóis, no ano de 1554, decidiram fundar povoações na margem leste do rio Paraná e após paciente trabalho diplomático firmaram um acordo de “convivência pacífica” com o grande cacique Guairá, a quem se deve o nome da região. Os castelhanos enviados pelo governador Martínez de Irala fundaram primeiramente um vilarejo provisório, Ontiveiros, pouco abaixo do salto das Sete Quedas. Em 1556, o povoado foi transferido por Ruy Dias Malgarejo para três léguas acima, ode o Piquiri deságua no rio Paraná, ganhando o nome solene de Ciudad Real del Guairá. Vinte anos depois, em 1576, o mesmo Ry Malgarejo fundava na confluência dos rios Corumbataí e Ivaí a povoação denominada Villa Rica del Espiritu Santo, o mais avançado estabelecimento espanhol em sua expansão rumo ao Atlântico. No ponto onde existiu Villa Rica está atualmente a cidade de Fênix, assim chamada justamente por haver ressurgido das cinzas, como a ave mitológica. Fênix é a nova Villa Rica.

-Restam vestígios daquelas cidades espanholas?

-Umas poucas ruínas. Adiante explico.

-Vamos lá...

-Os castelhanos tinham fartos motivos para se fixarem na região do Guairá. Um desses motivos era barrar o avanço dos portugueses, que vinham de São Paulo pelo “Caminho do Peabiru” e sonhavam alcançar as minas do Potosi, descobertas nos Andes em 1545. Os espanhóis pretendiam também, por sua vez, estender seu domínio até o litoral leste, visando a assegurar uma saída pelo Atlântico. Outra razão ainda era a oportunidade de explorar a agricultura, principalmente a erva-mate, naquelas terras tão férteis, usando a mão de obra indígena em regime de escravidão. Havia aqui cerca de 200 mil índios...

-Era esse o acordo de “convivência pacífica” firmado com cacique?...

-Os espanhóis traíram o acordo, no que se refere à escravização dos nativos. Os guaranis, valentes e rebeldes, resistiram tanto quanto possível. Poucos deles aceitaram a escravidão. A maioria continuou enfrentando os invasores, chegando em várias ocasiões a atacar as povoações espanholas. Foi por isso que o rei de Espanha, na época Filipe III, acolhendo sugestão do governador de Assunção, decidiu confiar aos missionários jesuítas a pacificação dos índios.

-Quando foi isso?

-No comecinho do século 17. Os jesuítas já trabalhavam no Paraguai desde o final do século 16. Em 1602, chegaram ao Guairá para os primeiros contatos. A esperança do rei era que os missionários convertessem e serenizassem os guaranis, facilitando assim a penetração espanhola. De sua parte, os padres traziam o projeto de nuclear os nativos em aldeias fixas, onde lhes pudessem dar assistência material e religiosa, orientá-los para um tipo mais sofisticado de sociedade e defendê-los contra os que pretendiam escravizá-los.
-Seriam as famosas “reduções”, de que o senhor falava?

-Exatamente. Já chegaremos lá. A Carta Régia de 1608 criou oficialmente a “Província do Guairá”, cujos limites eram, ao norte, o rio Paranapanema; ao sul, o rio Iguaçu; a oeste o rio Paraná e, a leste, a serra do Mar.

-O atual estado do Paraná, quase todo...

-Ficavam de fora apenas a faixa litorânea e as terras entre o rio Iguaçu e a divisa de Santa Catarina. Pois bem: dentro da Província do Guairá os colonizadores espanhóis permaneceriam nas suas povoações (Ciudad Real e Villa Rica), e os jesuítas, com os índios, nas reduções, uns e outros acumulando a incumbência de assegurar para a Espanha o domínio do território.
–––––––––––-
continua…

O download do livro completo pode ser feito no blog do Assis https://aadeassis.blogspot.com
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A. A. de Assis (1933)
ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

Fonte:
A. A. de Assis (A Província do Guairá: Um pouco da história do antes de Maringá). e-book. 2011. Enviado pelo autor.

Aparecido Raimundo de Souza (O fabuloso casamento de Antão e Anta)


NAQUELA ESPLENDOROSA tarde de sol forte, quando o mato cheirava a chuva que vinha chegando, todo mundo da redondeza já sabia de cor e salteado: Antão ia casar com Anta. Todavia, ninguém lembra direito quando é que começaram os dois pombinhos a andarem juntos. Uns e outros dizem, a língua solta que foi ali no caminho que desemboca numa plantação quilométrica de eucaliptos. 
Outros asseveram e juram que o romance nasceu de uma briga por um pedaço de terra, e há os mais sonhadores que afirmem com a melhor das convicções que foi só porque um dia ele olhou para ela e pensou com seus botões: “essa criatura divina tem o coração igual ao meu: áspero por fora, mas firme, bom e primoroso por dentro”.
Antão era um homem de poucas palavras, de pouca idade nos costados e tinha orgulho de mostrar as mãos calejadas, em face do trabalho que exercia, da oração que professava e da honestidade que acima de tudo estava sempre no mais alto da sua cabeça. O rapaz dizia pouco, mas fazia mais do que prometia e quando prometia, cumpria até o fim. Anta, ah, Anta era a mulher mais jovem e bonita do pedaço que carregava o mundo nos ombros e ainda sobrava força para sorrir. 
Tinha a língua rápida e ferina, jeito firme e despachado, mas por trás daquela postura forte e carismática, dócil e ao mesmo tempo espalhafatosa, havia um coração enormemente puro e acolhedor que no seu caminhar havia visto muito, passado por diversas trilhas e carreiras  difíceis, e nesse vai e vem, vem e vai, aprendido a ser dona de si mesma antes de ser de qualquer um. 
Muitos apontavam, cochichavam, traziam histórias antigas e rótulos que não cabiam mais nela. Antão por sua vez, nunca ligou para essas coisas e sempre que alguém vinha falar mal dela, ele virava um bicho, fechava a cara e se transformava numa fera perigosa. 
— Eu não me caso com o que os outros dizem dela — dizia ele calmamente. Me enlaço com quem ela por ser a mulher que me vê de verdade, que não finge nada, que não tem medo de ser inteira.  
Não deu outra. E nem podia. A cerimônia foi simples, realizada com toda pompa no terreiro mesmo, sob o céu largo que parecia cobrir tudo com uma presença incapaz de ser traduzida com palavras. Não teve luxo, nem riquezas, mas apenas algo muito mais raro e insubstituível: respeito. Ele fez a proposta que virou destino: pediu que ela fosse  sua namorada, amante, mulher, companheira.
Não para prendê-la, mas para caminharem lado a lado, ombro a ombro, de mãos dadas pela mesma estrada, e nessa via sem fim, edificarem uma casa, uma vida plena, terem uma família, e tudo o que o tempo fosse oferecendo.  Ela aceitou com aquela sabedoria de mulher inteligente, que só quem já lutou pela própria liberdade tem dentro de sí. 
Sabia que entrar num novo começo de vida, não significava deixar de ser quem era, mas sim escolher conscientemente ser junto com alguém que a conhecia e a amava exatamente assim: autêntica, única, sem máscaras, sem rótulos, sem mentiras, sem carimbo de aprovado, e o mais importante. A própria personalidade imutável sem manchas e rodeios.
Um ano depois, aos poucos, sem pressa, sem afobação, construíram um sobrado com as próprias mãos, assentaram tijolo por tijolo, sonharam e viveram a dois, sonho por sonho. Casa própria em pé, veio o jardim, depois o cachorro que latia alegre no portão quando ele ou ela saíam ou quando voltavam. 
Tempos depois pintou na área um papagaio que aprendia a repetir seus nomes e as risadas que enchiam cada canto. Um ano e pouco depois, nasceram os filhos, cresceram vendo um amor incomensurável, uma paixão que não se fazia passageira, pelo contrário, lembrava aos que os conheciam, um eterno e prestimoso conto de fadas. 
Um romance que nascera, crescera e se agigantara nas raízes de um amor de verdade, de um gostar eterno, feito de compreensão, de perdão, de mesuras e delicadezas, de ficar quando seria mais fácil ir, de entender que cada um tinha dentro de si as suas marcas e as suas histórias, e que por conta disso, nenhuma chama de tristeza ou vento de maus presságios fosse passando ou ficando, teria a faca afiada cortando esse elo inquebrantável. E mais ainda, adicionando o valor terno de quem se tornou por força de uma felicidade plena e resplandecente, numa fortaleza eterna. Os anos vieram, se achegaram, tentaram ficar, e o fizeram devagar. Aos poucos, esses anos trouxeram rugas e cabelos prateados, mas nunca teve o privilégio de roubar, ou afastar o brilho impagável nos olhos daquele casal ímpar e abençoado pelo Pai Maior. 
Antão continuou sendo o homem que cumpre, que não tem duas palavras e haja o que houver, corre atrás e realiza o que prometeu. Anta, de igual forma, continuou sendo a mulher que sabe o que vale. E quando vizinhos e pessoas amigas perguntavam como se mantiveram tão firmes por tanto tempo aquele amor de contos de fadas, ela respondia com aquele sorriso que misturava doçura e força, e tinha um nome secreto que ficava guardado a sete chaves num lugarzinho especial e bem escondido.
— A gente não começou perfeito, de forma alguma. Veio cada um com a sua bagagem, seus erros, acertos, prós e contras, altos e baixos, dias bons, dias ruins, de mãos dadas, sempre, suportando as nossas dores. Mas o meu Antão, que Deus me deu de presente, nunca pediu que eu fosse outra pessoa. Ele me amou desde a primeira vez em que nossos olhos se beijaram num ósculo divinal. 
Aquela princesa que ele procurava, era eu inteira, com defeitos, qualidades, e tudo mais que poderia vir, como veio, no pacote. E eu… por meu turno, aprendi que o melhor lugar do mundo não é nenhum endereço bonito, é estar ao lado de quem te vê e que te enxerga de verdade e que sem subterfúgios diz: “você é minha, mas antes de tudo, você é você”.
E Antão, calmo como sempre, só apertava a mão da metade amada, da sua maçã e se abrindo igual paraquedas corria para dizer e só dizer, mas se abria por todo o seu “eu” e completava:
— O resto o tempo vai cuidando. E, de fato, cuidou. O amor bom não cai do céu pronto: ele se constrói, um dia após o outro, igual a essa casa que levantamos juntos, que é a prova viva do que estou dizendo. E enquanto tivermos um ao outro, tudo o mais é só um pequeno grande detalhe. 
Hoje, tantos e tantos anos depois, quem passa, seja indo ou vindo, ainda os vê e percebe, sentados na varanda, mãozinhas dadas, aquele casalzinho de cabelos brancos, ambos olhando demoradamente o mesmo céu que os viu começar. O tempo passou, mas o que importa ficou: Antão e Anta provaram que o casamento não é mudar um ao outro, acima de tudo é reconhecer que mesmo sendo diferentes, com histórias distintas e marcas próprias, foram feitos para caminhar juntos, lado a lado. 
Em contrapartida, nos ensinou, que o amor verdadeiro não pede que alguém deixe de ser quem é. Ele agradece, ele respeita, ele permanece, ela sorri e se entrega em mesuras. E assim, simples e fortes, vivem os longevos alimentado a cada minuto a prova robusta e cabal de que quando dois corações escolhem um ao outro sem medo, sem julgamento e sem mentiras, não há força terrena neste mundo ou em um outro que por ventura possa existir, que tenha condições e forças para separar.
O casal Antão e Anta, trouxe ao mundo apenas um casal de filhos: Antãozinho e Antinha. Antãozinho casou e teve duas meninas: Antazinha e Anteia. Antinha, hoje aos dezoito anos, não quis casar, se amigou e mora junto com o Antião, um excelente professor de matemática. Vivem numa confortável casa construída nos fundos da antiga residência que pertenceu e seus falecidos avós. 
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

(Texto enviado pelo autor.)

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Versos Esparsos * 13 *

 

Renato Alves (Plantando Trovas)


1
A água pura não tem cor,
nem branca, nem amarela;
não tem cheiro, nem sabor...
Mas ninguém vive sem ela!
2
Agradeço a quem quiser-me
como eu sou, como um irmão...
Não é na cor da epiderme
que se vê meu coração!
3
Ao receber tuas cartas
uma frustração me invade:
tu me dás notícias fartas,
mas me matas de saudade!
4
Ao repensar minha história,
encontrei com emoção
por trás de cada vitória
um mestre no coração!
5
Ao te encontrar, velha agenda,
lá no fundo da gaveta,
meu passado se desvenda...
És a minha “caixa-preta”!
6
Beleza de mais efeito
que este colar de rainha
tu não tens sobre o teu peito,
dentro dele é que se aninha...
7
Com esplendor natural
e fulgor exuberante,
de uma gota no varal
o sol faz um diamante.
8
“Conhecer não é saber”
- ensina a douta ciência...
”Pôr alma no que aprender” ,
isto, sim, é sapiência!
9
Coração, relógio louco
que registra o meu desejo,
bate muito ou bate pouco,
na medida em que te vejo!
10
De meu pai herdei o nome,
de minha mãe, a ternura;
da pobreza herdei a fome,
a minha herança mais dura!
11
Eis meu desejo ideal,
minha utopia e quimera:
– Ver teus braços, afinal,
abrirem-se à minha espera!
12
Escute a voz da razão:
– Nunca esmoreça, persista!...
É com determinação
que o sonho vira conquista.
13
Mais rápido do que a luz,
através do imaginar,
pensamento nos conduz
a todo e qualquer lugar,
14
Mesmo em meio à dura lida,
fazer versos nos renova:
– Cabe todo o bem da vida
nas quatro linhas da trova!
15
Mil livros já devorei,
mas neles não achei graça,
até hoje eu nada sei...
– Muito prazer, sou a traça!
16
Minha vida era rotina
tão amarga quanto fel,
mas transformou-se, menina,
com sua chegada, em mel!
17
Não diga que é velho alguém
pela idade transcorrida...
Só é velho quem não tem
mais sonhos em sua vida!
18
Ninguém há que saiba tudo,
nem tudo pode saber...
Muito se aprende e, contudo,
há sempre o que se aprender!
19
No campo foi algodão,
tornou-se fio e tecido,
ganhou cor e confecção...
Está pronto o seu vestido!
20
Nunca condenes o irmão
sem de provas ter ciência;
dá-lhe, sem contestação,
a presunção da inocência.
21
O gajo, sendo um velhaco,
engajou-se bem no ofício:
– um cargo de puxa-saco
pra puxar palma em comício!
22
O mar geme nos rochedos
prantos tão desconsolados,
pois guarda muitos segredos
e sonhos dos afogados...
23
O mestre faz da alma um templo
para ouvir nossa oração,
e, assim, mostra que é o exemplo
que ensina qualquer lição!
24
O muro é separação,
produto de preconceito;
se você quer união,
construa pontes no peito!
25
O trabalho é punição,
uma herança do passado...
Deus quis castigar Adão,
e sobrou pro nosso lado!..
26
“O vinho seco faz bem!”
- recomendou sua avó...
E ele foi ao armazém,
e lá pediu: “Vinho em pó!”
27
Pandorga... cafifa... pipas...
tens nomes em abundância,
mas com todos participas
dos sonhos da nossa infância!
28
Planto o grão com uma meta:
- Gerar vida em profusão...
E este ciclo se completa
quando o trigo vira pão.
29
Pode ser pobre ou poeta,
sem perder a autoestima;
mas há de ter como meta
não ter pobreza na rima.
30
Quando a feia se “embeleza” ,
mas o resultado é trágico,
diz o espelho, que se preza:
– Ela pensa quer eu sou mágico!...
31
Quando a humana insensatez
dissemina a poluição,
para ter sol outra vez,
só com imaginação...
32
Quando do meu lar amado
transpus o velho portão,
pedaços do meu passado
espalharam-se no chão!
33
Quando estou no teu regaço,
tu me dás consolo e mel...
Como há sonho em teu espaço,
livro, amigo de papel!
34
Quando o amor é inconsequente,
nas mais tórridas paixões,
pode fundir-se a corrente
que liga os dois corações!
35
Quem de si não cede nada,
no céu não terá lugar.
Coisa mais abençoada
do que receber... é dar!
36
Quem não tem medo da morte,
quem nunca faz nada em vão,
quem, antes de tudo é um forte...
Este é o homem do sertão!
37
Que nome você daria
ao que sente a mãe que chora
ao pé da cama vazia
de um filho que foi embora?...
38
Razão e Emoção, na gente,
são irmãs, mas não se dão:
a primeira habita a mente,
a segunda, o coração!
39
Se és de fato um vencedor
deves sempre ter em vista,
não o prêmio e seu valor,
mas o prazer da conquista!
40
Se és duro de coração,
não perdes por esperar:
do céu só terá perdão
quem é capaz de perdoar.
41
Ser poeta é transformar
a palavra em brasa ardente
para com ela queimar
a emoção que está na gente!
42
Se tens pela vida apreço,
não entres na droga braba!
Tu decides o começo,
mas não sabes como acaba.
43
Sigo, no delírio infindo
da saudade que me arrasa,
uma só música ouvindo:
os teus passos pela casa!
44
Sob chuva ou sol que abrasa,
como nos tempos antigos,
o portão da minha casa
não se fecha aos meus amigos!
45
Tal qual pérola valiosa
que na ostra tem morada,
minha alma tão pretensiosa
mora no peito da amada.
46
Te enfeiticei, fui omisso,
quis um “caso” passageiro;
mas o Amor fez o feitiço
virar contra o feiticeiro!
47
Ter fé, amor, otimismo
e uma inabalável crença
nos faz saltar sobre o abismo
de qualquer indiferença!
48
Terrível palavra é o “não”
que corta, poda, cerceia...
Feliz quem, no coração,
traz o “sim” que a paz semeia!
49
Trovador que espalha o sonho
que lhe mora n’alma inquieta
confessa ao mundo, risonho,
a bênção que é ser poeta!
50
Tua pele o vento alisa,
sensual, com seu frescor.
Como eu invejo esta brisa
que te alisa, meu amor!...
51
Tu me prendes, me agrilhoas,
me escravizas sem sentir,
mas destas algemas boas
eu não pretendo fugir..
52
“Vitamina está na casca!”
- De um comilão eu ouvi...
E quase que ele se enrasca
ao comer abacaxi!
53
Voltei a ter confiança
neste mundo tão ruim
ao descobrir a criança
que ainda habitava em mim!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Renato Alves (1939)
    O professor e trovador RENATO ALVES é uma das figuras mais respeitadas e influentes do movimento trovadoresco contemporâneo no Brasil, reconhecido por sua erudição técnica e sensibilidade lírica. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 1939. Filho de Alberto Alves e da portuguesa Maria Thereza Alves. Desenvolveu toda a sua vida e trajetória intelectual radicado na própria capital fluminense. Renato Alves graduou-se como Licenciado em Letras pela Universidade do Brasil (a atual UFRJ). Dedicou grande parte de sua vida ao magistério, atuando como professor de Língua Portuguesa e Literatura nas redes pública e privada de ensino do Rio de Janeiro. Ele permaneceu ativo nas salas de aula até sua aposentadoria, ocorrida em 2005.
Sua inserção no meio literário confunde-se com a história da própria Trova no Brasil. Destacou-se como um profundo estudioso da redondilha maior (versos de sete sílabas poéticas) e das estruturas de rima e ritmo da trova tradicional. Teve papel de liderança na diretoria da UBT - Seção Rio de Janeiro. Tornou-se também o editor do Informativo desta seção. Possui forte colaboração com certames e academias literárias fluminenses e nacionais (como a Academia Fluminense de Letras e a Academia Brasileira da Trova). É detentor de inúmeras premiações de relevância, incluindo medalhas de Ouro nos concursos de trovas da Academia de Letras e Artes de Paranapuã (ALAP), classificações de destaque nos Jogos Florais e primeiros lugares em disputas como o Concurso de Poesia da Bauernfest.
Sua produção poética está espalhada em dezenas de antologias oficiais da trova, almanaques trovadorescos e publicações coletivas. É muito reconhecido por sua faceta didática, sendo o autor de colunas críticas importantes como a "Comentando Trovas" e o "Manual de Orientação para Julgadores”. 
A relevância de Renato Alves para a literatura brasileira reside em sua atuação como guardião e pedagogo da Trova. Ele não se limitou a escrever poemas; ele dedicou-se a ensinar os critérios técnicos para que uma trova atinja o chamado "achado poético" (a imagem original condensada em 28 sílabas). Como uma das principais "cabeças pensantes" do movimento trovadoresco fluminense, ele moldou as diretrizes modernas de julgamento de concursos literários, ajudando a manter viva uma das manifestações mais tradicionais e populares da poesia em língua portuguesa.

Carlos Drummond de Andrade (Caso de Canário)


Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:

- Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.

- Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?

- Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom; vá.

O sogro, a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:

- Vai, meu bem.

Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.

- Primeiro me tragam um vidro de éter, e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.

Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos, no pescoço.

E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.

Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse, ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.

No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.

- Ui!

Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?

- Ele estava precisando mesmo era de éter - concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE foi um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa, considerado por críticos e intelectuais o mais influente poeta brasileiro do século XX. Principal nome da segunda geração do Modernismo brasileiro (a Geração de 30), sua obra traduz com ironia, ceticismo e profunda sensibilidade a angústia do homem moderno diante do mundo. Nasceu na cidade de Itabira/MG, em 1902. Faleceu no Rio de Janeiro em 1987, aos 84 anos. Ele partiu apenas 12 dias após a morte de sua única filha, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade, vítima de uma insuficiência respiratória agravada pelo profundo luto. Passou a infância em Itabira, estudou como interno em Belo Horizonte/MG e Nova Friburgo/RJ. Fixou residência prolongada em Belo Horizonte na juventude. Em 1934, mudou-se em definitivo para a cidade do Rio de Janeiro, onde morou no icônico bairro de Copacabana pelo resto da vida. Embora tenha se graduado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte em 1925, Drummond nunca exerceu a profissão. Sua vida profissional dividiu-se em duas grandes frentes: Funcionalismo Público: Ingressou no serviço público em Minas Gerais e, ao mudar-se para o Rio, tornou-se Chefe de Gabinete de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação e Saúde (1934–1945). Mais tarde, trabalhou como oficial no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) ao lado de Rodrigo Melo Franco, aposentando-se em 1962; e Jornalismo: Atuou como redator e colunista em periódicos como o Diário de Minas, Correio da Manhã e Jornal do Brasil, construindo uma sólida carreira paralela como cronista diário.
Sua estreia no Modernismo ocorreu na década de 1920, ajudando a fundar A Revista em Belo Horizonte, veículo de afirmação do movimento em solo mineiro. Em 1928, chocou a crítica nacional ao publicar o poema "No meio do caminho" na Revista de Antropofagia de São Paulo, gerando um debate histórico sobre a estética poética. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar do prestígio monumental e dos apelos para que se candidatasse, ele recusou polidamente concorrer a uma cadeira na instituição, preferindo manter sua posição de escritor e funcionário público independente. Ao longo de sua madura trajetória, foi condecorado com as honrarias mais importantes do país: Prêmio de Conjunto de Obra (1946): Concedido pela Sociedade Felipe de Oliveira; Prêmio Jabuti (1968): Na categoria Poesia; Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA (1973); Prêmio Morgado de Mateus (1980): Entregue em Portugal, reconhecendo sua imensa relevância internacional para a Língua Portuguesa.
Drummond teve uma produção torrencial e diversificada (entre poesia, crônica, contos e traduções). Suas obras fundamentais são: Alguma Poesia (1930): Estreia poética que contém clássicos como "Poema de Sete Faces" e "No meio do caminho"; Sentimento do Mundo (1940): Obra de tom político e social que reflete as angústias da Segunda Guerra Mundial; José (1942): Contém o antológico poema "José" ("E agora, José? A festa acabou..."); A Rosa do Povo (1945): Seu livro poético de maior fôlego, marcado pelo lirismo social e engajamento antibelicista; Claro Enigma (1951): Fase madura de retorno à tradição clássica, com reflexões filosóficas, metafísicas e pessimistas; Contos de Aprendiz (1951): Sua célebre estreia no universo dos contos ficcionais.
A importância de Carlos Drummond de Andrade reside no fato de ele ter consolidado e amadurecido o Modernismo no Brasil. Se a primeira geração de 1922 precisou ser destrutiva e polêmica, Drummond provou que a nova estética era perfeitamente capaz de atingir a mais alta profundidade filosófica e formal. Revolucionou a poesia ao introduzir o "gauche" — o indivíduo deslocado, desajeitado e introspectivo —, despindo o fazer poético de qualquer falsa solenidade. Drummond transformou o cotidiano banal, a província, a família, o tédio burocrático e o amor em reflexões universais sobre a própria existência humana. Traduzido no mundo inteiro, sua linguagem ágil e irônica moldou a identidade da poesia brasileira contemporânea e influenciou virtualmente todas as gerações de escritores que vieram depois dele.

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. Caminhos de João Brandão. Publicado originalmente em 1970.

Versos Esparsos * 14 *