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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Alvitres do Professor Renato Alves* n. 116

“A poesia está guardada nas palavras” – dizia o grande poeta da simplicidade, Manoel de Barros*. Da mesma forma, penso que uma árvore que dá origem a um instrumento musical, também já deve guardarem si seu nobre destino.

Conheci, no Rio de Janeiro, um “luthier”* que fabricava alaúdes e outros instrumentos para música antiga. Costumava embrenhar-se em matas densas, no Sul do país, para escolher pessoalmente as árvores que poderiam servir de matéria prima para o seu mister*. Igualmente, nos arcos de violino, ele utilizava crina de cavalo importada de regiões frias, como o Canadá, para a maior qualidade do som.

Muitas vezes, a trova, um poema minúsculo em seu formato, pode conter alguns tesouros ligados a vários aspectos do conhecimento humano que muitos enriquecem os achados poéticos. Vejamos:

Toma a árvore… Eis o impasse!
(Quão singular seu destino):
seu corpo, ao morrer, renasce
no corpo de um violino.
(Marília Oliveira, Porto Alegre/RS)

Arco de crina, o destino
nunca me fez a vontade,
tira do meu violino
uma canção de saudade!
(Max Reis, Belém/PA)
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* Notas do Blog:
Manoel de Barros = Manoel Wenceslau Leite de Barros foi um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao pós-Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas europeias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Nasceu em Cuiabá/MT, 1916 e faleceu em Campo Grande/MS, 2014.

"Luthier" = é um artesão especializado na fabricação, restauração e reparo de instrumentos musicais de corda (como violões, violinos, violoncelos, guitarras) e, por vezes, outros instrumentos (como de sopro ou percussão). A palavra vem do francês "luth", que significa alaúde, e o trabalho exige habilidade técnica, artística e conhecimento em marcenaria e acústica.

Mister = Trabalho, ocupação profissional ou ofício.

Renato Alves = é do Rio de Janeiro/RJ. Professor, trovador e poeta. Licenciado em Letras pela UFRJ, dedicou-se ao magistério nas redes pública e privada  até 2005, quando se aposentou.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Baú de Trovas 45



Ah, poeta, como é lindo
teu trabalho, e quão fecundo...
– Noite e dia produzindo
sonhos novos para o mundo!
A. A. de Assis
Maringá/PR
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Almoço e janto poesia.
E neste meu universo,
mastigo um pão todo dia
amanteigado de verso.
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN
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Que bom. chegando aos setenta,
saber, revendo os meus passos.
que é o bom DEUS que me sustenta
e me carrega em SEUS braços...
Almir Pinto de Azevedo
Cambuci/RJ
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Rompem-se os elos na terra,
(conteste quem for capaz).
No lugar de luta e guerra
nascerão lírios da paz!
Augusto Gasparini Filho
Salto/SP
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Amor de mulher no todo
é um anjo posto de rastros;
desce mais baixo que o lodo
ou sobe acima dos astros.
Colombina
São Paulo/SP, 1882 – 1963
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Numa página, a saudade;
no verso - não tem escolha -
quase sempre a mocidade
faz parte da mesma folha!...
Domitilla Borges Beltrame
Araxá/MG, 1932 – 2025, São Paulo/SP
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Minha sogra não reclama
do bom trato que lhe dou;
até de filho me chama,
só não diz que filho eu sou.
Élton Carvalho
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1994
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O poeta é a eterna criança
correndo atrás da ilusão,
que lhe foge, e ele não cansa
de tanto correr em vão!
Emiliano Perneta
Curitiba/PR, 1866 – 1921
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Morreu depois de uma sova,
e, como não tinha campa,
de uma orelha fez a cova
e da outra fez a tampa.
Emílio de Meneses
Curitiba/PR, 1816– 1918
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"Casamento... - alguém já disse -
é chegar à encruzilhada
onde acaba a criancice
e começa...a criançada..."
Izo Goldman
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP
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Sou da ética inimigo,
imoral na sociedade
se na mentira me abrigo
e silencio a verdade.
Jessé Nascimento
Angra dos Reis/RJ
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Surpreendente maravilha
a que agora me acontece:
Minha mãe é minha filha
na medida em que envelhece!
Jesy Barbosa
Campos/RJ, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ
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Fonte de sabedoria
que o mundo inteiro conhece,
a trova é a luz da poesia...
É a mais linda e doce prece!
Joamir Medeiros
Natal/RN
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Na insistência do carinho
de um amor que é quase incerto,
vou traçando o meu caminho
nas areias de um deserto!
Joana D'Arc da Veiga
Nova Friburgo/RJ
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No fim do túnel a luz
simboliza uma esperança;
quem a seu brilho conduz
a vitória sempre alcança.
João Batista Xavier Oliveira
Presidente Alves/SP, 1947 – 2025, Bauru/SP
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Ante o vazio que a invade,
eu penso, em meus devaneios,
que a praça sente saudade
também dos nossos passeios...
João Costa
Saquarema/RJ
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Toda noite ela regressa
em meus sonhos erradios…
Não há distância que a impeça
de estar… em meus desvarios...
João Freire Filho
Rio de Janeiro/RJ, 1941 – 2012
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Minha ventura retrata
pobre brinquedo distante;
- carrinho de velha lata,
puxado por um barbante!
Josué de Vargas Ferreira
Leopoldina/MG, 1925 - 2017, Ribeirão Preto/SP
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Cessa a luta na colina...
E Deus, ante o horror da guerra,
põe o algodão da neblina
sobre as feridas da terra.
Joubert de Araújo Silva
Cachoeiro de Itapemirim/ES, 1915 - 1993, Rio de Janeiro/RJ
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Morre o amor... E, em árduas cenas,
toda a herança que eu carrego
é a dor de ter sido apenas
um descuido do meu ego!
Manoel Cavalcante
Pau dos Ferros/RN
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Que a lei com todo o seu porte,
seja um escudo do bem...
E que a justiça do forte,
seja a do fraco também!
Mara Melinni
Caicó/RN
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Não vamos alongar prosa,
porque todo mundo vê:
a careca mais gostosa
é a careca do bebê.
Márcia Jaber
Juiz de Fora/MG
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Não te abras com teu amigo,
que ele um outro amigo tem,
e o amigo do teu amigo
possui amigos também...
Mário Quintana
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS
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Nos momentos de emoção,
quebro as regras que me imponho
e deixo que o coração
viaje ao mundo do sonho.
Marisa Vieira Olivaes
Porto Alegre/RS
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Mesmo que um poeta morra,
ele deixa a sua herança:
um verso seu que socorra
quem já perdeu a esperança!
Plácido Ferreira do Amaral Jr.
Caicó/RN
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Pelas manhãs vou buscando
minha esperança perdida...
Há sempre um sonho vagando
nas alvoradas da vida!
Professor Garcia
Caicó/RN
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Acendo estrelas do nada
com meu condão de magia,
derramo luzes na estrada
com o farol da poesia.
Raul Poli
Coronel Pilar/RS, 1946 – 2004, Caxias do Sul/RS
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A tristeza em minha casa
está num quarto vazio:
de dia. a saudade abrasa,
à noite, mata de frio...
Roberto Pinheiro Acruche
Sâo Francisco de itabapoana/RJ
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Mesmo quando se fracassa
e a vida é um mar de incerteza,
a esperança, embora escassa,
é sempre uma vela acesa!
Roberto Resende Vilela
Pouso Alegre/MG
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Tabagista de pijama,
distraído e matusquela...
Jogou "pituca" na cama
e se atirou da janela!
Roberto Tchepelentyky
São Paulo/SP
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Nosso encontro... o beijo a medo…
a carícia fugidia…
- Nosso amor era segredo,
mas, todo mundo sabia!…
Rodolpho Abbud
Nova Friburgo/RJ, 1926 – 2013
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Fim do meu rumo... Eu grisalho...
Dos netos, entre os carinhos,
pareço um velho espantalho
cercado de passarinhos!
Romeu Gonçalves da Silva
Juiz de Fora/MG, 1914 – 1984, Rio de Janeiro/RJ
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A atitude petulante
que eu lia na sua face
foi de fato relevante...
Destruiu nosso enlace!
Sá de Carvalho
Angra dos Reis/RJ
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Detalhes, quantos e quantos,
vão nossas vidas marcando.
Mas nenhum, em meio a tantos,
dói mais que um lenço acenando...
Sandro Pereira Rebel
Niterói/RJ
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Meu palhacinho de pano,
quantas vezes te surrei!
Hoje a vida e o desengano
dão-me as surras que eu te dei!
Sarah Mariany Kanter
São Paulo/SP
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Quando uma vida se passa
sem virtudes... sem pecados...
é como festa sem graça,
vazia de convidados!
Sebas Sundfeld
Pirassununga/SP, 1924 – 2015, Tambaú/SP
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De filigranas bordadas,
brilham no céu as estrelas
como joias lapidadas,
que o luar vem acendê-las.
Sônia Maria Sobreira da Silva
Rio de Janeiro/RJ
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Foi para o campo o migrante,
sonhador, plantou, colheu...
E agora é parte integrante
daquele chão que o acolheu,
Sônia Regina Rocha Rodrigues
Santos/SP
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Não sei se tenho alegria
ou se tenho um desprazer,
mas minha alma se arrepia,
à noite, ao escurecer.
Talita Batista
Campos dos Goytacazes/RJ
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Rica e doce língua minha
feita de arrulhos e brados,
és mãe, fadista e rainha
cuja voz canta meus fados!
Telma Tavares
São Simão/SP
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É noite... a cama arrumada...
o rádio de pilha mudo...
Sua foto... e, nesse "nada",
a sua presença... em tudo!
Therezinha Dieguez Brisolla
São Paulo/SP
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São três os símbolos santos
de um drama sem paralelo,
molhados de sangue e prantos:
a Cruz, o Cravo e o Martelo...
Vera Vargas
Curitiba/PR, 1922 - 2000
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Euforia, minha gente,
faz inveja ao coração,
pois sempre que alguém a sente,
vem logo a desilusão.
Verlaine Terres
Gravataí/RS

sábado, 6 de dezembro de 2025

Alvitres do Professor Renato Alves n. 115


“Ai, deixa-me chorar para suavizar o que eu não sei dizer, mas sei sentir…”
cantava Orlando Silva, o cantor das multidões, nos idos de 1935. E na mesma canção: “É mais sublime a lágrima que exprime as nossas emoções do que sorrir…”; “Chorar é mágoa em pérolas diluir…”

O tema “Lágrimas” era dos mais recorrentes nas letras da música popular de cunho romântico da época, quando eram criadas belíssimas imagens, definições poéticas e metáforas.

Nas trovas, o florescente movimento das décadas de 60 também espelhava essa predileção pelo lirismo emocional do tema e os trovadores se esmeravam em criativas composições, legando-nos verdadeiras pérolas de sua criatividade.

No momento em que partiste,
pranteei minha viuvez…
Foi o trajeto mais triste 
que uma lágrima já fez!
Maria Nascimento S. Carvalho

A lágrima, na verdade,
por seu poder infinito
traduz com fidelidade
o que não pode ser dito…
Reinaldo Aguiar

Muita lágrima sentida,
em silêncio sei que enxugas…
– São reticências da vida
pelo caminho das rugas!
Helvécio Barros

O mar, que geme e palpita,
no seu tormento profundo
é uma lágrima infinita
que Deus chorou sobre o mundo!
Lilinha Fernandes

Mais trovas sobre LÁGRIMA/S:

Por que, lágrima divina,
tu que trêmula te expandes,
sendo assim tão pequenina,
 consolas dores tão grandes?
Geraldo Pimenta de Moraes

A lágrima comovida,
que vem de dentro de nós,
é uma palavra sofrida
que chega aos olhos sem voz.
Hegel Pontes

Velhas roupas coloridas,
penduradas nos varais,
choram lágrimas doridas,
nos casebres muito iguais.
José Rodrigues Louzã

Sofredor sempre se esquiva
de mostrar a dor, por fora:
quando a lágrima é furtiva,
maior é a dor de quem chora!
Lavínio Gomes De Almeida

Da vela branca que ardera
como tranquilo fanal,
umas lágrimas de cera
caíram do castiçal!
Machado De Assis

A lágrima, na verdade,
por seu poder infinito,
traduz com fidelidade
o que não pode ser dito...
Reinaldo Aguiar

Fontes:
Texto e Trovas enviadas pelo professor Renato Alves (Rio de Janeiro/RJ).
Trovas adicionais enviadas por Maria Thereza Cavalheiro (São Paulo/SP, 1929 – 2018) para a Revista Florilégio de Trovas, em 2017.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Edy Soares (Vila Velha/ES)

 Ah, mas que espirro maldito,
que me deixou avexado.
Além de forçar um grito,
ainda veio acompanhado!

A memória enfraquecida,
a fronte calva, a bengala,
mostra no ciclo da vida
o velho que o neto embala.  

A morte, visita chata,
desprezível,  deprimente
vem sorrateira,  arrebata,
levando a vida da gente.

A mulher, pura beleza...
foi feita a partir de um osso,
mas a sogra, com certeza...
da carne de algum pescoço.

Ao deparar com a cena
de uma boa escorregada,
confesso que tenho pena,
mas não seguro a risada.

A trapaça é artifício
do covarde sem pudor,
que sem nenhum sacrifício
quer se fazer vencedor.

Cabisbaixo pelos cantos
me pego pensando em ti.
Pai, o maior dos meus prantos,
é saber que te perdi.

Cada mulher preparando
em seu ventre uma criança,
é o mundo se renovando,
é Deus nos dando esperança.

Com o planeta por um fio,
tanta gente a desmatar.
Queira Deus que algum plantio,
seja feito no lugar.

Da semente, a nova planta;
 da planta, a semente e o pão.
Do pão, a vida que encanta,
 que planta e cultiva o chão. 

Deixemos de lado o orgulho,
pois nobre é o dom do perdão;
rancor guardado é entulho,
que adoece o coração.

- Era profunda a raiz!
Disse o dentista ao cliente,
ao perceber que o nariz
saiu agarrado ao dente.

Esse meu corpo curvado,
feito quem reverencia,
já dá sinais de cansado
e agradece mais um dia!

Este amor que me oferece,
sinto – já não me convence.
Meu coração não merece,
pois a outro já pertence.

É uma agressão desumana,
uma falta de respeito...
Num país com tanta grana,
hospitais faltando leito.

Eu... você... as confidências...
Que pena que o tempo passa!
Hoje vivo de aparências
e a vida já não tem graça...

Há que se enxergar o amor
em cada olhar, cada canto.
E perceber que onde for,
todo olhar tem seu encanto.

Meu Noel é de dar dó...
Nesta crise, veio a pé,
sem renas e sem trenó...
E entalou na chaminé!

Necessita ser “curado”,
todo aquele que imagina,
que quando estiver errado,
compra o certo com propina.

Nunca vi trova sem rima,
macaco enjeitar banana;
nunca vi chover pra cima.
nem político sem grana.

O chato que mais me irrita
e que mais me funde a cuca...
é aquela pessoa aflita,
que enquanto fala, cutuca.

Os olhos as vezes falam
mais que palavras em vão;
silentes as bocas calam
enquanto amando se dão.

Por egoísmo e ganância
a Terra está dividida.
Tanto poder e arrogância,
ante a pobreza sofrida.

Por se valer da trapaça,
ás vezes quem trapaceia,
por mais esforço que faça,
se enreda na própria teia.

Qualquer tipo de trapaça,
será sempre repugnante.
Mesmo que vencedor, faça...
Não fará mais que um farsante!

Quando saio em devaneios,
navegando em pensamentos,
cruzo bravos mares cheios,
velejo em grandes tormentos.

Quer, ricos ou indigentes,
todos são filhos de Deus;
sejam mansos ou valentes,
sejam nobres ou plebeus. 

Refletia a luz da lua,
o orvalho da noite fria;
sobre o menino de rua,
que na calçada dormia.  

Sem o amor do jardineiro,
o que seria da flor?...
Rosas não teriam cheiro,
jardins não teriam cor!...

Sempre achei que o céu é aqui,
à sombra dessa palmeira...
escutando o bem-te-vi,
no meu banco de madeira. 

Se não posso  amar a Bela
ou tê-la aqui junto a mim,
ainda sim, sonho com ela
entre as flores, no jardim.

Sete vidas eu tivesse
ou talvez, setenta mil,
quantas vidas Deus me desse...
Que elas fossem no Brasil...

Supera tristeza e dor,
quem na vida por batalhas,
aprende ser vencedor,
sem contentar com migalhas.

Terra molhada no cio,
pronta, esperando a semente
das mãos que fazem plantio...
Tal qual amada nubente.

Trago essa grande saudade,
longe, no peito que dói,
por amor a essa cidade...
Por amar-te Niterói.  

- “Três dias de penitencia”,
pede o padre ao confessado.
- "Pode dobrar a exigência,
vou repetir o pecado!"

Velhas fotos no monóculo,
na gaveta de uma estante...
É como ver de binóculo,
um tempo já bem distante.

Vi sumir ao longe o trem.
Levou, chorando, Maria.
Na estação fiquei também
chorando porque a perdia.

Fonte:
Revista Florilégio de Trovas n. 30 - 29 de abril de 2019.

Nemésio Prata (Fortaleza/CE)

 1
A droga foi seu arpéu,
sem destino, destroçado,
vagueia na rua, ao léu,
até quando for "levado"!
2
Antes do quebrar da barra,
ao canto do caboré,
sussurrando, ela me agarra,
dizendo: hora do café!
3
Ao relento, relegado,
negado pelo destino;
hoje vive escravizado,
coitado; que desatino!
4
Ao ver a imagem singela
do barco, tranquilo, ao mar,
lembrei-me: não há procela
que Deus não possa acalmar!
5
Chorando, segue o andarilho
solitário, a sua dor;
de deixar pra trás um filho,
fruto de um fugaz amor!
6
Com talento e sutileza
no salão, "a media luz",
o casal mostra a leveza
do belo tango andaluz!
7
Coração, enquanto bate,
é vida, amor e paixão;
mas depois que ele se abate,
é vela, choro e caixão!
8
Correndo, desesperado,
de mala e chapéu na mão,
o passageiro, coitado,
perdeu o trem... e a razão!
9
Deixe a Natureza em paz,
rapaz, tenha mais juízo; 
pois isso que você faz
demonstra falta de siso!
10
Descendo esta escadaria
Onde ela vai me levar?
Se eu soubesse eu desceria;
Como não sei, vou ficar!
11
Despertando, reparei
a "louça" já preparada
em nossa cama, e tomei
o "Café" da madrugada!
12
De toda trova legenda
que já fiz na minha vida
esta veio de encomenda,
pois não dei nem a partida!
13
De tudo que eu aprendi
pra chegar a ser “doutor”,
se, bem, eu o compreendi:
devo muito ao Professor!
14
Deus me livre, por um dia
me faltar um Livro a mão;
de tristeza eu morreria,
em pungente solidão!
15
Deus, o Poeta dos Poetas,
é TROVADOR; e em poesias
manda-nos netos e netas
para encher-nos de alegrias!
16
Dizem, com propriedade,
que a saudade é inexplicável;
explica-se: na verdade,
o senti-la é indecifrável!
17
Dois minutos, Cinderela;
está chegando o momento!
Não vá cair na esparrela
de esquecer o encantamento!
18
É noite, e a brisa do sono
sopra, mansa e sorrateira;
em seus braços me abandono,
enroscado, a noite inteira!
19
Entre lágrimas e risos,
respostas às emoções,
liberamos sentimentos
represos nos corações!
20
Férias! Ah, sim, bem eu sei,
que és bem merecedora;
mas, cá, não esquecerei
de ti, grande trovadora!
21
Homem, mau, vil e perverso;
toda vez que tu desmatas,
mesmo em nome do progresso,
é a ti mesmo que tu matas!
22
Já não suportamos mais
ver os nossos pequeninos,
nas mãos destes marginais:
traficantes-assassinos!
23
Lancei minha rede ao mar
e pesquei bela sereia
que comigo foi deitar
noutra rede, em plena areia!
24
Maranguape a tua glória
são teus filhos de valor;
foi Capistrano, na História,
e Chico Anísio, no Humor!
25
Na mata o machado bate
forte pra tirar "madeira";
e assim o "homem" abate,
uma a uma, a mata inteira!
26
Na mão o toco de giz,
na outra, o apagador;
na assistência o aprendiz,
no tablado o Professor!
27
Não "curta" a sua velhice
dando voz ao seu lamento;
deixe dessa "caduquice"
seu "velhote" rabugento!
28
Não queiras por teu amigo
quem não pode ser provado
no dar água, pão e abrigo,
para alguém necessitado!
29
Na solidão do meu eu,
fugindo da realidade,
meu pensamento varreu
da mente toda verdade!
30
No céu, as nuvens, e as flores,
no campo; um quadro sem par.
É Deus tingindo de cores
a Primavera a chegar!
31
Nos bailes não dava trela,
e a todos dizia não;
mas no fim foi a donzela
quem "dançou": ficou na mão!
32
Nos braços do seu amor,
loucamente apaixonada,
ela sente o seu calor
mesmo sob a chuvarada!
33
O ato de ler praticado
com prazer, pelo leitor;
no final, seu resultado,
assemelha-se ao do amor!
34
O bailarino, indeciso,
na chuva, dá mil volteios;
e o lampião diz, bem preciso:
homem, deixe de rodeios!
35
O envelhecer é sublime
presente a nós concedido
por Deus; o que bem exprime:
Dele, ninguém é esquecido!
36
Olhando com bem clareza
pras marcas do seu herdeiro,
já não tem tanta certeza
de ser o pai verdadeiro!
37
Olho azul, branco e lourinho
o filho do "Zé Negão"
lembrava mais o vizinho;
coitado, tinha razão!
38
Os dois silentes, colados,
corações a palpitar;
olhares apaixonados...
já pensou no que vai dar?
39
Para cuidar da saúde
com desvelo e competência
busco Médico amiúde,
amigo, de preferência!
40
Passei horas meditando,
pensando no que dizer;
terminei nada compondo,
sem nada para escrever!
41
Perdido na multidão
das ruas, sem ter alguém
que ao menos lhe estenda a mão;
não passa de um "Zé Ninguém"!
42
Pintor, por que teimas ver
o teu sol onde ele não
pode mais aparecer,
vítima da poluição?
43
Por aqui passava um rio
caudaloso e pleno em vida;
hoje mal se vê um fio
d'água suja e poluída!
44
Quando chove no sertão
o sertanejo se apega
ao santo de devoção,
esperando pela sega!
45
Quem ama a literatura,
e a ela se entrega, tem
prazer não só na leitura,
mas, no produzir, também!
46
Quem busca noiva, é preciso
que tome muito cuidado;
procure uma de bom siso,
pra não terminar "ornado"!
47
Quem corta, na natureza,
árvores sem precisão,
destrói-a e deixa-a indefesa;
é um ser sem coração!
48
Selva: bela e exuberante;
cria, de rara beleza,
de Deus que, naquele instante,
nominou-a... Natureza!
49
Sem um "pingo" de pudor
o mar fita a lua, arfante,
clamando: vem meu amor,
quero te ter por amante!
50
Ser Poeta neste mundo
é cultivar nele o Amor;
sentimento mais fecundo
na vida do TROVADOR!
51
Se tu estás velho, também,
mais perto de Deus tu estás;
tem tu, pois, por grande bem
ser velho, e bem viverás!
52
Se você anda amargado,
tristonho, ou com grande dor,
procure ser "medicado"
por um Doutor TROVADOR!
53
Se você sofre de tédio
só tem um jeito: tomar
TROVADOR, santo remédio;
e seu tédio vai passar!
54
- Solta-me! Clama o navio
ao cais que o faz prisioneiro;
- deixa-me sair vadio
pelo mar... que é meu parceiro!
55
Tem coisas que não se explica
na vida de um TROVADOR;
uma: é quanto ele mais fica
só, mais cultiva o Amor!
56
Tem Poeta nesta terra
que seus versos dão prazer
de lê-los, pois ele encerra
numa Trova o seu dizer!
57
Tem quem só quer receber
para si o que é melhor,
porém ao aparecer
chance pra dar: dá o pior!
58
Toda noite o seresteiro
aguardava a madrugada
para declarar, faceiro,
seu amor à sua amada!
59
Todo livro deve que ter
"título" bem eficaz...
pois não é que o meu vai ser:
Leia-me... (se for capaz).
60
Triste sina a da criança
deste meu Brasil gigante;
vive “presa” na esperança
de escapar do traficante!
61
Uma folha de caderno,
um lápis, e a inspiração,
bastam ao trovador terno
pra lhe abrir o coração!
62
Vendo a imensidão do mar
pensei cá, com meus botões:
se esta turbina falhar
tem "janta" pros tubarões!
63
Vindo de tão longe, não
se deu conta que chegara
ao seu velho e antigo chão,
que há muito tempo deixara!
64
Voa, canário indeciso,
o que esperas; afinal
seres liberto é preciso,
mesmo pensando irreal!

Três Trovas sem Pé nem Cabeça
65
Sem barulho, corta o céu
por entre as nuvens, um trem,
levando pro beleléu
a lua, e o sol também!
66
Era noite e a lua cheia,
viu chegar a madrugada,
trazendo o sol, em candeia,
deixando-lhe "encandeada"!
67
Não deixe a coisa ficar
do jeito que já não dê
pra você, um jeito dar,
no sujeito que é você!

Teia de Trovas sobre o Limão
68
No meio do laranjal
que plantei lá no sertão
deu-se um fato especial:
só foi colhido limão!
69
Recebendo este recado
do presidente Alencar
vou tomar maior cuidado
quando limão for provar!
70
Trovando e tirando as provas
deste fato memorável;
provei, brincando com trovas,
de que o limão é saudável!
71
Ao tomar a limonada
vá bebendo devagar
sorvendo cada golada
pro seu gosto apreciar!
72
Pode até não ser remédio
mas não dê cavaco não;
agora, ao chegar o tédio
o remédio é... com limão!
73
Cabe a cada cidadão
interpretar os pontinhos
desde que o "velho" limão
não falte nos pingadinhos!
74
Se você não é chegado
a quaisquer pingas, então:
esqueça logo o pingado
e chupe, puro, o limão!
75
Quem muito chupa limão,
dizem alguns entendidos,
melhora a "disposição":
aceito seus desmentidos!

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...