Trovadores em Ordem Alfabética

  • A (49)
  • B (5)
  • C (22)
  • D (12)
  • E (14)
  • F (12)
  • G (9)
  • H (11)
  • I (4)
  • J (31)
  • L (34)
  • M (31)
  • N (8)
  • O (12)
  • P (11)
  • R (18)
  • S (13)
  • T (5)
  • V (5)
  • W (9)
  • Z (2)
Mostrando postagens com marcador Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de agosto de 2025

Olavo Dantas Itapicuru Coelho (Crisópolis/BA, 1901 – 1997, Rio de Janeiro/RJ)

1
Ao dormir de ti me esqueço
e parece singular:
- No momento em que adormeço,
só contigo vou sonhar.
2
Com o lenço que retirei
de tuas mãos, todo alvor,
minhas lágrimas sequei,
disse adeus ao teu amor.
3
Em cada adeus que te dou,
um suspiro vai voando.
Como é longo, certo estou
que ele vai te acompanhando.
4
Entrei na vida querendo
riquezas, fama e louvor.
A vida é, fiquei sabendo,
sonhos, trabalhos e amor.
5
Estavas alegre quando
eu te vi bela e faceira:
- Por isto passei sonhando
contigo a semana inteira.
6
Eu te julguei um brilhante
ao cantares de sereia.
Mas vi, um pouco adiante,
que eras só um grão de areia.
7
Junto de mim um instante
esteve a Felicidade.
Desde então segue os meus passos
o seu perfume: a saudade.
8
“Longe estás”, assim dizia
meu caderno de lembrança.
Enquanto houver luz do dia,
sempre haverá a esperança.
9
Não te quero, nem me queres,
é tudo exato talvez.
Mas se me encontrar preferes,
fico feliz se me vês.
10
Nem tudo na vida é ouro
e tudo passa ligeiro:
Só o sonho é duradouro,
só o sonho é verdadeiro.
11
Nos barcos, os pescadores
ao passar dizem adeus.
Como doces são amores
quando vejo os olhos teus!
12
O amor é cego e há quem fale
que tem mandinga ou magia;
pois é o cego que me vale,
pois é o cego que me guia.
13
Penso, até nas horas mortas,
que nosso seja o porvir.
Teu coração não tem portas
por onde eu possa sair.
14
Por que é que Deus escreveu
– só com isto não atino -
O meu nome junto ao teu
no alfarrábio do Destino!
15
Quando Deus fez a mulher,
de um osso bem duro fê-la.
Assim, saiba quem quiser:
Jamais podemos torcê-la.
16
Quando falas eu te escuto
como a um cântico divino.
Se teu convívio desfruto,
tem gorjeios meu destino.
17
Quanta dor por onde vamos,
quanta mágoa emudecida!
Sem amor, nós naufragamos
nas águas negras da vida.
18
Querida, teu amor canta
e cantará longamente.
Na voz de beleza tanta
Deus costuma estar presente.
19
Saudade de ti eu tenho…
Como é nostálgico o luar!
De longe, bem longe venho:
Fui e vim sem te encontrar.
20
Se te dei a despedida,
ela deixou-me amargor,
porque és ainda, querida,
a dona de meu amor.
21
Teus olhos que são mais sábios
dizem-me sempre que sim.
Mas não pergunto aos teus lábios
o que eles pensam de mim.
22
Um genro, um pobre coitado,
de vez em quando dizia:
“Com minha sogra ao meu lado,
quanta paz não perderia!”
23
Vem o mar suavemente
cantar na onda vadia.
O sonho triste da gente
vem cantar numa elegia.
24
Vendo da estrela o fulgor,
acha rumo o peregrino.
Foste a Estrela do Pastor
para encontrar meu destino.

Octávio Babo Filho (Rio de Janeiro/RJ, 1915 – 2003)

1
A diferença que vejo
entre a virtude e o pecado:
– virtuoso - peca a varejo,
pecador - por atacado.
2
A facilidade imensa
com que os homens são julgados
simboliza bem a crença
de sermos todos culpados.
3
A força do inevitável,
já pela força que tem,
faz o destino imutável,
sem indagar quem é quem.
4
Ante a vinda inesperada
da indesejável cegonha,
de susto morre a empregada,
morre o patrão... de vergonha!
5
Ao partires, mãe querida,
deixaste a imagem comigo:
nem durante toda a vida
eu te segui como sigo!
6
A paz verdadeira e pura,
que a consciência enobrece,
é a que sente a criatura
que, para subir, não desce.
7
As desventuras da vida,
eu não as conto a ninguém,
pois mágoa, que é transmitida,
se multiplica por cem.
8
Bem que procuro ser santo,
mas não consigo, porque
eu encontro em cada canto
alguém que lembra você...
9
Buscando falsa razão
para razão que não tem,
ninguém ilude o irmão
sem iludir-se também.
10
Construíste mil castelos...
E a tua imaginação,
depois de sonhos tão belos,
quis morar num barracão...
11
Convém às vezes fugir,
porque a presença frequente   
não deixa a gente sentir
se sentem falta da gente.
12
Creio que ninguém duvida
desta inconteste verdade:
há mundo, mas não há vida,
quando falta a liberdade!
13
Dentro da imensa tristeza
que a minha alma sempre invade,
o que me mata é a certeza
de não sentires saudade.
14
Dois destinos são iguais,
na proporção em que dois,
sofrendo menos ou mais,
sofrerão juntos, depois.
15
Enquanto os povos discutem
a teoria da paz,
os mais fracos se desnutrem
e os mais fortes comem mais…
16
Esta Fé que hoje me invade,
traz tanto alento à minha alma
que, dentro da tempestade
sinto a natureza calma!
17
Eu perdi muita amizade,
defendendo injustiçados.
- É que o vento da maldade
sopra de todos os lados.
18
Eu rezo em casa, na igreja,
na rua, em qualquer lugar...
Duvido Deus não esteja
onde costumo rezar!
19
Façamos logo um acordo,
sem queixa, mágoa ou rancor:
– dividamos o ciúme,
multipliquemos o amor.
20
Gosto de moça formosa,
sabendo embora o perigo
- Eu não desprezo uma rosa,
temendo o espinho inimigo…
21
Mãe - é palavra sem rima,
buscá-la é inútil, não tente,
pois mãe está muito acima
de tudo, coisas e gente.
22
Minha mulher não perdoa
a quem me faça maldade.
Não porque ela seja boa:
– pretende é exclusividade!  
23
Na mentira a se perder,
não sabe aquele infeliz
que ele nunca se faz crer
nem nas verdades que diz.
24
Não dou ouvido ao lamento
e não escondo o porquê:
tudo, na vida, é um momento
- e o meu momento é você...
25
Não há calvários iguais,
toda cruz é diferente,
e as cruzes que pesam mais
são sempre as cruzes da gente.
26
Não lhe adivinhando o nome,
batizei-a de Maria.
E o remorso me consome:
– nunca vi tanta heresia!
27
Não nos feneçam os sonhos,
deles precisamos tanto!
Mudam pensares tristonhos
e secam fontes de pranto.
28
Nascemos sentenciados:
“Os que vierem se vão”.
E nem somos informados
do dia da execução...
29
Os santos de antigamente
só foram santos, porque,
conhecendo tanta gente,
não conheceram você...
30
Penetrei fundo demais
no poço das ambições.
Vejo, agora, o mal que faz
um sonho sem proporções.
31
Poeta mau não conheço,
mau poeta ah, isto sim!
Conheço e digo onde mora:
bem aqui… dentro de mim.
32
Por que será que você,
tendo os defeitos que tem,
os seus defeitos não vê,
vendo os dos outros tão bem?
33
Quando penso em falsidade,
teu nome logo me vem:
Teu nome: Felicidade!
- Felicidade? De quem?...
34
Quanta alegria semeia
quem vive sempre contente:
- A felicidade alheia
também faz feliz a gente.
35
Quem da riqueza faz praça,
muito cedo se esqueceu
de que Deus tira de graça
o que, de graça, nos deu.
36
Quem constrói seu barracão
no do vizinho apoiado,
pelo sim e pelo não,
confia... desconfiado!
37
Saber não ocupa espaço,
mas é preciso que a gente,
ao caminhar, passo a passo,
modere o passo da frente...
38
Saudade, o mundo embalando,
dói, de modo tão diverso,
que o poeta, mesmo chorando,
pode cantá-la em seu verso.
39
Se a morte nos avisasse
a respeito do seu dia,
não creio que nos matasse:
a gente é que morreria...
40
Se é por simples gentileza
que a mim você se anuncia,
não me leve a mal, Tristeza!
Prefiro a casa vazia!
41
Se o trabalho me enfastia,
eu dele logo me vingo,
fazendo, de cada dia,
a sucursal de domingo…
42
Se querer fazer mistério
de coisas tão triviais:
- É na paz do cemitério
que vivem todos em paz…
43
Se toda gente soubesse
como custa querer bem,
quanta gente gostaria
de não gostar de ninguém!
44
Tenham medo é dos medrosos
- fugidios, reticentes -,
mil vezes mais perigosos
que os atrevidos valentes...
45
Teus encantos, criatura,
mexeram tanto comigo
que eu vivo da desventura
de sonhar sempre contigo…
46
Toda mulher tem seu quê,
tem um encanto qualquer.
Não tendo, é o que a gente vê
naquela que a gente quer.
47
Trabalho, sem me cansar.
E é tão bom que seja assim!
- Chego, às vezes, a pensar
que Deus trabalha por mim.
48
Ventura... Felicidade...
Duas palavras vazias
que, depois de certa idade,
não enchem mais nossos dias.

Haroldo Rodrigues de Castro (Pilares/RJ, 1936 – 2003, Magé/RJ)

1
A saudade não me abala
nem tristeza me corrói.
O desprezo é que avassala,
e meu coração destrói.
2
Ausência, palavra amarga,
saudade não sei de quem;
tristeza que não se apaga,
nesse amor que vai-e-vem.
3
Com a língua portuguesa
vou trovando com ardor.
Nossa Pátria, que beleza,
Deus nos deu com muito amor!
4
Dentro de meu pensamento
uma ilusão pé fincou:
- Amar-te por um momento,
sonhar que ninguém te amou.
5
Eu tenho em mim  a saudade
de um coração bem sofrido
que não sabe o que é vaidade
e nunca foi compreendido.
6
Foi com Deus no pensamento
que vi nosso amor nascer.
Senti, naquele momento,
o motivo de viver.
7
Mágoas? Tenho-as em constante,
ao longo de minha vida,
desde aquele triste instante
que foste embora… querida!
8
Nem sempre a briga é conflito,
quando o bom senso a conduz;
certas pedras, em atrito,
soltam centelhas de luz!
9
O beijo que tu me deste,
teve jeito de oração,
pois com ele tu vieste
dar-me a força do perdão!
10
O desprezo que me dás,
negando amor e carinho,
é maldade, não se faz,
com quem vive tão sozinho!
11
Ódio, traição, covardia,
é triste ter que dizer:
É a parte do dia a dia
dos covardes no poder…
12
Oh! saudade matadeira,
traz de volta, por favor,
a minha paz verdadeira,
dada por Nosso Senhor!
13
Olhando o mar eu versejo,
fazendo mais esta trova:
Nas águas verdes te vejo
e o mar feliz, se renova.
14
Os passos que foram dados,
no furor de minha vida,
foram todos reciclados
de uma vivência perdida.
15
Quando apertado em teus braços,
sinto enorme calafrio,
pois eu tenho teus abraços
mas num abraço vazio...
16
Quando partires, querida,
não leves meu coração.
Leva apenas a ferida,
deixa só minha ilusão!
17
Quando temos esperança
o sol é mais radiante,
e até no olhar da criança
a paz se mostra constante.
18
Quem disse que o pensamento
não é leve como a luz,
não teve em nenhum momento
as graças do bom Jesus.
19
Quem no futuro não crer,
na vida, na paz, no amor,
não tem esperança em ter
a paz de Nosso Senhor!
20
Quem perde seu tempo em vão
com coisa pequena e fútil,
já bem sabe, de antemão,
que nada fará de útil.
21
Só quando existe esperança,
na vida de um sofredor,
é que ele vê na criança,
o quanto é belo o amor!
22
Sou poeta trovador,
na trova sou bem capaz:
Faço trovas com amor
que muito me satisfaz.
23
Tenho meu passo cansado,
de caminhar pela vida,
neste mundo já abalado
e de vida mal vivida.
24
Tens a doçura do mel,
a claridade da Lua.
És uma estrela do céu
vivendo na minha rua.
25
Valeu, Mestre, eu vos proclamo,
no reino dos sabedores,
um  amigo que muito amo,
– professor dos professores!

Jacinto de Campos (Canavieiras/BA, 1900 – ????, Rio de Janeiro/RJ)

1
A alegria desta vida
é balão que a gente solta.
Mas, a tristeza, querida,
é ave que vai e volta.
2
A saudade em nossa vida
dilacera o coração!
Mas... não dói como a ferida
da palavra Ingratidão!
3
A sorte sempre se atrasa
quando busca o meu caminho...
Erra, depois, minha casa;
entra em casa do vizinho...
4
A vida começa cedo,
mas a morte, essa covarde,
ninguém lhe sabe o segredo:
– se chega ela cedo ou tarde…
5
Belos rosais que florescem
em Maio, de tantas flores,
olhai as mães que padecem
neste Universo de dores!
6
Buscando felicidades,
não me sobra coisa alguma...
Mas, recontando saudades,
o meu pranto se avoluma.
7
Deixa o egoísmo profundo!…
Esta é a voz das profecias!
Todo mundo deixa o mundo,
mas vai com as mãos vazias!...
8
Do teu amor que se escombra,
à noite, eu sinto, surpreso,
que a sombra que mais me assombra
é a sombra do teu desprezo…
9
E quando eu me for findando,
minha Musa, sem alarde,
em ti ficará cantando,
tristeza morna da tarde…
10
Esta verdade ultrapassa
outra verdade qualquer:
– O amor é como a fumaça
no coração da mulher.
11
Evolei-me ao céu das trovas
repontilhando de estrelas...
Voltei cortado de pena
de quem não pode trazê-las.
12
Fraternidade é a pureza
que em nossas almas se expande…
E mostra, ao mundo, a beleza
de um coração leve… e grande!
13
Meu Deus! Fazei que a bondade,
sempre em minha alma se integre.
Pois sinto felicidade
quando vejo um pobre alegre.
14
Minha filha, honra teu pai,
mais um amor que te resta...
Vê que o ipê, quando cai,
faz grande falta à floresta.
15
Na celeste Imensidade,
quanta luz! Que maravilha!
cada estrela é uma saudade
que na minha alma rebrilha.
16
No mar tem sombras… parece,
de algum noivado falaz…
Pois, quando o sol desfalece,
as ondas gemem demais!…
17
O coração desprezado
pelo amor que lhe convém,
é relógio complicado:
– nunca mais trabalha bem!
18
O meu bom tempo passou!
Debalde o procuro, a esmo…
Depois, vejo que não sou
nem a sombra de mim mesmo!
19
Prometeste, entre refolhos,
aclarar minha ilusão…
Mas… tens tanta luz nos olhos
e sombras no coração!
20
Quem, da flor, nega o perfume,
não pode ser jardineiro…
– Amor, que não tem ciúme,
não pode ser verdadeiro.
21
Rosal de netos risonhos,
na alegria que produz,
enche minha alma de sonhos,
enche meus sonhos de luz!
22
Saudade, sombra difusa
que cai sobre a solidão…
tu és a divina Musa
cantando em meu coração.
23
Sempre uma nuvem tristonha
encobrindo as serranias…
É que o Sol já tem vergonha
da Terra dos nossos dias!
24
Subi à Mansão Serena:
fiz trovas cheias de estrelas…
Voltei cortado de pena
de quem não soube fazê-las!
25
Teu declinar, tarde mansa,
tantos langores conduz,
que nos traz a semelhança
de uma noiva ao pé da cruz…
26
Vai, barqueiro, com bonança,
sem tremores da procela,
que Deus solta uma esperança
quando desliza uma vela…
27
Vendo saúde e sou forte!
Removo montes até!
Incendeio o Polo Norte 
com o fogo ardente da Fé!

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...