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terça-feira, 3 de junho de 2025

Luiz Poeta (Trovas em Preto & Branco:)

 análise das trovas de Luiz Poeta por José Feldman


As trovas de Luiz Poeta expressam uma profunda reflexão sobre a vida, a espiritualidade, a solidão e as relações humanas. Cada uma delas traz temas universais imbuídas da experiência humana e podem ser comparados a obras de outros poetas, revelando tanto semelhanças quanto diferenças em estilo e abordagem. A escolha lexical nas trovas desempenha um papel crucial na criação de metáforas que evocam emoções e experiências profundas. Ao selecionar palavras específicas, ele não apenas constrói imagens intensas, mas também infunde suas metáforas com significados adicionais.

Trova 1: A Graça de Deus

"A graça de Deus é vasta,  
Deus sempre me abençoou  
e enquanto a vida se arrasta,  
agradeço por quem sou."

Nesta trova, Luiz Poeta expressa gratidão pela graça divina e pelas bênçãos recebidas. A metáfora da "graça" sugere um espaço ilimitado e generoso, implicando que a presença divina é abundante e sempre disponível. Essa concepção de Deus como uma força benevolente reflete um sentimento de gratidão e conexão espiritual. 

A palavra "graça" carrega uma conotação de benevolência e generosidade, enquanto "vasta" sugere infinitude. Essa escolha lexical torna a metáfora poderosa, evocando uma sensação de acolhimento e proteção divina. A combinação das palavras cria um sentimento de gratidão.

A ideia de reconhecer a presença de Deus na vida cotidiana é um tema recorrente na poesia de “Cecília Meireles”, que também fala sobre a espiritualidade e a conexão com o divino. Poetas americanos como “Walt Whitman" exploram temas de gratidão e autoconhecimento, refletindo sobre a relação do eu lírico com a vida e o universo. A busca por significados e a relação com o sagrado são comuns em muitas tradições poéticas, incluindo a obra de "Pablo Neruda", que frequentemente aborda a espiritualidade de forma intensa e pessoal.

Trova 2: A Solidão

"A solidão é assim:  
metade de um falso inteiro,  
início de um falso fim  
que nunca foi verdadeiro."

A solidão é apresentada como uma contradição, uma experiência complexa que pode ser tanto um início quanto um fim. Aqui, a solidão é comparada a um "falso inteiro", o que sugere que ela é uma experiência incompleta e enganadora. Essa metáfora revela a dualidade da solidão, que pode parecer plena, mas na verdade é fragmentada e insatisfatória. 

A escolha de "metade" e "falso" sugere incompletude e desilusão. Essas palavras intensificam a metáfora, transmitindo a ideia de que a solidão é uma experiência ilusória, um estado de falta que não é verdadeiro. O uso de termos que contrastam entre si ajuda a reforçar a complexidade da solidão.

Essa abordagem se assemelha à obra de "Fernando Pessoa", que frequentemente explora a solidão e a fragmentação do eu. A solidão como uma condição humana também é tema de poetas ingleses como "John Keats", que reflete sobre a melancolia e a busca pela conexão. A dualidade da solidão é um tema universal encontrado na poesia latino-americana, como em "Gabriela Mistral", onde a solidão é muitas vezes associada ao amor e à perda.

Trova 3: Portas Fechadas e Abertas

"Com tanta porta fechada,  
Deus nos mostra a porta aberta.  
Quem entra na porta errada,  
erra mais do que acerta."

Aqui, Luiz Poeta usa a metáfora das portas para simbolizar as oportunidades na vida. As portas simbolizam oportunidades e escolhas na vida. A metáfora sugere que, apesar das dificuldades e obstáculos, sempre há uma nova possibilidade. Essa imagem é poderosa porque ilustra a esperança mesmo em momentos de desespero. 

A simplicidade das palavras "porta" e "aberta" facilita a compreensão da metáfora, mas também a torna mais impactante. A ideia de portas representa escolhas e oportunidades, e o contraste entre "fechada" e "aberta" evoca uma esperança renovada diante das dificuldades.

A ideia de que, mesmo diante de dificuldades, há sempre uma nova chance é semelhante à filosofia encontrada na obra de "Mário Quintana", que fala sobre o otimismo e a esperança. Poetas americanos como "Emily Dickinson" também abordam a ideia de escolha e oportunidades, refletindo sobre como as decisões moldam nossas vidas. A metáfora de portas é comum na poesia de "Neruda", que frequentemente fala sobre caminhos e escolhas.

Trova 4: Linhas do Amor

"Das tuas mãos, li as linhas,  
mas como sou mau leitor,  
não percebi que eram minhas,  
as linhas do teu amor."

Nesta trova, a ideia de leitura se torna uma metáfora para a compreensão das relações amorosas. As "linhas" representam os sentimentos e os destinos que se entrelaçam nas relações amorosas. Essa metáfora sugere que as histórias de amor são escritas e lidas, enfatizando a conexão profunda entre as pessoas. 

A palavra "linhas" é evocativa, sugerindo não apenas a escrita, mas também o traçado de um destino. Ao associar "linhas" com "mãos", a metáfora se torna íntima, oferecendo uma sensação de conexão pessoal. A expressão "mau leitor" sugere uma falta de percepção, intensificando a confusão emocional.

A dificuldade em perceber o amor do outro pode ser comparada à obra de "Adélia Prado", que explora as nuances do amor e das relações humanas. A confusão sobre os sentimentos também é um tema abordado por poetas como "Sylvia Plath", que frequentemente fala sobre a complexidade e as ambivalências do amor. A ideia de "linhas" como uma representação do amor é uma imagem poética que está personificada na obra de "William Blake", que também utiliza metáforas visuais para expressar emoções.

Trova 5: A Educação e o Amor

"Fiel ao que a mestra ensina  
com tanto amor e ternura,  
orgulhosa, a pequenina  
sorri ao fim da leitura."

A relação entre educação e amor é celebrada nesta trova. A palavra "fiel" sugere lealdade e dedicação. Essa escolha implica que a relação entre a mestra e a aluna é baseada na confiança e no respeito mútuo. A fidelidade ao ensino indica um compromisso profundo com o aprendizado, destacando a importância da figura da mestra na formação da criança. As expressões "amor" e "ternura" são fundamentais para a metáfora, pois criam uma imagem de um ambiente educacional caloroso e acolhedor. Essas palavras evocam um sentimento de segurança e carinho, que é crucial para o desenvolvimento emocional da criança. A combinação dessas palavras sugere que o aprendizado é uma experiência afetiva, não apenas intelectual. A escolha de "pequenina" ao invés de "menina" confere uma conotação de fragilidade e inocência. Essa palavra cria uma imagem de vulnerabilidade, enfatizando a proteção que a mestra oferece. Refere-se à fase de formação da criança, onde cada passo é significativo.

A imagem da "pequenina" que aprende e sorri ecoa a obra de "Monteiro Lobato", que valoriza a educação como um meio de crescimento e desenvolvimento. A abordagem carinhosa da aprendizagem também pode ser comparada à obra de "Walt Whitman", que fala sobre a importância da educação e do amor no processo de formação do indivíduo. A conexão entre o aprendizado e a alegria é um tema comum na literatura, refletindo a importância do conhecimento como forma de amor.

Trova 6: Poder do Amor

"Há poder na onda do mar;  
há poder no Sol ardente,  
mas há mais poder no olhar  
de quem ama ardentemente."

Nesta trova, o poder do amor é exaltado, superando até mesmo forças da natureza. O "olhar" é uma metáfora para a conexão emocional e o amor profundo. Sugere que a capacidade de amar é uma força poderosa, mais impactante do que qualquer elemento natural, destacando a intensidade das emoções humanas. 

A escolha de "poder" e "ardentemente" infunde a metáfora com uma sensação de intensidade e força. "Onda" evoca a natureza, enquanto "olhar" sugere uma conexão emocional profunda. Essa combinação de palavras cria uma imagem poderosa da força do amor em contraste com a força da natureza.

Essa ideia assemelha-se com a poesia de "Vinícius de Moraes", que frequentemente celebra a força do amor em suas muitas formas. A comparação com elementos naturais é um recurso comum na poesia de "Pablo Neruda", que também reconhece o poder transformador do amor. A intensidade do olhar como símbolo de amor é uma imagem poderosa que pode ser encontrada na obra de "Rainer Maria Rilke", que explora a profundidade das emoções humanas.

Trova 7: Aprendizado pela Dor

"Quem nunca tomou porrada,  
não sabe nada da vida;  
faz da avenida, a calçada  
e da calçada, avenida."

Aqui, Luiz Poeta reflete sobre a importância da experiência e do sofrimento como parte do aprendizado da vida. A "porrada" é uma metáfora para as dificuldades e desafios que enfrentamos. Essa expressão sugere que o sofrimento é essencial para o aprendizado e a maturidade, refletindo a ideia de que a vida é uma série de lições. 

A palavra "porrada" é forte e coloquial, transmitindo a brutalidade das experiências de vida. As comparações com "avenida" e "calçada" estabelecem um contraste entre caminhos e escolhas, reforçando a ideia de que a dor é uma parte fundamental do aprendizado.

Essa ideia é similar à obra de "Drummond", que explora a dor e a experiência como fundamentais para a compreensão da existência. A noção de que a dor ensina é um tema comum na poesia de "Langston Hughes", que fala sobre as lutas e os desafios da vida. A metáfora das "portas" e "caminhos" é recorrente, mostrando como as experiências moldam a percepção da vida.

Trova 8: Fantasias e Desejos

"Roubei tuas fantasias,  
mas tu ficaste com as minhas;  
guardaste mais que podias  
e eu quis bem mais do que tinhas."

Nesta trova, a troca de fantasias entre amantes é explorada, mostrando como os desejos e sonhos podem ser compartilhados e, ao mesmo tempo, se tornam fontes de conflito. As "fantasias" simbolizam os sonhos e aspirações pessoais. Essa metáfora expressa a troca emocional entre duas pessoas, mostrando como as relações podem envolver um compartilhamento profundo de desejos e esperanças. 

"Roubei" sugere uma ação ativa e quase íntima, enquanto "fantasias" evoca sonhos e desejos. Essa escolha de palavras cria uma tensão emocional, refletindo a complexidade das trocas nas relações. A palavra "guardaste" implica cuidado, intensificando a conexão entre os amantes.

Essa ideia de troca e possessão é semelhante à poesia de "E. E. Cummings", que frequentemente explora as complexidades das relações amorosas. A tensão entre o que se deseja e o que se possui também aparece na obra de "Gabriela Mistral", que fala sobre amor e anseios não correspondidos.

Trova 9: Achismos e Descobertas

"Tanto achismo e tanto achado,  
tanto eu acho e... "desachei",  
que olhando o lado errado,  
eu percebo que acertei."

Nesta reflexão sobre a incerteza e a descoberta, Luiz Poeta aborda a complexidade da busca pelo sentido. A metáfora do "desachei" sugere a ideia de que, ao tentar entender a vida, muitas vezes encontramos respostas inesperadas. Essa expressão é um jogo de palavras que reflete a incerteza e a complexidade da busca pelo conhecimento. 

O uso de "achismo" e "desachei" confere um tom informal, que torna a reflexão mais acessível. Essas palavras criam uma sensação de incerteza e humor, refletindo a complexidade da busca por respostas na vida.

Essa ideia de que o erro pode levar a acertos é uma abordagem que ressoa com a obra de "Fernando Pessoa", que explora a ambiguidade da experiência humana. A filosofia da incerteza também é encontrada na obra de poetas americanos como "Robert Frost", que frequentemente fala sobre as decisões e seus resultados imprevisíveis.

Trova 10: Novo Dia e Graça

"Temos sempre um novo dia  
a cada dor que não passa...  
se a vida nos desafia,  
Deus concede nova graça."

A última trova traz uma mensagem de esperança e renovação. A "dor" é uma metáfora para as dificuldades da vida, enquanto o "novo dia" simboliza a esperança e a renovação. Essa metáfora sugere que, mesmo diante do sofrimento, sempre há uma oportunidade para recomeçar e encontrar paz. 

A expressão "novo dia" sugere renovação e esperança, enquanto "dor" é uma palavra que carrega peso emocional. A escolha lexical aqui estabelece um contraste entre o sofrimento e a possibilidade de renascimento, reforçando a ideia de que sempre há uma nova oportunidade para recomeçar. 

A ideia de que cada novo dia é uma oportunidade de renovação é um tema comum na poesia de "Cecília Meireles", que frequentemente fala sobre a beleza do recomeço. A relação entre dor e graça também é abordada na obra de "Neruda", que reflete sobre a luta e o consolo divino. A esperança frente aos desafios da vida é uma constante em muitas tradições poéticas, refletindo a busca universal por significado e luz.

Considerações Finais

As trovas de Luiz Poeta são um testemunho da riqueza e da profundidade da experiência humana, utilizando metáforas para intensificar o significado dos versos e convidar à reflexão. A escolha cuidadosa de palavras e a construção de imagens poéticas revelam uma sensibilidade que conecta o eu lírico a temas universais como amor, solidão, aprendizado e espiritualidade.

Várias influências podem ser cruciais para a composição das trovas de Luiz Poeta. A tradição da poesia brasileira, que inclui nomes como Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade, pode ter moldado sua abordagem lírica, enfatizando a relação entre emoções e a natureza. A poesia romântica e moderna, tanto no Brasil quanto em outras culturas, traz à tona a busca por autenticidade e a exploração de sentimentos profundos. Além disso, as influências da música popular brasileira, com sua rica tradição de letras poéticas, podem ter contribuído para a formação de suas trovas.

As metáforas nas trovas são fundamentais para dar maior conteúdo e discernimento aos versos. Elas funcionam não apenas como recursos estilísticos, mas também como ferramentas de comunicação que permitem ao leitor perceber a complexidade das emoções e experiências. Por exemplo, a metáfora da "solidão" como um "falso inteiro" sugere que o eu lírico está consciente das ilusões que a solidão pode criar, promovendo uma reflexão mais profunda sobre a condição humana. Além disso, o uso de metáforas relacionadas à natureza, como "a onda do mar" ou "a luz do olhar", conecta as emoções humanas a elementos do mundo natural, criando uma harmonia entre o interior e o exterior. Essas imagens evocativas não apenas enriquecem a estética dos versos, mas também aprofundam a compreensão do leitor sobre as nuances das experiências descritas.

Em suma, as trovas de Luiz Poeta são um reflexo da intersecção entre a tradição poética e a experiência pessoal. Através do uso habilidoso de metáforas e uma escolha lexical cuidadosa, ele cria uma linguagem que é ao mesmo tempo acessível e profunda. Essa combinação permite que suas trovas repercutem com o leitor, convidando-o a explorar suas próprias emoções e reflexões. Assim, Luiz Poeta não apenas narra histórias, mas também oferece um espaço para que cada um de nós possa encontrar significado e beleza nas complexidades da vida.
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* LUIZ GILBERTO DE BARROS, registrado na Sociedade Brasileira de autores, compositores e escritores de música – SBACEM – como LUIZ POETA, nasceu em 1950, em Bangu, no Rio de Janeiro. Escritor, Poeta, Contista, Cronista, Ensaísta, Trovador, Aldravianista, Sonetista, Músico, Compositor, Produtor Musical, Artista Plástico, Gestor Educacional e Docente Aposentado  de Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa. Paralelamente às atividades profissionais, destaca-se também no meio artístico como produtor fonográfico, violonista, guitarrista, compositor, poeta e artista plástico. É Verbete do Dicionário de Música Popular Brasileira Antônio Houaiss e detentor de  relevantes títulos acadêmicos. Fundador de diversas entidades culturais Nacionais e internacionais. Autor premiadíssimo em inúmeros concursos no Brasil e no Exterior. Foi Presidente da Academia Pan-Americana de Letras e Artes; do Centro Cultural Leopoldina de Souza Marques, da Faculdade Souza Marques, e Diretor Presidente do Jornal “ O Coruja “, de circulação universitária. Membro da Academia Luso-Brasileira de Letras, – Cerc Universal des Ambasssadeurs de la Paix, Divine Academie Française de Letters y Arts, Associação dos Acadêmicos da Academia Brasileira de Letras, e outras. Dá nome, à Sala de Leitura de uma das  escolas onde lecionou (EM Evangelina Duarte Batista-RJ ) da Secretaria de Educação do Município do Rio de Janeiro. Sua obra artística é eclética e engloba mais de 10.000 trabalhos (músicas, poesias, ensaios contos, novelas, textos dramáticos e crônicas – além de telas e trabalhos artesanais ). Tem CDs e DVDs gravados, tendo publicado mais de 100 obras publicadas entre livros-solo, antologias, CDs, DVDs, jornais e revistas.
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JOSÉ FELDMAN nasceu na capital de São Paulo. Poeta, escritor e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais. Casado com a escritora, poetisa, tradutora e professora da UEM, Alba Krishna, mudou-se em 1999 para o Paraná, morou em Curitiba e Ubiratã, e depois em Maringá/PR desde 2011. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a diversas academias de letras, como Academia Rotary de Letras, Academia Internacional da União Cultural, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, Academia de Letras de Teófilo Otoni, etc, possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, e Pérgola de Textos, um blog com textos de sua autoria, Voo da Gralha Azul e Gralha Azul Trovadoresca. Assina seus escritos por Floresta/PR. Publicou de sua autoria 4 ebooks.. Premiações em poesias no Brasil e exterior.
Fontes:
José Feldman. 50 Trovadores e suas Trovas em preto e branco. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Biografia resumida, obtida na Confraria Brasileira de Letras, enviada pelo trovador.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

José Valdez de Castro Moura (Trovas em Preto & Branco)

 

por José Feldman

Análise das trovas e relação de suas temáticas com literatos brasileiros e estrangeiros de diversas épocas e suas características

Trova 1.
As afrontas do passado
não guardo! Vou esquecê-las!
Pois bem sei que um céu nublado
não me deixa ver estrelas!

O eu lírico expressa um desejo de libertação das mágoas do passado. A metáfora do "céu nublado" representa a obscuridade das lembranças que obscurecem a visão das "estrelas", simbolizando esperanças e sonhos. Aqui, a luta interna entre lembrar e esquecer é palpável.

Álvares de Azevedo explora a melancolia e a luta contra as recordações dolorosas em suas obras, como em "Noite de Luar". A ideia de esquecer o passado para ver as estrelas reflete seu tema da busca por libertação das mágoas.

Adélia Prado escreve sobre a complexidade das memórias e a necessidade de superação. Seus versos transmitem um tom de reflexão que ressoa com a ideia de deixar o passado para trás.

O indígena brasileiro Ailton Krenak (1953, Minas Gerais) aborda a memória e a luta dos povos indígenas diante da colonização e da perda de suas terras. Em "Ideias para Adiar o Fim do Mundo", ele reflete sobre a importância de lembrar e resgatar a história, ressoando com a ideia de esquecer as "afrontas do passado".

John Keats (1795-1821, Inglaterra) lida com a ideia de memória e a luta para esquecer em poemas como "Ode a uma Urna". Sua sensibilidade em relação ao tempo e à beleza efêmera reflete a busca por libertação das mágoas do passado.

Billy Collins (1941, EUA) explora a memória e a nostalgia com um tom leve e irônico, como em "The Lanyard", refletindo sobre a luta entre lembrar e esquecer.

Trova 2. 
Cante a paz, o amor fecundo,
torne a vida mais risonha
e sem mágoas, porque o mundo
não perdoa a quem não sonha!

O convite para cantar a paz e o amor sugere uma busca ativa por felicidade e harmonia. O contraste entre "paz" e "mágoas" enfatiza que o mundo não perdoa a inatividade; sonhar é fundamental para superar as dores da vida.

Guilherme de Almeida frequentemente exalta o amor e a busca pela felicidade, como em "Soneto da Fidelidade". Sua poesia é otimista e busca celebrar a vida, alinhando-se à ideia de cantar a paz e o amor.

A poetisa indígena brasileira Eliane Potiguara (1955, Paraíba), celebra a cultura e a conexão com a natureza em seus poemas. Sua obra, que aborda a paz e o amor entre os povos, reflete a busca por harmonia e respeito, alinhando-se à temática da trova.

A poetisa nativa americana Joy Harjo (1949, EUA), a primeira poeta laureada dos EUA, frequentemente celebra o amor e a conexão com a natureza em seus poemas, como em "An American Sunrise". Sua ênfase na paz e na harmonia com o mundo reflete a busca por um amor fecundo.

Pablo Neruda (1904-1973, Chile) é conhecido por sua celebração do amor e da vida em poemas como "Soneto XVII". Sua linguagem apaixonada e imagética destaca a importância da paz e do amor.

Mary Oliver (1935-2019, EUA) frequentemente aborda a beleza do amor e a simplicidade da vida em seus poemas, como em "Wild Geese", transmitindo uma mensagem de esperança e conexão.

Trova 3.
Coração, inda pranteias
tantas perdas, nostalgias...
E, de angústias estão cheias
as minhas noites vazias!

O coração é personificado e expresso como um ente que sofre. As "perdas" e "nostalgias" refletem a tristeza acumulada ao longo do tempo. As "noites vazias" simbolizam solidão e desespero, sugerindo uma luta interna constante.

Casimiro de Abreu conhecido por sua poesia sentimental, aborda a dor da perda e a nostalgia em versos como "Meus Oito Anos". A tristeza do eu lírico ecoa a dor expressa na trova.

Lígia Fagundes Telles, em suas narrativas, explora a solidão e a nostalgia, refletindo sobre emoções profundas e complexas que se conectam com o sofrimento do eu lírico.

O indígena brasileiro Daniel Munduruku (1964, São Paulo) explora a dor e a tristeza em sua obra, abordando a luta do povo indígena e a saudade das tradições perdidas. A sua sensibilidade em relação às emoções ressoa com a ideia do coração que pranteia.

Alfred Lord Tennyson (1809-1892, Inglaterra) explora a dor da perda em poemas como "In Memoriam". Seu tom melancólico e reflexivo ressoa com a tristeza do eu lírico.

Sylvia Plath (1932-1963, EUA) aborda a dor e a angústia emocional em sua obra, especialmente em "Lady Lazarus", refletindo a luta interna do eu lírico.

Trova 4.
Discórdia, sonhos frustrados
e as mágoas não resolvidas
são os nós não desatados
das cordas das nossas vidas…

Esta trova fala sobre as tensões e desilusões que permeiam a vida. Os "nós não desatados" representam conflitos não resolvidos e a complexidade das relações humanas, sugerindo que essas questões internas afetam a realização pessoal.

Olavo Bilac toca em temas de desilusão e conflitos em sua obra, especialmente em sonetos que refletem sobre a vida e suas frustrações.

Hilda Hilst aborda a complexidade dos relacionamentos e os conflitos internos, refletindo sobre a discórdia e a busca por resolução em poemas como "A Obscena Senhora D".

W.B. Yeats (1865-1939, Irlanda) frequentemente lida com conflitos e desilusões em sua poesia, como em "The Second Coming", onde a discórdia e a crise são temas centrais.

Ted Hughes (1930-1998, Inglaterra) explora a frustração e a dor em seus poemas, refletindo sobre a luta humana contra as adversidades, como em "The Thought-Fox".

Trova 5.
Enfrento a dor tão constante
deste sofrer que é demais:
quero a volta de um instante
que não volta nunca mais…

A dor é descrita como uma presença constante e desgastante. O desejo pela "volta de um instante" perdido revela uma nostalgia profunda, sublinhando a impossibilidade de recuperar momentos passados. Essa reflexão sobre a efemeridade do tempo é central na obra.

Augusto dos Anjos, conhecido por sua poesia sombria, Anjos explora a dor e a melancolia em obras como "Eu". Sua visão do sofrimento ressoa com a busca do eu lírico por momentos perdidos.

Márcio Antônio Ramos escreve sobre a dor existencial e a luta contra a passagem do tempo, refletindo sobre momentos que não podem ser recuperados, semelhante à busca na trova.

A indígena brasileira Kátia Emygdio (1978, Rio de Janeiro) aborda a dor e as lutas diárias enfrentadas pelos povos indígenas, refletindo sobre a persistência da dor em suas poesias e na vida cotidiana.

A poetisa nativa americana N. Scott Momaday (1934, EUA) escreve sobre a dor e a luta em suas obras, como em "House Made of Dawn". Sua poesia reflete a constante presença da dor e a busca por momentos de beleza perdida.

Charles Baudelaire (1821-1867, França) aborda a dor e a melancolia em "As Flores do Mal", refletindo sobre o sofrimento contínuo e a busca por momentos perdidos.

Derek Walcott (1930-2017, Santa Lúcia) explora a dor e a busca por identidade em sua obra, refletindo sobre a relação com o passado e a dor persistente.

Trova 6.
Jamais busco o falso atalho
da glória não merecida...
É no suor do trabalho
que se constrói uma vida!

O eu lírico valoriza a autenticidade e o trabalho duro em contraposição à busca por reconhecimento não merecido. Essa estrofe enfatiza a construção de uma vida digna e significativa por meio do esforço e da honestidade.

Cecília Meireles valoriza a autenticidade e o esforço real em sua obra, refletindo a necessidade de construir uma vida com dignidade e honestidade, como em "Romanceiro da Inconfidência".

Fabrício Carpinejar fala sobre a importância do trabalho e da honestidade em suas crônicas e poesias, refletindo a busca por um caminho verdadeiro e significativo.

O indígena brasileiro Kaka Werá Jecupé (1953, Paraná) fala sobre a autenticidade e a necessidade de viver em harmonia com a natureza. Sua obra enfatiza a importância do verdadeiro caminho, ressoando com a valorização do trabalho duro e da autenticidade.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832, Alemanha) valoriza o autoconhecimento e o trabalho árduo em obras como "Fausto", enfatizando a importância da autenticidade na vida.

Rupi Kaur (1992, Canadá) fala sobre a autoaceitação e a importância de viver de forma autêntica em suas poesias, promovendo a ideia de construir uma vida com dignidade.

Trova 7.
Luz débil que bruxuleia,
mesmo assim ela persiste:
- a minha paz é candeia
no viver de um homem triste !

A "luz débil" é uma metáfora da esperança que persiste, mesmo em meio à tristeza. A "candeia" simboliza a paz interior que se mantém acesa, mesmo quando o eu lírico se sente perdido ou desolado.

Fernando Pessoa (heterônimo Alberto Caeiro), escreve sobre a simplicidade e a luz da natureza, refletindo a ideia de esperança e persistência, mesmo em tempos de tristeza.

A poetisa nativa americana Linda Hogan (1947, EUA) utiliza a natureza e a luz como metáforas de esperança e resistência em sua poesia. Em "Solar Storms", ela fala da persistência da vida e da esperança, refletindo a busca pela paz em meio à tristeza.

Emily Dickinson (1830-1886, EUA) utiliza a imagem da luz como símbolo de esperança e persistência em poemas como "Hope is the thing with feathers", refletindo a busca por paz em tempos difíceis.

Nayyirah Waheed (1983, EUA) aborda a luta pela paz interior e a busca por esperança em seus versos, utilizando metáforas poderosas que ressoam com a luz que persiste na escuridão.

Trova 8.
Malgrado as tristes lembranças
prossigo a viver sonhando,
acalentando esperanças
que a tristeza foi matando…

Apesar das "tristes lembranças", o eu lírico continua a sonhar e alimentar esperanças. Isso sugere uma resiliência e uma determinação de não se deixar vencer pela tristeza, embora essa luta seja difícil.

Machado de Assis explora a memória e a esperança em várias de suas obras, como em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", refletindo sobre as tristezas passadas.

Ana Cristina César, em seus poemas frequentemente lida com a memória e a busca por novos começos, refletindo a resiliência diante de lembranças dolorosas.

O indígena brasileiro Davi Kopenawa Yanomami (1956, Roraima) fala sobre a memória e a importância de recordar as tradições e a cultura Yanomami em sua obra "A Queda do Céu". Sua reflexão sobre a luta e as lembranças ressoa com a ideia de acalentar esperanças.

Robert Frost (1874-1963, EUA) explora a memória e a transição entre a tristeza e a esperança em poemas como "The Road Not Taken", refletindo sobre a resiliência diante das lembranças.

Claudia Rankine (1972, EUA) lida com a memória e a luta contra a opressão em sua obra "Citizen", onde a resiliência frente às tristezas é um tema central.

Trova 9.
Não lastime as tristes horas
da viagem que angustia...
Viver é criar auroras
no ocaso de cada dia…

A estrofe sugere um olhar positivo sobre as dificuldades. "Criar auroras" no "ocaso de cada dia" é uma metáfora poderosa que enfatiza a possibilidade de renovação e esperança, mesmo nas horas mais sombrias.

Vinicius de Moraes frequentemente fala sobre a passagem do tempo e a beleza do cotidiano, como em "Soneto de Separação", onde há um convite à renovação e à criação de novas possibilidades.

Rupi Kaur (1992, Canadá) aborda a transformação e a beleza que podem surgir do sofrimento, refletindo sobre a criação de "auroras" em momentos difíceis.

Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882, EUA) fala sobre a beleza da vida e a possibilidade de renovação em poemas como "A Psalm of Life", abordando a criação de novas oportunidades.

Ocean Vuong (1988, EUA) reflete sobre a passagem do tempo e a criação de novos começos em sua obra "Night Sky with Exit Wounds", enfatizando a beleza que pode surgir da dor.

Trova 10.
Nos garimpos desta vida,
que o destino abandonou,
eu sou bateia esquecida
que nem cascalho pegou.

O eu lírico se compara a uma "bateia esquecida", sugerindo sensação de desvalorização e abandono. Essa imagem evoca a busca por algo precioso em uma vida que parece não oferecer recompensas, refletindo a luta existencial.

Carlos Drummond de Andrade explora a busca por significado em uma vida que parece vazia, como em "Quadrilha", onde a insatisfação é um tema central.

Alexandre de Almeida reflete sobre a desilusão e a busca por valor em sua poesia, abordando a sensação de abandono e a luta pela realização pessoal.

O nativo americano Sherman Alexie (1966, EUA) explora a busca por identidade e significado em suas obras, como em "The Lone Ranger and Tonto Fistfight in Heaven". Sua reflexão sobre as experiências difíceis da vida ressoa com a ideia de garimpar valor nas dificuldades.

William Wordsworth (1770-1850, Inglaterra) explora a busca por significado e beleza nas experiências cotidianas em "I Wandered Lonely as a Cloud", ressoando com a busca por valor na vida.

David Whyte (1955, Inglaterra) aborda a busca por significado e a exploração da vida em suas poesias, refletindo sobre as experiências que moldam nossa jornada.

Trova 11.
O tempo, só por maldade,
deixou marcas do desgosto,
nas rugas de ansiedade
que hoje trago no meu rosto.

O tempo é personificado como um agente maligno, responsável por deixar "marcas do desgosto". As "rugas de ansiedade" são uma representação física do sofrimento emocional, indicando que as experiências de vida deixam cicatrizes visíveis.

Mário de Andrade explora a passagem do tempo e suas consequências em obras como "Macunaíma", refletindo sobre as marcas que o tempo deixa na vida das pessoas.

Adriana Falcão fala sobre o tempo e suas marcas em suas poesias e crônicas, refletindo sobre as experiências que moldam a vida e deixam cicatrizes.

T.S. Eliot (1888-1965, EUA) explora a passagem do tempo e suas consequências em "The Love Song of J. Alfred Prufrock", transmitindo uma sensação de ansiedade e marcas deixadas pelo tempo.

Alice Oswald (1966, Inglaterra) reflete sobre o tempo e suas marcas em sua obra "Dart", explorando a relação entre memória e passagem do tempo.

Trova 12.
Tanta mentira e incerteza
vivi nessa vida e, assim,
eu constato, com tristeza,
que a vida passou por mim…

O eu lírico reflete sobre as desilusões e a incerteza que permeiam sua vida. A afirmação de que "a vida passou por mim" expressa um sentimento de impotência e a percepção de que, apesar das vivências, algo essencial foi perdido.

Cruz e Sousa aborda a incerteza e a busca por sentido em seus versos, refletindo o desencanto com a vida em obras como "Broquéis".

Elisa Lucinda lida com a verdade e a mentira em sua poesia, abordando a incerteza da vida e as desilusões de forma intensa e reflexiva.

Friedrich Hölderlin (1770-1843, Alemanha) aborda a incerteza e a busca pela verdade em sua poesia, refletindo sobre a condição humana em obras como "Hyperion".

Anne Carson (1950, Canadá) lida com a complexidade da verdade e da incerteza em sua obra "Autobiography of Red", refletindo sobre as desilusões da vida contemporânea.

IMPORTÂNCIA DAS TROVAS DE VALDEZ PARA A SOCIEDADE ATUAL

Promoção do Diálogo Emocional:
As trovas de José Valdez incentivam a expressão emocional e a reflexão sobre questões que muitas vezes são silenciadas na sociedade contemporânea. Essa abertura pode ajudar a formar comunidades mais empáticas e solidárias.

Inspiração e Esperança:
Em tempos desafiadores, as mensagens de esperança e resiliência encontradas nas trovas podem servir como um bálsamo, motivando as pessoas a continuarem lutando por seus sonhos e a encontrarem beleza nas pequenas coisas.

Valorização da Cultura e da Poesia:
A leitura e a apreciação de poesia, como a de Valdez, podem revitalizar a cultura literária, incentivando novas gerações a se conectar com a linguagem e as emoções. Isso pode enriquecer a educação e promover um maior entendimento das nuances da experiência humana.

Reflexão e Autoconhecimento:
As trovas estimulam a introspecção, levando os leitores a refletir sobre suas próprias vidas, experiências e sentimentos. Essa prática de autoconhecimento é essencial em uma sociedade que frequentemente prioriza o externo em detrimento do interno.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As trovas de José Valdez, com suas profundas reflexões sobre a dor, a esperança, o amor e a passagem do tempo, encontram um eco ressonante no mundo atual. Em uma sociedade marcada por incertezas, ansiedades e um ritmo acelerado, as temáticas que Valdez aborda se tornam ainda mais relevantes. Demonstram como essas questões se conectam com a contemporaneidade e suas relações com poetas brasileiros e estrangeiros, além dos benefícios que essas trovas podem trazer à sociedade.

A luta para lembrar ou esquecer experiências passadas é uma questão universal. Em tempos de redes sociais e constante exposição, muitos enfrentam o desafio de lidar com lembranças e traumas. As trovas de Valdez abordam essa luta de maneira sensível, promovendo a reflexão sobre o passado como um elemento formador da identidade.

Em um mundo frequentemente marcado por crises — sejam sociais, políticas ou ambientais — a busca pela esperança e pela paz se torna fundamental. As mensagens do trovador sobre manter a luz acesa em tempos escuros ressoam profundamente, inspirando a resiliência e a capacidade de sonhar.

A solidão e a dor são experiências comuns na vida moderna, exacerbadas pela despersonalização das interações digitais. As trovas oferecem um espaço para reconhecer e validar esses sentimentos, promovendo empatia e compreensão coletiva.

A valorização do trabalho árduo e da autenticidade, presente nas trovas de Valdez, é um chamado para a ética e o esforço sincero em um mundo muitas vezes marcado pela superficialidade e pelo imediatismo.

A conexão entre Valdez e poetas como Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado é evidente na forma como ambos exploram a condição humana. Drummond, por exemplo, lida com a angústia e a busca de sentido em uma sociedade complexa, enquanto Prado celebra a simplicidade e a beleza das pequenas coisas. Essas influências refletem uma continuidade na busca por expressar a experiência humana em suas múltiplas facetas.

Poetas como Pablo Neruda e Emily Dickinson também dialogam com as temáticas de Valdez. Neruda, com sua celebração do amor e da vida, e Dickinson, com suas reflexões sobre a esperança e a solidão, oferecem uma perspectiva enriquecedora sobre os sentimentos que Valdez expressa. Essas conexões ampliam o entendimento das emoções humanas, mostrando que, apesar das diferenças culturais, as experiências universais permanecem.

As trovas de José Valdez de Castro Moura não são apenas uma expressão poética de sentimentos profundos; elas são um convite à reflexão sobre a condição humana em um mundo contemporâneo repleto de desafios. Ao dialogar com poetas de diferentes épocas e culturas, Valdez nos convida a explorar as complexidades da vida, promovendo um entendimento mais profundo de nós mesmos e dos outros. Em última análise, suas trovas oferecem um espaço para a cura, a esperança e a conexão, essenciais para uma sociedade mais empática e resiliente.

Fonte: José Feldman. 50 Trovadores e suas Trovas em preto e branco. vol.1. 
Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul. 2024.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Domitilla Borges Beltrame (Trovas em Preto & Branco)

                           
1
A exemplo de um bom peão,
eu já não tenho altivez;
se um amor me joga ao chão
tiro o pó...tento outra vez!
2
A nossa fé é a virtude
que nos dá tanto otimismo,
que deixa ver, da altitude,
a flor nas trevas do abismo!
3
Brigamos, mas a tormenta
em instantes se desfaz...
um grande amor sempre inventa
um arco-íris de paz!
4
Com altivez, disse um dia:
- “Ir procurar-te? Jamais!”
Mas a saudade vadia
não respeita o “nunca mais”…
5
Das ofensas de um irmão
não guardes nenhum rancor,
que um minuto de perdão
vale uma vida de amor!
6
Em minha varanda, a sós,
vendo os ganchos na parede,
eu choro a falta dos nós
que amarravam nossa rede!
7
Lembro a garoa...a seresta...
minha feliz mocidade
e o que restou desta festa
embala minha saudade!
8
Na calmaria aparente,
num silêncio enganador,
saudade dentro da gente,
grita mais alto que a dor…
9
"Olvidarei !"...E, orgulhosa,
nem chorei na despedida,
mas, a saudade, teimosa,
foi no meu lenço, escondida!
10
Perco todos os cansaços
e minha angústia tem fim,
ao doce som dos teus passos
no cascalho do jardim…
11
Quando a vida, num desmando,
fecha a porta da esperança,
vem a saudade, arrombando,
as janelas da lembrança !…
12
Revejo o passado e penso,
sem surpresa e sem espanto,
que o tempo, às vezes, é o lenço
com que Deus me enxuga o pranto…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

SOBRE AS TROVAS DE DOMITILLA
por José Feldman

As trovas de Domitilla Borges Beltrame refletem uma profunda sensibilidade e emoção. Cada uma delas aborda temas como amor, saudade, perdão e memória, utilizando uma linguagem simples e poética que toca o coração.

REFLEXÕES TROVA A TROVA

1 – Resiliência no Amor: destaca a força de recomeçar após desilusões amorosas, mostrando a capacidade humana de se levantar e tentar novamente.

2 – Fé e Otimismo: fala sobre a fé como uma virtude que ilumina momentos difíceis, revelando beleza mesmo nas situações mais sombrias.

3 – Conciliação nas Relações: enfatiza a importância do amor na superação de conflitos, simbolizando a paz que pode surgir após a tempestade.

4 – Saudade e Promessas: toca na inevitabilidade da saudade, mesmo diante de promessas de distanciamento.

5 – Perdão e Amor: ressalta o poder do perdão e como ele pode transformar relacionamentos e vivências.

6 – Memórias e Solidão: revela a solidão e a dor da falta, utilizando a imagem da varanda e dos ganchos para simbolizar a ausência.

7 – Saudade da Juventude: remete à nostalgia, mostrando como as lembranças de tempos felizes marcam profundamente.

8 – Silêncio e Saudade: destaca a intensidade da saudade, que pode ser mais forte que a dor física, mesmo em momentos de aparente tranquilidade.

9 – Despedidas e Lembranças: aborda a dificuldade de deixar ir, simbolizando a saudade que persiste mesmo após tentativas de esquecer.

10 – Alegria nas Pequenas Coisas: ressalta como a presença do outro pode dissipar a tristeza e trazer alegria.

11 – Saudade e Lembrança: mostra a saudade como uma força que invade a mente e o coração, trazendo à tona memórias.

12 – Reflexão sobre o Tempo: A última trova reflete sobre a relação entre o tempo e a dor, sugerindo que ele pode ser um conforto em momentos de tristeza.

TEMÁTICAS PRINCIPAIS

Amor e Desilusão: Muitas trovas falam sobre a jornada emocional de amar e enfrentar desilusões. A capacidade de recomeçar é uma constante, refletindo a resiliência humana.

Saudade: A saudade é um tema central, retratada como uma força poderosa que pode trazer tanto dor quanto beleza. É uma expressão de amor que persiste mesmo na ausência.

Perdão: O perdão aparece como um ato transformador. A autora sugere que perdoar é um caminho para a paz e a reconciliação, mostrando a importância das relações saudáveis.

Memória e Tempo: O tempo é visto de maneira ambivalente; ele pode curar, mas também intensificar a saudade. As lembranças são retratadas como uma parte intrínseca da experiência emocional.

ESTILO POÉTICO

Simplicidade e Profundidade: A linguagem utilizada é acessível, mas carrega profundidade emocional. A simplicidade das palavras contrasta com a complexidade dos sentimentos.

Imagens Visuais: Domitilla usa imagens cotidianas (como a varanda e os ganchos) para evocar emoções, tornando as trovas mais relacionáveis e vívidas.

Ritmo e Musicalidade: O formato em trova confere um ritmo musical, tornando a leitura quase cantada e aumentando seu impacto emocional.

CONCLUSÃO

As trovas de Domitilla Borges Beltrame servem como um espelho das vivências de muitas pessoas. Elas capturam a essência da vida, abordando a beleza e a dor de forma equilibrada. O convite à reflexão sobre o amor, a perda e a reconciliação torna suas obras atemporais e universais, ressoando com leitores de diversas épocas e contextos. 

Fonte: José Feldman. 50 Trovadores e suas Trovas em preto e branco. vol.1. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul. 2024.

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...