Trovadores em Ordem Alfabética

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

João Costa (Falando de Amor)


Num mar de pura magia
o umbral do tempo transponho,
rumo ao reino da utopia,
na caravela do sonho.

Um gosto de fim de festa,
tristeza, desilusão
É tudo, enfim, que nos resta
depois que os sonhos se vão...

Em meu delírio, cansado
de tanto em vão te esperar,
a saudade canta um fado
e faz minha alma chorar.

Peço-te perdão, querida ,
pela audácia de querer-te,
de sonhar-te em minha vida,
de imaginar merecer-te.

Nossas emoções primeiras,
sob o efeito da paixão,
são fortes, mas passageiras,
como chuvas de verão.

Viva intensamente quem
tem um sonho a ser vivido
que a saudade sempre vem
atrás de um sonho perdido…

Não me indagues por que te amo.
Não saberia dizer.
Eu te amo só porque te amo.
Que outra razão pode haver?

A vida é triste, sombria,
nesta minha solidão.
Sem a tua companhia,
é inverno em pleno verão.

A noite é perfeita e bela,
a lua encanta e seduz,
tecendo em nossa janela
uma cortina de luz.

Poesia, vida, beleza,
bem-aventurança, dor,
felicidade, tristeza…
É isso e bem mais o amor.

Jurei que não voltaria,
ao partir, e assim o fiz.
Lamento essa teimosia
que só me fez infeliz…

De príncipe me chamava
e a gente era tão feliz.
E quando não mais se amava,
nem como escravo me quis.

Tu me prendes com abraços,
torturas com tal paixão,
que, sendo algemas teus braços,
bendita seja a prisão!

Nem ouro nem o fulgor
dos diamantes trago, e sim,
no peito, a rosa do amor;
nas mãos, carinhos sem fim.

Passa o tempo… Passa a vida…
E eu não consigo esquecer-te.
Não me perdôo, querida,
pelo crime de perder-te.

É noite… Insone, penando,
nesta triste solidão,
ouço o silêncio gritando
dentro do meu coração.

Na despedida, confiei
na promessa que fizeste:
– Espera-me, eu voltarei!
Mas quando… não me disseste.

Dos bons acontecimentos
de minha vida, bendigo
aqueles doces mementos
que pude viver contigo.

Desiludido da vida,
do amor – em total entrega -,
sou folha no chão caída
que nem o vento carrega.

Desfeito o sonho mais puro,
longe de quem tanto quis,
para não sofrer, procuro
esquecer que fui feliz…

Não ambiciono o Eldorado.
Meu mundo, embora singelo,
contigo sempre ao meu lado,
é dos mundos o mais belo.

Relembramdo tempos idos,
abro a agenda da memória
e encontro sonhos perdidos,
pedaços da nossa história.

Quero um relógio, querida,
cujo mágico processo,
atrase a tua partida
e abrevie o teu regresso.

– Eu volto! – me consolava.
Mas, em profunda agonia,
meu coração pressagiava
que ela jamais voltaria…

Somos metades perdidas
e eu espero te encontrar.
E esperarei quantas vidas
ainda tiver que esperar…

Cansado de tanto errar,
nessa procura infeliz,
já nem sei se ao te encontrar
eu me sentirei feliz.

Que te amo ao mundo proclamo.
Duvidas, mas eu insisto.
Se é mentira, amor, que eu te amo,
é mentira que eu existo.

O tempo passa…Demoras…
E eu aqui a te esperar.
Meu amor, quantas auroras,
nessa espera, vi chegar!…

Voltarás…Que importa quando?
Eu só sei que voltarás…
Estarei sempre esperando
o dia em que tu virás.

Por esta senda de espinhos,
vou sufocando meus ais,
pois eu sou, sem teus carinhos,
o mais triste dos mortais.

Quis-te para sempre, amor,
mas me deste a solidão.
Hoje és saudade e esta dor
é eterna em meu coração…

Quando as almas são unidas
pelo amor, completamente,
deixam de ser duas vidas
para ser uma somente.

A noite é toda poesia.
Lua e estrelas a brilhar…
Mas, sem tua companhia
de que me serve o luar?…

De exuberância suprema,
que nos encanta e extasia,
cada alvorada é um poema
que Deus compõe todo dia.

Tua presença é poesia,
tudo de bom para mim;
teu sorriso pressagia
felicidade sem fim…

Os meus dias são tristonhos.
Tu não vens e o tempo avança.
Nem mesmo no mar dos sonhos
vislumbro a nau da esperança.

Quando eu me for desta vida,
irei a meu Deus pedir
que ele me faça, querida,
reencontrar-te no porvir.

Descobri, ao te perder,
que, sem direito a perdão,
fui condenado a viver
algemado à solidão.

De saudade angustiado,
faço versos soluçando
e cada trova é um recado
por teu regresso implorando.

Mais triste e pior castigo
do que o meu não pode haver:
- Não pode viver contigo,
sem ti não saber viver...

Nós dois... A felicidade...
Muito amor... Sonhos... Depois,
a distância e a saudade
como abismo entre nós dois...

Que importa o tempo passado,
se é tão grata a descoberta?
- Ao ver-te ainda ao meu lado,
sei que fiz a escolha certa!

Dei a ti meu coração,
muito te amei e te quis.
Se tudo foi ilusão,
não importa, eu fui feliz!...

Os meus versos se calaram,
à saudade sucumbi,
minhas lágrimas secaram
de tanto chorar por ti...

Ao partires, me disseste:
- Espera-me, eu voltarei!
O tempo passou... Não vieste...
E o pior: eu te esperei.

Recomeça a nostalgia
quando o dia vai morrendo.
Não suporto esta agonia.
Volta, amor, estou sofrendo!

O tempo que tudo apaga,
promovendo o esquecimento,
em vez de apagar afaga
teu nome em meu pensamento.

Que em tua ausência dispare,
eu apelo ao tempo; e quando
estivermos juntos, pare,
o momento eternizando.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
João Costa (1952)
O poeta e trovador conhecido no meio literário como o "Trovador de Saquarema" é o escritor fluminense João Costa. Conhecido por sua dedicação irretocável à trova, ele marcou seu nome na história dos Jogos Florais do estado do Rio de Janeiro. Nascido no distrito de Monnerat, no município de Duas Barras, estado do Rio de Janeiro, em 1952. Embora tenha nascido em Duas Barras, viveu grande parte de sua infância, juventude e início de carreira na cidade de Nova Friburgo (RJ). Posteriormente, mudou-se para o município litorâneo de Saquarema (RJ), localidade onde se estabeleceu permanentemente e que lhe rendeu o carinhoso título regional. Antes de se dedicar integralmente à preservação e ensino da trova, João Costa construiu uma carreira sólida na comunicação. Trabalhou durante anos no meio radiofônico, atuando com destaque na histórica Rádio Nova Friburgo AM. Seu trabalho na radiodifusão foi o elo principal que o aproximou de intelectuais, poetas e do movimento trovadoresco do estado.
Sua caminhada na literatura é intimamente ligada ao resgate histórico e prático da trova fluminense. Em Nova Friburgo, conviveu e aprendeu com grandes referências do gênero, como Rodolpho Abbud, Aloízio de Moura, Nádia Huguenin e o próprio J. G. de Araújo Jorge (um dos maiores pilares da trova nacional). A partir dessa convivência, João Costa transformou-se em um embaixador do gênero, organizando e participando ativamente de tertúlias, saraus e oficinas para crianças em escolas públicas. Ao longo de décadas de dedicação à poesia, foi premiado e recebeu menções honrosas em diversos Jogos Florais (concursos específicos de trovas de âmbito nacional e estadual). Além disso, sua maior honraria é o reconhecimento pedagógico, sendo constantemente homenageado por redes municipais de ensino fluminenses através de projetos como a "Manhã Literária".
Sua publicação mais célebre funciona simultaneamente como uma autobiografia e um documento historiográfico, relatando minuciosamente a história e a evolução da trova em Nova Friburgo e no estado do Rio de Janeiro. A obra compila dezenas de trovas autorais marcantes, como os versos dedicados ao principal monumento rochoso friburguense. 
A relevância de João Costa para a literatura brasileira concentra-se em seu papel como guardião de uma tradição poética genuína. A trova é uma das formas de poesia mais democráticas e populares da língua portuguesa, e o trabalho de João Costa impede que ela caia no esquecimento. Ao levar o formato para dentro das salas de aula e registrar a memória histórica dos antigos trovadores fluminenses, ele atua não apenas como criador de beleza estética, mas como um educador patrimonial e incentivador da leitura para as novas gerações de poetas.

Fonte:
João Costa. Meu Caderno de Trovas. Saquarema, RJ: Edição Artesanal, 2011. Enviado pelo trovador.

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