Tudo! ... tudo morreu, mas n'alma brota Uma esperança ainda.
SÊNIO
A alma aberta. . . e chega-me a saudade
Do meu amor — coitado! — a enchê-la. . . a enchê-la...
Como me enchia o peito a felicidade
Dos bons sorrisos, dos carinhos dela.
E o martírio e a tristeza agora é tê-la
Ausente — ausente! ... e a cruel vontade
Que avulta e eu a tenho e é de vê-Ia,
Inda mais cresce aqui na soledade.
Mas nesta ausência em que — só de pensar —
Sinto que a vida vai-se me acabando,
Inda vem-me — feliz! — acalentar
As esperanças que ela dava quando,
— Cego de amor que a luz vai mendigando —
Ia pedir-lhe a esmola de um olhar.
SÚPLICA
Deixa esses mortos graves,Quero a luz desse olhar ase me consola.
( L. CORREIA: "Canção" — Volatas )
Se o teu olhar me conta, magoado,
Quando a dor me tem feito dentro d'alma,
Inda que o lábio cale, descorado,
Este martírio que o teu riso acalma,
E se deste sofrer encontro a palma
No teu piedoso riso, imaculado,
Por que não volves à alegria, à calma?
Por que me deixas triste e amargurado?
Descerra o lábio! A dor, o esquecimento;
Lança-me o sol do teu sorriso, basta
Para aquecer-me a alma em desalento.
A nuvem do pesar do rosto afasta:
— longe de nós a mágoa, o sofrimento;
Limpa-me o céu da tua fronte casta!
A UM RETRATO
Até vós! até vós! talismã sagrado
Daquele morto amor, daquele amor eterno,
Ides deixar-me só, e triste, e abandonado!
Ó meu fiel amigo, inseparável, terno!
Oh! meu leal companheiro, oh! testemunho amado
Deste sofrer sem termo, este martírio interno;
Até vós! até vós! a quem só hei confiado
Os meu dias de céu e os meus dias de inferno,
Ides abandonar-me, ides voltar contente,
Sujeitar-vos, feliz, ao doce julgo dela;
Mas quero que volteis tão límpido e nitente,
Que na morta expressão de vossa fronte bela
Não se note o vestígio, — esse vestígio ardente
Das lágrimas de dor que derramei por ela!
ASPIRAÇÃO
De uma vida sem fé ao glacial inverno
Furtei-me sacudindo o gelo da descrença.
Aquece-me outra vez este calor interno,
Anima-me outra vez uma alegria intensa.
Sinto voltar-me a minha antiga crença,
Creio outra vez no céu e no descanso eterno,
Pois creio em teu olhar, e na ventura imensa
Que ele encerra, e me mostra apaixonado e terno.
E quando deste corpo a alma arrebatada
Seja, e procure, flor, essa região sagrada
Que aos bons é concedida, esplêndida, a irradiar,
Aos sons celestiais de apaixonado hino
Abra-se para ela, olímpico, divino,
O infinito céu do teu sereno olhar.
O VIOLINO
São, às vezes, as surdinas
Dos peitos apaixonados
Aquelas notas divinas
Que ele desprende aos bocados...
Tem, ora os prantos magoados
Dessas crianças franzinas,
Ora os risos debochados
Das mulheres libertinas...
Quando o ouço vem-me à mente
Um prazer intermitente...
A harmonia, que desata,
Geme, chora... e de repente
Dá uma risada estridente
Nos "allegros" da Traviata.
A UM PESSIMISTA
Olhas o céu e o céu, todo em atra gangrena,
Se te mostra corroendo as rútilas esferas.
Baixas à terra o olhar e a terra, em outras eras,
Plena de gozo e amor, ora é de horrores plena.
Sangra a etérea região, sangra a região terrena
E o horizonte, que as une, inda mais dilacera-as.
E as próprias linhas — louco! em que a sânie verberas,
Podres vêm ao papel, podres brotam-te à pena.
Mas, se ao céu e se à terra, e se ao horizonte e ao verso,
Asco e náusea tressuando, a podridão atrelas
E nela vês tombar e fundir-se o universo,
Sobe do chão o olhar, baixa-o das nuvens belas
E volve-o dentro em ti, pois fora o tens imerso
Na própria irradiação das tuas próprias mazelas.
DIAFANEIDADES
Brumas, névoas, no espírito doentio
Passem-me, embora veladoramente,
Tu surgirás eterna flor do estio,
Radiante, rubra, tentadora, ardente.
Toldem-me a vista sóis, e fio a fio,
Trama ofuscante me perturbe a mente,
Eu te verei, eterna flor do frio,
Fria, polar, consoladora, albente.
Visão de fogo, aparição de gelo,
O mágico poder, estranho e raro,
Dás-me de tudo a ver, nítido e belo.
Pois tudo em ti, de amor abrigo e amparo,
Faz-se como este amor que tu'alma fê-lo
Diáfano, leve, transparente, claro.
INSTANTE NEGRO
Anda, acima de nós, na abóbada infinita
Em sinistro remígio, algum sinistro corvo
Que grasna ao nosso mal e à nossa dor crocita
Pondo, entre nós e o sol o seu feral estorvo!
Anda, abaixo de nós, uma víbora aflita
Que assalta o nosso sangue e o suga sorvo a sorvo!
A terra é para nós uma furna maldita.
O céu é para nós um teto negro torvo!
Terra e céu, contra nós, se conspiraram ambos.
A vida é um volutabro*, e o sofrer não se exprime
Com que andamos por ela esfalfados e bambos.
Nem mais ao próprio poeta há um amor que o reanime,
— Em vez dele hoje entoar, hinos e ditirambos,
Canta a glória suprema e a volúpia do Crime! ...
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* Volutabro = lamaçal.
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Emílio de Meneses (1866 - 1918)
EMÍLIO NUNES CORREIA DE MENESES foi um dos mais brilhantes e temidos poetas do início do século XX no Brasil. Mestre do soneto perfeito, ficou eternizado na história literária como o principal sucessor de Gregório de Matos na poesia satírica nacional, combinando uma erudição impecável com uma ironia fina, mordaz e destruidora de reputações. Nasceu em Curitiba/PR, em 1866 e faleceu no Rio de Janeiro/ RJ em 1918, aos 51 anos de idade. Passou a infância e a juventude em Curitiba. Aos 18 anos, mudou-se para a capital federal, (Rio de Janeiro), onde viveu a maior parte da sua vida adulta e se consolidou nos círculos intelectuais. Teve uma breve passagem pela cidade litorânea de Paranaguá (PR) em 1889, retornando em definitivo ao Rio logo no ano seguinte.
De origem humilde, Emílio começou a trabalhar ainda na adolescência (aos 14 anos) como ajudante na farmácia de um cunhado em Curitiba. No Rio de Janeiro, sua grande arena foi o jornalismo. Atuou como cronista, repórter e colaborador assíduo de colunas de humor e política em periódicos influentes (frequentemente usando pseudônimos provocadores como Zangão, Gaston d'Argy e Neófito). Durante o período do Encilhamento (uma bolha financeira no início da República), ele arriscou dinheiro no mercado de ações, enriqueceu rapidamente e passou a ostentar uma vida de luxo, roupas extravagantes e alta alfaiataria. Contudo, perdeu tudo com a mesma velocidade, tornando-se o arquétipo do último grande boêmio da suntuosa Belle Époque carioca, vivendo nos cafés e confeitarias do centro do Rio.
A obra de Emílio de Meneses é marcada por uma fascinante dualidade: de um lado, poemas formais melancólicos e obsessivos com o tema da morte; de outro, os sonetos satíricos, improvisados nos bares, que ridicularizavam políticos, generais e desafetos intelectuais. Esteticamente, ele se filiou ao Parnasianismo, corrente que exigia rigor formal máximo e rimas raras. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1914, e protagonizou um dos momentos mais rebeldes da história da ABL. O seu discurso de posse foi considerado tão agressivo e satírico pela comissão da academia que eles exigiram cortes e censuras. Altivo, o poeta recusou-se a alterar uma única linha de seu texto. Por causa desse impasse, ele morreu em 1918 sem nunca ter tomado posse formal de sua cadeira.
Na virada do século XIX para o XX, a literatura brasileira não contava com o sistema moderno de prêmios institucionais ou editais governamentais. O grande "prêmio" e validação de um autor na época era a consagração popular nos jornais, o aplauso nas rodas da Confeitaria Colombo e, no topo da pirâmide, a eleição para o fardão da ABL — honrarias que Emílio obteve amplamente em vida devido à sua genialidade técnica incontestável. Embora grande parte de suas sátiras tenha sido distribuída oralmente ou em pasquins da época, ele publicou volumes de fôlego: Marcha Fúnebre (Sonetos, 1892); Poemas da Morte (1901); Dies Irae – A Tragédia de Aquidabã (Poema épico-trágico, 1906); Poesias (Compilação, 1909); Últimas Rimas (1917); Mortalha - Os Deuses em Ceroulas (Reunião póstuma de artigos, organizada em 1924)
Emílio de Meneses é uma figura crucial na literatura brasileira por ter provado que o rigor técnico impecável da escola parnasiana (o "culto à forma") não precisava ficar restrito a temas acadêmicos, distantes ou excessivamente sérios. Ao canalizar a métrica perfeita do soneto para a crônica humorística e a sátira feroz, ele agiu como um cronista de sua era, despindo as vaidades políticas da Primeira República e humanizando a poesia do período. Junto a nomes como Nestor Vítor e Emiliano Perneta, ele ajudou a colocar o Paraná no mapa das grandes forças literárias do país, quebrando o eixo exclusivo de produção Rio-São Paulo.
Fontes:
Obra Reunida, de Emílio de Menezes. RJ: Livraria José Olympio, 1980.
Biografia = Repositório da UFSC, Wikipedia, Recanto do Poeta, Antonio Miranda, Ascademia Brasileira de Letras, Notibras, Enciclopedia Itaú Cultural, etc.

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