Trovadores em Ordem Alfabética

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sábado, 21 de junho de 2025

Wilma Mello Cavalheiro (Pelotas/RS)

1
A festa estava prontinha,
mas tudo às vezes malogra;
pra surpresa da noivinha,
o noivo fugiu com a sogra!
2
"A luz purifica o escuro":
revela a casta Tereza;
e quando o "momento" é impuro,
faz tudo de luz acesa.
3
A minha infância distante
se reflete no meu filho,
por isso, no meu semblante,
o entardecer tem mais brilho.
4
A moça chora num brado
e o padre diz, em voz lenta:
- Pra lavar tanto pecado,
só um tanque de água benta!
5
Anoitece... a paz perdura
no aconchego do galpão;
galopa solta a ternura
em volta do chimarrão.
6
Ante a indecisa galinha,
diz o galo, convincente:
- Não troca o velho, joinha,
por um frango incompetente.
7
Brinquedos da minha infância
que foram meu universo,
hoje, rompendo distância,
são saudades do meu verso.
8
- Chega de versos, de prosa,
diz a garota ao noivinho,
pois tem coisa mais gostosa
pra se fazer no escurinho!
9
Chuta, menina, com jeito,
teu jogo é alegre... peralta.
Depois, apara no peito
porque peito não te falta!
10
Depois do vento ferino,
que me arrancou dos teus braços,
o barco do meu destino
navega roto... em pedaços…
11
Do teu palco iluminado,
ris de mim, sem ter ideia,
do quanto eu sofro calado
na penumbra da plateia.
12
Dulcifico meu sorriso,
louca euforia me invade,
quando chegas, sem aviso,
rompendo o nó da saudade.
13
Ela diz em tom brejeiro:
- Cumpro bem o meu papel.
Quero o amor do marinheiro
e o soldo do coronel.
14
Enfrento o vento malvado,
molhado de chuva e frio,
pois para estar ao teu lado
venço qualquer desafio.
15
Entre dúvidas e medos,
que a distância ocasionou,
fechada, dança em meus dedos
a carta que hoje chegou.
16
Esquece esta vida andeja,
vem tomar um chimarrão,
é cedo, a manhã boceja,
na longa esteira do chão!
17
Esqueço lei, preconceito,
e algum tabu superado,
só para ter o direito
de amanhecer ao teu lado.
18
Esqueço os dias tristonhos,
vou à luta, sem tardança;
ao porto azul dos meus sonhos
regressa a nau da esperança.
19
Esta saudade que é tua
dança no meu pensamento,
como a chuva lá na rua
sob a regência do vento.
20
Este sol fraco, inconstante,
trará luzes de outros sóis,
para amanhã, mais radiante,
te acordar nos meus lençóis.
21
Eu acredito e confesso
que a mais cruel das partidas
é a partida sem regresso,
para o rumo de outras vidas.
22
Feito de fugas e medo,
de regressos e partidas,
nosso amor, mesmo em segredo,
dá mais vida às nossas vidas.
23
Foi preciso muito brio,
quase a coragem faltou,
para enfrentar o vazio
que a tua ausência deixou.
24
Há sempre um rastro de luz
protegendo a caminhada
de quem abriga e conduz
a infância desamparada.
25
Hoje, no ocaso da vida,
tem sabor de eternidade
esta ternura incontida
que floriu na mocidade.
26
Meu chimarrão, tu retratas
meu pampa com perfeição:
por dentro, o verde das matas,
por fora, a cor do meu chão.
27
Minha alma se fortalece,
levo melhor minha cruz,
quando através de uma prece
acho o caminho da luz.
28
“Minuano”, teus intentos
comprovam, em forte estampa,
que és o corsário dos ventos
na imensidão do meu pampa.
29
Na bomba, o beijo deixado,
na entrega, o tremor da mão,
e o meu amor, tão guardado
se traiu no chimarrão!
30
Na lareira um fogo brando
e, entre doses de licor,
nossos corpos desenhando
todas as formas de amor.
31
Não há lei irrevogável,
se amparada na razão;
toda sentença é mutável,
se a luz rasga a escuridão.
32
Não precisa o trovador
ir à lua, ver estrelas,
na noite, em rimas de amor,
ele é capaz de entendê-las.
33
Nesta noite rosicler
a lua, tão feminina,
tem o charme da mulher
e a pureza da menina.
34
O barco da minha infância
cruzou mares... velejou...
chorou saudades... distância...
mas nunca mais regressou.
35
O destino arma ciladas
que só coragem e a fé,
conseguirão, se irmanadas,
manter-nos vivos, de pé.
36
Outrora, a paz benfazeja,
noites de amor sob a lua,
hoje, na noite viceja
o crime, solto, na rua.
37
Peço ao sol, em oração,
e à lua, em seu branco véu,
que não falte um chimarrão
na grande estância do céu!
38
Por tantos textos errados,
somos hoje, sem favor,
dois atores fracassados
no grande palco do amor.
39
Quando a paixão se agiganta,
tão feiticeira e felina,
cala-se a voz na garganta
e só o prazer nos domina.
40
Quando em serena cadência,
na dança que o amor requer,
desnudo sem resistência
meus anseios de mulher.
41
Quando minha alma mentiu,
ao jurar que te esqueceu,
o meu orgulho aplaudiu
a grande atriz que fui eu.
42
Quanto tempo posto fora,
numa procura sem jeito,
sem ver as luzes da aurora,
porque era noite em meu peito.
43
- Que fazias no escurinho,
junto àquele rapagão?
- Não penses mal, papaizinho,
fazia meditação!
44
Quero o torpor, a leveza,
que o licor me propicia,
para acalmar a tristeza
da minha vida vazia.
45
Regressa... tudo te espera...
os teus discos, teu licor,
e uma doce primavera
desfeita em beijos de amor.
46
Roda, criança querida,
teu carrinho... teu pião...
Enquanto a roda da vida
não levar tua ilusão…
47
São brinquedos fulgurantes,
que brilham soltos...ao léu...
as estrelas cintilantes
que a lua joga no céu.
48
Se a Lei Divina se encerra
na paz, no amor, no perdão,
por que rolam pela terra
crianças que não têm pão?
49
Se é feitiço ou se é magia,
não sei, nem quero saber,
só sei que virou mania
este amor que é o meu viver.
50
Sem coragem, dividida,
entre a paixão e a razão,
minha alma é folha caída,
num vendaval de emoção.
51
Sem guerrilha... sem debate...
rola o manto da cobiça,
quando a espada do combate
verga-se à Lei da Justiça!
52
Sem temor e sem ressábios
hoje enfrento o mar fremente,
para no cais dos teus lábios
aportar meu beijo ardente.
53
Se queres manter-te em pé,
ter mais luz em tua andança,
acende o incenso da fé
no castiçal da esperança.
54
Se sofro não perco a calma,
a fé meus passos conduz;
a força que guardo na alma
se renova e acende a luz.
55
Se te esqueceste do texto,
se foste péssimo ator,
não busques nenhum pretexto
para os teus erros no amor.
56
Seu chute ninguém olvida,
atleta bom e sarado,
por isso a “gata” o convida
pra jogar no seu gramado…
57
Tem tanta preguiça, tanta,
e modos tão indolentes,
que quando almoça, não janta,
pra não dar trabalho aos dentes.
58
Tentei fugir de mansinho,
devagar romper os laços;
desisti, qualquer caminho
sempre me leva aos teus braços.
59
Teus cílios, negra cortina,
escondem dos olhos meus,
toda a magia divina
que dança nos olhos teus.
60
Tu és, amor, a alegria,
o meu vinho, o meu licor,
ao raiar de um novo dia,
abrindo as portas do amor.
61
Voltei feliz para vê-la.
Frustração. Não me quis mais.
Somente os olhos da estrela
me viram chorar no cais.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Waldir Neves (Rio de Janeiro/RJ, 1924 - 2007)

1
Abandono… O Sol declina…
Vem baixando a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!
2
A cortina da janela…
A cama… Tudo tal qual…
— Só que o cenário, sem ela,
nunca mais vai ser igual…
3
A espontânea palavrada,
que acompanha um tropeção,
faz bem crer que uma topada
seja a mãe do palavrão.
4
A glória dos homens brilha
com fulgor de eternidade,
toda vez que uma Bastilha
tomba aos pés da Liberdade!
5
Ah!, meu peito… Esta saudade…
Quero que a expulses, que grites…
Tu lhe deste intimidade,
e ela passou dos limites!
6
Amanhece… A névoa fina
vai cobrindo a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!
7
Ao sair d’água, a banhista
gritou de vergonha: – “Xiii…”
no maiô, na frente e à vista,
veio agarrado… um siri !
8
A saudade, em horas mortas,
sem ver que o tempo passou,
teima em abrir velhas portas
que há muito a vida fechou…
9
Cai a noite… Seu negrume,
mercê de um mistério estranho,
faz de um ínfimo perfume
um lamento sem tamanho…
10
Circo novo na cidade!
- No poleiro, a dar risada,
olhem lá minha saudade
no meio da garotada!
11
Depois que os céus lhe mandaram
As gotas do seu desejo,
duas outras marejaram
os olhos do sertanejo…
12
Deste-me um beijo – um somente!
E queres que eu me console …
- O desejo é sede ardente,
que não se mata de um gole!…
13
Deus intangível, etéreo,
mas sempre amor e indulgência,
guarda no próprio mistério
sua infinita evidência.
14
Deus que é paz… amor profundo,
em sua excelsa grandeza,
se é mistério para o mundo,
para mim é uma certeza!
15
Doente, a velha cegonha
recusa trabalhos duros,
e pra não passar vergonha
só carrega … prematuros.
16
Enquanto eu durmo, querida,
minh’alma, por compulsão,
se aninha e dorme, encolhida,
aí… no teu coração.
17
Espalhou pedras à estrada
do velho barraco… “Ô xente!
Não dizem que é só topada
que põe o pobre pra frente ?…
18
É uma lágrima sentida
que toda mulher enxuga:
a que lhe rola escondida
por sobre a primeira ruga!
19
Faz teu ciúme um barulho
que me soa encantador.
- Ele acorda o meu orgulho
de dono do teu amor!…
20
Flagrado, na contramão,
no quarto da serviçal,
o vivaldino patrão
fingiu “confusão mental”
21
Folha em branco… A esmo, um nome
rabisco, na tarde calma.
E a angústia… que me consome…
vai rabiscando minh’alma…
22
Fugi do amor com receio
do seu fascínio… e o que fiz
foi só cortar, pelo meio,
meu meio de ser feliz….
23
Homem sem rasgos nem brilho,
a quem a luz não atrai,
vou me orgulhar se meu filho
tiver orgulho do pai.
24
Importuno e impertinente,
o desejo insatisfeito
sempre foi, literalmente,
meu “inimigo do peito”…
25
Irmãos no meu insucesso
o peito implora, a alma pede…
Todos querem teu regresso…
Só meu orgulho não cede!
26
Maduro ao sol outonal,
pela brisa acariciado,
freme, ondulante, o trigal,
num desvario dourado !…
27
Mais vibrantes, mais risonhos
a palpitar de inquietude,
diferem dos outros sonhos
os sonhos da juventude!
28
Meus braços estão vazios,
meus desejos transbordando,
meus pensamentos vadios
no quarto te procurando.
29
Motel chique… Olha o marido!!!
E a confusão foi tão feia,
que blusa virou vestido,
e sutiã virou meia.
30
Muito moço inconseqüente,
despreparado e revel,
ganha têmpera de gente
na bigorna do quartel.
31
Na casa do casal velho,
a confusão é total:
-lê-se o jornal no Evangelho;
e o evangelho, no jornal.
32
Não te esqueças, otimista,
de lembrar, no teu anseio,
que, entre o desejo e a conquista,
há sempre pedras no meio…
33
Neste abandono sofrido,
sou mais um, que, por vaidade,
deixou que o orgulho, ferido,
matasse a felicidade…
34
No abandono, desvairado,
levo noites a fitar
o vestido desbotado
que ela esqueceu de levar…
35
No apogeu do seu ardor,
tão ternamente se exprime,
que chamamos nosso amor
o “desvario sublime”.
36
No rubro céu da alvorada,
um ponto pisca e alumia…
- É uma estrela embriagada
que volta da boemia!
37
Nos abismos do mistério,
onde a razão perde a voz,
talvez o desvão mais sério
se oculte dentro de nós…
38
Nosso amor é, neste ensejo,
brasa oculta em cinza quente.
-Basta um sopro de desejo,
e arde em fogo, novamente…
39
No teu sucesso, milhares
Vêm implorar-te favores.
Uns poucos, se fracassares,
partilham das tuas dores
40
O abismo maior que existe,
o mais fundo que já vi,
é aquele que um homem triste
carrega dentro de si…
41
O desvario arrebata…
E eu fui por falso caminho.
Minha sombra, mais sensata,
deixou-me seguir sozinho…
42
O golpe da despedida
foi tão rápido e tão fundo,
que fracionou minha vida
numa fração de segundo…
43
O ladrão, envergonhado,
diz : – “Doutor, vim me entregar:
o roubo era tão pesado
que eu não pude carregar…”
44
O mendigo da calçada,
a quem a mágoa não poupa,
talvez tenha esfarrapada
bem mais a alma que a roupa.
45
Opondo orgulho e egoísmo
aos meus acenos risonhos,
cavaste o profundo abismo
onde enterrei os meus sonhos.
46
O vento leva a amizade,
leva o amor, o riso e os ais,
só não carrega a saudade,
- acha pesada demais!
47
Para a “sede de saber”
há no mundo água abundante.
Para a “sede do poder”
água nenhuma é bastante…
48
Perante a Divina Luz
a Ciência se ajoelha,
pois, sendo sábia, deduz
quem lhe acendeu a centelha…
49
Perguntou-me, à despedida:
– Quem sabe é melhor assim?…
E uma lágrima incontida
deu-lhe a resposta por mim!…
50
Por topadas em excesso
- um tormento em seu caminho –
o dedão abriu processo
contra os olhos do ceguinho.
51
Posso jurar de mãos postas,
Pesando o que já passei,
Que as mais difíceis respostas
Foi em silêncio que eu dei.
52
Pra fugir do casamento,
o noivo, meio “frufru”,
alegou, como argumento,
“vergonha de ficar nu”
53
Provocador e brigão,
o General de Brigada,
sempre que arma confusão,
ela é… generalizada.
54
Quando a jovem aluada
deu, no amor, um “tropeção”,
foi um caso de “topada
com os pés fora do chão”.
55
Quando a vida, qual verdugo,
me trespassa de agonias,
minhas lágrimas enxugo
num lenço de Ave-Marias…
56
Quando Deus cobrar meu prazo,
hei de sempre aqui voltar,
ou numa sombra de ocaso,
ou num raio de luar !
57
Que momento abençoado
e que gesto redentor,
quando o orgulho, derrotado,
cai, humilde, aos pés do amor !…
58
Quem um filho vê feliz,
seguir por si, resoluto,
vive a glória da raiz
orgulhosa pelo fruto.
59
Que estranho mistério existe
no lamento da viola:
- queixume que me faz triste;
- tristeza que me consola!…
60
Quisera que Deus me desse,
acima de qualquer bem,
um orgulho que pusesse
bem abaixo o teu desdém.
61
Saudade é gota caída,
é pranto que ninguém vê:
-É uma lágrima sentida
que leva sempre a você. …
62
Saudade é uma diligência
que nos leva, docemente,
com repetida freqüência,
ao velho oeste da gente!
63
Saudade!…Foto em pedaços,
que eu colei, com mão tremida,
tentando compor os traços
de quem rasgou minha vida!
64
Saudade!… Raio de lua,
suprindo o Sol que brilhou…
Tábua solta, que flutua,
depois que o amor naufragou!
65
Saudoso dos braços dela,
voltei, contrito e humilhado.
- Quando a saudade martela,
qualquer orgulho é quebrado!…
66
Senhora de cada instante
das minhas horas vazias,
a Saudade é uma constante
na inconstância dos meus dias…
67
Severo no condenar,
o Céu abranda o rigor
quando o pecado a julgar
é um desvario de amor…
68
Sonha sim, pobre, com festa!
Que a fantasia, afinal,
é tudo que ainda te resta
neste mundo desigual!
69
Tal fascínio lhe desperta
o mistério das estrelas,
que, às vezes, de mim liberta,
minh’alma vai percorrê-las.
70
Terminamos… e ela pensa
que será logo esquecida.
O que ganhou foi presença
para sempre, em minha vida!
71
Uma das mágoas, apenas,
que à minh’alma são pesadas…
faria leves as penas
até das almas penadas…
72
“Um prodígio o seu arranco,
a dois metros da chegada!”
E o vencedor, meio manco:
“prodígio foi a topada…”
73
Velho par, na academia,
é ímpar na confusão:
-foi de sunga à confraria
e à praia foi de fardão!
74
Velho cultor de utopias
e de ambições sobranceiras,
sonho ver, ainda em meus dias,
um mundo igual, sem fronteiras!
75
Vergonha, mesmo, passou
dr. Cornélio, homem sério.
Imaginem… Processou
a mulher por adultério.
76
Vista seda ou popeline,
seja Amélia ou seja Inês,
toda mulher se define
no dia em que diz: -“Talvez!…”
77
Zerando ofensas e afrontas,
o beijo é o mago auditor
que faz o ajuste de contas
depois das brigas de amor!

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Wanda de Paula Mourthé (Trovas em Preto & Branco)

 

1
A realidade transponho
e vivo em mundo ideal...
Quero as mentiras do sonho,
não as da vida real!
2
– Barata em pinga?! Que horror!
E a garçonete “sensata”:
– Mas não pediu o senhor
a cachaça mais barata?
3
Chega bêbado… sequer
distingue um rosto e malogra:
dá alguns tapas na mulher
e muitos beijos na sogra!
4
Esta angústia indefinida,
que sempre à noite me invade,
são sombras próprias da vida
ou disfarces da saudade?
5
Forçada a escolhas na vida
- teatro que não domino
fui marionete movida
pelos cordéis do destino!
6
Gente que escolhe sem tino
as propostas da existência,
quando erra, culpa o destino
pela própria incompetência.
7
Meu diário! Em tuas folhas
morrem desejos sem fim...
Pago o preço das escolhas
que outros fizeram por mim.
8
Na feira de antiguidade,
ao ancião combalido
perguntam, não sem maldade:
-Vem comprar ou ser vendido? 
9
O destino traiçoeiro
separou-nos, sem piedade,
mas o amor fez do carteiro
o porta-voz da saudade.
10
Partiu... nem disse o motivo,
e eu, da saudade à mercê,
estou vivo, mas não vivo,
pois não vivo sem você.
11
Tanto amor e afinidade
entre nós dois, já se vê,
que perdi a identidade:
eu sou eu... ou sou você?
12
Volto à capela em que, um dia
me esperaste ao pé do altar...
E hoje a saudade, em magia,
me espera no teu lugar...

As Trovas de Wanda em Preto & Branco
por José Feldman

SIGNIFICADO DAS TROVAS; TEMÁTICA E RELAÇÃO COM LITERATOS DE DIVERSAS ÉPOCAS

Trova 1. Mundo Ideal vs. Realidade
A trovadora expressa um anseio por escapar das duras verdades da vida cotidiana, preferindo as ilusões e mentiras reconfortantes dos sonhos. Essa oposição entre o ideal e o real reflete uma busca por significado e felicidade em um mundo muitas vezes cruel.

Fernando Pessoa (Portugal): "Tabacaria" e "Autopsicografia" exploram a busca por realidades alternativas e a criação de personas.

Adélia Prado: "A Casa" e "Oração" refletem a busca por um sentido mais profundo na vida e a valorização do sonho.

Walt Whitman (EUA): "Song of Myself" celebra a liberdade e a individualidade, criando um mundo de possibilidades que contrasta com as limitações da vida cotidiana.

Charles Baudelaire (França): "A Une Passante" reflete sobre a efemeridade e a busca por beleza em meio ao desencanto da vida urbana, capturando a tensão entre ideal e real.

Trova 2. Humor e Crítica
A cena com a garçonete revela a ironia da situação com humor, destacando uma crítica social sobre as condições de vida e as expectativas de consumo. A pergunta retórica sobre a bebida mais barata expõe a absurdidade das escolhas feitas em momentos de necessidade.

Gregório de Matos: "Agradecimento" utiliza humor e crítica social.

Marcelino Freire: "Contos Negreiros" aborda a crítica social com um tom irônico.

T.S. Eliot (Inglaterra): "The Love Song of J. Alfred Prufrock" utiliza humor e ironia para criticar a sociedade e as expectativas, refletindo as absurdidades do cotidiano.

Dorothy Parker (EUA): Em seus poemas e contos, frequentemente satiriza as convenções sociais, abordando com humor as dificuldades da vida moderna.

Trova 3. Violência e Confusão
Trova humorística onde a embriaguez é um símbolo da confusão e do desespero nas relações. A imagem do homem que confunde a sogra com a esposa ilustra a desorientação emocional e a violência que pode surgir em ambientes familiares, sublinhando a fragilidade das dinâmicas pessoais.

Alberto de Oliveira: "O Último Beijo" fala sobre a confusão emocional e as consequências do amor.

Hilda Hilst: "A Obscena Senhora D" lida com a brutalidade nas relações.

Sylvia Plath (EUA/Inglaterra): "Daddy" explora a violência emocional e a confusão, trazendo à tona a complexidade das relações familiares e o impacto psicológico.

Charles Bukowski (EUA): "The Most Beautiful Woman in Town" retrata a brutalidade das relações e a autodestruição que pode surgir da embriaguez e da

Trova 4. Angústia e Saudade
A angústia é apresentada como uma presença constante, questionando se essas sombras são reflexos da vida ou da saudade. Essa dualidade sugere que a dor da ausência é intrínseca à experiência humana, revelando um estado emocional profundo.

Álvares de Azevedo: "Noite de Luar" fala sobre a melancolia e a saudade.

Marina Colasanti: "A Mulher que Aprendeu a Ver" reflete sobre a angústia e a memória.

Octavio Paz (México): "Piedra de Sol" explora a angústia e a busca por significado, ressoando com as inquietações presentes nas trovas de Mourthé.

Emily Dickinson (EUA): "I felt a Funeral, in my Brain" enfatiza a angústia e a introspecção, refletindo sobre a própria condição humana e a saudade da vida.

Paul Verlaine (França): "Chanson d'automne" expressa melancolia e saudade, capturando a passagem do tempo e a dor da perda.

Trova 5. Marionete do Destino
A metáfora da marionete sugere a falta de controle sobre os próprios destinos. A autora se sente movida por forças externas, o que gera um sentimento de impotência diante das escolhas que a vida impõe. Essa ideia ressalta a inevitabilidade das circunstâncias que moldam nossas vidas.

Luís de Camões (Portugal): "Os Lusíadas" lida com o destino e o controle sobre a própria vida.

Alice Ruiz: "A Bússola" explora o tema das escolhas e do destino.

Robert Frost (EUA): "The Road Not Taken" aborda a ideia de escolhas e como elas moldam nosso destino, refletindo a luta entre livre-arbítrio e destino.

Alfred Tennyson (Inglaterra): "The Charge of the Light Brigade" explora o tema do destino inevitável, onde os personagens são tragicamente levados a seguir caminhos que não escolheram.

Trova 6. Responsabilidade e Destino
A crítica à forma como as pessoas frequentemente culpam o destino por suas falhas revela uma reflexão sobre a responsabilidade pessoal. A autora destaca a tendência humana de transferir a culpa, sugerindo que a verdadeira competência reside na capacidade de reconhecer e aprender com os próprios erros.

Machado de Assis: "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "Dom Casmurro" abordam a responsabilidade pessoal e suas consequências.

Fábio de Melo: "A Vida é uma Viagem" e "As Coisas que Perdemos" discutem a responsabilidade nas escolhas da vida.

Langston Hughes (EUA): "Harlem" questiona o que acontece com os sonhos não realizados, refletindo sobre a responsabilidade pessoal em relação ao destino.

John Keats (Inglaterra): "Ode to a Nightingale" reflete sobre a fragilidade da vida e a necessidade de aceitar as consequências de nossas escolhas.

Trova 7. Diário e Desejos
O diário se torna um espaço onde os desejos não realizados ganham vida, simbolizando a frustração e a influência das decisões alheias. A ideia de "pagar o preço" das escolhas de outros reflete a luta interna entre o desejo pessoal e as imposições externas.

Cecília Meireles: "Motivo" expressa a luta entre desejos e a realidade. "Romanceiro da Inconfidência" explora as escolhas e a busca por liberdade, semelhante ao discurso de Mourthé sobre o destino.

Jorge Luis Borges (Argentina): Em seus contos e poemas, frequentemente reflete sobre o destino, as escolhas e as consequências, alinhando-se com a crítica de Mourthé sobre a responsabilidade em relação ao próprio destino.

Anne Sexton (EUA): "The Awful Rowing Toward God" explora a confissão e os desejos não concretizados, abordando a busca por significado.

Trova 8. Antiguidade e Ironia
A feira de antiguidades provoca reflexões sobre o valor da vida e a transitoriedade das coisas. A pergunta sobre comprar ou ser vendido sugere uma crítica à condição humana, questionando o que realmente valorizamos e o que estamos dispostos a sacrificar.

Olavo Bilac: "O Caçador de Esmeraldas" discute a passagem do tempo e o que se perdeu.

Mário Quintana: "A Rua dos Cataventos" e "O Aprendiz de Feiticeiro" falam sobre a ironia da vida e suas transições.

Marcel Proust (França): "Em Busca do Tempo Perdido" Proust reflete sobre a memória e o valor do passado, dialogando com a ironia da vida e do que valorizamos.

Philip Larkin (Inglaterra): "An Arundel Tomb" aborda a transitoriedade da vida e a ironia do que permanece, questionando o valor das coisas.

Trova 9. Amor e Separação
A dor da separação é um tema central, onde o amor se transforma em saudade. A figura do carteiro como mensageiro da dor simboliza a comunicação da ausência, enfatizando como o amor pode persistir mesmo na separação física.

Vinícius de Moraes: "Soneto de Separação" e "Eu Sei Que Vou Te Amar" captura a essência da dor do amor perdido, refletindo a saudade presente em Mourthé.

W.H. Auden (Inglaterra): "Funeral Blues" expressa a dor da perda e a saudade, ressoando com a experiência do amor e da separação.

Trova 10. Saudade e Existência
A luta entre estar vivo e sentir-se vivo retrata a experiência de viver sem a presença do outro. Essa tensão entre a existência física e a conexão emocional ressalta a profundidade da saudade, que pode tornar a vida vazia.

Carlos Drummond de Andrade: "Quadrilha" e "No Meio do Caminho" abordam a saudade e a existência.

Alfonsina Storni (Argentina): Em poemas como "Peso Ancestral" fala da angústia existencial e a luta interna das mulheres.

Charles Dickens (Inglaterra): "A Tale of Two Cities" é sobre a vida e a morte, a saudade e a luta pela existência em tempos difíceis.

Robert Frost (EUA): Em "Stopping by Woods on a Snowy Evening" medita sobre a vida, a morte e o que significa realmente viver.

Trova 11. Identidade e União
A confusão entre as identidades dos amantes sugere uma união tão profunda que desafia a noção de individualidade. Essa identificação mútua reflete a intensidade do amor, onde os limites entre duas pessoas se tornam indistintos.

O Soneto de Luís de Camões "Amor é fogo que arde sem se ver" explora a fusão de identidades no amor.

Marcelino Freire, com "Luz" fala sobre a conexão entre as pessoas.

Clarice Lispector: Embora seja mais prosas, suas reflexões sobre a identidade e a subjetividade em obras como "A Paixão Segundo G.H." ecoam as preocupações de Mourthé sobre a busca por identidade nas relações.

Nicanor Parra (Chile): Com seu "antipoema," desafia conceitos tradicionais de identidade e amor, refletindo sobre a complexidade das relações.

John Donne (Inglaterra): "A Valediction: Forbidding Mourning" contém a ideia de que dois amantes são um só, refletindo a união e a fusão da identidade.

E.E. Cummings (EUA): Em "I carry your heart with me" a interconexão profunda entre amantes captura a essência da identidade compartilhada.

Trova 12. Memórias e Expectativas
O retorno à capela é carregado de nostalgia, simbolizando o espaço onde a saudade habita. A expectativa da saudade no lugar do outro sugere que a memória é uma forma de presença, onde o passado se torna um espaço emocional contínuo.

Braulio Tavares: "Inquietação" lida com a nostalgia e as memórias.

Adélia Prado: Em sua obra, explora a memória e a vida cotidiana, refletindo sobre como as experiências moldam a identidade e as relações, de maneira similar à abordagem sa trovadora.

César Vallejo: "Os Heraldos Negros" explora a dor da ausência e a memória.

Mario Benedetti (Uruguai): Em poemas como "Te Quiero" fala sobre amor e lembranças, abrangendo a essência da saudade. Suas reflexões sobre o passado se conectam com a nostalgia presente nas trovas de Mourthé.

Marcel Proust (França): Novamente, Proust é fundamental, com sua exploração da memória em "Em Busca do Tempo Perdido" onde a saudade é uma constante na reflexão sobre o passado.

Walt Whitman (EUA): Em "When Lilacs Last in the Dooryard Bloom'd" fala sobre memória e perda, refletindo a conexão entre passado e presente.

Gabriela Mistral (Chile): "Sonetos da Morte," aborda a perda e a saudade de forma tocante, semelhante à forma como Mourthé explora a ausência e a memória.

Esses poetas e suas obras ajudam a contextualizar as trovas de Wanda de Paula Mourthé, mostrando como temas universais de amor, saudade, identidade e a condição humana são explorados em diferentes tradições literárias. Essa interconexão destaca a riqueza da experiência poética e a relevância contínua de tais temas ao longo do tempo e das culturas.

INFLUÊNCIAS NAS TROVAS DE MOURTHÉ

A sensibilidade e a intensidade emocional da poesia romântica, especialmente de poetas como Álvares de Azevedo e Castro Alves, são evidentes nas suas trovas, que frequentemente abordam temas como amor, saudade e melancolia.

A ruptura com formas tradicionais e a busca por novas expressões poéticas, características do modernismo brasileiro, influenciam sua linguagem. Autores como Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade podem ser vistos como referências.

Poetas contemporâneos, como Adélia Prado e Hilda Hilst, também têm um papel significativo nas suas influências, especialmente em relação à exploração da subjetividade e das questões femininas.

A abordagem de temas de gênero e a busca por uma voz feminina forte em suas obras são influenciadas pelo movimento feminista, refletindo as lutas e experiências das mulheres na sociedade.

Elementos da música popular brasileira e do folclore influenciam a musicalidade de sua poesia, trazendo uma cadência lírica que ressoa com as tradições culturais do Brasil.

Suas vivências pessoais e emocionais, como a relação com a saudade, amor e a passagem do tempo, são fontes fundamentais de inspiração, tornando sua obra íntima e reflexiva.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As trovas de Wanda de Paula Mourthé constituem uma teia poética que explora as complexidades da experiência humana. Cada trova revela uma profunda introspecção sobre temas universais como amor, saudade, identidade, escolhas e a condição humana. Esses temas não apenas repercutem nas vivências individuais, mas também capturam as nuances das relações sociais e emocionais que permeiam a vida cotidiana.

As trovas abordam a dualidade entre o ideal e a realidade, revelando um desejo de escapar das duras verdades da vida por meio das ilusões do sonho. A ironia e a crítica social presentes em suas palavras lançam luz sobre os absurdos do cotidiano, enquanto a angústia e a saudade permeiam a obra, convidando o leitor a pensar sobre a passagem do tempo e as perdas inevitáveis. Também explora a vulnerabilidade humana ao se sentir controlada pelas circunstâncias, questionando a responsabilidade nas escolhas que moldam o destino.

As influências da trovadora podem ser vistas em diálogos com poetas brasileiros como Cecília Meireles e Adélia Prado, que também revelam a profundidade emocional e a experiência feminina. No contexto internacional, a obra de Mourthé encontra ecos em poetas como Pablo Neruda e Sylvia Plath, que abordam temas como amor e angústia de maneira intensa e pessoal. Esses diálogos intertextuais enfatizam a universalidade das emoções e experiências retratadas, tornando sua obra relevante e conectada a tradições poéticas mais amplas.

A relevância das trovas se estende além do âmbito literário; elas oferecem uma reflexão crítica sobre a realidade contemporânea. Em um mundo frequentemente marcado por incertezas e desconexões, suas palavras evocam a necessidade de introspecção e empatia. A forma como ela lida com a saudade, a identidade e as relações interpessoais ressoa profundamente com as experiências de indivíduos em busca de sentido e conexão.

Para as futuras gerações, a sua obra serve como um convite à exploração de emoções e à valorização da subjetividade. Em tempos de superficialidade e pressa, as trovas lembram a importância de refletir sobre a vida, as escolhas e os laços que formamos. Através de sua poesia, não apenas documenta a condição humana, mas também oferece um espaço para que leitores de todas as idades se conectem com suas próprias experiências, promovendo um diálogo contínuo entre passado, presente e futuro.

Em suma, as trovas de Wanda de Paula Mourthé são um testemunho da riqueza da experiência humana, uma obra que transcende o tempo e o espaço, convidando todos a uma profunda reflexão sobre o que significa viver, amar e lembrar.

Fonte: José Feldman. 50 Trovadores e suas Trovas em preto e branco. IA Open. vol.1. Maringá/PR: Biblioteca Voo da Gralha Azul. 2024.

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

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