Trovadores em Ordem Alfabética

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segunda-feira, 9 de junho de 2025

Zilda Cormack (Rio de Janeiro/RJ)

1
As distâncias infinitas
são retalhos de lembranças
de palavras lindas... ditas,
no curso das esperanças!
2
As tristezas recolhidas
de um amor pobre, distante,
são próprias de certas vidas
querendo viver o instante!
3
Ás vezes sorrio a esmo
quando tenho uma desdita.
Se tristezas tenho mesmo,
ninguém nelas... acredita!...
4
A vida e as contradições
às vezes nos surpreendem...
São tantas as emoções
que nem bem elas se entendem!
5
Encontrei uma saudade
quietinha... bem atrevida
no meu peito... que maldade...
Tirei-a da minha vida!...
6
Foi ideia inconsequente
do pobre coração meu,
dar entrada em minha mente
de um amor que se perdeu!
7
Más notícias vêm depressa,
essa verdade é concreta.
Caminha... não tenhas pressa,
crê em Deus... Segue essa meta!
8
Minhas lágrimas caindo
tiraram do livro a cor.
Saudades foram abrindo
caminhos pra minha dor!
9
Na vida, tenho certeza,
sigo um lema. Penso assim:
- Carrego a maior riqueza
nesse Deus... que habita em mim!
10
O bom da vida é esperar
pelo certo ou duvidoso...
O mundo... sempre a girar...
O destino é... misterioso!…
11
O coração nos prepara
tão incertas brincadeiras..,
Que às vezes... nem bem repara,
mas deixam, marcas inteiras!
12
O mal que em vida consumo
é trazer na minha mente
a saudade... como rumo…
De um amor que a gente sente!
13
O mal que em vida fazemos
reverte cedo, ou mais tarde.
Nas leis... não há mais ou menos,
a justiça é cega...! Arde…!
14
O segredo do progresso
de um País em ascensão,
tem como base o sucesso
de uma boa educação…
15
Palavras elaboradas
num pensamento eloquente
convencem... pois são bem dadas…
– Mas enganam... tanta gente!
16
Pedaços lindos de sonhos!
Tentei juntá-los... em vão.
Esfacelados, tristonhos,
permanecem... pelo chão!
17
Pelos olhos, vi na hora
que entre as jovens, a do centro
era a mais feia por fora.
mas... com beleza... por dentro!
18
Penduradas vão as vidas
nas rotas certas do tempo,
mas são incertas as idas
da vida... num contratempo!...
19
Pra frente, o rio, à vontade.
segue o curso... contumaz...
Igual à felicidade,
não volta nunca pra traz!…
20
Pranteio o tempo insolente
que por mim, tão lisonjeiro,
passou... deixando na mente
um amor tão passageiro!...
21
Sonho mais quando acordado
que às vezes... me ponho a rir...
Se sonhar quero, ao teu lado,
basta apenas... não dormir!
22
Velho... jovem... toda a idade
tem a vida mais nuances...
Cursando a Universidade
maiores serão as chances!...
23
Vou desfrutando a paisagem
que me dá a própria vida!
Ela sempre tem mensagem
apontando uma saída!…

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Zaé Junior (1929 - 2020)

 Ao cumprir o meu dever
de filho, de pai, de irmão,
aprendi que compreender
vale mais que ter razão!
- - - - - -
A ternura que deixaste,
pai, qual herança tão nobre,
deixou-me na alma o contraste
de ser rico... sendo pobre!
- - - - - -
Brilhando ao sol, em cascata,
as águas, fazendo festa,
jorram confetes de prata
no carnaval da floresta!
- - - - - -
Cansado, mas com coragem
de continuar a jornada,
a vida é a minha bagagem,
que vou deixando na estrada!
- - - - - -
Com pena das minhas penas,
tais penas o assum levou,
e apenas penas pequenas
das próprias penas deixou!
- - - - - -
Copiando os astros distantes,
o sereno, em seus desvelos,
pousa estrelas de diamantes
na noite de teus cabelos!
- - - - - -
Depois da chuva inclemente,
levando um pássaro morto,
o ninho, na água corrente,
é nau fantasma e sem porto!
- - - - - -
Depois do amor sem censura,
nossos agrados sutis,
dizem coisas de ternura
que a nossa boca não diz!
- - - - - -
Dividindo, sem paixão,
tudo o que nos pertenceu,
levaste o teu coração,
mas não me deixaste o meu!
- - - - - -
Do teu perfil, na verdade,
só podes ver um pedaço,
pois para a tua vaidade,
o espelho tem pouco espaço!
- - - - - -
Em frente à perfumaria,
enquanto o ônibus espera,
pergunta o cego ao seu guia:
- Já chegou a primavera?
- - - - - -
Em silêncio vejo pura,
disfarçada em teu olhar,
a lágrima de ternura
que não querias chorar!
- - - - - -
E quando o inverno chegar,
saudosos, em seus desvelos,
meus dedos irão esquiar
na neve dos teus cabelos!
- - - - - -
Fiz da vida um labirinto,
do qual, se eu tento escapar,
quanto mais fujo, mais sinto
que estou no mesmo lugar!
- - - - - -
Há quem renove a esperança
e com promessas se iluda...
mas o Ano Novo é mudança,
que em verdade nada muda!
- - - - - -
Herói, que vence o cansaço
da vida em rude batalha,
tem no peito um marca-passo,
sua invisível medalha!
- - - - - -
Lembra? Eu brincava de Rei,
você... de escrava brincava;
do meu sonho hoje acordei,
escravo de minha escrava!
- - - - - -
Manhã... a geada caindo...
Mas se do inverno estou farto,
beijo os teus olhos se abrindo
e é primavera em meu quarto!
- - - - - -
Meu barraco, sem queixume,
fiz com redes de cipós...
mas a vida, com ciúme,
um a um desfez os nós!
- - - - - -
Meu cirquinho no quintal
era um circo de verdade;
na infância, não tinha igual
nem tem igual na saudade!
- - - - - -
Meu pai, a tua bondade,
que nos deu pão na pobreza,
é agora a farta saudade
que se serve em nossa mesa!
- - - - - -
Meu reino é um casebre antigo
onde um sol, sem majestade,
vem, de cócoras comigo,
aquecer minha saudade!
- - - - - -
Na Academia onde moram,
em sussurrante coral,
os imortais também choram
a morte de um imortal!
- - - - - -
Na existência dividida
pela incompreensão da idade,
se não te encontrei em vida,
te encontro, pai, na saudade!
- - - - - -
Na infância a gente brincava,
eu de sol, você de lua...
e o universo começava
e acabava em nossa rua!
- - - - - -
Não me agrada a falsa glória
que o jogo da vida tem,
pois sei que toda vitória
sempre é derrota de alguém!
- - - - - -
Não queiras cobrar com sangue
o mal que te machucou,
pois o mal é um bumerangue
que volta à mão que atirou!
- - - - - -
Na penumbra, sobre a toalha,
vultos que a vela produz
mostram que a sombra não falha,
por menor que seja a luz!
- - - - - -
No meu palco de ilusão,
quando se fecha a cortina,
ao terminar a sessão,
a ilusão nunca termina!
- - - - - -
No princípio, a solidão,
mas tu voltaste... e depois,
não coube em meu coração,
o que restou de nós dois!
- - - - - -
O atalho me leva à ermida,
a ermida me leva a Deus;
e Deus me leva à outra vida,
que a levou dos olhos meus!
- - - - - -
O bonde rangeu nos trilhos,
meu pai desceu, não sei onde...
Seguimos, a mãe e os filhos,
sozinhos no mesmo bonde!
- - - - - -
O chão não é de ninguém
nem do seu "dono", um instante;
do chão os homens só têm
sete palmos... e é o bastante!
- - - - - -
O meu sonho é um passarinho,
que de voar ficou farto
e acabou fazendo o ninho
na janela do meu quarto!
- - - - - -
O poeta mais que o soldado,
se quiser ser vencedor,
terá que amar, ser amado,
e só perder por amor!
- - - - - -
O tempo é como a caverna,
que não tem volta nem fundo,
onde a vida, que é eterna,
dura apenas um segundo!
- - - - - -
Ouço a melodia amena,
que vem do cosmos disperso
e minha alma, tão pequena,
ganha amplidão de universo!
- - - - - -
Plantando a vida se cansa...
e o caboclo, sem espaço,
colhe tão pouca esperança,
que não vale o seu cansaço!
- - - - - -
Quando a saudade é saudade,
saudade que faz penar,
saudade é felicidade
que se foi e quer voltar!
- - - - - -
Quando a seresta termina
sob o lampião do jardim,
a solidão, em surdina,
toca apenas para mim!
- - - - - -
Quem perde o tempo não sabe
que perde a vida também,
pois jamais a vida cabe
no tempo que a gente tem!
- - - - - -
Queres ferir-me gritando,
mas em soluços aflitos,
os teus murmúrios chorando
me ferem mais que teus gritos!
- - - - - -
Sagrado seja esse chão
no qual rezando, o roceiro
planta o próprio coração,
para a fome do ano inteiro!
- - - - - -
Se descobrir é preciso,
mais preciso é navegar;
"Terra à vista"... e um paraíso
floresceu além do mar!
- - - - - -
Sem abrigo, ao vento forte,
sem jardim e sem escolha,
sou frágil trevo sem sorte
à espera da quarta folha!
- - - - - -
Sem família, na orfandade,
aprendi triste lição;
quanto mais dói a saudade,
menos dói a solidão!
- - - - - -
Sem fronteiras, num só laço,
os homens são mais felizes,
pois a Terra, lá do espaço,
não se divide em países!
- - - - - -
Seu regresso foi surpresa,
pois já ninguém o esperava;
nem sentou... tinha outro à mesa,
na cadeira em que sentava!
- - - - - -
Teu olhar azul celeste
só sabia dizer não;
tantos não azuis disseste,
que azul virou poluição!
- - - - - -
Vovó, desfiando o rosário
das peraltices que fez,
foi zerando o calendário,
virou criança outra vez!
 
Fonte:
Alexandre Magno Andrade de Oliveira Reis

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...