o bebê chega depressa;
— Comigo o tiro é certeiro,
e a encomenda, via expressa!
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A Raimunda chega ao baile,
e logo se esquenta o clima,
pois alguns "cegos" em braile,
querem só tocar na rima!
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A toda pergunta feita
respondeu com tanto "não"
que lhe aplicou a Receita
multa por "só... negação"!
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A vendedora ladina
jura que não é trapaça:
— Olha o véu que a Messalina
"não" usou por ser devassa!
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Com Adão no paraíso,
Eva pensa ao ir pra cama;
— Ah! Se eu tivesse juízo,
dava pra ele... um pijama!
= = = = = = = = =
Com tristeza e desencanto,
vejo um mundo injusto e louco;
Há tão poucos tendo tanto,
e há tantos tendo tão pouco!
= = = = = = = = =
Convidado a ver pelada,
diz, irado, o garanhão;
— Mulher pelada? Que nada!
Só vi homem de calção!
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Diz a galinha-d'angola:
— Meu marido é mesmo um saco!
Quando tiro a camisola,
logo ele grita: — "Tô fraco"!
= = = = = = = = =
Em meu sonho, a sogra berra:
— Joga mil no burro e dobra! —
Mas seu palpite me ferra;
burro fui eu... deu a cobra!
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Em teu amor não confio...
Já se acabou a ilusão,
pois ele é vento vadio:
sopra em qualquer direção.
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Fujo em estrada penosa,
temendo um amor adverso,
mas a saudade, teimosa,
percorre o caminho inverso.
= = = = = = = = =
Imperfeita é minha lira:
meu "muso" é manco, coitado!
O verso que ele me inspira
sempre sai de pé quebrado!
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Mesmo em flagrante apanhado,
o malandro finca o pé:
— Trambique? Foi, delegado...
mas com toda a boa fé...
= = = = = = = = =
Minha alma se enleva ao vê-las
em seu fulgor que seduz;
piscapiscando as estrelas
parecem ilhas de luz!…
= = = = = = = = =
Minha mulher é nanica,
mas na cama é colossal:
ronca mais do que cuíca
em bloco de carnaval!
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Na feira de antiguidade,
ao ancião combalido,
perguntam, não sem maldade:
— Vem comprar ou ser vendido?
= = = = = = = = =
Na noite do seu casório,
sendo um noivo muito antigo,
usou até suspensório,
mas não suspendeu o artigo...
= = = = = = = = =
Não receio o que vier,
pois já vislumbro a partida...
mas luto, enquanto eu tiver
uma fagulha de vida!
= = = = = = = = =
No escuro, sente a "mão-boba"...
Grita a velha: — Patifão! —
Mas, entre os dentes, diz: — Oba!
Bendito seja o apagão!
= = = = = = = = =
O ladrão me deu pancada,
me roubou e saiu rindo...
Pra vingar, xinguei, danada,
cada nome feio lindo!
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— O meu marido é carteiro,
porém bem cedo aprendeu
que, no lar, o tempo inteiro,
só quem dá as cartas sou eu!
= = = = = = = = =
O meu problema é pagar
altos custos de energia;
basta a luz eu apagar
que acesa fica a Maria!…
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— O que te disse o Doutor?
Te deu muita informação?
— Informação? Não, amor,
é bebê... "em formação!"
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Pão-duro, o cara declara:
— Ter cara-metade é asneira.
Se a metade já é cara,
imagina a esposa inteira!
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Pensa o luso: — Um pesadelo!
Tudo meu em hipoteca...
É de arrepiar cabelo!
A sorte é que sou careca...
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Pode a vingança depressa
ter consequências fatais.
Sabe-se como começa,
como termina, jamais!
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Quando a Zazá sai da linha,
o Zezé nunca se importa;
a mulher é uma galinha,
mas ele, um galinha-morta!
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Quis apagar a queimada,
mas caiu numa esparrela,
pois, estando "alambicada",
a mais queimada foi ela!
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— Que injustiça aos meus instintos!
Amo o galo, ando na linha,
choco ovos, cuido dos pintos
e me chamam de "galinha"?!!!
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Sem teu amor, meu fanal,
naufraguei entre os escolhos
na profundeza abissal
do mar azul dos teus olhos!
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Sendo tão feia a encalhada,
com reza só conseguiu
um cego, que, na "largada"
pelo braile... desistiu!
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— Senhor, escutai meu rogo,
dai-me um exímio parceiro!
— Filha, pra apagar seu fogo
só lhe arranjando um bombeiro!
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Suja o muro o pichador.
Preso, grita e faz baderna;
— Isto é um engano, Doutor!
Só fiz arte pós-moderna.
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Tendo o Zé imensa pança,
queixa-se sua mulher
que a barriga dele avança,
porém nunca o que ela quer.
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— Tenho grande novidade:
estou grávida. Que apuro!
— Foi contra sua vontade?
— Que nada! Foi contra o muro.
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— Vem furar onda comigo! —
propõe, na praia, a faceira,
Diz o luso; — Que castigo!
Eu não trouxe a furadeira...
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— Vendo pipoca, que é o fraco
da criançada, no recreio,
e de tanto que encho saco,
já estou de saco cheio!
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Wanda de Paula Mourthé (1929)
WANDA DE PAULA MOURTHÉ é uma das mais proeminentes e premiadas trovadoras e poetisas do estado de Minas Gerais. Reconhecida nacionalmente por sua sensibilidade e domínio técnico da trova, sua trajetória une a erudição acadêmica internacional à leveza da poesia popular. Wanda Lucca de Paula (nome de batismo) / Wanda de Paula Mourthé (nome de casada), nasceu na cidade de Miraí/MG, em 1929. Embora tenha nascido no interior mineiro, fixou residência de longo prazo em Belo Horizonte, além de ter morado e trabalhado no exterior por anos devido à sua carreira docente (notadamente em países como Argélia e França). Wanda Mourthé construiu um vasto e respeitado currículo no ambiente acadêmico internacional. Licenciada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Graduou-se também pela Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de Argel, na Argélia. Atuou profissionalmente como professora de Língua Portuguesa na Université de la Sorbonne Nouvelle, em Paris, na França.
Sua jornada literária começou curiosamente no exterior: a primeira trova que escreveu foi uma reação de felicidade ao receber, de longe, notícias sobre o seu time de futebol, o Atlético Mineiro. Ao retornar ao Brasil, mergulhou de cabeça no universo dos certames literários, tornando-se uma figura indispensável no movimento da trova brasileira.
Acumula diversas distinções em torneios e Jogos Florais por todo o Brasil. Entre suas conquistas de destaque, recebeu o 1º lugar nacional no prestigiado Torneio Lilinha Fernandes (2014) e figurou constantemente nas classificações principais de eventos tradicionais como os Jogos Florais de Curitiba. A produção literária de Wanda encontra-se ricamente pulverizada em centenas de antologias oficiais, coletâneas de Jogos Florais nacionais, além de periódicos e portais especializados em trovas.
A importância de Wanda para a literatura reside em sua capacidade de transitar com maestria pelo humor e pelo lirismo. Ela ajudou a manter viva e pulsante a tradição da trova, provando que uma estrutura poética clássica e rígida pode expressar sentimentos cotidianos de forma profundamente acolhedora, moderna e acessível.
Fonte:
Wanda de Paula Mourthé. Com…passos de emoções. Belo Horizonte: Flux, 2013. Enviado pela trovadora.
Biografia = Revista Encontro, Genealogia de Minas, Recanto das Letras, etc.

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