Quando bati à porta do gabinete de trabalho do meu amigo, ele estava estirado num divã improvisado com tábuas, caixões e um delgado colchão, lendo um jornal. Não levantou os olhos do quotidiano, e disse-me, naturalmente:
- Entra.
Entrei e sentei-me a uma cadeira de balanço, à espera de que ele acabasse a leitura, para darmos começo a um dedo de palestra. Ele, porém, não tirava os olhos do jornal que lia, com a atenção de quem está estudando coisas transcendentes. Impaciente, tirei um cigarro da algibeira, acendi-o e pus-me a fumá-lo sofregamente. Afinal, perdendo a paciência, fiz abruptamente:
- Que diabo tu lês aí, que não me dás nenhuma atenção?
- Anúncios, meu caro; anúncios...
- É o recurso dos humoristas à cata de assuntos, ler anúncios.
- Não sou humorista e, se leio os anúncios, é para estudar a vida e a sociedade. Os anúncios são uma manifestação delas: e às vezes, tão brutalmente as manifestam que a gente fica pasmo com a brutalidade deles. Vê tu os termos deste: "Aluga-se a gente branca, casal sem filhos, ou moço do comércio, um bom quarto de frente por 60$ mensais, adiantados, na Rua D., etc., etc." Penso que nenhum miliardário falaria tão rudemente aos pretendentes a uma qualquer de suas inúmeras casas; entretanto, o modesto proprietário de um cômodo de sessenta mil-réis não tem circunlóquios.
- Que concluis daí?
- O que todos concluem. Mais vale depender dos grandes e dos poderosos do que dos pequenos que tenham, porventura, uma acidental distinção pessoal. O doutor burro é mais pedante que o doutor inteligente e ilustrado.
- Estás a fazer uma filosofia de anúncios?
- Não. Verifico nos anúncios velhos conceitos e preconceitos. Queres um outro? Ouve: "Senhora distinta, residindo em casa confortável, aceita uma menina para criar e educar com carinhos de mãe. Preço razoável. Cartas para este escritório, a Mme., etc., etc."
Que te parece este anúncio, meu caro Jarbas?
- Não lhe enxergo nada de notável.
- Pois possui.
- Não vejo em quê.
- Nisto: essa senhora distinta quer criar e educar com carinhos de mãe, uma menina; mas pede paga, preço razoável - lá está. É como se ela cobrasse os carinhos que distribuísse aos filhos e filhas. Percebeste?
- Percebo.
- Outra coisa que me surpreende, na leitura da seção de anúncios dos jornais, é a quantidade de cartomantes, feiticeiros, adivinhos, charlatães de toda a sorte que proclamam, sem nenhuma cerimônia, sem incômodos com a polícia, as suas virtudes sobre-humanas, os seus poderes ocultos, a sua capacidade milagrosa. Neste jornal, hoje, há mais de dez neste sentido. Vou ler este, que é o maior e o mais pitoresco. Escuta: "Cartomante - Dona Maria Sabida, consagrada pelo povo como a mais perita e a última palavra da cartomancia, e a última palavra em ciências ocultas; às excelentíssimas famílias do interior e fora da cidade, consultas por carta, sem a presença das pessoas, única neste gênero - máxima seriedade e rigoroso sigilo: residência à rua Visconde de xxx, perto das barcas, em Niterói, e caixa postal número x, Rio de Janeiro. Nota: - Maria Sabida é a cartomante mais popular em todo o Brasil". Não há dúvida alguma que essa gente tem clientela; mas o que julgo inadmissível é que se permita que "cavadoras" e "cavadores" venham a público, pela imprensa, aumentar o número de papalvos que acreditam neles. É tolerância demais.
- Mas, Raimundo, donde te veio essa mania de ler anúncios e fazer considerações sobre eles?
- Eu te conto, com algum vagar.
- Pois conta lá!
Eu me dava, há mais de um decênio, com um rapaz, cuja família paterna conheci. - Um belo dia, ele me apareceu casado. Não julguei a coisa acertada, porque, ainda muito moço, estouvado de natureza e desregrado de temperamento, um casamento prematuro desses seria fatalmente um desastre. Não me enganei. Ele era gastador e ela não lhe ficava atrás. Os vencimentos do seu pequeno emprego não davam para os caprichos de ambos, de forma que a desarmonia surgiu logo entre eles. Vieram filhos, moléstias, e as condições pecuniárias do ménage foram ficando atrozes e mais atrozes as relações entre os cônjuges. O marido, muito orgulhoso, não queria aceitar os socorros dos sogros. Não por estes, que eram bons e suasórios; mas pela fatuidade dos outros parentes da mulher, que não cessavam de lançar na cara desta os favores que recebia dos pais e decuplicar os defeitos do seu marido. Frequentemente brigavam, e todos nós, amigos do marido, que éramos também envolvidos no desprezo liliputiano dos parentes da mulher, intervínhamos e conseguíamos apaziguar as coisas por algum tempo. Mas a tempestade voltava, e era um eterno recomeçar. Por vezes, desanimávamos; mas não nos era possível deixá-los entregues a eles mesmos, pois ambos pareciam ter pouco juízo e não saber afrontar dificuldades materiais com resignação.
Um belo dia, isto foi há bem quatro anos, depois de uma disputa infernal, a mulher deixa o lar conjugal e procura hospedagem na casa de uma pessoa amiga, nos subúrbios. Todos nós, os amigos do marido, sabíamos disso; mas fazíamos constar que ela estava fora com os filhos. Em determinada manhã, aqui mesmo, recebo uma carta com letra de mulher. Não estava habituado a semelhantes visitas e abri a carta com medo. Que seria? Fiz uma porção de conjecturas; e, embora com os olhos turvos, consegui ler o bilhete. Nele, a mulher do meu amigo pedia-me que a fosse ver, à rua tal, número tanto, estação xxx, para se aconselhar comigo. Fui de coração leve, porque a minha intenção era perfeitamente honesta. Em lá chegando, ela me contou toda a sua desdita, passou dez descomposturas no marido e disse-me que não queria saber mais dele, sendo a sua tenção ir para o interior trabalhar. Perguntei-lhe com o que contava. Na sua ingenuidade de menina pobre, criada com fumaças de riqueza, ela me mostrou um anúncio.
- Então, é daí?
- É daí, sim.
- Que dizia o anúncio?
- Que, em Rio Claro ou São Carlos, não sei, numa localidade do interior de São Paulo, precisavam-se moças para trabalhar em costuras, pagando-se bem. Ela me perguntou se devia responder, oferecendo-se. Disse-lhe que não e expliquei-lhe a razão. Tão ingênua era ela, que ainda não tinha atinado com a malandragem do anunciante... Despedi-me convencido de que seguiria o meu conselho leal; mas, estava tão fascinada e amargurada, que não me atendeu. Respondeu.
- Como soubeste?
- Por ela mesma. Ela me mandou chamar novamente e mostrou-me a resposta do meliante. Era uma cartinha melosa, com pretensões de amorosa, em que ele, o desconhecido correspondente, insinuava que coisa melhor do que costuras ela iria encontrar em Rio Claro ou São Carlos, junto dele. Pedia-lhe o retrato e, logo que fosse recebido, se agradasse, viria buscá-la. Era rico, podia fazer.
- Que disseste?
- O que devia dizer e já tinha dito, pois já previa que o tal anúncio fosse uma cilada, e cilada das mais completas. Que dizes agora do meu pendor pelas leituras de anúncios?
- Tem o que se aprender.
- É isto, meu caro: há anúncios e... anúncios...
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AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO foi um dos maiores escritores da literatura brasileira, conhecido por sua crítica social contundente e sua narrativa realista e inovadora. Nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1881, e faleceu precocemente em sua cidade natal, em 1922, aos 41 anos, vítima de um colapso cardíaco ligado a problemas crônicos de saúde e ao alcoolismo. Viveu a maior parte de sua vida no subúrbio carioca, especialmente no bairro de Todos os Santos, local que serviu de grande inspiração para suas obras. Ingressou no curso de Engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, mas precisou abandonar os estudos para sustentar a família após o adoecimento mental de seu pai. Trabalhou como amanuense (copista e escriturário) na Secretaria da Diretoria Geral do Comércio do Ministério da Guerra. Atuou intensamente na imprensa, escrevendo crônicas, reportagens e sátiras políticas para diversos periódicos da época, como A Lanterna e Correio da Manhã.
Utilizava uma linguagem simples e direta, o que gerava resistência nos círculos acadêmicos da época, que preferiam o academicismo rebuscado. Sua escrita focava nos marginalizados, no preconceito racial e nas hipocrisias da República Velha. O escritor nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele se candidatou três vezes à instituição, mas foi rejeitado em todas devido ao teor agressivo de suas críticas ao sistema literário e pelo racismo institucional da época. Não recebeu prêmios literários expressivos em vida, tendo grande parte de seu reconhecimento consolidada apenas postumamente.
Entre romances, sátiras e memórias, destacam-se: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909); Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911) – sua obra-prima; Numa e a Ninfa (1915); Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919); Clara dos Anjos (publicado postumamente em 1948); Diário Íntimo e Cemitério dos Vivos (publicações póstumas de caráter autobiográfico).
Lima Barreto é uma figura fundamental do Pré-Modernismo brasileiro. Sua importância reside na coragem de romper com o formalismo da Belle Époque para dar voz e dignidade aos subúrbios, aos negros e aos pobres. Ele foi um dos primeiros a denunciar abertamente o preconceito racial e as desigualdades sociais do Brasil pós-abolição. Sua linguagem jornalística e coloquial antecipou as inovações que os modernistas consolidariam em 1922. Hoje, ele é celebrado como um autor indispensável para entender as raízes da formação social e cultural brasileira.
Fonte:
Publicado originalmente em Periódico do Rio de Janeiro em 1920 e postumamente em Lima Barreto. Feiras e Mafuás.1953.

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