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sábado, 12 de setembro de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (O fabuloso casamento de Antão e Anta)


NAQUELA ESPLENDOROSA tarde de sol forte, quando o mato cheirava a chuva que vinha chegando, todo mundo da redondeza já sabia de cor e salteado: Antão ia casar com Anta. Todavia, ninguém lembra direito quando é que começaram os dois pombinhos a andarem juntos. Uns e outros dizem, a língua solta que foi ali no caminho que desemboca numa plantação quilométrica de eucaliptos. 
Outros asseveram e juram que o romance nasceu de uma briga por um pedaço de terra, e há os mais sonhadores que afirmem com a melhor das convicções que foi só porque um dia ele olhou para ela e pensou com seus botões: “essa criatura divina tem o coração igual ao meu: áspero por fora, mas firme, bom e primoroso por dentro”.
Antão era um homem de poucas palavras, de pouca idade nos costados e tinha orgulho de mostrar as mãos calejadas, em face do trabalho que exercia, da oração que professava e da honestidade que acima de tudo estava sempre no mais alto da sua cabeça. O rapaz dizia pouco, mas fazia mais do que prometia e quando prometia, cumpria até o fim. Anta, ah, Anta era a mulher mais jovem e bonita do pedaço que carregava o mundo nos ombros e ainda sobrava força para sorrir. 
Tinha a língua rápida e ferina, jeito firme e despachado, mas por trás daquela postura forte e carismática, dócil e ao mesmo tempo espalhafatosa, havia um coração enormemente puro e acolhedor que no seu caminhar havia visto muito, passado por diversas trilhas e carreiras  difíceis, e nesse vai e vem, vem e vai, aprendido a ser dona de si mesma antes de ser de qualquer um. 
Muitos apontavam, cochichavam, traziam histórias antigas e rótulos que não cabiam mais nela. Antão por sua vez, nunca ligou para essas coisas e sempre que alguém vinha falar mal dela, ele virava um bicho, fechava a cara e se transformava numa fera perigosa. 
— Eu não me caso com o que os outros dizem dela — dizia ele calmamente. Me enlaço com quem ela por ser a mulher que me vê de verdade, que não finge nada, que não tem medo de ser inteira.  
Não deu outra. E nem podia. A cerimônia foi simples, realizada com toda pompa no terreiro mesmo, sob o céu largo que parecia cobrir tudo com uma presença incapaz de ser traduzida com palavras. Não teve luxo, nem riquezas, mas apenas algo muito mais raro e insubstituível: respeito. Ele fez a proposta que virou destino: pediu que ela fosse  sua namorada, amante, mulher, companheira.
Não para prendê-la, mas para caminharem lado a lado, ombro a ombro, de mãos dadas pela mesma estrada, e nessa via sem fim, edificarem uma casa, uma vida plena, terem uma família, e tudo o que o tempo fosse oferecendo.  Ela aceitou com aquela sabedoria de mulher inteligente, que só quem já lutou pela própria liberdade tem dentro de sí. 
Sabia que entrar num novo começo de vida, não significava deixar de ser quem era, mas sim escolher conscientemente ser junto com alguém que a conhecia e a amava exatamente assim: autêntica, única, sem máscaras, sem rótulos, sem mentiras, sem carimbo de aprovado, e o mais importante. A própria personalidade imutável sem manchas e rodeios.
Um ano depois, aos poucos, sem pressa, sem afobação, construíram um sobrado com as próprias mãos, assentaram tijolo por tijolo, sonharam e viveram a dois, sonho por sonho. Casa própria em pé, veio o jardim, depois o cachorro que latia alegre no portão quando ele ou ela saíam ou quando voltavam. 
Tempos depois pintou na área um papagaio que aprendia a repetir seus nomes e as risadas que enchiam cada canto. Um ano e pouco depois, nasceram os filhos, cresceram vendo um amor incomensurável, uma paixão que não se fazia passageira, pelo contrário, lembrava aos que os conheciam, um eterno e prestimoso conto de fadas. 
Um romance que nascera, crescera e se agigantara nas raízes de um amor de verdade, de um gostar eterno, feito de compreensão, de perdão, de mesuras e delicadezas, de ficar quando seria mais fácil ir, de entender que cada um tinha dentro de si as suas marcas e as suas histórias, e que por conta disso, nenhuma chama de tristeza ou vento de maus presságios fosse passando ou ficando, teria a faca afiada cortando esse elo inquebrantável. E mais ainda, adicionando o valor terno de quem se tornou por força de uma felicidade plena e resplandecente, numa fortaleza eterna. Os anos vieram, se achegaram, tentaram ficar, e o fizeram devagar. Aos poucos, esses anos trouxeram rugas e cabelos prateados, mas nunca teve o privilégio de roubar, ou afastar o brilho impagável nos olhos daquele casal ímpar e abençoado pelo Pai Maior. 
Antão continuou sendo o homem que cumpre, que não tem duas palavras e haja o que houver, corre atrás e realiza o que prometeu. Anta, de igual forma, continuou sendo a mulher que sabe o que vale. E quando vizinhos e pessoas amigas perguntavam como se mantiveram tão firmes por tanto tempo aquele amor de contos de fadas, ela respondia com aquele sorriso que misturava doçura e força, e tinha um nome secreto que ficava guardado a sete chaves num lugarzinho especial e bem escondido.
— A gente não começou perfeito, de forma alguma. Veio cada um com a sua bagagem, seus erros, acertos, prós e contras, altos e baixos, dias bons, dias ruins, de mãos dadas, sempre, suportando as nossas dores. Mas o meu Antão, que Deus me deu de presente, nunca pediu que eu fosse outra pessoa. Ele me amou desde a primeira vez em que nossos olhos se beijaram num ósculo divinal. 
Aquela princesa que ele procurava, era eu inteira, com defeitos, qualidades, e tudo mais que poderia vir, como veio, no pacote. E eu… por meu turno, aprendi que o melhor lugar do mundo não é nenhum endereço bonito, é estar ao lado de quem te vê e que te enxerga de verdade e que sem subterfúgios diz: “você é minha, mas antes de tudo, você é você”.
E Antão, calmo como sempre, só apertava a mão da metade amada, da sua maçã e se abrindo igual paraquedas corria para dizer e só dizer, mas se abria por todo o seu “eu” e completava:
— O resto o tempo vai cuidando. E, de fato, cuidou. O amor bom não cai do céu pronto: ele se constrói, um dia após o outro, igual a essa casa que levantamos juntos, que é a prova viva do que estou dizendo. E enquanto tivermos um ao outro, tudo o mais é só um pequeno grande detalhe. 
Hoje, tantos e tantos anos depois, quem passa, seja indo ou vindo, ainda os vê e percebe, sentados na varanda, mãozinhas dadas, aquele casalzinho de cabelos brancos, ambos olhando demoradamente o mesmo céu que os viu começar. O tempo passou, mas o que importa ficou: Antão e Anta provaram que o casamento não é mudar um ao outro, acima de tudo é reconhecer que mesmo sendo diferentes, com histórias distintas e marcas próprias, foram feitos para caminhar juntos, lado a lado. 
Em contrapartida, nos ensinou, que o amor verdadeiro não pede que alguém deixe de ser quem é. Ele agradece, ele respeita, ele permanece, ela sorri e se entrega em mesuras. E assim, simples e fortes, vivem os longevos alimentado a cada minuto a prova robusta e cabal de que quando dois corações escolhem um ao outro sem medo, sem julgamento e sem mentiras, não há força terrena neste mundo ou em um outro que por ventura possa existir, que tenha condições e forças para separar.
O casal Antão e Anta, trouxe ao mundo apenas um casal de filhos: Antãozinho e Antinha. Antãozinho casou e teve duas meninas: Antazinha e Anteia. Antinha, hoje aos dezoito anos, não quis casar, se amigou e mora junto com o Antião, um excelente professor de matemática. Vivem numa confortável casa construída nos fundos da antiga residência que pertenceu e seus falecidos avós. 
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Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.

(Texto enviado pelo autor.)

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