sexta-feira, 29 de maio de 2026
A. A. de Assis (Um susto na redação)
Ivens Lagoano Pacheco, dono e diretor do “O Jornal de Maringá”, era um gaúcho de corpo volumoso e vasto bigode. Para completar, fumava charuto e usava óculos escuros. Na sala de redação, naquele início de tarde em 1963, estávamos Ademar Schiavone, João Amaro Faria, José Zimermann e eu.
Tudo parecia calmo, ouvindo-se apenas o teque-teque das máquinas de escrever. Súbito entrou um homem muito nervoso, com um canivete numa das mãos e na outra um jornal todo amassado. Aos gritos, dizia:
– Quero ver quem foi o desaforado que botou meu retrato aqui nesta porcaria e me xingou de indivíduo e desordeiro...
Tinha saído no matutino a notícia de uma briga de bar, na qual o tal fulano esteve envolvido. Por sorte, naquele momento o repórter responsável pelo noticiário policial havia saído para um trabalho na rua.
Ivens estava na sala dele recebendo a visita de um amigo, o Doutor Newman da Silva Gomes, um dos primeiros dentistas de Maringá. De lá ouviu a gritaria e veio ver o que estava acontecendo. O homem continuava esbravejando e fazendo ameaças. Ivens chegou peitando o sujeito e soltando baforadas de fumaça:
– Abaixe essa arma e converse como gente educada.
O homem teve um tremelique, deixou o canivete cair e se desmanchou numa crise de choro. Ivens mandou que ele se sentasse num sofá e disse:
– Olhe aqui, seu moço, isto aqui é um lugar de respeito. Se você tem alguma queixa a fazer, fale comigo.
O homem enxugou os olhos com as mãos, disse que era um trabalhador desempregado e que estava de passagem por Maringá procurando trabalho. Metera-se na confusão do bar só por ter sido provocado.
Aí foi o bom Ivens que começou a chorar. Ligou para um restaurante que havia perto do jornal e mandou vir uma marmita bem recheada. Em seguida telefonou para um amigo empresário pedindo que arranjasse um servicinho para o rapaz até que aparecesse coisa melhor.
===================
(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 28-5-2026)
Olga Agulhon (Na safra da vida, a magia das cores)
Crônica Vencedora do Concurso Nacional de Crônicas do 3º Jogos Florais de Caxias do Sul /RS – 2011
No espelho não mais encontro aquela jovem que um dia foi a noiva de branco a se olhar uma última vez antes de se entregar… Um último retoque nos negros fios encaracolados; uma última ajeitada na grinalda de flores de laranjeira… e pronto! Tão linda imagem… perfeita! Estava ali a encarnação da esperança!
Tudo perfeito, afinal, naquele dia. Em cadeiras caprichosamente arrumadas sob a sombra do parreiral em cachos, amigos e familiares em sincera torcida… Quase toda a italianada da colônia…
As uvas pendiam roxas e perfumadas, indicando fartura e bons presságios ao alcance das mãos.
O noivo, de pé, no altar, com brilho de gel nos cabelos, vestia, com certeza, o seu melhor traje. Aguardava, aflito, a donzela que tomaria por esposa como quem espera, finalmente, começar a viver… Cheio de sonhos no olhar!
Não vi, ao caminhar em sua direção, nada além daqueles olhos de anil e promessas… Olhos que guardariam aquele momento para sempre em sua retina… Olhos que me diziam: – Venha, não tenha medo, ninguém aqui ousará ofendê-la, e hoje é o seu dia de rainha.
Unidos pelo santo laço do matrimônio, não mais enfrentaríamos a resistência dos sogros… Estava feito!
Outras safras vieram, ano após ano. Junto com a colheita da uva e a produção do vinho, comemorávamos o aniversário de casamento e, de quando em quando, a dádiva da vida sendo gerada em ventre fértil.
Nem tudo foi assim tão lindo do jeito que foi sonhado… Nem todas as promessas foram cumpridas… Algum encanto se desfez aqui ou acolá, mas tudo foi bem-vindo… Estávamos juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença… Fomos abençoados com cinco valorosos filhos, que formavam lindo degradê, e nossas vidas estariam para sempre entrelaçadas.
Volto a me buscar no mesmo espelho da penteadeira de imbuia, na mesma casa caiada com as cores da terra… e o meu amor está de partida.
Busco-me no espelho e não me vejo. Na imagem refletida, uma outra habita. Insisto e me procuro naquela imagem de cabelos de neve cobertos… Não reconheço nenhum traço. Não vejo quem sou, não encontro quem fui quando trocamos o “sim” diante do altar…
Lembro-me dos olhos de promessas cheios… Éramos outros… Tão jovens!
A velhice enrugou o nosso olhar… Não me reconheço diante do espelho e meu loiro não pode me ajudar nesse momento, pois trava um longo combate com a morte, no quarto ao lado… Insisto, aprumo os óculos, fixo-me bem posicionada… nada! O velho espelho também exibe as marcas do tempo. Choro… e as lágrimas silenciosas escorrem lentamente, percorrendo os inúmeros sulcos esculpidos em meu rosto.
Recomponho-me! Aprendi a aceitar os punhados de dor que a vida me reserva e esconde entre tantos potes de felicidade.
Volto e sento-me a seu lado. Ainda ouço um último sussurro: – Te amo, minha nega!… E então, finalmente, me reencontro naquelas retinas, que sempre me viram além da cor e das marcas do tempo.
Firme, seguro sua mão até a travessia, com a certeza de que, na minha hora, ele estará me esperando na margem de lá, com a mão estendida…, e ao caminhar em sua direção não verei mais nada além daqueles olhos de anil e promessas…
Outra safra se aproxima e a saudade ainda machuca o peito, mas alegro-me com a chegada dos filhos ao nosso pedaço de terra nesse cantinho do mundo.
A natureza novamente em cachos perfumados e coloridos.
Agradeço ao Criador da vida! O meu quinhão de alegria sempre foi maior que o meu quinhão de dor…
Meus filhos, participando da colheita da uva, são como bálsamo para os meus olhos… Lindos e fortes, uma mistura perfeita de raças, o branco e o negro em profusão de amor: na safra da vida, a magia das cores!
Fonte:
Jornal O Diário. Caderno D+. 31 janeiro 2012.
Baú de Trovas 7
Na vida tudo se alcança,
quando a Esperança se tem!...
Porém se morre a Esperança,
a vida morre também.
A..B. LOPES RIBEIRO
Esperança - voam aves...
Galhos, cascas flutuando...
Colombo comanda as naves
cheias de nautas cantando.
ADALBERTO DUTRA DE RESENDE
Descobri no envelhecer,
em meus momentos tristonhos,
que eu não tive, em meu viver,
nada mais além de sonhos!...
ADEMAR MACEDO
Quanta vez em tristes rotas
tombei sem me ter queixado
porque nas minhas derrotas
tive a Esperança ao meu lado.
AGMAR MURGEL DUTRA
No verdor da mocidade,
quanta esperança entretive!
Agora tenho saudade
das esperanças que tive!
ALFREDO DE CASTRO
Nossa vida é mesmo assim,
qual um rolo de papel...
quanto mais perto do fim,
mais dispara o carretel!
AMILTON MACIEL MONTEIRO
A esperança é voz do Além
que nesta vida nos guia.
Sem este amparo ninguém
às mágoas sobrevivia.
ANA ROLÃO PRETO M. ABANO
Mãe que traz uma criança
nas entranhas do seu ser,
carrega a própria esperança
no filho que vai nascer.
ANIS MURAD
Há muita gente na vida
que a felicidade alcança,
não por ter sorte florida,
mas por viver de Esperança!
ANTONIETA BORGES ALVES
Pensando, na tarde calma,
logo me ocorre à lembrança
que a própria vida tem alma,
e a alma da vida é a esperança!
APARÍCIO FERNANDES
A Esperança se revela
em cousa bem natural:
um sapato na janela
numa noite de Natal!
ARCHIMINO LAPAGESSE
Desde o tempo de criança
- de ingênua colegial -
fiz de ti minha esperança
e só tenho esse fanal.
ARIETE REGINA DE PAULA FERNANDES
Carnaval retrata a vida
de fugazes tentações...
E lá no fim da avenida
restam cinzas de ilusões!
ARTHUR THOMAZ
Que não seja a tua esmola,
vazia de coração;
a esperança mais consola
do que um pedaço de pão.
CÉLIA CAVALCANTE
Há muito mais esperança,
segundo o meu evangelho,
numa lágrima de criança
que num sorriso de velho.
COLBERT RANGEL COELHO
Entre o meu pai - já velhinho,
e o meu filho - uma criança,
vejo estender-se o caminho
por onde passa a esperança.
DENANCY MELLO ANOMAL
Esperança - chama acesa
no coração a brilhar.
quando ela morrer, a tristeza
vem tomar o seu lugar.
DINARTE BARBOSA ARMOND
A esperança é como um sopro
de vida, dado por Deus.
É o dia, depois da noite,
é a volta, depois do adeus.
EDGAR BARCELOS CERQUEIRA
Todos nós temos na vida,
quer seja agitada ou mansa,
a doce, a terna guarida,
onde se abriga a esperança!
EDNA DE CASTRO
A família alicerçada,
na fé, na paz e no estudo,
transforma o seu quase nada,
com amor, no quase tudo!
FRANCISCO NEVES DE MACEDO
A dor de tua partida,
que não sai da lembrança,
já me levou mais que a vida:
levou-me toda esperança!
FRAZÃO TEIXEIRA
Esperança - bem que enleva
nossa vida, no presente;
- um raio de luz na treva
do incerto amanhã da gente.
GERALDO PIMENTA DE MORAES
Ante a inclemência dos fados
da vida em cada revés...
Consolo dos desgraçados!
- Esperança é o que tu és!...
HONÓRIO SANTANA
Se o homem conquista o espaço,
por que é que, lutando a esmo,
é incapaz de dar um passo
para dentro de si mesmo?!...
IZO GOLDMAN
Com mágoa de toda a sorte,
se a velhice nos alcança,
crendo que há vida na morte,
temos na morte, Esperança.
JOÃO BATISTA DE AZEVEDO
Esperança - céu nublado
no Nordeste, os bois ao léu;
o sertanejo ajoelhado,
de mãos postas para o céu...
JORGE MURAD
Dói demais, é muito triste
a cruel separação...
A revolta sempre existe,
onde existe a ingratidão.
JOÃO BATISTA SERRA
Neste mundo que nos cansa
tanta maldade se vê,
que a gente tem esperança
mas já nem sabe de quê...
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO
Antes de sair de cena,
peço tempo aos céus risonhos,
pois acho a vida pequena
para a vida de meus sonhos.
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Esperança e, simplesmente
um sentimento perjuro:
são mentiras no presente...
desenganos no futuro...
LECTÍCIA PIRES RANGEL COELHO
Quando a ventura está morta,
deixando a dor como herança,
nossa alma se reconforta,
buscando a luz da esperança!
LEONARDO HENKE
Mesmo sendo uma quimera
a Esperança anima e acalma,
pois ela, enquanto se espera,
enche de rosas nossa alma!...
LINCOLN DE SOUZA
Esperança é aquela estrela
de verde luz envolvida,
a cintilar, pura e bela,
no céu escuro da vida.
LÚCIA LOBO FADIGAS
Numa era de baixeza,
num mundo de podridão,
a esperança é a tocha acesa
que trago no coração.
LUIZ EVANDRO INOCÊNCIO
A Esperança corre, voa,
mas deixa por onde passa,
uma impressão suave e boa:
de paz, de amor e de graça.
MANOELITA AMORIM MEYER
Quando um bem está perdido
outro nos vem consolar -
Esta esperança, querido,
Deus não me pode negar.
MARIA CARMEM SAUER BATISTA
Culpada de minha dor,
foi a esperança, Maria.
Leu nos teus olhos - amor
em vez de ler simpatia.
MARIA JOSÉ BARCELLOS CERQUEIRA
De flores tão enfeitada,
loiros cabelos em trança
Neste esquife azul , deitada,
vai toda a minha Esperança.
MARIA JOSÉ FORTES BRAGA
Esperança, isto se chama
e a todo instante acontece:
uma carta... um telegrama...
um meigo olhar... uma prece...
MAURO BARBOSA ARMOND
Com o verde da natureza
e o sorriso da criança
Deus coloriu a tristeza
pondo no mundo a esperança.
NATAL MACHADO
Podes perder mocidade,
amor, ventura, abastança,
nada perdes, em verdade,
se te ficar a esperança.
OCTACÍLIO AZEVEDO
Esperança - nordestino
numa cerca debruçado,
contemplando, sol a pino,
o verdejante roçado.
OLDEMAR ANDRADE
No porto dos meus anseios
esperanças são navios,
que de manhã partem cheios
e à tarde voltam vazios...
ORLANDO BRITO
Por que é verdade a esperança?...
Se todo o mundo soubesse...
- É que, por mais que se espere,
ela nunca amadurece...
PADRE BELCHIOR D'ATHAYDE
Quando minha alma sentida
nesta vida nada alcança,
inda me resta na vida
- graças a Deus ! - a esperança!
RODOLFO COELHO CAVALCANTI
Quem quiser ver a Esperança
olha uma noiva no altar,
fite um rosto de criança,
repare uma mãe rezar!
SEVERINO UCHOA
Se a família é rica ou pobre
e se o lar é acolhedor,
a gente sempre descobre
pela grandeza do amor!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
No tédio de minha vida
de emoções vazia e nua,
só me torna comovida
a Esperança de ser tua...
VERA MILWARD DE CARVALHO
Ai, do pobre, sem carinhos,
cuja dor se vê na face,
se no meio dos espinhos,
a esperança não brilhasse...
VIRGILIO GUERREIRO
A fonte da minha vida
- o meu sonhar de criança -
não ficou toda perdida…
- Vive um pouco na Esperança...
ZALKIND PIATIGORSKY
Rachel de Queiroz (Marmota)
Aqui ninguém duvida de que marmota existe. Quase todo o mundo já viu. De noite, nas conversas do terreiro, é raro quem não tenha seu caso a contar. Marmota não é bem fantasma, pode ser alma do outro mundo, ou é uma aparência, uma coisa do mato, quem sabe? Às vezes é um bicho. Em geral é um vulto; e também um ruído, uma chama. Aparece de noite ou de dia.
Todo mundo encara as marmotas como realidades do cotidiano, que fazem um medo desgraçado, mas com as quais se tem que contar. E há delas passageiras, como há outras muito antigas. No caminho de chegada à fazenda de minha irmã, no Choró, existe uma pedra grande, escura, bem na descida de um alto. O povo a chama “Pedra do Bicho”, porque ali costuma aparecer uma marmota; e já faz mais de cem anos que ela se mostra. Milhares de pessoas já a encontraram. Pode ser do tamanho de um porco, ou do tamanho de um cavalo, mas é sempre preta e com uma barriga mole, se arrastando. Às vezes se encontra cascavel morta junto da pedra, às vezes um preá. É o bicho que mata. Alguns falam que há muitos anos apareceu ali uma ossada de gente, ainda com as carnes. Engraçado, nesses anos todos nunca mudaram o caminho.
No corte da estrada de ferro, na saída da lagoa da Carnaúba, compadre Chico Barbosa vinha uma noite com o seu filho Eliseu e de repente lhes surgiu à frente aquele vulto preto, de andar arrastado, como um bicho grande e disforme, tomando o caminho. Eles desviaram à esquerda, o bicho também, desviaram à direita, o bicho também bandeou. Chico trazia um facão, brandiu o ferro, a marmota nem se importou. Riscaram um fósforo, sacudiram em cima, o bicho nada. Afinal resolveram fechar os olhos e o pai esgrimindo com o facão, o filho açoitando o ar com uma vara, correram em frente, com bicho e tudo. Não sabem como atravessaram nem como chegaram em casa. Mas ainda hoje ficam com as carnes tremendo quando se lembram.
Pedro Ferreira vinha de uma noitada de jogo, sozinho, pela meia-noite. Eis que numa vereda lhe apareceu a marmota – alta, de braços abertos, no sistema de uma pessoa. Ele trazia um pau grosso na mão, plantou o pau no bicho, facheou o pau todo, a visagem não se espantou. Pedro sentiu que o cabelo lhe crescia na cara, na nuca. Sentou-se no chão, ficou de olhos fechados, esperando, com vontade até de chorar. Afinal olhou – a marmota tinha sumido. E o pau, que ele largara no chão, ao seu lado, tinha sumido também.
Comadre Delurdes ia de manhã ao roçado, levar ao marido o “sonhim” de pão de milho. Junto à capoeira velha deu com uma coisa – não era bem uma marmota, era mais uma aparência, um rasgar forte de pano, e um rufar de asas grandes, uma coisa agitando o ar, aquele sorvo, que não se via mas se sentia. Ela correu tanto que ao chegar em casa teve uma oura, quase morreu. O marido zombou, no outro dia foi com ela – e aí quem correu foi ele. Ninguém da família vai mais sozinho ao roçado.
Certa noite um bando de gente vinha de uma festa, pela rodagem do Quixadá. Zéza, a hoje finada Dora, Terezinha, seu marido Chico Ferreira, e outros. Ao passarem perto do local onde foi encontrada a ossada de Chico Preto (morto misteriosamente há alguns anos), viram um vulto agachado ao pé de uma imburana. A coisa olhava de um lado e de outro da árvore, como quem brinca com criança. Chico Ferreira soltou um uivo e desabou; e as mulheres correram atrás, lutando para ver se chegavam na frente dos homens. E, se a visagem quisesse tinha até apanhado um menino, coitadinho, que ficou por último na disparada. Na hora do medo parece que até coração de mãe se esquece.
O mesmo Pedro Ferreira tem outra recordação do seu tempo de jogador. Vinha em noite escura, por um caminho que passa perto da represa do açude velho do Junco, cansado, com fome e frio. Nisso avistou um fogo e se alegrou – deviam ser uns amigos que planejavam uma pescaria. Parece que tinham tocado fogo num toco e as suas sombras iam e vinham ao redor. Pedro chamou, ninguém respondeu. Aí a chama baixou e voou brasa pra todo lado, como se alguém batesse com uma vara no fogo, estilhaçando-o. Assustado ele parou – firmou a vista – agora não tinha mais toco, nem fogo, nem brasa, só um escuro mais escuro, como um vulto, no lugar onde o fogo estivera. O chapéu lhe subiu nas alturas; ele sentiu que o vulto se deslocava em sua direção. Correu, botando a alma pela boca. Mas o bicho, lerdo, não o perseguiu.
E até mesmo aqui perto de casa, antes de se atravessar o riacho do açude, tem uma moita de mofungo, junto a um pé de violeta, onde o povo sempre encontra uma marmota. Tem dia em que ela balança a moita, e solta gemidos, aqueles ais. Ou se divisa um vulto por baixo da moita, e então se escuta um ruído forte de dentes, como um cachorrão quebrando ossos.
As pessoas que contam esses casos nunca mentem em outras coisas. São gente de respeito, nem é impressão de bebida – como se diz: “visagem de bêbedo fede a cachaça”. Será que elas mentem só nesses casos? Ou se enganam, ou sonham?
Fonte:
Clevane Pessoa (O Anjo, a Rosa, o Beija-flor)
Um dia, a rosa mais olorosa do jardim, sempre cuidada por um pequeno ser de luz- amante de sua beleza inefável, mãos pacientes e cuidadosas, a afofar e regar a Terra, arrancar ervas daninhas e afastar as formigas, mesmo sujando-as ou ferindo os dedinhos leves-recebeu a visita fremente de um beija-flor. Este, tão pequeno quanto o outro, mas dono das asas que ele não possuía e um bico que podia extrair o néctar precioso, encantou a pequena rosa orvalhada…
O anjinho luminoso, observando toda a perfeição daquilo, o encantamento do beija-flor batendo as asas centenas de vezes a equilibrar-se no ar, a cumprir um ciclo vital, um equilíbrio necessário na Natureza, resolveu ir embora, para não sofrer mais… Para sempre. Doía-lhe muito porque outro cuidava de sua flor, agora. Mas apenas quem ama verdadeiramente é realmente capaz de renunciar… Afastou-se de vez, e então, abriu-se nele um par de asas luminosas, por ele desconhecidas, mas presentes desde que nascera para amar- e foi então que, travestido em um colibri de arco-íris nas asinhas vibráteis, ele pôde reaproximar-se da rosa que o reconheceu, no momento exato em que ela fenecia, pois tinha a vida efêmera, arrependida de não ter conseguido reconhecer a tempo toda a dedicação de quem cuidara de si desde que abrira as pétalas pela primeira vez…Agora era muito tarde…O que precisa ser feito em amor, não deve ser adiado, nunca…É preciso ser ousado para viver plenamente o momento amoroso…E então, a flor se foi…
O anjinho beija-flor, porém, por representar Eros, tinha o dom da eternidade e foi assim que ele descobriu outras rosas, outras flores e seguiu através dos séculos a cultuar o AMOR…
Fonte:
Clevane Pessoa de Araújo Lopes/Brasil, no e-book “Pequenas Histórias em Atos” Ensaio Poético da AVBL, organizado por Maria Inês Simões
Por que um leitor abandona um livro
![]() |
| Imagem = IA Microsoft Bing |
1. Problemas relacionados à estrutura e à qualidade da narrativa
É, sem dúvida, o conjunto de razões mais frequente. Quando a construção da história, das personagens ou da linguagem não cumpre o que se espera, o vínculo entre leitor e obra se rompe.
Desenvolvimento fraco ou confuso da trama
Uma das primeiras causas é a falta de clareza ou de propósito na história. Muitas vezes, o autor começa a narrar sem definir claramente qual é o conflito principal, qual é o objetivo das personagens ou qual é o rumo que a história vai tomar. O leitor passa capítulos inteiros sem entender para onde a narrativa está indo, e essa sensação de "estar perdido" gera desinteresse. Além disso, se a trama se arrasta por muito tempo sem que nada de relevante aconteça — o que chamamos de "encheção de linguiça" —, a leitura se torna cansativa.
O oposto também é um problema: se os acontecimentos são muito rápidos, mal explicados ou se há mudanças bruscas que não fazem sentido lógico, o leitor não consegue acompanhar e acaba desistindo.
Buracos na trama, ou seja, fatos que não são explicados, contradições entre o que foi dito antes e o que acontece depois, ou soluções fáceis e inverossímeis para problemas complexos também quebram a credibilidade da história.
Personagens que não geram identificação ou interesse
As personagens são o coração de qualquer narrativa. Se elas forem mal construídas — rasas, sem personalidade, sem motivações claras ou sem evolução ao longo da história, o leitor não se importa com o que acontece com elas. Não há razão para continuar lendo se não sente simpatia, curiosidade ou até mesmo antipatia por quem está sendo narrado.
Outro problema comum é quando as atitudes das personagens não condizem com o que foi apresentado sobre elas: por exemplo, uma personagem que é descrita como muito corajosa, mas que em momentos decisivos age de forma covarde sem explicação. Também afasta o leitor a criação de personagens excessivamente perfeitas, sem defeitos ou dificuldades, pois elas se tornam irreais e distantes da experiência humana.
Estilo de escrita inadequado ou cansativo
A forma como a história é contada influencia diretamente na experiência de leitura. Alguns autores usam uma LINGUAGEM EXCESSIVAMENTE REBUSCADA, COM PALAVRAS RARAS, frases muito longas e complexas, ou descrições minuciosas e intermináveis de ambientes, objetos ou sentimentos, que tornam a leitura lenta e difícil. Quando o leitor precisa parar a cada parágrafo para entender o que está escrito, a leitura deixa de ser prazerosa e se torna um esforço.
Por outro lado, uma escrita muito simples, repetitiva ou com erros de coesão e coerência também afasta, pois demonstra falta de cuidado com a obra. O ritmo da escrita também importa: se todo o texto tem o mesmo tom, a mesma velocidade, sem momentos de tensão, de calma ou de emoção, a leitura fica monótona. O uso inadequado de pontos de vista — como mudar de quem está narrando sem avisar, ou usar um ponto de vista que não permite conhecer os pensamentos ou sentimentos das personagens — também cria distanciamento.
Diálogos artificiais ou irreais
Os diálogos são uma ferramenta essencial para contar histórias, mas quando são mal feitos, causam estranhamento. Se as personagens falam de forma muito formal, com frases que ninguém usaria na vida real, ou se os diálogos servem apenas para explicar coisas que o autor quer que o leitor saiba, ao invés de refletir a forma como as pessoas realmente se comunicam, a sensação é de falsidade.
Além disso, diálogos que não avançam a trama, que são repetitivos ou que não revelam nada sobre quem está falando, são um motivo frequente para abandonar a leitura.
Problemas na estrutura da obra
Alguns livros têm uma organização que dificulta o acompanhamento: por exemplo, saltos temporais muito frequentes e sem marcação clara, divisão de capítulos que não faz sentido, ou uma ordem dos acontecimentos que confunde a compreensão. Quando a estrutura não ajuda o leitor a navegar pela história, a sensação é de desorganização, e a leitura se torna desagradável.
2. Descompasso entre expectativa e realidade
Antes mesmo de começar a ler, o leitor cria uma ideia sobre o livro, baseada em sinopses, recomendações, resenhas, capa ou até mesmo no nome do autor. Quando o que ele encontra nas páginas é muito diferente do que esperava, a decepção é imediata e pode levar ao abandono.
Expectativas criadas pela apresentação da obra
A sinopse, na contracapa ou na apresentação, é um dos principais fatores de atração. Se ela promete uma história de mistério cheia de reviravoltas, mas o livro é, na verdade, uma narrativa lenta sobre relações familiares, o leitor se sente enganado. O mesmo acontece se a capa sugere um gênero (como fantasia ou romance), mas o conteúdo pertence a outro, ou se o livro é vendido como uma obra-prima, mas a qualidade percebida pelo leitor é muito inferior.
Recomendações de amigos, críticos ou influenciadores também criam expectativas: se alguém que você confia diz que um livro é incrível, e você não encontra nada de especial nele, a frustração pode fazer com que você desista.
Gênero ou tema que não corresponde ao gosto do leitor
Muitas vezes, o livro é bem escrito, bem estruturado e tem boa crítica, mas simplesmente não agrada ao gosto pessoal de quem está lendo. Por exemplo, alguém que gosta de histórias dinâmicas, com muita ação, pode achar um livro de reflexão filosófica ou drama psicológico muito parado e chato. Da mesma forma, temas que não interessam, ou que são tratados de uma forma que não agrada, fazem com que o leitor não veja sentido em continuar. O gosto é algo subjetivo: o que é maravilhoso para uma pessoa pode ser insuportável para outra, e isso não significa que o livro seja ruim, apenas que não combina com quem está lendo.
Abordagem de temas sensíveis ou polêmicos
Alguns livros tratam de assuntos difíceis, como violência, traumas, discriminação ou sofrimento extremo. Se o autor aborda esses temas de forma excessivamente explícita, sem cuidado, ou se o leitor tem alguma ligação pessoal ou sensibilidade com o assunto, a leitura pode se tornar desconfortável, dolorosa ou até ofensiva. Nesse caso, o abandono é uma forma de proteção emocional, pois a pessoa não quer continuar exposta a sentimentos negativos ou situações que a afetam profundamente. Além disso, se a forma como um tema é tratado contraria os valores, crenças ou princípios morais do leitor, ele não se sente à vontade para seguir adiante.
3. Fatores relacionados ao leitor
O estado, a disposição e as características de quem lê também são determinantes para a continuidade ou interrupção da leitura.
Falta de disponibilidade de tempo ou de concentração
Vivemos em um mundo cheio de distrações e obrigações. Muitas vezes, o livro é bom, mas o leitor está sobrecarregado com trabalho, estudos, problemas pessoais ou atividades diárias, e não consegue encontrar tempo ou calma para ler com atenção. Quando as leituras são feitas em pedaços curtos, com interrupções constantes, é difícil se envolver com a história: ao retomar a leitura, já não se lembra o que aconteceu antes, quem são as personagens ou qual é o contexto, e isso faz com que a experiência seja fragmentada e pouco prazerosa. A falta de concentração também pode ser resultado de cansaço físico ou mental, que torna difícil absorver o conteúdo.
Estado emocional ou mental inadequado
O nosso humor e o que estamos vivendo na vida real influenciam muito o que lemos e como lemos.
Um livro que é engraçado, leve e divertido pode ser exatamente o que precisamos em um momento de alegria, mas se estamos tristes, ansiosos ou passando por um problema difícil, pode parecer superficial ou inadequado. Da mesma forma, uma história densa, profunda ou triste pode ser muito pesada para alguém que já está emocionalmente abalado.
Em certos momentos, a pessoa só quer algo que a distraia, e não algo que exija reflexão ou que mexa com sentimentos intensos. Se o livro não se adapta ao que a pessoa precisa ou está disposta a receber naquele momento, ele é deixado de lado.
Falta de afinidade com o estilo ou a proposta do autor
Alguns autores têm uma forma muito própria de escrever, de estruturar histórias ou de ver o mundo. Mesmo que a obra seja reconhecida como excelente, o leitor pode simplesmente não se identificar com essa forma de ver e contar as coisas. Pode ser que ele não concorde com as ideias apresentadas, que não goste da forma como o autor pensa ou que ache a perspectiva adotada distante ou incompreensível. Essa falta de sintonia faz com que a leitura não gere conexão, e sem conexão, não há motivação para continuar.
Dificuldade de compreensão ou conhecimento prévio
Certos livros exigem um repertório cultural, conhecimento específico ou maturidade que o leitor ainda não tem. Obras clássicas, livros com referências históricas, filosóficas ou científicas, ou textos com linguagem de uma época diferente podem ser difíceis de entender para quem não tem a base necessária. Quando a pessoa sente que não consegue acompanhar, que não entende o que está sendo dito, ou que precisa estudar para ler, a leitura deixa de ser um prazer e se torna uma tarefa, levando ao abandono.
4. Fatores externos e de contexto
Além da obra e do leitor, o ambiente e a situação em que a leitura acontece também têm peso na decisão.
Concorrência com outras atividades ou interesses
Hoje, temos inúmeras formas de entretenimento e informação: séries, filmes, jogos, redes sociais, podcasts, entre outros. Muitas vezes, o leitor começa um livro, mas encontra outras atividades que acha mais interessantes, mais rápidas ou mais fáceis de consumir. A leitura exige dedicação e atenção, que muitas pessoas preferem direcionar a outras coisas que lhes dão prazer ou retorno mais rápido. Além disso, se surge um novo interesse, um novo assunto ou um novo livro que desperta mais curiosidade, o que estava sendo lido é deixado para trás.
Problemas com a edição ou a apresentação física do livro
Parece pequeno, mas detalhes físicos importam muito. Edições com letras muito pequenas, páginas muito finas, papel de má qualidade, diagramação confusa, muitos erros de impressão ou ortografia, ou ainda livros muito grandes, pesados ou desconfortáveis de segurar tornam a leitura cansativa e desconfortável. Se cada página lida é um esforço físico ou visual, a pessoa vai preferir parar.
Influência de outras pessoas ou do meio
Às vezes, o leitor está gostando do livro, mas ouve comentários negativos de pessoas que ele respeita, ou percebe que ninguém ao seu redor conhece ou gosta da obra. Essa influência pode fazer com que ele passe a ver o livro com olhos diferentes, comece a achar defeitos que não via antes e, por fim, decida abandoná-lo. Também acontece de a pessoa sentir vergonha do que está lendo, por achar que não é um livro "importante" ou "adequado" perante os outros, e parar de ler por causa disso.
5. O limite pessoal e a decisão de parar
Há também um ponto que se refere à postura do próprio leitor em relação à leitura. Muitas pessoas sentem que precisam terminar todos os livros que começam, como se fosse uma obrigação ou uma forma de cumprir uma meta. Mas, ao longo da experiência de leitura, a pessoa percebe que não está gostando, que não está ganhando nada com a obra, ou que simplesmente não tem mais vontade de continuar. Nesse momento, a decisão de abandonar o livro é também uma escolha de respeito a si mesmo: reconhecer que o tempo e a disposição são valiosos, e que não faz sentido gastá-los com algo que não traz satisfação, conhecimento ou prazer.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Abandonar um livro não é um sinal de que o leitor não sabe ler, ou de que o livro é necessariamente ruim. É, antes de tudo, um reflexo da complexidade da relação entre quem escreve, o que é escrito e quem lê. Cada leitor é único, cada livro tem suas características, e cada momento da vida traz necessidades e interesses diferentes. As razões para parar são sempre uma mistura de todos esses elementos, e compreendê-las ajuda a entender que a leitura é, acima de tudo, uma experiência pessoal e subjetiva. O importante não é terminar todos os livros, mas encontrar aqueles que fazem sentido, que tocam, que ensinam ou que divertem — e que fazem valer a pena cada página lida.
Fonte:
Jfeldman. Dissecando a magia dos textos. Floresta/PR: A.I. Dola, Biblioteca Sunshine.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Lendas de Portugal (O Bandido da Serra de Arga)
A Serra de Arga ergue-se rodeada de muitas outras serranias. A Natureza encontra-se aí em estado quase selvagem, tendo sofrido pouco com a ação destruidora dos homens que tudo querem rapidamente Dominar e transformar em seu próprio proveito. Esta zona era, na época a que nos reportamos, já lá vão alguns séculos, escassamente habitada de gentes. As aldeias distavam uma lonjura umas das outras e eram precisas muitas horas a pé ou a cavalo para que alguém se deslocasse à localidade mais próxima.
Naqueles ermos vivia, solitário, talvez abrigando-se nalguma caverna, um homem enorme e possante, um homenzarrão, que se dedicava à única atividade de matar e roubar todos quantos se aventurassem a atravessar aquela região e tivessem o azar de se encontrar frente a frente com ele. O salteador atacava as suas vítimas com um facão de que nunca se separava. As populações temiam-no e evitavam-no, tal como o faziam com os lobos e os ursos.
Certo dia, um fradinho ingênuo e com o coração cheio de bondade, aventurou-se por aqueles íngremes caminhos de montanha, extasiado com a magnífica paisagem a perder de vista. Ele tinha Deus no seu coração e, quando se via confrontado com a maldade humana, sempre arranjava maneira de descobrir o lado bom dos prevaricadores. Ele não acreditava que pudesse existir a maldade pura e simples. Seguia este homem de Deus por uma vereda, enchendo os pulmões com aquele ar tão leve e ligeiramente embriagador, e sentindo o coração livre como um passarinho, tudo isto por lhe dada a ver toda aquela beleza simples e harmoniosa. Enquanto caminhava ia agradecendo ao Criador por lhe proporcionar tanta felicidade. Ia tão absorto nos seus pensamentos que nem se assustou quando, alguns passos à sua frente surgiu, vindo não se sabe de onde, uma espécie de gigante, um maltrapilho hirsuto, empunhando um facão e que avançava na sua direção:
- Quem és tu meu irmão…? – começou o frade a perguntar mas, antes de ter podido acabar a frase agonizava, caído por terra, profundamente atingido pela lâmina da enorme faca do bandido.
Antes de exalar o seu último suspiro, o frade ainda conseguiu dizer ao seu algoz, sem qualquer vestígio de rancor ou ódio no seu coração:
- Tenho muito pena de ti meu irmão… vejo que és um homem muito infeliz e solitário e que sofres com isso. É esse sofrimento que te leva a cometeres crimes de sangue… matas o teu semelhante porque não sabes amá-lo. Mas eu agradeço-te pelo mal que me fizeste porque, assim, daqui a pouco vou estar perto de Deus e pedir-lhe-ei que Ele te ajude a encontrar o bom caminho que, um dia, te conduzirá, também a ti, até ao Céu. Acredita que vou ajudar-te …
O santo homem não teve tempo para acabar a frase. A alma abandonou o seu corpo e regressou para junto do Criador.
Estupefato com a atitude do frade, o ladrão sentiu-se como se tivesse sido atingido por um raio e compreendeu, naquele instante, que se tornara num monstro. A partir daquele dia operou-se uma modificação total na sua maneira de agir e, em vez de assaltar e matar os viajantes, passou a ajudar todos quantos por ali passavam e precisavam da sua ajuda: Salvava crianças que se atolavam na neve, ajudava os pastores a encontrarem as ovelhas tresmalhadas, carregava às costas os velhos que queriam atravessar o ribeiro pouco profundo mas que tinha uma corrente rápida e agitada. Enfim, transformara-se num modelo de caridade cristã para com os seus semelhantes.
Mas, muito antes do assassínio do frade e da consequente modificação no seu comportamento, já a sua fama de assassino e ladrão tinha chegado a Lisboa. Os governantes ofereceram, então, uma recompensa de cem moedas de ouro a quem capturasse o homem e o entregasse às autoridades, vivo ou morto.
Um dia, um camponês que se fez àquela estrada de montanha com uma carroça carregada de cereal para vender na feira ficou, de repente, muito aflito ao verificar que uma das rodas se atolara na lama e ele sozinho não era capaz de resolver o problema. A carroça ia-se inclinando para aquele lado e o homem temia que o cereal se derramasse pela encosta abaixo. No meio da sua aflição, o camponês não viu aproximar-se o gigante que, entretanto, passara a ser um homem de bem. Pondo um joelho em terra e curvando as suas possantes costas, o homem conseguiu equilibrar, sobre os ombros, o peso da carroça antes que o seu conteúdo se perdesse.
Sabedor da recompensa para quem capturasse o antigo salteador e vendo-o ali, desprevenido, numa postura em que não podia defender-se, o camponês agarrou com as duas mãos num machado que levava escondido debaixo do capote e, com dois ou três golpes, esmagou a cabeça de quem lhe prestara ajuda desinteressada, matando-o de imediato. Cobriu o corpo com alguma terra, ramos e folhas secas e foi a correr avisar as autoridades que tinha capturado o bandido, pedindo-lhes que o acompanhassem depressa ao local, pois temia que os lobos entretanto comessem o cadáver.
Quando chegaram ao sítio onde o homem tinha sido abandonado, com a cabeça despedaçada, verificaram que o seu corpo se encontrava deitado sobre um tapete de flores que inexplicavelmente tinham crescido em seu redor. A cabeça não tinha sinais de ferimentos e o corpo estava intacto, parecia alguém que tivesse simplesmente adormecido tranquilamente. Junto dele tinha crescido uma árvore com densa folhagem que projetava uma sombra fresca sobre o corpo que ali jazia. Passarinhos esvoaçavam em todas as direções enchendo o ar de música com o seu chilrear.
A notícia de tão insólito acontecimento correu célere pelas aldeias vizinhas e não tardou que houvesse quem considerasse que Deus, na sua infinita bondade, concedera a sua misericórdia àquele antigo pecador e que, por isso, ele devia ser considerado santo e digno de veneração. O povo construiu-lhe uma pequena igreja num lugar ermo da Serra de Arga e, passados alguns séculos, ainda hoje ela lá se encontra e é muito visitada pelos devotos.
Fonte:
David Martins. Lendas de Portugal. Lisboa: Lyon, 1998.
Enéas Athanázio (A Estradinha)
Sentei no banco gasto da velha estação ferroviária e espraiei o olhar pela vila onde passei muitos anos da infância feliz. Para trás estavam as ruas tortas em que se alinhavam velhas casas; à direita se avistavam as ruínas da antiga madeireira, a indústria que devorou as matas da região; à esquerda, menores do que eu imaginava, ficavam os morros misteriosos onde, como diziam nos meus tempos de criança, viviam até bugres e onças pintadas. Mas à minha frente se estendia a paisagem que mais me dizia à saudade. Naquela campina plana, com o capim ralo queimado da geada inclemente, começava a estradinha que ligava minha vila ao lugarejo onde morava meu amigo Téo, um dos tantos que o tempo levou. Era uma estrada de poucos quilômetros, com o chão vermelho batido pelo caminhão velho que puxava madeira, cortando a mataria fechada, subindo e descendo as quebradas do terreno. Caminho pobre, onde quase ninguém passava, e cujos únicos ruídos eram o canto dos pássaros e o grito de algum bicho. Para mim, porém, aquela estradinha era a porta da aventura e da liberdade – era tudo.
Por ela eu saía nas explorações solitárias do mato próximo e, mais tarde, com a espingarda nas costas, para algumas caçadas inofensivas. Por ela eu partia para acampar na companhia dos amigos, curvado ao peso da mochila. Mais crescido, já metido a homem, a estradinha servia para minhas andanças a cavalo e as corridas na bicicleta que ganhei de minha avó, a única da vila. Também era por ali que eu rumava para os primeiros bailes, nos sítios ou nas casas-de-festa das capelas, quando até arranjei uma namorada, caboclinha simplória e acanhada que também sumiu no tempo. Era ainda por ali, na fase da leitura apaixonada, que eu rumava para a casa de Téo, com quem trocava livros e revistas.
Bem cedinho, mal engolido o café, eu enfrentava o frio e partia decidido. Quase sempre a pé, com o maço de leituras em baixo do braço, esticava o passo nas curvas sem fim, a batida dos saltos provocando um som cavo no chão vidrado. Nem saía da vila e me punha a cantar e assobiar, talvez para espantar o medo, a voz reboando nas canhadas e o eco respondendo longe. Às vezes treinava mesmo uns discursos e declamações para uma plateia invisível. Nessas visitas ao Téo acontecia encontrar por ali, pastando à vontade, o Rosilho, um cavalo muito velho que pertencia à minha família. Não servia mais para o serviço e fora largado ao deus-dará. Muito barrigudo e de lombo agudo como facão, era o retrato da mansidão. Submisso sempre a meus caprichos infantis, muito eu tinha brincado com ele.
Eu então o montava em pelo, sem pelego e sem freio, e o colocava na estrada. Bufando e rebolando, o pobre me levava até a vizinhança do povoado do meu amigo, onde eu o largava, com um tapa amistoso no lombo. À noitinha, quando retornava, eu o encontrava quase no mesmo lugar, pastando em silêncio. Parecia que me esperava. Eu montava de novo e, entre bufos, ele me levava de volta. Para compensá-lo, eu lhe dava um trato de milho e alfafa e servia-lhe água fresca. Com olhos imensos e plácidos, parecia agradecer. Depois, em passos curtos, sem pressa, retomava a liberdade duramente conquistada e cruzava a campina.
Chegando em casa, nem descansado do passeio, eu já imaginava novas andanças pela estradinha. A estradinha que ficou para sempre na minha lembrança como o caminho livre do sonho e da fantasia.
=============
Premiado no Concurso Nacional Monteiro Lobato promovido pela Academia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil (S. Paulo – 1990).
=============
Fonte:
ATHANÁZIO, Enéas. Rosilho Velho: contos juvenis. Balneário Camboriu: Minarete, 1994
Baú de Trovas 6
Seu péssimo humor é tal,
e é tal seu jeito ranzinza,
que curte, do carnaval,
somente a quarta de cinza…
A. A. DE ASSIS
A beleza é uma caveira,
com luxo e gala vestida,
que se desfaz em poeira,
num leve embate da vida.
ADALZIRA BITTENCOURT
Ai daquele que se ilude!
Homem — és tão pequenino,
qual uma bola de gude
na imensa mão do destino!
ALICE ALVES NUNES
Lá se vão os retirantes!
Deixam seus campos... seus bois. .
— O coração morre antes!
— O corpo morre depois...
APARÍCIO FERNANDES
Ilusão — buquê de flores
cheias de encanto e poesia,
que enfeitam de lindas cores.
a vida de cada dia.
ADELAIDE PEREIRA
Quando encontrei desbotado
meu retrato de arlequim
no carnaval do passado,
senti saudades de mim !
ALFREDO DE CASTRO
Pulo mais do que ioiô,
no carnaval sou assim:
por dentro sou pierrô,
por fora sou arlequim...
ANALICE FEITOZA DE LIMA
No carnaval desta vida,
ou por graça ou por maldade,
a Mentira anda vestida
com a nudez da Verdade!
ARCHIMINO LAPAGESSE
Se a vingança é seu intento,
pense antes de iniciar.
Ela só traz sofrimento
e o mal não vai reparar.
ARTHUR THOMAZ
No carnaval do desgosto,
muitas vezes de improviso,
ponho a máscara no rosto
para mostrar meu sorriso...
BATISTA SOARES
É provérbio muito antigo
que todos devem saber:
quem não evita o perigo,
há de nele perecer.
BENEDITO LOPES DE OLIVEIRA
Com esse olhar que fascina
não me queimes por quem és:
- serás minha Colombina,
- serei Pierrô a teus pés.
CARVALHO GUIMARÂES
Falso rubi em seu dedo,
bolsa vermelha na mão,
nos olhos... angústia e medo,
"... iniciava a profissão..."
CECÍLIA AMARAL CARDOSO
Nossas máscaras do dia
nem sempre nos fazem mal
a esconder dor ou alegria
de um eterno carnaval…
CLEVANE PESSOA
O meu riso é mascarado,
eu não sou alegre assim...
Há um palhaço amargurado
Que chora dentro de mim.
CLÓVIS MAIA
Veste o manto, ajeita a pluma,
põe a faixa de Rainha,
passa batom, se perfuma
e faz Carnaval… sozinha…
DARLY O. BARROS
O morro grita o seu nome
num frenesi sem igual
e vai sambando com fome
a deusa do carnaval!
FERNANDO CÂNCIO DE ARAÚJO
Ela se foi por maldade,
levando o amor de nós dois
e, agora, sinto saudade
do que nunca foi depois!
GABRIEL BICALHO
É carnaval… e em meu peito
qual um sagaz folião,
brinca o meu sonho desfeito
nas alas da solidão…
GISELDA DE MEDEIROS
Carnaval – Festa do povo,
dos prazeres, da folia…
Foliões buscam de novo
reviver sua alforria!…
JOAMIR MEDEIROS
Essa miséria que passa,
mascarando os desenganos,
é o carnaval da desgraça,
o dos farrapos humanos!
JOSÉ CORRÊA VILLELA
Confetes e serpentinas.
este é o nosso carnaval...
Depois...quantas Colombinas
jogadas no matagal!!!
JOSÉ FELDMAN
A ajuda mais importante
que se pode dar a alguém,
é torná-la confiante
nos valores que ela tem!
JOSÉ HENRIQUE DA COSTA
Riso, disfarce, aparato,
sobre um rosto diferente:
o carnaval é o retrato
da vida de muita gente.
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO
Meu carnaval se repete
com a mesma Colombina:
faço dos versos confete
e da trova - serpentina.
JOSÉ VALERIANO RODRIGUES
Carnaval!... Tantas folias...
Pagodes doidos de insano!
Cai a máscara três dias
da face que a usou um ano!...
LAVÍNIO GOMES DE ALMEIDA
Olhando, alheio á folia,
no carnaval me comovo,
ao ver tamanha alegria
sob a miséria do povo.
LUIZ ANTONIO PIMENTEL
O sonho que eu tive um dia
e que a minha alma alegrou,
hoje é só a fantasia
de um carnaval que passou...
LUIZ RABELO
Igualzinho ao vendaval
o nosso amor começou,
terminado o carnaval
este amor se evaporou.
MADALENA CASTRO
Viro a chave... E a nostalgia
da solidão que me corta
é impressa na melodia
do lento ranger da porta...
MANOEL CAVALCANTE
Carnaval, quanta magia…
Foliões pelo salão…
Fantasias…Euforia…
Muito riso… Até paixão…!
MARIA EULÁLIA BRAZ DE OLIVEIRA
Às pescarias incertas,
num mar revolto e voraz,
prefiro as ilhas desertas,
onde eu planto e colho em paz!!!
MARIA MADALENA FERREIRA
No carnaval o sujeito,
no samba, pisou na lata,
caiu e bateu de jeito
no traseiro da mulata!...
MARISA RODRIGUES FONTALVA
Sem tentar - não há fracassos.
Sem ter fé - não há profetas.
Sem sorrir - não há palhaços.
Sem sofrer não há poetas!
MIGUEL RUSSOWSKI
Nosso povo é genial
pois remédio, em sua crença,
é sambar no carnaval,
pra curar qualquer doença.
NEUCI DA CUNHA GONÇALVES
Pensando bem nesta vida,
a gente quase enlouquece:
— Quanta glória imerecida
às custas de quem merece!
NICOLINO LIMONGI
Na rua, toda nuazinha,
escondendo a cara santa,
no carnaval da Lurdinha,
até morto se levanta.
NILTON MANOEL TEIXEIRA
Triste vida a do Pierrô:
sofrer pela Colombina,
que, nos braços de Arlequim,
ri de sua triste sina!
PALUMA FILHO
Carnaval. Reina a folia.
Quantos, nessa confusão,
se escondem na fantasia
para mostrar o que são!
PAULO EMÍLIO PINTO
Carnaval: dança e alegrias,
que têm o dom surpreendente
de sepultar, por três dias,
todas as mágoas da gente!
P. DE PETRUS
Carnaval - coisa engraçada
de malandro e gente bamba...
A dor do povo chorada
na letra rude do samba.
PRATA TAVARES
Para que um carnaval
com três dias de folia,
pois se a vida é afinal,
grande baile à fantasia?
RENATO VIEIRA DA SILVA
Diz o velho, em maus trejeitos:
- Como o carnaval é ingrato:
com produtos tão perfeitos,
a distância nega o prato!
RITA MARCIANO MOURÃO
Quando no armário espirrou,
deu mesmo um azar danado:
com o barulho acordou
o pobre esposo enganado.
SANDRO PEREIRA REBEL
Quanto traje colorido
de aparência rica e nobre
traz nas dobras, escondido,
um palhaço triste e pobre!...
SARA MARIANY KANTER
Em toda a existência nossa,
esta lei se estabelece:
— a virtude nos remoça
e o vicio nos envelhece.
SEVERINO SILVEIRA DE SOUSA
A máscara de alegria
em meu rosto, com frequência,
é apenas a fantasia
no carnaval da existência.
SYLVIO RICCIARDI
Flagrando a esposa e o banqueiro,
pensa bem e esquece o orgulho:
-Vou precisar de dinheiro...
e sai...sem fazer barulho!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
Brilhando ao sol, em cascata,
as águas, fazendo festa,
jorram confetes de prata
no carnaval da floresta!
ZAÉ JÚNIOR
Assinar:
Postagens (Atom)







