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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Vânia Ennes (Semeando Trovas)


1
Acalmar gesto impulsivo
num conflito sem razão:
Medicinal... curativo...
é a humildade e o perdão!
2
A Curitiba hibernosa.
aumenta a temperatura.
Se aquece com verso e prosa
a Capital da Cultura!
3
Água límpida é preciosa
para o planeta, vital;
pura, líquida ou gasosa,
tesouro fundamental.
4
Afinal, eis a questão:
achei um rico alimento…
Somos gêmeos na emoção:
teu amor é o meu sustento.
5
Amor, um santo remédio,
que revitaliza e cura.
Livra-nos de qualquer tédio,
também nos leva à loucura.
6
Apesar da longa ausência,
sinto a sua vibração…
que marcou minha existência
e tatuou meu coração!
7
As melhores gargalhadas
chegam sempre de repente
em cenas abobalhadas
e tomam conta da gente!!!
8
As odes altissonantes,
vêm louvar o pinheiral
do Paraná verdejante
na minha terra natal.
9
Brasil, samba e carnaval
e os foliões tomam conta,
da festa descomunal,
quando a “escola”, enfim, desponta!!!
10
Carnaval e o “bicho pega”!
Batuque e samba no pé,
e a galera não se entrega,
sapateia e dá olé…!!!
11
Causador da minha insônia,
motivo do meu sorriso,
sem nenhuma cerimônia...
me transporta ao paraíso!
12
Com alma verde e amarela
o meu coração febril,
com muito orgulho revela,
o Trovador do Brasil.
13
Depois de uma noite calma,
numa manhã de verão,
no céu anjos esperavam
recebê-la em oração!
14
Descontraia sua testa,
sorrir é grande investida!
Quem transforma a vida em festa
vence tensão reprimida!
15
Desenvolvendo a pesquisa
para o ensino do saber
o professor realiza
evolução no aprender.
16
Desfilou lá na Avenida
Marquês de Sapucaí,
bebeu tanto, sem medida,
que acordou na UTI !!
17
Destemido e dedicado,
companhia cativante.
Com meu pai sempre ao meu lado,
sou forte como um gigante!
18
Dissipando a incerteza,
ânsia e conhecimento
o livro, vasta riqueza:
esclarece cem por cento!
19
Dormi… e sonhei contigo
na praia, com lua cheia!
Foi delírio, hoje prossigo
te procurando na areia!
20
Dos meus tempos de experiência,
na vida, trânsito e estrada,
deixo aqui uma advertência:
respeito… não custa nada!
21
Educação e cultura,
seriedade e competência
é alvo certo de ventura
que aguardamos com urgência!
22
Em tédio avassalador
daqueles que não têm cura,
num minuto o Trovador
transforma tudo em ventura!
23
Encantada olho os pinheiros,
formosos! Iguais? Não há.
Dos poetas são os parceiros
Que versam o Paraná!
24
Equilíbrio, um dom da vida,
dos sábios, grande virtude
junto a afeição consolida,
seu poder de plenitude.
25
Eu não mudo de país,
nem de cidade ou estado,
porque aqui sou bem feliz...
exatamente... ao teu lado!!!
26
Fazer da vida uma festa
é atitude que fascina.
Vamos rir! A hora é esta!
O bom humor contamina.
27
Fim de tarde, sol já posto…
Chega a noite enluarada,
satisfazendo o meu gosto,
consagrando a madrugada!
28
Força e coragem, criança,
a vida sorri lá fora…!
O estudo será a poupança
e há de chegar sem demora!
29
Hoje órfã de seu afeto,
carente de seu carinho,
queria você por perto...
a iluminar meu caminho!
30
Mãos que orientam crianças,
seja na escrita ou leitura,
mostram sinais de alianças
de nobreza e de ventura!
31
Mesmo impaciente ou cansado
não descuide do volante
que a vida, este bem sagrado,
pode acabar... num instante!
32
Meu jogo, audaz e exigente,
encara a carta que der,
mas com você, frente a frente…
jogo charme de mulher!
33
Minha mãe com maestria,
vibrou forte de emoção,
quando em tarde de magia
fez pulsar meu coração!
34
Navegam os trovadores
em e-mails de ilusões,
computando riso e dores,
conectando as emoções!!!
35
Numa transfusão de afeto,
basta só abrir os braços
e o coração indiscreto,
se entrega sem embaraços!
36
Nunca morre o trovador,
se afasta fisicamente…
Sobrevive trova e autor,
no dia-a-dia da gente.
37
O coração destemido
transcende qualquer razão,
quando decide, incontido,
confessar a rendição!
38
O elemento H2O
Fonte de vida e energia,
vale mais do que ouro em pó.
Nossa maior loteria!
39
O que sei da faculdade,
das viagens e coisas mais
não representa a metade
do que aprendi com meus pais.
40
Pelos sonhos que dá,
Trova já virou mania...
e... infestou o Paraná...
... Numa “culta” epidemia!!!
41
Posso ver do meu terraço
na escuridão do infinito,
quando a lua abre espaço...
E dá seu show favorito!
42
Quando sopra o vento sul,
a trova viaja e vai fundo.
Seu caminho é o céu azul…
Espalha-se pelo mundo!
43
Quem se concentra no estudo
vence o mundo, sem esquema.
Leva consigo um escudo:
- Enfrentar qualquer problema.
44
Que o natal traga a engrenagem
da paz… do amor… da magia,
unindo o sonho à linguagem,
ao mundo azul da poesia…!
45
Que o Trovador lá de cima,
nosso vate preferido,
mostre o bem, o amor, a rima
e o seu rastro a ser seguido!
46
Quero um planeta perfeito,
sem guerra, sem corrupção.
Povo justo e satisfeito,
respeitando seu irmão!
47
Reconheço que a razão
me exerce extremo fascínio,
mas, se acerta o coração…
perco o rumo e o raciocínio!
48
Romântico e apaixonado,
meu pensamento flutua,.
vai ao céu... volta zoado:
Vive no mundo da lua!
49
Saudade vive e contesta,
me acorda de madrugada,
faz lembrar-me o fim da festa…
o beijo… e a noite estrelada!
50
Se falta a luz ou calor,
para isso tem saída...
Só a falta do teu amor
me apaga e congela a vida!
51
Sem escolha, oficialmente,
chegou lá, na luz de Deus.
Foi em paz… Solenemente…
Reencontrar com os seus!
52
Seu forte olhar, penetrante...
me acelera o coração.
O seu perfil estonteante
ofusca a minha visão.
53
Sob o feitiço do mar,
o poeta assim diria:
-É propício pra sonhar,
mas, sem você... que ironia!!!
54
Sou mulher, luto, decido,
sei de cor muitos poemas,
mas com seu beijo atrevido
esqueço até dos problemas!
55
Surge atrevida a saudade,
sem alarme e sem aviso,
ataca qualquer idade...
Se acaba com teu sorriso!
56
Tão doce e bem-humorado,
meu Pai, por suas virtudes,
deixou-me grande legado
nas palavras e atitudes.
57
Tendo um bom livro na mão,
alço voo... crio asa.
Mando embora a solidão...
Sem sair da minha casa…
58
Trovador por excelência,
tem nas veias o otimismo:
faz as trovas com sapiência,
e dá lições de altruísmo!
59
Vai ano velho, de vez,
leve o mal e o duvidoso,
que o Ano Novo em rapidez,
há de ser mais generoso!
60
Vence valores, de fato,
quando em meio à discussão,
se revolta de imediato,
mas, na ofensa… dá o perdão!!!
61
Vou dormir porque preciso
com você, mamãe, sonhar,
e sonolenta analiso:
não vou querer acordar!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Vânia Ennes 
VÂNIA MARIA SOUZA ENNES é uma das figuras contemporâneas mais ativas do movimento trovadoresco e do cenário cultural do Paraná. Vinda de uma tradicional linhagem de intelectuais e poetas curitibanos, ela se destaca tanto na administração cultural quanto na criação poética. Nasceu em Curitiba/PR. Tem forte ligação histórica e afetiva com o ambiente cultural da capital paranaense (especialmente o histórico "Chalé da Marechal", residência de seus avós intelectuais). Possui uma sólida carreira na área administrativa e empresarial. Graduou-se em Administração de Empresas (com habilitação em Comércio Exterior) e também em Direito. Fez pós-graduação em Língua Francesa na França. Atuou fortemente no meio corporativo e foi diretora da empresa Capríssima Indústria e Comércio de Cosméticos Ltda. Exerceu papéis de liderança civil, como coordenadora na Business Professional Women (BPW), conselheira municipal da Condição Feminina e vice-presidente da Sociedade Eunice Weaver do Paraná.
Filha da poetisa Ariane Maria França de Souza e neta do ilustre intelectual Heitor Stockler de França (um dos fundadores do Centro de Letras do Paraná) —, ela começou muito cedo. Publicou seu primeiro poema em jornal aos 9 anos. Sua trajetória institucional inclui: Teve papel de liderança máxima regional, atuando como presidente da UBT - Seção Curitiba por três gestões consecutivas e também como presidente da UBT no âmbito estadual do Paraná; Membro atuante do Centro de Letras do Paraná.
Prêmio Pablo Neruda dos Direitos Humanos; Medalha de Mérito Fernando Amaro (concedida pela Câmara Municipal de Curitiba por relevância cultural); Vencedora do Concurso Internacional de Trovas Brasil-Portugal (promovido pelo Elos Clube Internacional); Top Comercial (Associação Comercial do Paraná) por sua atuação corporativa; Diversos diplomas e premiações em concursos nacionais e locais de Trovas. Livros Publicados: Paraná em Trovas – Coletânea/antologia de trovas paranaenses organizada em três edições; Chuva de Trovas – Obra poética própria disponibilizada em formato de e-book; Livros de pesquisa genealógica (publicou quatro volumes dedicados à história de famílias tradicionais).
A importância de Vânia Ennes para a literatura se concentra em duas frentes: preservação histórica e revitalização do movimento trovadoresco. Como herdeira cultural de Heitor Stockler de França, ela atua como uma guardiã da memória literária do Paraná. No campo da trova, sua dedicação garantiu a continuidade dos tradicionais Jogos Florais, abrindo espaço para novos trovadores e organizando antologias cruciais, como o Paraná em Trovas, que mapeiam e registram a produção poética contemporânea da Região Sul. 

Sites principais consultados = Centro de Letras do Paraná (facebook), Portal Cá Estamos Nós, Gazeta do Povo, Oceano de Letras, etc.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Orlando Wocikosky (Colheita de Trovas)


1
A cantar, a minha vida,
eu canto em qualquer cidade,
  mas minha terra querida,
 eu não canto sem saudade!
2 
  Agora sou nau sem rumo,
que zarpou da mocidade,
para encalhar, eu presumo,
no banco duma saudade.
3 
A mãe da gente é uma luz
 que brilha, brilha e rebrilha:
dá-nos vida e nos conduz
pela mais sagrada trilha.
4
Amor que não tem saudade,
é planta que não dá flor;
 amor que é amor de verdade,
   na saudade é mais amor.
5 
A mulher é diferente
no terreno da emoção:
- O homem diz sim e consente,
ela consente e diz não!
6 
   Às vezes, na multidão,
estou só sem ver ninguém,
  porque a maior solidão
 é estar longe do meu bem.
7
A vagar pela cidade
hoje, bem longe de ti,
vejo, através da saudade,
o tesouro que perdi.
  8   
    Beba água mineral
   e viva despreocupado,
  porque água só faz mal
 para quem morre afogado.
9
Cônscio de que nada valho,
 quando te beijo, formosa,
eu sou uma gota de orvalho
 que tremeluz numa rosa.
10 
  Convidei a minha sogra
  pra passear no Butantã:
  a velha mordeu a cobra,
   e a cobra ficou tantã!
11   
Curitiba, paraíso
que mil encantos encerra,
    linda Cidade-Sorriso:
  – Sorriso da minha terra!
12
  Dentro de certas pessoas
   há duas forças latentes:
 uma que as torna tão boas,
 outra que as vira serpentes.
13
    Desde que cedo me acordo,
até que à noite me deito,
com saudade te recordo,
meu único amor perfeito!
14   
   Em noites de lua cheia,
no tênue alvor que se espraia,
 minha alma foge e vagueia,
   perambulando na praia.
15
     É nobre quem não exalta
     vitória já conquistada,
    pois a nobreza mais alta
é vencer sem dizer nada.
16  
   É nos olhos que a pimenta
    quando toca nos magoa:
quem tem sogra não a aguenta,
quem não tem diz que ela é boa.
17
    Esta saudade é uma luz,
    na noite da minha vida,
    o guia que me conduz
    à tua imagem, querida.
18  
      Eu fui a tua metade
e foste a minha, porque,
agora, só na saudade
inteiro a gente se vê!
19 
    Eu não gosto de sorteio
porque a sorte é contra mim:
talvez porque eu seja feio,
de uma feiura sem fim.
20
Eu não troco uma jazida
de ouro puro e refinado,
por uma hora vivida
na saudade do passado.
21
     Eu nasci pobre na vida,
   no entanto sei quanto valho,
    pois conheço a dor sentida
  dos que tombam no trabalho.
22
     Felicidade é a esperança
que está sempre em nós presente,
    mas a gente não a alcança
    e ela não alcança a gente!
23
  Flavo sol que as flores pintas
com doce tonalidade,
empresta-me as tuas tintas,
quero pintar a saudade.
24
  Minha avó, que já está morta,
queria tudo perfeito:
até fazendo uma torta,
fazia torta direito.
25
    Não fosse a necessidade
   de tanto, tanto te amar,
sufocaria a saudade
nas profundezas do mar.
 26 
  Não me comove a riqueza,
e nem lhe adoro a conquista,
pois, em saudade e pobreza
também sou capitalista.
27
  Não te incomodes, querida
se o meu peito a dor invade,
 sois, são temperos da vida
 a dor, o amor e a saudade.
28
Não vim pra te dar um beijo,
  vim pra te dar muito mais,
   vim dizer que te desejo
  O melhor dos teus Natais!
29 
Nesta vida de percalços
   todo mundo tem defeitos,
  mas entre honestos e falsos
   todos se julgam perfeitos.
30
    No dia dos namorados
   fico triste, simplesmente,
por ver que há muitos coitados
 sem ter a quem dar presente.
31
  O amor é a coisa mais bela
   deste mundo encantador!
   E é você quem me revela
    toda a beleza do amor!
32
   O amor é igual à comida:
   demais, não se dá valor;
 quando falta em nossa vida,
    dá-se a vida pelo amor!
33  
 Oh! doce mundo da infância,
   todo em saudade tecido,
   a recordar-te a distância,
  eu choro por ter crescido.
34
   Para trovar, certamente,
  não bastam apenas rimas;
     trovador inteligente
 faz das trovas obras-primas.
35
  Pela guerra não há glória:
  - Perder, vencer, tanto faz!
    - A verdadeira vitória,
    só se alcança pela paz!
 36  
Por mais que hoje louve a vida
  dos que fazem bem por lei,
  trago n'alma a dor sentida,
   dos males que pratiquei.
37 
Pra me esquecer de você,
tenho rezado à vontade!
Mas não te esqueço, porque
a minha reza é saudade.
38
     Quando a trova justifica
       sobejamente a valia,
    - Rima pobre ou rima rica -
     sempre é grande poesia.
39
Quando em meus braços te aperto,
       todo o infinito sorri,
  porque a vida é um céu aberto
     quando estou perto de ti.
40
     Quando tu fores velhinha
e eu também, da mesma idade,
sentirás saudade minha,
sentirei de ti saudade.
41
  Quem diz que não tem saudade
     e se é verdade o que diz,
       não teve a felicidade
        de já ter sido feliz.
42
 Quem se afunda na bebida,
   para afogar sua mágoa,
  descobre, no fim da vida,
que a melhor bebida é água.
43
Que não valha a minha trova
 por nada do que ela exiba,
 senão por tudo o que prova
    do valor de Curitiba.
44  
   Revivendo, na saudade,
   a minha casa paterna,
choro! Mas tenho vontade
 que a saudade seja eterna.
45
 Saudade é a lembrança viva
 daquilo que já morreu;
é fogo que inda se ativa
das cinzas do escombro seu.
46
Saudade é coisa que nasce
à tona do pensamento,
e, por mais que o tempo passe,
paramos nesse momento.
47
    Saudade é lua que vaga
nas sombras do sol do amor;
  quanto mais o sol se apaga,
 mais a lua traz langor.
48
    Saudade é luz matutina
    no crepúsculo da gente.
  Sol que o passado ilumina
 quando escurece o presente.
49
  Se, à noite, chega o negror
e todo o meu ser invade,
clareia-se o meu amor,
dentro da luz da saudade.
50
   Se eu de você fico ausente
  e alguém os meus olhos vê,
lendo os meus olhos pressente,
     no fundo deles, você!
51
     Se partes, fica o desgosto
   da minha alma sem a tua,
   e eu pareço um rei deposto
     perambulando, na rua.
52
Sou feliz por te dizer,
   em palavra comovida,
que minha vida é um prazer
  se há prazer na tua vida.
  53
 Tudo que é bom, nesta vida,
    foge-nos celeremente,
 somente a dor mais sentida
    fica na vida da gente.
   54  
  Vermelho igual ao tomate,
   meu coração é um bife:
quanto mais alguém lhe bate,
    mais amolece o patife.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Orlando Woczikosky (1927 – 2019)
ORLANDO KRUMANN WOCZIKOSKY, conhecido carinhosamente como o "Trovador da Saudade", foi um dos maiores expoentes da poesia rimada do Sul do país. Conquistou o título honorífico de "Príncipe dos Trovadores do Paraná" devido à sua imensa dedicação e maestria na arte da trova. Nasceu em 1927, em Curitiba/PR, e faleceu nesta mesma cidade aos 91 anos em 2019. Viveu e residiu durante toda a sua vida em Curitiba, mantendo uma ligação profunda com o bairro Xaxim e com as paisagens do estado. Cursou o Ginásio e o Técnico Industrial na Escola Técnica de Curitiba e graduou-se pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Lecionou Desenho no Senai de Curitiba por mais de 30 anos; Ensinou Desenho e Caligrafia na Escola Técnica de Comércio de Plácido e Silva; Foi professor de Desenho e Educação Artística no Colégio Parthenon; Atuou no Ministério do Trabalho ministrando Leitura e Interpretação de Desenho no Curso de Segurança do Trabalho.
A paixão pela poesia começou na infância por influência da avó materna, que lhe declamava quadras populares. Sua primeira poesia formal nasceu em 1948, inspirada pela vista do Pico do Marumbi na Serra do Mar. Foi um dos sete fundadores históricos da UBT - Seção Curitiba em 1966 e o último remanescente vivo desse grupo. Presidiu a seção nos biênios 1973–1974 e 1981–1982, tornando-se mais tarde Presidente de Honra da UBT Estadual do Paraná. Membro da Academia Paranaense da Poesia; Centro de Letras do Paraná; Academia de Letras José de Alencar; Associação Profissional de Escritores do Paraná (APEP).
Recebeu uma vasta gama de condecorações ao longo de décadas de atuação, incluindo diplomas de honra, louvor e mérito cultural em concursos de trovas pelo Brasil. Teve uma produção sólida e focada na concisão da trova: Publicou 10 livros de trovas. 1 livro de poemas. Participou ativamente de dezenas de antologias literárias nacionais e regionais, além de jornais e revistas especializadas.
Orlando Woczikosky foi uma figura fundamental para a preservação e a difusão da trova no Brasil. Orlando dominava a estrutura da trova com uma sonoridade e fluidez ímpares, sendo frequentemente elogiado pela musicalidade de seus escritos. Sua relevância reside em ter consolidado a identidade da literatura paranaense por meio do lirismo e do bucolismo regional, traduzindo as paisagens do estado em poesia. Como guardião e um dos pilares da trova, ele ajudou a manter viva a tradição trovadoresca e serviu de ponte e inspiração para novas gerações de poetas do Sul do país.

Sites consultados = Gazeta do Povo, Bem Paraná, Oceano de Letras.

domingo, 11 de outubro de 2026

Fernando Vasconcelos (Colheita de Trovas)


1
“Água mole em pedra dura”
meu amor, como se vê,
repetindo a mesma jura,
tomou conta de você.
2
Amor é renunciar
pedacinhos de ventura,
espaço, tempo e doar
a luz a outra criatura.
3
A sina da fazendeira
foi triste, eu não invejo,
descuidou-se da porteira,
sua vaca foi pro brejo!
4
As trovas são coisas boas,
por um dom vão inspiradas,
deviam unir pessoas,
não fazê-las separadas.
5
A trova é coisa sucinta,
toda glória ao inventor…
só com pouquinho de tinta,
eu posso falar de amor.
6
Cada vez que tenho um sonho,
formas, luzes, cores, som,
é você que lá eu ponho,
para o sonho ficar bom!
7
Casar-se é sina dorida,
tolo modo de viver…
é bronca por toda vida
e se paga pra sofrer!
8
Cigarro, branco tubinho
de resultado tão vil…
numa ponta tem foguinho
e na outra um imbecil.
9
Ciúme encerra perigo,
guarda tendência mortal,
tem mira no inimigo,
mas aos dois ele faz mal.
10
Corre o homem a toda brida,
buscando mil emoções…
é cavalo de corrida,
no prado das ilusões.
11
Deixa a tristeza, vizinho,
que chorar, não lhe compensa,
só se sentirá sozinho
quem do amor perdeu a crença.
12
De minha alma, nas dobrinhas,
a sua alma se aninhou…
As duas parecem minhas,
no ambíguo que eu hoje sou!
13
De um sentimento profundo,
no silente ou no escarcéu,
prosa é linguagem do mundo,
o verso a prosa do céu.
14
Do bico de minha pena
o meu doce arauto eu fiz,
pra numa trova pequena
proclamar que sou feliz.
15
É cada estrela cadente,
tendo o seu curto escarcéu,
um traço fosforescente
com que Deus rabisca o céu!
16
É como água morro abaixo,
como fogo morro acima,
ninguém segura o “facho”,
quando o desejo domina.
17
Encha aos olhos a grandeza,
ao poder todo valor…
mas não há outra riqueza
mais durável do que o amor.
18
Entre os desejos da vida
mais gostosos, não mais sábios,
– quero dar uma mordida
na frutinha de teus lábios.
19
Entre ossos, mui animada,
sua caveira sorria…
maldade da descarnada,
vendo a carne entrar em fria!
20
Este pobre jornalista
é poeta e escritor…
na existência um artista,
e na trova um pichador!
21
Faça este bom sonho arder,
no fundo do coração…
quando o querer é poder,
desejo se faz ação.
22
Fio dental, trajezinho
que a rapaziada adora…
esconde só um pouquinho,
deixando o resto de fora.
23
Há sempre, no imaginável,
dois termos fundamentais:
teu amor inigualável,
os outros todos iguais.
24
Inocência é pranto e riso,
que puro nossa alma alcança,
vindo lindo e sem aviso
do sentir de uma criança.
25
Lindas estrelas acesas,
quadro que prende e seduz…
É Deus dizendo belezas
num alfabeto de luz!
26
Menina namoradeira,
que brincava escondidinha,
quis tanto da brincadeira,
que acabou barrigudinha!
27
Não há quem se esforce à toa,
é rotina o desafio,
sendo a vida uma canoa
que atravessa o grande rio.
28
Na roça não se complica
a higiene rotineira:
começa na velha bica
e um gamelão é banheira!
29
No ocaso, sem alarde,
liberto de todo afoite,
sou tarde, dentro da tarde,
o dia, na boca da noite.
30
Nosso grande encantamento,
quando a julgar eu me ponho,
é o encanto do momento
do nosso primeiro sonho.
31
O cara conquistador
entrou muito mal naquela…
pegou sufoco de amor,
no sufoco da donzela.
32
O Gildo se fez de louco,
pra bular aquele “tira”,
depois passou um sufoco,
pra sustentar a mentira.
33
O meu peito, um campanário
consagrado em seu louvor,
onde se reza em rosário
feito de contas de amor.
34
Ó meus irmãos trovadores,
quanta vida podem dar,
rimando sonhos e amores,
plantando cantigas no ar.
35
O pobre homem só se fere,
ao meter-se com a bebida…
não é a pinga que ele ingere,
ele bebe a própria vida.
36
Os anos passam ligeiros,
mas o tempo não me ilude…
já tenho mitos janeiros,
nesta mesma juventude.
37
Os pombos, sem ter zoeira,
foram a primeira prova
que, no arrulho, na figueira,
fez a natureza a trova.
38
Palavras são universos,
aqui mesmo está a prova,
ao prender em quatro versos
o infinito de uma trova.
39
Passadas pinga e arruaça,
disse ao ser interrogado:
foi depressão, não cachaça,
que me deixou transtornado!
40
Plano de deixar a pinga
sempre na flauta levou…
estava enchendo a moringa,
quando a cirrose o matou.
41
Poetando nossa Princesa
tem cantado seus amores,
na voz de tanta beleza
que só têm os trovadores.
42
Pra pegar elevador,
quando todo mundo avança,
mais se destaca o humor,
quanto maior for a pança.
43
Quem do verso tem a lida,
a trova trazendo a lume,
porta a lâmina da vida
e usa bem certo o seu gume.
44
Quem já viu só tem certeza
e guarda no coração…
não há uma maior beleza
que um olhar de gratidão.
45
Registrando alguma ausência,
contabilidade ingrata,
nosso amor pediu falência,
desistiu da concordata;
46
Se na aflição se padece,
busque em Deus a solução…
A calma do céu nos desce,
no intercâmbio da oração
47
Sou bode velho, tranqueira,
muito doido com cabrita,
não conheço uma porteira,
pra fechar moça bonita!
48
Tão louco prazer sentindo,
o fumante é uma raça
que não vê vida fugindo,
no disfarce da fumaça.
49
Todo cara bem papudo,
que dá de valente, acorde,
só na aparência é peitudo…
é cão que ladra e não morde.
50
Trabalhador brasileiro
tem que viver tiririca,
com uns nadando em dinheiro
e o salário uma titica.
51
Tua ausência faz aflita,
triste e desesperançada,
a caminhada infinita,
em teus lábios começada.
52
Vamos, sonhar e sorrir”
esse é o remédio ideal,
não nos preocupe o porvir,
pois só o presente é real.
53
Vento, meu pombo-correio,
da UBT a doce prova,
mais uma vez você veio
trazer-me o mimo da trova.
54
Vento que ondula copadas,
nesta sina de viajor.
Leve, nas tantas jornadas,
as nossas trovas de amor.
55
Zé estava tiririca,
por não poder o seu zelo,
curar, com um chá de arnica,
uma dor de cotovelo!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Fernando Vasconcelos (1937 – 2010)
Um dos nomes mais expressivos do movimento trovadoresco no Sul do Brasil Fernando Sílvio Roque de Vasconcelos nasceu na histórica cidade de Diamantina/MG, em 1937 e faleceu em 2010, aos 72 anos, em Ponta Grossa/PR. Apesar de suas raízes mineiras e de ter viajado por diversas regiões do Brasil e da América do Sul ao longo da juventude, fixou residência definitiva na cidade de Ponta Grossa, onde se radicou. Sua ligação profunda com a comunidade local fez com que recebesse oficialmente o título de "Cidadão Ponta-Grossense" no ano de 1979. Vasconcelos orgulhava-se de ser um talentoso autodidata. Teve uma atuação bastante diversificada na área de comunicação, trabalhando como jornalista, publicitário e radialista. Atuou em emissoras de rádio de São Paulo e do Paraná, criou e editou a Revista VUP e escreveu colunas para dezenas de periódicos paranaenses. Além disso, dedicou parte de sua carreira ao serviço público, atuando como servidor público municipal em Ponta Grossa.
Sua trajetória na literatura foi prolífica tanto na prosa (contos e crônicas) quanto na poesia, com foco especialíssimo na Trova. Ele integrou ativamente dezenas de agremiações culturais e literárias no Brasil e no exterior (incluindo Portugal). Na Academia de Letras dos Campos Gerais (ALCG): Onde foi membro fundador da cadeira nº 10 e chegou a exercer o cargo de Vice-Presidente. Ao longo de sua caminhada literária, Fernando Vasconcelos acumulou cerca de 170 premiações nacionais e internacionais. Entre os principais destaques e honrarias concedidas a ele, constam: Título Cultural e Placa do Mérito Regional; Prêmio Rotary de Artes (1998) e a medalha de Honra ao Mérito do Rotary Club (2009); Placa Homenagem por "Incansável Jornada Literária" concedida pelo SESC; Inúmeras premiações e menções honrosas nos tradicionais Jogos Florais e concursos de trovas por todo o país (como em Pirapetinga). Publicou mais de uma dezena de livros ao longo de sua vida, passeando pela poesia de forma lírica, humorística e até por manuais gramaticais de forma descontraída. Algumas de suas principais obras publicadas incluem: Pequena Consciência (1974); As Narrativas de Nhô Fela (1983); Nos Espaços D'Alma (1985); Êta Vida Besta, Sô! (1990); Estou Nascendo para a Trova (1994); Pô, Meu! (1995); A Danadinha da Crase (1997); Da Cacimba do Coração (1998); Fiapico (1998); Abaretama – a sedução do guerreiro (1999); Branduras (2007), etc.
A relevância de Fernando Vasconcelos reside na sua capacidade de descentralizar a cultura e oxigenar o movimento trovadoresco no Sul do país. Como um dos principais pilares da Academia de Letras dos Campos Gerais e do movimento trovadoresco paranaense, ele foi um obstinado defensor da trova — uma forma de poesia sintética e popular que exige extrema técnica e sensibilidade. O escritor conseguiu unir o sotaque e o cotidiano do homem simples do interior (traço de sua origem mineira e de sua vivência no interior paranaense) com um rigor estético refinado, influenciando gerações de novos poetas locais a exercerem a arte da escrita e mantendo viva a tradição da poesia cantada e rimada no cotidiano jornalístico e literário do Paraná.

Biografia (sites consultados) = Academia de Letras de Campos Gerais, Oceano de Letras, etc.

Vânia Ennes (Semeando Trovas)

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