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sábado, 12 de setembro de 2026

Versos Esparsos * 14 *

 

Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (Semeando Trovas)


1
Ao dar tudo o que ela quer,
a evitar que o amor se perca,
o corno cerca a mulher
mas a mulher pula a cerca.
2
Após a noite que embaça
a janela do viver,
ressurge a luz na vidraça
com um novo amanhecer.
3
Aprenda bem a lição, 
desde bem cedo, menino,
pois na vida a Educação
é base do seu destino.
4
Canta o galo de matina
na Cantagalo florida,
saudando o sol que ilumina
duzentos anos de vida.
5
Capiau faz dentadura
sem ter o dente frontal,
pois deste modo assegura
um sorriso natural.
6
Com saudade do gramado,
da função desempenhada,
o gandula aposentado
corre atrás de uma pelada.
7
 Dia das Mães! Não se esqueça
dos presentes de ninguém:
por incrível que pareça,
sua sogra é mãe também!
8
Enquanto a gente descansa
na metade de um caminho,
um outro qualquer alcança
a outra metade sozinho.
9
Ensinando ao aprendiz,
nosso professor Raimundo,
no quadro negro e com giz
sonhava mudar o mundo.
10
Galopando sem receio
um indomável equino,
vou pela vida em rodeio
no cavalo do destino.
11
Há uma lição que sem cola
pelo estudante é sabida:
– na vida a melhor escola
é a grande escola da vida.
12
Luminar Academia,
plena de vitalidade,
a tua luz irradia,
a cultura na cidade.
13

Manassés compositor,
com suas belas canções,
canta a vida, canta o amor,
despertando as emoções.
14
Mostra a vida, mostra a história,
que a prática da coerência,
determina a trajetória
de uma correta existência.
15
Natal! Campos do Jordão,
cidade em que o amor reluz,
faz de cada coração
o berçário de Jesus.
16
O amanhecer se vislumbra
quando o sol em sua ida,
se elevando da penumbra
irradia a luz da vida.
17
O autêntico jornalista,
expressa nos seus relatos,
correto ponto de vista
da realidade dos fatos.
18
O garoto se insinua
perante a namoradinha:
– Minha sombra com a sua
será que fazem sombrinha?
19
O jogador e a torcida
têm que ser disciplinados,
pois toda copa é vencida
dentro e fora dos gramados!
20
O migrante em sua andança
parte do amado rincão.
Leva consigo a esperança
mas deixa o seu coração.
21
O vovô vai à balada
e sem muito lero-lero,
na pista dança lambada
em compasso de bolero.
22
Parece o craque Coalhada
com o galã falastrão:
- não aguenta uma pelada
mas diz que joga um bolão.
23
Peão ardiloso paca,
do seu intento dá cabo:
- usa o cheirinho da vaca
para amansar touro brabo.
24
Pela sua grande crença,
salvou-se, na Arca, Noé:
- não há dilúvio que vença
um homem cheio de fé!
25
Proteja Deus o migrante
que com seu labor fecundo
faz de uma terra distante
a melhor terra do mundo.
26
Quando a vejo na calçada,
de passagem pela rua,
minha sombra inconformada
ainda vai atrás da sua.
27
Quando me sinto estressado,
fugindo da realidade,
vou do presente ao passado
pelo túnel da saudade.
28
Quando toca Manassés
as canções de tempos idos,
tem o público aos seus pés
para os aplausos devidos.
29
Se alastrando lentamente
qual um glaucoma, o rancor,
impede os olhos da gente
de enxergar a luz do amor.
30
Seja de que modo for
e sem qualquer preconceito,
na casa onde mora o amor,
mora também o respeito.
31
Teu corpo ardente, formosa,
caminho da perdição,
é uma rua perigosa
que eu subi na contramão.
32
Toda natureza atesta
que esta vida é uma pintura,
onde Deus se manifesta
sem a Sua assinatura.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO é um renomado engenheiro, gestor público e um dos mais ativos e premiados trovadores contemporâneos do estado de Minas Gerais. Com forte atuação na comunidade lírica nacional, ele se destaca pela precisão métrica e sensibilidade de suas composições. Nascido e radicado em Juiz de Fora/MG, cidade polo cultural que historicamente abriga uma forte tradição de trovadores. Graduado em Engenharia, atuou profissionalmente no serviço público do município de Juiz de Fora. Exerceu cargos de grande relevância executiva e técnica, tendo sido Superintendente da GETTRAN (Subsecretaria/Gerência de Transporte e Trânsito de Juiz de Fora), liderando o planejamento de mobilidade urbana e trânsito da cidade nos anos 2000.
Dulcídio estruturou sua trajetória literária sob o gênero da Trova É um membro proeminente da UBT - Seção Juiz de Fora. Além de produzir e competir, atua frequentemente como jurado e avaliador técnico em múltiplos certames nacionais de poesia e Jogos Florais. Reconhecido no meio poético como um "premiadíssimo vencedor de Concursos", acumula honrarias em todo o país.
Sua obra é publicada predominantemente em regime de coletâneas especializadas, antologias dos Jogos Florais e compilações de Academias de Letras que reúnem as trovas vencedoras e selecionadas ao redor do Brasil. Na tradição da trova, o registro impresso costuma ocorrer de forma compartilhada nessas antologias e portais dedicados à preservação da memória lírica. 
Dulcídio é fundamental para a manutenção da tradição da trova clássica no Brasil. Sua importância reside em: Manter acesa a chama literária da Zona da Mata mineira, conectando a nova geração à herança deixada por ícones locais como Belmiro Braga; Suas composições transitam com maestria entre o lirismo filosófico, as temáticas cotidianas da fé, as belezas das cidades brasileiras e a sensibilidade social para com os menos favorecidos; Ao atuar ativamente em entidade trovadoresca e em comissões julgadoras, ajuda a garantir o rigor técnico e a vitalidade da trova poética em língua portuguesa.

Aventuras de Pedro Malasartes * 1 *

Imagem - IA Microsoft Bing

MALASARTES ROUBA AS JOIAS DE UMA FAMÍLIA

E foi dar no castelo de um ricaço que era casado e tinha uma filha, e ofereceu-se para empregado. E foi aceito.

Como era tempo de chuva, o chiqueiro estava que era mesmo um lameiro. E Malasartes teve logo uma ideia. De noite tocou para longe a porcada do ricaço e, voltando, espetou no lameiro as caudas dos porcos. E, quando de manhã o dono da casa veio ver a porcada, Malasartes lhe apontou o lameiro e disse-lhe que os porcos estavam atolados, apenas com os rabos de fora.

O dono da casa mandou-o logo que fosse em casa buscar duas enxadas a ver se podiam desenterrar os animais.

Pedro Malasartes foi numa corrida e, lá chegando, viu a dona e a filha passeando no jardim e lhes disse:

-O patrão mandou que as senhoras me acompanhem. Elas duvidaram, mas Malasartes gritou, perguntando ao patrão que estava lá embaixo:

-As duas, patrão?

-Sim, as duas, e sem demora! As duas, pateta!

E, então, as senhoras não puseram mais diferença e acompanharam Pedro que tomou com elas outra direção. Já longe o velhaco amarrou-as numa árvore, tirou-lhes todas as jóias que eram de grande preço, fugiu e foi tocar a porcada que tinha ocultado no dito retiro.

E, quando o ricaço, cansado de esperar, foi a casa e não encontrou a mulher e a filha, bateu a procurá-las até que as achou amarradas onde Malasartes as havia deixado.

Quando voltou é que viu que dos porcos só havia os rabinhos, que ele é que era um pateta de marca.

A muitas léguas dali, o Malasartes negociou a porcada, recebeu o cobre, comprou um bom terno de roupa e foi parar em certa cidade, onde, logo na entrada, havia uma bonita chácara que era do dr. Juiz de Direito.
= = = = = = = = = = = = = =  = = = = = = = = = = = = = =  

DE COMO MALASARTES FAZ MAIS UMA QUE PARECIA DUAS 

Eram já por umas dez da noite. O Malasartes bateu à porta e pediu pousada, dando o nome de doutor Fulano, que vinha visitar aquela terra. O Juiz costumava entrar tarde, pois ficava até à meia-noite fora de casa, jogando marimbo com um seu compadre. E vai então o filho do Juiz na sua simplicidade, mandou entrar o hóspede e, depois de um bom chá, deu-lhe pousada, no quarto da sala, onde o Juiz costumava se vestir. E quando o Juiz chegou, o filho lhe contou o que se tinha passado e o tolo ficou muito satisfeito daquela hospedagem.

E vai então lá pela madrugada o Malasartes começou a sentir umas coisas na barriga...Procurou o vaso e, não o encontrando, abriu a janela... mas lá fora havia uma cachorrada, que foi um barulho de latidos que nunca se viu.

O Malasartes estava suando frio: Mas nisto avistou na prateleira uma caixa. Abriu, havia dentro uma cartola de pelo. Estava salvo! Tirou a cartola, fez nela o que quis, pôs outra vez na caixa e esta no lugar onde antes estava.

De manhã, quando ouviu tropel dos criados saiu e... este mundo é meu!...

Quando vieram chamar o Malasartes para o café, não o acharam mais.

À hora do almoço, o Juiz saiu do quarto e foi para o cômodo em que se costumava vestir.

Era dia de júri. Vestiu a sobrecasaca, e, distraído, tirou a cartola que enterrou, de um golpe, na cabeça.

Para que tal fizeste! Ficou com a cara enlameada e sentiu um cheiro que quase o afogou. Começou então a gritar. A família veio toda, pensando que tinha acontecido alguma desgraça. Ao vê-lo naquele estado, correram todos a buscar socorro. O filho trouxe-lhe um banho, a filha água florida, a mulher sabonete de cheiro.

E depois houve risada que não foi brinquedo, enquanto o Juiz bufava de raiva. E os jurados já estavam cansados de esperar por ele...

Mas o Malasartes já estava longe. Até parecia que tinha parte com Beizebum.
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PEDRO MALASARTES é um dos personagens mais ricos e duradouros do folclore nacional, representando a figura clássica do malandro camponês, astuto e bem-humorado, que usa a inteligência e o logro para sobreviver, dar lições em avarentos e se vingar da opressão dos poderosos. Apesar de ser uma figura central do imaginário caipira e sertanejo brasileiro, Malasartes não nasceu no Brasil. Ele tem origem medieval na Península Ibérica (Portugal e Espanha). O nome "Malasartes" deriva diretamente da expressão em espanhol malas artes (artes más), que no contexto medieval significava "travessuras", "artimanhas" ou "trapaças".
A menção literária mais antiga ao personagem data dos séculos XIII e XIV, aparecendo na cantiga 1132 do Cancioneiro da Vaticana sob a alcunha de "Payo de Maas Artes". O personagem chegou ao Brasil na bagagem cultural dos colonizadores portugueses através dos contos populares transmitidos pela tradição oral. Ao cruzar o oceano, o personagem se adaptou perfeitamente à realidade da colônia e, posteriormente, do Brasil imperial e republicano. O "burlão" ibérico transformou-se no matuto, caipira e sertanejo sem posses. No cenário agrícola brasileiro, marcado por profundas desigualdades estruturais entre grandes coronéis (donos de terras) e trabalhadores humildes, as histórias de Malasartes ganharam um forte contorno de justiça social. Ele virou o herói dos desfavorecidos que vencia a força dos ricos usando apenas a astúcia.
A transição de Pedro Malasartes da tradição oral para a cultura letrada e de massa foi impulsionada por grandes nomes da literatura e das artes no Brasil: Luís da Câmara Cascudo: O maior folclorista brasileiro catalogou e analisou o personagem em obras fundamentais como o Dicionário do Folclore Brasileiro e Contos Tradicionais do Brasil, definindo-o como o exemplo do "burlão invencível". Monteiro Lobato: Em suas histórias do Sítio do Picapau Amarelo, o personagem é citado e suas artimanhas (como a famosa história da "Sopa de Pedra") são recontadas para o público infantil; 
O escritor modernista Mário de Andrade escreveu o libreto da ópera cômica "Pedro Malazarte" (composta por Camargo Guarnieri e estreada em 1952), elevando o personagem à música erudita nacional; 
Pedro Bandeira: Um dos maiores autores de literatura infantojuvenil do Brasil adaptou as peripécias do personagem em formato de cordel e rimas, como no livro Malasartes: Histórias de Malasartes em Versos de Cordel; 
Mazzaropi: No cinema, o comediante imortalizou o herói no clássico filme "As Aventuras de Pedro Malasartes (1960), consolidando sua imagem visual como o típico caipira brasileiro.
Em 2017, o diretor Paulo Morelli lançou o longa-metragem de fantasia comercializado como "Malasartes e o Duelo com a Morte"
A figura do trickster (o trapaceiro esperto que subverte as regras sociais) é um arquétipo universal, existindo em quase todas as culturas com roupagens locais:
América Hispânica = Pedro Urdemales: É exatamente o mesmo personagem de origem ibérica (usando a variação Urdemales, que significa "tecedor de males/artimanhas").  Famosíssimo no Chile, na Argentina, no Peru e na Guatemala.
Alemanha e Flandres = Till Eulenspiegel: Personagem do folclore medieval germânico. Um camponês que viaja pregando peças e expondo a hipocrisia, a ganância e a burrice da elite e do clero de sua época. 
Oriente Médio e Turquia = Nasreddin Hodja: Um sábio e filósofo popular de tom cômico e satírico. Ele usa histórias engraçadas, paradoxos e aparente "tolice" para dar lições morais na corte, em juízes corrompidos e nos orgulhosos. 
África Ocidental e Caribe = Anansi: A famosa aranha astuta da mitologia Ashanti. Como não tem força física diante de animais grandes (como o leopardo ou a cobra), Anansi usa puramente a lábia e a inteligência para enganá-los e conseguir o que quer. 

Fontes:
Aumanack, Wikipedia, Bloguirapuru Brainly, Museu Mazzaropi, Malasartes.com.br, etc.

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas)


 SONETINHO 

Não tenho jeito pra trova
apesar das que já fiz,
a quadra lembra uma cova
com a cruz dos versos em x...

Ainda estou vivo e feliz
e do que digo dou prova:
- tentei cantar numa trova,
e meu amor pediu bis.

Bem sei que é meu o defeito
mas uma trova é tão, pouco
que ao meu cantar não dá jeito

Só mesmo um poema é capaz
de conter o amor demais
que trago dentro do peito.
= = = = = = = = = = = = = =  

SORRIO...

Ah! vieste me falar de antigamente
desse tempo em que fui sentimental,
quando o amor era um sonho puro e ardente
vestido em véu de espumas, nupcial...

Quando me dava, perdulariamente,
vivendo o mal sem conhecer o mal,
a levar a alma inquieta de quem sente
e de quem busca uma conquista ideal...

Era sestro da idade essa existência...
Sinal de pouca vida e muito sonho,
de muito sonho... e pouca experiência...

Hoje, no entanto, se a pensar me ponho:
- sorrio... Um vão sorriso de indulgência...
...Sinal de muita vida... e pouco sonho…
= = = = = = = = = = = = = =  

SORTE... 

Está aí, amor, uma coisa que às vezes me pergunto,
(naqueles dias de silenciosa ternura
naqueles momentos sem assunto,)
- uma coisa tola que eu penso
e que você não advinha:

- como podem os outros homens ser felizes,
se Você é uma só...
... e se Você é só minha ?…
= = = = = = = = = = = = = =  

TEMPO PERDIDO 

Quanto tempo perdido, e como dói
pensar que nunca mais o reaveremos...
Vivemos longe um do outro, como extremos,
que o tempo, - um moinho - lentamente mói...

Quanto tempo perdido... Eu, já mudado,
sem aquele entusiasmo, aquelas ânsias
que ficaram perdidas no passado
e se vão diluindo nas distâncias...

Tu, sem aquela expressão ingênua e pura
aquela ar de menina, que pedia
proteção para um sonho de ventura
que seu olhar inquieto refletia...

Tanto tempo perdido... E houve um momento
quando nos vimos a primeira vez,
que o amor seria belo, como o vento
como o mar, como a terra, o sol, talvez !
= = = = = = = = = = = = = =  

TEMPOS... 

I
E dizer
que eu não podia passar um segundo sequer
sem saber onde estavas...

Hoje,
nem sei se existes...

II
Houve um tempo, em que eras
o Presente, o Mais-que-Perfeito
o Infinitivo...

Hoje...
nem és Passado…
= = = = = = = = = = = = = =  

TEREZINHA 

Terezinha
Terezinha,
que não é de Jesus
nem será minha...

De quem será?
De quem será?
Que inveja eu sinto
de alguém que está
não sei bem onde,
de alguém que um dia
certo virá
e levará
a Terezinha

É a Padroeira
de antigo sonho
que em minha alma
em vão se aninha...

Terezinha
Terezinha,
que não é de Jesus
nem será minha…
= = = = = = = = = = = = = =  

TEUS CABELOS 

Estamos quietos amor, em bonança
esquecidos de nós
viajando por nós mesmos, sem nós mesmos...

Distraída e imprevidente
te recostas em meu peito
e estás leve e alheia como uma criança sem sono.

De repente, minha mão encontra teus cabelos
e como estranha aranha se esconde em tua nuca,
e meus dedos se entranham e se emaranham
como raízes profundas, silenciosas.

São teus cabelos, sim,
não posso mais tocá-los...

Tem estranhos eflúvios que me fazem estremecer
até o fundo de mim mesmo,
e... já não me reconheço...

Tua cabeça em minha mão 
acende-se como uma tocha loura,
e olhos em teus olhos as chamas que ardem, sopradas
por que misteriosos ventos?

Gosto de encher as mãos com os teus cabelos,
como um lavrador, a recolher, feliz,
as louras messes de uma farta colheita.

Ah, teus cabelos, amor,
são um incalculável tesouro...

Quero morrer sempre e cada vez mais
como um rei Midas afogado em ouro
perdido neles, como em mar de sonhos...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
J. G. de Araújo Jorge (1914 – 1987)
JOSÉ GUILHERME DE ARAÚJO JORGE, imortalizado na literatura como J. G. de Araújo Jorge, foi um influente poeta, escritor, jornalista e político brasileiro. Nascido em Tarauacá, no Acre, em 1914, faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 1987, aos 72 anos. Conhecido carinhosamente como o "Poeta do Povo e da Mocidade", ele equilibrou ao longo da vida o lirismo romântico e o forte engajamento social. Em Rio Branco (AC) viveu toda a sua infância, realizando os estudos primários. Mudou-se na juventude para o Rio de Janeiro para dar continuidade aos estudos secundários e superiores. Permaneceu radicado no Rio de Janeiro (antigo Distrito Federal e Estado da Guanabara) durante a maior parte de sua vida adulta e profissional. J. G. teve uma atuação profissional multifacetada e dinâmica Atuou como jornalista, publicitário, locutor e redator em importantes emissoras da era de ouro do rádio, como a Rádio Nacional, Rádio Tupi, Cruzeiro do Sul e Eldorado. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ). Dotado de forte vocação pública, elegeu-se Deputado Federal em 1970 pelo antigo Estado da Guanabara. Exerceu três mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, onde chegou a ocupar a presidência da Comissão de Comunicação e a vice-liderança do partido de oposição à época (MDB).
Sua trajetória literária começou excepcionalmente cedo. Ainda estudante do tradicional Colégio Pedro II, foi eleito o "Príncipe dos Poetas" da instituição em 1932, sendo saudado pessoalmente pelo escritor Coelho Neto. Sua escrita se consolidou por meio de uma linguagem simples, fluida, musical e profundamente voltada aos sentimentos populares e às angústias sociais de sua época. Foi fundador e presidente da Academia de Letras do Internato Pedro II e fundador e primeiro presidente da Academia de Letras da Universidade. Foi também um dos grandes articuladores e fundadores da União Brasileira de Trovadores (UBT) ao lado de Luiz Otávio, consolidando o movimento da trova no país. Logo na estreia, seu primeiro livro recebeu uma prestigiosa Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras (ABL). Durante seus anos de estudante na Europa, recebeu o título de "Estudante Honorário" da renomada Universidade de Coimbra, em Portugal.
Autor de uma obra vasta com mais de 30 títulos publicados, destacam-se: Meu Céu Interior (1934) – Obra de estreia poética ; Bazar de Ritmos (1935); Cântico dos Cânticos (1937); Amo! (1938); Cântico do Homem Prisioneiro (1941); Os Versos Que Te Dou (1949) – Um de seus maiores sucessos de público; etc.
J. G. de Araújo Jorge ocupa um lugar singular na literatura brasileira como o poeta do afeto e da acessibilidade. Embora muitas vezes combatido ou preterido pela crítica modernista mais rígida devido ao seu estilo assumidamente neorromântico, ele alcançou um feito raro: uma imensa e duradoura popularidade com o povo. Seus poemas e trovas eram amplamente recitados por jovens, apaixonados e estudantes de norte a sul do Brasil. Ao unir o lirismo romântico à poesia de protesto social e político, ele provou que o fazer poético não precisava ficar restrito aos círculos acadêmicos fechados. Sua contribuição fundamental ajudou a estruturar e eternizar a trova como um patrimônio cultural vibrante e democrático na Língua Portuguesa.

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

Guerra Junqueiro (João e os seus Camaradas)


Era uma vez uma viúva com um filho único.

Ao cabo de um Inverno rigoroso, possuía apenas um gaio e meio alqueire de farinha) João resolveu-se a correr mundo, à busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou o galo, e disse-lhe:

– Que é que preferes: metade desta merenda com a minha bênção, ou toda com a minha maldição?

– Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros há no mundo eu queria a tua maldição.

– Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e que Deus te abençoe.

E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha caído num atoleiro, de onde não podia sair.

– Oh! João, exclamou o burro, tira-me daqui, que estou quase a afogar-me.

– Espera, respondeu o João.

E, formando uma ponte com pedras e ramos de árvores, conseguiu tirar o quadrúpede do atoleiro.

– Obrigado, disse-lhe ele, aproximando-se do João. Se te posso ser útil, aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?

– Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha vida.

– Queres tu que eu te acompanhe?

– Anda daí.

E puseram-se a caminho.

Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre animal correu para o João, que o acariciou, e o jumento pôs-se a ornear de tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.

– Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma coisa te for prestável, aqui me tens às tuas ordens. Aonde vais tu?

– Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha vida.

– Queres que te acompanhe?

– Anda daí.

Quando saíram da aldeia pararam junto de uma fonte. O pequeno tirou a merenda do alforje e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar lastimosamente.

– Coitado! exclamou o João. E deu-lhe uma asa de frango.

– Obrigado, disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser útil. Aonde vais tu?

– Procuro trabalho. Se queres, anda conosco.

– De boa vontade.

Os quatro viajantes puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um grito dilacerante e viram uma raposa correndo a toda a brida com um galo na boca.

– Agarra! agarra! bradou o pequeno ao cão.

E no mesmo instante o cão atirou-se atrás da raposa, que, vendo-se em perigo, largou o galo para correr melhor. O galo pulando de contente, disse ao João:

– Obrigado. Salvaste-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vais tu?

– Arranjar trabalho. Queres vir conosco?

– De boa vontade.

– Então anda. Se te cansares, empoleira-te no jumento.

Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro. Sentiram-se todos fatigados e não avistaram à roda nem uma quinta, nem uma cabana.

– Paciência, disse o João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos hoje a dormir ao ar livre; além disso a noite está sossegada e a relva é macia.

Dito isto, estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado dele, o cão e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente e o gaio empoleirou-se numa árvore.

Dormiam todos um sono profundíssimo, quando de repente o galo começou a cantar.

– Que demônio! disse o jumento acordando todo zangado. Porque estás a gritar?

– Porque já é dia, respondeu o galo. Não vês ao longe a luz da madrugada, que vem rompendo?

– Vejo uma luz, disse o João, mas não é do Sol, é de uma lanterna. Provavelmente há ali alguma casa, onde nos poderíamos recolher o resto da noite.

Foi aceite a proposta. Partiu a caravana, foi andando, andando, através dos campos até que parou junto da casa do guarda de um grande castelo, donde saiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e blasfêmias horríveis.

– Escutem, disse o João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem é que está lá dentro.

Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhais, que se banqueteavam alegremente, sentados a unta mesa principesca.

– Que rico assalto acabámos de dar, disse um deles, ao castelo do conde, graças ao auxílio do seu porteiro. Que bom homem este porteiro! À sua saúde!

– À saúde do nosso amigo! repetiram em coro todos os ladrões.

E de um trago despejaram os copos.

João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:

– Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria diabólica.

O burro, levantando-se nas patas traseiras, lançou as mãos ao peitoril de uma janela, o cão trepou-lhe à cabeça, o gato à cabeça do cão e o galo à cabeça do gato. João deu o sinal, e estourou à uma o ornear do jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do galo.

– Agora, bradou o João, fingindo que comandava um destacamento, carregar armas! Dai-me cabo dos ladrões: fogo!

No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando cada vez mais; os ladrões atemorizados refugiaram-se no bosque, saindo precipitadamente por urna porta falsa.

João e os seus companheiros penetraram na sala abandonada, comeram um excelente jantar, e deitaram-se em seguida. – João numa cama, o burro na cavalariça, o cão numa esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e o galo no poleiro.

Ao princípio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e salvos na floresta. Mas depois começaram a refletir.

– Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão úmida, disse um deles.

– Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse o outro.

– E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.

– E o que é mais lamentável, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tínhamos tirado das gavetas.

– Vou ver se torno lá a entrar! disse o capitão.

– Bravo! exclamaram os ladrões.

E pôs-se a caminho.

Já não havia luz na casa; o capitão entrou às apalpadelas, e dirigiu-se para o fogão; o gato saltou-lhe à cara e esfarrapou-lhe com as garras. Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas.

– Anda o diabo nesta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair?

Julgou encontrar refúgio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma parelha de coices, que o deixou quase morto no meio do chão.

Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.

– Então? então? perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.

– Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr neste corpo, que o trago num feixe. Não podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui assaltado por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o sedeiro, deixando-me neste miserável estado. Quando ia a sair a porta, um demônio de um remendão atravessou-me as pernas com a sovela. Logo depois, Satanás em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras. Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não acreditam, vão lá e experimentem.

– Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo ensanguentado. Não seremos nós que lá tornaremos.

Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excelentemente, e partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos, com que carregaram o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram à porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro com uma libré esplêndida, meias de seda, calções escarlates, o cabelo empoado.

Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João:

– Que vindes aqui buscar? Não há lugar para os recolher, vão-se embora.

– Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castelo far-nos-á um bom acolhimento.

– Fora daqui, vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a andar imediatamente, quando não atiro-lhes já às pernas os meus cães de fila.

– Perdão, só um instante, replicou o gaio empoleirado na cabeça do jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite passada a porta do castelo?

O porteiro corou. O conde que estava à janela, disse-lhe:

– Ó Barnabé, responde ao que este galo te acaba de perguntar.

– Senhor, replicou Barnabé, este galo é um miserável. Não fui eu que abri a porta aos seis ladrões.

– Gomo é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?

– Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado, pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite, porque vimos cansados do caminho.

– Ficai certos que sereis bem tratados.

O burro, o cão e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato ficou na cozinha. E enquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés à cabeça com um vestuário magnífico, deu-lhe um relógio de ouro e disse-lhe:

– Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.

João aceitou a proposta e mandou vir a sua velha mãe para ao pé de si. Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicíssimo.
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Guerra Junqueiro (1850 – 1923)
ABÍLIO MANUEL GUERRA JUNQUEIRO foi o poeta mais popular e politicamente influente de sua época em Portugal. Conhecido como o "Victor Hugo português", suas sátiras afiadas e seu profundo lirismo social atuaram como verdadeiros combustíveis ideológicos para a queda da monarquia e a subsequente implantação da República Portuguesa. Nasceu em Freixo de Espada à Cinta, na região de Trás-os-Montes, em Portugal, em 1850  e faleceu em Lisboa, Portugal, em 1923 (aos 72 anos), vitimado por problemas de saúde decorrentes da idade. Passou a infância em Trás-os-Montes e mudou-se para Bragança e depois Coimbra para realizar seus estudos. Ao longo de sua vida adulta e carreira política, alternou residências entre Lisboa e Porto. Também morou temporariamente em Berna (Suíça) devido às suas funções diplomáticas. Filho de um lavrador abastado, Junqueiro inicialmente foi direcionado à vida eclesiástica por sua família conservadora. No entanto, abandonou o seminário para cursar Direito na Universidade de Coimbra, formando-se em 1873. Sua carreira foi altamente multifacetada. Atuou como jornalista e cronista em periódicos influentes de sua época. Trabalhou como alto funcionário administrativo do Estado, atuando como Secretário-Geral Civil em Angra do Heroísmo (Açores) e em Viana do Castelo. Teve uma ativa carreira parlamentar, sendo eleito Deputado nas cortes portuguesas pelo partido progressista e, mais tarde, um dos principais defensores das causas republicanas. Com a consolidação da República, foi nomeado Ministro Plenipotenciário (Embaixador) de Portugal na Suíça entre os anos de 1911 e 1914.
Guerra Junqueiro despontou para o mundo das letras na efervescente Coimbra do fim do século XIX, integrando o movimento acadêmico e revolucionário conhecido como a Geração de Coimbra. Inicialmente influenciado pelo romantismo tardio, ele rapidamente migrou para o Realismo e o Naturalismo, integrando o grupo de intelectuais do Cenáculo. Diferente de outros autores de sua era, a atuação de Junqueiro concentrou-se mais em associações políticas, grêmios intelectuais e revistas de vanguarda (como a Lanterna Mágica e A Folha) do que em academias de letras formais. Ele recusava formalismos institucionais tradicionais por sua postura altamente rebelde, anticlerical e antimonárquica. No século XIX e início do século XX, o sistema de premiações literárias oficiais em Portugal quase não existia nos moldes atuais. O maior "prêmio" de Guerra Junqueiro foi o imenso clamor público e popularidade inédita, tornando-se o poeta mais lido e declamado do país. (Nota: Atualmente, seu legado batiza o prestigioso [Prémio Literário Guerra Junqueiro Lusofonia, instituído para condecorar grandes nomes da literatura em língua portuguesa).
Principais Livros: A Morte de D. João (1874) – Obra que o consagrou no realismo satírico; A Velhice do Padre Eterno (1885) – Forte e polêmica sátira anticlerical; Finis Patriae (1890) e Pátria (1896) – Poemas panfletários de protesto contra o declínio da monarquia e o Ultimato Britânico; Os Simples (1892) – Transição para uma poesia mais mística, panteísta e voltada à exaltação da vida rural e dos camponeses.
A importância de Guerra Junqueiro reside no fato de ele ter transformado a poesia em uma arma cívica e de intervenção social de massa. Ao unir a ironia corrosiva e a caricatura social a um domínio estético grandioso, ele conseguiu fazer com que a poesia saísse das elites e ecoasse diretamente no sentimento popular de indignação pública. Suas sátiras desmistificaram as instituições da Coroa e da Igreja, abrindo caminho cultural e psicológico para as transformações democráticas modernas em Portugal e marcando definitivamente a transição estética para o século XX. 

Fonte:
Guerra Junqueiro. Contos para a infância.  Publicado originalmente em 1877.

Emilio de Menezes (Poemas Esparsos)


CONSOLO

Tudo! ... tudo morreu, mas n'alma brota Uma esperança ainda.
SÊNIO

A alma aberta. . . e chega-me a saudade
Do meu amor — coitado! — a enchê-la. . . a enchê-la...
Como me enchia o peito a felicidade
Dos bons sorrisos, dos carinhos dela.

E o martírio e a tristeza agora é tê-la
Ausente — ausente! ... e a cruel vontade
Que avulta e eu a tenho e é de vê-Ia,
Inda mais cresce aqui na soledade.

Mas nesta ausência em que — só de pensar —
Sinto que a vida vai-se me acabando,
Inda vem-me — feliz! — acalentar

As esperanças que ela dava quando,
— Cego de amor que a luz vai mendigando —
Ia pedir-lhe a esmola de um olhar.

SÚPLICA
Deixa esses mortos graves,Quero a luz desse olhar ase me consola.
( L. CORREIA: "Canção" — Volatas )

Se o teu olhar me conta, magoado,
Quando a dor me tem feito dentro d'alma,
Inda que o lábio cale, descorado,
Este martírio que o teu riso acalma,

E se deste sofrer encontro a palma
No teu piedoso riso, imaculado,
Por que não volves à alegria, à calma?
Por que me deixas triste e amargurado?

Descerra o lábio! A dor, o esquecimento;
Lança-me o sol do teu sorriso, basta
Para aquecer-me a alma em desalento.

A nuvem do pesar do rosto afasta:
— longe de nós a mágoa, o sofrimento;
Limpa-me o céu da tua fronte casta!

A UM RETRATO

Até vós! até vós! talismã sagrado
Daquele morto amor, daquele amor eterno,
Ides deixar-me só, e triste, e abandonado!
Ó meu fiel amigo, inseparável, terno!

Oh! meu leal companheiro, oh! testemunho amado
Deste sofrer sem termo, este martírio interno;
Até vós! até vós! a quem só hei confiado
Os meu dias de céu e os meus dias de inferno,

Ides abandonar-me, ides voltar contente,
Sujeitar-vos, feliz, ao doce julgo dela;
Mas quero que volteis tão límpido e nitente,

Que na morta expressão de vossa fronte bela
Não se note o vestígio, — esse vestígio ardente
Das lágrimas de dor que derramei por ela!

ASPIRAÇÃO

De uma vida sem fé ao glacial inverno
Furtei-me sacudindo o gelo da descrença.
Aquece-me outra vez este calor interno,
Anima-me outra vez uma alegria intensa.

Sinto voltar-me a minha antiga crença,
Creio outra vez no céu e no descanso eterno,
Pois creio em teu olhar, e na ventura imensa
Que ele encerra, e me mostra apaixonado e terno.

E quando deste corpo a alma arrebatada
Seja, e procure, flor, essa região sagrada
Que aos bons é concedida, esplêndida, a irradiar,

Aos sons celestiais de apaixonado hino
Abra-se para ela, olímpico, divino,
O infinito céu do teu sereno olhar.

O VIOLINO

São, às vezes, as surdinas
Dos peitos apaixonados
Aquelas notas divinas
Que ele desprende aos bocados...

Tem, ora os prantos magoados
Dessas crianças franzinas,
Ora os risos debochados
Das mulheres libertinas...

Quando o ouço vem-me à mente
Um prazer intermitente...
A harmonia, que desata,

Geme, chora... e de repente
Dá uma risada estridente
Nos "allegros" da Traviata.

A UM PESSIMISTA

Olhas o céu e o céu, todo em atra gangrena,
Se te mostra corroendo as rútilas esferas.
Baixas à terra o olhar e a terra, em outras eras,
Plena de gozo e amor, ora é de horrores plena.

Sangra a etérea região, sangra a região terrena
E o horizonte, que as une, inda mais dilacera-as.
E as próprias linhas — louco! em que a sânie verberas,
Podres vêm ao papel, podres brotam-te à pena.

Mas, se ao céu e se à terra, e se ao horizonte e ao verso,
Asco e náusea tressuando, a podridão atrelas
E nela vês tombar e fundir-se o universo,

Sobe do chão o olhar, baixa-o das nuvens belas
E volve-o dentro em ti, pois fora o tens imerso
Na própria irradiação das tuas próprias mazelas.

DIAFANEIDADES

Brumas, névoas, no espírito doentio
Passem-me, embora veladoramente,
Tu surgirás eterna flor do estio,
Radiante, rubra, tentadora, ardente.

Toldem-me a vista sóis, e fio a fio,
Trama ofuscante me perturbe a mente,
Eu te verei, eterna flor do frio,
Fria, polar, consoladora, albente.

Visão de fogo, aparição de gelo,
O mágico poder, estranho e raro,
Dás-me de tudo a ver, nítido e belo.

Pois tudo em ti, de amor abrigo e amparo,
Faz-se como este amor que tu'alma fê-lo
Diáfano, leve, transparente, claro.

INSTANTE NEGRO

Anda, acima de nós, na abóbada infinita
Em sinistro remígio, algum sinistro corvo
Que grasna ao nosso mal e à nossa dor crocita
Pondo, entre nós e o sol o seu feral estorvo!

Anda, abaixo de nós, uma víbora aflita
Que assalta o nosso sangue e o suga sorvo a sorvo!
A terra é para nós uma furna maldita.
O céu é para nós um teto negro torvo!

Terra e céu, contra nós, se conspiraram ambos.
A vida é um volutabro*, e o sofrer não se exprime
Com que andamos por ela esfalfados e bambos.

Nem mais ao próprio poeta há um amor que o reanime,
— Em vez dele hoje entoar, hinos e ditirambos,
Canta a glória suprema e a volúpia do Crime! ...
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* Volutabro = lamaçal.
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Emílio de Meneses (1866 - 1918)
EMÍLIO NUNES CORREIA DE MENESES foi um dos mais brilhantes e temidos poetas do início do século XX no Brasil. Mestre do soneto perfeito, ficou eternizado na história literária como o principal sucessor de Gregório de Matos na poesia satírica nacional, combinando uma erudição impecável com uma ironia fina, mordaz e destruidora de reputações. Nasceu em Curitiba/PR, em 1866 e faleceu no Rio de Janeiro/ RJ em 1918, aos 51 anos de idade. Passou a infância e a juventude em Curitiba. Aos 18 anos, mudou-se para a capital federal, (Rio de Janeiro), onde viveu a maior parte da sua vida adulta e se consolidou nos círculos intelectuais. Teve uma breve passagem pela cidade litorânea de Paranaguá (PR) em 1889, retornando em definitivo ao Rio logo no ano seguinte.
De origem humilde, Emílio começou a trabalhar ainda na adolescência (aos 14 anos) como ajudante na farmácia de um cunhado em Curitiba. No Rio de Janeiro, sua grande arena foi o jornalismo. Atuou como cronista, repórter e colaborador assíduo de colunas de humor e política em periódicos influentes (frequentemente usando pseudônimos provocadores como Zangão, Gaston d'Argy e Neófito). Durante o período do Encilhamento (uma bolha financeira no início da República), ele arriscou dinheiro no mercado de ações, enriqueceu rapidamente e passou a ostentar uma vida de luxo, roupas extravagantes e alta alfaiataria. Contudo, perdeu tudo com a mesma velocidade, tornando-se o arquétipo do último grande boêmio da suntuosa Belle Époque carioca, vivendo nos cafés e confeitarias do centro do Rio.
A obra de Emílio de Meneses é marcada por uma fascinante dualidade: de um lado, poemas formais melancólicos e obsessivos com o tema da morte; de outro, os sonetos satíricos, improvisados nos bares, que ridicularizavam políticos, generais e desafetos intelectuais. Esteticamente, ele se filiou ao Parnasianismo, corrente que exigia rigor formal máximo e rimas raras. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1914, e protagonizou um dos momentos mais rebeldes da história da ABL. O seu discurso de posse foi considerado tão agressivo e satírico pela comissão da academia que eles exigiram cortes e censuras. Altivo, o poeta recusou-se a alterar uma única linha de seu texto. Por causa desse impasse, ele morreu em 1918 sem nunca ter tomado posse formal de sua cadeira.
Na virada do século XIX para o XX, a literatura brasileira não contava com o sistema moderno de prêmios institucionais ou editais governamentais. O grande "prêmio" e validação de um autor na época era a consagração popular nos jornais, o aplauso nas rodas da Confeitaria Colombo e, no topo da pirâmide, a eleição para o fardão da ABL — honrarias que Emílio obteve amplamente em vida devido à sua genialidade técnica incontestável. Embora grande parte de suas sátiras tenha sido distribuída oralmente ou em pasquins da época, ele publicou volumes de fôlego: Marcha Fúnebre (Sonetos, 1892); Poemas da Morte (1901); Dies Irae – A Tragédia de Aquidabã (Poema épico-trágico, 1906); Poesias (Compilação, 1909); Últimas Rimas (1917); Mortalha - Os Deuses em Ceroulas (Reunião póstuma de artigos, organizada em 1924)
Emílio de Meneses é uma figura crucial na literatura brasileira por ter provado que o rigor técnico impecável da escola parnasiana (o "culto à forma") não precisava ficar restrito a temas acadêmicos, distantes ou excessivamente sérios. Ao canalizar a métrica perfeita do soneto para a crônica humorística e a sátira feroz, ele agiu como um cronista de sua era, despindo as vaidades políticas da Primeira República e humanizando a poesia do período. Junto a nomes como Nestor Vítor e Emiliano Perneta, ele ajudou a colocar o Paraná no mapa das grandes forças literárias do país, quebrando o eixo exclusivo de produção Rio-São Paulo. 

Fontes:
Obra Reunida, de Emílio de Menezes. RJ: Livraria José Olympio, 1980.
Biografia = Repositório da UFSC, Wikipedia, Recanto do Poeta, Antonio Miranda, Ascademia Brasileira de Letras, Notibras, Enciclopedia Itaú Cultural, etc.

Versos Esparsos * 14 *