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segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Waldir Neves (Colhendo Trovas)
Abandono… O Sol declina…
Vem baixando a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!
2
A cortina da janela…
A cama… Tudo tal qual…
— Só que o cenário, sem ela,
nunca mais vai ser igual…
3
A espontânea palavrada,
que acompanha um tropeção,
faz bem crer que uma topada
seja a mãe do palavrão.
4
A glória dos homens brilha
com fulgor de eternidade,
toda vez que uma Bastilha
tomba aos pés da Liberdade!
5
Ah!, meu peito… Esta saudade…
Quero que a expulses, que grites…
Tu lhe deste intimidade,
e ela passou dos limites!
6
Amanhece… A névoa fina
vai cobrindo a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!
7
Ao sair d’água, a banhista
gritou de vergonha: – “Xiii…”
no maiô, na frente e à vista,
veio agarrado… um siri!
8
A saudade, em horas mortas,
sem ver que o tempo passou,
teima em abrir velhas portas
que há muito a vida fechou…
9
Cai a noite… Seu negrume,
mercê de um mistério estranho,
faz de um ínfimo perfume
um lamento sem tamanho…
10
Circo novo na cidade!
- No poleiro, a dar risada,
olhem lá minha saudade
no meio da garotada!
11
Depois que os céus lhe mandaram
As gotas do seu desejo,
duas outras marejaram
os olhos do sertanejo…
12
Deste-me um beijo – um somente!
E queres que eu me console …
- O desejo é sede ardente,
que não se mata de um gole!…
13
Deus intangível, etéreo,
mas sempre amor e indulgência,
guarda no próprio mistério
sua infinita evidência.
14
Deus que é paz… amor profundo,
em sua excelsa grandeza,
se é mistério para o mundo,
para mim é uma certeza!
15
Doente, a velha cegonha
recusa trabalhos duros,
e pra não passar vergonha
só carrega … prematuros.
16
Enquanto eu durmo, querida,
minh’ alma, por compulsão,
se aninha e dorme, encolhida,
aí… no teu coração.
17
Espalhou pedras à estrada
do velho barraco… “Ôxente!
Não dizem que é só topada
que põe o pobre pra frente?…
18
É uma lágrima sentida
que toda mulher enxuga:
a que lhe rola escondida
por sobre a primeira ruga!
19
Faz teu ciúme um barulho
que me soa encantador.
- Ele acorda o meu orgulho
de dono do teu amor!…
20
Flagrado, na contramão,
no quarto da serviçal,
o vivaldino patrão
fingiu “confusão mental”
21
Folha em branco… A esmo, um nome
rabisco, na tarde calma.
E a angústia… que me consome…
vai rabiscando minh’alma…
22
Fugi do amor com receio
do seu fascínio… e o que fiz
foi só cortar, pelo meio,
meu meio de ser feliz….
23
Homem sem rasgos nem brilho,
a quem a luz não atrai,
vou me orgulhar se meu filho
tiver orgulho do pai.
24
Importuno e impertinente,
o desejo insatisfeito
sempre foi, literalmente,
meu “inimigo do peito”…
25
Irmãos no meu insucesso
o peito implora, a alma pede…
Todos querem teu regresso…
Só meu orgulho não cede!
26
Maduro ao sol outonal,
pela brisa acariciado,
freme, ondulante, o trigal,
num desvario dourado!…
27
Mais vibrantes, mais risonhos
a palpitar de inquietude,
diferem dos outros sonhos
os sonhos da juventude!
28
Meus braços estão vazios,
meus desejos transbordando,
meus pensamentos vadios
no quarto te procurando.
29
Motel chique… Olha o marido!!!
E a confusão foi tão feia,
que blusa virou vestido,
e sutiã virou meia.
30
Muito moço inconsequente,
despreparado e revel,
ganha têmpera de gente
na bigorna do quartel.
31
Na casa do casal velho,
a confusão é total:
-lê-se o jornal no Evangelho;
e o evangelho, no jornal.
32
Não te esqueças, otimista,
de lembrar, no teu anseio,
que, entre o desejo e a conquista,
há sempre pedras no meio…
33
Neste abandono sofrido,
sou mais um, que, por vaidade,
deixou que o orgulho, ferido,
matasse a felicidade…
34
No abandono, desvairado,
levo noites a fitar
o vestido desbotado
que ela esqueceu de levar…
35
No apogeu do seu ardor,
tão ternamente se exprime,
que chamamos nosso amor
o “desvario sublime”.
36
No rubro céu da alvorada,
um ponto pisca e alumia…
- É uma estrela embriagada
que volta da boemia!
37
Nos abismos do mistério,
onde a razão perde a voz,
talvez o desvão mais sério
se oculte dentro de nós…
38
Nosso amor é, neste ensejo,
brasa oculta em cinza quente.
-Basta um sopro de desejo,
e arde em fogo, novamente…
39
No teu sucesso, milhares
Vêm implorar-te favores.
Uns poucos, se fracassares,
partilham das tuas dores
40
O abismo maior que existe,
o mais fundo que já vi,
é aquele que um homem triste
carrega dentro de si…
41
O desvario arrebata…
E eu fui por falso caminho.
Minha sombra, mais sensata,
deixou-me seguir sozinho…
42
O golpe da despedida
foi tão rápido e tão fundo,
que fracionou minha vida
numa fração de segundo…
43
O ladrão, envergonhado,
diz : – “Doutor, vim me entregar:
o roubo era tão pesado
que eu não pude carregar…”
44
O mendigo da calçada,
a quem a mágoa não poupa,
talvez tenha esfarrapada
bem mais a alma que a roupa.
45
Opondo orgulho e egoísmo
aos meus acenos risonhos,
cavaste o profundo abismo
onde enterrei os meus sonhos.
46
O vento leva a amizade,
leva o amor, o riso e os ais,
só não carrega a saudade,
- acha pesada demais!
47
Para a “sede de saber”
há no mundo água abundante.
Para a “sede do poder”
água nenhuma é bastante…
48
Perante a Divina Luz
a Ciência se ajoelha,
pois, sendo sábia, deduz
quem lhe acendeu a centelha…
49
Perguntou-me, à despedida:
– Quem sabe é melhor assim?…
E uma lágrima incontida
deu-lhe a resposta por mim!…
50
Por topadas em excesso
- um tormento em seu caminho –
o dedão abriu processo
contra os olhos do ceguinho.
51
Posso jurar de mãos postas,
Pesando o que já passei,
Que as mais difíceis respostas
Foi em silêncio que eu dei.
52
Pra fugir do casamento,
o noivo, meio “frufru”,
alegou, como argumento,
“vergonha de ficar nu”
53
Provocador e brigão,
o General de Brigada,
sempre que arma confusão,
ela é… generalizada.
54
Quando a jovem aluada
deu, no amor, um “tropeção”,
foi um caso de “topada
com os pés fora do chão”.
55
Quando a vida, qual verdugo,
me trespassa de agonias,
minhas lágrimas enxugo
num lenço de Ave-Marias…
56
Quando Deus cobrar meu prazo,
hei de sempre aqui voltar,
ou numa sombra de ocaso,
ou num raio de luar!
57
Que momento abençoado
e que gesto redentor,
quando o orgulho, derrotado,
cai, humilde, aos pés do amor!…
58
Quem um filho vê feliz,
seguir por si, resoluto,
vive a glória da raiz
orgulhosa pelo fruto.
59
Que estranho mistério existe
no lamento da viola:
- queixume que me faz triste;
- tristeza que me consola!…
60
Quisera que Deus me desse,
acima de qualquer bem,
um orgulho que pusesse
bem abaixo o teu desdém.
61
Saudade é gota caída,
é pranto que ninguém vê:
-É uma lágrima sentida
que leva sempre a você. …
62
Saudade é uma diligência
que nos leva, docemente,
com repetida frequência,
ao velho oeste da gente!
63
Saudade!…Foto em pedaços,
que eu colei, com mão tremida,
tentando compor os traços
de quem rasgou minha vida!
64
Saudade!… Raio de lua,
suprindo o Sol que brilhou…
Tábua solta, que flutua,
depois que o amor naufragou!
65
Saudoso dos braços dela,
voltei, contrito e humilhado.
- Quando a saudade martela,
qualquer orgulho é quebrado!…
66
Senhora de cada instante
das minhas horas vazias,
a Saudade é uma constante
na inconstância dos meus dias…
67
Severo no condenar,
o Céu abranda o rigor
quando o pecado a julgar
é um desvario de amor…
68
Sonha sim, pobre, com festa!
Que a fantasia, afinal,
é tudo que ainda te resta
neste mundo desigual!
69
Tal fascínio lhe desperta
o mistério das estrelas,
que, às vezes, de mim liberta,
minh’alma vai percorrê-las.
70
Terminamos… e ela pensa
que será logo esquecida.
O que ganhou foi presença
para sempre, em minha vida!
71
Uma das mágoas, apenas,
que à minh’alma são pesadas…
faria leves as penas
até das almas penadas…
72
“Um prodígio o seu arranco,
a dois metros da chegada!”
E o vencedor, meio manco:
“prodígio foi a topada…”
73
Velho par, na academia,
é ímpar na confusão:
-foi de sunga à confraria
e à praia foi de fardão!
74
Velho cultor de utopias
e de ambições sobranceiras,
sonho ver, ainda em meus dias,
um mundo igual, sem fronteiras!
75
Vergonha, mesmo, passou
dr. Cornélio, homem sério.
Imaginem… Processou
a mulher por adultério.
76
Vista seda ou popeline,
seja Amélia ou seja Inês,
toda mulher se define
no dia em que diz: -“Talvez!…”
77
Zerando ofensas e afrontas,
o beijo é o mago auditor
que faz o ajuste de contas
depois das brigas de amor!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Waldir Neves (1924 – 2007)
WALDIR NEVES foi um dos maiores expoentes do movimento trovadoresco no Brasil, reconhecido nacionalmente pela maestria técnica e sensibilidade lírica com que moldou a trova contemporânea. Nasceu no Rio de Janeiro - RJ, em 1924, filho de Armindo Gonçalves Neves e Laura Molinari Neves. Faleceu na mesma cidade em 2007, aos 82 anos. Viveu e construiu grande parte de sua trajetória pessoal, profissional e artística na capital fluminense. Discreto em relação à sua vida profissional fora das letras, Waldir Neves dedicou-se ao serviço e à sua vida familiar ao lado de sua esposa, Conceição Tavares Neves. No cenário cultural e institucional, atuou fortemente na administração e organização do movimento literário da trova, servindo muitas vezes como jurado de grandes concursos de poesia em todo o país.
Waldir Neves dedicou décadas de sua vida à Trova. Teve papel fundamental na estruturação de agremiações poéticas e na consolidação de concursos nacionais. Integrou os quadros mais prestigiados do movimento, destacando-se como membro de destaque da Seção Rio de Janeiro, instituição máxima da difusão desse gênero no país. Foi agraciado com o título honorífico de Magnífico Trovador. Ao longo de sua vasta estrada na poesia, acumulou diversas classificações e vitórias nos Jogos Florais em vários municípios brasileiros, como em Nova Friburgo e no próprio Rio de Janeiro. Também ficou conhecido internacionalmente no meio trovadoresco por receber repetidas "notas dez" de comissões avaliadoras e por sua generosidade ao julgar e incentivar novos poetas. Grande parte de sua produção esteja eternizada em antologias coletivas, folhetos de Jogos Florais e no acervo histórico.
Waldir Neves é amplamente reverenciado como um Mestre da Trova. Sua relevância para a literatura brasileira baseia-se em três pilares fundamentais:
1. A Definição da Arte: Ficou imortalizado por cunhar uma das frases conceituais mais bonitas e precisas sobre o gênero: "A trova é a arte de acomodar o infinito nos limites de um grão de areia".
2. Rigor Técnico e Estilo: Ele provou que a quadra popular podia carregar erudição, filosofia e profundidade sem perder a simplicidade, a harmonia e a musicalidade essenciais ao gênero. Transitava com facilidade entre a trova lírica, a filosófica e a humorística.
3. Legado e Mentoria: Mais do que escrever, Waldir foi um formador de poetas. Ele incentivou gerações de novos trovadores, ajudando a manter viva uma das tradições poéticas mais ricas e democráticas da língua portuguesa no Brasil.
Fonte = Confraria Luso Brasileira de Trovadores
José Feldman (Contos para crianças e não tão crianças) A Tempestade
O céu sobre a Grande Floresta mudou de cor de repente, ficando de um cinza escuro e assustador. O vento começou a soprar forte, uivando entre as árvores e espalhando folhas secas por todos os lados. Todos os animais sabiam o que aquilo significava: uma grande tempestade estava chegando.
O coelho Leco correu para sua toca, que ficava embaixo das raízes de um velho carvalho. A toca de Leco era espaçosa, quentinha e cheia de confortos. Ele tinha um estoque generoso de cenouras, uma pilha de folhas macias para se cobrir e bastante espaço para pular.
— Ufa! Aqui dentro estou seguro — disse Leco, trancando a portinha de gravetos enquanto os primeiros pingos pesados de chuva começavam a cair no teto de terra. TOC! TOC! TOC!
De repente, Leco ouviu um barulho abafado vindo do lado de fora. Alguém batia desesperadamente em sua porta.
— Leco! Leco, por favor, me deixa entrar! — era a voz trêmula de Tatá.
Leco abriu a porta rapidamente. Tatá estava encharcada, tremendo de frio e com todos os seus espinhos encolhidos de medo.
— Tatá! O que aconteceu com a sua toca? — perguntou Leco, puxando a amiga para dentro.
— A chuva forte alagou tudo... a água entrou pela entrada e cobriu minhas folhinhas. Não sobrou nada seco lá dentro — explicou a ouriça, soltando os dentes de tanto frio.
— Puxa vida, que situação! — disse Leco. Mas, por um breve segundo, ele olhou para o seu espaço perfeitamente organizado. Ele pensou: "Minha toca é perfeita para um coelho, mas os espinhos da Tatá podem rasgar minhas folhas macias, e ela vai ocupar o lugar onde eu gosto de me alongar..."
Tatá percebeu o olhar hesitante do amigo e deu um passo para trás, perto da porta.
— Se... se for incomodar, Leco, eu posso tentar achar outra árvore...
Ao ver a amiga daquele jeito, o egoísmo de Leco sumiu na mesma hora. Ele sentiu vergonha do que havia pensado.
— De jeito nenhum, Tatá! Entra logo e sai dessa chuva. Minha toca é sua toca também.
Leco fechou a porta com firmeza contra o vento. Ele pegou metade de suas folhas secas e as estendeu em um canto seguro.
— Olha, se nós organizarmos assim, você pode ficar desse lado onde a parede de terra é mais firme. Seus espinhos não vão rasgar nada e você fica bem protegida.
— Obrigada, Leco. Você é um salva-vidas — agradeceu Tatá, acomodando-se e começando a se aquecer.
A tempestade lá fora apertou. O barulho dos trovões era forte e assustador: BRRUM! Tatá deu um pulinho de susto. Leco, percebendo o medo da amiga, pegou duas das suas melhores e mais crocantes cenouras e dividiu uma delas ao meio, entregando um pedaço para ela.
— Sabe o que cura medo de trovão? Mastigar coisas crocantes. O barulho da mastigação abafa o som lá de fora — disse Leco, sorrindo.
Os dois começaram a comer juntos. CRUNCH! CRUNCH! CRUNCH! Tatá começou a rir, e logo o medo do temporal diminuiu. Eles passaram o resto da tarde contando histórias, dividindo o espaço e compartilhando o alimento. Leco percebeu que, embora sua toca estivesse um pouco mais apertada do que o normal, ela parecia muito mais calorosa e feliz com a presença de sua melhor amiga.
Quando a noite caiu e a chuva finalmente parou, os dois olharam para fora e viram as estrelas voltando a brilhar no céu limpo.
— Amanhã eu te ajudo a tirar a água da sua toca e a colher folhas novas, Tatá — prometeu Leco.
— Obrigada por tudo, Leco. Dividir o que era seu salvou a minha noite — disse Tatá, com os espinhos totalmente relaxados.
Leco sorriu, ajeitando-se em seu pedaço de cama.
— Eu que agradeço, Tatá. Descobri que uma toca cheia de coisas não vale nada se a gente não tiver com quem compartilhar.
Nos momentos de dificuldade e tempestade, o egoísmo não nos protege. A verdadeira segurança e o verdadeiro calor vêm da nossa capacidade de abrir espaço no nosso coração e nos nossos recursos para ajudar quem precisa.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores:
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos;
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor;
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.
(José Feldman. Contos para crianças e não tão crianças. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026)
Silmar Bohrer (Croniquinha) * 1 *
Quando nasci ali no Chapadão, meia dúzia de quilômetros do centro canelinha, minha avozinha me recebeu da parteira, olhou, sorriu, me levou à janela.
Junho, vinte, na porteira do inverno, a vó Veleda queria me mostrar o quê? O dia? A vida? O mundo? Eu nem sabia que vivemos de imprevistos .
Naquele recanto sossegado vendo um buraco que dá pro Paranhana (rio do RS), de um lado, e pirambeiras do outro lado, passei quase dois anos me adaptando a este planiverso, planeta universo, aprendendo aos poucos que a vida é assim mesmo - opaca, colorida, obscura, luminosa, risos, dores, alternâncias constantes.
Certa manhã acordei vendo uma imensidão de mundo - coxilhas subindo, coxilhas descendo, vales, campos, águas, horizontes pra lá da lonjura deles mesmos . . .
Campos de Cima da Serra, papai, mamãe, o menino, dispostos a enfrentar o minuano, o frio de congelar água da sanga, tirar a neve do telhado naqueles invernos austrais.
A vida não é só enxergar e não "ver".
Olhos abertos, ideias brotando, o mundo surgindo diante do guri. Minutos em que um dos meus EUS ligou o modo curiosidade, palavrinha "imensa" nos dada pela nossa língua-mãe latina significando "desejo, busca, anseio por conhecimento".
Começou ali uma cruzada que enlanguesceu anos e anos, pensares acelerando - avidez da busca pelo aprendizado, a investigação, a crítica, e as leituras, querendo sempre mais do mais.
E o ingênuo, o infantil, a ignorância foram engolidos pela curiosidade, esta pá carregada do todo e do tudo, que abastece cabeças com aprendizagem e saberes.
A pá - humilde - é ferramenta especial.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Silmar Bohrer (1950)
O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
Bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Silmar defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.
Texto enviado pelo autor.
Téo Azevedo (Quadras Populares)
Para quem não sabe: Quadra Popular = Forma lírica comum entre o povo; foi também utilizada por poetas de renome. Composta por 4 versos de sete sílabas (redondilha maior), a rima surge geralmente no 2º verso e 4º versos, sendo os outros dois versos brancos (sem rima). A quadra popular pode ser composta por uma única estrofe ou por várias.
1
Mandei buscar na botica
remédio para uma ausência,
me mandaram uma saudade
coberta de paciência.
2
Sete e sete são catorze,
com mais sete vinte e um,
soletra quem sabe ler
a paixão de cada um.
3
Meu benzinho não é este,
nem aquele que lá vem.
Meu benzinho está de branco,
não mistura com ninguém.
4
Menina dos olhos pretos,
sobrancelhas de retrós,
dá um pulo na cozinha,
cá coar café pra nós.
5
Quem quiser pegar morena
Arma um laço na parede
Que inda ontem peguei uma
Morena dos olhos verdes
6
Atirei meu limão verde
lá atrás da sacristia,
Deu no ouro, deu na prata,
deu na moça que eu queria.
7
Limoeiro pequenino
carregado de limão,
eu também sou pequenino
carregado de ilusão.
8
A laranja de madura
caiu n'água foi ao fundo.
Os peixinhos estão gritando:
– Viva dom Pedro Segundo!
9
Esta noite à meia-noite
me cantava um gavião,
parecia que falava
Maria, meu coração.
10
Cravo branco na janela
é sinal de casamento…
Menina tira seu cravo,
inda não chegou seu tempo
11
Toda vez que considero
que tenho de te deixar,
me foge o sangue na veia
e o coração do lugar.
12
Lá do céu caiu um cravo,
de tão alto desfolhou…
Quem quiser casar comigo,
vai pedir quem me criou.
13
Eu joguei meu limão verde
numa moça na janela,
o limão caiu no chão
e eu caí no colo dela.
14
Limoeiro pequenino
carregado de “fulô”,
eu também sou pequenino
carregado de “amô”
15
A perdiz pia no campo
comendo seu capinzinho,
quem tem amor anda magro
quem não tem, anda gordinho.
16
Em cima daquela serra
passa boi, passa boiada,
também passa moreninha
de cabelo cacheada.
17
Batatinha quando nasce
esparrama pelo chão,
meu benzinho quando dorme
põe a mão no coração.
18
Um coqueiro de tão alto
que dá coco na raiz,
uma moça bonitinha
com três palmos de nariz.
19
Amanhã eu vou-me embora,
eu não vou-me embora não,
se eu tivesse de ir-me embora,
eu não estava aqui mais não.
20
O anel que tu me deste
era de vidro e quebrou,
o amor que tu me tinhas
era pouco e já acabou
21
Se essa rua fosse minha
eu mandava ladrilhar,
Ou de ouro, ou de prata,
para meu bem passear
22
Duas correntes pesadas
eu arrasto sem poder,
uma é do meu capricho,
outra é do meu dever.
23
Bate bate coração,
arrebenta este peito.
Como cabe tanta mágoa
num espaço tão estreito?
24
Ninguém viu o que vi hoje,
um macaco fazer renda
e também vi um peru
caixeirando numa venda.
25
Calango desceu pra baixo,
foi vender sua farinha.
Lagartixa respondeu:
– Vende a sua e deixa a minha!
26
Lá no céu tem três estrelas
vestidinhas de nobreza.
Quem quiser casar comigo,
não repare minha pobreza.
27
Eu não dou a mão, rapaz,
nem que seja meu parente,
porque rapaz tem o defeito
de apertar a mão da gente.
28
Em cima daquela serra
corre água sem chover,
os mocinhos da cidade
me namoram sem me ver.
29
Essas meninas d’agora
só sabem namorar,
botam a panela no fogo
e não sabem temperar
30
Lá vai a garça voando
com as penas que Deus lhe deu…
Contando pena, por pena,
mais pena padeço eu
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Téo Azevedo (1943 – 2024)
TEÓFILO DE AZEVEDO FILHO, mundialmente conhecido pelo nome artístico de Téo Azevedo, foi um dos maiores baluartes, pesquisadores e defensores da cultura popular, do cordel e das tradições folclóricas do sertão mineiro. Nasceu no distrito de Alto Belo, no município de Bocaiúva, no Norte de Minas Gerais, em 1943 e faleceu em Montes Claros/MG, em 2024, aos 80 anos de idade. Nascido no ambiente rural de Alto Belo, mudou-se ainda na infância para Montes Claros. Mais tarde, residiu em Belo Horizonte e passou um longo e prolífico período em São Paulo frequentando estúdios e rádios, retornando a Montes Claros para viver seus últimos anos de vida. Vindo de uma família humilde de músicos e poetas, Téo precisou cantar em feiras aos 7 anos para ajudar no sustento de seus sete irmãos após a morte prematura de seu pai. Teve uma juventude multifacetada, chegando a ser tricampeão mineiro de boxe aos 17 anos. No entanto, sua verdadeira carreira consolidou-se na comunicação e na música: trabalhou como radialista por mais de uma década (com passagens marcantes pelas rádios Record e Atual), produtor fonográfico de mais de 3 mil trabalhos, além de atuar como cantor, compositor e violeiro com mais de 1.500 músicas gravadas por grandes nomes da MPB e do sertanejo.
Era um folclorista nato. Sua escrita literária debruçou-se intensamente sobre a salvaguarda da oralidade, das modas de viola e do cordel, gênero do qual publicou cerca de 500 folhetos de histórias. Téo foi um dos idealizadores, fundadores e presidente da Associação dos Repentistas e Poetas Populares do Norte de Minas, doando os direitos de suas recolhas folclóricas de domínio público para a instituição. Embora sua atuação estivesse mais ligada a entidades de preservação popular direta e sindicatos artísticos do que a academias de letras tradicionais, sua erudição sertaneja o tornou referência acadêmica em estudos sobre o folclore mineiro. Téo acumulou vitórias em festivais de música e poesia popular desde a década de 1960. O auge do reconhecimento de sua carreira artística e de sua escrita regional ocorreu em 2013, quando conquistou o prestigiado prêmio internacional Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música de Raízes Brasileiras com o trabalho "Salve Gonzagão 100 Anos".
Escreveu mais de 14 livros dedicados à cultura popular brasileira, com destaque para: Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos (1978) – sua grande obra de catalogação que mapeia as quadrinhas, sextilhas e as estruturas da poesia oral do sertão; Cultura popular do norte de Minas (1979); Tiófo, o cantador de um braço só (1987) – biografia em homenagem ao seu lendário pai, cuja história também inspirou o poema "Viola de Bolso" de Carlos Drummond de Andrade; Repente & Folclore; Cordel - Téo Azevedo (Coletânea de folhetos), etc.
A relevância de Téo Azevedo para a literatura brasileira é incomensurável por funcionar como uma ponte viva entre a oralidade do sertanejo e a palavra impressa. Através de seu clássico livro Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos, ele foi o responsável por estruturar de maneira teórica e registrar formalmente os padrões das rimas geraizeiras e o "Martelo Mineiro", impedindo que essa tradição puramente oral se perdesse com o tempo. Téo provou que o Norte de Minas Gerais, encravado entre os vales do Jequitinhonha e São Francisco, possui uma riqueza em cordel tão pulsante e sofisticada quanto o Nordeste brasileiro. Ele elevou a "poesia matuta" ao status de patrimônio literário nacional, eternizando as dores, as crenças e o linguajar do homem do cerrado.
Fonte:
Azevedo,Teófilo de. Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos. São Paulo, Global Editora, 1978. Cultura Popular, 3.
Biografia = Dicionário MPB, Hedra, Memórias da Música Popular, Montes Claros (cultura), TV Saudades, Casa Rui Barbosa, etc.
Aparecido Raimundo de Souza (A Corrida dos credores)
O MACIEL BARBOSA resolveu, de última hora, que tinha de participar da corrida que acontecia todos os anos. Assim, foi até o local da inscrição e mandou brasa. Não esperava ganhar o primeiro lugar, claro, nem reunia condições físicas para isso. A coisa só ficaria na brincadeira, ao menos aliviaria um pouco o estresse do dia-a-dia e de roldão os muitos problemas com a rotina enervante da vida, sem contar com a falta de serviço, contas para pagar, telefone cortado, celular mudo, prestações do carro vencidas, etc., etc...
Pegou o número que a moça lhe estendeu num pedaço de papel e voltou ligeiro para casa. No caminho, antes de chegar para o almoço, resolveu tomar uma cervejinha. Lugar comum, de costume: o barzinho do Fred Frederico – amigo das peladas de todos os sábados no campinho da ferroviária e no tempo das vacas gordas, das malhações na academia “Mens sana in corpore sano” de um outro da turma, o Leandro “Olho Saltado”. Mal sentou, chegou atrás, no vácuo, o Tadeu Fantini, dono da lanchonete perto da Praça da Prefeitura.
O Fantini, agiota sem escrúpulos (não perdoava nem a mãe). Maciel devia a ele os juros de um cheque sem fundos, (no tempo em que os cheques se faziam moedas de troca) barganhados a vinte por cento há anos. Por conta desse “voador inesperado” o capital há muito havia sido pago, só em “costurar buracos na colcha”, ou seja, nas prorrogações, a título de juros, afora o cara ter abocanhado uma televisão de vinte polegadas, anel de formatura, relógio, vídeo cassete um Fusca bem conservado e até a mesa de escritório com cadeiras e escrivaninha de computador. Maciel Barbosa tremeu na base.
Fugiu tanto do infeliz e eis que, de repente, saído dos quintos do inferno, a sua frente aparece o Fantini como urubu magro secando a carniça gorda.
— Estava passando, vi você, resolvi parar.
— Fez bem. Ia te ligar daqui a pouco...
— E a “baba”?
— Segunda-feira, sem falta.
— Tudo?
— Só uma refrescada, com o restante para mais trinta dias.
— Passa lá em casa.
— Com certeza.
O diálogo se encerrou aí. Mas os problemas de Maciel só começavam. Pintou o Guerinto, da barbearia e senhorio da casa onde ele morava de aluguel com a mãe e mais cinco irmãos menores. O velhote trazia consigo, uma dessas garotas de programa, sustentadas por seus bolsos, graças ao aluguel das espeluncas que ele mantinha em constante atividade de comodato, onde, aliás, por debaixo dos panos, formigava, nos fundos da barbearia, uma casa conhecida como o “Reduto da luz vermelha”.
— Seu mês venceu dia cinco. Hoje são dezoito.
O Maciel, apesar das dívidas, não se fazia de rogado.
— Segura as pontas. Segunda-feira a gente acerta. Vou correr domingo, na Oitava aqui do Bairro contra Bairro.
— E o que eu tenho a ver com isso?
— Pretendo ganhar o prêmio. Aliás, vou...
— Se der zebra?
— Pense positivo. Torça por mim.
— Com certeza. Boa sorte. Até mais ver.
Mal e porcamente o Guerinto virou as costas, apareceu o abutre do Milton Creto, acompanhado do sobrinho Oduvaldo Mata Sete. A esse cavalheiro Maciel devia uma soma considerável. Milton não entrara no Bar do Fred Frederico para cobrar, mas para comprar cigarros e fósforos. Bateu sem querer os olhos, por acaso no Maciel, e, por conta, não custava marcar presença.
— O companheiro anda meio afastado lá do prédio ou é impressão minha?
— Impressão.
— E a conta?
— Terça-feira.
— Não dá mais para ficar só nos acessórios. Necessito, com certa urgência, do principal.
—Terça-feira.
— Palavra?
— De escoteiro.
— Passe bem.
— Espero que sim.
O dia da corrida, um domingo ensolarado chegou ligeiro. Um inferno. Gente de todos os lados vinda de muitos lugares abarrotava a pequena cidade suburbana. A galera se acotovela por todas as partes, mal dava para se atravessar uma rua sem esbarrar em algum desconhecido (conhecido) especificamente que ele, o Maciel, não devesse uma grana. Em vista disso, o desgraçado se escondia disfarçado de fujão inveterado. Pois bem! Por sorte, ou azar, sabe-se lá como, chegou em primeiro lugar e ganhou a corrida. Ao subir ao pódium para receber a medalha e o mais importante, a grana preta do prêmio milionário, um dos muitos a quem ele devia, por azar, o doutor Bisteca Mal Passado, o reconheceu em meio a tumultuada multidão.
O doutor Bisteca Mal Passado, era o delegado de polícia da localidade e ao vê-lo dando sopa e, tendo em vista um ocorrido inesquecível e imperdoável, além da grana que o sujeito havia tomado, o Maciel “papara” a única filha do temido homem da lei”. Ao vê-lo, o delegado se encheu de razão, puxou do bolso um apito, e claro, quase o engoliu, afoito. Forte, raivoso e encapetado, apitou. Como num passe de mágica, uma galera de policias a paisana que estavam a serviço, ao ouvirem o som da autoridade maior, se juntaram e saíram correndo nos calcanhares do pobre e infeliz Maciel.
— Ali, ali, ali, lembrem-se... quero o meliante vivo, vivo...
Maciel, por seu turno, deu linha à pipa. Botou sebo nas canelas e desembestou rua abaixo, se esquivando de uns desmiolados que ao também ouvirem o apito do chefe da unidade policial, se uniram para botar-lhe as mãos em seus esqueletos. Ninguém conseguiu tal proeza. Maciel, entretanto, careceu de correr novamente. Correr não, voar, só que desta feita, para se livrar de uma turba de homens e mulheres em polvorosa que levada pelo som de um “pega esse safado, pega esse infeliz” se viu obrigado a sair da cidade suando em bicas e nunca mais foi visto. Até hoje, ninguém sabe em que buraco o pobre abestado se meteu.
O delegado encheu a cidade de canto a canto com cartazes num acirrado “Procura-se vivo ou morto”. Enquanto o Maciel não é capturado, e lá se vão mais de três anos, o doutor Bisteca Malpassada desfila pela cidade com a netinha à tiracolo, a linda e fofa Iasmim puxada pelo braço. De vez em quando, dá uma parada diante de uma foto do pai da menina pendurada aqui e acolá e sussurra no ouvido da mocinha:
— Esse malandro aí é seu pai. Um dia o vovô pega ele...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para importantes veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
O autor participa ativamente do movimento de academias virtuais de letras e coletivos de poetas e trovadores na internet. Tem poemas e trovas publicados em periódicos de academias regionais e boletins literários nacionais (como o Almanaque o Voo da Gralha Azul). Suas distinções e prêmios concentram-se em concursos de contos e crônicas promovidos por portais de literatura independente (como o Recanto das Letras) e em premiações da imprensa regional capixaba e paranaense, celebrando sua capacidade de comunicação direta com as massas.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.
Texto enviado pelo autor.
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