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quinta-feira, 28 de maio de 2026

José Feldman (Grinalda Indígena) * 4 *

 

Lendas de Portugal (O Bandido da Serra de Arga)


A Serra de Arga ergue-se rodeada de muitas outras serranias. A Natureza encontra-se aí em estado quase selvagem, tendo sofrido pouco com a ação destruidora dos homens que tudo querem rapidamente Dominar e transformar em seu próprio proveito. Esta zona era, na época a que nos reportamos, já lá vão alguns séculos, escassamente habitada de gentes. As aldeias distavam uma lonjura umas das outras e eram precisas muitas horas a pé ou a cavalo para que alguém se deslocasse à localidade mais próxima.

Naqueles ermos vivia, solitário, talvez abrigando-se nalguma caverna, um homem enorme e possante, um homenzarrão, que se dedicava à única atividade de matar e roubar todos quantos se aventurassem a atravessar aquela região e tivessem o azar de se encontrar frente a frente com ele. O salteador atacava as suas vítimas com um facão de que nunca se separava. As populações temiam-no e evitavam-no, tal como o faziam com os lobos e os ursos.

Certo dia, um fradinho ingênuo e com o coração cheio de bondade, aventurou-se por aqueles íngremes caminhos de montanha, extasiado com a magnífica paisagem a perder de vista. Ele tinha Deus no seu coração e, quando se via confrontado com a maldade humana, sempre arranjava maneira de descobrir o lado bom dos prevaricadores. Ele não acreditava que pudesse existir a maldade pura e simples. Seguia este homem de Deus por uma vereda, enchendo os pulmões com aquele ar tão leve e ligeiramente embriagador, e sentindo o coração livre como um passarinho, tudo isto por lhe dada a ver toda aquela beleza simples e harmoniosa. Enquanto caminhava ia agradecendo ao Criador por lhe proporcionar tanta felicidade. Ia tão absorto nos seus pensamentos que nem se assustou quando, alguns passos à sua frente surgiu, vindo não se sabe de onde, uma espécie de gigante, um maltrapilho hirsuto, empunhando um facão e que avançava na sua direção:

- Quem és tu meu irmão…? – começou o frade a perguntar mas, antes de ter podido acabar a frase agonizava, caído por terra, profundamente atingido pela lâmina da enorme faca do bandido.

Antes de exalar o seu último suspiro, o frade ainda conseguiu dizer ao seu algoz, sem qualquer vestígio de rancor ou ódio no seu coração:

- Tenho muito pena de ti meu irmão… vejo que és um homem muito infeliz e solitário e que sofres com isso. É esse sofrimento que te leva a cometeres crimes de sangue… matas o teu semelhante porque não sabes amá-lo. Mas eu agradeço-te pelo mal que me fizeste porque, assim, daqui a pouco vou estar perto de Deus e pedir-lhe-ei que Ele te ajude a encontrar o bom caminho que, um dia, te conduzirá, também a ti, até ao Céu. Acredita que vou ajudar-te …

O santo homem não teve tempo para acabar a frase. A alma abandonou o seu corpo e regressou para junto do Criador.

Estupefato com a atitude do frade, o ladrão sentiu-se como se tivesse sido atingido por um raio e compreendeu, naquele instante, que se tornara num monstro. A partir daquele dia operou-se uma modificação total na sua maneira de agir e, em vez de assaltar e matar os viajantes, passou a ajudar todos quantos por ali passavam e precisavam da sua ajuda: Salvava crianças que se atolavam na neve, ajudava os pastores a encontrarem as ovelhas tresmalhadas, carregava às costas os velhos que queriam atravessar o ribeiro pouco profundo mas que tinha uma corrente rápida e agitada. Enfim, transformara-se num modelo de caridade cristã para com os seus semelhantes.

Mas, muito antes do assassínio do frade e da consequente modificação no seu comportamento, já a sua fama de assassino e ladrão tinha chegado a Lisboa. Os governantes ofereceram, então, uma recompensa de cem moedas de ouro a quem capturasse o homem e o entregasse às autoridades, vivo ou morto.

Um dia, um camponês que se fez àquela estrada de montanha com uma carroça carregada de cereal para vender na feira ficou, de repente, muito aflito ao verificar que uma das rodas se atolara na lama e ele sozinho não era capaz de resolver o problema. A carroça ia-se inclinando para aquele lado e o homem temia que o cereal se derramasse pela encosta abaixo. No meio da sua aflição, o camponês não viu aproximar-se o gigante que, entretanto, passara a ser um homem de bem. Pondo um joelho em terra e curvando as suas possantes costas, o homem conseguiu equilibrar, sobre os ombros, o peso da carroça antes que o seu conteúdo se perdesse.

Sabedor da recompensa para quem capturasse o antigo salteador e vendo-o ali, desprevenido, numa postura em que não podia defender-se, o camponês agarrou com as duas mãos num machado que levava escondido debaixo do capote e, com dois ou três golpes, esmagou a cabeça de quem lhe prestara ajuda desinteressada, matando-o de imediato. Cobriu o corpo com alguma terra, ramos e folhas secas e foi a correr avisar as autoridades que tinha capturado o bandido, pedindo-lhes que o acompanhassem depressa ao local, pois temia que os lobos entretanto comessem o cadáver.

Quando chegaram ao sítio onde o homem tinha sido abandonado, com a cabeça despedaçada, verificaram que o seu corpo se encontrava deitado sobre um tapete de flores que inexplicavelmente tinham crescido em seu redor. A cabeça não tinha sinais de ferimentos e o corpo estava intacto, parecia alguém que tivesse simplesmente adormecido tranquilamente. Junto dele tinha crescido uma árvore com densa folhagem que projetava uma sombra fresca sobre o corpo que ali jazia. Passarinhos esvoaçavam em todas as direções enchendo o ar de música com o seu chilrear.

A notícia de tão insólito acontecimento correu célere pelas aldeias vizinhas e não tardou que houvesse quem considerasse que Deus, na sua infinita bondade, concedera a sua misericórdia àquele antigo pecador e que, por isso, ele devia ser considerado santo e digno de veneração. O povo construiu-lhe uma pequena igreja num lugar ermo da Serra de Arga e, passados alguns séculos, ainda hoje ela lá se encontra e é muito visitada pelos devotos.

Fonte:
David Martins. Lendas de Portugal. Lisboa: Lyon, 1998. 

Enéas Athanázio (A Estradinha)

Sentei no banco gasto da velha estação ferroviária e espraiei o olhar pela vila onde passei muitos anos da infância feliz. Para trás estavam as ruas tortas em que se alinhavam velhas casas; à direita se avistavam as ruínas da antiga madeireira, a indústria que devorou as matas da região; à esquerda, menores do que eu imaginava, ficavam os morros misteriosos onde, como diziam nos meus tempos de criança, viviam até bugres e onças pintadas. Mas à minha frente se estendia a paisagem que mais me dizia à saudade. Naquela campina plana, com o capim ralo queimado da geada inclemente, começava a estradinha que ligava minha vila ao lugarejo onde morava meu amigo Téo, um dos tantos que o tempo levou. Era uma estrada de poucos quilômetros, com o chão vermelho batido pelo caminhão velho que puxava madeira, cortando a mataria fechada, subindo e descendo as quebradas do terreno. Caminho pobre, onde quase ninguém passava, e cujos únicos ruídos eram o canto dos pássaros e o grito de algum bicho. Para mim, porém, aquela estradinha era a porta da aventura e da liberdade – era tudo.

Por ela eu saía nas explorações solitárias do mato próximo e, mais tarde, com a espingarda nas costas, para algumas caçadas inofensivas. Por ela eu partia para acampar na companhia dos amigos, curvado ao peso da mochila. Mais crescido, já metido a homem, a estradinha servia para minhas andanças a cavalo e as corridas na bicicleta que ganhei de minha avó, a única da vila. Também era por ali que eu rumava para os primeiros bailes, nos sítios ou nas casas-de-festa das capelas, quando até arranjei uma namorada, caboclinha simplória e acanhada que também sumiu no tempo. Era ainda por ali, na fase da leitura apaixonada, que eu rumava para a casa de Téo, com quem trocava livros e revistas.

Bem cedinho, mal engolido o café, eu enfrentava o frio e partia decidido. Quase sempre a pé, com o maço de leituras em baixo do braço, esticava o passo nas curvas sem fim, a batida dos saltos provocando um som cavo no chão vidrado. Nem saía da vila e me punha a cantar e assobiar, talvez para espantar o medo, a voz reboando nas canhadas e o eco respondendo longe. Às vezes treinava mesmo uns discursos e declamações para uma plateia invisível. Nessas visitas ao Téo acontecia encontrar por ali, pastando à vontade, o Rosilho, um cavalo muito velho que pertencia à minha família. Não servia mais para o serviço e fora largado ao deus-dará. Muito barrigudo e de lombo agudo como facão, era o retrato da mansidão. Submisso sempre a meus caprichos infantis, muito eu tinha brincado com ele.

Eu então o montava em pelo, sem pelego e sem freio, e o colocava na estrada. Bufando e rebolando, o pobre me levava até a vizinhança do povoado do meu amigo, onde eu o largava, com um tapa amistoso no lombo. À noitinha, quando retornava, eu o encontrava quase no mesmo lugar, pastando em silêncio. Parecia que me esperava. Eu montava de novo e, entre bufos, ele me levava de volta. Para compensá-lo, eu lhe dava um trato de milho e alfafa e servia-lhe água fresca. Com olhos imensos e plácidos, parecia agradecer. Depois, em passos curtos, sem pressa, retomava a liberdade duramente conquistada e cruzava a campina.

Chegando em casa, nem descansado do passeio, eu já imaginava novas andanças pela estradinha. A estradinha que ficou para sempre na minha lembrança como o caminho livre do sonho e da fantasia.
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Premiado no Concurso Nacional Monteiro Lobato promovido pela Academia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil (S. Paulo – 1990).
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Fonte:
ATHANÁZIO, Enéas. Rosilho Velho: contos juvenis. Balneário Camboriu: Minarete, 1994

Baú de Trovas 6

Seu péssimo humor é tal,

e é tal seu jeito ranzinza,
que curte, do carnaval,
somente a quarta de cinza…
A. A. DE ASSIS 

A beleza é uma caveira,
com luxo e gala vestida,
que se desfaz em poeira,
num leve embate da vida.
ADALZIRA BITTENCOURT

Ai daquele que se ilude!
Homem — és tão pequenino,
qual uma bola de gude
na imensa mão do destino!
ALICE ALVES NUNES

Lá se vão os retirantes!
Deixam seus campos... seus bois. .
— O coração morre antes!
— O corpo morre depois...
APARÍCIO FERNANDES

Ilusão — buquê de flores
cheias de encanto e poesia,
que enfeitam de lindas cores.
a vida de cada dia.
ADELAIDE PEREIRA

Quando encontrei desbotado
meu retrato de arlequim
no carnaval do passado,
senti saudades de mim !
ALFREDO DE CASTRO

Pulo mais do que ioiô,
no carnaval sou assim:
por dentro sou pierrô,
por fora sou arlequim...
ANALICE FEITOZA DE LIMA

No carnaval desta vida,
ou por graça ou por maldade,
a Mentira anda vestida
com a nudez da Verdade!
ARCHIMINO LAPAGESSE

Se a vingança é seu intento,
pense antes de iniciar.
Ela só traz sofrimento
e o mal não vai reparar. 
ARTHUR THOMAZ

No carnaval do desgosto,
muitas vezes de improviso,
ponho a máscara no rosto
para mostrar meu sorriso...
BATISTA SOARES

É provérbio muito antigo
que todos devem saber:
quem não evita o perigo,
há de nele perecer.
BENEDITO LOPES DE OLIVEIRA

Com esse olhar que fascina
não me queimes por quem és:
- serás minha Colombina,
- serei Pierrô a teus pés.
CARVALHO GUIMARÂES

Falso rubi em seu dedo,
bolsa vermelha na mão,
nos olhos... angústia e medo,
"... iniciava a profissão..."
CECÍLIA AMARAL CARDOSO

Nossas máscaras do dia
nem sempre nos fazem mal
a esconder dor ou alegria
de um eterno carnaval…
CLEVANE PESSOA

O meu riso é mascarado,
eu não sou alegre assim...
Há um palhaço amargurado
Que chora dentro de mim.
CLÓVIS MAIA

Veste o manto, ajeita a pluma,
põe a faixa de Rainha,
passa batom, se perfuma
e faz Carnaval… sozinha…
DARLY O. BARROS

O morro grita o seu nome
num frenesi sem igual
e vai sambando com fome
a deusa do carnaval!
FERNANDO CÂNCIO DE ARAÚJO

Ela se foi por maldade,
levando o amor de nós dois
e, agora, sinto saudade
do que nunca foi depois!
GABRIEL BICALHO

É carnaval… e em meu peito
qual um sagaz folião,
brinca o meu sonho desfeito
nas alas da solidão…
GISELDA DE MEDEIROS

Carnaval – Festa do povo,
dos prazeres, da folia…
Foliões buscam de novo
reviver sua alforria!…
JOAMIR MEDEIROS

Essa miséria que passa,
mascarando os desenganos,
é o carnaval da desgraça,
o dos farrapos humanos!
JOSÉ CORRÊA VILLELA

Confetes e serpentinas. 
este é o nosso carnaval... 
Depois...quantas Colombinas 
jogadas no matagal!!!
JOSÉ FELDMAN

A ajuda mais importante
que se pode dar a alguém,
é torná-la confiante
nos valores que ela tem!
JOSÉ HENRIQUE DA COSTA

Riso, disfarce, aparato,
sobre um rosto diferente:
o carnaval é o retrato
da vida de muita gente.
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO

Meu carnaval se repete
com a mesma Colombina:
faço dos versos confete
e da trova - serpentina.
JOSÉ VALERIANO RODRIGUES

Carnaval!... Tantas folias...
Pagodes doidos de insano!
Cai a máscara três dias
da face que a usou um ano!...
LAVÍNIO GOMES DE ALMEIDA

Olhando, alheio á folia,
no carnaval me comovo,
ao ver tamanha alegria
sob a miséria do povo.
LUIZ ANTONIO PIMENTEL

O sonho que eu tive um dia
e que a minha alma alegrou,
hoje é só a fantasia
de um carnaval que passou...
LUIZ RABELO

Igualzinho ao vendaval
o nosso amor começou,
terminado o carnaval
este amor se evaporou.
MADALENA CASTRO

Viro a chave... E a nostalgia
da solidão que me corta
é impressa na melodia
do lento ranger da porta...
MANOEL CAVALCANTE

Carnaval, quanta magia…
Foliões pelo salão…
Fantasias…Euforia…
Muito riso… Até paixão…!
MARIA EULÁLIA BRAZ DE OLIVEIRA

Às pescarias incertas,
num mar revolto e voraz,
prefiro as ilhas desertas,
onde eu planto e colho em paz!!!
MARIA MADALENA FERREIRA

No carnaval o sujeito,
no samba, pisou na lata,
caiu e bateu de jeito
no traseiro da mulata!...
MARISA RODRIGUES FONTALVA

Sem tentar - não há fracassos.
Sem ter fé - não há profetas.
Sem sorrir - não há palhaços.
Sem sofrer não há poetas!
MIGUEL RUSSOWSKI

Nosso povo é genial
pois remédio, em sua crença,
é sambar no carnaval,
pra curar qualquer doença.
NEUCI DA CUNHA GONÇALVES

Pensando bem nesta vida,
a gente quase enlouquece:
— Quanta glória imerecida
às custas de quem merece!
NICOLINO LIMONGI

Na rua, toda nuazinha,
escondendo a cara santa,
no carnaval da Lurdinha,
até morto se  levanta.
NILTON MANOEL TEIXEIRA

Triste vida a do Pierrô:
sofrer pela Colombina,
que, nos braços de Arlequim,
ri de sua triste sina!
PALUMA FILHO
 
Carnaval. Reina a folia.
Quantos, nessa confusão,
se escondem na fantasia
para mostrar o que são!
PAULO EMÍLIO PINTO

Carnaval: dança e alegrias,
que têm o dom surpreendente
de sepultar, por três dias,
todas as mágoas da gente!
P. DE PETRUS

Carnaval - coisa engraçada
de malandro e gente bamba...
A dor do povo chorada
na letra rude do samba.
PRATA TAVARES

Para que um carnaval
com três dias de folia,
pois se a vida é afinal,
grande baile à fantasia?
RENATO VIEIRA DA SILVA

Diz o velho, em maus trejeitos:
- Como o carnaval é ingrato:
com produtos tão perfeitos,
a distância nega o prato!
RITA MARCIANO MOURÃO

Quando no armário espirrou,
deu mesmo um azar danado:
com o barulho acordou
o pobre esposo enganado.
SANDRO PEREIRA REBEL

 Quanto traje colorido
de aparência rica e nobre
traz nas dobras, escondido,
um palhaço triste e pobre!...
SARA MARIANY KANTER
 
Em toda a existência nossa,
esta lei se estabelece:
— a virtude nos remoça
e o vicio nos envelhece.
SEVERINO SILVEIRA DE SOUSA

A máscara de alegria
em meu rosto, com frequência,
é apenas a fantasia
no carnaval da existência.
SYLVIO RICCIARDI

Flagrando a esposa e o banqueiro,
pensa bem e esquece o orgulho:
-Vou precisar de dinheiro...
e sai...sem fazer barulho!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

Brilhando ao sol, em cascata,
as águas, fazendo festa,
jorram confetes de prata
no carnaval da floresta!
ZAÉ JÚNIOR

José Feldman (Os ratinhos da sala 306)

Numa Universidade, a sala de aula 306 tinha uma fama peculiar. Não era pela dificuldade das matérias, nem pelos professores excêntricos. Era pelo ar-condicionado, que, ao invés de refrescar, se tornou o centro das atenções. 

No alto, junto ao teto, morava um casal de ratos, que decidiu fazer do ventilador seu lar.

Era uma manhã ensolarada, e a turma de Introdução à Teoria do Caos se preparava para mais uma aula com a Professora Rivalda, uma mulher de cabelo desgrenhado e uma paixão inabalável por teorias bizarras. Assim que os alunos se acomodaram, notaram algo incomum: os rabos dos ratos balançavam suavemente para frente e para trás, como se estivessem dançando ao som de uma música invisível.

— Olhem! — exclamou Ana, a aluna mais observadora da turma. — Tem ratos no ar-condicionado!

A sala toda virou os olhos para o teto. Os rabos dos ratos pareciam ter vida própria, e a atenção dos alunos se desviou completamente da palestra sobre o caos. A professora, sem perceber, continuou sua explicação sobre como o caos pode ser encontrado até nas coisas mais cotidianas.

— E como a teoria do caos nos ensina que pequenas mudanças podem ter grandes consequências… — ela disse, mas a turma só conseguia pensar nos ratos.

— Olha como eles se movem! — sussurrou João, o engraçadinho da turma. — Parece que estão fazendo uma coreografia!

Os alunos começaram a imitar os movimentos dos rabos com suas próprias mãos, enquanto a professora, sem entender o que estava acontecendo, continuava a falar sobre o efeito borboleta. 

— Se uma borboleta bate suas asas na China… — começou, mas foi interrompida por um grito de Maria, que estava na janela.

— Eles estão se aproximando!
Na verdade, os ratos estavam apenas se espreguiçando, mas a turma entrou em pânico. Alguns alunos começaram a fazer piadas, enquanto outros tiravam fotos dos rabos balançantes. A sala virou um verdadeiro pandemônio.

— E se eles caírem? — perguntou Lúcia, com uma expressão de preocupação. — E se forem gigantescos?

— São apenas ratos comuns! — respondeu João, rindo. — Mas se eles caírem, pelo menos teremos um espetáculo ao vivo!

A professora finalmente percebeu a distração da turma e olhou para o teto. Com um olhar confuso, ela disse:

— O que vocês estão olhando? Isso não faz parte da aula!

Mas, ao olhar para os rabos balançando, ela também não pôde deixar de rir. O ar-condicionado tinha se tornado um cenário mais interessante do que sua aula sobre caos e desordem.

— Muito bem, vamos aproveitar a situação! — disse ela, com um brilho nos olhos. — Que tal uma discussão sobre o que o comportamento dos ratos pode nos ensinar sobre a ordem e o caos?

Os alunos começaram a debater animadamente, enquanto os ratos, sem saber que eram estrelas, continuavam sua dança acrobática. Um deles, que parecia mais ousado, desceu um pouco mais perto da borda do ar-condicionado, como se estivesse pronto para um salto.

— E se ele pular? — perguntou Ana, cheia de expectativa.

— Vai ser a primeira apresentação de ratos da história da universidade! — brincou João, fazendo todos rirem.

Finalmente, o ousado rato decidiu descer, mas, ao chegar na borda, hesitou. O silêncio na sala era palpável, todos segurando a respiração. Com um movimento súbito, ele pulou, mas, em vez de cair no chão, foi direto para o colo de um estudante que estava distraído mexendo no celular.

O grito do estudante ecoou pela sala, fazendo a professora quase perder o equilíbrio. O rato, assustado, correu de volta para o ar-condicionado, enquanto a turma explodia em risadas.

— Isso é caos! — gritou a professora, agora realmente empolgada. — Esse é o verdadeiro efeito borboleta!

A aula, que deveria ser sobre teoria, se transformou em um festival de risadas e histórias absurdas sobre ratos e suas aventuras. No final, todos concordaram que a sala 306 tinha se tornado um lugar mágico, onde até os ratos tinham o poder de transformar o tédio em diversão.

E assim, a fama dos ratos da sala 306 se espalhou pela universidade, fazendo com que todo semestre novos alunos se inscrevessem apenas para ver o espetáculo dos rabos balançantes. E quem diria que um ar-condicionado poderia ser o ponto de partida para tantas risadas e aprendizados sobre a vida?

E assim, entre risos e rabos balançantes, a aula sobre o caos se tornou um clássico da Universidade, eternizando os Ratinhos da Sala 306 na memória de todos.

Fonte:
José Feldman. Peripécias de um jornalista de fofocas & outros contos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2025.

Erico Veríssimo (As Mãos de Meu Filho)

Todos aqueles homens e mulheres ali na plateia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas sem voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros.
Beethoven.

Há momentos em que o som do instrumento ganha uma qualidade profundamente humana. O artista está pálido à luz de cálcio. Parece um cadáver. Mas mesmo assim é uma fonte de vida, de melodias, de sugestões — a origem dum mundo misterioso e rico. Fora do círculo luminoso pesa um silêncio grave e parado.

Beethoven lamenta-se. É feio, surdo, e vive em conflito com os homens. A música parece escrever no ar estas palavras em doloroso desenho. Tua carta me lançou das mais altas regiões da felicidade ao mais profundo abismo da desolação e da dor. Não serei, pois, para ti e para os demais, senão um músico? Será então preciso que busque em mim mesmo o necessário ponto de apoio, porque fora de mim não encontro em quem me amparar. A amizade e os outros sentimentos dessa espécie não serviram senão para deixar malferido o meu coração. Pois que assim seja, então! Para ti, pobre Beethoven, não há felicidade no exterior; tudo terás que buscar dentro de ti mesmo. Tão-somente no mundo ideal é que poderás achar a alegria.

Adágio.

O pianista sofre com Beethoven, o piano estremece, a luz mesma que os envolve parece participar daquela mágoa profunda.

Num dado momento as mãos do artista se imobilizam. Depois caem como duas asas cansadas. Mas de súbito, ágeis e fúteis, começam a brincar no teclado. Um scherzo. A vida é alegre. Vamos sair para o campo, dar a mão às raparigas em flor e dançar com elas ao sol… A melodia, no entanto, é uma superfície leve, que não consegue esconder o desespero que tumultua nas profundezas. Não obstante, o claro jogo continua. A música saltitante se esforça por ser despreocupada e ter alma leve. É uma dança pueril em cima duma sepultura. Mas de repente, as águas represadas rompem todas as barreiras, levam por diante a cortina vaporosa e ilusória, e num estrondo se espraiam numa melodia agitada de desespero. O pianista se transfigura. As suas mãos galopam agitadamente sobre o teclado como brancos cavalos selvagens. Os sons sobem no ar, enchem o teatro, e para cada uma daquelas pessoas do submundo eles têm uma significação especial, contam uma história diferente.

Quando o artista arranca o último acorde, as luzes se acendem. Por alguns rápidos segundos há como que um hiato, e dir-se-ia que os corações param de bater. Silêncio. Os sub-homens sobem à tona da vida. Desapareceu o mundo mágico e circular formado pela luz do refletor. O pianista está agora voltado para a plateia, sorrindo lividamente, como um ressuscitado. O fantasma de Beethoven foi exorcizado. Rompem os aplausos.

Dentro de alguns momentos torna a apagar-se a luz. Brota de novo o círculo mágico.

Suggestion Diabolique.

D. Margarida tira os sapatos que lhe apertam os pés, machucando os calos.
– Não faz mal. Estou no camarote. Ninguém vê.

Mexe os dedos do pé com delícia. Agora sim, pode ouvir melhor o que ele está tocando, ele, o seu Gilberto. Parece um sonho… Um teatro deste tamanho. Centenas de pessoas finas, bem vestidas, perfumadas, os homens de preto, as mulheres com vestidos decotados — todos parados, mal respirando, dominados pelo seu filho, pelo Betinho!

D. Margarida olha com o rabo dos olhos para o marido. Ali está ele a seu lado, pequeno, encurvado, a calva a reluzir foscamente na sombra, a boca entreaberta, o ar pateta. Como fica ridículo nesse smoking! O pescoço descarnado, dançando dentro do colarinho alto e duro, lembra um palhaço de circo.

D. Margarida esquece o marido e torna a olhar para o filho. Admira-lhe as mãos, aquelas mãos brancas, esguias e ágeis. E como a música que o seu Gilberto toca é difícil demais para ela compreender, sua atenção borboleteia, pousa no teto do teatro, nos camarotes, na cabeça duma senhora lá embaixo (aquele diadema será de brilhantes legítimos?) e depois torna a deter-se no filho. E nos seus pensamentos as mãos compridas do rapaz diminuem, encolhem, e de novo Betinho é um bebê de quatro meses que acaba de fazer uma descoberta maravilhosa: as suas mãos… Deitado no berço, com os dedinhos meio murchos diante dos olhos parados, ele contempla aquela coisa misteriosa, solta gluglus de espanto, mexe os dedos dos pés, com os olhos sempre fitos nas mãos…

De novo D. Margarida volta ao triste passado. Lembra-se daquele horrível quarto que ocupavam no inverno de 1915. Foi naquele ano que o Inocêncio começou a beber. O frio foi a desculpa. Depois, o coitado estava desempregado… Tinha perdido o lugar na fábrica. Andava caminhando à toa o dia inteiro. Más companhias. “Ó Inocêncio, vamos tomar um traguinho?” Lá se iam, entravam no primeiro boteco. E vá cachaça! Ele voltava para casa fazendo um esforço desesperado para não cambalear. Mas mal abria a boca, a gente sentia logo o cheiro de caninha. “Com efeito, Inocêncio! Você andou bebendo outra vez!” Ah, mas ela não se abatia. Tratava o marido como se ele tivesse dez anos e não trinta. Metia-o na cama. Dava-lhe café bem forte sem açúcar, voltava apara a Singer, e ficava pedalando horas e horas. Os galos já estavam cantando quando ela ia deitar, com os rins doloridos, os olhos ardendo. Um dia…

De súbito os sons do piano morrem. A luz se acende. Aplausos. D. Margarida volta ao presente. Ao seu lado Inocêncio bate palmas, sempre de boca aberta, os olhos cheios de lágrimas, pescoço vermelho e pregueado, o ar humilde… Gilberto faz curvaturas para o público, sorri, alisa os cabelos. (“Que lindos cabelos tem o meu filho, queria que a senhora visse, comadre, crespinhos, vai ser um rapagão bonito.)

A escuridão torna a submergir a plateia. A luz fantástica envolve pianista e piano. Algumas notas saltam, como projéteis sonoros.

Navarra.

Embalada pela música (esta sim, a gente entende um pouco), D. Margarida volta ao passado.

Como foram longos e duros aqueles anos de luta! Inocêncio sempre no mau caminho. Gilberto crescendo. E ela pedalando, pedalando, cansando os olhos; a dor nas costas aumentando, Inocêncio arranjava empreguinhos de ordenado pequeno. Mas não tinha constância, não tomava interesse. O diabo do homem era mesmo preguiçoso. O que queria era andar na calaçaria, conversando pelos cafés, contando histórias, mentindo…

— Inocêncio, quando é que tu crias juízo?

O pior era que ela não sabia fazer cenas. Achava até graça naquele homenzinho encurvado, magro, desanimado, que tinha crescido sem jamais deixar de ser criança. No fundo o que ela tinha era pena do marido. Aceitava a sua sina. Trabalhava para sustentar a casa, pensando sempre no futuro de Gilberto. Era por isso que a Singer funcionava dia e noite. Graças a Deus nunca lhe faltava trabalho.
Um dia Inocêncio fez uma proposta:

— Escuta aqui, Margarida. Eu podia te ajudar nas costuras…

— Minha Nossa! Será que tu queres fazer casas ou pregar botões?

— Olha, mulher. (Como ele estava engraçado, com sua cara de fuinha, procurando falar a sério!) Eu podia cobrar as contas e fazer a tua escrita.

Ela desatou a rir. Mas a verdade é que Inocêncio passou a ser o seu cobrador. No primeiro mês a cobrança saiu direitinho. No segundo mês o homem relaxou… No terceiro, bebeu o dinheiro da única conta que conseguira cobrar.

Mas D. Margarida esquece o passado. Tão bonita a música que Gilberto está tocando agora… E como ele se entusiasma! O cabelo lhe cai sobre a testa, os ombros dançam, as mãos dançam… Quem diria que aquele moço ali, pianista famoso, que recebe os aplausos de toda esta gente, doutores, oficiais, capitalistas, políticos… o diabo! — é o mesmo menino da rua da Olaria que andava descalço brincando na água da sarjeta, correndo atrás da banda de música da Brigada Militar…

De novo a luz. As palmas. Gilberto levanta os olhos para o camarote da mãe e lhe faz um sinal breve com a mão, ao passo que seu sorriso se alarga, ganhando um brilho particular. D. Margarida sente-se sufocada de felicidade. Mexe alvoroçadamente com os dedos do pé, puro contentamento. Tem ímpetos de erguer-se no camarote e gritar para o povo: “Vejam, é o meu filho! O Gilberto. O Betinho! Fui eu que lhe dei de mamar! Fui eu que trabalhei na Singer para sustentar a casa, pagar o colégio para ele! Com estas mãos, minha gente. Vejam! Vejam!”

A luz se apaga. E Gilberto passa a contar em terna surdina as mágoas de Chopin.

No fundo do camarote Inocêncio medita. O filho sorriu para a mãe. Só para a mãe. Ele viu… Mas não tem direito de se queixar… O rapaz não lhe deve nada. Como pai ele nada fez. Quando o público aplaude Gilberto, sem saber está aplaudindo também Margarida. Cinquenta por cento das palmas devem vir para ela. Cinquenta ou sessenta? Talvez sessenta. Se não fosse ela, era possível que o rapaz não desse para nada. Foi o pulso de Margarida, a energia de Margarida, a fé de Margarida que fizeram dele um grande pianista.

Na sombra do camarote, Inocêncio sente que ele não pode, não deve participar daquela glória. Foi um mau marido. Um péssimo pai. Viveu na vagabundagem, enquanto a mulher se matava no trabalho. Ah! Mas como ele queria bem ao rapaz, como ele respeitava a mulher! Às vezes, quando voltava para casa, via o filho dormindo. Tinha um ar tão confiado, tão tranquilo, tão puro, que lhe vinha vontade de chorar. Jurava que nunca mais tornaria a beber, prometia a si mesmo emendar-se. Mas qual! Lá vinha um outro dia e ele começava a sentir aquela sede danada, aquela espécie de cócegas na garganta. Ficava com a impressão de que se não tomasse um traguinho era capaz de estourar. E depois havia também os maus companheiros. O Maneca. O José Pinto. O Bebe-Fogo. Convidavam, insistiam… No fim de contas ele não era nenhum santo.

Inocêncio contempla o filho. Gilberto não puxou por ele. A cara do rapaz é bonita, franca, aberta. Puxou pela Margarida. Graças a Deus. Que belas coisas lhe reservará o futuro? Daqui para diante é só subir. A porta da fama é tão difícil, mas uma vez que a gente consegue abri-la… adeus! Amanhã decerto o rapaz vai aos Estados Unidos… É capaz até de ficar por lá… esquecer os pais. Não. Gilberto nunca esquecerá a mãe. O pai, sim… E é bem-feito. O pai nunca teve vergonha. Foi um patife. Um vadio. Um bêbedo.

Lágrimas brotam nos olhos de Inocêncio. Diabo de música triste! O Betinho devia escolher um repertório mais alegre.

No atarantamento da comoção, Inocêncio sente necessidade de dizer alguma coisa. Inclina o corpo para a frente e murmura:

— Margarida…

A mulher volta para ele uma cara séria, de testa enrugada.

— Chit!

Inocêncio recua para a sua sombra. Volta aos seus pensamentos amargos. E torna a chorar de vergonha, lembrando-se do dia em que, já mocinho Gilberto lhe disse aquilo. Ele quer esquecer aquelas palavras, quer afugenta-las, mas elas lhe soam na memória, queimando como fogo, fazendo suas faces e suas orelhas arderem.

Ele tinha chegado bêbedo em casa. Gilberto olhou-o bem nos olhos e disse sem nenhuma piedade:

— Tenho vergonha de ser filho dum bêbedo!

Aquilo lhe doeu. Foi como uma facada, dessas que não só cortam as carnes como também rasgam a alma. Desde esse dia ele nunca mais bebeu.

No saguão do teatro, terminado o concerto, Gilberto recebe cumprimentos dos admiradores. Algumas moças o contemplam deslumbradas. Um senhor gordo e alto, muito bem vestido, diz-lhe com voz profunda:

— Estou impressionado, impressionadíssimo. Sim senhor! Gilberto enlaça a cintura da mãe:

— Reparto com minha mãe os aplausos que eu recebi esta noite… Tudo que sou, devo a ela.

— Não diga isso, Betinho!

D. Margarida cora. Há no grupo um silêncio comovido. Depois rompe de novo a conversa. Novos admiradores chegam.

Inocêncio, de longe, olha as pessoas que cercam o filho e a mulher. Um sentimento aniquilador de inferioridade o esmaga, toma-lhe conta do corpo e do espírito, dando-lhe uma vergonha tão grande como a que sentiria se estivesse nu, completamente nu ali no saguão.

Afasta-se na direção da porta, num desejo de fuga. Sai. Olha a noite, as estrelas, as luzes da praça, a grande estátua, as árvores paradas… Sente uma enorme tristeza. A tristeza desalentada de não poder voltar ao passado… Voltar para se corrigir, para passar a vida a limpo, evitando todos os erros, todas as misérias…

O porteiro do teatro, um mulato de uniforme cáqui, caminha dum lado para outro, sob a marquise.

— Linda noite! — diz Inocêncio, procurando puxar conversa. O outro olha o céu e sacode a cabeça, concordando.

— Linda mesmo.

Pausa curta.

— Não vê que sou o pai do moço do concerto…

— Pai? Do pianista?

O porteiro para, contempla Inocêncio com um ar incrédulo e diz:

— O menino tem os pulsos no lugar. É um bicharedo.

Inocêncio sorri. Sua sensação de inferioridade vai-se evaporando aos poucos.

— Pois imagine como são as coisas — diz ele. — Não sei se o senhor sabe que nós fomos muito pobres… Pois é. Fomos. Roemos um osso duro. A vida tem coisas engraçadas. Um dia… o Betinho tinha seis meses… umas mãozinhas assim deste tamanho… nós botamos ele na nossa cama. Minha mulher dum lado, eu do outro, ele no meio. Fazia um frio de rachar. Pois o senhor sabe o que aconteceu? Eu senti nas minhas costas as mãozinhas do menino e passei a noite impressionado, com medo de quebrar aqueles dedinhos, de esmagar aquelas carninhas. O senhor sabe, quando a gente está nesse dorme-não-dorme, fica o mesmo que tonto, não pensa direito. Eu podia me levantar e ir dormir no sofá. Mas não. Fiquei ali no duro, de olho mal e mal aberto, preocupado com o menino. Passei a noite inteira em claro, com a metade do corpo para fora da cama. Amanheci todo dolorido, cansado, com a cabeça pesada. Veja como são as coisas… Se eu tivesse esmagado as mãos do Betinho hoje ele não estava aí tocando essas músicas difíceis… Não podia ser o artista que é.

Cala-se. Sente agora que pode reclamar para si uma partícula da glória do seu Gilberto. Satisfeito consigo mesmo e com o mundo, começa a assobiar baixinho. O porteiro contempla-o em silêncio. Arrebatado de repente por uma onda de ternura, Inocêncio tira do bolso das calças uma nota amarrotada de cinquenta mil-réis e mete-a na mão do mulato.

— Para tomar um traguinho — cochicha.

E fica, todo excitado, a olhar para as estrelas.

Fonte:
Érico Veríssimo. Contos. RJ: Editora Globo, 1983.

Moacyr Scliar (A Noite em que os Hotéis estavam Cheios)


O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.

Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.

— E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!

O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:

— O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente… O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?

O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.

— Pois então — disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.

O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.

No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio.

— O disfarce está muito bom. Que disfarce? Perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano:

— Sinto muito — desculpou-se. — Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.

O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a ideia boa, e até agradeceu. Saíram.

Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém de Nazaré.

Fonte:
Moaciyr Scliar. Contos para um Natal brasileiro. RJ: Editora Relume: IBASE, 1996.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

José Feldman (Grinalda Indígena) * 3 *

 

Antonio Brás Constante (Do copo ao corpo e ao fundo do poço)

O mundo é um lugar fantástico; coisas simples, como o mel, são verdadeiras maravilhas da natureza. A semente que cai na terra germinando em bela planta, como um limoeiro, por exemplo, que se enche de flores e delas surge o fruto. Até a areia pode ter seus grãos transformados em vidro. Pensem na cana-de-açúcar, que uma vez processada vira alimento, combustível e até o álcool de farmácia.

Eis que então surgiu o homem, cuja inteligência tornou-o senhor absoluto de tudo que existe no mundo. Seu gênio criativo foi desenvolvendo as maravilhas modernas que conhecemos, entre elas carros, casas, aviões, etc. Mas alguns indivíduos resolveram fazer diferente. Então o homem pegou o vidro e inventou o copo, dentro dele pôs o mel e o limão. Da cana-de-açúcar fez a cachaça, juntando-a aos demais ingredientes dentro do copo. Bebeu todo o seu conteúdo e viu que aquilo era bom, recomeçando o processo várias vezes, até que quebrou o copo, derramou o mel, cortou o dedo ao fatiar o limão, cambaleou até um canto qualquer e decidiu tomar só a cachaça diretamente do gargalo mesmo.

A partir daí surgiu o “bebum”.

O bebum enche a cara por vários motivos, mas não lembra de nenhum deles, pois justamente bebe para esquecê-los. Isso o torna uma criatura sem passado e muito provavelmente sem futuro. E lá se vai o arremedo de homem, encharcado de bebida, de volta para casa por ter sido expulso do bar. Após toda uma caminhada em “zigue-zague”, com eventuais paradas para recordar o motivo de estar caminhando pela noite ao invés de ter continuado no boteco, o bebum finalmente chega em sua morada, onde acredita que irá encontrar a sua amada esposa (ao menos espera que desta vez aquela seja a sua casa, já que nas outras inúmeras vezes ele bateu em casas erradas).

Para quem não sabe, nessas situações a “amada esposa” é aquela criatura que fica dentro de casa, sentada no sofá de frente para a porta. Geralmente vestida de roupão de dormir, calçando pantufas felpudas cor-de-rosa e que mesmo podendo facilmente abrir a porta para a entrada do bebum, deixa que ele mesmo faça isso. Algo que pode demorar um bom tempo, pois se já foi difícil achar a rua e a casa, agora começa a tarefa mais difícil que é inserir a chave na diminuta fechadura que fica aparecendo de forma dupla e se movendo freneticamente na sua frente. Quando pressente que o seu alcoolizado marido conseguirá finalmente adentrar pela porta, a esposa então se levanta. Permanece com o rosto fechado e os braços cruzados. Sua mão esquerda tamborilando os dedos no cotovelo direito e a mão direita segurando o rolo de macarrão.

A primeira coisa que as mulheres dizem nessas ocasiões é algo do tipo: “sabe que horas são?”. Como se essa informação pudesse ser de qualquer valia para o organismo empapado de bebida que paira na sua frente de pé (tentando manter o equilíbrio), também conhecido como marido. Essas mulheres ainda podem se considerar felizardas. Duro mesmo é quando o bêbado resolve bancar o machão. Quebrando tudo, batendo na mulher e nos filhos. Transformando seu lar em um tormento para todos aqueles que convivem com ele.

Enfim, o mundo é um lugar maravilhoso, cheio de coisas maravilhosas. Infelizmente o alcoolismo não é uma delas, pois, na estrada da vida, a bebida é o combustível que leva qualquer indivíduo velozmente para longe de todas as pessoas que ele ama. Conduz seu destino para um profundo e solitário abismo, localizado no fundo de uma garrafa.

Fonte:
CONSTANTE, Antonio Brás. Hoje é o seu aniversário – PREPARE-SE: e outras histórias. Porto Alegre, RS: Age, 2009. Enviado pelo autor..

Batista de Lima (O Insepulto)

Terêncio Espinheira passava em frente à capela de São Raimundo quando sentiu travar o coração. Tombou, arrastou-se e morreu babando no último banco da igreja. O sacristão comunicou ao padre Otávio e foi avisar à família: duas filhas que com Espinheira moravam lá pras bandas do motor do arroz.

As duas receberam com alegria, a notícia, e não foram à casa santa, ver o corpo do pai. Pe. Otávio pediu um caixão ao Major Apolônio que, como prefeito, enterrava os mortos da cidadezinha por conta dos dinheiros municipais. Mas não havia caixão para Espinheira, destratador de políticos e destruidor do patrimônio público. A saída foi o velho sacerdote providenciar uma rede para conduzir o morto, e o fez constrangido porque muitas vezes, Terêncio, embriagado, invadira a igreja durante a santa missa, montado no seu cavalo cardão.

As filhas não compareceram pois festejavam a morte do pai com muitas rodadas de cerveja quente num reservado do Bar da Bia. Nunca mais apanhariam no meio da rua, do pai feito fera, apesar das suas idades, com mais de trinta anos cada uma. À tarde Pe. Otávio utilizou o serviço de som da igreja e pediu ajuda aos cidadãos de Sipaúbas para o transporte do defunto até o cemitério, ninguém apareceu. Nem adiantava, pois Gervásio, o coveiro, já se havia negado a cavar a cova, depois de tanto sofrer nas mãos de Espinheira. O vigário teve a idéia de pagar com o pouco dinheiro da coleta da missa a um carroceiro para carregar o morto. O carroceiro veio mas o burro puxador da carroça assombrou-se ao ver o morto e disparou de rua afora de carroça seca. Espinheira anoiteceu insepulto.

Já exalando mau cheiro, era alta noite, quando Pe. Otávio teve a idéia de colocar o cadáver num carro de mão e empurrá-lo até os fundos da igreja onde um riacho caudaloso transbordava em cheias de abril. Jogou o corpo na correnteza e veio desinfetar a capela.

No dia seguinte por mais de uma légua de riacho abaixo apareceram centenas de piranhas mortas, e nos invernos dos anos seguintes nunca mais correu água no riacho das Guaribas.

Fonte:
Soares Feitosa e Nilto Maciel. Jornal do Conto.

José Feldman (Grinalda Indígena) * 4 *