Trovadores em Ordem Alfabética

  • A (49)
  • B (5)
  • C (22)
  • D (12)
  • E (13)
  • F (13)
  • G (9)
  • H (11)
  • I (4)
  • J (27)
  • L (33)
  • M (31)
  • N (7)
  • O (11)
  • P (4)
  • R (18)
  • S (12)
  • T (5)
  • V (5)
  • W (3)
  • Z (3)

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Luiz Carlos Abritta (Tertúlia da Saudade)


A natureza se vinga
de toda agressão sofrida
e essa revolta respinga
no centro de nossa vida!
= = = = = = = = = = = = =

Aos jovens dou um conselho,
nesta vida tão incerta:
não se olhem tanto no espelho
pois Narciso é morte certa!
= = = = = = = = = = = = =

Ao teu prazer eu me entrego
- seja lá o que quiseres –
pois te escolhi, eu não nego,
entre todas as mulheres.
= = = = = = = = = = = = =

As tuas mãos - que brancura
 - que bonito de se ver,
 pois elas têm a ternura
 dos lírios do amanhecer.
= = = = = = = = = = = = =

Busco de novo a verdade
na aspereza dos caminhos,
e só encontro a saudade,
a solidão dos sozinhos!
= = = = = = = = = = = = =

Casaste... triste eu sofria,
pois vestiste, bem contente,
a camisola macia
que eu te dera de presente!
= = = = = = = = = = = = =

Depois de fazer a ronda,
o galo ficou danado:
a galinha, tão redonda,
quis botar ovo quadrado!
= = = = = = = = = = = = =

Desde que tu foste embora,
 tua saudade é açoite
 que já começa na aurora
 e dói mais durante a noite!
= = = = = = = = = = = = =

Dessa forma Cristo pensa:
"maior será o perdão
quanto maior for a ofensa".
- Que bela e sábia lição!!
= = = = = = = = = = = = =

De todo "não" que me deste,
 o que mais triste me fez
 foi aquele que disseste
 disfarçado num "talvez".
= = = = = = = = = = = = =

Do meu verso é sempre a fonte
 essa cidade lendária
 chamada Belo Horizonte,
 a Capital centenária!
= = = = = = = = = = = = =

Do simples pó eu procedo,
sei que a ele hei de voltar;
a vida não tem segredo:
é um eterno retornar.
= = = = = = = = = = = = =

Em cada nota eu receio,
na pauta que a vida escreve,
que transformem nosso enleio
numa simples semibreve.
= = = = = = = = = = = = =

É muito estranho, meu bem,
 o relógio do destino:
 vai de manso, vai e vem,
 depois bate em desatino!
= = = = = = = = = = = = =

E se em tupi é “kiri”
e lá na Itália “bambino”,
no sul só falam “guri”:
diabruras de “menino’!
= = = = = = = = = = = = =

Essa vitória alcançada
 nos obriga a meditar:
 sem o povo não há nada,
 que verdade singular!
= = = = = = = = = = = = =

Eu bem sei que tu me esperas
 e, se te vejo, ao sol-posto,
 projeto um céu de quimeras
 na moldura do teu rosto!
= = = = = = = = = = = = =

Eu confesso abertamente,
e disso não me envergonho,
que tu foste, simplesmente,
o amplo portal do meu sonho.
= = = = = = = = = = = = =

Eu sei que o belo e a verdade
 caminham juntos na vida
 e atinjo a felicidade
 se a ternura é dividida.
= = = = = = = = = = = = =

Eu te agrado, tu me agradas,
e, no doce cativeiro,
sem algemas, sem ciladas,
tu me prendes por inteiro!
= = = = = = = = = = = = =

Eu te amo tanto, mas tanto
que já pus num pedestal
toda a glória desse encanto,
que se tornou imortal.
= = = = = = = = = = = = =

Eu te digo, com alegria,
e a realidade comprova
que o melhor da poesia
é a beleza de uma trova.
= = = = = = = = = = = = =

Eu tenho perseverança
e à tristeza me anteponho:
garimpeiro da esperança,
sempre vivi do meu sonho.
= = = = = = = = = = = = =

Foi no tempo da janela
e do namoro à distância
que a vida, muito mais bela,
tinha tão grande importância!
= = = = = = = = = = = = =

Jamais eu temo o fracasso
 pois me deste o teu amor
 e a simples força do abraço
 me transforma em vencedor!
= = = = = = = = = = = = =

Na magia desse sonho,
 nessa noite calma e pura,
 a sonata que componho
 tem as notas da ternura.
= = = = = = = = = = = = =

Não foi perto, nem distante:
o nosso amor, ideal,
nasceu da luz de um instante
e se tornou imortal!
= = = = = = = = = = = = =

Não me queres... pouco importa...
Só penso no alvorecer,
pois ele sempre abre a porta
à sedução de viver!
= = = = = = = = = = = = =

Nas horas mortas da noite,
sem luar e bem-querer,
tua ausência é puro açoite
que duplica o meu sofrer.
= = = = = = = = = = = = =

Na tessitura do sonho,
vou cortar, sem mais tardança,
esse nó górdio que imponho
a um amor sem esperança.
= = = = = = = = = = = = =

Navegador solitário,
singrando as águas do mar,
jamais pensa em numerário,
mas conjuga o verbo amar!
= = = = = = = = = = = = =

Nem o sofista profundo
esta verdade falseia:
quem se julga rei do mundo
é um pequeno grão de areia!
= = = = = = = = = = = = =

Nenhum amor se constrói
só com flores e ternura,
pois aquele que mais dói
certamente é o que mais dura.
= = = = = = = = = = = = =

Nessa vereda que é a vida,
vou de tropeço em tropeço,
pois cada nova subida
é sempre um novo começo.
= = = = = = = = = = = = =

Nesse exílio que me imponho,
não senti que era miragem
e dos pedaços de sonho
eu recompus tua imagem.
= = = = = = = = = = = = =

Nosso amor já teve história
e, por isso, eu te proponho
seja posto na memória
do relicário do sonho.
= = = = = = = = = = = = =

Novo estatuto vigora
nas leis do amor hoje em dia:
sei que vale mais o agora
do que a mais bela utopia!
= = = = = = = = = = = = =

Numa alquimia de nume,
 à tristeza me anteponho,
 transformando teu perfume
 no perfume do meu sonho!
= = = = = = = = = = = = =

O açougueiro viu passando
 a mulher que é só pele e osso
 e disse, a faca afiando:
 "Isso é carne de pescoço".
= = = = = = = = = = = = =

Olhando o tempo passar,
no relógio da memória,
eu senti coisa invulgar,
pois revivi nossa história!
= = = = = = = = = = = = =

O que conta nessa vida
não é tempo nem idade,
mas a procura renhida
da deusa felicidade.
= = = = = = = = = = = = =

O tempo passa depressa
e tão rápido ele flui
que nunca mais recomeça:
– sou a sombra do que fui.
= = = = = = = = = = = = =

Quando o cãozinho e o menino
se abraçam por um segundo,
solto o canto peregrino:
- Há salvação para o mundo!
= = = = = = = = = = = = =

Quis esquecer-te... não pude:
 a saudade é traiçoeira
 e ela sempre nos ilude,
 pois nos prende a vida inteira!
= = = = = = = = = = = = =

Quis retratar um romance
 que fosse mesmo um primor,
 e fiz, com tinta e nuance,
 uma aquarela de amor.
= = = = = = = = = = = = =

Sempre foste minha amada
e, no doce cativeiro,
sem algema e sem mais nada,
tu me prendes por inteiro.
= = = = = = = = = = = = =

Se não me dás teu carinho,
se não me queres amar,
sou barco triste e sozinho,
que já não quer navegar.
= = = = = = = = = = = = =

Se navegar é preciso
e viver nem tanto assim,
vou partir com teu sorriso,
em busca do mar sem fim!
= = = = = = = = = = = = =

Se todos temos defeitos,
se o mistério vem de Deus,
se nem os bons são perfeitos,
o que dizer dos ateus?
= = = = = = = = = = = = =

Somos poeira que a vida
 sempre leva de roldão;
 em sua sanha atrevida,
 ela não vê coração.
= = = = = = = = = = = = =

Só se louva a juventude,
porém jamais alguém disse
que só se atinge a virtude
quando se alcança a velhice.
= = = = = = = = = = = = =

Tira o véu da hipocrisia,
joga longe esse teu manto,
e verás que a noite fria
se transforma em puro encanto.
= = = = = = = = = = = = =

Todos querem sufocar,
 com disfarces atrevidos,
 e sordidez invulgar,
 o grito dos excluídos .
= = = = = = = = = = = = =

Tudo ele faz com amor
e traz o céu na bagagem;
na verdade, o trovador
de Deus na Terra é a imagem.
= = = = = = = = = = = = =

Tu partiste... e essa magia
 que deixaste no meu peito
 vai fazer que certo dia
 tu voltes de qualquer jeito.
= = = = = = = = = = = = =

Vejo o mar em ondas mansas
- foto de rara beleza -
e, reforçando as lembranças,
um céu chamado Veneza!
= = = = = = = = = = = = =

"Veredas, grandes sertões"...
a nossa vida é uma estrada
toda cheia de senões,
do início ao fim da jornada.
= = = = = = = = = = = = =

Vou definir a saudade
e não sei se estarei certo:
saudade é aquela vontade
de que o longe fique perto.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Luiz Carlos Abritta (1935 – 2021)
LUIZ CARLOS ABRITTA, uma das figuras mais proeminentes do movimento trovístico brasileiro, além de renomado jurista e intelectual do estado de Minas Gerais nasceu em 1935, em Cataguases, na Zona da Mata Mineira. Filho do magistrado e influente poeta modernista Oswaldo Abritta (membro fundador da célebre Revista Verde na década de 1920) e de Yolanda Nery Abritta. faleceu em 2021, aos 86 anos, na cidade de Belo Horizonte/MG. Embora tenha nascido em Cataguases e atuado em várias comarcas do interior mineiro, fixou residência permanente em Belo Horizonte. Construiu uma carreira jurídica brilhante e de altíssimo escalão no estado. Bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) na turma de 1958, ingressou na carreira em 1964, atuando como Promotor de Justiça nas comarcas de Rio Piracicaba, Minas Novas, Brumadinho, Itabira e Belo Horizonte. Em 1982, foi promovido ao cargo de Procurador de Justiça. Foi presidente da Associação Mineira do Ministério Público (AMMP), Juiz do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) e atuou como Presidente do Tribunal de Ética da OAB/MG.
Abritta herdou o gosto pelas palavras de seu berço modernista, mas consagrou-se nacionalmente no universo da trova. Alcançou o topo da representação do gênero no país e produziu uma vasta obra que engloba poesias, discursos e ensaios. Com mais de uma dezena de livros publicados, destacam-se: Pó...emas; Nada vale a pena; A história do Movimento Modernista em Cataguases; Sonho e saudade; Aurora plena; Um homem plural; Críticas criticáveis Foi um líder e aglutinador da intelectualidade e dos trovadores, comandando as principais instituições do gênero, sendo Presidente Nacional da UBT, tendo presidido também a seção estadual de Minas Gerais e a seção municipal de Belo Horizonte. Foi presidente e presidente emérito da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG), fundador e primeiro presidente da Academia de Letras do Ministério Público de Minas Gerais (ALEMP) e, nos seus últimos anos de vida, presidiu o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG). 
Conquistou inúmeros prêmios em concursos de trovas e competições literárias em âmbito nacional. A importância dele Carlos Abritta repousa em sua impressionante capacidade de equilibrar o rigor técnico e o lirismo da trova. Suas principais contribuições foram: Como Presidente Nacional da UBT, ele foi um pilar fundamental para manter viva, organizada e dinâmica a tradição da trova em todo o Brasil. Ele expandiu os horizontes literários criando espaços de produção e memória onde a literatura não costumava ter cadeira cativa, como a fundação da Academia de Letras no seio do Ministério Público. Vindo de uma linhagem intimamente ligada ao Modernismo de 1922 em Minas, soube valorizar a história literária mineira enquanto defendia a beleza clássica e a rima perfeita que a trova exige. 

(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos em diversos sites pela internet) 

Lairton Trovão de Andrade (Semeando Trovas)


1
A água fina da chuva
rega a terra ressequida,
produz trigo, mel e uva,
– traz ressurreição à vida.
2
A água na terra é vida,
que faz germinar sementes,
que mata a fome dorida
e traz abundância às gentes.
3
A flor de maracujá
lembra a coroa de espinho;
e o sangue de cor grená
lava do mundo o caminho.
4
Ao contrário da mentira,
é reta a sinceridade;
aquela desperta a ira,
esta, a credibilidade.
5
A primavera das flores,
com borboletas azuis,
inspira tantos amores
e alegra tristes pauis.
6
Aquele pequeno beijo,
outrora despretensioso,
despertou forte desejo
de mais um sonho gostoso.
7
A saudade é o sentimento
que dói no íntimo da gente;
lembra o bom contentamento
que não mais está presente.
8
As horas todas do mundo
pertencem ao joão-preguiça;
dá vida em ser vagabundo,
- nem por viver tem cobiça.
9
Asqueroso é o avarento
que, de si, nada consome;
à família é rabugento,
por dinheiro, unha de fome.
10
A sublime qualidade
de verdadeira grandeza
encontra-se na humildade
com as honras da nobreza.
11
Cada cor numa ocasião!
Por isso é que, volta e meia,
o anseio do coração
faz mais bonita a cor feia.
12
Com seu instinto de fome,
no casório está o glutão;
guloso, tudo consome
e cobre de ossos meu chão.
13
Desde o começo da história,
sempre o lar foi respeitado;
é uma norma obrigatória
ver nele templo sagrado.
14
Dinheiro e felicidade
são coisas que nos convém;
sem ele a calamidade
nos leva cedo pro além.
15
Educação, chave de ouro,
fonte de sublimação.
Na verdade, é um tesouro
de infinda realização!
16
Faço trovas noite e dia,
minto à imaginação...
Vivo, então, minha alegria
na magia da ilusão.
17
Feliz de quem, nesta vida,
só virtudes praticar;
há de ter força renhida,
quando o inverno lhe tocar.
18
Há coisa que não te explico
na desditosa paixão:
Com quem me quer eu não fico,
com quem quero me diz “não”.
19
Há rosa de muito espinho
que nos dá prazer e graça.
Há rosa que, sem carinho,
apenas nos traz desgraça.
20
Há um tal político aí
que diz: “Vocês são fregueses”!
E mente mais que o saci,
pois, já mentiu cem mil vezes!
21
Importante é o instrumento
para se agir na arte em vista;
melhor, porém, é o talento,
pois é o coração do artista.
22
Meiga mãe, diva senhora,
teu amor é, num segundo,
mais que tudo que se aflora
na eternidade do mundo.
23
Minha cara, dá-me a mão,
é por ti que vivo e morro!
Dá-me afeto, sim, do cão,
Não, porém, de um “cão cachorro”
24
Mulher é anjo da guarda,
seiva de vida na terra;
em tudo, sempre vanguarda,
pomba de paz e...de guerra.
25
Naqueles tempos de antanho,
ninguém era assim tão homem:
Havia pavor tamanho
das noites de lobisomem.
26
Na trova – mau aprendiz,
na bola – perna de pau,
na foice – quebra os quadris,
mas toca bem berimbau!
27
Neste frio que assola tudo,
cobertor é todo em vão.
O que me aquece, contudo,
é o seu próprio coração.
28
Neste mundo, sentir-se útil,
sobrepor a adversidade,
não dar ouvidos ao fútil,
já é ter felicidade.
29
Neste mundo, tudo passa
contra nosso próprio gosto.
Tudo se torna fumaça
dizem as rugas do rosto.
30
No campo da eternidade,
os tempos não passarão:
só há imortalidade
aos vivos que lá irão.
31
No mar bravio desta vida,
sem rumo pra navegar,
rezo à minha Mãe Querida,
que é minha Estrela-do-Mar.
32
No planeta dos contrários,
rola pedra – rola o mal.
E dizem os salafrários
que tudo isso é natural.
33
Nos horários de verão,
os galos em trapalhada,
sem saberem que horas são,
cantam sempre em hora errada.
34
O amigo certo procura
na conduta a retidão.
Mesmo em grande desventura,
a outrem estende a mão.
35
O apego pelo sertão,
da gente lá do Nordeste,
é verdadeira paixão,
pois cria “cabra da peste”
36
O plagiário é caricato
que no mundo se repete;
é escritor com mão de gato
e pintor que pinta o sete.
37
O protetor curupira,
na lenda que inda nos resta,
quer enlaçar com embira,
criminosos da floresta.
38
O silêncio e a solidão
possuem valores tantos;
neles, longe da paixão,
já nasceram grandes santos.
39
O tal velhaco, ao comprar,
é labioso em sua história;
mas, depois, não quer pegar,
diz até não ter memória.
40
Quanto tempo tem passado
sem saber do meu amor.
Não me dá nenhum recado,
a curtir eu vivo a dor.
41
Quão exímia pensadora
é a coruja que se cala.
É tão nobre esta doutora,
que besteira nunca fala.
42
Que coisa descomunal
aquele curvo nariz
que, ao assoar, é um temporal...
- e escorrer qual chafariz
 43
Quem reza, nos diz o santo,
tem eterno bom viver,
mas quem não reza, no entanto,
pode o futuro perder.
44
Quem vive na ociosidade
não trabalha bem a mente.
Com muita facilidade,
surge um vício permanente.
45
Saudade dos lábios teus
eu tenho neste momento,
quando, juntinho aos meus,
trazias-me abrasamento.
46
Se brasileiro eu não fosse,
seria, então, estrangeiro;
daria o mundo mais doce
só para ser brasileiro.
47
Se eu conhecesse o futuro,
sofrendo assim por amar-te,
se fosse um passo seguro,
juro que iria buscar-te.
48
Sejas um “cão” de amizade,
que ao amigo dês socorro!
Não haja em ti falsidade,
jamais sejas “cão cachorro”!
49
Teu olhar é meu poema
que estou sempre a recitar;
eu fiz dele lindo tema
que me faz sorrir e amar.
50
Todo vício capital
é doença quase sem cura.
Quem se entrega a este mal
lança a vida em sepultura.
51
Tudo é magia e beleza
aos olhos puros do amor;
só o amor traz a certeza
do sentido de uma flor.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Lairton Trovão de Andrade (1943)
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE, destacado intelectual, educador e trovador do estado do Paraná nasceu em 1943, no município de Pinhalão/PR, filho de Boanerges Trovão de Andrade e Ana Vizotto de Andrade. Bacharel e licenciado em Filosofia Pura / Filosofia Sistemática, dedicou grande parte de sua vida ao magistério. Tornou-se professor efetivo da rede pública do Estado do Paraná por meio de concurso público, lecionando disciplinas como Filosofia, Psicologia e História. Além de educador, também é músico (organista) e compositor. Ele é o autor oficial tanto da letra quanto da música do Hino Oficial de Pinhalão. 
Como poeta, destaca-se fortemente pelo domínio da trova. Sua obra impressa e digital transita entre o lirismo, o romantismo e o pensamento filosófico. Editou livros que incluem poesia e prosa reflexiva, tais como: Arrebóis - Poesias Líricas e Românticas, Trovas e Sátiras; Alvoradas e Vésperas; Brados Ao Infinito; Reflexões Filosóficas I e Reflexões Filosóficas II. Construiu seu prestígio participando ativamente de movimentos de trovadores, concursos de trovas e antologias nacionais e internacionais, com forte presença em portais que unem escritores da Língua Portuguesa (como o Portal CEN). Ele é reconhecido nos círculos de trovas como um autor de técnica refinada e rigorosa.
A importância de Lairton Trovão de Andrade reside em dois pontos fundamentais:
1. Preservação e Defesa da Trova Erudita: Lairton defende que a Trova Literária, embora de leitura simples e popular, carrega uma erudição e uma estrutura rica que valoriza o esplendor da Língua Portuguesa. Ele ajuda a manter viva a tradição trovadoresca na Região Sul do Brasil.
2. Identidade Cultural Paranaense: Suas poesias frequentemente resgatam a história, as paisagens e a essência da colonização do Norte Pioneiro do Paraná. Ao eternizar Pinhalão em versos e compor os símbolos cívicos de sua cidade, ele atua diretamente como um guardião da memória histórica e cultural de sua região. 

Zaé Júnior (Tertúlia da Saudade)


1
Ao cumprir o meu dever
de filho, de pai, de irmão,
aprendi que compreender
vale mais que ter razão!
2
A ternura que deixaste,
pai, qual herança tão nobre,
deixou-me na alma o contraste
de ser rico... sendo pobre!
3
Brilhando ao sol, em cascata,
as águas, fazendo festa,
jorram confetes de prata
no carnaval da floresta!
4
Cansado, mas com coragem
de continuar a jornada,
a vida é a minha bagagem,
que vou deixando na estrada!
5
Com pena das minhas penas,
tais penas o assum levou,
e apenas penas pequenas
das próprias penas deixou!
6
Copiando os astros distantes,
o sereno, em seus desvelos,
pousa estrelas de diamantes
na noite de teus cabelos!
7
Depois da chuva inclemente,
levando um pássaro morto,
o ninho, na água corrente,
é nau fantasma e sem porto!
8
Depois do amor sem censura,
nossos agrados sutis,
dizem coisas de ternura
que a nossa boca não diz!
9
Dividindo, sem paixão,
tudo o que nos pertenceu,
levaste o teu coração,
mas não me deixaste o meu!
10
Do teu perfil, na verdade,
só podes ver um pedaço,
pois para a tua vaidade,
o espelho tem pouco espaço!
11
Em frente à perfumaria,
enquanto o ônibus espera,
pergunta o cego ao seu guia:
- Já chegou a primavera?
12
Em silêncio vejo pura,
disfarçada em teu olhar,
a lágrima de ternura
que não querias chorar!
13
E quando o inverno chegar,
saudosos, em seus desvelos,
meus dedos irão esquiar
na neve dos teus cabelos!
14
Fiz da vida um labirinto,
do qual, se eu tento escapar,
quanto mais fujo, mais sinto
que estou no mesmo lugar!
15
Há quem renove a esperança
e com promessas se iluda...
mas o Ano Novo é mudança,
que em verdade nada muda!
16
Herói, que vence o cansaço
da vida em rude batalha,
tem no peito um marca-passo,
sua invisível medalha!
17
Lembra? Eu brincava de Rei,
você... de escrava brincava;
do meu sonho hoje acordei,
escravo de minha escrava!
18
Manhã... a geada caindo...
Mas se do inverno estou farto,
beijo os teus olhos se abrindo
e é primavera em meu quarto!
19
Meu barraco, sem queixume,
fiz com redes de cipós...
mas a vida, com ciúme,
um a um desfez os nós!
20
Meu cirquinho no quintal
era um circo de verdade;
na infância, não tinha igual
nem tem igual na saudade!
21
Meu pai, a tua bondade,
que nos deu pão na pobreza,
é agora a farta saudade
que se serve em nossa mesa!
22
Meu reino é um casebre antigo
onde um sol, sem majestade,
vem, de cócoras comigo,
aquecer minha saudade!
23
Na Academia onde moram,
em sussurrante coral,
os imortais também choram
a morte de um imortal!
24
Na existência dividida
pela incompreensão da idade,
se não te encontrei em vida,
te encontro, pai, na saudade!
25
Na infância a gente brincava,
eu de sol, você de lua...
e o universo começava
e acabava em nossa rua!
26
Não me agrada a falsa glória
que o jogo da vida tem,
pois sei que toda vitória
sempre é derrota de alguém!
27
Não queiras cobrar com sangue
o mal que te machucou,
pois o mal é um bumerangue
que volta à mão que atirou!
28
Na penumbra, sobre a toalha,
vultos que a vela produz
mostram que a sombra não falha,
por menor que seja a luz!
29
No meu palco de ilusão,
quando se fecha a cortina,
ao terminar a sessão,
a ilusão nunca termina!
30
No princípio, a solidão,
mas tu voltaste... e depois,
não coube em meu coração,
o que restou de nós dois!
31
O atalho me leva à ermida,
a ermida me leva a Deus;
e Deus me leva à outra vida,
que a levou dos olhos meus!
32
O bonde rangeu nos trilhos,
meu pai desceu, não sei onde...
Seguimos, a mãe e os filhos,
sozinhos no mesmo bonde!
33
O chão não é de ninguém
nem do seu "dono", um instante;
do chão os homens só têm
sete palmos... e é o bastante!
34
O meu sonho é um passarinho,
que de voar ficou farto
e acabou fazendo o ninho
na janela do meu quarto!
35
O poeta mais que o soldado,
se quiser ser vencedor,
terá que amar, ser amado,
e só perder por amor!
36
O tempo é como a caverna,
que não tem volta nem fundo,
onde a vida, que é eterna,
dura apenas um segundo!
37
Ouço a melodia amena,
que vem do cosmos disperso
e minha alma, tão pequena,
ganha amplidão de universo!
38
Plantando a vida se cansa...
e o caboclo, sem espaço,
colhe tão pouca esperança,
que não vale o seu cansaço!
39
Quando a saudade é saudade,
saudade que faz penar,
saudade é felicidade
que se foi e quer voltar!
40
Quando a seresta termina
sob o lampião do jardim,
a solidão, em surdina,
toca apenas para mim!
41
Quem perde o tempo não sabe
que perde a vida também,
pois jamais a vida cabe
no tempo que a gente tem!
42
Queres ferir-me gritando,
mas em soluços aflitos,
os teus murmúrios chorando
me ferem mais que teus gritos!
43
Sagrado seja esse chão
no qual rezando, o roceiro
planta o próprio coração,
para a fome do ano inteiro!
44
Se descobrir é preciso,
mais preciso é navegar;
"Terra à vista"... e um paraíso
floresceu além do mar!
45
Sem abrigo, ao vento forte,
sem jardim e sem escolha,
sou frágil trevo sem sorte
à espera da quarta folha!
46
Sem família, na orfandade,
aprendi triste lição;
quanto mais dói a saudade,
menos dói a solidão!
47
Sem fronteiras, num só laço,
os homens são mais felizes,
pois a Terra, lá do espaço,
não se divide em países!
48
Seu regresso foi surpresa,
pois já ninguém o esperava;
nem sentou... tinha outro à mesa,
na cadeira em que sentava!
49
Teu olhar azul celeste
só sabia dizer não;
tantos não azuis disseste,
que azul virou poluição!
50
Vovó, desfiando o rosário
das peraltices que fez,
foi zerando o calendário,
virou criança outra vez!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Zaé Júnior (1928 – 2020)
ZAÉ MARIANO CARVALHO DO NASCIMENTO JÚNIOR foi um intelectual múltiplo e fascinante: publicitário, radialista, jornalista, roteirista de cinema e TV, músico, desenhista e, acima de tudo, um dos mais reverenciados trovadores e poetas da língua portuguesa no século XX. Nasceu em 1928, em Botucatu/S e faleceu em 2020, em São Paulo/SP, aos 92 anos de idade, após enfrentar as complicações do Mal de Alzheimer. ‘Embora guardasse imenso orgulho de suas raízes botucatuenses e se autodeclarasse um "bom caipira", ele mudou-se para a capital paulista ainda na infância, na década de 1930, onde residiu e trabalhou pelo resto de sua vida. Começou a trabalhar aos 14 anos como desenhista técnico de letras miúdas na antiga Serviços Hollerith. Logo depois, passou a desenhar histórias em quadrinhos e caricaturas para revistas de circulação paulista. Teve uma carreira gigantesca na era de ouro das telecomunicações brasileiras. Trabalhou nas lendárias Rádio Cosmos e Rádio Gazeta. No rádio e na televisão, destacou-se como diretor de programação e roteirista. É dele, por exemplo, o roteiro da celebrada telenovela A Deusa Vencida (escrita originalmente por Ivani Ribeiro). Foi o fundador e principal mente criativa da renomada agência Promark Propaganda e Marketing.
Iniciou-se na poesia formal logo aos 10 anos de idade, exercitando a feitura de sonetos "a quatro mãos" ao lado de seu pai. Ingressou no auge do movimento de consolidação da trova no país. Ele ficou conhecido pela sua extraordinária agilidade mental e pelo rigor métrico intocável de suas composições. Além de escrever, era músico autodidata (tocava violão e piano), fundindo frequentemente o ritmo musical à cadência rítmica de seus versos. É um dos poetas mais vitoriosos em Jogos Florais pelo Brasil. Venceu e foi classificado dezenas de vezes nos principais certames nacionais, como os tradicionais Jogos Florais de Nova Friburgo, Taubaté e Pouso Alegre. Livros Publicados: Entre ensaios, poesias e compilações, destaca-se sua celebrada obra: O Homem e seu Quintal; 1001 Trovas de Zaé Júnior.
A importância de Zaé Júnior reside no fato de ele ser o "trovador dos trovadores" Quebrou o estigma de que a trova servia apenas para o gracejo ou para o romantismo ingênuo. Zaé colocou dilemas existenciais profundos, angústias urbanas e metalinguagem poética na rígida redondilha maior, criando verdadeiras obras-primas da síntese poética. Unindo sua atuação literária à sua relevância na rádio e na TV paulista, ele ajudou a moldar os padrões narrativos da comunicação nacional, sem nunca deixar morrer a tradição clássica da poesia com forma fixa. 
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos em diversos sites pela internet) 

Luiz Carlos Abritta (Tertúlia da Saudade)

A natureza se vinga de toda agressão sofrida e essa revolta respinga no centro de nossa vida! = = = = = = = = = = = = = Aos jovens dou um co...