Marcadores
- Biografia (89)
- Estante de Livros (9)
- Folclore (2)
- Panaceia de textos (77)
- Regras/Textos de Trovas (19)
- Sopa de Letras (5)
- Trovas em P&B (25)
- Universos de Versos (31)
- e-book (3)
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Renato Alves (Plantando Trovas)
A água pura não tem cor,
nem branca, nem amarela;
não tem cheiro, nem sabor...
Mas ninguém vive sem ela!
2
Agradeço a quem quiser-me
como eu sou, como um irmão...
Não é na cor da epiderme
que se vê meu coração!
3
Ao receber tuas cartas
uma frustração me invade:
tu me dás notícias fartas,
mas me matas de saudade!
4
Ao repensar minha história,
encontrei com emoção
por trás de cada vitória
um mestre no coração!
5
Ao te encontrar, velha agenda,
lá no fundo da gaveta,
meu passado se desvenda...
És a minha “caixa-preta”!
6
Beleza de mais efeito
que este colar de rainha
tu não tens sobre o teu peito,
dentro dele é que se aninha...
7
Com esplendor natural
e fulgor exuberante,
de uma gota no varal
o sol faz um diamante.
8
“Conhecer não é saber”
- ensina a douta ciência...
”Pôr alma no que aprender” ,
isto, sim, é sapiência!
9
Coração, relógio louco
que registra o meu desejo,
bate muito ou bate pouco,
na medida em que te vejo!
10
De meu pai herdei o nome,
de minha mãe, a ternura;
da pobreza herdei a fome,
a minha herança mais dura!
11
Eis meu desejo ideal,
minha utopia e quimera:
– Ver teus braços, afinal,
abrirem-se à minha espera!
12
Escute a voz da razão:
– Nunca esmoreça, persista!...
É com determinação
que o sonho vira conquista.
13
Mais rápido do que a luz,
através do imaginar,
pensamento nos conduz
a todo e qualquer lugar,
14
Mesmo em meio à dura lida,
fazer versos nos renova:
– Cabe todo o bem da vida
nas quatro linhas da trova!
15
Mil livros já devorei,
mas neles não achei graça,
até hoje eu nada sei...
– Muito prazer, sou a traça!
16
Minha vida era rotina
tão amarga quanto fel,
mas transformou-se, menina,
com sua chegada, em mel!
17
Não diga que é velho alguém
pela idade transcorrida...
Só é velho quem não tem
mais sonhos em sua vida!
18
Ninguém há que saiba tudo,
nem tudo pode saber...
Muito se aprende e, contudo,
há sempre o que se aprender!
19
No campo foi algodão,
tornou-se fio e tecido,
ganhou cor e confecção...
Está pronto o seu vestido!
20
Nunca condenes o irmão
sem de provas ter ciência;
dá-lhe, sem contestação,
a presunção da inocência.
21
O gajo, sendo um velhaco,
engajou-se bem no ofício:
– um cargo de puxa-saco
pra puxar palma em comício!
22
O mar geme nos rochedos
prantos tão desconsolados,
pois guarda muitos segredos
e sonhos dos afogados...
23
O mestre faz da alma um templo
para ouvir nossa oração,
e, assim, mostra que é o exemplo
que ensina qualquer lição!
24
O muro é separação,
produto de preconceito;
se você quer união,
construa pontes no peito!
25
O trabalho é punição,
uma herança do passado...
Deus quis castigar Adão,
e sobrou pro nosso lado!..
26
“O vinho seco faz bem!”
- recomendou sua avó...
E ele foi ao armazém,
e lá pediu: “Vinho em pó!”
27
Pandorga... cafifa... pipas...
tens nomes em abundância,
mas com todos participas
dos sonhos da nossa infância!
28
Planto o grão com uma meta:
- Gerar vida em profusão...
E este ciclo se completa
quando o trigo vira pão.
29
Pode ser pobre ou poeta,
sem perder a autoestima;
mas há de ter como meta
não ter pobreza na rima.
30
Quando a feia se “embeleza” ,
mas o resultado é trágico,
diz o espelho, que se preza:
– Ela pensa quer eu sou mágico!...
31
Quando a humana insensatez
dissemina a poluição,
para ter sol outra vez,
só com imaginação...
32
Quando do meu lar amado
transpus o velho portão,
pedaços do meu passado
espalharam-se no chão!
33
Quando estou no teu regaço,
tu me dás consolo e mel...
Como há sonho em teu espaço,
livro, amigo de papel!
34
Quando o amor é inconsequente,
nas mais tórridas paixões,
pode fundir-se a corrente
que liga os dois corações!
35
Quem de si não cede nada,
no céu não terá lugar.
Coisa mais abençoada
do que receber... é dar!
36
Quem não tem medo da morte,
quem nunca faz nada em vão,
quem, antes de tudo é um forte...
Este é o homem do sertão!
37
Que nome você daria
ao que sente a mãe que chora
ao pé da cama vazia
de um filho que foi embora?...
38
Razão e Emoção, na gente,
são irmãs, mas não se dão:
a primeira habita a mente,
a segunda, o coração!
39
Se és de fato um vencedor
deves sempre ter em vista,
não o prêmio e seu valor,
mas o prazer da conquista!
40
Se és duro de coração,
não perdes por esperar:
do céu só terá perdão
quem é capaz de perdoar.
41
Ser poeta é transformar
a palavra em brasa ardente
para com ela queimar
a emoção que está na gente!
42
Se tens pela vida apreço,
não entres na droga braba!
Tu decides o começo,
mas não sabes como acaba.
43
Sigo, no delírio infindo
da saudade que me arrasa,
uma só música ouvindo:
os teus passos pela casa!
44
Sob chuva ou sol que abrasa,
como nos tempos antigos,
o portão da minha casa
não se fecha aos meus amigos!
45
Tal qual pérola valiosa
que na ostra tem morada,
minha alma tão pretensiosa
mora no peito da amada.
46
Te enfeiticei, fui omisso,
quis um “caso” passageiro;
mas o Amor fez o feitiço
virar contra o feiticeiro!
47
Ter fé, amor, otimismo
e uma inabalável crença
nos faz saltar sobre o abismo
de qualquer indiferença!
48
Terrível palavra é o “não”
que corta, poda, cerceia...
Feliz quem, no coração,
traz o “sim” que a paz semeia!
49
Trovador que espalha o sonho
que lhe mora n’alma inquieta
confessa ao mundo, risonho,
a bênção que é ser poeta!
50
Tua pele o vento alisa,
sensual, com seu frescor.
Como eu invejo esta brisa
que te alisa, meu amor!...
51
Tu me prendes, me agrilhoas,
me escravizas sem sentir,
mas destas algemas boas
eu não pretendo fugir..
52
“Vitamina está na casca!”
- De um comilão eu ouvi...
E quase que ele se enrasca
ao comer abacaxi!
53
Voltei a ter confiança
neste mundo tão ruim
ao descobrir a criança
que ainda habitava em mim!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Renato Alves (1939)
O professor e trovador RENATO ALVES é uma das figuras mais respeitadas e influentes do movimento trovadoresco contemporâneo no Brasil, reconhecido por sua erudição técnica e sensibilidade lírica. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 1939. Filho de Alberto Alves e da portuguesa Maria Thereza Alves. Desenvolveu toda a sua vida e trajetória intelectual radicado na própria capital fluminense. Renato Alves graduou-se como Licenciado em Letras pela Universidade do Brasil (a atual UFRJ). Dedicou grande parte de sua vida ao magistério, atuando como professor de Língua Portuguesa e Literatura nas redes pública e privada de ensino do Rio de Janeiro. Ele permaneceu ativo nas salas de aula até sua aposentadoria, ocorrida em 2005.
Sua inserção no meio literário confunde-se com a história da própria Trova no Brasil. Destacou-se como um profundo estudioso da redondilha maior (versos de sete sílabas poéticas) e das estruturas de rima e ritmo da trova tradicional. Teve papel de liderança na diretoria da UBT - Seção Rio de Janeiro. Tornou-se também o editor do Informativo desta seção. Possui forte colaboração com certames e academias literárias fluminenses e nacionais (como a Academia Fluminense de Letras e a Academia Brasileira da Trova). É detentor de inúmeras premiações de relevância, incluindo medalhas de Ouro nos concursos de trovas da Academia de Letras e Artes de Paranapuã (ALAP), classificações de destaque nos Jogos Florais e primeiros lugares em disputas como o Concurso de Poesia da Bauernfest.
Sua produção poética está espalhada em dezenas de antologias oficiais da trova, almanaques trovadorescos e publicações coletivas. É muito reconhecido por sua faceta didática, sendo o autor de colunas críticas importantes como a "Comentando Trovas" e o "Manual de Orientação para Julgadores”.
A relevância de Renato Alves para a literatura brasileira reside em sua atuação como guardião e pedagogo da Trova. Ele não se limitou a escrever poemas; ele dedicou-se a ensinar os critérios técnicos para que uma trova atinja o chamado "achado poético" (a imagem original condensada em 28 sílabas). Como uma das principais "cabeças pensantes" do movimento trovadoresco fluminense, ele moldou as diretrizes modernas de julgamento de concursos literários, ajudando a manter viva uma das manifestações mais tradicionais e populares da poesia em língua portuguesa.
Carlos Drummond de Andrade (Caso de Canário)
Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:
- Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.
- Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?
- Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom; vá.
O sogro, a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:
- Vai, meu bem.
Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.
- Primeiro me tragam um vidro de éter, e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.
Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos, no pescoço.
E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.
Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse, ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.
No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.
- Ui!
Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?
- Ele estava precisando mesmo era de éter - concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE foi um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa, considerado por críticos e intelectuais o mais influente poeta brasileiro do século XX. Principal nome da segunda geração do Modernismo brasileiro (a Geração de 30), sua obra traduz com ironia, ceticismo e profunda sensibilidade a angústia do homem moderno diante do mundo. Nasceu na cidade de Itabira/MG, em 1902. Faleceu no Rio de Janeiro em 1987, aos 84 anos. Ele partiu apenas 12 dias após a morte de sua única filha, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade, vítima de uma insuficiência respiratória agravada pelo profundo luto. Passou a infância em Itabira, estudou como interno em Belo Horizonte/MG e Nova Friburgo/RJ. Fixou residência prolongada em Belo Horizonte na juventude. Em 1934, mudou-se em definitivo para a cidade do Rio de Janeiro, onde morou no icônico bairro de Copacabana pelo resto da vida. Embora tenha se graduado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte em 1925, Drummond nunca exerceu a profissão. Sua vida profissional dividiu-se em duas grandes frentes: Funcionalismo Público: Ingressou no serviço público em Minas Gerais e, ao mudar-se para o Rio, tornou-se Chefe de Gabinete de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação e Saúde (1934–1945). Mais tarde, trabalhou como oficial no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) ao lado de Rodrigo Melo Franco, aposentando-se em 1962; e Jornalismo: Atuou como redator e colunista em periódicos como o Diário de Minas, Correio da Manhã e Jornal do Brasil, construindo uma sólida carreira paralela como cronista diário.
Sua estreia no Modernismo ocorreu na década de 1920, ajudando a fundar A Revista em Belo Horizonte, veículo de afirmação do movimento em solo mineiro. Em 1928, chocou a crítica nacional ao publicar o poema "No meio do caminho" na Revista de Antropofagia de São Paulo, gerando um debate histórico sobre a estética poética. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar do prestígio monumental e dos apelos para que se candidatasse, ele recusou polidamente concorrer a uma cadeira na instituição, preferindo manter sua posição de escritor e funcionário público independente. Ao longo de sua madura trajetória, foi condecorado com as honrarias mais importantes do país: Prêmio de Conjunto de Obra (1946): Concedido pela Sociedade Felipe de Oliveira; Prêmio Jabuti (1968): Na categoria Poesia; Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA (1973); Prêmio Morgado de Mateus (1980): Entregue em Portugal, reconhecendo sua imensa relevância internacional para a Língua Portuguesa.
Drummond teve uma produção torrencial e diversificada (entre poesia, crônica, contos e traduções). Suas obras fundamentais são: Alguma Poesia (1930): Estreia poética que contém clássicos como "Poema de Sete Faces" e "No meio do caminho"; Sentimento do Mundo (1940): Obra de tom político e social que reflete as angústias da Segunda Guerra Mundial; José (1942): Contém o antológico poema "José" ("E agora, José? A festa acabou..."); A Rosa do Povo (1945): Seu livro poético de maior fôlego, marcado pelo lirismo social e engajamento antibelicista; Claro Enigma (1951): Fase madura de retorno à tradição clássica, com reflexões filosóficas, metafísicas e pessimistas; Contos de Aprendiz (1951): Sua célebre estreia no universo dos contos ficcionais.
A importância de Carlos Drummond de Andrade reside no fato de ele ter consolidado e amadurecido o Modernismo no Brasil. Se a primeira geração de 1922 precisou ser destrutiva e polêmica, Drummond provou que a nova estética era perfeitamente capaz de atingir a mais alta profundidade filosófica e formal. Revolucionou a poesia ao introduzir o "gauche" — o indivíduo deslocado, desajeitado e introspectivo —, despindo o fazer poético de qualquer falsa solenidade. Drummond transformou o cotidiano banal, a província, a família, o tédio burocrático e o amor em reflexões universais sobre a própria existência humana. Traduzido no mundo inteiro, sua linguagem ágil e irônica moldou a identidade da poesia brasileira contemporânea e influenciou virtualmente todas as gerações de escritores que vieram depois dele.
Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. Caminhos de João Brandão. Publicado originalmente em 1970.
José Feldman (O Riacho Azul)
No dia seguinte, Leco e Tatá resolveram fazer uma caminhada até o outro lado da floresta para visitar o Riacho Azul. Leco, ainda tentando controlar sua ansiedade, tentava caminhar no ritmo lento da amiga, mas suas patinhas traseiras insistiam em dar pequenos pulos.
— Tatá, se continuarmos nesse passo de formiga, vamos chegar lá só quando a lua nascer! — exclamou Leco, olhando para o céu.
— Calma, Leco. O caminho é longo, e se gastarmos toda a energia agora, não conseguiremos voltar — explicou Tatá, mantendo seu passo firme e constante.
Quando finalmente avistaram o riacho, encontraram um grande problema: a antiga ponte de madeira que cruzava a água havia caído. O riacho era largo e a correnteza estava forte.
— Ah, não! E agora? — lamentou Leco, correndo de um lado para o outro na margem. — Já sei! Eu consigo pular! É só pegar impulso!
— Espere, Leco! — gritou Tatá. — A distância é muito grande, e a margem do outro lado está cheia de lama lisa. Você vai escorregar e cair na água!
— Que nada, eu sou o Leco, o coelho mais saltador desta floresta! Olhe e aprenda! — gabou-se ele.
Leco correu com toda a sua velocidade e deu um salto enorme. No ar, ele percebeu que a outra margem estava mais longe do que parecia. Ele bateu com as patas na lama e, exatamente como Tatá previu, escorregou e caiu no riacho com um grande tchibum!
— Socorro, Tatá! A água está me levando! — gritou Leco, batendo as patas desesperadamente, pois coelhos não sabem nadar muito bem.
Tatá, sem perder o controle, avaliou a situação rapidamente. Ela olhou ao redor e viu um longo galho seco caído perto de uma árvore.
— Leco! Pare de debater as patas e tente boiar! Eu vou te ajudar! — orientou Tatá.
Com paciência e usando toda a sua força, ela arrastou o galho até a beira da água e estendeu a ponta na direção do amigo.
— Segure firme no galho, Leco! Não solte! — comandou ela.
Leco esticou a pata e agarrou a madeira. Com passos muito firmes e pesados, fincando as unhas na terra para não ser puxada, Tatá foi andando para trás milímetro por milímetro, puxando o coelho para fora do perigo.
Depois de muito esforço, Leco rolou para a grama da margem segura, tossindo um pouco de água e tremendo de frio, mas salvo. Tatá aproximou-se, respirando um pouco cansada.
— Você está bem, meu amigo? — perguntou ela, com um olhar preocupado.
— Estou... obrigado, Tatá. Se não fosse pela sua calma para pensar e sua força, eu teria sido levado pela correnteza — disse Leco, envergonhado, enquanto se chacoalhava para secar os pelos. — Eu agi sem pensar de novo, não é?
— O importante é que você está seguro — confortou Tatá, sorrindo. — Às vezes, a força bruta e a velocidade não resolvem um problema. Precisamos parar, analisar o perigo e agir com firmeza.
Leco olhou para o riacho e depois para Tatá.
— Você tem razão. Da próxima vez, antes de saltar, eu vou parar e pensar com você.
= = = = = = = = = = = = = =
A coragem sem prudência é apenas pressa perigosa. Pensar antes de agir nos protege dos maiores perigos.
= = = = = = = = = = = = = =
JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Ocupa cadeira na Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura, Academia do Movimento Internacional, Confraria Brasileira de Letras e Academia de Letras Internacional Brasil-Suíça. Agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo "Euclides da Cunha", em Berna/Suiça; título Magnus Magister da Confraria Luso Brasileira de Trovadores, em Portugal; Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica. No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente.
Fonte:
José Feldman. Contos para crianças e não tão crianças. Floresta/PR: Biblioteca Sunshime, 2026.
Irmãos Grimm (A Lua)
Em tempos que já lá vão havia uma terra onde a noite era sempre escura e o céu estendia-se sobre ela como um lenço negro, pois ali a Lua nunca subia e nenhuma estrela piscava na escuridão. Na altura da criação do mundo, a luz da noite era suficiente. Uma vez, saíram desta terra em peregrinação quatro rapazes e chegaram a um outro reino onde, quando à noite o Sol desaparecia atrás dos montes, havia uma esfera brilhante pendurada num carvalho, que deitava uma luz suave em todas as direções. Devido a ela, era possível ver e distinguir tudo muito bem, embora não fosse uma luz tão forte como a do Sol. Os rapazes pararam e perguntaram a um lavrador, que passava por ali com o seu carro, que luz era aquela. "Aquilo é a Lua", respondeu ele, "o nosso prefeito comprou-a por três moedas e pendurou-a no carvalho. Tem de lhe deitar óleo todos os dias e mantê-la limpa, para que ela não deixe de brilhar. Por isso, pagamos-lhe uma moeda por semana."
Assim que o lavrador partiu, disse um deles: "Esta lanterna fazia-nos jeito, também lá temos um carvalho, tão alto como este, onde a podemos pendurar. Que grande alegria deixar de tropeçar na escuridão!"
"Sabem que mais?", disse o segundo, "precisamos de arranjar um carro e um cavalo e levar a Lua embora. As pessoas daqui bem podem comprar uma outra."
"Eu trepo com muita facilidade", disse o terceiro, "trago-a já para baixo!" O quarto trouxe um carro e um cavalo e o terceiro trepou pela árvore acima, fez um buraco na Lua, passou-lhe um fio e fê-la descer. Assim que a Lua brilhante ficou dentro do carro, deitaram-lhe um lenço por cima, para que ninguém se apercebesse do roubo. Levaram-na sem problemas para a sua terra e penduraram-na num alto carvalho. Velhos e novos alegraram-se, quando a nova lanterna começou a estender a sua luz sobre os campos e os quartos e salas se encheram dela. Os anões saíram dos seus buracos nas rochas e os pequenos elfos, com os seus casacos vermelhos, faziam rodas nos prados.
Os quatro rapazes tratavam da Lua com óleo, limpavam a mecha e recebiam a sua moeda semanal. No entanto, envelheceram e quando um deles adoeceu e se apercebeu de que a morte estava próxima, ordenou que o quarto da Lua que lhe pertencia fosse levado com ele para a sepultura. Quando morreu, o prefeito trepou à árvore e, com a tesoura da poda, cortou um quarto da Lua que meteu no caixão. A luz da Lua diminuiu, mas não muito. Quando morreu o segundo, foi-lhe dado o segundo quarto e a luz mingou. Mais fraca ficou ainda quando morreu o terceiro, que também levou o seu quarto e, quando o quarto homem foi sepultado, instalou-se de novo a velha escuridão. Sempre que as pessoas saíam à noite sem lanterna, batiam com as cabeças umas nas outras.
Porém, assim que os quartos da Lua se juntaram no inferno, os mortos, habituados à escuridão, agitaram-se e acordaram do seu sono. Ficaram espantados por poderem ver de novo: a luz da Lua chegava-lhes bem, pois os seus olhos estavam tão fracos que não teriam podido suportar a luz do Sol. Ergueram-se, alegraram-se e retomaram os seus hábitos de vida. Alguns deles dedicaram-se ao jogo e à dança, outros foram para as tabernas onde pediram vinho, embriagaram-se, vociferaram e lutaram e, por fim, pegaram em cacetes e bateram uns nos outros. O barulho era cada vez maior até que, por fim, chegou ao céu.
São Pedro, que guarda as portas do céu, calculou que o inferno se tinha revoltado e chamou as hostes celestes, que lutavam contra o maligno, porque este e os seus associados pretendiam assolar a morada dos abençoados. Como, porém, elas não vinham, São Pedro montou no seu cavalo, atravessou as portas do céu e foi ao inferno. Aí sossegou os mortos, fê-los voltar de novo à sepultura e levou com ele a Lua, pendurando-a no céu.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Irmãos Grimm = Jakob (1785 - 1863); Wilhelm (1786 - 1859)
Folcloristas e escritores de contos infantis, Jakob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jakob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jakob em 1863.
Fonte:
José António Gomes e Isabel Ramalhete (Seleção e coordenação). Contos de Sempre. Porto/Portugal: Porto Editora, Setembro de 2004.
Poemas sobre Bilhete
Bilhete
O amor passou por aqui
Voando feito anjo estabanado
Mal deu tempo de dizer
Tenho pressa, preciso ir
Deixo-lhe um bilhete
Sem endereço, remetente ou adereço
Possivelmente de alguém
acenando que é por ti apaixonado
= = = = = = = = = = = = = =
BEKI BASSAN
Bilhete
Deixo este bilhete para você,
porque percebi que você não me ama,
e como não sei se vou conseguir dizer,
o que penso sobre esta mentira que me tortura,
prefiro então nunca mais olhar no seu rosto.
Penso que você poderia ter sido honesto,
no amor não se manda e eu entenderia,
mas ao lhe ver aos beijos com outra,
você partiu meu coração.
Só te peço uma coisa não me procure mais.
ADEUS.
= = = = = = = = = = = = = =
CIBELE CARVALHO
Bilhete
Escrevi-lhe um bilhete
- que coisa mais antiquada,
nestes tempos de internet -
devo estar ultrapassada...
Dizia do bem que me faz
sua presença em minha cama,
e nada se compara à paz
que sinto quando a gente se ama.
= = = = = = = = = = = = = =
CLARA DA COSTA
Bilhete
Escrevi um bilhete quando a saudade doeu
no vazio daquelas noites solitárias,
na saudade que invadia me corpo
O bilhete que escrevi,
falava do meu amor,
desse inesquecível,
e insubstituível amor.
O bilhete que escrevi, resposta não teve...
Morro aos poucos,
sentindo teu cheiro
impregnado dentro de mim...
= = = = = = = = = = = = = =
DILMA SUERO
Bilhete
Encontrei, na cama amassado,
um curto bilhete, de papel rabiscado.
Peguei-o ansiosa... coração acelerado,
o que diria tal bilhete, seria do meu namorado?
Cheguei junto à janela com mais claridade,
um vento uivante arrancou-me das mãos
e levou-o embora para a eternidade.
= = = = = = = = = = = = = =
GILSON FAUSTINO MAIA
Fuga
Sumir, foi o meu desejo,
algo que concretizei.
Aproveitei um ensejo
e nem bilhete eu deixei.
Mas hoje eu vivo tristonho,
parece ser tudo um sonho,
que ainda não acordei.
= = = = = = = = = = = = = =
GIOVÂNIA CORREIA
Bilhete
Nessa vereda aqui estou.
Perdida, e em aflição.
Pois nada mais restou.
Dessa insana e doce ilusão.
Já nem sei se devo caminhar.
Pois perdi também meus anseios.
Finalizo sozinha a chorar.
Pois perdi todos os meios.
= = = = = = = = = = = = = =
HUMBERTO POETA
Bilhete
Meu coração se agitou
ao ler teu lindo bilhete,
mas inda não sei se vou
te amar em teu palacete;
só em pensar fico rendido
a um medo covarde e afoito
de ali surgir teu marido
me apontando um trinta e oito!
= = = = = = = = = = = = = =
ILZE SOARES
Bilhete
As palavras dançavam à minha frente,
não conseguia entender o real significado!
Era um curto bilhete do namorado...
Não deu explicações,
nem adoçou o seu ato...
Dizia apenas Adeus, vou embora.
O papel ficou encharcado
das lágrimas fartas de emoções!
= = = = = = = = = = = = = =
LORA SALIBA
Bilhete
Nesse bilhete transmito
Todo meu sentimento!
Digo-lhe, não minto
Não há nenhum impedimento,
Podemos conversar agora,
Aguardo, pode vir, por hora
Com sinceridade lhe transmito
Todo o amor que sinto!
= = = = = = = = = = = = = =
LUIZ GONZAGA BEZERRA
Bilhete
O bilhete expressava
Meus sentimentos e amores
Meu desejo imensurável
De tê-la nas loucas noites
Deitadinha ao meu lado
Amando-me e sendo amada.
= = = = = = = = = = = = = =
MARCIAL SALAVERRY
Um bilhete de amor
Minha amada querida,
amor de minha vida...
Peço-te não desapareça,
veja, por ti, perdi a cabeça...
Dominastes meus pensamentos,
tortura-me ficar só com meus lamentos...
E assim, enquanto tua ausência me desespera,
ouço-te quando simplesmente, diz...espera...
= = = = = = = = = = = = = =
MARCOS TOLEDO
Bilhete
Tentei escrever-lhe um bilhete de chegada,
mas, como sempre, virou uma carta de amor.
Escrever bilhete para você é difícil,
meu coração se intromete e desanda a falar.
Fala do amor que sinto por você.
De um simples bilhete, vira uma carta
recheada com amor/carinho/paixão.
Culpa do coração escritor que tenho.
= = = = = = = = = = = = = =
MARIA CONCEIÇÃO DE PAULA
Bilhete
Há bem mais de meio século,
não havia, na zona rural,
caneta bonita e moderna.
Mas havia poesia no coração
de um aluno apaixonado.
Assim que aprendeu o beabá
fez essa trova para quem admirava:
A tinta tirei dos olhos,
a pena do coração,
pra escrever esta cartinha
pra quem amo de paixão!
= = = = = = = = = = = = = =
MARIA ZÉLIA GOMES
O bilhete que escrevi
Eu já te escrevi um dia
Um bilhete de amor
Ia nele nostalgia
Pedacinhos de magia
E restos de algum fulgor
Eram palavras sentidas
Ditadas pelo coração
Relatos … frases perdidas
Novas tristes … doloridas
Misto de dor e paixão
E o bilhete que escrevi
Que não leste e que eu li
Carregado de ansiedade
Ficou amarelecido
Era um relato sentido
Só restou dele … saudade!
= = = = = = = = = = = = = =
MIFORI
Bilhete
No bilhete dizia, estou aqui no cerrado,
vivendo numa terra que garante,
muitas e muitas contradições.
O dia amanhece radiante,
e há alegria no azul do céu!
À tarde a brisa lenta
vem amenizar o calor sufocante...
E as noites?!... Cada um, a sua inventa!
= = = = = = = = = = = = = =
NICOLA ARAÚJO
Bilhete
Um bilhete timbrado
Recebi perfumado
Dobrado em quatro
No meio um laço
Marcado por lágrimas
Derribadas da alma
Que clama por um amor
Sem travas
= = = = = = = = = = = = = =
SANDRA GALANTE
Bilhete
Escrevo-te aqui algumas palavras
Para que em ti fiquem bem gravadas
Desde o dia que te conheci,
Nada mais belo e fascinante vivi
Conheci o que é o verdadeiro amor...
Digo-te, que viver sem ti é conviver com a dor
Portanto, não me deixe nunca por favor
Prometo-te para sempre te dar o meu melhor...
= = = = = = = = = = = = = =
(Enviados por Ilze Soares, em 05.12.2011)
Estante de Livros (“Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado)
Modernismo de segunda fase. Gabriela Cravo e Canela é dividido em duas partes, que são em si divididas em outras duas. A história começa em 1925, na cidade de Ilhéus. A primeira parte é Um Brasileiro das Arábias e sua primeira divisão é O langor de Ofenísia. Vai centrando-se a história nesta parte em dois personagens: Mundinho Falcão e Nacib. Mundinho é um jovem carioca que emigrou para Ilhéus e lá enriqueceu como exportador e planeja acelerar o desenvolvimento da cidade, melhorar os portos e derrubar Bastos, o inepto governante. Nacib é um sírio ("turco é a mãe!") dono do bar Vesúvio, que se vê em meio a uma grande tragédia pessoal: a cozinheira de seu partiu para ir morar com o filho e ele precisa entregar um jantar para 30 pessoas em comemoração a inauguração de uma linha automotiva regular para a cidade de Itabuna.
Ele encomenda com um par de gêmeas careiras, mas passa toda a parte procurando por uma nova cozinheira. No final desta pequena parte aparece Gabriela, uma retirante que planeja estabelecer-se em Ilhéus como cozinheira ou doméstica, apesar dos pedidos do amante que planeja ganhar dinheiro plantando cacau. A segunda parte desta primeira parte é A solidão de Glória e passa-se apenas em um dia. O dia começa com o amanhecer de dois corpos na praia, frutos de um crime passional (todo mundo dá razão ao marido traído/assassino), segue com as preparações do jantar e a contratação de Gabriela por Nacib. No jantar acirram-se as diferenças políticas e, na prática, declara-se a guerra pelo poder em Ilhéus entre Mundinho Falcão (oposição) e os Bastos (governo). Quando o jantar acaba (em paz), Nacib volta para casa e, quando ia deixar um presente para Gabriela silenciosa mas não inocentemente, tem com ela a primeira noite de amor/luxúria.
A segunda parte chama-se propriamente Gabriela Cravo e Canela e sua primeira parte, o capítulo terceiro, chama-se O segredo de Malvina, terceiro capítulo, passa-se cerca de três meses após o fim do outro capítulo, e três problemas existem: o caso Malvina-Josué-Glória-Rômulo, as complicações políticas e o ciúmes de Nacib. Vamos pela ordem. Josué era admirador de Malvina, filha de um coronel com espírito livre. Esta começa a namorar Rômulo, um engenheiro chamado por Mundinho Falcão para estudar o caso da barra (que impedia que navios grandes atracassem no porto de Ilhéus). Josué se desaponta e se interessa por Glória, amante de um outro coronel. Rômulo foge após um escândalo feito pelo machista (tão machista quanto o resto da sociedade ilheense) pai de Malvina, Malvina faz planos de se libertar e Josué começa um caso em segredo com Glória. Na política, acirra-se a disputa por votos ao ponto do coronel Bastos mandar queimar toda uma tiragem do jornal de Mundinho.
Mas Mundinho ganha terreno com a chegada do engenheiro. E perde quando esse foge covarde. E ganha com a promessa da chegada de dragas a Ilhéus. Nacib enquanto isso desenvolveu um caso com Gabriela. Mas está sendo atacado pelo ciúmes (todos querem Gabriela, perfume de cravo, cor de canela). Aos poucos ele percebe que é amor e acaba propondo casamento a Gabriela após a última investida do juiz (alarme falso, ele já havia desistido). Mas foi a tempo, já que até roças do poderoso cacau de Ilhéus já haviam sido oferecidas a Gabriela.
O capítulo acaba durante a festa de casamento de Nacib e Gabriela (no civil, já que Nacib é muçulmano não-praticante), quando chegam as dragas no porto de Ilhéus. A quarta e última parte chama-se O luar de Gabriela. Nesta resolvem-se todos os casos. Pela ordem: Josué e Glória oficializam a relação e Glória é expulsa de sua casa por seu coronel. Na parte da política, após o coronel Ramiro Bastos perder o apoio de Itabuna (e mandar matar, sem sucesso, seu ex-aliado; o quase assassino foge com a ajuda de Gabriela, que o conhecia), ele morre placidamente em seu sono, seus aliados reconhecem que estavam errados (a lealdade era com o homem, não suas ideias) e a guerra política acaba com Mundinho e seus candidatos vencedores. Quanto a Nacib e Gabriela... Gabriela não se adapta de jeito nenhum à vida de "senhora Saad", para desespero de Nacib.
Nacib acaba anulando o casamento ao pegá-la na cama com Tonico Bastos, seu padrinho de casamento. Mas ninguém ri de Nacib; pelo contrário, Tonico é humilhado e sai da cidade, o casamento é anulado sem complicações (os papéis de Gabriela eram falsos) e Gabriela sai de casa. Nacib fica amargurado e vai se recuperando. As obras na barra se completam com sucesso e Nacib e Mundinho abrem um restaurante juntos. O cozinheiro chamado pelos dois é... convidado a se retirar da cidade por admiradores de Gabriela, que acaba sendo recontratada por Nacib. Semanas depois, Nacib e ela reiniciam seu caso, tão ardente como era no começo e deixara e ser após o casamento. Num epílogo, o coronel, assassino dos dois amante da primeira parte, é condenado à prisão. Cheio de uma crítica à sociedade ilheense, a própria linguagem do autor muda quando foca-se a atenção em Gabriela. Torna-se mais cantada, mais típica da região (como é a fala de todos), deixando a leitura cada vez mais saborosa.
Fonte:
Resumos de Livros.
http://resumosdelivros/index-43.htm. Acesso em 15.03.2011
Fernando Sabino (A Quem Tiver Carro)
- Pepe, o carro está rateando.
Pepe piscou um olho:
- Entupimento na tubulação. Só pode ser.
Deixei o carro lá. À tarde fui buscar.
- Eu não dizia? Defeito na bomba de gasolina.
- Você dizia entupimento na tubulação.
- Botei um diafragma novo, mudei as válvulas. Estendeu-me a conta: de meter medo. Mas paguei.
- O carro não vai me deixar na mão? Tenho de fazer uma viagem.
- Pode ir sem susto, que agora está o fino.
Fui sem susto, a caminho de Itaquatiara. O fino! Nem bem chegara a Tribobó o carro engasgou, tossiu e morreu. Sorte a minha: mesmo em frente ao letreiro de "Gastão, o Eletricista".
- Que diafragma coisa nenhuma, quem lhe disse isso? - e Gastão, o Eletricista, um mulatão sorridente que consegui retirar das entranhas de um caminhão, ficou olhando o carro, mãos na cintura:
- O senhor mexeu na bomba à toa: é o dínamo que está esquentando.
Molhou uma flanela e envolveu o dínamo carinhosamente, como a uma criança.
- Se tornar a falhar é só molhar o bichinho. Vai por mim, que aqui no Tribobó quem entende disso sou eu.
Nem no Tribobó: o carro não pegava de jeito nenhum.
- Então esse dínamo já deu o prego, tem de trocar por outro. Não pega de jeito nenhum.
Para desmenti-lo, o motor subitamente começou a funcionar.
- Vai morrer de novo - augurou ele, - e voltou a aninhar-se no seu caminhão.
Resolvi regressar a Niterói. À entrada da cidade a profecia do capadócio se realizou: morreu de novo. Um chofer de caminhão me recomendou o mecânico Mundial, especialista em carburadores - ali mesmo, a dois quarteirões. Fui até lá e em pouco voltava seguido do Mundial, um velho compenetrado arrastando a perna e as idéias:
- Pelo jeito, é o carburador.
Olhou o interior do carro, deu uma risadinha irônica:
- É lógico que não pega! O dínamo está molhado!
Enxugou o dínamo com uma estopa: o carro pegou.
- Eu se fosse o senhor mandava fazer uma limpeza nesse carburador - insistiu ainda. - Vamos até lá na oficina...
Preferi ir embora. Perguntei quanto era.
- O senhor paga quanto quiser.
Já que eu insistia, houve por bem cobrar-me quanto ele quis.
Cheguei ao Rio e fui direto ao Haroldo, no Leblon, que me haviam dito ser um monstro no assunto:
- Carburador? - e o Haroldo não quis saber de conversa. - Isso é o platinado, vai por mim.
Cutucou o platinado com um ferrinho. Fui-me embora e o carro continuava se arrastando aos solavancos.
- O platinado está bom - me disse o Lourival, lá da Gávea. - Mas alguém andou mexendo aqui, o condensador não dá mais nada. O senhor tem de mudar o condensador.
Mudou o condensador e disse que não cobrava nada pelo serviço. Só pelo condensador.
No dia seguinte o carro se recusou a sair da garagem.
- Não é o diafragma, não é o carburador, não é o dínamo, não é o platinado, não é o condensador - queixei-me, deitando erudição na roda de amigos. Todos procuravam confortar-me:
- Então só pode ser a distribuição. O meu estava assim...
- Você já examinou a entrada de ar?
- Para mim você está com vela suja.
E recomendavam mecânicos de sua preferência:
- Tem uma oficina ali na rua Bambina, de um velho amigo meu.
- Lá em São Cristóvão, procure o Borracha, diga que fui eu que mandei.
- O Urubu, ali do “Posto 6”, dá logo um jeito nisso.
Não procurei o Urubu, nem o Borracha, nem o Zé Pára-Lama, nem o Caolho dos Arcos, nem o Manquitola do Rio Comprido, nem o Manivela de Voluntários, nem o Belzebu dos Infernos, esqueci o automóvel e fui dormir. Pela minha imaginação desfilava um lúgubre cortejo de tipos grotescos, sujos de graxa, caolhos, pernetas, manetas, desdentados, encardidos, toda essa fauna de mecânicos improvisados que já tive de enfrentar, cuja perícia obedece apenas à instigação da curiosidade ou à inspiração do palpite, que é a mais brasileira das instituições.
Mas pela manhã me lembrei de um curso que se anuncia aconselhando: "Aprenda a sujar as mãos para não limpar o bolso". Resolvi candidatar-me - e quem tiver ouvidos para ouvir, ouça, quem tiver carro para guiar, entenda. Fui à garagem, abri o capô, e fiquei a olhar intensamente o motor do carro, fria e silenciosa esfinge que me desafiava com seu mistério: decifra-me, ou devoro-te. Havia um fio solto, coloquei-o no lugar que me pareceu adequado. Mas não podia ser tão simples...
Era. Desde então, o carro passou a funcionar perfeitamente…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Fernando Sabino (1923 – 2004)
FERNANDO TAVARES SABINO é consagrado na literatura brasileira como um dos maiores mestres da crônica e da narrativa breve. Com um estilo leve, humorístico e profundamente irônico, o autor transformava os pequenos despropósitos do cotidiano urbano e da burocracia em retratos universais da alma humana. Nasceu em 1923, em Belo Horizonte/MG e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2004, na véspera de completar 81 anos. Sabino teve uma carreira multifacetada que uniu o direito, o jornalismo e o empreendedorismo cultural. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1946. Escreveu para jornais e revistas de grande circulação, como O Jornal, Diário Carioca e Manchete. Fundou em 1960, junto com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor. Anos mais tarde, em 1967, criou a icônica editora Sabiá, responsável por revelar e consolidar grandes nomes da literatura nacional. Exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres nos anos 1960.
O autor fez parte de uma geração de brilhantes intelectuais mineiros (ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos) e transitou entre a crônica, o conto e o romance. Publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, em 1941, com apenas 18 anos. Em 1956, lançou o romance O Encontro Marcado. O livro se tornou um clássico instantâneo da literatura juvenil e existencialista brasileira, narrando os dilemas e angústias de uma geração de jovens intelectuais. Sua escrita é marcada pela simplicidade aparente, clareza verbal, diálogos rápidos e o uso do "humor de situação". Ele evitava rebuscamentos e focava no ridículo das convenções sociais. Ao contrário de autores de difícil digestão, Sabino obteve imenso sucesso comercial sem abrir mão do rigor técnico. Ele conseguiu aproximar o grande público da alta literatura. Recebeu importantes distinções, incluindo o Prêmio Jabuti (1980) pelo romance O Grande Mentecapto e o prestigiado Prêmio Machado de Assis (1999), concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.
O mundo literário o posiciona, junto a Rubem Braga e Clarice Lispector, como um dos responsáveis por elevar a crônica jornalística ao status de alta literatura no Brasil. Seus escritos continuam populares em escolas e universidades. Sua famosa frase — "De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar" — sintetiza o espírito de sua vasta e acolhedora obra.
Fonte:
SABINO, Fernando. A falta que ela me faz. Publicado originalmente em 1980.
Assinar:
Postagens (Atom)
-
CURVA DO CAMINHO Eis-me chegando à curva do caminho, onde vejo os escombros do passado: a casa em que nasci, cresci, malgrado o quarto de do...
-
(organização e pesquisa por José Feldman) O trovadorismo é um dos movimentos literários mais antigos e marcantes da história, surgido na Eur...
-
George Goldberg e Vanice Zimerman Ferreira, da APB-PR, figura entre os segundos colocados, recebem menção no concurso que reuniu 237 poeta...








