Trovadores em Ordem Alfabética

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sábado, 23 de maio de 2026

José Feldman (Grinalda Indígena) * 1 *

 

Humberto de Campos (A "Festa dos Ovos")

O último número do "Pathé-Journal", que está sendo exibido em um dos nossos cinemas, registra, entre outros acontecimentos curiosos, a chamada "Festa dos Ovos", levada a efeito recentemente em Wilkes Barre, nos Estados Unidos.

Entre os divertimentos populares dessa pequena cidade da Pensilvânia, está esse, que é, realmente, pitoresco. Em um parque das redondezas, são escondidos cuidadosamente, nos ramos das árvores, nas raízes, na cavidade das pedras, nos montes de folhas e nos tufos de relva, milhares de ovos, que devem ser descobertos pela criançada das escolas. Conduzida, este ano, ao parque, e dado o sinal, a pequenada composta de sete mil colegiais, dispersou-se pela enorme planície arborizada, à procura dos vinte e cinco mil ovos escondidos. E era de ver a algazarra, o tumulto, a alegria bulhenta, com que aquele exército de crianças se lançava em todos os rumos, na ânsia de fazer a maior colheita possível!

O comendador Inocêncio Coutinho havia estado, anteontem, com a sua jovem esposa, D. Odaléa, no conhecido cinema da Avenida, e gozado, em gargalhadas enormes, o interessante episódio de Wilkes Barre, quando resolveu, ontem, reproduzi-lo em família, para afugentar, bonacheirão, o tédio da sua encantadora companheira. Com esse intuito, saiu ele do Banco de que é diretor e, dirigindo-se a uma quitanda das proximidades, adquiriu, aí, três ovos, que escondeu, cuidadosamente acondicionados, no forro do chapéu. Chegado à casa, foi gritando, logo, do vestíbulo:

- Sinhazinha? Ó Sinhazinha? Sinhazinha? Vem cá! 

A esposa acorreu, displicente, e o comendador convidou, feliz, num riso largo, ingênuo, bonachão:

- Vamos fazer a "festa dos ovos"? Olha: eu comprei uns ovos, e os escondi, comigo. Se os encontrares, como as crianças do cinema, ganharás um colar novo, de pérolas, para as festas do Rei. Está feito?

Incentivada pela ideia do prêmio, a linda senhora atirou-se, sorrindo, à procura dos objetos que o esposo ocultara. Lépida, risonha, barulhenta como uma colegial, meteu as mãozinhas de neve nos fundos bolsos do marido, remexeu-lhe a bainha da calça, examinou-lhe a manga do casaco, passou, em suma, no comendador, uma revista completa.

E não os achou, a infeliz!...

Fonte:
Humberto de Campos. A Serpente de Bronze. Publicado originalmente em 1925. Disponível em Domínio Público.  

Baú de Trovas 3



Olhando as folhas caídas
que o vento arrasta no chão,
fico a pensar nessas vidas
a que ninguém deu a mão.
ANA ROLÃO PRETO
Soalheira/ Portugal
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Saboreando a lembrança 
das artes de um meninote, 
me sinto outra vez criança 
roubando doces de um pote. 
ADILSON DE PAULA 
Joaquim Távora/PR
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No refúgio de teus braços
encontro a felicidade,
mas, longe de teus abraços,
viro refém da saudade!
ALICE CRISTINA VELHO BRANDÃO †
Caxias do Sul/RS
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Se de barro fomos feitos
nesta olaria divina,
somos dois corpos perfeitos
partilhando a mesma sina.
ANTONIO FACCI †
Maringá/PR
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A vida é um laço apertado
que nos tortura sem dó;
e quanto mais amarrado,
mais atado fica o nó!
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG 
São Fidélis/RJ
= = = = = = = = = 

Sou feliz! Não vivo ao lado
das estrelas na amplidão,
mas posso ter um punhado
de vaga-lumes na mão.
ANTONIO ROBERTO FERNANDES †
Campos dos Goytacazes/RJ
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A mulher, eu sei, confesso, 
é luxo da natureza... 
Fruir seu corpo é acesso 
às loucuras da beleza! 
APOLLO TABORDA FRANÇA †
Curitiba/PR
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Diz um sábio singular 
este aforismo, a valer: 
Deus criou o bem e o mal 
compete à gente escolher. 
ARGENTINA DE MELLO E SILVA †
Curitiba/PR 
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Quando perto, o trem apita,
batem forte os corações…
Tudo na estação se agita,
provocando as emoções.
ARTHUR THOMAZ 
Campinas/SP
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Velha foto esmaecida 
deixou lágrima de herança! 
Hoje a vejo colorida 
pelo cristal da lembrança! 
ÁTILA SILVEIRA BRASIL †
Cornélio Procópio/PR 
= = = = = = = = = 

Quantas vezes, sem maldade,
dizemos que estamos sós...
E é quando Deus, na verdade,
está mais perto de nós!
CAROLINA AZEVEDO DE CASTRO
Recife/PE, 1909 - ????, Curitiba/PR
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Quem se agarra a uma quimera,
quem persegue uma utopia,
age como se soubera
que sem sonhos... morreria!
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
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É verdade, neste inverno, 
vou dar tudo a quem não tem, 
porque sei que para o inferno 
nunca vai quem faz o bem. 
CECIM CALIXTO †
Tomazina/PR
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A canção do amor primeiro
o teu sorriso gravou...
Mas foi assim tão ligeiro,
como o vento que passou!
CIDINHA FRIGERI †
Londrina/PR
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Da Tribuna, manda o aviso:
 - Não roubo por ser ladrão,
 tampouco porque preciso,
 mas por coceira na mão!
CLÁUDIO DERLI SILVEIRA
Porto Alegre/RS
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Coincidência que me arrasa,
que me assusta e me espezinha…
– Meu marido chega em casa
quando chega o da vizinha!
CLENIR NEVES RIBEIRO
Nova Friburgo/RJ
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Não pule do trem do tempo
em desembarque apressado.
Viaje sem contratempo
e não pare adiantado.
DINAIR LEITE
Paranavaí/PR
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Bendigo a mão calejada
que, num trabalho fecundo,
presa ao cabo de uma enxada,
dá cabo à fome do mundo!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Miguel Couto/RJ
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Quem dera se o povo inteiro,
num gesto de amor profundo,
fosse apenas jardineiro
plantando rosas no mundo!
EDUARDO A. O. TOLEDO
Pouso Alegre/MG
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Andar por ínvios caminhos
buscando a Felicidade,
é como colher espinhos
na Rosa da Eternidade.
ELISABETE DO AMARAL
Mangualde/ Portugal
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Vassoura de bruxa arrasa, 
é enorme a sua ação, 
depois de limpar a casa, 
inda vira condução! 
FERNANDO VASCONCELOS †
Ponta Grossa/PR
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Nesta vida de atropelos
os empecilhos são tantos,
que já afoguei meus apelos
na correnteza dos prantos.
FRANCISCO JOSÉ PESSOA †
Fortaleza/CE
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Quem no lar planta o carinho 
sempre colhe muito mais: 
o filho molda o caminho 
pelas pegadas dos pais! 
GERSON CEZAR SOUZA 
São Leopoldo/RS
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O meu amor é bonito,
é grande, imenso, sem fim...
É bem maior que o infinito,
mas cabe dentro de mim!
GISLAINE CANALES †
Porto Alegre/RS
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Na vidraça do passado,
onde revivo os meus sonhos,
sinto a saudade ao meu lado
nos longos dias tristonhos.
GUTEMBERG LIBERATO DE ANDRADE
Fortaleza/CE
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Minha mãe, que orava aqui, 
é nos céus que reza agora; 
foi no meu sonho que a vi 
aos pés de Nossa Senhora! 
HARLEY CLOVIS STOCCHERO †
Almirante Tamandaré/PR
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Nasci onde o vento bate 
e junto a um grande terreiro, 
ao lado um pé de erva-mate e 
um majestoso pinheiro. 
HELY MARÉS DE SOUZA †
União da Vitória/PR
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Gosto de verão “caliente”,
sol daqueles de rachar,
que aquece a alma da gente
e nos convida a amar.
HENRIETTE EFFENBERGER
Bragança Paulista/SP
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As lembranças de nós dois 
fui guardando nas caixinhas... 
Para descobrir depois... 
Que em verdade... Eram só minhas! 
ISTELA MARINA GOTELIPE LIMA 
Bandeirantes/PR
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Cartas de amor escondidas, 
no meu baú de esperança, 
são testemunhas de vidas 
que ficaram na lembrança. 
JANETE DE AZEVEDO GUERRA 
Bandeirantes/PR 
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Meu barracão na favela,
onde vou vivendo ao léu,
na moldura da janela,
não tem vidraça: -Tem céu!
JOSÉ ANTONIO JACOB
Juiz de Fora/MG
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Ao perder-se um grande amor 
nosso coração dá um brado: 
– Por favor, tire essa dor! 
Oh, pranto! Fique calado!!! 
JOSÉ FELDMAN 
Floresta/PR
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Se toda literatura, 
fosse obra de certos críticos, 
carecia sepultura 
pra enterrar versos raquíticos. 
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE 
Pinhalão/PR
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Malba Tahan (O Livro do Destino)

Certa vez — há muitos anos — quando de volta de Bagdá, aonde fora vender uma grande partida de peles e tapetes, encontrei num caravançará, (1) perto de Damasco, velho árabe de Hedjaz que me chamou de certo modo a atenção. Falava agitado com os mercadores e peregrinos, gesticulando e praguejando sem cessar; fumava constantemente uma mistura forte de fumo e haxixe e quando ouvia de um dos companheiros uma censura qualquer, exclamava, apertando entre as mãos, o turbante esfarrapado:

Mac Allah! ó muçulmanos! (2) Eu já fui poderoso! Eu já tive o Destino nesta mão!

— É um pobre diabo — diziam. — Não regula bem do miolo! Allah que o proteja!

Eu, porém, - confesso — sentia irresistível atração pelo desconhecido do turbante esfarrapado. Procurei aproximar-me dele discretamente, falei-lhe várias vezes com brandura e ao fim de algumas horas já lhe havia captado inteiramente a confiança.

— Os homens da caravana me tomam por doido — ele me disse uma noite quando cavaqueamos a sós. Não querem acreditar que já tive nas mãos o destino da humanidade inteira. Sim, senhor: o destino do gênero humano!

Esbugalhei os olhos assombrado.

Aquela afirmação insistente de que havia sido senhor do Destino era característica do seu pobre estado de demência.

O desconhecido, porém, que parecia não perceber os meus sustos e desconfianças, continuou:

— Segundo ensina o Alcorão — o livro de Allah — a vida de todos nós está escrita — maktub! (3) no grande “Livro do Destino”. Cada homem tem lá a sua página com tudo o que de bom ou de mau lhe vai acontecer. Todos os fatos que ocorrem na terra, desde o cair de uma folha seca, até a morte de um califa, estão escritos — estão fatalmente escritos — no Livro do Destino!

E sem esperar que eu o interrogasse narrou-me o seguinte:

— Em viagem pelo deserto sonhei, certa vez, com um velho feiticeiro que ia ser enforcado. Esse feiticeiro, em sinal de gratidão, deu-me um talismã raríssimo que possuía. E essa pedra maravilhosa permitia a entrada livre na famosa Gruta da Fatalidade, onde se acha — pela vontade de Allah — o Livro do Destino. Viajei dois anos a fim de chegar à gruta encantada. Um djim (4) — gênio bondoso que estava de sentinela à porta — deixou-me entrar, avisando-me, porém, de que só poderia permanecer na gruta por espaço de poucos minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na página da minha vida e fazer de mim um homem rico e feliz. Bastava acrescentar com a pena que eu já levava. — “Terá muito dinheiro!” Lembrei-me, porém, dos meus inimigos. Poderia, naquele momento, fazer grande mal a todos eles. Movido pela ideia única do ódio e da vingança, abri a página de Ali Ben-Homed, o mercador. Li o que ia acontecer a esse meu rival! e acrescentei em baixo, sem hesitar, cheio de rancor: — “Morrerá pobre, sofrendo os maiores tormentos!” Na página de Zalfah-el-Abarj escrevi, impiedoso, alterando-lhe a vida inteira: — “Perderá todos os haveres; ficará cego e morrerá de fome e sede no deserto!”

— E, assim, sem piedade, arrasei, feri, retalhei a todos os meus desafetos!

— E na tua vida? — indaguei curioso. — Que fizeste, ó muçulmano, na página em que estava escrita a tua própria existência?

— Ah! meu amigo! prosseguiu o desconhecido, cheio de mágoa. — Nada fiz em meu favor. Preocupado em fazer o mal aos outros, esqueci-me de fazer o bem a mim mesmo. Agi como um miserável. Semeei largamente o infortúnio e a dor, e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando me lembrei de mim, quando pensei em tornar feliz a minha vida, estava terminado o meu tempo. Sem que eu esperasse, surgiu-me pela frente um efrite — gênio feroz — que me agarrou fortemente e, depois de arrancar-me das mãos o talismã, me atirou fora da gruta. Caí entre as pedras e com a violência do choque perdi os sentidos. Quando recuperei a razão, achei-me ferido e faminto, muito longe da gruta, junto a pequeno oásis do deserto de Omã. Sem o talismã precioso, nunca mais pude descobrir o tortuoso caminho da Gruta do Destino. E concluiu, entre suspiros, numa atitude de profundo e irremediável desalento:

— Perdi a única oportunidade que tive de ser rico e feliz!

Seria verdadeira essa estranha aventura? Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe de Hedjaz encerrava grande e precioso ensinamento. Quantos homens há, no mundo, que preocupados em levar o mal a seus semelhantes, se esquecem do bem que poderiam fazer a si próprios...
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(1) Refúgio construido pelo governo ou por pessoas piedosas à beira do caminho para servir de abrigo aos peregrinos. Espécie de “rancho” e grandes dimensões em que se acolhiam as caravanas.
(2) Mac Allah — exclamaçâo usual enfre os árabes — Por Deus!!! ou ainda: “Exaltado seja Allah!”
Muçulmanos — nome derivado de mouslin “aquele que se resigna à vontade de Deu”. Os muçulmanos seguem a religião de Mafoma e são, atualmente, em número de 200 milhões aproximadamente
(3) Maktub! — (estava escrito!) — particípio passado do verbo catab (escrever). Expressão que bem traduz o fatalismo muçulmana
(4) Djins e efrites são gênios sobrenaturais cuja existência os árabes admitiam. Essa crendice só subsiste nas classes incultas. Os djins são benfazejos ao passo que os efrites se divertem com o mal que podem fazer às criaturas.

Fonte:
TAHAN, Malba. Céu de Allah. Rio de Janeiro: Ed. Conquista, 1960.

Carlos Drummond de Andrade (Recalcitrante)

O trocador olhou, viu, não aprovou. Daquele passageiro, escanchado placidamente no banco lateral, escorria um fio de água que ia compondo, no piso do ônibus, a microfigura de uma piscina.

- Ei, moço, quer fazer o favor de levantar?

O moço (pois ostentava barba e cabeleira amazônica, sinais indiscutíveis de mocidade), nem-te-ligo.

O trocador esfregou as mãos no rosto, em gesto de enfado e desânimo, diante de situação tantas vezes enfrentada, e murmurou:

- Estes caras são de morte.

Devia estar pensando: todo ano a mesma coisa. Chegando o verão, chegam os problemas. Bem disse o Dario, quando fazia gol no Atlético: problemática demais. Estava cansado de advertir passageiros que não aprendem viajar no coletivo. Não aprendem e não querem aprender. Tendo comprado passagem por 65 centavos, acham que compraram o ônibus e podem fazer dele casa-da-peste. Mas insistiu: 

- Moço! O moço!

Nada. Dormia? Olhos abertos, pernas cabeludas, ocupando cada vez mais espaço, ouvia e não respondia. Era preciso tomar providência.

- O senhor aí, cavalheiro, quer cutucar o braço do distinto, pra ele me prestar atenção?

O cavalheiro, vê lá se ia se meter numa dessas. Ignorou, olímpico, a marcha do caso terrestre.

Embora sem surpresa, o cobrador coçou a cabeça. Sabia de experiência própria que passageiro nenhum quer entrar numa fria. Ficam de camarote, espiando o circo pegar fogo. Teve pois que sair de seu trono, pobre trono de trocador, fazendo a difícil ginástica de sempre. Bateu no ombro do rapaz:

- Vamos levantar?

O outro mal olhou para ele, do longe de sua distância espiritual. Insistiu:

- Como é, não levanta?

- Estou bem aqui.

- Eu sei, mas é preciso levantar.

- Levantar pra quê?

- Pra que, não. Por quê. Seu calção está molhado de água do mar.

- Tem certeza que é água do mar?

- Tá na cara. 

- Como tá na cara? Analisou?

Ferrou-se de paciência para responder:

- Olha, o senhor está de calção de banho, o senhor veio da praia, que água pode essa que está pingando se não for água do mar? Só se...

- Se o quê?

- Nada.

- Vamos, diz o que pensou.

- Não pensei nada. Digo que o senhor tem que levantar porque seu calção está ensopado e vai fazendo uma lagoa aí embaixo.

- E daí?

- Daí, que é proibido.

- Proibido suar?

- Claro que não.

- Pois eu estou suando, sabe? Não posso suar sentado, com esse calorão de janeiro? Tenho que suar de pé?

- Nunca vi suar tanto na minha vida. Desculpe, mas a portaria não permite.

- Que portaria?

- Aquela pregada ali, não está vendo? "O passageiro, ainda que com roupa sobre as vestes de banho molhadas, somente poderá viajar de pé."

- Portaria nenhuma diz que passageiro suado tem que viajar de pé. Papo findo, tá bom?

- O senhor está desrespeitando a portaria e eu tenho que convidar o senhor a descer do ônibus.

- Eu, descer porque estou suado? Sem essa.

- O ônibus vai parar e eu chamo a polícia.

- A polícia vai me prender porque estou suando?

- Vai botar o senhor pra fora porque é um... recalcitrante.

O passageiro pulou, transfigurado: - O quê? Repita, se for capaz.

- Re... calcitrante.

- Te quebro a cara, ouviu? Não admito que ninguém me insulte!

- Eu? Não insultei.

- Insultou, sim. Me chamou de réu. Réu não sei o quê, calcitrante, sei lá o que é isso. Retira a expressão, ou lá vai bolacha.

- Mas é a portaria! A portaria é que diz que o recalcitrante...

- Não tenho nada com a portaria. Tenho é com você, seu cretino. Retira já a expressão, ou...

Retira, não retira, o ônibus chegou ao meu destino e eu paro infalivelmente no meu destino. Fiquei sem saber que consequências físicas e outras teve o emprego da palavra "recalcitrante".

Fonte:
ANDRADE, Carlos Drummond de. De Notícias & Não-Notícias Faz-se a Crônica. RJ: José Olympio, 1975.

Miguel Perrone Cione (O Peregrino)

Ele surgiu um dia na cidade. Era um homem visivelmente sofrido. Em uma das mãos levava uma tosca flauta de bambu, talvez por ele mesmo fabricada, e nos lábios, o esboço esmaecido de um sorriso forçado.

Ao ingressar para a vida cotidiana daquela urbe, descobriu logo, junto à praça de uma pequena igreja, o lugar ideal para o seu destino de homem pobre, que necessitava da caridade pública para sobreviver.

No local escolhido, todos os dias, empunhando o tosco instrumento, ele dava para os transeuntes seu concerto musical, executando as mais variadas melodias.

Não pedia nada a ninguém, mas o seu boné azul desbotado, colocado sobre o lajedo da calçada de boca para cima, solicitava por ele um auxílio monetário às pessoas caridosas que pelo local passavam.

No início, quando era novidade no bairro, muita gente interrompia o trajeto para aplaudi-lo, porque na realidade ele manejava aquela flauta de bambu com a habilidade de um exímio artista. Depois, com o passar dos dias, os ouvintes foram diminuindo, e também escasseando os níqueis que caíam em seu surrado boné.

Quando o sol descia no horizonte, o flautista partia para o repouso noturno, levando o parco produto da féria do dia.

Nunca soubemos como e onde se alimentava, nem em que lugar o pobre homem se abrigava da noite densa. Mas pela manhã, quando o sol, com sua luz dourada, abria as portas do dia, lá estava ele reaparecendo para a continuação das suas atividades.

Sempre recolhido em sua introspecção, não conversava; apenas com leve aceno de mão agradecia sempre aos que lhe auxiliavam com a pequena contribuição monetária.

Descobriu-se afinal, que o pobre flautista era mudo. Não podia falar, mas a sua voz era ouvida nos acordes da melodiosa flauta que magistralmente tocava.

Durante um ano inteiro o «homem da flauta», como era chamado, alegrou o bairro com a sua música maravilhosa, mas com o tempo o seu público foi se dispersando definitivamente.

Certo dia, o mágico da flauta desapareceu. Muita gente perguntou por ele. Para onde teria ido e porque teria partido, ninguém conseguiu explicar.

Chegou de algum lugar e para algum lugar partiu, como um simples forasteiro, um peregrino, uma ave que constantemente fugisse sem rumo, em busca de calor humano, talvez...

Partiu, deixando no seu rastro de artista e de sofredor, uma lembrança qualquer. Motivos insuperáveis podem guiar as ações dos homens.

Que mistério envolveria aquele personagem estranho? Quem poderia adivinhar o que vai perdido no coração de um homem solitário? Que turbilhão de sombras se entrechocam na alma dos desamparados, dos desesperados que se encontram ilhados na miséria e no desconsolo? Dos que perdem suas últimas esperanças no descaso dos que passam indiferentes à sua dor?...

Que convulsão de tristezas pode ocultar-se por trás da máscara da face? Que destinos enigmáticos e desencontrados guiariam os homens na senda da sua sorte e das suas paixões?...

Fontes

Solano Trindade (Poesias Avulsas)


 Sou Negro
À Dione Silva

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo 
dos tambores atabaques, gonguês e agogôs.

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado
nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso.

Mesmo vovó
não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou.

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação.

Gravata Colorida

Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada...

Eu gosto de ler gostando

Eu gosto de ler gostando,
gozando a poesia,
como se ela fosse
uma boa camarada,
dessas que beijam a gente
gostando de ser beijada.

Eu gosto de ler gostando
gozando assim o poema,
como se ele fosse
boca de mulher pura
simples boa libertada
boca de mulher que pensa...
dessas que a gente gosta
gostando de ser gostada.

Muleque

Muleque, muleque
quem te deu este beiço
assim tão grandão?

Teus cabelos
de pimenta do reino?

Teu nariz
essa coisa achatada?

Muleque, muleque
quem te fez assim?

Eu penso, muleque
que foi o amor...

Olorum ÈKE

Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê

A minha bandeira
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê

Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê

Mulher barriguda
(musicado por João Ricardo dos Secos e Molhados)

Mulher barriguda
Que vai ter menino
Qual é o destino
Que ele vai ter
Que será ele
Quando crescer...

Haverá ‘inda guerra?
Tomara que não
Mulher barriguda
Tomara que não...

Meditações sobre o leito do hospital

Uma sinfonia de gemidos
Perde-se neste domingo

A amada distante está presente
A rua é uma abstração
O telefone não chama
A amada não beija

Eu escrevo sobre papel verde
com lápis vermelho...

Fonte:
Solano Trindade. O Poeta do Povo. SP: Cantos e Prantos Editora, 1999.

O. Henry (A última folha)

Num pequeno setor a oeste da Praça de Washington, as ruas enlouqueceram e fragmentaram-se em pequenas tiras denominadas "travessas", as quais fazem ângulos e curvas bizarros. Uma mesma artéria cruza-se a si própria em um ou dois pontos. Certa vez, um artista descobriu uma valiosa possibilidade nessa rua. Imagine-se um cobrador, com uma fatura de tintas, papéis e telas, encontrando-se, ao atravessar a mencionada rua, consigo mesmo de volta, sem que um único cêntimo lhe tivesse sido pago!

Por esse motivo, à velha e extravagante Geenwich Village acudiram com prontidão artistas em busca de janelas voltadas para o Norte, de empenas do século XVIII, mansardas holandesas e rendas baratas. Em seguida, importaram alguns artigos indispensáveis da Sexta Avenida e constituíram uma "colônia".

No topo de um prédio de dois pisos Sue e Johnsy haviam instalado o seu estúdio, sendo "Johnsy" o diminutivo familiar de Joana. A primeira era do Maine e a outra da Califórnia. Haviam-se conhecido na table d'hôte de um "Delmonico" da Rua Oito e não tardaram em descobrir que os seus gostos em matéria de arte, salada de alface e mangas compridas resultavam suficientemente afins para justificar a instalação de um estúdio comum.

Passou-se isto em Maio. Em Novembro, um frio invisível e estranho, ao qual os médicos denominavam Pneumonia, percorreu a colônia, estabelecendo alguns contatos indeléveis com os seus dedos glaciais. Para os lados do Leste, o visitante impiedoso avançou audaciosamente, produzindo numerosas vítimas. No entanto, deslocou-se mais pausadamente por entre o labirinto de "travessas" estreitas cobertas de musgo.

O senhor Pneumonia não se podia considerar propriamente um velho cavalheiro atencioso. Uma moça franzina, oriunda da Califórnia, não representava caça digna de um ancião de punhos rubros e fôlego breve. Não obstante, prostrou Johnsy, a qual ficou estendida na cama de ferro pintado, contemplando através das vidraças das pequenas janelas holandesas, a despida face lateral da casa fronteira.

Certa manhã, o atarefado médico convidou Sue a acompanhá-lo até ao vestíbulo, onde enrugou a fronte e confidenciou:

- Tem uma possibilidade de se salvar em, digamos, dez. E essa possibilidade consiste no desejo de viver. A tendência que determinadas pessoas manifestam em tomar o partido da agência funerária contribui para que toda a farmacopeia se assemelhe a uma adega de vinhos azedos. A sua amiga persuadiu-se de que não se curará. Sabe se a alguma coisa preocupa?

- Não... isto é, acalenta o desejo de pintar a Baía de Nápoles -murmurou Sue.

- Pintar? Ora! Refiro-me a algo sério. Um homem, por exemplo.

- Chama a um homem algo de sério? - articulou a moça num tom agudo de harpa hebraica. - Estou convencida de que não se trata disso.

- Então, é da fraqueza - concluiu o clínico. - Farei tudo o que a ciência me permitir. No entanto, sempre que um doente meu começa a contar o número de carros presentes ao seu funeral, reduzo em cinquenta por cento as propriedades curativas dos medicamentos. Se conseguir que ela se interesse pela nova moda de mangas para casacos de Inverno, garanto-lhe que terá uma probabilidade em cinco, e não em dez, de se salvar.

Depois que o médico se retirou, Sue regressou ao estúdio, secou as lágrimas com um guardanapo japonês e, fingindo-se contente, entrou no quarto da amiga, que permanecia imóvel na cama, o corpo franzino quase não avultando sob a colcha.

Sue aproximou-se da prancheta a um canto e começou a desenhar a tinta uma ilustração para uma revista semanal. Os jovens artistas precisam de abrir caminho para a Arte ilustrando contos para as revistas escritos por jovens autores que abrem caminho para a Literatura.

Enquanto esboçava a figura de um herói convencional, ouviu um ligeiro som, repetido várias vezes. Levantou a cabeça e voltou-se para Johnsy. Ao contrário do que supusera, esta não dormia. Tinha agora os olhos bem abertos fixos na janela e parecia entretida em contagem decrescente:

- Doze... onze... dez... nove... oito... sete...

Sue virou-se para a janela. Que haveria lá fora para contar? Via-se unicamente um pátio deserto e sombrio e, a uns sete metros, a casa de alvenaria. Um antiga hera, retorcida e de raízes podres, subia até metade da parede. O glacial vento de Outono arrancara as folhas da videira, cujos braços esqueléticos se agarravam, quase completamente nus, aos tijolos expostos.

- Que foi, querida? - perguntou com suavidade.

- Seis - sussurrou Johnsy. - Começam a cair mais depressa. Há três dias tinha quase cem. Até fiquei com dor de cabeça de as contar. Mas agora é fácil. Lá vai outra. Restam só cinco.

- Mas cinco quê?

- Folhas da hera. Quando a última cair, partirei. Há três dias que adivinhei. O médico não te explicou?

- Nunca ouvi uma bobagem tão grande! - bradou Sue. - Que relação pode haver entre as folhas de uma hera e a tua doença? Ainda esta manhã o médico me garantiu que tinhas... nove possibilidades em dez de te salvares. Procura tomar um pouco de caldo e me deixa completar as ilustrações, para as levar ao editor e podermos comprar costeletas de vitela e uma garrafa de bom vinho.

- Não vale a pena estares com essas despesas por minha causa. - Johnsy conservava o olhar fixo na janela. - Outra... E também não me tenho vontade de caldo. Ficaram só quatro. A última cairá antes de escurecer. Nessa altura, partirei.

- Escuta, querida. - Sue inclinou-se para a enferma. - Promete-me que não voltas a olhar para a janela até eu terminar o trabalho. Preciso de luz, mas se insistires baixo o estore.

- Não podes ir desenhar no outro quarto?

- Prefiro fazê-lo perto de ti. Além disso, não quero que continues com essa tolice da queda das folhas.

- Quando acabares, avisa. - Johnsy cerrou as pálpebras e permaneceu imóvel como uma estátua. - Quero ver cair a última folha. Estou cansada de esperar e pensar. Quero abandonar o apego a tudo e flutuar no espaço como uma daquelas folhas transportadas pelo vento.

- Tenta dormir. Tenho de chamar Behrman, para me servir de modelo para o velho mineiro solitário. Volto já. Fica quietinha durante a minha ausência.

O velho Behrman era um pintor que vivia no andar de baixo. Ultrapassara os sessenta anos e tinha uma barba idêntica à do Moisés de Miguel Angelo, descendo do rosto de um sátiro para um corpo de anão. Considerava-se um malogro artístico.

Durante quarenta anos, manejara o pincel sem nunca se aproximar conveniente da sua Musa. Estivera numerosas vezes prestes a executar uma obra-prima, mas jamais chegara a principiá-la. No decurso de numerosos anos, unicamente pintara um ou outro escarabocho ocasional para fins publicitários. Ganhava uns dólares servindo de modelo para as jovens artistas da colônia que não podiam se permitir um profissional.

Abusava do "gin" e referia-se frequentemente à sua obra-prima. Quanto ao resto, era um velhote mirrado, que zombava terrivelmente da tolerância dos outros e se considerava a si próprio uma espécie de cão de guarda das duas jovens artistas do andar de cima.

Sue foi encontrar Behrman no seu cubículo escassamente iluminado. A um canto, uma tela em branco sobre um cavalete esperava, havia vinte e cinco anos, que ele esboçasse a primeira pincelada da obra-prima. A moça descreveu-lhe o capricho de Johnsy e que temia que, leve e frágil como uma folha, ela pudesse tombar quando o seu fraco apego à vida se extinguisse por completo.

O velho Behrman, os olhos congestionados marejados de lágrimas, proclamou o seu desprezo e aversão por semelhantes fantasias insensatas.

- Não acredito que uma pessoa morra só porque uma insignificante folha caiu da planta! - exclamou. - Não, não quero posar para o seu eremita. Por que permite que essas tolices se metam na cabeça da sua amiga? Pobre Senhorita Johnsy...

- Ela está muito doente e fraca - explicou Sue. - A febre produziu-lhe ideias mórbidas. Muito bem, Sr. Behrman. Se não quer posar, não o posso obrigar. Em todo o caso, devo dizer-lhe que o considero um velho horrível e... intrometido!

- Quem disse que não posava? Vamos a isso. Não sei como devo falar para que nos entendamos. - Behrman estremeceu. - Este lugar é horrível para uma moça tão gentil como Senhorita Johnsy estar doente. Quando pintar a minha obra-prima, havemos de nos mudar para um palacete.

A enferma dormia quando entraram no quarto. Sue baixou o estore da janela e levou o velho para o aposento contíguo, de onde contemplaram a hera, receosamente. Em seguida, entreolharam-se em silêncio por um momento. Uma chuva fina e persistente começava a cair juntamente com a neve. Behrman, na sua velha camisa azul, sentou-se a fim de posar para a figura do mineiro solitário.

Quando Sue acordou de um sono breve, na manhã seguinte, encontrou Johnsy com o olhar fixo no estore verde.

- Levanta-o - pediu num murmúrio. - Quero ver.

Sue encolheu os ombros num gesto de resignação e obedeceu. Todavia, não obstante a chuva e fortes rajadas de vento que se haviam prolongado por toda a noite, mantinha-se junto da parede uma folha de hera, precisamente a última. Verde-escura, ainda na haste, mas com as margens serrilhadas e amarelecidas anunciando já a dissolução e a ruína, conservava-se firmemente presa à planta, a uns sete metros do solo.

- É a última - articulou Johnsy. - Pensei que cairia durante a noite, devido ao vento que soprava forte. Mas cairá hoje e morrerei no mesmo momento.

- Não fales assim, por favor - suplicou Sue. - Pensa em mim, já que não te importas contigo. Que faria eu sozinha?

No entanto, a outra não respondeu. Nada existe tão solitário como uma alma, quando se prepara para partir na misteriosa e longínqua jornada. A fantasia pareceu apoderar-se dela mais intensamente, à medida que os laços que a prendiam à amizade e à terra se atenuavam.

O dia escoou-se com lentidão e, ao anoitecer, descortinaram a folha ainda presa à sua haste, junto da parede. Ao longo da noite, o vento tornou a soprar com intensidade, ao mesmo tempo que chovia copiosamente.

Assim que amanheceu, Johnsy quis que o estore fosse levantado de novo.

A folha continuava firme.

A enferma contemplou-a demoradamente. Por fim, chamou Sue que lhe preparava a canja de galinha no fogão a gás.

- Tenho-me portado horrivelmente - admitiu. - Qualquer coisa fez com que a última folha se mantivesse ali para demonstrar que procedi de forma censurável. Experimentarei comer. Mas primeiro traz-me um espelho e coloca alguns travesseiros às minhas costas. Quero ver com que aspecto estou.

Uma hora depois declarou:

- Ainda não perdi as esperanças de pintar a Baía de Nápoles.

O médico veio à tarde e Sue acompanhou-o até ao vestíbulo.

- Existe agora um número de probabilidades favoráveis mais elevado - afirmou ele. - Tratando-a convenientemente, é natural que se salve. Desculpe não me demorar mais, mas tenho de ir ver um doente no andar de baixo. Chama-se Behrman, salvo erro, e considera-se um artista. Mais um caso de pneumonia. A idade não ajuda, e duvido muito que escape. Mandarei transferi-lo para o hospital, onde sempre lhe proporcionarão um conforto que aqui não tem.

No dia seguinte, o médico anunciou a Sue:

- A sua amiga encontra-se livre de perigo. O cuidado com que a tratou triunfou. Agora, interessa que se alimente devidamente.

Naquela tarde, Sue aproximou-se do leito onde Johnsy ainda permanecia, agora sentada, com um xale sobre os ombros, entretida a fazer malha, e abraçou-a com ternura.

- Tenho de te revelar uma coisa, querida. Behrman morreu hoje no hospital, de uma pneumonia. No dia em que adoeceu, a mulher da limpeza encontrou-o estendido no quarto, quase inconsciente, com a roupa e os sapatos encharcados e gelados. Não foi possível descobrir onde esteve numa noite como aquela. A um canto do quarto, achavam-se uma lanterna, ainda acesa, uma escada molhada, alguns pincéis e uma paleta com as cores azul e amarela misturadas. Repara na última folha da hera. Não te pareceu estranho que nem oscilasse quando o vento uivava? Finalmente. Behrman produziu a sua obra-prima.

Pintou-a no dia em que a última folha caiu.

Fonte:
O. Henry. The Trimmed Lamp and Other Stories. Publicado originalmente em 1907. 

José Feldman (Grinalda Indígena) * 1 *