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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Versos Esparsas * 6 *

 

Octávio Babo Filho (Trovas Avulsas)


1
A diferença que vejo
entre a virtude e o pecado:
– virtuoso - peca a varejo,
pecador - por atacado.
2
A facilidade imensa
com que os homens são julgados
simboliza bem a crença
de sermos todos culpados.
3
A força do inevitável,
já pela força que tem,
faz o destino imutável,
sem indagar quem é quem.
4
Ante a vinda inesperada
da indesejável cegonha,
de susto morre a empregada,
morre o patrão... de vergonha!
5
Ao partires, mãe querida,
deixaste a imagem comigo:
nem durante toda a vida
eu te segui como sigo!
6
A paz verdadeira e pura,
que a consciência enobrece,
é a que sente a criatura
que, para subir, não desce.
7
As desventuras da vida,
eu não as conto a ninguém,
pois mágoa, que é transmitida,
se multiplica por cem.
8
Bem que procuro ser santo,
mas não consigo, porque
eu encontro em cada canto
alguém que lembra você...
9
Buscando falsa razão
para razão que não tem,
ninguém ilude o irmão
sem iludir-se também.
10
Construíste mil castelos...
E a tua imaginação,
depois de sonhos tão belos,
quis morar num barracão...
11
Convém às vezes fugir,
porque a presença frequente   
não deixa a gente sentir
se sentem falta da gente.
12
Creio que ninguém duvida
desta inconteste verdade:
há mundo, mas não há vida,
quando falta a liberdade!
13
Dentro da imensa tristeza
que a minha alma sempre invade,
o que me mata é a certeza
de não sentires saudade.
14
Dois destinos são iguais,
na proporção em que dois,
sofrendo menos ou mais,
sofrerão juntos, depois.
15
Enquanto os povos discutem
a teoria da paz,
os mais fracos se desnutrem
e os mais fortes comem mais…
16
Esta Fé que hoje me invade,
traz tanto alento à minha alma
que, dentro da tempestade
sinto a natureza calma!
17
Eu perdi muita amizade,
defendendo injustiçados.
- É que o vento da maldade
sopra de todos os lados.
18
Eu rezo em casa, na igreja,
na rua, em qualquer lugar...
Duvido Deus não esteja
onde costumo rezar!
19
Façamos logo um acordo,
sem queixa, mágoa ou rancor:
– dividamos o ciúme,
multipliquemos o amor.
20
Gosto de moça formosa,
sabendo embora o perigo
- Eu não desprezo uma rosa,
temendo o espinho inimigo…
21
Mãe - é palavra sem rima,
buscá-la é inútil, não tente,
pois mãe está muito acima
de tudo, coisas e gente.
22
Minha mulher não perdoa
a quem me faça maldade.
Não porque ela seja boa:
– pretende é exclusividade!  
23
Na mentira a se perder,
não sabe aquele infeliz
que ele nunca se faz crer
nem nas verdades que diz.
24
Não dou ouvido ao lamento
e não escondo o porquê:
tudo, na vida, é um momento
- e o meu momento é você...
25
Não há calvários iguais,
toda cruz é diferente,
e as cruzes que pesam mais
são sempre as cruzes da gente.
26
Não lhe adivinhando o nome,
batizei-a de Maria.
E o remorso me consome:
– nunca vi tanta heresia!
27
Não nos feneçam os sonhos,
deles precisamos tanto!
Mudam pensares tristonhos
e secam fontes de pranto.
28
Nascemos sentenciados:
“Os que vierem se vão”.
E nem somos informados
do dia da execução...
29
Os santos de antigamente
só foram santos, porque,
conhecendo tanta gente,
não conheceram você...
30
Penetrei fundo demais
no poço das ambições.
Vejo, agora, o mal que faz
um sonho sem proporções.
31
Poeta mau não conheço,
mau poeta ah, isto sim!
Conheço e digo onde mora:
bem aqui… dentro de mim.
32
Por que será que você,
tendo os defeitos que tem,
os seus defeitos não vê,
vendo os dos outros tão bem?
33
Quando penso em falsidade,
teu nome logo me vem:
Teu nome: Felicidade!
- Felicidade? De quem?...
34
Quanta alegria semeia
quem vive sempre contente:
- A felicidade alheia
também faz feliz a gente.
35
Quem da riqueza faz praça,
muito cedo se esqueceu
de que Deus tira de graça
o que, de graça, nos deu.
36
Quem constrói seu barracão
no do vizinho apoiado,
pelo sim e pelo não,
confia... desconfiado!
37
Saber não ocupa espaço,
mas é preciso que a gente,
ao caminhar, passo a passo,
modere o passo da frente...
38
Saudade, o mundo embalando,
dói, de modo tão diverso,
que o poeta, mesmo chorando,
pode cantá-la em seu verso.
39
Se a morte nos avisasse
a respeito do seu dia,
não creio que nos matasse:
a gente é que morreria...
40
Se é por simples gentileza
que a mim você se anuncia,
não me leve a mal, Tristeza!
Prefiro a casa vazia!
41
Se o trabalho me enfastia,
eu dele logo me vingo,
fazendo, de cada dia,
a sucursal de domingo…
42
Se querer fazer mistério
de coisas tão triviais:
- É na paz do cemitério
que vivem todos em paz…
43
Se toda gente soubesse
como custa querer bem,
quanta gente gostaria
de não gostar de ninguém!
44
Tenham medo é dos medrosos
- fugidios, reticentes -,
mil vezes mais perigosos
que os atrevidos valentes...
45
Teus encantos, criatura,
mexeram tanto comigo
que eu vivo da desventura
de sonhar sempre contigo…
46
Toda mulher tem seu quê,
tem um encanto qualquer.
Não tendo, é o que a gente vê
naquela que a gente quer.
47
Trabalho, sem me cansar.
E é tão bom que seja assim!
- Chego, às vezes, a pensar
que Deus trabalha por mim.
48
Ventura... Felicidade...
Duas palavras vazias
que, depois de certa idade,
não enchem mais nossos dias.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
OCTÁVIO BABO FILHO, intelectual carioca de múltiplos interesses que uniu a agudeza do direito à sensibilidade da poesia e da música popular brasileira, nasceu em 1915, na cidade do Rio de Janeiro (RJ)  e faleceu na mesma cidade em 2003, aos 88 anos de idade. Viveu e construiu toda a sua história pessoal e profissional na cidade do Rio de Janeiro. Formou-se em Direito e foi um advogado criminalista e trabalhista altamente conceituado na capital fluminense. Teve um papel de vanguarda social marcante: entre as décadas de 1950 e 1970, tornou-se um dos pioneiros na defesa dos direitos civis e na luta pelos direitos do consumidor no Brasil, antecipando discussões que só viriam a se consolidar juridicamente anos mais tarde. 
Primo do compositor Lamartine Babo, Octávio carregava a veia artística na família. Na literatura, dedicou-se apaixonadamente à arte da trova. Paralelamente, atuou na música popular como compositor e letrista. Sua obra musical mais famosa é a clássica marchinha natalina "O Velhinho" (composta em 1953), eternizada pelos versos "Botei meu sapatinho na janela do quintal...". Seu maior reconhecimento na poesia se deu pelo acolhimento de suas trovas na comunidade literária e em saraus fluminenses. Na música, a canção "O Velhinho" ficou originalmente em 3º lugar em um concurso natalino na voz de João Dias, mas obteve o maior prêmio possível: a consagração absoluta e atemporal do público brasileiro. 
Livros de trovas publicados: Cantigas das Horas Vagas; Ao Correr das Horas  
A relevância de Octávio Babo Filho reside na sua capacidade de manter viva e sofisticar a tradição da trova e da lírica popular brasileira. Em seus livros e escritos, ele demonstrava uma precisão cirúrgica para sintetizar grandes dilemas existenciais — como a melancolia, a finitude, o amor e a ironia do cotidiano — em pequenos blocos rimados de extrema beleza e acessibilidade. Além disso, sua contribuição cruza fronteiras literárias e musicais: ao compor "O Velhinho", ele ofereceu ao Brasil uma das raras e mais emblemáticas identidades de folclore natalino genuinamente nacionais, regravada por nomes que vão de Simone a Caetano Veloso e Roupa Nova.

Antonio Ozaí da Silva (A Experiência da Dor)


Segunda-feira. Deveria ser mais um dia como outro qualquer, mas uma dor aguda, quase imperceptível, indicava que algo não estava bem. Mesmo assim, saí e fui fazer coisas que não gosto, mas que a rotina obriga, como ir ao banco. O corpo não me enganara, os pressentimentos revelaram-se reais. A dor, insidiosamente, aumentava de intensidade até tornar-se insuportável. Precisei antecipar o retorno. Depois, o médico diagnosticaria o que parecia o óbvio: mais uma crise da coluna, ou, como digo em tom de brincadeira, era o “nervo asiático”. Injeções, comprimidos de vários tipos e repouso – eufemismo que indica a condição em que nos vemos forçados a permanecer deitados a maior parte do tempo, dormindo sob o efeito dos medicamentos ou em estado de sonolência. E assim passaram-se os dias da semana…

O que fazer quando não é possível permanecer em pé ou mesmo sentado? O que fazer quando a vida limita-se ao espaço de alguns metros quadrados, do tamanho da cama, e a dor torna-se a companheira indesejável, porém inseparável? Só resta dormir, tomar remédios, dormir novamente e torcer para que a química comece a surtir os efeitos desejados e apazigue a dor que teima em permanecer. Até que, finalmente, ela cede, diminui de intensidade e já é possível se movimentar um pouco, fazer as refeições à mesa e, até mesmo, escrever um texto – embora sentado na cama e com precauções, pois ela, a dor, ainda está perto e o corpo denuncia a sua presença.

A imobilidade forçada é angustiante. A dor não altera a consciência do que é preciso ser realizado, das tarefas pendentes que são adiadas. Fossem outros tempos, sem computadores e, portanto, sem emails a responder, revistas eletrônicas a encaminhar, Orkut e redes de relações sociais a manter, atividades acadêmicas virtuais a fazer, etc., a angústia seria atenuada. Nos novos tempos, porém, a tecnologia torna-se extensão do corpo e até mesmo as relações sociais passam a ser influenciadas e determinadas pela capacidade de permanecer conectado. O enfermo em sua cama sente-se impotente por não conseguir dar conta das tarefas já incorporadas ao cotidiano virtual e solitário em sua dor.

Há, porém, aspectos compensadores. Inativo, forçado a permanecer deitado, ele tem tempo mais do que suficiente para pensar. Mesmo na sonolência, a mente se torna um turbilhão de ideias, reflexões e lembranças. E, inevitavelmente, passa a refletir sobre a própria dor. Ele recorda do período em que leu a obra de Milan Kundera e da brincadeira que ele faz em um dos seus livros com o dito cartesiano “Penso, logo existo”. A medida da existência, na verdade, é dada pela dor. Portanto, talvez seja mais correto afirmar: “Sinto, logo existo”. A dor parece resumir tudo, torna-se a síntese do viver.

Mas o que é a minha dor diante do sofrimento do torturado? E como explicar o absurdo de um ser humano infligir dor a outro e, ainda mais, sentir prazer? O que significa diante do que sente alguém com o corpo perfurado por uma bala ou sofreu um acidente e está entre a vida e a morte na UTI? O que é a minha dor diante da tragédia que vitima milhares de seres humanos no Haiti? Como somos egoístas diante da dor!

“A verdade da dor reside naquele que a sofre”, leio em História do Corpo.* Aliás, uma leitura que vem a calhar, mas que, ironicamente, não foi planejada para este momento. Enquanto a dor cede e permite concentrar-se, o tempo do ócio, ainda que em condições não muito propícias, pode ser dedicado ao aprendizado e reflexão sobre o corpo, um corpo histórico mas tão real e humano quanto o meu. A leitura me faz compreender melhor o corpo, a dor e o sofrimento humano, mas não cessa a dor que sinto. Conheço-me um pouco mais, mas preferia não passar por esta experiência.
––––––––––––––––––––-
* CORBIN, Alain. Dores, sofrimentos e misérias do corpo. In: História do corpo: da Revolução à Grande Guerra, sob a direção de Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello, Petrópolis,RJ: Vozes, 2009.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
ANTÔNIO OZAÍ DA SILVA, renomado cientista social, professor universitário e ensaísta político brasileiro. nasceu em 1962. Construiu sua trajetória de formação no estado de São Paulo estudando em Santo André e na capital paulista. Posteriormente, mudou-se para Maringá (PR), onde fixou residência e atua há décadas.
Possui uma sólida e respeitada carreira na docência e na pesquisa Graduou-se em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (1994). Concluiu o Mestrado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 1997. Tornou-se Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) em 2004. Realizou pós-graduação em História das Religiões pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Desde 1998, atua como Professor Associado no Departamento de Ciências Sociais da UEM, lecionando na área de Ciência Política com foco em Teoria Política Contemporânea.
Sua produção escrita é voltada para a análise sociológica, política e educacional. Ele é amplamente reconhecido por seu trabalho como editor de periódicos de destaque, sendo o fundador e editor da renomada Revista Espaço Acadêmico, além de colaborar com as publicações Acta Scientiarum e Urutágua, e manter um blog ativo com reflexões sobre a prática docente.
Embora não escreva ficção, Antônio Ozaí da Silva possui grande relevância na literatura científica e política brasileira. Suas pesquisas e livros são fundamentais para compreender a história dos movimentos de esquerda, do marxismo, do anarquismo e da pedagogia libertária no país. Além disso, ao capitanear periódicos como a Revista Espaço Acadêmico, ele cumpre um papel crucial na democratização do conhecimento e no debate público, servindo como uma importante vitrine para ensaístas, sociólogos e pensadores contemporâneos divulgarem suas ideias no Brasil. 

Fontes:
Colaboração do autor . janeiro. 2010.
Biografia = Escavador, Wikipedia, Blog do Ozaí (https://antoniozai.wordpress.com/)

Daniela Schlogel (Oportunidade?)


O Jhony é muito malandro, dizem até que ele é mau caráter e quando surgiu a proposta de dar uma vaga de estagiário a ele com acompanhamento da assistente social, todos foram contra, tinha um ou outro que era a favor, não muito a favor, podemos dizer que quem era a favor, era só porque sabia que os do contra ganhariam. E entre o discurso dos do contra dizia-se:

“Ah, aquilo ali é bandido”, “Dar emprego pra ele é arrumar sarna pra se coçar”.

E mesmo assim, havia quem acreditava que dar o emprego ao menino seria proporcionar a ele algumas horas de vivência em um ambiente moralmente saudável. E mandou-se o menino para a empresa e não era uma empresa qualquer, era uma empresa pública, economia mista e coisa e tal. No primeiro dia de trabalho colocaram-no para picotar papel, toda a manhã, e enquanto isso os funcionários trataram de espalhar a boa nova aos outros funcionários ainda desinformados.

”Aquele ali já foi preso num sei quantas vezes”, “Se eu não me engano já vi ele no programa Aterrorizando a Massa”.

E assim entre picotes de papel e nenhuma cordialidade dos companheiros chegou ao fim o primeiro dia de trabalho de Jhony e é claro que passou pela cabeça dele inúmeras observações:

“Será que vou passar o mês inteiro picotando papel?”, “Nem pra ter uma telefonista gatinha nesse lugar”, “Olha o tipo desse careca, fica só me olhando de cara feia”, “Ia ser mais massa se tivesse alguém pra conversar”.

No segundo dia o novo estagiário foi até sua orientadora de referência para saber a ordem do dia e ela foi categórica

– “Como você já picotou todo o papel e hoje eu tenho muitas tarefas financeiras as quais você não pode auxiliar, vai cuidar do nosso Laboratório de informática, fica ali na última porta a esquerda, não vai muita gente lá, todos os computadores devem ficar desligados e se alguém for até lá você deve ligar para pessoa utilizar e anotar o nome e o tempo que a pessoa permaneceu fazendo uso do mesmo. Sabe ligar o computador?”

– “Sim Senhora”.

– “Então pode ir”

E lhe passou as chaves. Jhony entrou naquela sala silenciosa, sentou-se e mais um milhão de observações lhe passaram na cabeça, estava sentado, olhando pro nada e com um “bico” que demonstrava indignação, quando chegou o careca, aquele careca que só ficava olhando pra ele de cara feia e a primeira pergunta que o careca fez foi

– “Por que você teve passagem?”

O menino não entendeu bem a pergunta e ele se explicou dizendo que queria saber o que o menino tinha feito de errado para ter sido apreendido, sem pudor nenhum. O menino contou ao careca que se desdobrou em perguntas, a cara do careca tinha mudado de descaso para interesse e isso fez o menino se sentir o grande protagonista, afinal ele tinha a atenção do careca e mais que isso ele despertou o interesse de outra pessoa, coisa que não lembrava ter acontecido muitas vezes desde a infância. Todos os fatos que o menino descreveu ao careca, é claro, chegariam aos ouvidos de todos os outros funcionários, mas o menino nem pensou nisso e nem em imagem perante aos colegas e nem em nada, a verdade é que o menino se embriagou na sensação de “ser interessante”.

Quando o careca deixou a sala, o menino estava convencido mesmo sem saber de que era realmente “do crime”. Era aonde as pessoas lhe reconheciam como pessoa. A experiência profissional estava reafirmando sua situação de exclusão. Ele teve a oportunidade, mas não aceitação e muito menos o pertencimento.

Antes de sair naquele dia, Jhony abriu um computador e tirou uma peça, ele nem sabia para quê servia, mas sabia que devia valer algum dinheiro. Escondeu a peça e não soube bem como fechar o gabinete aberto do PC. Foi embora e nunca mais retornou ao local. Aqueles que já não acreditavam no menino desde o início usaram a tão famosa frase “Eu já sabia”. Há alguns que dizem que isso se trata da profecia que se autocumpre. Todos nós queremos ser alguma coisa independente do que seja.
–––––––––––––––
DANIELA ANDREIA SCHLOGEL, economista, pesquisadora acadêmica e gestora pública de grande destaque no Paraná, viveu em Foz do Iguaçu (PR) durante seus anos de graduação e mestrado. Atualmente, devido às suas funções no governo estadual e no doutorado, divide sua rotina com Curitiba (PR) e Campinas (SP). Possui um currículo técnico altamente qualificado voltado ao desenvolvimento regional: Graduou-se em Ciências Econômicas (Economia, Integração e Desenvolvimento) pela UNILA, em Foz do Iguaçu; Concluiu o Mestrado em Integração Contemporânea da América Latina, também pela UNILA; É Doutoranda em Desenvolvimento Econômico pela UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas). Atua como Economista da Secretaria de Estado do Planejamento do Paraná (SEPL), onde exerce o cargo de Coordenadora de Planejamento Regional e comanda o Programa Paraná Produtivo. Também atua como Secretária Executiva da Zona de Integração do Centro-Oeste da América do Sul (ZICOSUL) e conselheira no Conselho Estadual do Trabalho.
Ela não possui obras de ficção, romances ou poesias publicados. Sua produção escrita é estritamente acadêmica e técnica, composta por artigos científicos, dissertação de mestrado, notas técnicas de planejamento governamental e pesquisas sobre economia regional e fronteiras. O reconhecimento de seu trabalho ocorre no campo da gestão pública, economia e inovação regional.
Embora não tenha impacto na literatura artística, Daniela Schlogel possui grande importância para o desenvolvimento socioeconômico e o planejamento regional do Estado do Paraná. Como pesquisadora associada ao Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI Trinacional), ela contribui ativamente com estudos estratégicos para a região de tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina), impactando diretamente as políticas públicas, a geração de empregos e a integração econômica da região de Foz do Iguaçu e do restante do estado.

Fonte:
Jornal Guata. Foz do Iguaçu. 22.janeiro.2010

Vicência Jaguaribe (Minipoemas)


A DOR PSICOLÓGICA

A dor entalada na garganta
exige uma providência.
Como foi parar na garganta
esta dor que nasceu
em um momento impróprio?
E existe momento próprio
Pra dor nascer e florescer?
= = = = = = = = = = = = = =  

A ESPERANÇA

A esperança é a última que morre.
A minha nasceu prematura
E foi a primeira a morrer.
= = = = = = = = = = = = = =  

A INFÂNCIA

Um à vontade
uma espontaneidade
com tempo marcado
uma eterna brincadeira.

Então, digam por que
existem traumas de infância?
= = = = = = = = = = = = = =  

DESILUSÃO

Dançarinos de tango no salão.
Bandoneon tocando Por una cabeza.
Tomba a cabeça do bandoneonista.
= = = = = = = = = = = = = =  

DOR FÍSICA

A sensação da impotência.
A certeza da dependência.
Um esgar e um gemido.
A vida suspensa por algum tempo.
= = = = = = = = = = = = = =  

ENCONTRÁRIOS

Ele, impressionista,
ela, meteorologista.

Mal se conheceram
pintou um clima.
= = = = = = = = = = = = = =  

O DIA SEGUINTE

O dia seguinte…
Há dias para os quais
não deveria haver um dia seguinte:
o da morte de uma pessoa amada,
o de uma derrota ou o de uma decepção,
o do Natal.
O dia seguinte é avassalador
como um tsunami.
= = = = = = = = = = = = = =  

E AGORA, JOHN?

Homem nenhum é uma ilha…

e esta porção de mim 
cercada de mágoa
por todos os lados?
= = = = = = = = = = = = = =  

ESCÁRNIO

Arrancaste de mim a alegria.
Amputaste-me a vontade de viver.
Decepaste-me a confiança.
O corpo esquartejado
expuseste ao escárnio público.
Ao menos deste aos restos mortais
a bênção de uma sepultura?
= = = = = = = = = = = = = =  

HÓSTIA

Tem dias que tudo que se quer
é um pão com manteiga na chapa,
um pingado e uma cena de ciúme.
= = = = = = = = = = = = = =  

REMORSO

Ânsia de vômito
Tontura
Dor de cabeça
– Uma enxaqueca psicológica.
= = = = = = = = = = = = = =  

SONHO

Alguns metros de tule
Um espaço aberto
Passos de balé clássico.
Toca estridente o despertador.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
VICÊNCIA MARIA FREITAS JAGUARIBE nasceu em 1948, em Jaguaruana (CE), no Vale do Jaguaribe. Embora tenha raízes profundas em sua cidade natal,, também viveu nas cidades vizinhas de Russas e na capital, Fortaleza, locais onde realizou seus estudos. Dedicou toda a sua trajetória ao magistério. Graduou-se em Letras e obteve o título de Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou como professora da educação básica (curso médio) e, posteriormente, consolidou sua carreira no ensino superior como Professora Adjunta da Universidade Estadual do Ceará (UECE), onde hoje se encontra aposentada. Suas pesquisas acadêmicas focam em Estilística e Literatura Brasileira.
Leitora voraz desde a infância, desenvolveu uma sólida produção literária voltada especialmente para os gêneros da crônica, do ensaio acadêmico e da poesia. Seus textos frequentemente exploram o cotidiano, temas sociais, o papel da mulher na sociedade e a forte identidade regional ligada ao Vale do Jaguaribe. Ela é uma colaboradora ativa de portais literários digitais, como o Recanto das Letras. É membra fundadora e imortal da Academia Jaguaruanense de Letras, onde atua ativamente na preservação da memória e no incentivo à leitura na região de sua terra natal. Por ter uma carreira fortemente atrelada ao meio acadêmico universitário e à escrita de crônicas regionais, seu reconhecimento se dá principalmente através de homenagens institucionais, deferências na Universidade Estadual do Ceará e o prestígio comunitário no circuito literário do interior cearense, não acumulando grandes prêmios comerciais nacionais de editoras.
Além de dezenas de crônicas, poesias e artigos publicados em jornais, antologias e plataformas literárias como "Fazendo omelete num país patchwork" e "Como se fosse uma visita", destaca-se sua contribuição na organização de coletâneas, ensaios literários em congressos acadêmicos e materiais voltados para o estudo da Língua Portuguesa e Estilística.
A importância de Vicência Jaguaribe reside em seu papel como guardiã da memória cultural do Vale do Jaguaribe e como ponte de conhecimento. Através das salas de aula da UECE, ela formou gerações de novos professores e pesquisadores da literatura cearense. Na escrita criativa, suas crônicas e ensaios dão voz à identidade do interior nordestino com um olhar sofisticado e sensível, provando que a literatura de alto nível no Ceará pulsa com força para além das fronteiras da capital, Fortaleza.

Fontes:
Colaboração da autora, em 19. janeiro. 2010.
Biografia = Memórias de Jaguaruana, Recanto das Letras, Escavador, etc.

Walcyr Carrasco (Pinga-pinga de pinguço)


Um passeio nas vans que circulam de bar em bar.

Bares do Itaim, Jardins e Pinheiros andam oferecendo um serviço exclusivo para bebuns. É uma van que os leva até em casa. Trata-se, com o perdão de um trocadilho, de um pinga-pinga de pinguços. As vans circulam de bar em bar. arrebanhando os etílicos, durante a madrugada.

Desde que o novo Código de Trânsito entrou em vigor, a polícia anda rondando perto dos bares, bafômetro a postos, em busca de motoristas infratores. Com as vans, os bares garantem faturamento. Os clientes podem mergulhar nos copos, sem depois arriscar a pele no asfalto. Serviços semelhantes já existem na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Raramente tomo umas e outras. Soube, entretanto. que o clima nas vans é animadérrimo. Imaginem seis bêbados indo para casa. A van estaciona para pegar o sétimo, em novo bar. Descem os seis primeiros.

E aí, que tal a saideira?

Dá-lhe! O inocente que saiu para tomar um ou dois uísques entra na animação. Acorda embaixo do balcão de uma padaria. Também são frequentes os tipos belicosos e as discussões capazes de resolver o problema do futebol brasileiro.

Eu já disse que o Ronaldinho…

Ah, nego vem falar do Ronaldinho! Não vem! Nãããão veeeeem!

O Ronaldinho? O Ronaldínho?

Sóbrio por necessidade profissional. o motorista tenta aplacar os ânimos.

- Ô, pessoal, o Ronaldinho joga um bolão.

Os seis se unem.

– Cala a boca!

O coitado silencia. Abre a janela. É obrigado a dirigir a madrugada toda de vidro abaixado. Até o ar está impregnado. Se respirar mais fundo, fica de fogo.

Mais uma parada, entra um rapaz. Tomou só um ou dois goles.

– Eu sozinho. Lembrei da van. Que negócio é esse de ir para casa tão cedo?

Novo tropel. No veículo. fica só um, desmaiado, lá no fundo. Os outros descem, atrás de nova rodada. A van é ideal para fazer amizades. Há quem chegue até mais longe.

A senhora não está bêbada! – desconfia o motorista.

Ela afina a voz, bambeia as pernas.

– Estou bebinha, sim!

Consegue entrar. Aperta-se entre todos. Examina um por um, com o olhar esperto. Um está bêbado demais. Outro, passado da idade. O terceiro, sim, serve! Tem perfil de executivo. Ela afia as garras. Ele nem desconfia., quando descem no mesmo prédio. Sobem juntos no elevador, aterrissam no mesmo andar. Começa a ficar cabreiro quando, após várias tentativas, consegue botar a chave na porta e percebe que ela o espera. Não há tempo para perguntas. Ela entra depressa, vai até o bar e prepara dois uísques. Ele cai duro no sofá. Consegue erguer uma das pestanas meia hora depois.

Quem é você? – pergunta, trêmulo.

Você me convidou para um uísque! – ela retruca, revoltada.

O executivo vasculha o cérebro. Não consegue lembrar. Mas deve ter convidado. Senão, por que ela estaria em sua sala? Bebe mais uma dose para acordar e desmaia. Na semana seguinte, ela já está falando em casamento. Ele continua não se lembrando de nada.

Também existem alpinistas sociais. Como o sujeito que mora na periferia. Quer chegar em casa de carro. A maior parte dos bares adota limites mínimos de consumo, para dar direito a carona. Ele bebe o mínimo. Depois, exige que o levem para a casa. O motorista quase cai nas barrancas do Tietê para chegar até lá. O falso bebum desce alegremente. Os amigos, admirados.

-Tu tá por cima. hein, malandro? Chegando em casa de chofer!

Sorri, vitorioso. Sai mais barato do que táxi. O bêbado desmemoriado é uma tragédia.

O senhor não se lembra do endereço?

Eu aaaaaaaaaacho que é virando aquela rua…

Toca a vasculhar quarteirões.

Certo tipo de bebum não vai de van. É o imprevidente, que saiu de casa em seu próprio carro. O bar oferece o motorista. que dirige para o cliente. Mas bêbado detesta terminar a noite sozinho.
Soooobe aí. Veeeem tomar uma comigo.

Sinto muito. A van do bar vem me pegar em meia hora, esquiva-se o motorista.

Soooobe só meia hooora.

O chofer acaba mais bêbado do que o cliente. Quando a van chega, está cantando na sarjeta. Há quem possa se espantar com a ideia. É uma medida civilizada. Com este calor, poucos resistem a um chope, ou a dois, a três, quatro… Ficam a salvo pedestres e postes!
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WALCYR RODRIGUES CARRASCO nasceu em Bernardino de Campos (SP), em 1951. Nascido no interior de São Paulo, mudou-se aos 3 anos com a família para Marília (SP), onde passou a infância e a adolescência. Aos 16 anos, mudou-se para a São Paulo, onde fixou residência para estudar e consolidar sua carreira profissional. Inicialmente, ingressou no curso de História na USP, mas mudou de rumo e formou-se em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Trabalhou por anos em grandes redações da imprensa escrita, incluindo O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, Diário Popular e as revistas Veja e IstoÉ. Foi também diretor da icônica Revista Recreio. Na televisão, estreou no fim dos anos 1980 e tornou-se um dos principais e mais disputados autores da TV Globo, escrevendo fenômenos de audiência nos horários das seis, sete e nove horas.
Seu amor pelos livros começou na infância sob a forte influência da obra de Monteiro Lobato. Walcyr iniciou sua trajetória literária escrevendo contos infantis para revistas. Ao longo das décadas, expandiu sua produção para o teatro, escrevendo peças aclamadas como Batom e Êxtase. Paralelamente, tornou-se um autor infantojuvenil de imenso sucesso comercial e pedagógico, além de cronista ativo em publicações semanais. É membro imortal da Academia Paulista de Letras (APL).
Sua versatilidade já lhe rendeu láureas nos mais prestigiados segmentos do país e do exterior, tais como: Prêmio Jabuti de Literatura (2017) na categoria Adaptação, pela obra Romeu e Julieta; Prêmio Shell de Teatro como Melhor Autor pela peça Êxtase; Emmy International (2016) de Melhor Telenovela por Verdades Secretas; Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte); Selo "Altamente Recomendável" da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) pelo livro Em Busca de um Sonho; Prêmio Mérito Causas Imortais da Academia de Letras do Brasil.
Com mais de 60 livros publicados e milhões de exemplares vendidos, sua obra transita entre o público infantil, juvenil e adulto. Destacam-se: Vida de Droga; O Menino Narigudo; Em Busca de um Sonho; A Senhora das Velas (romance adulto); Pequenos Delitos (coletânea de crônicas); Um Anjo de Quatro Patas.
A importância de Walcyr Carrasco reside em sua extraordinária capacidade de formar novos leitores e democratizar o acesso à narrativa escrita. Ao escrever livros infantojuvenis que tratam de temas cotidianos, éticos e sociais com extrema sensibilidade, suas obras tornaram-se leituras obrigatórias em escolas de todo o Brasil, marcando gerações de estudantes. Além disso, Walcyr desempenha um papel fundamental como "ponte" entre a literatura e a cultura de massa. Suas adaptações de clássicos aproximam o público jovem de textos históricos complexos. Na televisão e no teatro, ele utiliza uma estrutura narrativa nitidamente folhetinesca e literária, provando que a arte de contar histórias consegue emocionar de forma legítima tanto as academias de letras quanto as camadas mais populares do país.

Fonte:
Revista VEJA. São Paulo. 11 de março 1998.
Biografia = E-Biografia, Wikipedia, Memória Globo, Folha de São Paulo, Academia Paulista de Letras, Biblioteca sem Limites, etc.

José de Alencar (Ao Correr da Pena I)


A primavera – Eclipse de uma estrela – Espetáculo de graça – As três graças dos gregos e as desgraças de um diletante – Importe de um espetáculo gratuito – o baile do Cassino – A valsa – Nova pomba da arca.

17 de setembro

Estamos na primavera, dizem os folhetins dos jornais, e a folhinha de Laemmert, que é autoridade nesta matéria. Não se pode por conseguinte admitir a menor dúvida a respeito. A poeira, o calor, as trovoadas, os casamentos e as moléstias, tudo anuncia que entramos na quadra feiticeira dos brincos e dos amores.

Que importa que o sol esteja de icterícia, que a Charton enrouqueça, que as noites sejam frias e úmidas, que todo o mundo ande de pigarro? Isto não quer dizer nada. Estamos na primavera. Os deputados, aves de arribação do tempo do inverno, bateram a linda plumagem; a Sibéria fechou-se por este ano, os buquês de baile vão tomando proporções gigantescas, as grinaldas das moças do tom são perfeitas jardineiras, a Casaloni recebe uma dúzia de ramalhetes por noite, e finalmente os anúncios de salsaparrilha de Sands e de Bristol começam a reproduzir-se com um crescendo animador.

Come, gentil spring! Vem, gentil quadra dos prazeres! Vem encher-nos os olhos de pó! Vem amarrotar-nos os colarinhos da camisa, e reduzir-nos à agradável condição de um vaso de filtrar água. Tu és a estação das flores, o mimo da natureza! Vem perfumar-nos com as exalações tépidas e fragrantes da Rua do Rosário, da Praia de Santa Luzia, e de todas as praias em geral!

Doce alívio dos velhos reumáticos, esperança consoladora dos médicos e dos boticários, sonho dourado dos proprietários das casinhas dos arrabaldes! Os sorveteiros, os vendedores de limonadas e ventarolas, os donos dos hotéis de Petrópolis, os banhos, os ônibus, as gôndolas e as barracas, te esperam com a ansiedade, e de suspirar por ti quase estão ficando tísicos (da bolsa).

Esta semana já começamos a sentir os salutares efeitos de tua benéfica influência! Vimos uma estrela do belo céu da Itália eclipsada por uma moeda de dois vinténs, e tivemos a agradável surpresa de ouvir o 1º ato do Trovatore e um speech (sirenes) da polícia, tudo de graça.

Alguns mal intencionados pretendem que a noite não foi tão gratuita como se diz; mas deixai-os falar; eu, que lá estive, posso afiançar-vos que o espetáculo foi todo de graça, como ides ver.

A autoridade policial depois de participar que ficava suspensa a representação e que os bilhetes estavam garantidos, sendo por conseguinte aquela noite de graça, como esta notícia excitasse algum rumor, declarou formalmente, e com toda a razão, que se acomodassem, porque a polícia, quando tratava de cumprir o seu dever, não era para graças.

Os namorados que tiveram duas noites de namoro pelo custo de uma, os donos de cocheira que ganharam o aluguel por metade do serviço, o boleeiro que empolgou a sua gorjeta sem contar as estrelas até a madrugada, aqueles que lá não foram, não só riram-se de graça, como acharam nisto uma graça extraordinária.

Muito olhar suplicante vi eu nos últimos momentos, humilhando-se diante de um rostozinho orgulhoso e ofendido, clamar com toda a eloquência do silêncio: grazia! grazia! É preciso advertir que o olhar estava no Teatro Provisório, e por isso não se deve admirar que falasse italiano; além de que, o olhar é poliglota e sabe todas as línguas melhor do que qualquer diplomata.

Finalmente, para completar a graça deste divertimento, as graças com os seus alvos vestidinhos brancos se reclinavam sobre a balaustrada dos camarotes, cheias de curiosidade, para verem o desfecho da comédia. E a este respeito lembra-me uma reflexão que fiz a tempos, e da qual não vos quero privar, porque é curiosa.

Os gregos, como gente prudente e cautelosa, inventaram unicamente três graças, e consta que viveram sempre muito bem com elas. Nós, de mal avisados que somos, queremos ter em todos os divertimentos, nos bailes, nos teatros e nos passeios uma porção delas, sem refletir que, logo que se ajuntarem muitas, podem formar necessariamente um grupo de dez graças.

Maldito calembur! Não vão já pensar que pretendo que as graças tenham sido a causa de tudo isto, nem também que todo aquele desapontamento fosse produzido por alguma graça da Charton. A Primadona estava realmente doente, e, aqui para nós, suspeito muito os meus colegas folhetinistas de serem a causa daquela súbita indisposição com o formidável terceto de elogios que entoaram domingo passado. Lembrem-se que os elogios e os aplausos comovem extraordinariamente um artista. Ainda ontem vi como ficaram fora de si as tímidas coristas, unicamente porque lhe deram duas ou três palmas!

Em toda esta noite, porém, o que houve de mais interessante foi o fato que vou contar-vos. Um velho diletante do meu conhecimento, ainda do tempo do magister dixit (o mestre disse), e para quem a palavra da autoridade é um evangelho, teve a infeliz lembrança de justamente nesta noite encomendar um magnífico buquê para oferecer à Charton no fim da representação. Apenas se declarou o relâche par indisposition (espetáculo cancelado por motivo de doença), o homem perdeu a cabeça, e, o que foi pior, com os apertos da saída perdeu igualmente a bengala, que lá deixou ficar com os ares de novo um chapéu comprado pela Páscoa.

No outro dia, o homem, que tinha seus hábitos antigos de comércio, viu-se em sérias dificuldades. Não podia deixar de acreditar, à vista da declaração da polícia, que o espetáculo da noite antecedente fora de graça; mas, ao mesmo tempo, tinha de dar saída no livro de despesas ao dinheiro que gastara com o aluguel do carro, com a gorjeta do boleeiro, com o par de luvas, com o buquê da Charton, o custo da bengala e o estrago do chapéu. Coçou a cabeça, tomou a sua pitada, e afinal escreveu o seguinte assento: Importe de um espetáculo gratuito no Teatro Provisório – 26$000!

O meu diletante ainda não sabia que a palavra grátis é um anacronismo no século XIX, e, quando se fala em qualquer coisa de graça, é apenas uma graça, que muitas vezes torna-se bem pesada, como lhe sucedeu. Provavelmente, depois deste dia, o velho lhe aditou ao seu testamento um codicilo proibindo terminantemente ao seu herdeiro os espetáculos gratuitos.

Assim a crônica futura desta heroica cidade consignará nas suas páginas que, pelo começo da primavera do ano de 1854, tivemos um divertimento de graça. Os nossos bisnetos, não falo dos militares de boca aberta , hão de pasmar quando lerem um acontecimento tão extraordinário, e, se nesse tempo ainda estiver em uso o latim, clamarão com toda a força dos pulmões: Miserabile dictu! (contar miserável!)

Depois de uma semelhante noite, era natural que os dias da semana corressem, como correram, monótonos e insípidos, e que o baile do Cassino estivesse tão frio e pouco animado. Entretanto aproveitei muito em ir, pois consegui perder as minhas antipatias pela valsa, a dança da moda. É verdade que não era uma mulher que valsava, mas um anjo. Um pezinho de Cendrillon, um corpinho de fada, uma boquinha de rosa, é sempre coisa de ver-se, ainda mesmo em corrupios.

Fiz a amende honorable (pedido público de desculpas) de minhas opiniões antigas, e, vendo nos rápidos volteios da dança voluptuosa passar-me por momentos diante dos olhos aquele rostinho iluminado por um sorriso tão ingênuo, não pude deixar de fazer uma comparação meio sentimental e meio cosmogônica, que talvez classifiqueis de original, mas que em todo o caso é verdadeira. Quando o mar, que Shakespeare disse ser a imagem da inconstância, revolveu o globo num cataclisma e cobriu a terra com as águas do dilúvio, foi uma pomba o emblema da inocência, que anunciou aos homens a bonança, trazendo no bico um raminho de oliveira. Se algum dia uma paixão de loureira vos revolver a alma, e deixar-vos o desgosto e a desilusão, há de ser um anjinho inocente como aquele quem vos anunciará a paz do coração, trazendo nos lábios o sorriso do amor o mais casto e mais puro.
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JOSÉ MARTINIANO DE ALENCAR nasceu em Messejana (CE), em 1829. Faleceu prematuramente de tuberculose na cidade do Rio de Janeiro em 1877, aos 48 anos. Mudou-se ainda na infância (aos 9 anos) com a família para o Rio de Janeiro, então capital do Império. Passou também temporadas em São Paulo e Olinda (PE) durante seus anos de formação acadêmica. No fim da vida, buscou tratamento para a saúde na Europa, mas retornou ao Rio de Janeiro pouco antes de morrer. Teve uma carreira multifacetada de grande destaque na vida pública do Brasil Império. Formou-se em Direito pelas Faculdades de São Paulo e Olinda. Atuou como advogado, jornalista (redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro) e teve uma expressiva carreira na política. Foi deputado geral pelo Ceará, líder partidário e chegou ao cargo de Ministro da Justiça (1868–1870) no gabinete do Partido Conservador. 
Iniciou sua trajetória escrevendo folhetins para jornais, formato no qual publicou suas primeiras grandes obras. Alencar liderou o movimento do Romantismo brasileiro, assumindo o projeto consciente de fundar uma literatura genuinamente nacional. Buscou criar uma língua literária que se distanciasse do português castiço de Portugal, incorporando o falar brasileiro, as paisagens locais, a fauna, a flora e as lendas nativas. Faleceu duas décadas antes da fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1897. No entanto, por sua magnitude, foi escolhido por Machado de Assis como o Patrono da Cadeira nº 23 da instituição. Em vida, participou de grêmios intelectuais importantes do século XIX, como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Na época em que viveu (século XIX), não existiam prêmios literários nos moldes modernos (como o Prêmio Jabuti ou Camões). O maior reconhecimento que um autor recebia era o sucesso de público (comercialização dos folhetins), o prestígio na corte e o aval de intelectuais contemporâneos e da família imperial (como o próprio Dom Pedro II, que acompanhava a produção cultural).
Sua vasta produção literária é dividida e categorizada pelo público e pela crítica em quatro vertentes temáticas principais:
Romances Indianistas: O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874).
Romances Urbanos (ou de Costumes): Cinco Minutos (1856), A Viuvinha (1857), Lucíola (1862), Diva (1864) e Senhora (1875).
Romances Regionais: O Gaúcho (1870), O Tronco do Ipê (1871), Til (1872) e O Sertanejo (1875).
Romances Históricos: As Minas de Prata (1865) e A Guerra dos Mascates (1873).
Também escreveu comédia e drama para o Teatro, como as peças O Demônio Familiar (1857) e Mãe (1860).
Ele é considerado o "arquiteto" da literatura brasileira autônoma, pois compreendeu que uma nação recém-independente precisava de uma identidade cultural própria para se consolidar. Ao criar a trilogia indianista, transformou o indígena no herói mítico nacional e no símbolo da gênese do povo brasileiro. Com seus romances urbanos, mapeou e criticou a burguesia fluminense do Segundo Reinado (especialmente o papel da mulher e as relações por interesse, como o casamento por dote). Por fim, ao escrever os romances regionais, realizou um inventário geográfico e cultural do vasto território brasileiro. Alencar inventou uma forma de narrar o Brasil para os próprios brasileiros.

Fonte:
ALENCAR, José de. Ao correr da pena. Publicado originalmente em 1874.

Antonio Brás Constante (Viagem que se Faz Dentro da Viagem)


As viagens tendem a começar bem, pois se iniciam em nossa mente. Você ao pensar em férias de verdade já se imagina em alguma praia espetacular, ou em alguma ilha paradisíaca, dirigindo um belo conversível vermelho, cheio de dinheiro e de belas mulheres, loucamente apaixonadas por você.

Hospedagem nos melhores hotéis, banhos de piscina, baladas, refeições que custam mais do que um salário mínimo. Que delícia de férias. Tudo vai indo muito bem, até que você escuta os resmungos de sua esposa, mandando-o parar de sonhar acordado, sair do sofá, e ir colocando todas as sacolas de roupa e comida no carro.

Ao levantar-se do sofá, você ainda consegue sentir os últimos restos de nostalgia se esvaindo de suas lembranças, percebendo em uma última fagulha de pensamento, aquela loira que estava sentada ao seu lado no conversível, dando-lhe uma piscadela de olho. Mas antes que você tenha tempo de pedir o telefone dela, a imagem some por completo.

Passa então a assumir seu papel de burro de carga da família. Junta todas as sacolas e mochilas, levando-as até o seu possante, modelo 1983 (chamado de possante, pois em todo lugar que para, deixa uma poça de óleo).

Começa a partir daí o longo caminho para se chegar ao calvário… Digo a praia, que não é espetacular, mas é a mais próxima da sua cidade. Repleta de pedágios, acidentes, pedágios, engarrafamentos, pedágios, buracos, pedágios, pardais e mais pedágios.

As viagens (com ênfase no litoral) são divididas em três etapas de gastos. Na primeira, se gasta na compra de roupas para usar na praia, bronzeadores e se gasta também com a manutenção do carro.

Na segunda etapa, os gastos são com o pedágio, gasolina, outro pedágio, compra de lembrancinhas na estrada, mais pedágios (espero não ter me esquecido de nenhum pedágio).

Até este momento, todas as despesas foram cobertas graças as suas reservas financeiras, guardadas para custear as férias, porém, insuficientes. Tudo que é pago a partir da terceira e última etapa, são frutos de cheques pré-datados, empréstimos e do limite de seu cheque especial. As férias parecem verdadeiras ilhas, cercadas de dívidas por todos os lados.

Os valores do dispêndio da terceira etapa equivalem a mais de 50% de tudo que vai ser gasto durante a viagem. Neles está incluída a compra de picolés, milho cozido, carne, aluguel, multas, etc (você não achou que iria para praia com seu possante em estado crítico e não levaria multa, achou?).

Mas não desanime, tenha por consolo que o bom nas viagens é que enquanto toda família dorme nos bancos de carona, você pode voltar a sonhar acordado enquanto dirige. Com sorte ainda consegue achar a tal loira do conversível vermelho em suas lembranças, e curtir os prazeres de férias inesquecíveis… Em seus sonhos.
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ANTÔNIO BRÁS CONSTANTE é um escritor, cronista e contista brasileiro contemporâneo, amplamente reconhecido no ambiente digital por suas produções literárias marcadas pelo humor satírico e pela ironia cotidiana. Embora não haja um registro público detalhado de sua data de nascimento ou de uma biografia institucional tradicionalizada pelas grandes academias nacionais, suas publicações fornecem informações precisas sobre sua trajetória literária. É um autor gaúcho, residindo e desenvolvendo grande parte de suas atividades e inspirações na cidade de Canoas/RS. Ele costuma se definir publicamente de forma bem-humorada como um "eterno aprendiz de escritor, amigo e amante da musa inspiração". Teve forte atuação na chamada "literatura de internet" durante as décadas de 2000 e 2010. Ganhou notoriedade ao publicar textos, crônicas e contos em plataformas e blogs como o Recanto das Letras, Overmundo e WebArtigos. Sua marca registrada é o uso do humor azedo, da sátira social e de reflexões irônicas sobre a modernidade (como o vício em redes sociais e e-mails) e as reviravoltas da vida cotidiana. Seu foco de atuação sempre esteve voltado à produção independente e à democratização da leitura via internet. Embora não possua grandes prêmios institucionais listados, o autor já integrou seleções de destaque popular. Sua obra alcançou o ranking dos 100 Livros de Crônicas Mais Lidos e dos 50 Melhor Avaliados na plataforma literária Skoob, uma das maiores comunidades de leitores do Brasil. Livros e Textos Publicados: Hoje é seu aniversário – PREPARE-SE: Livro físico de crônicas e contos de humor. É autor de crônicas e contos populares na internet. 
A importância de Antônio Brás Constante reside na sua capacidade de desmistificar a literatura e aproximá-la do público geral através do humor cotidiano. Ao utilizar a internet como seu principal vetor de distribuição, ele se tornou um exemplo de escritor que rompeu as barreiras editoriais tradicionais. Seus textos conseguem atingir diferentes camadas sociais, servindo tanto para o entretenimento leve de leitores assíduos quanto como ferramenta de mediação de leitura e debates socioeducativos para jovens em salas de aula e projetos de reinserção social.

Fontes:
Colaboração do escritor.
Biografia = Rubem.wordpress; Overmundo; Recanto das Letras; Olhar Direto; Web Artigos; etc.

Versos Esparsas * 6 *