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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Hely Marés de Souza (Tertúlia da Saudade)



A neve, o frio, a trincheira...
o pracinha suportou.
Pela honra brasileira
ele não se intimidou.

A nossa brava Nação,
em festa de aniversário,
recebe nossa expressão
no seu quinto centenário!

Ao cair lento da tarde...
o sol reflete brilhante
como fogo sem alarde,
e se apaga num instante.

Ao festejar o natal
usemos a tradição:
para as crianças, presentes,
e aos pais, grande emoção!

Ao retornar vitorioso,
bandeira como agasalho,
pracinha chegou ansioso
pra dedicar-se ao trabalho.

Aos amigos trovadores
desejo um Feliz Natal
vinho de vários sabores
num abraço fraternal.

Aquelas nuvens revoltas
sob o imenso firmamento,
parecem ovelhas soltas
voando a favor do vento.

Brasil com quinhentos anos,
merece ser avaliado:
alguns curtem desenganos
e outros... feliz passado!

Bravo amigo e companheiro
caçador de sabiá.
Não precisa usar dinheiro
para aprender a trovar.

Com lua cheia, serena,
perscrutando o firmamento,
aos poucos me integro à cena...
voando em meu pensamento!

De uma pinha escultural
o pinheiro é gerador,
dá pinhão, castanha real...
de inexcedível sabor!

Deus fez o planeta Terra
e, pra companheira sua,
pelo valor que ele encerra,
num sopro... criou a lua!

Da poesia somos fãs,
por destino, combatentes!
A trova cria titãs,
a guerra cria valentes.

Esposa amada e amorosa,
feliz em meio à família,
trouxe ao mundo, esperançosa:
-A Vânia, o Hely e a Brasília...!

Glória ao Brasil, neste evento!
Junto a paz universal!
Saudemos, neste momento
a bandeira nacional.

Glória às forças brasileiras
em festa o povo gritava,
quando derrotou trincheiras
e o algoz que os torturava!

História, trova e civismo
a transbordar neste instante,
com salvas mui respeitosas
ao General Comandante.

Hoje, medalha no peito,
confirma seu destemor,
pracinha foi sem defeito,
à Pátria rendeu amor!

Já pronto pra trabalhar,
não terá dificuldade,
serviço não vai faltar
tamanha é a capacidade!

Mais uma etapa vencida,
cada importante vitória
foi à Pátria oferecida,
pra enriquecer nossa história.

Mascarenhas comandou
sempre a caminho da glória
e Deus o recompensou
com os louros da vitória.

Mascarenhas foi coerente
no comando e na ação,
quando impôs, pujantemente,
ao “tedesco” a rendição.

Mas, o que trouxe a vitória
alguém até já explicou:
-A Itália tem na memória
que a FEB a libertou.

Na guerra, audaz e engenhoso,
negou trégua ao inimigo,
sem se tornar rancoroso,
trouxe a vitória consigo.

Na guerra foi varonil,
na volta, um trabalhador.
O pracinha do Brasil
trouxe a paz e muito amor.

Na Itália o barco aportou,
a bordo um grande salseiro...
O Iwersen se apressou
e desembarcou primeiro!

Na Legião Paranaense,
“Casa do Expedicionário”,
a UBT em muito suspense
faz da Trova um relicário...

Nasci onde o vento bate
e junto a um grande terreiro,
ao lado um pé de erva-mate
e um majestoso pinheiro.

Neste dia tão festivo,
data em que você nasceu,
receba o abraço afetivo
de quem nunca o esqueceu.

No mundo da fantasia
que faz sorrir a criança,
o palhaço, na folia,
é o arauto da esperança!

No seu lar pleno de amor
neste natal reine a paz,
rememorando o esplendor
de dois mil anos atrás.

O Brasil foi ao Timor
salvar aquela nação.
Levou mensagem de amor
e cumpriu sua missão!

O Brasil, país ordeiro,
jamais pensou em maldade.
Foi à guerra o brasileiro
defender a liberdade.

O civismo e a poesia
são elos de ligação
que unem, com maestria,
Trovadores e a Legião!

O homem que foi à guerra,
água fresca em seu cantil,
por certo foi um gigante
na defesa do Brasil.

O pracinha da “Legião”,
sempre bem representada,
abraça o poeta irmão
e augura feliz jornada!

Padre Alberto, capelão
da FEB expedicionário,
na Itália com distinção
lutou como um missionário!

Persistir na caminhada
de trovas sensacionais,
é missão tão delicada
quanto regar os rosais!

Pracinha soldado bamba
em Camaiore atacou
com granadas fez um samba
e o tedesco se entregou.

Quero rever os meus pagos
e ouvir toda a velha história.
Quero sentir os afagos
da minha União da Vitória.

Saúdo o neto engenheiro!
sucesso terá na soma...
Provou ser bom brasileiro
e conquistou o diploma.

Se eu devo até navegar
nas ondas bravas da vida,
preciso com você estar:
Meu amor, minha querida!

Sem demonstrar seu cansaço
e sem pensar no porvir,
no picadeiro, o palhaço
faz a plateia sorrir.

Sob intensa artilharia
conquistou Monte Castello,
onde hasteou com galhardia
o pano verde e amarelo.

Zenóbio grande guerreiro
comandou a Infantaria,
mas não superou Cordeiro...
- Poderosa Artilharia!!!
_________________________________
Hely Marés de Souza (1923 - 2013)
    Hely Marés de Souza, nasceu em 1923, em União da Vitória/PR. Descende de tradicional família espanhola que introduziu o cultivo da erva-mate naquela cidade e construiu o Engenho do Mate no século XIX, localizado em Rondinha, Campo Largo. Formou-se em Direito, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde também cursou até o terceiro ano de Engenharia. Aos 19 anos, foi subitamente convocado para integrar a Força Expedicionária Brasileira durante a II Guerra Mundial, na Itália, quando o Brasil encontrava-se ameaçado pela tirania nazi-fascista. Participou do 6º Regimento de Infantaria, 2º Grupo de Artilharia, 9º Batalhão de Engenharia, 2º Grupo de Obuses Auto Rebocado e de todas as ações da artilharia brasileira nos combates de Monte Castello, Montese, Camaiore, Belvedere, Abetaia, Monte Della Castellina, Pietra Collina, entre outros. No seu retorno ao Brasil, foi um dos fundadores da Legião Paranaense do Expedicionário, sócio n° 22, entre os 2500 registrados e seu presidente por sete gestões.
    Como expedicionário, Hely fez a diferença. Ao retornar ao Brasil, vivenciou as dificuldades enfrentadas por muitos dos ex-companheiros de caserna, que diante dos horrores da guerra precisavam de apoio psicológico e financeiro. Se as famílias eram ajudadas pelo governo federal até então, o auxílio cessou com o retorno dos soldados. Diante disso, Hely se empenhou na formação e fundação da Casa do Expedicionário de Curitiba, onde atualmente localiza-se o Museu do Expedicionário, no bairro Alto da XV, para dar apoio aos ex-combatentes e suas famílias. Formou-se em Direito pela UFPR e trabalhou no Palácio Iguaçu, onde ocupou o cargo de Procurador do Estado, tornando-se o consultor das questões mais complexas do Direito Público. Durante 30 anos, trabalhou no Palácio Iguaçu, com 16 governadores. Foi, diretor jurídico do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul – BRDE. 
    Foi condecorado com as medalhas de Campanha e de Guerra, concedidas pelo Ministério da Guerra; de Mérito, pelo Governo do Estado do Paraná; Mascarenhas de Moraes, pela Associação dos Ex-Combatentes do Brasil; do Pacificador, conferida pelo Ministério do Exército; de Cavaleiro da Ordem do Mérito, medalha de ouro conferida pelo Governo Polonês, em Londres; de Reconhecimento, pela Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB); da Vitória, pela Associação dos Ex-Combatentes do Brasil/RJ, e Max Wolff Filho, outorgada pela Legião Paranaense do Expedicionário. Grande incentivador da cultura e membro de várias entidades culturais: Membro efetivo do Círculo de Estudos Bandeirantes, Centro Cultural Ítalo-Brasileiro Dante Alighieri, Soberana Ordem do Sapo, Sociedade dos Amigos de Alfredo Andersen, Academia de Cultura de Curitiba, Clube dos Vinte e Um Irmãos Amigos e ANVFEB do Rio de Janeiro. Foi escritor, poeta, pesquisador e trovador . Faleceu em 2013.

Fontes:
Trovas de Vânia França de Souza Ennes e Hely Marés de Souza. 
Coleção Terra e Céu. vol. LXVIII. Porto Alegre/RS: Texto Certo, 2016.

Apollo Taborda França (Tertúlia da Saudade)

 

1
A beleza da mulher
tem aura de alacridade…
Como a flor, um bem-me-quer,
inspira a fidelidade!
2
 “Água mole em pedra dura”
   – No ditado popular…
  “Tanto bate até que fura”,
  não se tem o que negar!
   3
   A minha trova é silente,
    toda de luz e calor…
 Ponho na rima meu poente,
   meu universo de amor!
    4
  “A moda não incomoda”
 clama incauta a sociedade...
 Enquanto isso corre a roda
   e se esvai a probidade!
 5
    Amor à primeira vista,
   das loucuras a maior…
  Nos abaixa muito a crista
  e nos cega, o que é pior!
6
“Amor com amor se paga”,
 que emotiva sensação…
No coração sempre há vaga,
  pra atender esse refrão!
  7
   A silhueta do Pinheiro
é expressão de elegância…
Tão bela como um cruzeiro,
  se destaca na distância!
  8
A Trova boa, sentida,
fluindo com emoção…
 É como a prece florida
  que brota do coração!
   9
A Trova não morre nunca,
Retempera a humanidade
e vence a tristeza adunca,
 alegrando a mocidade!
  10
  A Trova que tem valor
 é muito simples, singela…
 E diz um mundo de amor,
com tintas de uma aquarela!
11
Aves grandes e pequenas,
  de refulgentes roupagens...
 Cores que vão às centenas,
 celebrizando as plumagens!
 12
Borboletas, aves, flores,
 que bem nutrem os florais...
  Dão contornos às silhuetas
   Dos esbeltos pinheirais!
    13
Cada página da vida,
Faz lembrar um grande amor...
É você, minha querida,
  a que guardo com fervor!
   14
Cai a tarde, fico triste,
pressuroso como o quê...
O coração não resiste
a saudade de você!
15
   Com garra de trovador,
vou seguindo meus caminhos...
Venturoso e com amor,
  num roseiral sem espinhos!
 16
 Coração que ama não chora
males que afligem a gente;
 exalta e nunca deplora
  a mágoa dura, pungente!
17
Curitiba é chão de amores,
  toda feita de candura…
 O seu perfume é de flores,
 Deus namora lá na Altura!
 18
 Das rosas do meu jardim,
 Maria sempre a mais bela...
perfuma mais que o jasmim,
 que floresce em torno dela!
19
 “Devagar se vai ao longe”,
 mas, não parar é preciso...
Usar a calma de um monge,
  a cautela e o bom juízo!
  20
 Disse adeus à virgindade,
 optou, em seus dilemas...
Quis amar com pouca idade:
 – Está cheia de problemas!
21
  Dizem “espeto de pau”
  para a casa do ferreiro...
Que enriquece o seu mingau,
 tendo “prata” o ano inteiro!
 22
   E no afã da economia,
 “Barato sempre sai caro”...
  Pãodurismo, que mania,
 só nos leva ao desamparo!
23
E “Quem planta vento colhe
   tempestade" pela vida...
  Se aniquila qual um molhe
   que perdeu sua medida!
24
  Eu sinto as trovas nas veias,
  meu sangue todo alvoroço…
  Verso me envolve nas teias,
   meu coração é de moço!
25
 Há exceção em toda a regra,
      o sistema é flexível…
Pois, que a vida assim se alegra,
   nada ficando impossível!
26
 “Mais vale quem Deus ajuda”
   na vertigem da semana...
 “Do que quem cedo madruga”
 sempre queimando a pestana!
27
Melhor fora não amar,
não ficaria à mercê...
Não seria mais vulgar,
de pensar tanto em você!
28
    Meu coração é valente,
não chora o mal que me fez...
E diz que bem de repente,
termina a sua altivez!
29
Minhas trovas são pingentes,
   incrustadas no aranhol…
    São idéias imanentes,
   lindas gemas sob o sol.
30
   Na limpeza e na saúde,
  os sucessos dessa lida…
   Valorizam certo, amiúde,
    as asperezas da vida!
31
  Não cantes loas ao Chefe,
  sofrerás qual um proscrito,
    levarás um tal tabefe,
   pois, assim está escrito!
32
  Nossa marca é o Pinheiro,
  soberano sobre a mata…
   É esbelto, sobranceiro,
  seu murmúrio uma sonata!
33
  O bem não dura sem fim,
como o mal também não dura…
    Então, vivamos assim,
  na amizade e na brandura!
  34
    O teu sorriso menina
  é feiticeiro demais...
   Tão forte qual vitamina,
 muito alvoroça meus ais!
35
Página triste da vida,
não se guarda na lembrança...
Sim, aquela bem querida,
que nos trouxe a esperança!
 36
    Para fazer boa trova,
  verso puro que se integra,
  cuide a rima, como prova,
   e respeite bem a regra!
37
   “Para quem ama o feio
     o bonito lhe parece”...
   Por bondade é galanteio,
   com nobreza é uma prece!
  38
  “Para um bom entendedor,
   só meia palavra basta”...
   Para ele um grã-louvor,
por ter compreensão bem vasta!
39
 Poeta diz sempre o que quer,
na verdade ou de impulsão...
 Tenho certeza e assim penso,
com você e sem vaidade!
 40
Por trovador, eu me esmero,
   no rito de bem compor…
 Nas minhas trovas sou mero,
  puro instrumento do amor!
  41
   Pra você vencer na vida,
  ter vitória assim perfeita…
   Leve a sério a sua lida,
   esta é a melhor receita!
    42
Quando a gente ama não sente,
  o mal que fazem prá nós
 Escondemos d' alma silente,
   num secreto albornoz!
     43
“Quem espera sempre alcança”,
   é hoje outra a verdade…
   Quem espera só se cansa
   e perde a oportunidade!
44
 Quem falou que a trova é dura,
 sem valor, um tanto azeda?…
  Pois que certa ela perdura,
   se consagra de vereda!
45
 Quem tem estro e tem cultura
    e se inclina à poesia,
   vai na Trova com lisura,
  cheio de graça e estesia!
46
 Que reluz nem sempre é ouro,
 que cai nem sempre balança…
  Por isso, chega de agouro,
  não percamos a confiança!
   47
  Sempre no pequeno frasco
 é que está a grande essência…
   E a Trova traz no casco,
     o rigor dessa exigência!
     48
  Sempre “o santo desconfia
quando a esmola é por demais”...
 Refinada hipocrisia,
    a ilustrar nossos anais!
49
 Sempre que nos cessa a calma,
    falta-nos a educação…
   A rudeza nos fere a alma,
     martiriza o coração!
50
    Sete sílabas por cima
com idéia sempre nova,
e cadência, boa rima,
numa quadra…a bela Trova!
  51
    Sou trovador e entendo
   a rima, em forma de flor…
   E tal qual um reverendo,
    só rezo trovas de amor.
52
Sou trovador sem remendo,
   o verso meu é de cor…
 Vou com assombro dizendo
 as minhas trovas de amor!
 53
 Sou trovador, tenho senso
 da importância da poesia:
 Encerra tudo o que penso,
realidade e fantasia.
54
Sou trovador venturoso,
conheço desse fulgor…
Trovar de modo charmoso
sobre a mulher, com sabor!
55
Trova tem aura dileta,
enebria o pensamento…
É magia do poeta,
arroubo do seu talento!
   56
Trova tem sabedoria,
é tão fértil como a terra…
Bons conceitos ela cria,
pelas verdades que encerra!
57
Trovas são um doce encanto,
delicadas por demais…
Nelas vibro, com espanto,
no calor dos meus florais.
58
Uma Trova de cadência,
conteúdo e expressão…
Precisa de inteligência
e muita reflexão!
59
Uma Trova…um belo tema,
Pra dizer o que se quer;
Quando o poeta é bom, da gema,
Inspira-se…na mulher!
60
Você quer boa saúde,
com perfeita digestão?…
Mastigar bem, é virtude,
esta a nossa sugestão!
61
Vale mais do que um troféu.
é letra favorita,
Decisiva e dá apogeu;
Valoriza toda escrita.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Apollo Taborda França (1926 – 2017)
APOLLO TABORDA FRANÇA foi uma das personalidades mais marcantes da vida cultural, acadêmica e literária do Paraná. Vindo de uma ilustre linhagem de intelectuais, ele aliou o lirismo da trova com uma prolífica atuação como advogado, jornalista e professor. Nasceu em Curitiba/PR, em 1926. Filho do célebre poeta Heitor Stockler de França e de Brasília Taborda Ribas de França (e tio da trovadora Vânia Ennes). Faleceu na mesma cidade, em 2017, aos 90 anos de idade. Graduou-se em Direito (1952) e em Ciências Econômicas (1959) pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Formou-se também em Jornalismo pela Faculdade Católica de Filosofia (atual PUCPR). Exerceu a chefia da Consultoria e Procuradoria Jurídica do Sesi/PR por 18 anos. Foi redator do matutino O Estado do Paraná por mais de duas décadas. Essa vasta experiência serviu de base para sua carreira como professor e coordenador do Curso de Jornalismo da UFPR, onde lecionou por muitos anos. Fundou e dirigiu ainda o quinzenário Tribuna de Guaratuba.
Dono de um estilo focado na clareza e na musicalidade da poesia clássica, liderou as principais instituições literárias do estado: Academia Paranaense de Letras (APL): Foi o primeiro ocupante da cadeira nº 36 e o jornalista responsável pela revista oficial da instituição (Academus); Centro de Letras do Paraná: Presidiu a entidade na gestão 1993/1994; Academia de Letras José de Alencar: Foi presidente na gestão 1969/1970; Teve papel de liderança máxima na trova, presidindo a UBT Seção Curitiba (em duas gestões), a UBT Estadual do Paraná e atuando como vice-presidente do Conselho da Região Sul. Comandou de 2004 a 2010 a tradicional Soberana Ordem do Sapo, uma famosa confraria cultural curitibana.
Recebeu diversas honrarias civis e literárias ao longo de sua trajetória, incluindo o reconhecimento de entidades como o Rotary Club de Curitiba (onde criou concursos de poesia) e premiações em Jogos Florais pelo Brasil. Publicou 17 livros no total, divididos entre prosa, ensaios, poesias e trovas. Entre eles, destacam-se cinco livros inteiramente dedicados às Trovas.
Apollo Taborda França foi fundamental para o fortalecimento do ecossistema literário paranaense no século XX. Ele não apenas herdou a tradição literária de sua família, mas expandiu-a ao formar gerações de novos comunicadores e escritores através das salas de aula de jornalismo da UFPR. No universo da trova, sua importância está ligada à defesa ferrenha da estrutura técnica perfeita do gênero. Ele usava as trovas como ferramentas de sociabilidade, distribuindo-as em cartões para amigos e alunos, e consolidou Curitiba como uma das capitais mais ativas do movimento trovadoresco do país. 

Sites Consultados = Academia Paranaense de Letras, Singrando Horizonte (dados enviados por Vânia Ennes), Gazeta do Povo, Portal Cá Estamos Nós, Oceano de Letras, Academia Brasileira Rotária de Letras Paraná.

Maurício Friedrich (Colheita de Trovas)


A alva bruma que enverdece
os campos das pradarias
me faz dizer velha prece,
no entardecer dos meus dias!

Almejem sempre a vitória,
em todos empreendimentos,
que ficarão na memória,
pelos seus merecimentos.

A lua no céu passeia
num chão coberto de estrela,
deixa o sol, que tanto anseia
louco de amor, para vê-la.

Amar-te, pra mim, foi vício,
doença que não tem cura;
e este foi grande suplício
que me levou à loucura.

Amor é doce tormento!
Amor é vício sem cura!
É o amor um linimento
entre a razão e a loucura!

Amor, palavra tão doce
que nos enche de prazer;
é, às vezes, como se fosse
dor, a nos fazer sofrer!

A nora desesperada,
ao ver a sogra na porta.
lendo a receita trocada,
pôs formicida na torta.

Ansioso, meu coração,
vive, sempre, nesta espera:
de uma nova floração
da dourada primavera.

Ao chegar o meu outono,
sensato, hoje sou bombeiro:
quando jovem, perdi sono
por querer fazer braseiro!

Ao idoso, honra e venera,
a sua sabedoria;
na velhice, que te espera,
terás tu, a primazia...

Ao Novo Tempo a vitória,
neste concurso de paz:
pois, já bem merece a glória
quem pela trova assim faz.

Ao ter fé em Nosso Senhor,
levo a vida em linha reta,
pois, com fé, esperança e amor,
minha vida se completa.

Ao ver a Lua Bailando,
com tanto brilho e esplendor,
eu já me ponho rezando:
- Obrigado, meu Senhor!

Aposentou-se o freguês…
e a pobre esposa reclama
que, banho, é só um por mês,
mas, sem tirar o pijama!

Árido, feito um deserto,
meu coração sofredor
anseia, disto estou certo,
ser fértil com teu amor!

As flores todas são belas,
mesmo as que nascem em abrolhos,
mas, as mais lindas, dentre elas,
são as que vêm nossos olhos.

As folhas mortas que, ao vento,
bailam e caem ao chão,
me evocam, por um momento,
os ventos de uma paixão!

As marcas do teu batom
deixadas no meu cristal,
têm sabor e têm o tom
de um grande amor, no final...

As marcas que a tua ausência,
deixou em meu coração,
são as marcas da pungência
da nossa separação.

As trovas de um trovador
são belas, ricas em rimas
pois são feitas com amor,
verdadeiras obras primas!

A trova que é dita ao vento
tal qual o vento é fugaz;
existe, por um momento...
...e o próprio vento a desfaz!

A vida, às vezes, malvada,
traiçoeira, inconsequente;
nos tira a pessoa amada
e não tem pena da gente.

Bailando sempre a procura
do néctar de belas flores,
o beija-flor, com ternura
não se importa com as cores.

Beber da fonte hipocrátlca
para o médico é um dever,
é a fórmula democrática
da medicina exercer!

Beijando, a brisa, meu rosto,
meiga, me faz relembrar,
com saudade e muito gosto,
o amor que pude lhe dar.

Bela musa, encantadora!
Igual eu nunca vi;
meiga e doce inspiradora;
foste tu que eu escolhi!

Carrego, dentro do peito,
a cicatriz de uma dor
que jamais me dá o direito,
de reaver teu amor!

Casamento - ação esperta!
Isto já está definido,
onde uma parte está certa
e a outra é sempre o marido!

Combater, do fumo o vício
para o médico é um mister:
exaltar seu malefício
como a ética requer!

Combater com veemência
o triste vício do fumo,
sem dó e sem clemência,
pra saúde andar no rumo!

Com grande amor e trabalho,
carinho e dedicação,
do meu amor eu me valho,
pra fisgar teu coração!

Como é bonito o Direito,
quando se julga uma ação
e, ao exercê-lo, perfeito,
sempre o que impera é a razão.

Como pode uma criança,
ser vítima de agressão,
se tem, cheio de esperança,
o inocente coração?

Como são belas as serras
do Estado do Paraná!
Que têm cobertas as terras
das cores do manacá!

Completa felicidade
é, por certo, uma utopia;
pois quem já sentiu saudade,
já sofreu melancolia.

Compondo versos eu sonho,
que trovador, inda, serei
e, nos versos, que componho
no teu nome já pensei!

Contigo sinto que a vida
tem sentido e fulgor,
pois teus carinhos, querida,
dão esteio ao meu amor!

Cuida, ao contar um segredo,
em quem tu vais confiar:
é a liberdade, bem cedo,
que, ao certo, vais entregar...

Dando fim às duras penas,
nossa princesa c'oa mão,
com dois artigos, apenas,
aboliu a escravidão...

Daquele beijo roubado,
em pausa de tua festa,
sinto o gosto adocicado,
o bom sabor que me resta.

Das felizes madrugadas,
sozinho, curto a saudade...
– Que alegria, nas noitadas,
dos tempos da mocidade!

Das folhas, vendo o cair,
pressinto o chegar do inverno
e o coração, a invadir,
saudade... do lar paterno,

De areia, fiz um castelo,
nas dunas, em vastidão,
e o vento, sem ter rasteio,
soprou...pôs tudo no chão.

Decidido e corajoso,
à tua porta eu bati,
foi o susto mais gostoso
que eu já pude dar em ti.

Dentre as coisas que cultivo,
para evitar vida obscura,
o saber é o incentivo
que aumenta minha cultura.

Dentre tantas namoradas,
que já tive em minha vida
e de todas as jornadas,
foste tu a escolhida!

Descrente, sou eu, de tudo...
muito mais sou de sereia
mas, é no verão, contudo,
que vejo tanta na areia!

Desde o dia em que partiste,
triste está meu coração:
este pobre não resiste
a dor da separação.

Desta vida, na escalada,
cada degrau tem a altura,
muito bem delimitada
no tamanho da cultura.

Distante de ti, amor,
noites insones, eu passo
fazendo a Deus um clamor:
pra ver-te, um dia, em meu braço!

Do amor, divino expressar,
a encantadora seresta
faz da janela um altar,
de apaixonados, em festa.

Do pai seguiu a carreira,
com amor, dedicação:
Tinha a semente certeira
plantada em seu coração!

Do sol em raios envolta
vi-te passar tão ditosa,
com puros gestos, tão solta,
tendo a beleza da rosa.

Dos corações, sempre em festa,
o amor, divino expressar...
faz com que cada seresta
torne a janela um altar!

Dos teus carinhos, distante,
na insônia de cada noite,
fico a pensar, num instante,
esta distância é um açoite.

É indizível a tristeza,
dum sabiá na gaiola;
cabisbaixo e sem beleza
nem à amada, cantarola!

É nobre de coração,
o médico pediatra:
dá amor, carinho e afeição,
à toda criança que trata!

É tão atroz a distância
a nos separar, amor,
que só a saudade, em constância
ameniza a minha dor.

É tão linda esta menina!
Linda? Parece boneca...
Mas, se namora na esquina,
logo vira uma sapeca.

É uma escultura, bem-feita,
de uma costela qualquer:
criada por Deus, perfeita,
que lhe deu nome...: mulher!

É verdadeira a amizade,
quando nunca se destrói,
com tempo vira irmandade
e faz do amigo um herói!

Hoje sou um moribundo
nas cinzas do teu amor
e não vejo, neste mundo,
remédio para esta dor!

Insone, em noites frias
e em permanente vigília
de mamãe com as ave-marias
recomendava a família.

Irradiantes de alegria!
façamos trovas de amor,
para louvar, no seu dia,
o poeta Trovador!

Já inventaram um remédio,
de um certo tom azulado,
que tira moço do tédio
e deixa velho… assanhado!

Já no ocaso desta vida,
com tanta conta a ajustar,
peço a Deus, seja abatida
a despesa.. por te amar!

Lembranças da mocidade
são um espelho em que a gente
só vê, com tanta saudade,
o passado... no presente!

Lembro de ti, com saudade,
nos tempos que longe vão;
tu eras felicidade,
dentro do meu coração!

Lindos traços, no teu rosto,
que harmonizam a beleza,
me fazem exclamar com gosto:
-Tu és, sim, minha princesa!

Meu amor da mocidade
foi efêmera ilusão:
dele só resta a saudade,
nas cinzas de uma paixão.

Meu coração é um deserto
por falta do teu amor,
se me ofertares, por certo,
virará, um jardim de flor!

Minha herança não tem ouro,
um conselho é o meu legado:
– Meu filho, mais que um tesouro,
vale um homem muito honrado!

Minha paixão foi loucura
por amar-te tanto assim;
hoje estou nesta tortura:
- Por que tu foges de mim?

Pobre é a nação sem cultura,
sem heróis e sem memória,
cujo povo não procura
resgatar a sua história!

Poesia, versos de amor
nascidos no coração;
versos em que o rimador
exprime a sua paixão.

Poeta! Sou trovador!
Que todos possam saber:
faço trovas por amor,
faço trovas por prazer.

Regressaste!.... Que alegria!
E a saudade se desfez!
Hoje minha alma irradia
felicidade outra vez!

Restou tão grande a distância,
que nos separa no amor,
que já não dou importância,
se minha vida se for.

Saibam todos que o trabalho,
ao bom homem enobrece,
mas, quem não pega no malho,
seu espírito empobrece!

Salve, ó verão de mil cores,
ao despertar o manacá
que cobre, todas, de flores
as serras do Paraná!

São Francisco, nas veredas,
feito um pobre vagabundo,
despido de suas sedas,
encheu, de amor, este mundo!

Saudade... dor da lembrança
de alguém que distante está;
é o sentir de uma esperança
de que esse alguém voltará!

Saudade é uma dor silente
que nos ataca e vem mansinha;
entra no coração da gente,
toma posse e ali se aninha!

Saudade, saudade e meia,
é o que sinto de você;
meu coração serpenteia,
- só você é que não vê!

Saudade! Triste amargor!
Dolorosa e tão pungente,
a nos causar tanta dor;
só a entende quem a sente!

Se encontro, ao voltar pra casa,
as tuas mãos carinhosas,
o meu amor já se abrasa,
com teu perfume de rosas.

Segue, meu filho, na estrada,
os trilhos da retidão:
sê firme em cada pisada
que as honras te seguirão!

Sigo, na vida, o caminho
penoso, porém, correto,
que aprendi, desde meu ninho,
com meu pai severo e reto.

Sim, nas cores do arrebol,
Deus, o mais perfeito esteta,
sob a luz do pôr do sol,
dá inspiração ao poeta..

Singrando mares incertos,
marujo, audaz, varonil
achou montes, recobertos
com flores: Eis o Brasil.

Sinta o perfume das flores
nas serras do Paraná,
tem árvores de mil cores:
– primaveras ou manacá.

Teu charme, encanto e beleza
dão aos poetas um tema,
ó encantada Fortaleza,
linda Terra de Iracema!

Teu conselho, pai querido,
de retidão e de amor,
faz-me, hoje, já envelhecido,
mais entender seu valor!

Teve um infarto, na cama,
a noiva, que é tão frajola,
ao ver que, em vez do pijama,
o noivo pôs camisola!

Tico-Tico seresteiro
que vives, sempre, a cantar,
põe teu ninho em meu terreiro;
vem comigo avizinhar!

Vai, meu filho! Não tropeces
nas pedras do teu caminho:
a Deus, faze tuas preces
e não seguirás sozinho!

Vejo uma gota de orvalho
pairando sobre uma rosa:
de Deus, é mais um trabalho
para tomá-la formosa.

Vendo-a sentada no ninho
ditosa mamãe beija-flor,
vejo que há muito carinho
neste seu gesto de amor.

Vi beleza… colhi flores
nesta vida, em seus caminhos,
mas às vezes senti dores
causados por seus espinhos!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Maurício Friedrich (1945 – 2020)
MAURÍCIO NORBERTO FRIEDRICH foi um destacado médico, advogado e um dos nomes mais relevantes do movimento trovadoresco contemporâneo no Sul do Brasil. Assim como outros grandes trovadores radicados no Paraná, ele uniu a dedicação à ciência e à saúde com a sensibilidade da poesia da trova. Nasceu em Porto União/SC, em 1945, filho da trovadora e professora Araceli Rodrigues Friedrich. Faleceu em Curitiba/Prem 2020, aos 74 anos de idade. Embora tenha nascido em Santa Catarina e estudado no Rio de Janeiro, ele estabeleceu sua residência e sua vida familiar definitiva em Curitiba. Formou-se em 1972 pela Faculdade de Medicina de Campos (Rio de Janeiro). Especializou-se em Cardiologia e Medicina do Trabalho. Atuou na clínica privada, trabalhou na Secretaria Estadual de Saúde, na Fundação Copel e chefiou por cinco anos a Divisão Hospitalar do Instituto de Previdência do Estado (IPE). Paralelamente, também concluiu a graduação e formou-se em Direito. 
Sua paixão pela trova foi herdada de sua mãe. Ao longo dos anos, Friedrich tornou-se uma das lideranças institucionais mais respeitadas no meio literário da trova, atuando em nível nacional e estadual. Ocupou Cadeira da Academia Paranaense da Poesia, Presidente da UBT Estadual do Paraná e da Seção Curitiba. Participava ativamente de concursos de trovas em todo o país e teve composições premiadas e classificadas em diversos Jogos Florais. Suas publicações literárias focavam-se prioritariamente em coletâneas coletivas, antologias poéticas e revistas culturais de trovas, registrando sua herança lírica no Paraná.
A importância de Maurício Friedrich para a literatura reside em sua forte liderança e articulação institucional do movimento trovadoresco. Em uma época de transição e renovação das letras, Friedrich trabalhou ativamente na administração da UBT (tanto municipal, quanto estadual) para manter viva a tradição da trova. Ao organizar eventos, gerir as seções literárias do Paraná e produzir poesias que traduziam sentimentos universais com simplicidade, ele garantiu o fortalecimento e a união da comunidade de trovadores do Sul do Brasil. 

Fontes:
Luiz Hélio Friedrich. Maurício Norberto Friedrich. Família Friedrich em Trovas. Curitiba/PR: Centro de Letras do Paraná, 2018.
Sites Consultados = Singrando Horizontes (dados enviados pelo trovador), Conselho Regional de Medicina do PR, etc.

Hely Marés de Souza (Tertúlia da Saudade)

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