domingo, 24 de maio de 2026
Malba Tahan (Os Sete Sábios)
Na primeira noite depois do Ramadã, logo que chegamos ao palácio do califa fomos informados por um velho escriba, nosso companheiro de trabalho, que o soberano preparava estranha surpresa para o nosso amigo Beremiz.
Aguardava-se grave acontecimento. O calculista ia ser arguido, em audiência pública, por sete matemáticos de fama, três dos quais haviam chegado dias antes do Cairo.
Que fazer? Diante daquela ameaça procurei encorajar Beremiz, fazendo-lhe sentir que devia ter confiança absoluta em sua capacidade tantas vezes comprovada.
O calculista recordou-me um provérbio que ouvira de seu mestre Nô-Elin: "Quem não desconfia de si mesmo, não merece a confiança dos outros!".
Com pesada sombra de apreensões e tristeza entramos em palácio.
O grande e rutilante divã, profusamente iluminado, aparecia repleto de cortesãos e Xeques de renome.
À direita do califa achava-se o jovem príncipe Cluzir Schá, convidado de honra, que se fazia acompanhar de oito doutores hindus, ostentando roupagens vistosas de ouro e veludo e exibindo garbosos turbantes de Cachemira. À esquerda do trono perfilavam-se os vizires, os poetas, os cádis e os elementos de maior prestígio da alta sociedade de Bagdá. Sobre um estrado, onde se viam vários coxins de seda, achavam-se os sete sábios que iam interrogar o calculista. A um gesto do califa c Xeque Nuredin Barur tomou Beremiz pelo braço e conduziu-o, com Vida solenidade, até a uma espécie de tribuna erguida no centro do rico salão.
Um escravo negro agigantado fez soar três vezes pesado gongo de prata. Todos os turbantes se curvaram. Ia ter início a singular cerimônia.
Um imã tomou do livro Santo e leu, numa cadência invariável, proferindo lentamente as palavras, a prece do Alcorão:
- Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso! Louvado seja o Onipotente, Criador de todos os mundos! A misericórdia é em Deus o atributo supremo! Nós Te adoramos, Senhor, e imploramos a Tua divina assistência! Conduze-nos pelo caminho certo! Pelo caminho daqueles que são esclarecidos e abençoados por Ti!
Logo que a última palavra do imã se perdeu com o seu cortejo de ecos pelas galerias do palácio, o rei avançou dois ou três passos, parou e disse:
- Ualá! O nosso amigo e aliado, príncipe Cluzir-ehdin-Moubarec Schá, senhor de Laore e Deli, pediu-me que proporcionasse aos doutores de sua comitiva um ensejo de admirar a cultura e a habilidade do geômetra persa, secretário do vizir Ibraim Maluf. Seria desairoso deixar de atender a essa solicitação de nosso ilustre hóspede. E, assim, sete dos mais famosos ulemás do Islã vão propor ao calculista Beremiz questões que se relacionam com a ciência dos números. Se ele souber responder a todas as perguntas, receberá (assim o prometo) recompensa tal, que o fará um dos homens mais invejados de Bagdá.
Vimos, nesse momento, o poeta Iezid aproximar-se do califa.
- Comendador dos crentes! - disse o Xeque. - Tenho em meu poder um objeto que pertence ao calculista. Trata-se de um anel encontrado em minha casa por uma das escravas do "harém". Quero restituí-lo ao calculista antes de ser iniciada a importantíssima prova a que vai submeter-se. É possível que se trate de um talismã e eu não desejo privar o calculista nem mesmo do auxílio dos recursos sobrenaturais.
Permitiu o monarca que o anel fosse, no mesmo instante, entregue ao calculista.
Mostrou-se Beremiz profundamente emocionado ao receber a joia. Apesar da distância em que me achava, pude notar que alguma coisa de muito grave ocorria naquele momento. Ao abrir a pequenina caixa os seus olhos brilhantes se umedeceram. Soube depois que, juntamente com o anel, a piedosa Telassim havia colocado um papel no qual Beremiz leu emocionado: "Ânimo. Confia em Deus. Rezo por ti". Estaria o Xeque Iezid a par dessa mensagem secreta?
Fez-se profundo silêncio. O sábio indicado para iniciar a arguição, ergueu-se. Era uma figura respeitável de octogenário. As longas barbas brancas caíam-lhe fartas sobre o peito largo.
- Quem é aquele ancião? - perguntei, em surdina, a um oculista de rosto magro e bronzeado que se achava ao meu lado.
- É o célebre Mohadebe Ibhague-Abner-Raman - respondeu-me. - Dizem que conhece mais de quinze mil livros sobre o Alcorão. Ensina Teologia e Retórica.
As palavras do sábio Mohadebe eram pronunciadas em tom estranho e surpreendente, sílaba por sílaba, como se o orador pusesse empenho em medir o som de sua própria voz:
- Vou interrogar-vos, ó calculista!, sobre assunto de indiscutível importância para a cultura de um muçulmano. Antes de estudar a ciência de um Euclides ou de um Pitágoras, deve o muçulmano conhecer profundamente o problema religioso, pois a vida não é concebível quando se projeta divorciada da Verdade e da Fé. Aquele que não se preocupa com o problema de sua existência futura, com a salvação de sua alma, e desconhece os preceitos de Deus, não merece o qualificativo de sábio. Quero, portanto, que nos apresenteis neste momento, sem a menor hesitação, quinze indicações numéricas certas e notáveis sobre o Alcorão, o livro de Allah!
Seguiu-se profundo silêncio. Aguardava-se com ansiedade a palavra de Beremiz. Com uma tranquilidade que causava assombro, o jovem calculista respondeu:
- O Alcorão, ó sábio e venerável Mufti, compõe-se de 114 suratas, das quais 70 foram ditadas em Meca e 44 em Medina. Divide-se em 611 "ashrs" e contém 6236 versículos, dos quais 7 do primeiro capítulo "Fatihat" e 8 do último "Os homens". A surata maior é a segunda, que encerra 280 versículos. O Alcorão contém 46439 palavras e 323670 letras; cada uma das quais encerra dez virtudes especiais! O nosso livro sagrado cita o nome de 25 profetas! Isa (Jesus), filho de Maria, é citado 19 vezes! Há cinco animais cujos nomes foram tomados para epígrafes de cinco capítulos: a vaca, a abelha, a formiga, a aranha e o elefante. A surata 102 tem por título "A contestação dos números". É notável esse capítulo do Livro Sagrado pela advertência que dirige, em seus 5 versículos, àqueles que se preocupam com disputas estéreis sobre números que não têm importância alguma no progresso espiritual dos homens. Eis aí, para atender ao vosso pedido, as indicações numéricas tiradas do Livro de Allah! Houve, apenas, na resposta que acabo de formular, um engano que me apresso a confessar. Em vez de 15 relações citei 16!
Confirmou o sábio Mohadebe todas as indicações dadas pelo calculista; até o número de letras do Livro de Allah fora enunciado sem erro de uma unidade!
Fonte:
TAHAN, Malba. O Homem que Calculava. SP: Circulo do Livro, 1983.
Baú de Trovas 4
De barro se faz o homem,
e de luz principalmente.
O barro, os anos consomem;
a luz eterniza a gente!
A. A. DE ASSIS
Dos inimigos que temos,
o mais impiedoso e atroz
geralmente não tememos:
— ó o que está dentro de nós!
ADALBERTO DUTRA DE REZENDE
Sou qual um rio sem rumo
que não encontrou o mar;
de mágoas eu me avolumo
sem ter onde desaguar.
ADEMAR MACEDO
A idade é uma companheira
que traz sempre algum encanto...
e eu, levando em brincadeira,
nem vi que ela cresceu tanto!
ALBA CHRISTINA CAMPOS NETTO
Não digas toda a verdade,
se for triste e for grosseira.
Ê melhor ter caridade
que ser muito verdadeira.. .
ANA ROLÃO PRETO MARTINS ABANO
Não há coração, garanto,
entre os demais corações,
que não guarde, nalgum canto,
um punhado de ilusões.
ANTÔNIO CHAVES
Para consolar alguém,
muitas vezes — que ironia! —
a mentira faz um bem
que a verdade não faria.. .
APARÍCIO FERNANDES
Quem faz o bem a seu jeito,
nem sempre acerta, afinal.
— O bem deve ser bem feito,
para que não faça mal!
ARCHIMIMO LAPAGESSE
Entre o mar e o céu profundo,
esta é a maior verdade:
todo o dinheiro do mundo
não compra a felicidade!
ARNALDO LÚCIO
Confesso que gostaria
— sem nutrir desconfiança —
de ter esperança um dia
de um dia ter esperança!
CARLOS DE ALENCAR
Ninguém maldiria o fado,
seria a vida um prazer,
se às nossas mães fosse dado
nosso Destino escolher.
CARLOS GUIMARÃES
Teu regresso é uma quimera
nos meus dias de abandono,
mensagens de primavera
em galhos secos de outono...
CARMEN OTTAIANO
O amor não marcou hora,
chegou cedo, sem aviso.
Eu tentei mandá-lo embora,
mas me faltou o juízo!...
CARMINHA XIMENES
Sou filha, neta e bisneta,
de corpo e de alma, também!
No meu sangue um dom de poeta
me transporta para o além..!!!
CECÍLIA SOUZA ENNES
Céu escuro, céu tristonho,
por que despertas em mim
esta vontade de um sonho
que nunca tivesse fim?
CIREMA DO CARMO CORRÊA
Se em flores se transformasse
todo e qualquer mal sofrido,
a vida tornar-se-ia
um jardim belo e florido.
CLADYR OLIVEIRA DOS SANTOS
O amor e a morte, a rigor,
são faces da mesma sorte:
no fim da palavra amor
começa a palavra morte!
CLEÔMENES CAMPOS
A Terra gira no espaço,
como a gente aqui na Terra,
girando em torno do laço
que nosso destino encerra...
DARIO NOGUEIRA DOS SANTOS
Eu plantei minha esperança
no cintilar de uma estrela,
para que em má temperança
jamais eu venha a perde-la!
DÉBORA NOVAES DE CASTRO
170
"Era pouco e se acabou.,."
como a cantiga da infância...
Mas o teu vulto ficou,
mergulhado na distância!
DEIRES HOFMANN ALONSO
Seja a tua lealdade,
rio que nunca se esgota.
Quem luta com falsidade
caminha para a derrota.
DE PAULA MADIA
Liberdade, quanta gente
sua voz tenta calar!
Mas liberdade é semente
que brota em qualquer lugar!
EDEN JOSÉ GRÜNEWALD
O barulho na cozinha
denunciou mais um duelo:
o gordo atrás da sardinha,
a esposa atrás do chinelo...
FLÁVIO ROBERTO STEFANI
Afirmo com certo orgulho
que, na maior desavença,
não temo qualquer barulho,
pois sou surdo de nascença!
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Tem a velhice a quietude
da lagoa adormecida,
lembranças da juventude,
no triste poente da vida...
GEORGINA MACHADO XAVIER
Meu amor é um rio santo
que passa em cursos atrozes...
Mas Deus abençoa o canto
das suas águas velozes.
HÉLIO ALEXANDRE
Quem busca a felicidade
e não consegue encontrá-la,
é porque, na realidade,
não sabe nem procurá-la...
ISAÍAS RAMIRES
Para uma vida perfeita,
devemos ter sempre em mente,
que toda e qualquer colheita,
deve-se à boa semente.
JOSÉ FELDMAN
Nos acordes, uma festa,
namoro no coração;
são enlevos da seresta
nas cordas de um violão.
JOSÉ HAROLDO DO VALE LYRA
No amor, a felicidade,
não passou de um sonho vão...
Sob as cinzas da saudade
hoje jaz meu coração!
JOSÉ LOURENÇO
O amor, o sonho, querida,
são graças que Deus nos deu...
Quem não ama não tem vida,
quem não sonha já morreu.
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Na praça da minha vida,
unidas, vi, a chorar,
abraçada à despedida
a saudade a soluçar...
JOSÉ VALDEZ CASTRO MOURA
O bem nunca vem de graça,
nem o mal que nos alcança.
— Deus pesa a graça e a desgraça
usando a mesma balança.
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA
Procura fazer o bem,
se queres ser ajudado;
— quem faz o bem, quase sempre
recebe o juro dobrado!
JUVENAL GOULART
É um momento bom que tenho
se sinto que fiz o bem,
e feliz, não me contenho,
vendo o sorriso de alguém...
LOURDES BALASSIANO
Se o caçador decifrasse
o canto dos passarinhos,
talvez nunca os arrancasse
da tepidez de seus ninhos!
LOURIVAL PASSOS
Imagino da Saudade
a mais verdadeira estampa,
quando vejo a claridade
do luar sobre uma campa.
MAIA D'ATHAYDE
A vida, que nos parece
ora alegre, ora tristonha,
é mais do que se merece,
é menos do que se sonha...
MARIA TERESA GUIMARÃES NORONHA
Descobrindo a falsidade
que havia em teu bem-querer,
perdi a felicidade
mas aprendi a viver!
NELLY D. WERNECK
Uma criança vadia
é um atestado bem triste
do quanto de hipocrisia
nas leis humanas existe...
NICOLINO LIMONGI
O bambu com muita gente
se parece, no feitio:
por fora — é belo e Imponente,
por dentro — é oco e vazio...
NILO APARECIDA PINTO
Cascata, teu pranto triste,
parece que não tem fim!...
Comparo ao pranto que existe
doendo dentro de mim!
PROFESSOR GARCIA
Batendo contra os rochedos,
o som do mar abafava
as mentiras e os segredos
que, na praia, eu te contava...
RENATO ALVES
Mesmo sendo feia, suja,
dolorosa e até maldita,
a Verdade sobrepuja
qualquer mentira bonita!
SÉRGIO FONSECA
Como somos diferentes!...
Mas, é tamanha a paixão,
que nos tornou coniventes
na mais estranha união!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
Desconfio que a velhice
chega sempre bem depressa
quando se faz a tolice
de pensar que ela começa...
VASQUES FILHO
Eu te espero noite afora...
Plange o som de um carrilhão,
fatalmente, de hora em hora,
compassando a solidão...
WANDA DE PAULA MOURTHÉ
Se é para o alento da alma,
o pranto deixa no olhar,
frescor de uma ilha calma
que não se rendeu ao mar.
WANDIRA FAGUNDES QUEIRÓZ
Morrer?!... Morrer não ó nada!
É o final de cada Eu.
— O pior é ir na estrada
sepultando quem morreu.
ZÂLKIND PIATIGORSKY
Graciliano Ramos (O relógio do hospital)
O médico, paciente como se falasse a uma criança, engana-me asseverando que permanecerei aqui duas semanas. Recebo a notícia com indiferença. Tenho a certeza de que viverei pouco, mas o pavor da morte já não existe. Olho o corpo magro estirado no colchão duro e parece-me que os ossos agudos, os músculos frouxos e reduzidos, não me pertencem.
Nenhum pudor. Alguém me estendeu uma coberta sobre a nudez.
Como é grande o calor, descobri-me, embora estivessem muitas pessoas na sala. E não me envergonhei quando a enfermeira me ensaboou e raspou os pelos do ventre.
Ao deitar-me na padiola, deixei os chinelos junto da cama; ao voltar da sala de operações, não os vi.
O médico se dirige em linguagem técnica a uma mulher nova, e ela me examina friamente, como se eu fosse um pouco de substância inerte, diz que os meus sofrimentos vão ser grandes.
Por enquanto estou apenas atordoado. Aquela complicação, tinir de ferros, máscaras curvadas sobre a mesa, o cheiro dos desinfetantes, mãos enluvadas e rápidas, as minhas pernas imóveis, um traço na pele escura de iodo, nuvens de algodão, tudo me dança na cabeça. Não julguei que a incisão tivesse sido profunda. Uma reta na superfície. Considerava-me quase defunto, mas no começo da operação esta ideia foi substituída por lembranças da aula primária. Um aluno riscava figuras geométricas no quadro-negro.
Morto da barriga para baixo. O resto do corpo iria morrer também, no dia seguinte descansaria no mármore do necrotério, seria esquartejado, serrado.
Fechei os olhos, tentei sacudir a cabeça presa. Uma cara me perseguia, cara terrível que surgira pouco antes, na enfermaria dos indigentes. Eu ia na padiola, os serventes tinham parado junto a uma porta aberta - a grade alvacenta aparecera, feita de tiras de esparadrapo, e, por detrás da grade, manchas amarelas, um nariz purulento, o buraco negro de uma boca, buracos negros de órbitas vazias. Esse tabuleiro de xadrez não me deixava, era mais horrível que as visões ferozes do longo delírio.
O trabalho dos médicos iria prolongar-se, cacete, meses e meses, ou findaria vinte e quatro horas depois, no necrotério? Cortado em pedaços, uma salmoura esbranquiçada cheirando a formol, o atestado de óbito redigido à pressa, um cirurgião de mangas arregaçadas lavando as mãos, extraordinariamente distante de mim.
Agora espero os sofrimentos anunciados. Um gemido fanhoso de relógio fere-me os ouvidos e fica vibrando. Insensível, olho as pernas compridas, a dobra que entre elas se forma na coberta. Outras pancadas vaga rosas tremem, abafando os cochichos que fervilham na sala. Parece-me virem juntas à primeira: a meia hora decorrida perdeu-se.
Inércia, um vácuo enorme, o prognóstico da mulher nova ameaçando-me. Sono, fadiga, desejo de ficar só. Alguém se debruça na cama, encosta a orelha ao meu coração. Furam-me o braço, uma agulha procura lentamente a veia.
Escuridão, silêncio. Depois um instrumento de música a tocar, a sombra adelgaçando-se, telhados, árvores e igrejas esboçando-se à distância. Tenho a sensação de estar descendo e subindo, balançando-me como um brinquedo na extremidade de um cordel.
A dormência prolongada pouco a pouco se extingue. Os dedos dos pés mexem-se, em seguida os pés, as pernas - e enrosco-me como um verme. Uma angústia me assalta, a convicção de que me aleijaram. Esta ideia é tão viva que, apesar de terem voltado os movimentos, afasto a coberta, para certificar-me de que não me amputaram as pernas. Estão aqui, mas ainda meio entorpecidas, e é como se não fossem minhas.
As idas e vindas, as viagens para cima e para baixo, cansam-me demais, penso que uma delas será a última, que o cordel vai quebrar se, deixar-me eternamente parado.
Noite. A treva chega de repente, entra pelas janelas, vence a luz da lâmpada. Uma friagem doce. A chuva açoita as vidraças. Durmo uns minutos, acordo, adormeço novamente. Neste sono cheio de ruídos espaçados – rolar de automóveis, um canto de bêbado, lamentações dos outros doentes - avultam as pancadas fanhosas do relógio. Som arrastado, encatarroado e descontente, gorgolejo de sufocação. Nunca houve relógio que tocasse de semelhante maneira. Deve ser um mecanismo estragado, velho, friorento, com rodas gastas e desdentadas. Meu avô me repreendia numa fala assim lenta e aborrecida quando me ensinava na cartilha a soletração. Voz autoritária e nasal, costumada a arengar aos pretos da fazenda, em ordens ásperas que um pigarro interrompia. O relógio tem aquele pigarro de tabagista velho, parece que a corda se desconchavou e a máquina decrépita vai descansar.
Bem. Daqui a meia hora não ouvirei as notas roucas e trêmulas.
Vultos amarelos curvam-se sobre a cama, que sobe e desce, levantam-me, enrolam-me em pastas de algodão e ataduras, esforçam-se por salvar os restos deste outro maquinismo arruinado. Um líquido acre molha-me os beiços. Serventes e enfermeiros deslocam-se com movimentos vagarosos e sonâmbulos, a luz esmorece, dá aos rostos feições cadaverosas.
Impossível saber se é esta a primeira noite que passo aqui. Desejo pedir os meus chinelos, mas tenho preguiça, a voz sai-me flácida, incompreensível. E esqueci o nome dos chinelos. Apesar de saber que eles são inúteis, desgosta-me não conseguir pedi-Ias. Se estivessem ao pé da cama, sentir-me-ia próximo da realidade, as pessoas que me cercam não seriam espectrais e absurdas. Enfadam-me, quero que me deixem. Acontecendo isso, porém, julgar-me-ia abandonado, rebolar-me-ei com raiva, pensa rei na enfermeira dos indigentes, no homem que tinha uma grade de esparadrapos na cara.
Silêncio. Por que será que esta gente não fala e o relógio se aquietou? Uma ideia acabrunha-me. Se o relógio parou, com certeza o homem dos esparadrapos morreu. Isto é insuportável. Por que fui abrir os olhos diante da amaldiçoada porta? Um abalo na padiola, uma parada repentina - e a figura sinistra começara a aperrear-me, a boca desgovernada, as órbitas vazias negrejando por detrás da grade alvacenta. Por que se detiveram junto àquela porta? Dois passos aquém, dois passos além - e eu estaria livre da obsessão.
O relógio bate de novo. Tento contar as horas, mas isto é impossível.
Parece que ele tenciona encher a noite com a sua gemedeira irritante.
Doutor Queirós, principiando a falar, não acaba: é um palavreado infinito que nos enjoa, nos deixa embrutecidos, mudos, mastigando um sorriso besta de cumplicidade.
Felizmente o homem dos esparadrapos vive. Repito que ele vive e caio num marasmo agoniado. No silêncio as notas compridas enrolam se como cobras, estiram-se pela casa, invadem a sala, arrastam-se devagar nos cantos, sobem a cama onde me agito apavorado. Que fim levaram as pessoas que me cercavam? Agora só há bichos, formas rastejantes que se torcem com lentidão de lesmas. Arrepio-me, o som penetra-me no sangue, percorre-me as veias, gelado.
As vidraças, a chuva, os ruídos, sumiram-se. Há uma noite profunda, um céu pesado que chega até a beira da minha cama. As coisas pegajosas engrossam, vão enlaçar-me nos seus anéis. Tento esquivar-me ao abraço medonho, revolvo-me no colchão, grito.
Aparecem de novo as figuras atentas, lívidas. A beberagem acre umedece-me a língua seca, dura como língua de papagaio.
- Obrigado.
Puxo a coberta para o queixo, o frio diminui. Há um rio enorme, precipícios sem fundo - e seguro-me a ramos frágeis para não cair neles.
Ouço trovões imensos. Volto a ser criança, pergunto a mim mesmo, que seres misteriosos fazem semelhante barulho. Meus irmãos pequenos iam deitar-se com medo, minhas tias ajoelhavam-se diante do oratória, a chama das velas tremia, as contas dos rosários chocavam-se como bilros de almofadas, um sussurro de preces enchia o quarto dos santos.
Por que estão chiando aqui perto de mim? Estarão rezando? Não houve trovões. Nuvens brancas e altas correm por cima das árvores, das igrejas, do telhado da penitenciária. Olho os tipos que me rodeiam. Afastam-se, falam em voz baixa, presumo que me espiam desconfiados. Acham-me com certeza muito mal, pensam que vou morrer, procuram decifrar as palavras incoerentes que larguei no delírio. Envergonho-me. Terei dito segredos e inconveniências?
Desejo atraí-Ias, conversar, mostrar que sou um indivíduo razoável e as maluquices do sonho findaram. Mas a linguagem foge. Procuro chamá-las com um gesto, a mão tomba-me sobre o peito, uma fraqueza paralisa-me.
Certamente estou há dias entre a vida e a morte. Agora a febre diminuiu e os monstros que me perseguiam se desmancharam. As dores do ferimento são intoleráveis. Inclino-me para um lado e para outro, certifico-me de que não me trouxeram os chinelos, imagino que vou aguentar uma eternidade de martírios.
Gritos agudos de criança rasgam-me os ouvidos, como pregos.
Querem ver que a minha operação foi ontem e ficarei aqui amarra do semanas ou meses?
Uma balada corta-me o pensamento. Estremeço: parece que ela me chegou aos nervos através da ferida aberta, me entrou na carne como lâmina de navalha.
Aqueles soluços desenganados devem vir da enfermeira dos indigentes, talvez o homem dos esparadrapos esteja chorando. Com esforço, consigo encostar as palmas das mãos nas orelhas. Desejo ficar assim, mas a posição é incômoda, os braços fatigam-me, o choro escorrega-me entre os dedos. Se não fosse isto, distrair-me-ia vendo as árvores, o céu, os telhados, falaria aos enfermeiros e aos serventes.
Que desgraça estará sucedendo? Deixo cair os braços, os uivos lastimosos da criança recomeçam, as minhas dores crescem, dão-me a certeza de que os médicos atormentam um pequenino infeliz. Penso nos vagabundos miúdos que circulam nas ruas, pedindo e furtando, sujos, esfrangalhados, os ossos furando a pele, meio comidos pela verminose, as pernas tortas como paus de cangalhas. Talvez estejam consertando uma daquelas pernas.
Os gritos baixam, transformam-se num estertor.
- Por que bolem com aquela criança?
A enfermeira avizinha-se, espera que eu repita a pergunta. Aborreço me por não me haver feito compreender, viro-me com dificuldade e minutos depois ouço os passos da mulher, que se afasta nas pontas dos pés.
Fará somente vinte e quatro horas que me deixaram aqui derreado? Somo: vinte e quatro, quarenta e oito, setenta e duas. Talvez uns três dias. Isto, setenta e duas horas. Os chinelos desapareceram: ficarei provavelmente um mês, dois meses. Multiplico: sessenta dias, mil quatrocentos e quarenta horas. Fatigo-me, e a conta se complica, ora apresenta um resultado, ora outro. Convenço-me afinal de que são mil quatrocentos e quarenta horas. É bom que a ferida se agrave e me mate logo. Dois meses de tortura, um tubo de borracha atravessando-me as entranhas, visões pavorosas, os queixumes dos indigentes que se acabam junto ao homem dos esparadrapos. Duas mil oitocentas e oitenta vezes o relógio caduco de peças gastas rosnará, ameaçando-me com acontecimentos funestos. Sessenta dias de imobilidade, o pensamento a emaranhar-me em cipoais obscuros.
Os gritos da criança elevam-se, o calor aumenta, as árvores e os telhados aproximam-se.
Lá estão novamente as horas a pingar do corredor como de uma torneira, gotas pesadas escorrendo lentas.
Gargalhadas na rua, barulho de automóvel, o pregão de um vendedor ambulante. Talvez o automóvel seja do médico que me vem fazer o curativo. Não é, passou com um ronco de buzina. Agora o que há são rufos de tambor, vozes de comando.
O berro do vendedor ambulante caiu na sala de supetão e ficou rolando, misturado ao choro dos indigentes e ao rumor de ferros na autoclave.
- Porcaria, tudo uma porcaria.
Zango-me. Não me tratam, deixam-me acabar à míngua, apodrecer como um corpo morto. Silêncio demorado. Penso na criança e no homem que se esconde por detrás da máscara de esparadrapo.
- Como vai o menino?
A enfermeira responde-me que vai bem, mas certamente procura iludir-me. Há um cadáver miúdo perto daqui, vão despedaçá-lo na mesa do necrotério, os serventes levarão a roupa suja para a lavanderia. Um colchão pequeno dobrado na cama estreita.
As vozes de comando, os rufos, o pregão do vendedor ambulante o rumor dos ferros na autoclave, fazem-me falta. Convenço-me de que o silêncio é de mau agouro. Quando ele se quebrar, uma infelicidade surgirá de repente, não poderei livrar-me dela. O suor corre-me na cara. O primeiro som que vier anunciará desgraça, essa ideia desarrazoada não me larga. Reprimo um acesso de tosse, acredito que ele é indício de hemoptises abundantes.
Começo a perceber um toque-toque surdo, tropel de cavalo cansado. Naturalmente é o sangue batendo-me nos ouvidos. Um coração quase inútil finda a tarefa maçadora.
O cadáver pequeno vai ser transformado em peças anatômicas.
Toque-toque. Não é o sangue, é qualquer coisa que vem de fora, provavelmente do corredor. Duas pancadas próximas, uma distanciada, andadura irregular de bicho que salta em três pés. Ainda há pouco estava tudo calmo. De repente o relógio velho começou a mexer-se e a viver.
Cerro os olhos, digo a mim mesmo que me fatigo à toa, bocejo, tento lembrar-me de fatos que julgo importantes e logo se tomam mesquinhos. Afinal não veio a desgraça. Vou restabelecer-me em poucos dias. Vou restabelecer-me, passear nas ruas, entrar nos cafés. Se não tivessem levado os chinelos, convencer-me-ia de que não estou muito doente.
Procuro dormir, esquecer tudo, mas o relógio continua a martelar-me a cabeça dolorida. Espero em vão o fonfonar de um automóvel, a cantiga de um bêbado, as vozes de comando, o rumor dos ferros na autoclave. Tenho a impressão de que o pêndulo caduco oscila dentro de mim, ronceiro e desaprumado.
Os infelizes calaram-se, todos os sofrimentos esmoreceram, fundiram-se naquela voz áspera e metálica.
Os meus braços descarnados movem-se como braços de velho. Passo os dedos no rosto, sinto a dureza dos p1los, as faces cavadas, rugas. Se tivesse um espelho, veria esta fraqueza e esta devastação.
Velhinho, trocando as pernas bambas nas calçadas. Olho as pernas finas como cambitos. A vista escurece. Velhinho, arrimado a um cacete, balbuciando, tropeçando. Toque-toque - o cajado a bater nos paralelepípedos.
O pensamento escorrega de um objeto para outro. A barba crescida deve ter ficado branca, o pescoço engelhou como um pescoço de galinha.
A mulher desapertava a roupa, despia-se cantando, e eu me conservava distante, encabulado, tentando desamarrar o cordão do sapato, que tinha dado um nó. Não podia descalçar-me e olhava estupidamente um despertador que trabalhava muito depressa. Os ponteiros avançavam e o laço do sapato não queria desatar-se.
O professor explicava a lição comprida numa voz dura de matraca, falava como se mastigasse pedras.
O político influente entregava-me a carta de recomendação. Eu gaguejava um agradecimento difícil, atrapalhava-me por causa da datilógrafa bonita, descia a escada perseguido pelos óculos de um secretário e pelo tique-taque da máquina de escrever.
Tudo se confunde. A rapariga que se despia, o professor, o político, misturam-se. A criança doente, os enfermeiros, os médicos, o homem dos esparadrapos, não se distinguem das árvores, dos telhados, do céu, das igrejas.
Vou diluir-me, deixar a coberta, subir na poeira luminosa das réstias, perder-me nos gemidos, nos gritos, nas vozes longínquas, nas pancadas medonhas do relógio velho.
Fonte:
Graciliano Ramos. Insônia. 1947. Disponível em Domínio Público.
Mário de Andrade (O peru de Natal)
O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.
Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a ideia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.
Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.
Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":
- Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.
- Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...
- Meu filho, não fale assim...
- Pois falo, pronto!
E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de supetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.
Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.
Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:
- É louco mesmo!...
Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.
- Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!
Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a cotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.
- Eu que sirvo!
“É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heroica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:
- Se lembre de seus manos, Juca!
Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.
- Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!
Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.
Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.
Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.
- Só falta seu pai...
Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:
- É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.
E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.
Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.
Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!
A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.
Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...
(foi publicado originalmente na revista da Academia Paulista de Letras em 1942)
Fonte:
Mário de Andrade. Contos Novos. 1947. Disponível em Domínio Público.
Pedro Du Bois (Poemas Avulsos)
ADERALDOS
Digo ver
aderaldo cego
como lembra
o que nunca viu
mas sabe das cores
nuances e detalhes
da visão perdida
aderaldo cego
no que digo ver
o pássaro sobre a árvore
enluvada mão sobre o ombro
o rosto da mulher contra o vidro
aderaldo cego
cantor da saudade e da terra
no que não viu nem lembra
mas sabe as cores e mete o nariz
o cheiro da terra traz a paisagem
fechada no escuro do que não vê
aderaldo cego
que me vê no que digo
e sabe da minha face.
(publicado em AS PESSOAS NOMINADAS)
==============================
RELATOS
hoje chove e nem por isso entendo melhor
a vida tida ao redor dos compromissos
desaconselhados em premissas verdadeiras
de parentes e conhecidos
os amigos se retiram em pares amparados
uns aos outros fossem as duplas paredes
da caverna aberta à visitação pública
antes de ser higienicamente tratada
para que as doenças deixadas
não se propaguem aos ventos e aos ares
(publicado em POETAS EM OBRAS, Volume II, fragmento)
=================================
ELAS: SENHORA
4
De nenhum talento falamos
senhora
apenas o dia termina
em ocasos
simples
como as coisas comuns
os fatos
e a natureza completam o ciclo
senhora
no primeiro homem
se destaca o estômago
proeminente
fosse a comida a tentação
no segundo homem
o instante se apresenta
na profundeza do olhar perdido
senhora
e nenhum talento
os habitaria em diferenças
histéricas
e históricas páginas reviradas.
(publicado em LIBERDADE (ELAS)
==================================
CANÇÃO DE HOJE
Espero a canção de hoje
suave e calma
anseio a canção mais longe
baixa e cálida
ofereço a canção de onde
silencioso e rude
possa ouvir a canção de ontem.
Nada quero com a canção de hoje
recomposta trajetória
nada espero da canção de hoje
fuga e ária
nem anseio pela canção de hoje
finita e pura.
(publicado em OS SENTIDOS SIGNIFICANTES)
==========================
NÚMEROS RECONTADOS
Em intuitivo gesto
recupera do calendário
a data e a lua
seca o copo, cinco pessoas
em volta do corpo choram
a hora do adeus
intui o amor nos olhos
em frente, olha o luar
em destrancada porta, par e par
onde terminam as jornadas
sabe do corpo caído, cinco pessoas
se afastam em choros furtivos:
no desencontro residem reticências
e sóis teimosos retornam datas.
(publicado em NÚMEROS RECONTADOS)
==================================
O ANCIÃO
O ancião pediu a palavra e ouviu o silêncio
como deferência e cortesia
com que o grupo oferecia seu tempo
a ouvir os anciãos dizerem dos tempos idos
dos prazeres anteriores e das felicidades
alcançadas em pares e famílias e dos filhos
oriundos e descendentes da linhagem nobre
da raça pura em constância e fechamento
sobre mundos ininteligíveis
e não alcançados além da poeira e dos desertos
fechados aos passos e aos cérebros cansados
dos guerreiros que foram até uma parte
e retornaram dizendo das impossibilidades
(publicado em POETA EM OBRAS, Volume III, fragmento)
==================================
RAZÕES
XI
razões com que espera da vida
o caminho correto e exato dos sonhos
das ilusões com que entende
o vento assobiar entre frestas
recém é quarta-feira
e a manhã se apresenta clara
em chuvas passageiras
elenca razões para ser na continuação
afogadas ideias que se remoçam
na força suplantada à lógica e a função
de pensar naufragada aos primeiros votos
a semana passa lenta
feita no tempo
certo e exato e o relógio da cozinha
determina as fomes e as horas
das limpezas e dos polimentos
nas razões a família se acomoda e a vida
mancha o destino onde é encontrado
inerte sobre o sofá em única luz.
(publicado em COMPORTADAS RAZÕES)
=============================
EXISTIR
A existência sustenta
a palavra expressada
quando a noite cobre
a cama onde repousam
pedaços do dia
nada representa a vida:
as palavras dão ao contexto
a certeza do que foi dito
sombras dialéticas
discutem luzes espiraladas
onde se perde o minotauro.
(publicado em A INCERTEZA DA VIDA)
============================
Sobre o Autor
Pedro Quadros Du Bois, ou simplesmente Pedro Du Bois nasceu em Passo Fundo, RS, 1947. Residente em Itapema/SC. Poeta e contista. Membro da Academia Itapemense de Letras e do Clube dos Escritores Piracicaba. Vencedor - na categoria poesia - do IV Prêmio Literário Livraria Asabeça, 2005, com o livro "Os Objetos e as Coisas" (Editora Scortecci, São Paulo, 2005). Também se classificou no 13° Prêmio Poemas no Ônibus (2005), da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, com Posse. É editor-autor com diversas obras registradas e depositadas junto à Biblioteca Nacional, membro da Academia Itapemense de Letras e do Clube dos Escritores Piracicaba.
Fontes:
Poemas enviados pelo autor.
http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5812
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/santa_catarina/pedro_du_bois.html
Assinar:
Postagens (Atom)
-
(organização e pesquisa por José Feldman) O trovadorismo é um dos movimentos literários mais antigos e marcantes da história, surgido na Eur...
-
1 A bebida que me invade, parecendo não ter fim, é a tristeza de uma grade que se fecha dentro em mim... 2 A ciência me conduz a pensar dest...
-
por José Feldman Análise das trovas e relação de suas temáticas com literatos brasileiros e estrangeiros de diversas épocas e suas caracte...




