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segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Elisabete Aguiar (Semeando trovas)
Andar por ínvios caminhos
buscando a Felicidade
é como colher espinhos
na Rosa da Eternidade.
2
Atritos, perdas, cuidados
que a vida te patenteia
são despojos naufragados
que agora jazem na areia.
3
A vida é feita de nadas,
enganando muita gente
que julgando águas paradas
vai ao sabor da corrente.
4
A vida é uma mesa posta
com diversas iguarias;
se de amargores não gosta,
ponha doçura em seus dias.
5
Batem três horas na torre,
é já tempo de dormir...
mas a noite corre, corre,
e eu fico a vê-la fugir...
6
Boa trova não troveja,
não faz barulho ou ruído:
doce música de igreja
a consolar-nos o ouvido.
7
Com canto combate o pranto
e a treva em que a Terra jaz;
em cada canto e recanto
cante-se a Visão da Paz!
8
Das mil palavras que li,
cada letra foi um beijo
que, alado, voou pra ti,
no sonho de ser arpejo.
9
Desenhar passos incertos,
ao sabor da multidão,
é navegar em desertos
em busca de água ou de pão.
10
É fácil ser um herói
com uma espada e armadura;
mas é quando a alma dói
que se revela a bravura.
11
É na noite tenebrosa,
quando os astros vestem dor,
que uma estrelinha teimosa
persiste em parecer flor.
12
Gente anônima e distante,
que comigo cruza a rua,
é também meu semelhante
na cruz que a vida insinua.
13
Há zeros a mais na conta!
Milionário, tem cuidado.
Na tua conta, desconta
o amor que tu não tens dado.
14
Mais alto que o Céu profundo,
mais vasto que o imenso mar,
é o Amor que envolve o Mundo
e o faz pra Luz caminhar.
15
Meu amor é como um hino
que eu muito bem sei cantar.
nos gorjeios do destino
o poderás escutar.
16
Muita riqueza fugaz
o homem que corre a buscar;
é mais rico se é capaz
de a ver partir sem chorar.
17
Na corda bamba da Vida,
o futuro sempre em vista,
sou criança divertida
brincando de equilibrista.
18
Não adies nunca o Amor
para outro dia ou momento;
pois o vento embala a flor
sem pedir consentimento.
19
Não deixes que um pensamento
fortuito, vil e malsão,
ensombre com seu lamento
a Luz do teu coração.
20
Não quero correr Contigo,
mas a Teu lado correr,
pra correr com o perigo
que corre pra me vencer.
21
Não te espantes da mudança,
tudo voa e vai no vento;
ou prendes bem a lembrança
ou voa com o pensamento.
22
No meu livro de memórias,
guardo, com todo o recato,
as mil saudosas histórias
que conta o nosso retrato.
23
Ó linda Mãe-Natureza,
tão pródiga e salutar,
perdoa a cega vileza
do homem, quando te queimar!
24
"Para o alto e sempre em frente"
- mostra o guia da cidade;
sigo o rumo e, de repente...
"Bem-vindo a Felicidade!"
25
Passo a vida passo a passo,
com receio de espantar
com o ruído que faço
a Vida, em mim, a cantar.
26
Pela semente do Amor
que lançaste no meu peito,
faz que eu, vá aonde for,
saiba viver satisfeito.
27
Pinheiros, carvalhos, vinhas,
das cores mais variadas,
são coros de ladainhas
pras almas angustiadas.
28
Por muito que a gente mude
e busque amor a seu jeito,
um só salva e nunca ilude:
o de mãe -Amor-perfeito!
29
Porque a vida tem escolhos,
não hesites na jornada;
a rosa tem seus abrolhos
mas deixa a mão perfumada.
30
Por ser estreito o Caminho,
cada qual vai como pode;
mas não empurre o vizinho...
Se cair, ele lhe acode!
31
Quando a mente se alimenta
de daninha nutrição,
corta o joio da tormenta
e semeia um novo pão.
32
Quando chega, quando parte,
do cais que esta vida é,
aceita, pois que faz parte
do bailado da maré.
33
Rumoreja o pinheiral
uma conversa secreta
entre os pios de um pardal
e a doce brisa discreta.
34
Subiu ao topo da vida
nas asas de um furacão;
descuidou-se na descida...
estatelou-se no chão.
35
Um concerto a uma só voz
reverbera em céu e terra,
contra a mágoa e dor atroz
que um peito humilhado encerra.
36
Um coração sempre aberto,
um sorriso sempre à mão,
fazem jorrar no deserto
águas de Paz e Perdão.
37
Vozes de aves nas ramadas,
em harmonia de irmãs,
são como missas cantadas
no silêncio das manhãs.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Elisabete Aguiar (1951)
ELISABETE DO AMARAL ALBUQUERQUE FREIRE AGUIAR é uma poetisa, trovadora e educadora portuguesa contemporânea, reconhecida pela sensibilidade de seus versos e dedicação ao ensino da língua e da cultura. Nascida em 1951 na freguesia de Ribamondego, Concelho de Gouveia, Portugal. Embora nascida no Concelho de Gouveia, possui forte ligação afetiva e residencial com a região de Mangualde, distrito de Viseu, local que frequentemente serve de referência para a divulgação de suas trovas e produção artística. Licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra. Dedicou grande parte de sua vida à docência, atuando como professora de Português, Literatura Portuguesa e, em determinados períodos, também de Francês, moldando gerações através do ensino das Letras.
No universo literário, destaca-se primorosamente no gênero da trova. Suas criações poéticas são marcadas pelo lirismo, espiritualidade e observação do cotidiano humano, circulando ativamente em espaços dedicados à preservação da poesia tradicional e dos trovadores ibero-americanos. Possui dois livros de poesia publicados individualmente e um livro de traduções concebido em coautoria com o amigo e escritor Fernando Augusto Teixeira Gonçalves. Sua atuação concentra-se de forma independente e colaborativa em grêmios, tertúlias e movimentos de poetas trovadores.
A relevância de Elisabete do Amaral Albuquerque Freire Aguiar reside na manutenção ativa da tradição trovadoresca, uma das formas poéticas mais antigas e ricas da língua portuguesa. Ao unir sua bagagem como filóloga e professora à escrita lírica, ela atua como uma ponte fundamental entre o rigor acadêmico e a sensibilidade popular, assegurando que a poesia breve, rimada e metrificada continue viva e tocando a alma humana na contemporaneidade.
José Feldman ( Um dia daqueles)
Amanheceu como se fosse um dia comum, mas o universo tinha outros planos para o Sr. Otávio. Ele abriu os olhos, esticou o braço para o despertador e… caiu da cama. Não com a elegância de um galã de novela, mas com a graciosidade de um saci: rodopiou, bateu o joelho no chão e ficou lá, olhando o teto como quem pensa: “bom, aí não era o plano.”
Determinando que era hora de levantar, Otávio se pôs de pé — e a lei das mobílias traiçoeiras entrou em vigor. Ao levantar a cabeça, encontrou com o móvel ao lado do travesseiro numa pancada que o fez ver estrelinhas, com direito a bico de papelão. “Ótimo”, murmurou, esfregando a testa, quando decidiu checar o estrago com a mão. Exatamente: pôs a mão na cabeça e, como se fosse combinado com o cosmos, seu cotovelo encontrou o criado-mudo num encontro amoroso e fulminante.
— Aiii! — berrara ele, num som que alarmou até o gato do vizinho. O cotovelo e o criado-mudo trocaram impressões. O criado-mudo, claro, saiu-se melhor: rígido, imponente, sem sequer um arranhão. O cotovelo, porém, passou a temporada seguinte pedindo aposentadoria por invalidez.
Respirando fundo (ou tentando), Otávio achou que já tinha completado as tragédias do amanhecer. Errou. Ao tentar caminhar até a cozinha em busca de um remédio, o pé escorregou num canto traiçoeiro do tapete — aquele tapete que sempre fica com cara de suspeito. Em câmera lenta, ele descreveu um arco digno de circo, tentou um passo de dança moderna, mas terminou batendo o joelho bem no pé da cama. Foi um concerto de sons: rangido da madeira, gemido do joelho e, no fundo, um “cloque-cloque” como se o destino risse.
Quando finalmente ficou sentado no chão, parecendo um personagem de desenho animado que levou um episódio inteiro de pancadas, os vizinhos (atraídos pelo berreiro) começaram a aparecer. Dona Marlene do 3ºB trouxe um pano quente; o João, que trabalha na oficina, veio com uma caixa de ferramentas “só por precaução”; até a vendedora de pão bateu na porta com uma sacola de biscoitos e olhares preocupados.
— O que aconteceu? — perguntou Dona Marlene, já disposta a aplicar uma compressa e um sermão de mãe.
Otávio, meio atordoado, contou a ópera das injúrias domésticas numa sequência de gemidos e gestos dramáticos. Mas, ao se ver de pé (com a ajuda do João), observou o conjunto: cortinhos, hematomas e uma mistura de sujeira no joelho que lembrava um mapa de batalha. As pessoas trocaram olhares rápidos e, sem querer, começaram a montar uma versão alternativa dos fatos.
— Ele estava numa briga, não foi? — sussurrou a vendedora de pão, com o instinto jornalístico aflorado.
— Ou então tentou parar um assalto! — afirmou João, triunfante, ajustando o avental como quem inspeciona um troféu.
Dona Marlene não ficou atrás: já inventou uma história de defesa heroica da honra de uma senhora que (talvez) tivesse sido empurrada, ou algo assim. Em questão de minutos, o pobre Otávio havia passado de vítima de seus próprios móveis a protagonista de uma luta épica contra bandidos invisíveis e capangas do destino.
As redes sociais do prédio não precisaram esperar: a notícia circulou pelo corredor como pólvora. O zelador, com a credencial de repórter amador, trouxe um pedaço de jornal com o título: “MORADOR DO 2º ANDAR ENFRENTA BANDIDOS”. O porteiro, tentando acalmar a situação, ofereceu-lhe chá. Otávio olhou os rostos arregalados à sua volta e, por um segundo, quase acreditou na própria lenda.
— Não… gente, eu só… — tentou explicar, apontando para a mesa, para o tapete, para a cama e para o cotovelo traidor. Mas as palavras soaram tão improváveis quanto “fui atacado por um polvo de almofadas”.
A vizinhança, porém, já havia decidido: se houve briga, havia herói — e heróis merecem história, e histórias merecem bolos. Em poucos minutos, Dona Marlene voltou com um pedaço generoso de bolo de cenoura e um buquê improvisado de guardanapos.
Otávio, com o bolo na mão e vários curativos imaginários, sorriu meio sem jeito. No fim das contas, a manhã que começou com uma queda boba terminou com elogios, biscoitos, e uma fama instantânea que nenhum aplicativo poderia comprar. Ele ganhou um apelido novo: “O Lutador do 2º” e, claro, o respeito incondicional do corredor.
À noite, enquanto curava os hematomas e pensava na epopeia doméstica, Otávio fez um pacto silencioso: reposicionar o criado-mudo, ensinar o tapete a não conspirar e, sobretudo, tomar cuidado com o cotovelo traquinador. Mas ficou com o ego leve e aquecido — afinal, onde mais ele poderia ganhar um bolo e um título de herói por simplesmente levantar da cama?
Eduardo Martínez (Dona Irene e a cachaça em Poços de Caldas)
Numa madrugada de 2012, a Dona Irene e eu estávamos saindo de São José do Rio Pardo-SP, onde fomos deixar uma linda cadelinha da raça Dogue de Bordeaux. Antes de irmos embora, perguntamos para a dona da cachorrinha se havia alguma cidade interessante perto dali para conhecermos. Ela disse que Poços de Caldas-MG era bonita e ficava a uns 60 quilômetros. A Dona Irene, que nessa época era minha namorada, olhou para mim e sorriu aquele sorriso mais lindo do mundo. Isso, para quem não sabe, é o sim da minha hoje esposa e, então, entramos no carro e voltamos para a estrada.
Como nessa época viajávamos com um antigo mapa de papel, fomos muito atentos para não errarmos o caminho. Não sei exatamente quanto tempo levamos para chegar à cidade mineira, mas lembro do motel em que dormimos. É que havia uma espécie de jardim de inverno ao lado da cama, com uma porta de vidro quebrada e o céu como teto. Isso mesmo, apesar de haver uma cobertura no quarto, isso não acontecia com a parte do jardim de inverno. Além do mais, fazia um frio tão intenso, que, se estou escrevendo estas linhas hoje, é porque fui salvo pelo doce calor emanado do corpo da Dona Irene.
Fomos despertados com o sol batendo na nossa cara. Ainda tentamos cobrir o rosto com o fino lençol, até que a minha amada disse que estava com fome. Levantamos e fomos procurar alguma coisa para preencher o estômago da minha namorada, já que aquele motel não servia café da manhã.
Assim que entramos no carro, percebemos que o motel ficava perto do centro. Paramos em uma cafeteria, onde a Dona Irene fez seu desjejum, enquanto eu, como sempre faço pela manhã, tomei meu café preto. Sem açúcar, pois, de doce, já basta a vida.
Não sei se você conhece Poços de Caldas, mas vou lhe dizer assim mesmo. Das inúmeras cidades que conheço em Minas Gerais, é a mais agradável. E olha que já passei por várias outras muito legais também.
Logo que saímos da cafeteria, fomos dar uma volta para apreciar melhor o local, quando, de repente, um simpático senhor em uma charrete nos convidou para darmos um passeio, ao custo de não sei quanto, mas que não achei caro na época. Seja como for, o passeio estava extremamente agradável, quando, sem avisar, o condutor parou a charrete e nos convidou para conhecermos uma loja de cachaça e queijos.
Para falar a verdade, achei aquilo meio esquisito, pois eu queria mesmo é continuar naquele clima bucólico ao lado da minha namorada. Todavia, antes que eu pudesse continuar nessa divagação rabugenta, eis que me chega alguém com uma dose de cachaça e uns pedaços de queijo. Eu não bebo e, pela manhã, é difícil descer algo sólido para o bucho.
Agradeci, mas, antes que esse alguém saísse da minha frente, a Dona Irene não se fez de rogada e já foi entornando a cachaça para dentro do estômago, como se aquilo fosse água mineral da fonte mais pura. Para rebater, ela pegou um pedacinho daquele queijo tão cheiroso.
Depois disso, fiquei compelido a comprar uma garrafa de cachaça e um queijo naquela loja, mas o homem da charrete nos puxou pelo braço e disse que tínhamos que ir. De volta ao passeio bucólico, até comecei a apreciar novamente aquele balançar gostoso ao som dos cascos do cavalo, que soube se chamar Tufão. No entanto, o condutor parou novamente justamente em frente a uma nova loja, também de cachaça e queijo. Descemos, entramos no tal comércio, alguém me ofereceu cachaça e queijo, educadamente recusei, enquanto a Dona Irene botou tudo para dentro.
Pois bem, para encurtar a história, que já está muito mais longa que o costumeiro, voltamos para a bendita charrete antes que pudéssemos comprar qualquer coisa. Depois paramos em não sei quantos novos estabelecimentos, eu recusei tudo o que me ofereceram, ao contrário da minha namorada, que, àquela altura, aceitaria até mesmo sopa de pedra.
Finalmente o passeio terminou, quando já era perto da hora do almoço. Tive que auxiliar a minha amada a descer da charrete, pois ela estava tão trôpega, que mal conseguia se lembrar de onde estávamos. Aliás, essa parte estou escrevendo aqui em casa com a Dona Irene me olhando torto e sentada no sofá aqui da sala.
Procuramos um local para deitarmos, justamente sob a copa de uma árvore. Acabamos adormecendo por algumas horas. Fui despertado pelas cutucadas da minha amada, que, pasmem, estava nova como folha. Ela se levantou numa agilidade improvável para alguém que havia ingerido tanto álcool e, então, me fez o seguinte convite: "Quero conhecer o ET! Será que Varginha fica muito longe?”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Eduardo Martínez (1967)
O escritor EDUARDO MARTÍNEZ (nome artístico de Eduardo Cesario-Martínez) é um dos nomes de destaque da literatura contemporânea independente no Brasil, reconhecido por sua impressionante trajetória polímata. Atualmente radicado em Porto Alegre, ele consolidou uma escrita que une sensibilidade artística ao olhar analítico de suas múltiplas formações.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1967. Embora sua produção literária transite por vivências em Brasília e no Rio de Janeiro, ele reside e desenvolve suas principais atividades culturais em Porto Alegre desde o ano de 2021. Concilia três graduações distintas que enriquecem diretamente sua visão de mundo e sua escrita: Jornalismo: Sua primeira área de graduação, responsável por lapidar seu estilo direto de escrita, o domínio da técnica da crônica e sua atuação na imprensa; Medicina Veterinária: Graduou-se em 1999 pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ o que lhe deu uma compreensão profunda sobre a biologia e a fragilidade da vida; Engenharia Agronômica: Formou-se pela Universidade de Brasília, agregando conhecimentos em ciência aplicada e na relação humana com a terra.
A caminhada literária de Martínez começou oficialmente nos anos 2000 e ganhou forte projeção nacional por meio de premiações de relevância no meio independente. Em 2004, publicou seu primeiro romance, Despido de Ilusões, livremente inspirado na jornada de um egresso de Medicina Veterinária da UFRRJ. O livro obteve excelente recepção, figurando na época entre os títulos mais lidos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ). É editor e colunista do portal Notibras (https://www.notibras.com/site/), onde comanda a editoria Café Literário e já ultrapassou a marca de 600 contos e crônicas publicados. Também escreve ativamente para o Blog do Menino Dudu e o Jornal Cultural ROL. Além de participar de mais de 40 antologias coletivas, é autor de quatro livros principais, destacando-se Despido de Ilusões (2004), Meu melhor amigo e eu, Raquel e a aclamada coletânea 57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho (2024). Foi semifinalista do 3º Prêmio MicroConto de Ouro em 2023 e viveu o ápice de seu reconhecimento ao vencer o conceituado Prêmio Literário Clarice Lispector 2025 na categoria de Livro de Contos, em cerimônia realizada no Copacabana Palace.
A relevância da prosa curta de Eduardo Martínez para o cenário literário nacional atual apoia-se em aspectos técnicos e pedagógicos:
1. Estética do cotidiano e mistério acessível: Ler Martínez desperta um turbilhão de reflexões éticas e existenciais a partir de situações inusitadas. O autor consegue aproximar os questionamentos psicológicos densos (herdados de influências de Dostoiévski) de uma narrativa fluida, prazerosa e de fácil absorção para o leitor comum.
2. Função didática nas escolas: Seus textos alcançaram uma importância pedagógica prática significativa, sendo adotados e utilizados por diversas instituições de ensino no Rio de Janeiro e em Brasília para fomentar o poder transformador da leitura nas salas de aula.
3. Estímulo à literatura independente e contemporânea: Como comandante do Café Literário e autor premiado fora dos grandes conglomerados editoriais comerciais, Martínez tornou-se uma voz ativa na defesa e na visibilidade de novos talentos e pequenas editoras no país. Ele atua como uma importante "válvula de escape" para a resistência da produção de contos e crônicas em língua portuguesa.
Fontes:
Blog do Menino Dudu. 28.04.2022
Voando nas Asas da Poesia * 2 *
São José dos Campos/SP
AMOR À ROÇA
Idoso, já comendo de alpisteiro,
Sem condição alguma de voltar
À minha antiga faina de vaqueiro,
Eu passo o dia todo a meditar...
Mas não lamento estar o tempo inteiro
Deitado, sem poder me levantar,
Pois aproveito bem ainda o cheiro
Gostoso do curral que vem no ar...
Vem-me à lembrança o verde da campina
Bastante esbranquiçada de nelore,
Mal dissipava o sol toda a neblina...
E vou compondo versos, quanto possa...
Não quero que a saudade me estupore,
Com tanto amor que tenho pela roça!
= = = = = = = = = = = = = =
Cidinha Frigeri
Londrina/PR
Água pura e cristalina
no meu pote mergulhou…
E como luz que ilumina
minha sede então saciou.
= = = = = = = = = = = = = =
Antonio Manoel Abreu Sardenberg
São Fidélis/RJ
RUMO DA VIDA
Tirei o traço na trena,
Toquei fogo na fornalha,
Saí de foco, de cena,
Rezei com fé a novena,
Dei flores pra namorada...
Afinei minha viola,
Recitei o meu poema
Confessei o meu dilema,
Pra vida eu nem dei bola.
Fugi cedo da escola
E o filme da minha vida
Projetei no meu cinema...
Arrumei as minhas tralhas,
Fiquei perdido na trilha,
Refugiei-me na ilha
Desse mundo de ilusão.
Doei pra você todinho
O meu pobre coração!
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Nemésio Prata
Fortaleza/CE
Perdido em pleno deserto,
procurei, com muito prumo,
encontrar o rumo certo;
achei..., e mudei de rumo!
= = = = = = = = = = = = = =
José Antonio Jacob
Juiz de Fora/MG
ALMINHA
Desperto, pois que o sol já está lá fora,
E ainda zonzo de sono e de esperança,
Deixo pular pela janela afora
A minha inquieta alminha de criança.
Que corre alegre, rodopia e trança
Entre o florado que a manhã decora,
Depois, como uma folha, vai embora
Seguindo a brisa que na tarde avança.
Não se descuide minha alminha boa
Que vai anoitecer, (a tarde é breve!)
O sol logo declina e o tempo voa!...
E, antes que o dia, ao alto, se deforme,
Ela retorna dócil, meiga e leve,
E acomoda-se, no meu colo, e dorme...
= = = = = = = = = = = = = =
Miguel Malty
Brasília/DF
Clarão de cristais:
Das brumas emerge a terra
Na luz da alvorada.
= = = = = = = = = = = = = =
Cora Coralina
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás/GO, 1889 – 1985, Goiânia/GO
VELHO
Estás morto, estás velho, estás cansado!
Como um suco de lágrimas pungidas
Ei-las, as rugas, as indefinidas
Noites do ser vencido e fatigado.
Envolve-te o crepúsculo gelado
Que vai soturno amortalhando as vidas
Ante o repouso em músicas gemidas
No fundo coração dilacerado.
A cabeça pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna e amiga,
Que os teus nervosos círculos governa.
Estás velho estás morto! Ó dor, delírio,
Alma despedaçada de martírio
Ó desespero da desgraça eterna.
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Ana Maria do Nascimento
Araçoiaba/CE
Ao surgir um trovador,
na minha estrada sem fim
o néctar de um pleno amor
pude descobrir em mim!
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Carlos Drummond de Andrade
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ
LAGOA
Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.
Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.
Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa...
= = = = = = = = = = = = = =
Esmeraldo Siqueira
Pedro Velho/RN
Crer no amor é crer na vida,
saber amar é viver.
Quem descrê do amor duvida
da própria razão de ser.
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Diamantino Ferreira
Campos dos Goytacazes/RJ
SE UM DIA...
- Se um dia me disseres... se o disseres!
“Amo-te! Apesar dos teus defeitos!”
Serás a maior, mais falsa das mulheres,
dentre outras tantas. Sem quaisquer conceitos!
Dirás apenas que ... ”Por que me queres,
pois nenhuma de nós pensa em “direitos”?
Eis que somos apenas teus talheres,
das tuas refeições e teus confeitos!
Tenho o direito de dizer: Sou tua!
Enquanto vives tu, vives na rua,
e te queres achar seres meu dono!
Que mãe eu tive – se algum dia a tive?
Não a conheço e se tampouco vive.
...A quem pertenço – enfim - neste abandono?
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Guilherme de Almeida
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP
CARIDADE
Desfolha-se a rosa.
Parece até que floresce
O chão cor-de-rosa.
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Miguel Russowsky
Santa Maria/RS ,1923 – 2009, Joaçaba/SC
SOLIDÃO
Depois que o amor passou... fez-se o vazio
e o desespero armou a sua tenda,
num leito triste abandonado e frio,
que nem a própria insônia recomenda.
Ficaram três promessas em contenda,
semi murchas e tortas , num desvio.
As ilusões gentis, em minha agenda,
entraram em completo desvario.
Sobrou a solidão que está comigo.
Sou bom anfitrião e dei-lhe abrigo,
pois prefere pessoas com idade.
A solidão é muito inteligente,
vive plantando, a sós, uma semente,
que nasce sob a forma de saudade.
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Fabrício Avelino
Barbacena/MG
linha
reta
rotas
tortas
letras
alteradas
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Professor Garcia
Caicó/RN
SENTIMENTOS
Quando o dia se apressa e vai embora,
num silêncio que fere e que angustia,
a tristeza me invade e me devora,
nas horas sepulcrais, do fim do dia.
Como quem diz adeus e triste chora,
vai-se o sol delirando de agonia,
e a cortina da noite, Deus decora,
com luz tênue, de vã melancolia.
Distante, bem distante, muito além,
a tristeza me acena, como quem
se despede de alguém, que já morreu,
foi apenas a luz de um dia lindo,
que cansada, acenou quase dormindo
e nos braços da noite adormeceu!
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Ari de Santos Campos
Balneário Camboriú/SC
Areias soltas no chão,
rolam pra lá e pra cá...
Eu sou apenas um grão
que só vive a Deus dará.
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Fernando Pessoa
Lisboa/ Portugal, 1888 - 1935
DORME
Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
= = = = = = = = = = = = = =
Washington Daniel Gorosito Pérez (Adeus a Vicente Quirarte)
(tradução do espanhol por José Feldman)
Vicente Quirarte Castañeda (1954-2026), poeta, ensaísta, dramaturgo, narrador, cronista e acadêmico, nasceu em 19 de julho, 1954 na Cidade do México e faleceu em 11 de agosto de 2026, aos 72 anos na mesma cidade.
Ele frequentou o graduação em Língua e Literatura Hispânica pela Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), onde também obteve o título de mestre em Literatura Hispânica e, em 1998, obteve seu doutorado em Letras Mexicanas, na mesma instituição educacional.
Na UNAM trabalhou por décadas como professor, pesquisador, coordenador de oficinas e foi membro do Conselho Diretor da mais alta casa de estudos do México e América Latina, desde 2017. Docente de Bacharelado, Mestrado e Bacharelado e convidado para instituições estrangeiras como Austin College, a Universidade Hebraica de Jerusalém e Universidade de Sevilha. Ele era membro do Sistema Nacional de Pesquisadores.
Em 2024, a UNAM prestou homenagem a ele por ocasião de seus 70 anos e de sua carreira. Foi acompanhado pelo colóquio chamado: "Viver é escrever com todo o corpo". Além disso, em 2003, ingressou na Academia Mexicana de Lengua, ocupando a cadeira 31 e o discurso de aceitação que ele fez naquela ocasião foi intitulado: "O México dos contemporâneos".
No período de 2004 a 2008, foi diretor da Biblioteca Nacional do México. Ele entrou como membro do National College em 2016. Sua palestra inaugural foi intitulada: "El laurel invisible" que foi respondido pelo arqueólogo Eduardo Matos Moctezuma, que ressaltava a habilidade de Quirarte de entrelaçar literatura, história e cultura enriquecendo o panorama cultural do país. Nessa instituição, dedicou-se à disseminação de da literatura e cultura mexicanas.
Quirarte Castañeda foi agraciado com múltiplos prêmios, por sua obra literária, entre os que se destacam em 1979, recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Juvenil Francisco Francisco González León, em 1990; o Prêmio Nacional José Revueltas de Ensaio Literário, em 1991, o Prêmio Xavier Villaurrutia, em 1994, o Prêmio Universitário Distinção Nacional para Jovens Acadêmicos na área de Criação e Extensão Artística de Cultura.
O poeta e ensaísta, recebeu em 2000 o Prêmio Sergio Magaña; o Prêmio Poesia Ibero-Americana Ramón López Velarde 2011; o Prêmio da Universidade Nacional, em 2012 na categoria de Criação Artística e Extensão da Cultura; Em 2013, ele foi agraciado com a Prêmio da Universidade Nacional. Quando recebeu o Prêmio de Artes e Literatura em 2024, sobre sua carreira, o escritor disse:
"A morte é um grande enigma, mas também é uma aceitação da vida. Nascer é começar morrer, já estamos mortos. O que fazemos é viver a vida como ela nos é dada para fazer isso."
Vicente Quirarte Castañeda disse: "O segredo não é ser jovem, mas manter a juventude, a insatisfação com a ideia que não prospera, a frase mal articulada, o projeto superior ao pensamento".
Ele descreveu o Cidade do México, o centro de seu trabalho como: "A cidade como uma máquina do tempo onde eles podem ser melhores examinando os caminhos paralelos e divergentes da história e da literatura; a cidade como uma mulher nutritiva ou devoradora".
O trabalho literário começou em 1979 com a coletânea de poemas intitulada: "Teatro sobre o Vento Amado", mais tarde sua obra poética e narrativa foi prolífica e excepcional. Entre ela. Livro de poesias: "Vencer a brancura" (1982); Ensaio: Por el azogue y la granada: Gilberto Owen em seu discurso amoroso (1990); "O anjo é um vampiro." (1991). "Em Louvor da Rua" (2004); "Viajantes Mexicanos para Nova York." (2009). A coletânea de contos: "Dying Every Day" (2019) e o ensaio autobiográfico: "O Invencível". (2013). Junto com Bernardo Esquinca, publicou o antologia Ghost City. História fantástica da Cidade do México (XIX-XXI).
Vicente Quirarte Castañeda foi uma figura-chave na literatura mexicana contemporânea, que em uma ocasião, referindo-se à poesia, ele disse:
"Você vai toda a vida procurando aqueles versos que concentram tudo que a humanidade sente porque, no fim, quem escreve o que os outros sentem, só se coloca o no meio do caminho, o leitor completa o ciclo."
Eu compartilho com você um poema de Vicente Quirarte Castañeda:
ENCONTRO COM A NEVE
Nevou toda a noite e amanhece
a terra imaculada.
Quem poderia dizer que abaixo o manto
prepara seu verdor a primavera.
Se a pureza existe,
quão semelhante é à neve:
folha branca dada pelo mundo
para provar que nada permanece.
Até o próximo encontro…!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Washington Daniel Gorosito Pérez (1961)
O escritor, sociólogo e jornalista WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ é uma voz de grande relevância na literatura hispano-americana contemporânea. Nascido no Uruguai e naturalizado mexicano, sua produção artística e intelectual conecta com maestria a sensibilidade poética às reflexões críticas sobre a política internacional, a educação e os problemas sociais. Nasceu em 1961, na cidade de Montevidéu, no Uruguai. Viveu sua juventude no Uruguai. Desde 1991, mudou-se para o México, fixando residência na cidade de Irapuato, no estado de Guanajuato. Tornou-se oficialmente cidadão mexicano naturalizado em 1999. Iniciou sua trajetória acadêmica no Uruguai, graduando-se em Jornalismo aplicado aos Meios de Comunicação Social. No México, consolidou uma sólida carreira acadêmica nas Ciências Humanas: licenciou-se e obteve o título de Mestre em Sociologia da Educação, tornando-se também doutorando em Pedagogia. Atua há décadas como catedrático universitário, pesquisador e conferencista. É um jornalista ativo de opinião, sendo o autor da célebre coluna internacional “Encuentro con Gorosito”, publicada em diversos veículos de comunicação das Américas e da Europa.
Sua inserção no mundo das letras é marcada por uma produção híbrida, dividida entre o rigor dos ensaios acadêmicos e o lirismo da poesia existencial e urbana. Possui forte vínculo com instituições intelectuais no território mexicano, participando ativamente de saraus, congressos e núcleos de escritores associados à Academia Nacional e Internacional de Poesía (como os núcleos de San Luis Potosí e da Cidade do México), além de ser colaborador frequente de coletivos de vanguarda e revistas culturais independentes. Ao longo de sua estrada literária, acumulou um expressivo reconhecimento em certames de prosa e poesia pela América Latina. Ele recebeu 2 prêmios provinciais, 5 prêmios nacionais e 14 prêmios internacionais de literatura. Suas produções também foram selecionadas para integrar mais de 16 antologias internacionais de poesia e contos.
Entre livros individuais, ensaios de sociologia e participações em antologias poéticas de prestígio, destacam-se: Una biblioteca sin libros (2022); Relatos de tradiciones (2022); Tras las huellas de Ana Neumann (2023); Trazos poéticos 3 (2023) – Obra comemorativa do Dia Mundial da Arte; Sombras del Aire, antología 2023 – Coletânea poética de grande repercussão em Guanajuato; Urbana – Livro comemorativo celebrando sua produção de crônicas e versos.
A relevância de Gorosito Pérez reside em sua condição de escritor de fronteiras e de fusão cultural. Como um legítimo representante da literatura da diáspora e do exílio voluntário, ele transporta a melancolia rioplatense (típica do Uruguai) para a vibrante e mística realidade do interior mexicano. Sua bagagem como sociólogo confere à sua poesia uma profundidade ímpar, na qual o lirismo nunca se desliga das dores do homem comum, da passagem do tempo e das desigualdades sociais. Além disso, seu papel como educador e colunista internacional constrói pontes fundamentais de integração cultural dentro do continente americano, mantendo a palavra escrita como uma ferramenta viva de resistência e conscientização política.
Fonte:
Biografia de Washington = Literomania, Revista Mimeografo, Sombra del Aire, Revista Innombrable, El Sol de Irapuato, Espacio Latino, etc.
Estante de Livros (“O Doutor Negro”, de Sir Arthur Conan Doyle)
Resumo
A narrativa apresenta um ambiente sombrio, marcado por mistério, superstição e medo. O centro da história é a figura de um médico associado à cor negra — tanto por sua aparência e reputação quanto pelo clima de ameaça que o envolve. Sua presença provoca desconfiança e fascínio, pois ele parece transitar entre a explicação racional da medicina e uma dimensão quase sobrenatural.
O doutor é visto como alguém diferente dos demais: reservado, enigmático e ligado a acontecimentos difíceis de explicar. À medida que a história avança, o leitor percebe que a imagem assustadora construída ao redor dele não depende apenas de fatos concretos, mas também dos boatos e preconceitos das pessoas que o observam.
O conflito principal nasce da tensão entre duas interpretações:
a. a de que os acontecimentos têm uma explicação natural;
b. a de que o doutor está relacionado a forças ocultas ou malignas.
Doyle conduz o leitor por uma atmosfera de suspense, revelando as informações aos poucos. O desfecho procura esclarecer o mistério, mas preserva a sensação de inquietação típica das histórias de terror do autor.
1. A oposição entre razão e superstição
Um dos temas mais importantes é o conflito entre o pensamento racional e o medo do desconhecido. Como médico, o protagonista representa a ciência e o conhecimento. Porém, sua aparência, seu comportamento e as circunstâncias que o cercam fazem com que as pessoas o interpretem de maneira supersticiosa.
Doyle não apresenta o medo apenas como reação a um perigo real. Muitas vezes, o medo nasce da falta de informação. Quando as pessoas não compreendem algo, criam explicações sobrenaturais para preencher essa lacuna.
2. A imagem do “doutor negro”
A palavra “negro” funciona como símbolo de várias ideias:
- mistério;
- morte;
- perigo;
- segredo;
- exclusão;
- desconhecido.
O título já prepara o leitor para uma figura ambígua. O doutor não é apresentado simplesmente como herói ou vilão. Ele provoca uma sensação dupla: pode ser alguém capaz de salvar vidas, mas também parece esconder algo ameaçador.
Essa ambiguidade é essencial para o suspense. O leitor nunca sabe completamente se deve confiar nele.
3. Aparência e preconceito
A obra também pode ser interpretada como uma crítica à tendência humana de julgar alguém pela aparência, pela reputação ou por sua diferença em relação ao grupo.
O doutor é transformado em uma figura assustadora antes mesmo de que suas ações sejam plenamente compreendidas. Isso mostra como a comunidade participa da criação do monstro: os comentários, os rumores e o medo coletivo aumentam sua imagem ameaçadora.
Assim, o terror não vem somente do personagem, mas também da maneira como os outros o enxergam.
4. O médico como figura ambivalente
Na literatura de terror, o médico costuma ocupar uma posição especial. Ele conhece o corpo humano, a doença e a morte. Por isso, pode ser visto como alguém que possui um conhecimento quase proibido.
Em O Doutor Negro, essa ambivalência aparece com força:
- ele representa a cura, mas está associado à doença;
- trabalha para preservar a vida, mas é cercado por imagens de morte;
- pertence ao mundo racional, mas parece ligado ao sobrenatural.
Essa contradição torna o personagem mais interessante do que um vilão comum.
5. Atmosfera e construção do suspense
Doyle utiliza recursos típicos do conto gótico:
- ambientes isolados;
- sensação de ameaça;
- acontecimentos noturnos;
- silêncio e expectativa;
- rumores;
- personagens desconfiados;
- informações incompletas.
O autor não precisa mostrar o horror o tempo todo. Muitas vezes, ele apenas sugere que algo terrível pode acontecer. Essa sugestão é eficaz porque permite que o leitor imagine um perigo ainda maior.
O suspense cresce pela demora na explicação. Cada detalhe parece poder revelar a verdade, mas também pode ser uma pista falsa.
6. O medo do desconhecido
O conto mostra que o desconhecido é assustador porque não pode ser controlado. Quando as pessoas não sabem quem é o doutor, quais são suas intenções ou o que realmente aconteceu, elas passam a imaginar o pior.
Esse mecanismo continua atual: rumores e interpretações apressadas podem transformar uma pessoa comum em uma ameaça imaginária. A história, portanto, não trata apenas de fantasmas ou mistérios; trata também da psicologia do medo.
7. Narrativa e estilo
O estilo de Conan Doyle combina:
- descrição atmosférica;
- ritmo gradual;
- revelações parciais;
- linguagem objetiva, mas carregada de tensão;
- contraste entre explicações racionais e possibilidades sobrenaturais.
Mesmo quando a história parece caminhar para uma explicação lógica, Doyle mantém uma dúvida residual. Essa dúvida é uma das marcas mais interessantes de seus contos de mistério: o leitor recebe respostas, mas nem sempre se sente completamente seguro.
PERSONAGENS
O Doutor Negro
É a figura central da narrativa. Sua personalidade é construída por meio do mistério e da percepção dos outros. Ele não é apenas um indivíduo, mas também um símbolo do desconhecido e do conhecimento que assusta.
Os observadores e moradores
Representam a opinião coletiva. Eles ajudam a espalhar rumores e a transformar acontecimentos incomuns em uma narrativa de terror. Sua reação mostra como o medo pode ser socialmente construído.
O narrador ou investigador
Dependendo da tradução e da edição, a história pode apresentar uma voz narrativa mais próxima de um observador ou de alguém que reconstrói os fatos. Essa posição permite que o leitor descubra a verdade gradualmente, junto com quem narra.
Interpretação do final
O final pode ser entendido de duas maneiras:
- racional: os acontecimentos possuem uma explicação natural, e o medo foi provocado por coincidências, boatos ou interpretações erradas;
- sobrenatural: mesmo depois da explicação, permanece a impressão de que existe algo além da razão.
Essa incerteza é importante. Doyle não pretende apenas solucionar um enigma; ele quer deixar o leitor desconfortável, questionando se a realidade é totalmente explicável.
Conclusão
O Doutor Negro é uma narrativa de mistério e terror psicológico que explora o medo do desconhecido, a força dos rumores e o conflito entre ciência e superstição. O doutor é uma figura ambígua: pode ser visto como ameaça, vítima de preconceito ou símbolo de um conhecimento que as pessoas não conseguem compreender.
A principal mensagem da obra é que o medo nem sempre nasce de um perigo concreto. Muitas vezes, ele é criado pela imaginação, pela aparência e pela falta de informação. Por isso, o conto continua interessante: além de provocar suspense, ele questiona a facilidade com que julgamos aquilo que é diferente.
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