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sábado, 5 de setembro de 2026

Versos Esparsos * 8 *

 

Nemésio Prata (Plantando Trovas)


1
A droga foi seu arpéu,
sem destino, destroçado,
vagueia na rua, ao léu,
até quando for "levado"!
2
Antes do quebrar da barra,
ao canto do caboré,
sussurrando, ela me agarra,
dizendo: hora do café!
3
Ao relento, relegado,
negado pelo destino;
hoje vive escravizado,
coitado; que desatino!
4
Ao ver a imagem singela
do barco, tranquilo, ao mar,
lembrei-me: não há procela
que Deus não possa acalmar!
5
Chorando, segue o andarilho
solitário, a sua dor;
de deixar pra trás um filho,
fruto de um fugaz amor!
6
Com talento e sutileza
no salão, "a media luz",
o casal mostra a leveza
do belo tango andaluz!
7
Coração, enquanto bate,
é vida, amor e paixão;
mas depois que ele se abate,
é vela, choro e caixão!
8
Correndo, desesperado,
de mala e chapéu na mão,
o passageiro, coitado,
perdeu o trem... e a razão!
9
Deixe a Natureza em paz,
rapaz, tenha mais juízo; 
pois isso que você faz
demonstra falta de siso!
10
Descendo esta escadaria
Onde ela vai me levar?
Se eu soubesse eu desceria;
Como não sei, vou ficar!
11
Despertando, reparei
a "louça" já preparada
em nossa cama, e tomei
o "Café" da madrugada!
12
De toda trova legenda
que já fiz na minha vida
esta veio de encomenda,
pois não dei nem a partida!
13
De tudo que eu aprendi
pra chegar a ser “doutor”,
se, bem, eu o compreendi:
devo muito ao Professor!
14
Deus me livre, por um dia
me faltar um Livro a mão;
de tristeza eu morreria,
em pungente solidão!
15
Deus, o Poeta dos Poetas,
é TROVADOR; e em poesias
manda-nos netos e netas
para encher-nos de alegrias!
16
Dizem, com propriedade,
que a saudade é inexplicável;
explica-se: na verdade,
o senti-la é indecifrável!
17
Dois minutos, Cinderela;
está chegando o momento!
Não vá cair na esparrela
de esquecer o encantamento!
18
É noite, e a brisa do sono
sopra, mansa e sorrateira;
em seus braços me abandono,
enroscado, a noite inteira!
19
Entre lágrimas e risos,
respostas às emoções,
liberamos sentimentos
represos nos corações!
20
Férias! Ah, sim, bem eu sei,
que és bem merecedora;
mas, cá, não esquecerei
de ti, grande trovadora!
21
Homem, mau, vil e perverso;
toda vez que tu desmatas,
mesmo em nome do progresso,
é a ti mesmo que tu matas!
22
Já não suportamos mais
ver os nossos pequeninos,
nas mãos destes marginais:
traficantes-assassinos!
23
Lancei minha rede ao mar
e pesquei bela sereia
que comigo foi deitar
noutra rede, em plena areia!
24
Maranguape a tua glória
são teus filhos de valor;
foi Capistrano, na História,
e Chico Anísio, no Humor!
25
Na mata o machado bate
forte pra tirar "madeira";
e assim o "homem" abate,
uma a uma, a mata inteira!
26
Na mão o toco de giz,
na outra, o apagador;
na assistência o aprendiz,
no tablado o Professor!
27
Não "curta" a sua velhice
dando voz ao seu lamento;
deixe dessa "caduquice"
seu "velhote" rabugento!
28
Não queiras por teu amigo
quem não pode ser provado
no dar água, pão e abrigo,
para alguém necessitado!
29
Na solidão do meu eu,
fugindo da realidade,
meu pensamento varreu
da mente toda verdade!
30
No céu, as nuvens, e as flores,
no campo; um quadro sem par.
É Deus tingindo de cores
a Primavera a chegar!
31
Nos bailes não dava trela,
e a todos dizia não;
mas no fim foi a donzela
quem "dançou": ficou na mão!
32
Nos braços do seu amor,
loucamente apaixonada,
ela sente o seu calor
mesmo sob a chuvarada!
33
O ato de ler praticado
com prazer, pelo leitor;
no final, seu resultado,
assemelha-se ao do amor!
34
O bailarino, indeciso,
na chuva, dá mil volteios;
e o lampião diz, bem preciso:
homem, deixe de rodeios!
35
O envelhecer é sublime
presente a nós concedido
por Deus; o que bem exprime:
Dele, ninguém é esquecido!
36
Olhando com bem clareza
pras marcas do seu herdeiro,
já não tem tanta certeza
de ser o pai verdadeiro!
37
Olho azul, branco e lourinho
o filho do "Zé Negão"
lembrava mais o vizinho;
coitado, tinha razão!
38
Os dois silentes, colados,
corações a palpitar;
olhares apaixonados...
já pensou no que vai dar?
39
Para cuidar da saúde
com desvelo e competência
busco Médico amiúde,
amigo, de preferência!
40
Passei horas meditando,
pensando no que dizer;
terminei nada compondo,
sem nada para escrever!
41
Perdido na multidão
das ruas, sem ter alguém
que ao menos lhe estenda a mão;
não passa de um "Zé Ninguém"!
42
Pintor, por que teimas ver
o teu sol onde ele não
pode mais aparecer,
vítima da poluição?
43
Por aqui passava um rio
caudaloso e pleno em vida;
hoje mal se vê um fio
d'água suja e poluída!
44
Quando chove no sertão
o sertanejo se apega
ao santo de devoção,
esperando pela sega!
45
Quem ama a literatura,
e a ela se entrega, tem
prazer não só na leitura,
mas, no produzir, também!
46
Quem busca noiva, é preciso
que tome muito cuidado;
procure uma de bom siso,
pra não terminar "ornado"!
47
Quem corta, na natureza,
árvores sem precisão,
destrói-a e deixa-a indefesa;
é um ser sem coração!
48
Selva: bela e exuberante;
cria, de rara beleza,
de Deus que, naquele instante,
nominou-a... Natureza!
49
Sem um "pingo" de pudor
o mar fita a lua, arfante,
clamando: vem meu amor,
quero te ter por amante!
50
Ser Poeta neste mundo
é cultivar nele o Amor;
sentimento mais fecundo
na vida do TROVADOR!
51
Se tu estás velho, também,
mais perto de Deus tu estás;
tem tu, pois, por grande bem
ser velho, e bem viverás!
52
Se você anda amargado,
tristonho, ou com grande dor,
procure ser "medicado"
por um Doutor TROVADOR!
53
Se você sofre de tédio
só tem um jeito: tomar
TROVADOR, santo remédio;
e seu tédio vai passar!
54
- Solta-me! Clama o navio
ao cais que o faz prisioneiro;
- deixa-me sair vadio
pelo mar... que é meu parceiro!
55
Tem coisas que não se explica
na vida de um TROVADOR;
uma: é quanto ele mais fica
só, mais cultiva o Amor!
56
Tem Poeta nesta terra
que seus versos dão prazer
de lê-los, pois ele encerra
numa Trova o seu dizer!
57
Tem quem só quer receber
para si o que é melhor,
porém ao aparecer
chance pra dar: dá o pior!
58
Toda noite o seresteiro
aguardava a madrugada
para declarar, faceiro,
seu amor à sua amada!
59
Todo livro deve que ter
"título" bem eficaz...
pois não é que o meu vai ser:
Leia-me... (se for capaz).
60
Triste sina a da criança
deste meu Brasil gigante;
vive “presa” na esperança
de escapar do traficante!
61
Uma folha de caderno,
um lápis, e a inspiração,
bastam ao trovador terno
pra lhe abrir o coração!
62
Vendo a imensidão do mar
pensei cá, com meus botões:
se esta turbina falhar
tem "janta" pros tubarões!
63
Vindo de tão longe, não
se deu conta que chegara
ao seu velho e antigo chão,
que há muito tempo deixara!
64
Voa, canário indeciso,
o que esperas; afinal
seres liberto é preciso,
mesmo pensando irreal!
Três Trovas sem Pé nem Cabeça
65
Sem barulho, corta o céu
por entre as nuvens, um trem,
levando pro beleléu
a lua, e o sol também!
66
Era noite e a lua cheia,
viu chegar a madrugada,
trazendo o sol, em candeia,
deixando-lhe "encandeada"!
67
Não deixe a coisa ficar
do jeito que já não dê
pra você, um jeito dar,
no sujeito que é você!
Teia de Trovas sobre o Limão
68
No meio do laranjal
que plantei lá no sertão
deu-se um fato especial:
só foi colhido limão!
69
Recebendo este recado
do presidente Alencar
vou tomar maior cuidado
quando limão for provar!
70
Trovando e tirando as provas
deste fato memorável;
provei, brincando com trovas,
de que o limão é saudável!
71
Ao tomar a limonada
vá bebendo devagar
sorvendo cada golada
pro seu gosto apreciar!
72
Pode até não ser remédio
mas não dê cavaco não;
agora, ao chegar o tédio
o remédio é... com limão!
73
Cabe a cada cidadão
interpretar os pontinhos
desde que o "velho" limão
não falte nos pingadinhos!
74
Se você não é chegado
a quaisquer pingas, então:
esqueça logo o pingado
e chupe, puro, o limão!
75
Quem muito chupa limão,
dizem alguns entendidos,
melhora a "disposição":
aceito seus desmentidos!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
NEMÉSIO PRATA CRISÓSTOMO é um destacado poeta e trovador cearense, amplamente reconhecido no meio literário da trova nacional. Embora sua produção literária seja bastante ativa e premiada É associado a Fortaleza/CE, cidade onde resie e desenvolveu grande parte de suas atividades culturais e estudantis (consta, por exemplo, na lista histórica de alunos do Colégio Militar de Fortaleza. Nemésio é uma figura carimbada e altamente premiada em Jogos Florais pelo Brasil. Entre suas marcas registradas estão premiações de destaque no Prêmio de Poesia e Trovas Juvenal Galeno, no Concurso de Trovas de Maranguape, no Prêmio Chico Anysio, além de participações em eventos de destaque como os Jogos Florais de Viçosa/MG (2024). Suas trovas e poemas aparecem com frequência em coletâneas especializadas e almanaques literários de circulação nacional, como o conceituado Almanaque Literário O Voo da Gralha Azul
A relevância de Nemésio Prata Crisóstomo reside na preservação e fomento da trova, uma das formas poéticas mais tradicionais, exigentes e populares da Língua Portuguesa. Ao produzir trovas que combinam rigor formal com temas cotidianos, sociais e filosóficos, ele ajuda a manter viva a tradição dos menestréis e trovadores no Nordeste e no Brasil, garantindo que essa rica herança poética continue alcançando novas gerações.

José Feldman (Contos para crianças e não tão crianças) O Abraço Possível


Era uma manhã ensolarada na Clareira Verde. O coelho Leco dava saltos tão altos que suas longas orelhas balançavam no vento. Ele transbordava alegria. Havia acabado de ganhar a corrida anual dos bichos e mal podia esperar para comemorar com sua melhor amiga, a ouriça Tatá.

Ao avistá-la perto de um pé de amoras, Leco correu em disparada, gritando:

— Tatá! Eu venci! Eu venci!

E, no embalo da empolgação, Leco abriu os braços para dar aquele abraço de urso — ou melhor, de coelho.

— Espere, Leco! Não corre tanto! — avisou Tatá, encolhendo-se instintivamente.

Mas foi tarde demais. Plim! Plim! Ui!

Leco freou abruptamente, dando um pulinho para trás e massageando o próprio peito.

— Ai, ai, ai! Esqueci que você está cheia de espinhos hoje, Tatá! — disse Leco, rindo de nervoso e fazendo careta.

Tatá olhou para baixo, chateada. Seus espinhos estavam todos eriçados por causa do susto.

— Desculpa, Leco... Eu queria muito te dar um abraço de parabéns. Mas o meu corpo é assim. Se eu me emociono ou me assusto, meus espinhos sobem. Eu não queria te machucar.

Leco, vendo a amiga murchar, esqueceu a dorzinha na mesma hora. Ele sentou-se na grama e colocou a pata no queixo, pensando.

— Não fica triste, Tatá. A culpa foi minha, eu vim correndo que nem um foguete! Mas... tem que ter um jeito. Todo mundo comemora com um abraço. Como é que a gente vai fazer?

Tatá pensou um pouco, olhou para os lados e viu uma grande folha de bananeira caída no chão. Os olhos dela brilharam.

— Já sei! Leco, pegue aquela folha ali!

Leco correu, pegou a folha e a estendeu entre os dois.

— E agora? — perguntou o coelho.

— Agora, nós nos abraçamos com a folha no meio! Ela protege as suas patinhas dos meus espinhos! — sugeriu Tatá, animada.

Eles tentaram. Leco apertou a folha de um lado, Tatá do outro. Mas a folha era tão grossa e rígida que eles mal conseguiam se sentir.

— Hum... não deu muito certo — disse Leco, soltando a folha. — Parece que estou abraçando uma parede de planta. Eu quero sentir o carinho da minha amiga!

— É verdade — suspirou Tatá. — E se a gente tentar o "abraço de costas"? Minha barriga não tem espinhos, é bem macia.

— Boa ideia! — topou Leco.

Tatá virou de frente para Leco, e Leco ficou de costas. Eles tentaram se encostar, mas as orelhas compridas de Leco começaram a fazer cócegas no nariz de Tatá.

— Atchim! — espirrou a ouriça. Com o espirro, ela deu um pulinho e Zás! — quase espetou o bumbum do coelho.

— Opa! Quase! — Leco deu um salto para frente, rindo. — Esse é perigoso demais!

Os dois sentaram na grama, um de frente para o outro, pensativos. O vento soprava suave, balançando as flores da clareira. Tatá olhou para suas próprias patinhas e depois para as patas longas de Leco.

— Leco... e se o abraço não precisar ser com o corpo todo? — perguntou Tatá, timidamente.

— Como assim?

— Olha só. Estica a sua pata direita.

Leco esticou a pata peluda e macia. Tatá, com muito cuidado para não erguer nenhum espinho, esticou sua patinha pequena e a encostou na palma da pata de Leco. Depois, ela entrelaçou seus pequenos dedos nos dedos dele. Com a outra pata, ela tocou o ombro de Leco, onde não havia espinhos, e Leco encostou o nariz comprido e quentinho bem no topo da cabecinha de Tatá, onde os espinhos eram bem baixinhos.

Eles fecharam os olhos. Não havia pressa, não havia dor, e nenhum espinho subiu.

— Puxa... — sussurrou Leco, com um grande sorriso. — Estou sentindo o abraço. É quentinho igual.

— É o nosso abraço — disse Tatá, feliz da vida. — O Abraço Possível.

A partir daquele dia, sempre que queriam comemorar ou demonstrar carinho, Tatá e Leco não corriam para se esbarrar. Eles se aproximavam devagar, esticavam as patinhas e inventavam um novo toque que fosse confortável e seguro para os dois. Afinal, o afeto não estava na força do impacto, mas no cuidado de estarem juntos.
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Moral: 
O verdadeiro carinho não machuca e nem força espaço. Amar e ser amigo de alguém significa encontrar maneiras criativas de demonstrar afeto, respeitando sempre os limites e o corpo do outro.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fonte:
José Feldman. Aventuras de Leco e Tatá: contos para crianças e não tão crianças. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.

Lima Barreto (Os Enterros de Inhaúma)


Certamente há de ser impressão particular minha não encontrar no cemitério municipal de Inhaúma aquele ar de recolhimento, de resignada tristeza, de imponderável poesia do Além, que encontro nos outros. Acho-o feio, sem compunção com um ar momo de repartição pública; mas se o cemitério me parece assim, e não me interessa, os enterros que lá vão ter, todos eles, aguçam sempre a minha atenção quando os vejo passar, pobres ou não, a pé ou em coche-automóvel.

A pobreza da maioria dos habitantes dos subúrbios ainda mantém neles esse costume rural de levar a pé, carregados a braços, os mortos queridos.

É um sacrifício que redunda num penhor de amizade em uma homenagem das mais sinceras e piedosas que um vivo pode prestar a um morto.

Vejo-os passar e calculo que os condutores daquele viajante para tão longínquas paragens, já andaram alguns quilômetros e vão carregar o amigo morto, ainda durante cerca de uma légua. Em geral assisto a passagem desses cortejos fúnebres na rua José Bonifácio canto da Estrada Real. Pela manhã gosto de ler os jornais num botequim que há por lá. Vejo os órgãos, quando as manhãs estão límpidas, tintos com a sua tinta especial de um profundo azul-ferrete e vejo uma velha casa de fazenda que se ergue bem próximo, no alto de uma meia laranja, passam carros de bois, tropas de mulas com sacas de carvão- nas cangalhas, carros de bananas, pequenas manadas de bois, cujo campeiro cavalga atrás sempre com o pé direito embaralhado em panos.

Em certos instantes, suspendo mais demoradamente a leitura do jornal, e espreguiço o olhar por sobre o macio tapete verde do capinzal intérmino que se estende na minha frente.

Sonhos de vida roceira me vêm; suposições do que aquilo havia sido, ponho-me a fazer. Índios, canaviais, escravos, troncos, reis, rainhas, imperadores - tudo isso me acode à vista daquelas coisas mudas que em nada falam do passado.

De repente, tilinta um elétrico, buzina um- automóvel chega um caminhão carregado de caixas de garrafas de cerveja; então, todo o bucolismo do local se desfaz, a emoção das priscas eras em que os coches de Dom João VI transitavam por ali, esvai-se e ponho-me a ouvir o retinir de ferro malhado, uma fábrica que se constrói bem perto.

Vem porém o enterro de uma criança; e volto a sonhar.

São moças que carregam o caixão minúsculo; mas assim mesmo, pesa. Percebo-o bem, no esforço que fazem.

Vestem-se de branco e calçam sapatos de salto alto. Sopesando o esquife, pisando o mau calçamento da rua, é com dificuldade que cumprem a sua piedosa missão. E eu me lembro que ainda têm de andar tanto! Contudo, elas vão ficar livres de um suplício; é o do calçamento da rua do Senador José Bonifácio. É que vão entrar na Estrada Real; e, naquele trecho, a prefeitura só tem feito amontoar pedregulhos, mas tem deixado a vetusta via pública no estado de nudez virginal em que nasceu. Isto há anos que se verifica.

Logo que as portadoras do defunto pisam o barro unido do velho trilho, adivinho que elas sentem um grande alívio dos pés à cabeça. As fisionomias denunciam. Atrás, seguem outras moças que as auxiliarão bem depressa, na sua tocante missão de levar um mortal à sua última morada neste mundo; e, logo após, graves cavalheiros de preto, com o chapéu na mão, carregando palmas de flores naturais, algumas com aspecto silvestre, e baratas e humildes coroas artificiais fecham o cortejo.

Este calçamento da rua Senador José Bonifácio, que deve datar de uns cinquenta anos é feito de pedacinhos de seixos mal ajustados e está cheio de depressões e elevações imprevistas. É mau para os defuntos; e até já fez um ressuscitar.

Conto-lhes. O enterro era feito em coche puxado por muares. Vinha das bandas do Engenho Novo, e tudo corria bem. O carro mortuário ia na frente, ao trote igual das bestas. Acompanhavam-no seis ou oito caleças, ou meias caleças, com os amigos do defunto. Na altura da estação de Todos os Santos, o cortejo deixa a rua Arquias Cordeiro e toma perpendicularmente, à direita, a de José Bonifácio. Coche e caleças põem-se logo a jogar como navios em alto-mar tempestuoso. Tudo dança dentro deles. O cocheiro do carro fúnebre mal se equilibra na boleia alta. Oscila da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, que nem um mastro de galera debaixo de tempestade braba. Subitamente, antes de chegar aos "Dois Irmãos", o coche cai num caldeirão, pende violentamente para um lado; o cocheiro é cuspido ao solo, as correias que prendem o caixão ao carro, partem-se, escorregando a jeito e vindo espatifar-se de encontro às pedras; e - oh! terrível surpresa! do interior do esquife, surge de pé - lépido, vivo, vivinho, o defunto que ia sendo levado ao cemitério a enterrar. Quando ele atinou e coordenou os fatos não pôde conter a sua indignação e soltou uma maldição: "Desgraçada municipalidade de minha terra que deixas este calçamento em tão mal estado! Eu que ia afinal descansar, devido ao teu relaxamento volto ao mundo, para ouvir as queixas da minha mulher por causa da carestia da vida, de que não tenho culpa alguma; e sofrer as impertinências do meu chefe Selrão, por causa das suas hemorróidas, pelas quais não me cabe responsabilidade qualquer! Ah! Prefeitura de uma figa, se tivesses uma só cabeça havias de ver as forças das minhas munhecas! Eu te esganava, maldita, que me trazes de novo à vida!"

A este fato, eu não assisti, nem ao menos morava naquelas paragens, quando aconteceu; mas pessoas dignas de toda a confiança me garantem a autenticidade dele. Porém, um outro muito interessante aconteceu com um enterro quando eu já morava por elas, e dele tive notícias frescas, logo após o sucedido, por pessoas que nele tomaram parte.

Tinha morrido o Felisberto Catarino, operário, lustrador e empalhador numa oficina de móveis de Cascadura. Ele morava no Engenho de Dentro, em casa própria, com razoável quintal, onde havia, além de alguns pés de laranjeiras, uma umbrosa mangueira, debaixo da qual, aos domingos, reunia colegas e amigos para bebericar e jogar a bisca.

Catarino gozava de muita estima, tanto na oficina como na vizinhança.

Como era de esperar, o seu enterro foi muito concorrido e feito a pé, com um denso acompanhamento. De onde ele morava, até ao cemitério de Inhaúma, era um bom pedaço; mas os seus amigos a nada quiseram atender: Resolveram levá-lo mesmo a pé. Lá fora, e no trajeto, por tudo que era botequim e taverna por que passavam, bebiam o seu trago. Quando o caminho se tornou mais deserto até os condutores do esquife deixavam-no na borda da estrada e iam à taverna "desalterar". Numa das últimas etapas do itinerário, os que carregavam, resolveram de mútuo acordo deixar o pesado fardo para os outros e encaminharam-se sub-repticiamente para a porta do cemitério. Tanto estes como os demais - é de toda a conveniência dizer - já estavam bem transtornados pelo álcool. Outro grupo concordou fazer o mesmo que tinham feito os carregadores dos despojos mortais de Catarino; um outro, idem; e, assim, todo o acompanhamento dividido em grupos, tomou o rumo do portão do campo-santo, deixando o caixão fúnebre com o cadáver de Catarino dentro abandonado à margem da estrada.

Na porta do cemitério, cada um esperava ver chegar o esquife pelas mãos de outros que não as deles; mas nada de chegar. Um, mais audaz, após algum tempo de espera, dirigindo-se a todos os companheiros, disse bem alto:

- Querem ver que perdemos o defunto?

- Como? perguntaram os outros, a uma voz.

- Ele não aprece e estamos todos aqui, refletiu o da iniciativa.

- É verdade, fez outro.

Alguém então aventou:

- Vamos procurá-lo. Não seria melhor?

E todos voltaram sobre os seus passos, para procurar aquela agulha em palheiro...

Tristes enterros de Inhaúma! Não fossem essas tintas pinturescas e pitorescas de que vos revestis de quando em quando de quanta reflexão acabrunhadora não havíeis de sugerir aos que vos veem passar; e como não convenceríeis também a eles que a maior dor desta vida não é morrer...
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AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO foi um dos maiores escritores da literatura brasileira, conhecido por sua crítica social contundente e sua narrativa realista e inovadora. Nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1881, e faleceu precocemente em sua cidade natal, em 1922, aos 41 anos, vítima de um colapso cardíaco ligado a problemas crônicos de saúde e ao alcoolismo. Viveu a maior parte de sua vida no subúrbio carioca, especialmente no bairro de Todos os Santos, local que serviu de grande inspiração para suas obras. Ingressou no curso de Engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, mas precisou abandonar os estudos para sustentar a família após o adoecimento mental de seu pai. Trabalhou como amanuense (copista e escriturário) na Secretaria da Diretoria Geral do Comércio do Ministério da Guerra. Atuou intensamente na imprensa, escrevendo crônicas, reportagens e sátiras políticas para diversos periódicos da época, como A Lanterna e Correio da Manhã.
Utilizava uma linguagem simples e direta, o que gerava resistência nos círculos acadêmicos da época, que preferiam o academicismo rebuscado. Sua escrita focava nos marginalizados, no preconceito racial e nas hipocrisias da República Velha. O escritor nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele se candidatou três vezes à instituição, mas foi rejeitado em todas devido ao teor agressivo de suas críticas ao sistema literário e pelo racismo institucional da época. Não recebeu prêmios literários expressivos em vida, tendo grande parte de seu reconhecimento consolidada apenas postumamente.
Entre romances, sátiras e memórias, destacam-se: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909); Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911) – sua obra-prima; Numa e a Ninfa (1915); Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919); Clara dos Anjos (publicado postumamente em 1948); Diário Íntimo e Cemitério dos Vivos (publicações póstumas de caráter autobiográfico).
Lima Barreto é uma figura fundamental do Pré-Modernismo brasileiro. Sua importância reside na coragem de romper com o formalismo da Belle Époque para dar voz e dignidade aos subúrbios, aos negros e aos pobres. Ele foi um dos primeiros a denunciar abertamente o preconceito racial e as desigualdades sociais do Brasil pós-abolição. Sua linguagem jornalística e coloquial antecipou as inovações que os modernistas consolidariam em 1922. Hoje, ele é celebrado como um autor indispensável para entender as raízes da formação social e cultural brasileira.

Fonte:
Revista Careta. 26 de agosto de 1922..

J. G. de Araújo Jorge (Trevos de Quatro Versos)


"REALEJO..."

Coração – pobre realejo –
com canções velhas e novas...
Tudo o que sinto, e o que vejo,
vais tocando.. . em minhas trovas…
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"QUEM CALCULA ?"

Ao ler uma bela trova
depois que pronta ficou,
- quem calcula a dura prova
por que o poeta passou ?
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"O ETERNO TRIÂNGULO... "

Aos meus ciúmes doentios
Tu me disseste ainda nua:
- De olhos abertos sou dele!
De olhos fechados, sou tua!

Ciúme tolo, policial,
Tão pretensioso, irritante,
Se eras casada... e afinal
Eu era apenas... amante...

E eis a suprema ironia
Ao meu coração ferido:
- tu foste trair-me um dia,
Mas, com quem? - com teu marido...

(Ó Amor, como desandas!)
Ontem, ciúmes... mil espreitas...
Hoje, nem sei onde andas,
Nem em que cama te deitas…
= = = = = = = = = = = = = =  

"SER MÃE..."

Quando todos te condenem
quando ninguém te escutar,
ela te escuta e perdoa,
pois ser mãe – é perdoar!

Quando todos te abandonem
e ninguém te queira ver,
ela te segue e procura
pois ser mãe – é compreender!

Quando todos te negarem
um pão, um beijo, um olhar,
ela te ampara e acarinha
pois ser mãe – sempre é se dar!
= = = = = = = = = = = = = =  

"DIÁLOGO IMPOSSÍVEL"

Chama-me tu, por favor,
Se estamos juntos, e a sós...
- não ponhas este Senhor
tão importuno... entre nós...

Tu tão moça, eu tão vivido...
Tantos anos de permeio.
- Bem poderias ter sido
o grande amor que não veio...

Tu, moça, bela, tão calma...
Eu, inquieto, a alma ferida...
- O diabo leve a minha alma!
- Quero o amor de Margarida!
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"PORTUGAL"

Portugal, que, num segundo
da História, - do "era uma vez"
fizeste do mar - um mundo!
E o mundo - um mar português !

Portugal de D. Diniz
que em seus pinhais, em Leiria,
plantava naus que, feliz
o Infante Henrique, colhia!

Araste o Mar – tuas velas
abriram caminhos novos...
Teus grãos – eram caravelas!
E as colheitas – eram povos!
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"VOCÊ... E O NATAL..."

Festa na terra e no céu...
Só eu só... tão triste assim...
- Quem dera Papai Noel
trouxesse Você pra mim!

Quem dera Papai Noel
descendo pelos espaços
me desse um pouco de céu
pondo Você em meus braços...

Neste dia belo e doce
de festa, - sentimental,
- quem dera que Você fosse
meu presente de Natal !
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"FILOSOFIA..."

Você quer mesmo saber
como a vida se levar ?
Pois é... primeiro viver...
e depois... filosofar...

Vou pisando folhas mortas
sem amanhã... Sigo a esmo...
Fecham-se todas as portas...
Sou o fantasma de mim mesmo...

Disse Jesus certo dia
com bondade e com saber
- há mais alegria em dar,
muito mais - que em receber !

Não tinha paz nem descanso...
O amor... a vida.... – Voragem !
Hoje, a saudade é um remanso
a refletir a folhagem...

Diz que é rico... Pode ser...
Mas pode ser que não seja...
Ser rico é apenas poder
fazer o que se deseja...

Nessa eterna e dura lida
renasço a cada momento
lavando as dores da vida
no rio do esquecimento...

Onde o sonhar de outra idade?
A fé que tive, e perdi?
Hoje chego a ter saudade
daquele... que já morri...

Tu queres mais, sempre mais...
Sê comedido, prudente...
Até o bem quando é demais
acaba enjoando a gente...

Livre da dor, do desgosto,
mais feliz o homem seria
se assim como lava o rosto
lavasse a alma todo o dia.

Paro, as vezes, num momento
feliz, que se vai embora,
e enquanto o vivo, a perde-lo,
sinto saudades... de agora.

- "Crê na Vida"- eis o conselho
da esperança ante a desgraça,
se a face do fria do espelho
de calor ainda se embaça...

Pobre alma triste a cativa !
E há quanta gente como eu
a pensar que ainda está viva
sem saber que já morreu
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"SORRIA..."

Esperava tanta luta
e tão pouco foi preciso:
ao invés da força bruta
ele empregou... um sorriso...

Eis a arte de viver
num conselho dos mais sábios:
às vezes, para vencer
basta um sorriso nos lábios...

Nem tanta coisa é preciso
para evitar-se um revés...
- Tão pouco... basta um sorriso
e eis todo mundo a teus pés…
= = = = = = = = = = = = = =  

"MÃOS..."

 Como aves desarvoradas
Depois de roteiros vãos
Tuas mãos vieram, cansadas,
Se aninhar em minhas mãos...

Há momentos... Acontece...
Puro, o amor pode ficar,
Como duas mãos em prece,
Esquecidas, a rezar...

Quando maior é o carinho
Às vezes, tenho a impressão
De que conversam baixinho...
Tua mão... em minha mão…
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JOSÉ GUILHERME DE ARAÚJO JORGE, imortalizado na literatura como J. G. de Araújo Jorge, foi um influente poeta, escritor, jornalista e político brasileiro. Nascido em Tarauacá, no Acre, em 1914, faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 1987, aos 72 anos. Conhecido carinhosamente como o "Poeta do Povo e da Mocidade", ele equilibrou ao longo da vida o lirismo romântico e o forte engajamento social. Em Rio Branco (AC) viveu toda a sua infância, realizando os estudos primários. Mudou-se na juventude para o Rio de Janeiro para dar continuidade aos estudos secundários e superiores. Permaneceu radicado no Rio de Janeiro (antigo Distrito Federal e Estado da Guanabara) durante a maior parte de sua vida adulta e profissional. J. G. teve uma atuação profissional multifacetada e dinâmica Atuou como jornalista, publicitário, locutor e redator em importantes emissoras da era de ouro do rádio, como a Rádio Nacional, Rádio Tupi, Cruzeiro do Sul e Eldorado. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ). Dotado de forte vocação pública, elegeu-se Deputado Federal em 1970 pelo antigo Estado da Guanabara. Exerceu três mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, onde chegou a ocupar a presidência da Comissão de Comunicação e a vice-liderança do partido de oposição à época (MDB).
Sua trajetória literária começou excepcionalmente cedo. Ainda estudante do tradicional Colégio Pedro II, foi eleito o "Príncipe dos Poetas" da instituição em 1932, sendo saudado pessoalmente pelo escritor Coelho Neto. Sua escrita se consolidou por meio de uma linguagem simples, fluida, musical e profundamente voltada aos sentimentos populares e às angústias sociais de sua época. Foi fundador e presidente da Academia de Letras do Internato Pedro II e fundador e primeiro presidente da Academia de Letras da Universidade. Foi também um dos grandes articuladores e fundadores da União Brasileira de Trovadores (UBT) ao lado de Luiz Otávio, consolidando o movimento da trova no país. Logo na estreia, seu primeiro livro recebeu uma prestigiosa Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras (ABL). Durante seus anos de estudante na Europa, recebeu o título de "Estudante Honorário" da renomada Universidade de Coimbra, em Portugal.
Autor de uma obra vasta com mais de 30 títulos publicados, destacam-se: Meu Céu Interior (1934) – Obra de estreia poética ; Bazar de Ritmos (1935); Cântico dos Cânticos (1937); Amo! (1938); Cântico do Homem Prisioneiro (1941); Os Versos Que Te Dou (1949) – Um de seus maiores sucessos de público; etc.
J. G. de Araújo Jorge ocupa um lugar singular na literatura brasileira como o poeta do afeto e da acessibilidade. Embora muitas vezes combatido ou preterido pela crítica modernista mais rígida devido ao seu estilo assumidamente neorromântico, ele alcançou um feito raro: uma imensa e duradoura popularidade com o povo. Seus poemas e trovas eram amplamente recitados por jovens, apaixonados e estudantes de norte a sul do Brasil. Ao unir o lirismo romântico à poesia de protesto social e político, ele provou que o fazer poético não precisava ficar restrito aos círculos acadêmicos fechados. Sua contribuição fundamental ajudou a estruturar e eternizar a trova como um patrimônio cultural vibrante e democrático na Língua Portuguesa.

Fontes:
J.G. de Araujo Jorge . Trevo de Quatro Versos". 1. ed. Livraria São José, 1964.
Biografia = Wikipedia, Jornal de Poesia, Dicionário MPB, Antonio Miranda, etc.

Versos Esparsos * 8 *