Trovadores em Ordem Alfabética

  • A (49)
  • B (5)
  • C (22)
  • D (12)
  • E (14)
  • F (12)
  • G (9)
  • H (11)
  • I (4)
  • J (31)
  • L (34)
  • M (31)
  • N (8)
  • O (12)
  • P (11)
  • R (18)
  • S (13)
  • T (5)
  • V (5)
  • W (9)
  • Z (2)

sábado, 30 de maio de 2026

José Feldman (Grinalda Indígena) * 6 *

 

Antonio Brás Constante (O filme que ainda não assistimos…)

Joana está na frente da locadora de DVD. Não lembra como chegou ali, mas sua vontade agora é de voltar para casa o mais breve possível, e ver o filme que está em suas mãos.

Chegando em casa vai direto para seu quarto, coloca o DVD no aparelho e deita-se confortavelmente em sua cama.

O filme começa com um nascimento, a mulher que deu a luz ao bebê parece-lhe estranhamente familiar. As cenas seguintes vão mostrando a vida desta criança, o primeiro banho, seus primeiros passos, as primeiras palavras. De repente, Joana se dá conta que aquela menina que aparece nas imagens é ela. Consegue finalmente identificar sua mãe, que na época estava bem mais jovem, seu pai, seus irmãos. O filme transcorre mostrando toda sua vida, suas alegrias, tristezas, brigas, vitórias e derrotas.

“Que incrível”, pensa Joana. Cada momento apresentado é uma recordação preciosa. Sua mente retorna no tempo junto com o filme, viajando até época da escola, e depois da faculdade. A excursão para Paris. Seus amores. Os amigos conquistados. Os empregos por onde passou.

Cada pedacinho de sua história é contata detalhadamente. Apresentada com tal realismo, que parece que está tudo acontecendo novamente. O filme chega então ao seu momento presente. Começa mostrando a hora em que Joana acorda, seu café, o jornal deixado sobre o sofá. O dia vai transcorrendo através da tela do televisor. Ela então se recorda do que aconteceu ao se aproximar da locadora de filmes. Já estava a poucos metros da loja quando começou a escutar o barulho das sirenes. Ouviu o ruído de uma freada de carros. O som de tiros. Gritos. Confusão. Lembra de se sentir tonta, o mundo todo girando diante de si, e então o desmaio.

Agora estava tudo muito claro, aquilo não foi um desmaio. O ambiente ao seu redor vai se modificando neste instante. O quarto desaparece. Joana está novamente em pé, parada em frente à locadora, olhando para ela mesma caída no chão. Várias pessoas em volta do corpo sem vida, algumas chamando por socorro. Ela foi atingida por uma bala perdida. Está morta. Uma luz aparece envolvendo-lhe por completo. Sua história termina aqui.

Tudo fica escuro e nesta escuridão começam a aparecer legendas, iguais às que surgem ao final de um filme. Nelas está escrito:

“Estes acontecimentos, foram baseados em fatos que se tornam reais a cada momento, em todas às partes do mundo. O que aconteceu com Joana poderia ter acontecido com qualquer pessoa, comigo, com um parente seu, um conhecido, quem sabe seu pai, irmão, esposa, filhos ou até mesmo com você. A violência não faz distinção quanto ao sexo, credo, idade, ou cor da pele. Ela está a nossa volta e, para ser o ator principal, o único critério exigido é o de se estar vivo”.

Fonte:

Júlia Lopes de Almeida (A Caolha)


A caolha era uma mulher magra, alta, macilenta, peito fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados, largos nos cotovelos, grossos nos pulsos; mãos grandes, ossudas, estragadas pelo reumatismo e pelo trabalho; unhas grossas, chatas e cinzentas, cabelo crespo, de uma cor indecisa entre o branco sujo e o louro grisalho, desse cabelo cujo contato parece dever ser áspero e espinhento; boca descaída, numa expressão de desprezo, pescoço longo, engelhado, como o pescoço dos urubus; dentes falhos e cariados.

O seu aspecto infundia terror às crianças e repulsão aos adultos; não tanto pela sua altura e extraordinária magreza, mas porque a desgraçada tinha um defeito horrível: haviam lhe extraído o olho esquerdo; a pálpebra descera mirrada, deixando, contudo, junto ao lacrimal, uma fístula continuamente porejante.

Era essa pinta amarela sobre o fundo denegrido da olheira, era essa destilação incessante de pus que a tornava repulsiva aos olhos de toda gente.

Morava numa casa pequena, paga pelo filho único, operário numa fábrica de alfaiate; ela lavava a roupa para os hospitais e dava conta de todo o serviço da casa inclusive cozinha. O filho, enquanto era pequeno, comia os pobres jantares feitos por ela, às vezes até no mesmo prato; à proporção que ia crescendo, ia-se a pouco e pouco manifestando na fisionomia a repugnância por essa comida; até que um dia, tendo já um ordenadozinho, declarou à mãe que, por conveniência do negócio, passava a comer fora…

Ela fingiu não perceber a verdade, e resignou-se.

Daquele filho vinha-lhe todo o bem e todo o mal.

Que lhe importava o desprezo dos outros, se o seu filho adorado lhe pagasse com um beijo todas as amarguras da existência?

Um beijo dele era melhor que um dia de sol, era a suprema carícia para o triste coração de mãe! Mas… os beijos foram escasseando também, com o crescimento do Antonico! Em criança ele apertava-a nos braços e enchia-lhe a cara de beijos; depois, passou a beijá-la só na face direita, aquela onde não havia vestígios de doença; agora, limitava-se a beijar-lhe a mão!

Ela compreendia tudo e calava-se.

O filho não sofria menos.

Quando em criança entrou para a escola pública da freguesia, começaram logo os colegas, que o viam ir e vir com a mãe, a chamá-lo – o filho da caolha.

Aquilo exasperava-o; respondia sempre:

– Eu tenho nome!

Os outros riam e chacoteavam-no; ele se queixava aos mestres, os mestres ralhavam com os discípulos, chegavam mesmo a castigá-los – mas a alcunha pegou. Já não era só na escola que o chamavam assim.

Na rua, muitas vezes, ele ouvia de uma ou outra janela dizerem: o filho da caolha! Lá vai o filho da caolha! Lá vem o filho da caolha!

Eram as irmãs dos colegas, meninas novas, inocentes e que, industriadas pelos irmãos, feriam o coração do pobre Antonico cada vez que o viam passar!

As quitandeiras, onde iam comprar as goiabas ou as bananas para o lanche, aprenderam depressa a denominá-lo como os outros, e, muitas vezes, afastando os pequenos que se aglomeravam ao redor delas, diziam, estendendo uma mancheia de araçás, com piedade e simpatia:

– Taí, isso é para o filho da caolha!

O Antonico preferia não receber o presente a ouvi-lo acompanhar de tais palavras; tanto mais que os outros, com inveja, rompiam a gritar, cantando em coro, num estribilho já combinado:

– Filho da caolha, filho da caolha!

O Antonico pediu à mãe que não o fosse buscar à escola; e muito vermelho, contou-lhe a causa; sempre que o viam aparecer à porta do colégio os companheiros murmuravam injúrias, piscavam os olhos para o Antonico e faziam caretas de náuseas.

A caolha suspirou e nunca mais foi buscar o filho.

Aos onze anos o Antonico pediu para sair da escola: levava a brigar com os condiscípulos, que o intrigavam e malqueriam. Pediu para entrar para uma oficina de marceneiro. Mas na oficina de marceneiro aprenderam depressa a chamá-lo – o filho da caolha, a humilhá-lo, como no colégio.

Além de tudo, o serviço era pesado e ele começou a ter vertigens e desmaios. Arranjou então um lugar de caixeiro de venda: os seus colegas agruparam-se à porta, insultando-o, e o vendeiro achou prudente mandar o caixeiro embora, tanto que a rapaziada ia-lhe dando cabo do feijão e do arroz expostos à porta nos sacos abertos! Era uma contínua saraivada de cereais sobre o pobre Antonico!

Depois disso passou um tempo em casa, ocioso, magro, amarelo, deitado pelos cantos, dormindo às moscas, sempre zangado e sempre bocejante! Evitava sair de dia e nunca, mas nunca, acompanhava a mãe; esta poupava-o: tinha medo que o rapaz, num dos desmaios, lhe morresse nos braços, e por isso nem sequer o repreendia! Aos dezesseis anos, vendo-o mais forte, pediu e obteve-lhe, a caolha, um lugar numa oficina de alfaiate. A infeliz mulher contou ao mestre toda a história do filho e suplicou-lhe que não deixasse os aprendizes humilhá-lo; que os fizesse terem caridade!

Antonico encontrou na oficina uma certa reserva e silêncio da parte dos companheiros; quando o mestre dizia: sr. Antonico, ele percebia um sorriso mal oculto nos lábios dos oficiais; mas a pouco e pouco essa suspeita, ou esse sorriso, se foi desvanecendo, até que principiou a sentir-se bem ali.

Decorreram alguns anos e chegou a vez de Antonico se apaixonar. Até aí, numa ou outra pretensão de namoro que ele tivera, encontrara sempre uma resistência que o desanimava, e que o fazia retroceder sem grandes mágoas. Agora, porém, a coisa era diversa: ele amava! Amava como um louco a linda moreninha da esquina fronteira, uma rapariguinha adorável, de olhos negros como veludos e boca fresca como um botão de rosa. O Antonico voltou a ser assíduo em casa e expandia-se mais carinhosamente com a mãe; um dia, em que viu os olhos da morena fixarem os seus, entrou como um louco no quarto da caolha e beijou-a mesmo na face esquerda, num transbordamento de esquecida ternura!

Aquele beijo foi para a infeliz uma inundação de júbilo! Tornara a encontrar o seu querido filho! Pôs-se a cantar toda a tarde, e nessa noite, ao adormecer, dizia consigo:

– Sou muito feliz… o meu filho é um anjo!

Entretanto, o Antonico escrevia, num papel fino, a sua declaração de amor à vizinha. No dia seguinte mandou-lhe cedo a carta. A resposta fez-se esperar. Durante muitos dias Antonico perdia-se em amarguradas conjecturas.

Ao princípio pensava: – É o pudor.

Depois começou a desconfiar de outra causa; por fim recebeu uma carta em que a bela moreninha confessava consentir em ser sua mulher, se ele se separasse completamente da mãe! Vinham explicações confusas, mal alinhavadas: lembrava a mudança de bairro; ele ali era muito conhecido por filho da caolha, e bem compreendia que ela não se poderia sujeitar a ser alcunhada em breve de – nora da caolha, ou coisa semelhante!

O Antonico chorou! Não podia crer que a sua casta e gentil moreninha tivesse pensamentos tão práticos!

Depois o seu rancor se voltou para a mãe.

Ela era a causadora de toda a sua desgraça! Aquela mulher perturbara a sua infância, quebrara-lhe todas as carreiras, e agora o seu mais brilhante sonho de futuro sumia-se diante dela! Lamentava-se por ter nascido de mulher tão feia, e resolveu procurar meio de separar-se dela; iria considerar-se humilhado continuando sob o mesmo teto; havia de protegê-la de longe, vindo de vez em quando vê-la à noite, furtivamente…

Salvava assim a responsabilidade do protetor e, ao mesmo tempo, consagraria à sua amada a felicidade que lhe devia em troca do seu consentimento e amor…

Passou um dia terrível; à noite, voltando para casa levava o seu projeto e a decisão de o expor à mãe.

A velha, agachada à porta do quintal, lavava umas panelas com um trapo engordurado. O Antonico pensou: “Ao dizer a verdade eu havia de sujeitar minha mulher a viver em companhia de… uma tal criatura?” Estas últimas palavras foram arrastadas pelo seu espírito com verdadeira dor. A caolha levantou para ele o rosto, e o Antonico, vendo-lhe o pus na face, disse:
– Limpe a cara, mãe…

Ela sumiu a cabeça no avental; ele continuou:

– Afinal, nunca me explicou bem a que é devido esse defeito!

– Foi uma doença, – respondeu sufocadamente a mãe – é melhor não lembrar isso!

– E é sempre a sua resposta: é melhor não lembrar isso! Por quê?

– Porque não vale a pena; nada se remedeia…

– Bem! Agora escute: trago-lhe uma novidade. O patrão exige que eu vá dormir na vizinhança da loja… já aluguei um quarto; a senhora fica aqui e eu virei todos os dias saber da sua saúde ou se tem necessidade de alguma coisa… É por força maior; não temos remédio senão sujeitar-nos!…

Ele, magrinho, curvado pelo hábito de costurar sobre os joelhos, delgado e amarelo como todos os rapazes criados à sombra das oficinas, onde o trabalho começa cedo e o serão acaba tarde, tinha lançado naquelas palavras toda a sua energia, e espreitava agora a mãe com um olhar desconfiado e medroso.

A caolha se levantou e, fixando o filho com uma expressão terrível, respondeu com doloroso desdém:

– Embusteiro! O que você tem é vergonha de ser meu filho! Saia! Que eu também já sinto vergonha de ser mãe de semelhante ingrato!

O rapaz saiu cabisbaixo, humilde, surpreso da atitude que assumira a mãe, até então sempre paciente e cordata; ia com medo, maquinalmente, obedecendo à ordem que tão feroz e imperativamente lhe dera a caolha.

Ela o acompanhou, fechou com estrondo a porta, e vendo-se só, encostou-se cambaleante à parede do corredor e desabafou em soluços.

O Antonico passou uma tarde e uma noite de angústia.

Na manhã seguinte o seu primeiro desejo foi voltar à casa; mas não teve coragem; via o rosto colérico da mãe, faces contraídas, lábios adelgaçados pelo ódio, narinas dilatadas, o olho direito saliente, a penetrar-lhe até o fundo do coração, o olho esquerdo arrepanhado, murcho – murcho e sujo de pus; via a sua atitude altiva, o seu dedo ossudo, de falanges salientes, apontando-lhe com energia a porta da rua; sentia-lhe ainda o som cavernoso da voz, e o grande fôlego que ela tomara para dizer as verdadeiras e amargas palavras que lhe atirara no rosto; via toda a cena da véspera e não se animava a arrostar com o perigo de outra semelhante.

Providencialmente, lembrou-se da madrinha, única amiga da caolha, mas que, entretanto, raramente a procurava.

Foi pedir-lhe que interviesse, e contou-lhe sinceramente tudo o que houvera.

A madrinha escutou-o comovida; depois disse:

– Eu previa isso mesmo, quando aconselhava tua mãe a que te dissesse a verdade inteira; ela não quis, aí está!

– Que verdade, madrinha?

Encontraram a caolha a tirar umas nódoas do fraque do filho – queria mandar-lhe a roupa limpinha. A infeliz se arrependera das palavras que dissera e tinha passado a noite à janela, esperando que o Antonico voltasse ou passasse apenas… Via o porvir negro e vazio e já se queixava de si! Quando a amiga e o filho entraram, ela ficou imóvel: a surpresa e a alegria amarraram-lhe toda a ação.

A madrinha do Antonico começou logo:

– O teu rapaz foi suplicar-me que te viesse pedir perdão pelo que houve aqui ontem e eu aproveito a ocasião para, à tua vista, contar-lhe o que já deverias ter-lhe dito!

– Cala-te! – murmurou com voz apagada a caolha.

– Não me calo! Essa pieguice é que te tem prejudicado! Olha, rapaz! Quem cegou a tua mãe foste tu!

O afilhado tornou-se lívido; e ela concluiu:

– Ah, não tiveste culpa! Eras muito pequeno quando, um dia, ao almoço, levantaste na mãozinha um garfo; ela estava distraída, e antes que eu pudesse evitar a catástrofe, tu o enterraste pelo olho esquerdo! Ainda tenho no ouvido o grito de dor que ela deu!

O Antonico caiu pesadamente de bruços, com um desmaio; a mãe acercou-se rapidamente dele, murmurando trêmula:

– Pobre filho! Vês? Era por isto que eu não queria dizer nada!

Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Ânsia eterna. Publicado originalmente em 1903.. Disponível em Domínio Público

Baú de Trovas 8

 


A vida é um túnel estreito
que à eternidade conduz.
- Só o amor nos dá o direito
ao desembarque na Luz.
A. A. DE ASSIS
= = = = = = = = = 

Bilhete é sempre um recado
para ser dado escondido
a um alguém apaixonado
por outro alguém proibido!
ADEMAR MACEDO
= = = = = = = = = 

As rosas do amor, colhi-as,
rosas de vários matizes...
Tenho hoje nas mãos vazias
saudades e cicatrizes.
ANDERSON BRAGA HORTA
= = = = = = = = = 

Mata a revolta em teu peito,
não a deixes florescer:
rio com pedras no leito
não pode alegre correr!...
ANTÔNIO JURACI SIQUEIRA
= = = = = = = = = 

Do passado, ouço a cantiga
que recorda, ternamente,
que há sempre uma rua antiga
nos velhos sonhos da gente...
ALBERTINA MOREIRA PEDRO
= = = = = = = = = 

Tropeiro da mocidade
galopando a solidão,
foste conquista, e és saudade
que deixa rastro em meu chão...
APARECIDO ELIAS PESCADOR
= = = = = = = = = 

Ternura - ponte afetiva
construída de calor,
que serve, quando se avisa,
de passagem para o amor.
APRYGIO NOGUEIRA
= = = = = = = = = 

Em tudo existe um encanto:
é regra da natureza.
Alguns tentam, e no entanto,
não enxergam a beleza.
ARTHUR THOMAZ
= = = = = = = = = 

Num simples verso se prova
este mistério profundo:
- Na pequenez de uma trova
cabe a grandeza do mundo
BATISTA SOARES
= = = = = = = = = 

Singra os mares desta vida
nosso amor, forte veleiro,
bate a procela atrevida
e chega ao porto altaneiro!
BELARMINO FRANCO
= = = = = = = = =

Bem feliz seria o mundo
se pudesse a humanidade
ter um lugar bem fecundo
onde plantasse a bondade.
BENEDITO MOREIRA DE CARVALHO
= = = = = = = = = 

A lua beija a favela...
A estrela no céu reluz...
- Meu bem, apaga essa vela,
o amor não quer tanta luz!…
CAROLINA RAMOS
= = = = = = = = = 

Encontrei na minha trova
a vontade de escrever.
A paixão por coisa nova
faz a gente renascer.
CECIM CALIXTO
= = = = = = = = = 

A noite na minha rua
tem encantos sensuais...
sussurros chegam à lua...
na rua ficam os ais...
CECY FERNANDES DE ASSIS
= = = = = = = = = 

Foi depois de tantas fugas
que acabei por entender
que sem pranto, dor e rugas,
ninguém aprende a viver...
CÉLIA LAMOUNIER DE ARAÚJO
= = = = = = = = = 

O orvalho que cai agora
nos sobejos da queimada,
traduz o pranto que chora
a Natureza arrasada!...
CLARINDO BATISTA
= = = = = = = = = 

Todo livro ,quando aberto,
é pólen, é flor, é fruto...
fechado: é sombra, é deserto,
é silêncio, é campa, é luto.
CYRO ARMANDO CATTA PRETA
= = = = = = = = = 

Por um futuro de Paz
flores nós vamos plantando,
neste momento fugaz,
por onde vamos passando!
CYROBA BRAGA RITZMANN
= = = = = = = = = 

Com cautela... Sem conflito,
aprendo a lição do mar:
- foi contemplando o infinito
que eu aprendi a sonhar.
DJALDA WINTER SANTOS
= = = = = = = = = 

O poeta externa pouco
de sua imaginação,
o resto é um soluço louco
no fundo do coração.
DIOMEDES SANTOS
= = = = = = = = = 

Do que agitou nossas almas
restam sonhos calcinados,
cingindo as crateras calmas
de dois vulcões apagados.
DOROTHY JANSSON MORETTI
= = = = = = = = = 

Quando me sinto estressado,
fugindo da realidade,
vou do presente ao passado
pelo túnel da saudade.
DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO
= = = = = = = = = 

Cada vez que tento, em fuga,
mascarar o meu desgosto,
descubro mais uma ruga
a desmascarar meu rosto...
EDGARD BARCELLOS CERQUEIRA
= = = = = = = = = 

Anoitece e cintilando
qual lantejoulas num véu,
essas estrelas brilhando
são rastros de Deus no céu!
EDNA GALLO
= = = = = = = = = 

O poeta é só um sonho
da poesia mais seleta,
e a poesia, assim suponho,
é o ensaio do poeta.
EDNA VALENTE FERRACINI
= = = = = = = = = 

A página amarelada
de um álbum, quase esquecido,
tem a lembrança velada...
De tanto tempo perdido.
ELISA ALDERANI
= = = = = = = = = 

Velha ponte do caminho
nossa história é parecida:
- Suportamos de mansinho
tantas pisadas na vida!!!
ERCY MARIA MARQUES DE FARIA
= = = = = = = = = 

Ama a vida, simplesmente,
sem disfarce em seu caminho...
Quem ama a vida não sente
a dor de viver sozinho!
EVA GARCIA
= = = = = = = = = 

Um fantasma se assanhou
em bater papos, tadinho...
nas mil vezes que tentou,
ficou falando sozinho!
FERNANDO VASCONCELOS
= = = = = = = = = 

A distância é que nos mata
pois logo vem a saudade;
saudade – presença ingrata
da antiga felicidade.
FILEMON F. MARTINS
= = = = = = = = = 

Se do barro somos feitos,
e ao barro retornaremos,
porque tantos preconceitos,
se iguais todos nós morremos?…
JOSÉ FELDMAN
= = = = = = = = =  

– Musas divinas!... Ao vê-las,
no sonho que me seduz,
subo ao ninho das estrelas,
seguindo os rastros da luz!
JOSÉ LUCAS DE BARROS
= = = = = = = = = 

Eu sou pequeno, seu moço,
mas, quando tiro o chapéu,
minha alma estica o pescoço,
enxerga Deus lá no céu!
JOSÉ MESSIAS
= = = = = = = = = 

Sertão seco... Longo estio...
Em meio a paisagem triste
uma ponte... Mas o rio
infelizmente inexiste!
JOSÉ TAVARES DE LIMA
= = = = = = = = = 

Cai a tarde e a passarada
em gorjeios musicais
é orquestra desafinada
na algazarra dos pardais.
LICÍNIO ANTÔNIO DE ANDRADE
= = = = = = = = = 

Tenho por certo, em verdade,
bem vivo, embora pungente
que a mais pungente saudade...
é aquela de alguém presente!
MAURÍCIO FRIEDRICH
= = = = = = = = = 

Se um pai se entrega à bebida,
ao filho desencaminha.
O mau exemplo é na vida
pior do que erva daninha.
MILTON SOUZA
= = = = = = = = = 

Sorrateira, foi chegando 
a danada da saudade;
meu coração machucando,
sem dó e sem piedade!
NEMÉSIO PRATA
= = = = = = = = = 

Indo por outros caminhos,
neste mundo, às vezes, rude,
vou fugindo dos espinhos,
pois das mulheres não pude!
NILTON MANOEL TEIXEIRA
= = = = = = = = = 

Subo o caule das ideias,
rumo à copa de Deus Pai;
operário, sem colmeias,
sou a abelha que se esvai.
OLIVALDO JUNIOR
= = = = = = = = = 

Nos extremos desta vida,
um contraste se percebe:
– A terra chora a partida
daquele que o céu recebe!
OSVALDO REIS
= = = = = = = = = 

Meu coração suburbano
tu conheces muito bem!
Tem muito do amor humano
que preenche o teu também!
PAULO ROBERTO O. CARUSO
= = = = = = = = = 

Ainda guardo lembranças
de coisas não permitidas:
pedacinhos de esperanças,
restinhos de nossas vidas.
PROFESSOR GARCIA
= = = = = = = = = 

No caminho sem atalhos
que leva ao teu coração,
feri meus pés nos cascalhos
que espalhaste pelo chão.
RENATO ALVES
= = = = = = = = = 

Nas serestas da lembrança
onde o orvalho enfeita a tela,
a minha ilusão te alcança,
mas a razão diz: - Cautela!!!
RITA MOURÃO
= = = = = = = = = 

É a rua da minha infância!
Revejo a casa... ouço o trem...
E cismo, em sonho e à distância,
que ela envelheceu... também!
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
= = = = = = = = = 

Na vida, eu prefiro o jogo,
não de azar, de sedução...
e, em vez de cartas, o fogo
que incendeia uma paixão.
VANDA ALVES DA SILVA
= = = = = = = = = 

Aquele que sempre joga
o lixo em qualquer lugar
é o desleixado que roga:
“ –Venha, dengue,  me atacar!”.
WAGNER MARQUES LOPES
= = = = = = = = =  

Que bom seria um enlace
entre a mente e o coração:
o que a gente desejasse
também quisesse a razão!
WANDA DE PAULA  MOURTHÉ
= = = = = = = = =

Márcia Tiburi (O Desejo do Tempo)

 
Os antigos gregos tinham em Chronos, deus do tempo, a imagem do pai todo poderoso devorador dos filhos. Ele criava, ele mesmo aniquilava. O tempo cronológico é apenas o tempo que passa. Mas a experiência do tempo não passa tão simplesmente, somos nós que passamos por ela. Nos constituímos, em nossa interioridade, a partir dela. Como dizia Santo Agostinho, o tempo é algo complexo demais, sendo muito difícil para cada um explicá-lo. Tanto quanto é fácil de entender, pois estamos nele desde sempre. O tempo nos possui e não o contrário.

UM DIA DE CADA VEZ

É melhor viver um dia de cada vez? É provável que ouçamos ou pronunciemos esta frase em vários momentos da vida. Quando incertezas e desesperanças se põem em cena é a reflexão sobre o tempo (seja ele dito na forma dos dias, das horas, do tempo ao tempo) que sustenta nossas ponderações. Ou na básica ansiedade que move o cotidiano, quando não compreendemos as próprias direções, quando, sem perspectiva ou foco, parece que não buscamos nada. Ansiosos quando queremos muito, nem sempre sabemos bem o que queremos. E nos angustiamos porque estamos no tempo, medido, e não na eternidade, desmedida. A vida exige solução, mas o tempo é o limite de toda vontade. Por isso, ele também é possibilidade.

A frase traz uma sabedoria básica na forma de um conselho sobre o uso e a compreensão do tempo, do qual depende o desejo, nome que se dá ao modo de nos relacionarmos ao futuro, o nosso e o que compomos junto de outros. A frase nos diz sobre um modo de tratar com a frustração comum na sociedade de hoje: a da ausência do desejo que diz respeito a uma incapacidade de criar projeto de vida. Ou seja, o que fazer da vida dentro de seu limite. “Um dia de cada vez” significa: “vá com calma, aproveite o tempo presente”, mas por outro lado, também diz “esqueça a totalidade da vida”. Aí conhecemos o conflito com a “temporalidade” sobre o qual vivemos cegos. Se pensarmos em termos de vantagens, talvez não seja frutífero ter em mente a vida inteira, o todo do que podemos fazer com o tempo que dispomos, pois não há certeza sobre o que virá. Porém, sem pensar no todo da vida, que é o tempo que temos para viver, talvez fique difícil orientar-se dentro dela. Sem sabermos do nosso tempo, estamos perdidos de nós mesmos, sem futuro. A dimensão do tempo é mais que psicológica e metafísica, ela é também prática. Põe-nos diante de nossa liberdade de decisão, define o destino, ou o tempo, que devemos construir.

 A experiência do tempo pode ser uma experiência de angústia, de que algo desconhecido nos espreita. Só o desejo é a cura desta sensação de opacidade da vida. O desejo não é tormento, mas o caminho para sair dele. Ela não vem do nada. Nasce do tempo experimentado em seu limite, do fato de que há a consciência perturbadora da existência que é a morte. Enquanto esperamos seguimos a “viver um dia de cada vez”. No tempo que é sempre medida, a soma dos dias, compõe o sentido da vida, o valor da eternidade.

OS LIMITES DA EXPERIÊNCIA

Assim como damos “limites” às crianças para que possam orientar seus desejos, seus quereres e poderes, nós, mesmo adultos, deveríamos nos reorientar no nosso limite com a vida, a que chamamos tempo. O tempo, todavia, não é a mera duração da vida. A duração é só o tempo do relógio, ela se parece mais com o espaço que percorrem os ponteiros no mostrador. Nosso modo de compreender o tempo é o que nos orienta na vida: o tempo do trabalho, o tempo do lazer, o tempo do conhecimento, do amor, o tempo interior, o tempo domesticado pela vida orientada e administrada que vivemos. O tempo é um radar que nos ensina aonde ir, nossas urgências, os caminhos que precisamos escolher diante da impossibilidade de seguir todos.

 A frase sobre o dia a dia a ser vivido de um em um, nos serve de antídoto quando vivemos esta frustração tão específica que é a do tempo que não aprendemos a experimentar em seus dois polos, o do todo fora de nós (a família, a sociedade, a história, o planeta) e o do que se elabora em nossa interioridade. De um lado, vivemos o nosso tempo pessoal, o tempo de cada individualidade, de cada um que experimenta seu corpo, seu sentimento, medos, anseios, possibilidades, e sua noção de morte. O tempo individual é sempre o tempo da insegurança. Buscamos os outros: filhos, maridos, amigos, trabalho, para participarmos do tempo coletivo onde, ao partilharmos a insegurança com as demais individualidades, a eliminamos. Para tudo isso é preciso sempre muita atenção sobre o que estamos vivendo.

A AVAREZA DO TEMPO

Por outro lado, todos aqueles que sabem o valor do tempo, costumam pensá-lo em analogia com o dinheiro: tempo é dinheiro. Quem dispensa tempo, dispensa dinheiro ou, em termos mais técnicos, dispensa lucro. Mas o que é o lucro senão a vantagem que temos em relação aos outros, ao trabalho, à vida? O lucro é um “a mais”, mas a vida não vai nos dar mais tempo. Logo, tempo não é necessariamente dinheiro, mas justamente o que nos logra se a vida não foi bem vivida. Se o avaro economiza dinheiro, quem economizar tempo não poderá ser avarento, a rigor, o tempo é algo que sempre se multiplica. O tempo se multiplica na generosidade. É uma questão de organização. O desejo só surge como mensagem na garrafa àquele que entendeu a função de seu tempo próprio no tempo coletivo.

Fonte:
Revista Vida Simples. Janeiro de 2007. Ed. 49. P. 56-57.
http://www.marciatiburi.com.br/textos/odesejodotempo.htm

Carina Isabel M. Cardoso (Luzia)

Por aqueles corredores com pisos soltos, paredes encardidas e descascadas, Luzia transitava todos os dias, vendo sua vida passar sem perceber o dia lá fora.

Mulher magra e muito alva, com aparência cansada e desleixada de quem tem pouco tempo para si, mas ainda mostrando-se bela, apenas descuidada, ela segue mais uma vez para o quarto da mãe doente e moribunda. Luzia cuida da mãe com todo o zelo que uma filha pode dispor à sua progenitora, apesar de seus olhos não esconderem o desprezo por aquela mulher que apesar de velha e doente ainda consegue ser tão cruel, com uma língua tão ferina.

Apesar de religiosa, D. Matilde não tinha nem de longe um coração puro, tinha um olhar que só passava frustração, mágoa e inveja a quem o fitasse. Nada de bom se aprendia com aqueles olhos negros e fundos, mesmo sendo tão experientes e sábios.

D. Matilde sempre foi uma mulher ligada à igreja, querida pelos que compartilhavam sua fé, tão caridosa, tão solicita aos necessitados que a comunidade ajudava, mas, dentro de casa sempre levou a família com mãos de ferro, nunca dando a menor mostra de carinho e afeição pela única filha e nem ao marido que sempre fez de tudo para agradá-la, bancando todos os seus caprichos, até mesmo concordando que Luzia, por ser a única filha, não deveria se casar enquanto os dois ainda estivessem vivos, que ela deveria era cuidar dos pais e da casa, pois eles não tinham mais ninguém por eles, e mesmo que ela se casasse e morasse perto não seria suficiente, teria que morar sempre com eles, até o fim.

Quando o pai faleceu, Luzia perdeu sua única alegria de estar ali, pois o pai era um homem muito gentil, e apesar de fraco, nunca retrucou uma palavra maldosa de sua esposa, mesmo assim sua relação com ele era muito boa, ela procurou aceitar que o pai agia dessa maneira para manter as coisas em harmonia.

Agora que estavam sós, apenas as duas vivendo na casa, as coisas eram levadas na base da diplomacia entre elas, e ao entrar naquele quarto escuro, fétido e triste ela se preparava para ouvir qualquer coisa de sua mãe, e quando entrava aquela troca de olhares, o ódio com que aqueles olhos negros e profundos das duas se encontravam, chegava a doer na alma. E, D. Matilde não aceitava o fato de estar tão doente, sempre colocando a culpa na filha, pois se não a tivesse parido com certeza sua saúde estaria muito melhor, não teria perdido tanto tempo cuidando de uma criança e sim de si mesma, e não precisaria de ajuda de ninguém.  Era inaceitável para ela ter que ser guiada até o banheiro, tomar banho na cama, mas Luzia mesmo com tantos motivos para odiar sua mãe, não conseguia apenas se sentia muito pequena diante daquela mulher na cama, emagrecida e doente. Queria apenas um pouco de respeito, afinal ela se abandonou completamente para estar ali, não amou, não estudou, não viveu nada além daqueles corredores com pisos soltos e paredes encardidas, ouvindo as amigas de sua mãe dizer o quanto ela era boa e generosa, o quanto ela deveria ser grata por ter nascido em um lar tão abençoado, e aquelas palavras acabavam por diminuir ainda mais sua esperança de respeito, apesar de seu tamanho, ela se imaginava quase invisível aos olhos negros, profundos e cheios de rancor com os quais sua mãe a fitava entrando no quarto trazendo sua comida, esperando até que ela desse a última garfada e para limpar a boca da mãe.

Rezava todas as noites para que aquela fosse a última de sua sina, já não aguenta mais, não o trabalho a ser feito, mas sim o desprezo, mas então outro dia recomeçava e com ele a sina que parecia não ter fim, e a cada dia que passava ficava mais difícil encarar aqueles olhos, aquele rancor. E então, aquela menina que tanto lutou para não ter aqueles olhos, os viu no espelho quando refletia a sua imagem e não a dela; viu a mesma amargura, o mesmo mal, sem saber de onde veio o dela; sabia exatamente o quando e o porquê seus olhos se tornaram brilhantes como duas pedras de ônix; mas o brilho não era bom, não era agradável, e então ela soube que era hora de acabar com sua sina, foi até o seu algoz e com toda a coragem que o mundo poderia lhe dar naquele momento, em uma última tentativa de viver bem, abraçou sua mãe, disse que a amava e que iram ter novas regras em casa a partir daquele momento; não suportaria mais aquelas palavras cruéis, os olhares de desdém, o rancor e a culpa, tomaria as rédeas da situação e que a mãe pensasse o que quisesse daquilo. Foi então que viu sua mãe chorar pela primeira vez em sua vida de quarenta e dois anos, um choro verdadeiro e sentido, vindo da alma, como se descarregasse o peso acumulado a vida inteira, mas nunca explicou o porquê daquele choro tão dolorido, mas a partir daí as coisas ficaram diferentes, Luzia conheceu o amor e casou-se, teve filhos e ninguém mais soube de D. Matilde, o que houve com ela só a filha sabe, e o motivo daquele choro também não foi revelado…

Luzia nunca mais pisou naquela casa de pisos soltos e paredes encardidas…

Fonte:
Clic – Palavra de Mulher
http://sorocult.com/palavrademulher/escritora.php?codigo=53

Carol Ryrie Brink (Belita)

O inverno estava começando quando Rogério Moura chegou a Campo Florido, no Rio Grande do Sul, com um rebanho de cerca de mil carneiros. Pretendia ir mais para o oeste, onde os campos abertos eram ótimos pastos; mas, naquela época, as estradas não eram boas e, por esse motivo, o inverno o alcançou em meio da viagem. Naquela manhã havia chovido muito, por isso o dia se tinha conservado sombrio. Mesmo assim, quando chegou, restava ainda um pouco de claridade vinda da luz solar que, rasgando as densas nuvens, dourava levemente a triste paisagem; mas a noite não tardaria a chegar. Era preciso, portanto, arranjar urgentemente um abrigo.

Celina Vieira e o irmão mais novo, Augusto, estavam empoleirados na cerca que demarcava a fazenda de seus pais apreciando o entardecer, enquanto esperavam a ceia. Ronaldo, irmão mais velho de Celina, estava de pé, com os cotovelos apoiados na cerca e junto dele, sentado, o cãozinho Piloto.

– Céu vermelho à tarde, sol de manhã – disse Ronaldo, abanando a cabeça como um previsor do tempo.

– A tarde esta linda – disse Augusto – mas esta noite será muito fria. Preferia morrer a ter de passar a noite ao relento.

– Ouçam! – disse Celina, levantando o dedo. – Que barulho esquisito lá no morro! Vocês não ouviram?

– Parece de badalos, disse Augusto. Não nos faltou nenhuma vaca esta tarde, faltou?

– Não – respondeu Ronaldo. – E… nossos badalos não soam assim. Além disso, Piloto não deixaria que nenhuma vaca se extraviasse, mesmo que nós deixássemos.

Piloto geralmente abanava a cauda quando seu nome era mencionado; mas desta vez não se mexeu. Com as orelhas de pé, estava preocupado pelo estranho ruído.

– São carneiros! – disse Celina, depois de algum tempo. – Ouçam o balido! Mé… mé… mé…! Se não for um rebanho, comerei meu chapéu novo.

– Aquele que tem uma pena? – perguntou Augusto, incredulamente.

– Devem ser carneiros! – concluiu Ronaldo.

Instantes depois surgiram na estrada, como uma enchente, os mil carneiros de Rogério Moura. À frente vinha um casal de cães irlandeses, felpudos que, latindo, procuravam conservar o rebanho reunido. Era um espetáculo desolador! Mil carneiros magros, cansados e tristonhos, baliam incessantemente, num protesto contra a longa viagem. O condutor do rebanho cavalgava atrás, em um cavalo coxo, que não estava em melhores condições. O pastor era alto, de rosto magro e queimado pelo sol; os olhos eram azuis e brilhavam de maneira estranha nas órbitas fundas. Parecia exausto e esfomeado.

– Quer dizer a seu pai que preciso falar-lhe… – pediu a uma das crianças, assim que as viu.

Ronaldo deu um gritinho alegre e saiu à procura do pai. Em pouco tempo todas as pessoas da casa vieram contemplar o curioso espetáculo. Ali no vale criavam-se vacas, cavalos e bois; mas, nenhum dos fazendeiros tinha ainda experimentado a criação de carneiros.

Celina e Augusto ficaram de pé em cima da cerca, fazendo perigosas acrobacias para contar os carneiros

Piloto corria em redor dos cães, sem saber se os devia tratar como amigos, pois estava profundamente impressionado com o balido dos carneiros.

De repente, Celina deu um pulo no meio da carneirada.

– Veja, senhor! Aconteceu alguma coisa a esta ovelha.

Realmente, uma ovelha havia caído e parecia estar morrendo. O Sr. Moura e o pai das crianças conversavam animadamente e por isso não lhe deram atenção.

– Celina! Ronaldo! Augusto! – chamou o pai. Venham ajudar o Sr. Moura a encontrar esta noite um abrigo para os carneiros. Corram às fazendas vizinhas e perguntem aos amigos se podem desocupar parte do celeiro e do curral para colocar estes animais. Perguntem, também, se querem vir ajudar nesse serviço.

As três crianças partiram imediatamente em direções diferentes.

Embora Rogério Moura fosse completamente estranho naquele lugar, todos os homens das fazendas vizinhas, em pouco tempo reuniram-se e vieram em seu auxilio, salvar o rebanho fatigado da inclemência do tempo. Em meio de gritos, latidos e balidos, foram divididos os carneiros em pequenos grupos e levados para as diferentes fazendas, onde os abrigaram até mesmo junto aos montes de feno e embaixo de telheiros improvisados.

Quando o último carneiro estava sendo levado, Celina lembrou-se da ovelha doente, e então correu para ver o que lhe teria acontecido. Ela ainda estava estendida no mesmo lugar, os olhos meio fechados e a respiração tão fraca que parecia próxima a sua morte.

– Oh, veja, Sr. Rogério! – gritou Celina. O Sr. precisa atendê-la ou ela morrerá.

– Hum! – disse o pastor. – Não posso perder tempo com uma ovelha quase morta, quando tenho centenas vivas, enregeladas, precisando de auxilio imediato.

– Se o senhor não tem tempo, eu tenho – ofereceu-se voluntariamente Celina.

– Muito bem – disse o Sr. Rogério. – Ela será sua, menina, se salvá-la.

– Realmente? – gritou Celina. – Está feito!

Em pouco tempo, a menina recrutou os serviços de Ronaldo e Augusto. Juntos transportaram cambaleando, a ovelha doente para dentro do cercado. O pai das crianças observava aquela cena assombrado.

– Que é que vocês vão fazer com esta ovelha? – perguntou-lhes.

– Nada, ela está morrendo; mas Celina pensa que pode salvá-la.

– Oh, papai – gritou Celina. – Posso colocá-la no celeiro e lhe dar alguma coisa para comer? É disso que ela está precisando.

O pai sorriu e balançando a cabeça deu o seu consentimento.

– Irei vê-la, mais tarde – disse-lhe.

Só muito mais tarde, foi que o pai das crianças teve tempo para visitar a ovelha doente. Encontrou Celina sentada, ao lado de um candeeiro, contemplando a ovelha. Nunca o Sr. Vieira vira a filha tão triste!

– Papai, – disse a menina – estou certa de que ela está com fome, mas não consigo que coma. Não sei mais o que fazer.

O Sr. Vieira ajoelhou-se ao lado do animal; apalpou-lhe o corpo para ver se encontrava algum ferimento. Depois abriu-lhe a boca, correndo os dedos delicadamente nas suas gengivas.

– Bem, Celina, acho que você terá de fazer uma dentadura postiça para ela.

– Dentadura postiça! – exclamou Celina. E, passando os dedos nas gengivas do animal, disse: – Ela não tem nenhum dente! Não era de admirar que não pudesse mastigar o feno! Que resta fazer agora?

O Sr. Vieira olhou para o rosto aflito da filha, pensou durante alguns segundos e disse:

– Bem, vai ser uma trabalheira; não sei se você quer encarregar-se disso.

– Quero, sim, disse Celina. Diga-me o que devo fazer.

– Mamãe recebeu uma grande remessa de batatas. Peça-lhe para cozinhar algumas, mas não as deixe ficarem cozidas demais, misture-as com farelo, leite e faça um pirão. Você verá como este pobre animal o comerá facilmente. Isto deve ser feito todos os dias; acho, porém, que você se cansará depressa deste trabalho.

– Não me cansarei, papai. É preciso que alguém o faça; não podemos deixá-la morrer de fome.

Naquela tarde, o Sr. Rogério ficou com para cear com a família Vieira. Papai e Mamãe sentaram-se nas cabeceiras da mesa e, em volta, os seis filhos e mais o Sr. Rogério, Roberto Gonçalves, o capataz, e Catarina Machado, a governanta. Havia, portanto, um auditório apreciável; por isso, o Sr. Rogério começou a contar prazenteiramente a história de sua longa viagem. Contou como vagabundos e as onças lhe tinham roubado alguns carneiros; pormenorizou como um pastor que vinha em sua companhia apanhara uma febre e morrera no caminho, sendo enterrado próximo a um povoado, e explicou como tinha atravessado rios e escapado de um furacão.

Guando terminou a ceia, o pastor colocou Teodora e Rosinha nos joelhos e lhes falou sobre os mais estranhos casos que encontrara pelos caminhos. Abriu depois uma sacola que trazia por baixo do blusão de couro e lhes mostrou um verdadeiro tesouro. Nesse momento todos o rodearam. Mostrou, então, um trevo de quatro folhas amarelado pelo tempo.

Enquanto o desconhecido narrava sua história, Celina pensava na ovelha doente, e uma ideia acalentava-lhe o íntimo: “Ela comeu o pirão de batata. Logo, se eu lhe prestar toda a assistência de que necessita, por certo viverá e isto será devido à minha dedicação. Gosto mais dela do que de todos os outros animais de estimação, exceto, naturalmente, Piloto”.

No dia seguinte Rogério foi ao centro da “vila” vender os carneiros. Era preciso desfazer-se deles o mais rápido possível. Como já sabemos, o inverno começara de repente e, embora estivesse viajando havia muito tempo, encontrava-se ainda longe dos pastos para onde se dirigia. Campo Florido era apenas um lugarejo e ele só pôde vender parte de seu enorme rebanho. Por isso, fez um acordo com o Sr. Vieira e com os outros fazendeiros: eles poderiam guardar tantos carneiros quantos pudessem alimentar e abrigar. Em troca, ele queria na primavera a metade da lã que os carneiros produzissem.

– E da minha ovelha? – perguntou-lhe Celina.

O Sr. Rogério riu e respondeu:

– Não quero nada, mocinha. Você ganhou a ovelha por direito e tudo que a ela pertencer.

A ovelha já ficava de pé; balia e cheirava as mãos de Celina sempre que a menina dela se aproximava.

Aquele inverno foi trabalhoso para Celina. Todos os dia pela manhã, antes de ir à escola e, à tarde, quando voltava, preparava o pirão de batata com farelo e leite para Belita.

– Qualquer dia, você desistirá, disse Ronaldo.

– Belita! – zombou Augusto. – Isto não é nome próprio para uma ovelha. Você devia chamá-la de Biti.

– Nada disso – retrucou Celina, com firmeza. – Belita é o nome da ovelha de Celina Vieira e vocês verão que não desistirei de preparar sua comida.

Quando os dias começaram a se alongar e a ficar mais quentes, Celina passou a levar Belita para pastar com os outros carneiros. No começo ela amarrava-lhe uma fita vermelha no pescoço porque todos os carneiros se parecem e Celina não queria trocar sua ovelha. Na realidade tal precaução era desnecessária, porque assim que aparecia com o prato de pirão, Belita abandonava os outros carneiros e tirava uma linha reta de onde estava para alcançar Celina mais depressa. À noite voltava para o celeiro e esperava que a menina a deixasse entrar.

Numa manhã de outubro, como de costume, Celina levantou-se cedo para dar de comer a Belita. Quando se aproximava do celeiro, viu que Roberto saía e, minutos depois, defrontou-se com ele. Celina havia posto o xale de sua mãe por cima do avental e trazia nas mãos o prato com o pirão de batata ainda quente, próprio para aquela manhã fria de primavera.

Pela primeira vez Celina viu que Roberto não cantava nem assobiava; reparando bem, Celina notou na fisionomia do honesto capataz uma mistura de tristeza e contentamento que a menina não pôde compreender.

– Aconteceu alguma coisa a Belita? – perguntou-lhe.

– Sim mas, por Deus, não maldiga o sucedido – respondeu Roberto seriamente.

O coração de Celina quase parou. Algo terrível tinha acontecido à querida Belita! Correu imediatamente para o celeiro.

– Não adianta se afligir agora, queridinha – disse Roberto quando alcançou a menina. Você fez por ela mais do que qualquer outro ter feito.

As palavras de Roberto nada significaram naquele momento para Celina, porque aquele frágil fio de vida que a menina tinha conseguido conservar durante todo o inverno, acabava de ser arrebentado. Belita estava morta!

Celina jogou fora o pirão que trazia e ajoelhou-se diante da ovelha. Não podia falar nem fazer outra coisa qualquer, mas as lágrimas que corriam  queimavam-lhe as faces e salgavam-lhe os lábios. O coração de Celina estava prestes a sucumbir diante de tanta tristeza!

– Hurra! Hurra! Hurra! – gritou Roberto inclinando-se e olhando aquela cena com simpatia. – Nem tudo está tão mal. Por que não procura ver se a morte de Belita não lhe trouxe algum conforto?

Celina sacudiu a cabeça, apertando os olhos para conter as lágrimas que corriam abundantemente.

– Veja! – insistiu ele.

Roberto aproximou-se e colocou uma coisa macia e quente nas mãos da menina. No mesmo instante, uma vozinha fraca baliu:

– é… é…!

– Veja! – disse Roberto, – a mãe dela está morta mas ela escolheu você para substituí-la! E sabe por que o fez.

Celina abriu os olhos e as lágrimas pararam de correr porque Roberto havia colocado em seus braços um ser tão pequenino, tão adorável, que fez desaparecer sua tristeza como por encanto.

– É uma ovelhinha! – disse Celina para si mesmo, e depois para Roberto: – É filha de Belita, não é?

– É – respondeu Roberto. – E continuou: – Belita estava cansada para poder criá-la. “É melhor eu dormir e deixar Celina cuidando dela”, pensou com certeza Belita. “porque Celina é uma mãezinha extraordinária”.  

Celina enrolou o xale na ovelhinha e embalou nos seus braços aquele pequeno e friorento ser.

– Pirão de batata não serve – disse ela para si mesma. – Leite morno é do que ela precisa e talvez mamãe me possa dar uma mamadeira do Zequinha para eu poder alimentá-la melhor.

A ovelhinha encontrou nos braços de Celina o agasalho e a proteção de que necessitava e, como num agradecimento, baliu mais uma vez:

– Mé!… Mé!…

 Fonte:
O Mundo da Criança – “Magical Melons”. Acesso em 21.08.2012. 

José Feldman (Grinalda Indígena) * 6 *