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domingo, 6 de setembro de 2026

Ialmar Pio Schneider (Caderno de Sonetos)


POETA

 Ressurge a primavera fulgurando,
 e os pássaros soluçam pelos ares.
 São novos sonhos, cálidos cantares,
 são novas ilusões, um novo bando...

 Poeta, se teus cânticos calares,
 oh! com tristeza ficarás cantando
 nos gorjeios das aves, pelo brando
 vento que passa pelos verdes mares !...

 Tua ausência será na primavera,
 quando disseste um dia: - Ah! quem me dera,
 morrer numa tardinha rubra e calma

 e entrar cantando lá no paraíso,
 meus cantos, pobres cantos sem sorriso,
 que acalentam na terra as mágoas d alma !...
= = = = = = = = = = = = = =  

SONETO À FILHA

 Eu canto o amor à filha que é inocente
 e floresce no lar junto dos pais;
 estudiosa, querida, inteligente,
 guardo-a no coração cada vez mais...

 Quantas vezes perdida a fé, descrente,
 passei por horas duras, infernais,
 mas um carinho dela e já contente
 esquecia os tormentos tão cruciais...

 Em nossa casa simples e modesta
 representas um rútilo tesouro
 que nos alegra e que tanto brilha;

 e agradecendo a Deus só me resta
 dizer que tens um coração de ouro
 e que és o alicerce da família…
= = = = = = = = = = = = = =  

SONETO A UMA FADA

 Fazes de conta que jamais me viste
 e eu também finjo que não te conheço;
 nossa união terminou sem ter começo
 e eu continuo, como sempre, triste.

 O que tu prometias não cumpriste;
 mas esquece-me, então, pois eu te esqueço;
 isto conosco foi mais um tropeço;
 vamos saber qual de nós dois desiste.

 Quero descrer de ti, não mais te amar;
 porém, tudo me leva à tua presença
 e por nada te posso condenar.

 Foste uma Fada que surgiu voando
 e não trouxeste, enfim, a recompensa
 ao poeta que vive te adorando…
= = = = = = = = = = = = = =  

À SOMBRA DO COQUEIRO

 À sombra de um coqueiro eu fico a meditar,
 sentindo um doce aroma espalhado no ar,
 e as águas a cantar de uma sonora fonte,
 e o sol a se esconder ao longe no horizonte,

 e os sinos a planger em dobres doloridos,
 e as aves a soltar seus últimos gemidos,
 e a brisa a balançar os galhos do arvoredo,
 e o drama desta vida ao fim quase no enredo,

 e as horas a fugir bem como as luzes frouxas
 que já vão se apagando atrás daquelas rochas,
 produzem dentro em mim uma poesia solene

 e eu sinto em toda parte um sentimento infrene
 de amar-te para sempre enquanto persistir
 o sonho mais ardente anunciando o porvir...
= = = = = = = = = = = = = =  

PASSEIO MATINAL

 Quando o sol faz menção de aparecer
 ao longe no horizonte cor de brasa,
 eu saio do meu rancho, minha casa
 e me ponho no pingo pra correr.

 Nem que a geada estiver a embranquecer
 toda a campina branca como a asa
 da garça solitária, nada atrasa
 meu madrugar que é pra mim um dever.

 Levanto nem que chova canivete
 e parto pelo campo no meu flete,
 fazendo meu passeio matinal;

 que o prazer do gaúcho é respirar,
 profundamente, de manhã, o ar
 deste forte minuano hibernal.
= = = = = = = = = = = = = =  

SONETO 16049

Certa vez quis compor os versos nobres
 que me trouxessem, afinal, a glória
 numa epopeia que transforma a história,
 mas simples como sou fiz cantos pobres...

 À tardinha, escutando os tristes dobres
 dos sinos que lembrando a trajetória
 de quem lutou e sem obter vitória,
 serei apenas eu e meus desdobres.

 Vejo a paisagem, ora ensolarada,
 as árvores floridas da estação
 primaveril em pleno curso ainda...

 e permaneço como se mais nada
 ne interessasse neste instante vão,
 mas tão brilhante de uma luz infinda…
= = = = = = = = = = = = = =  

SONETO 16032

Dediquei-me à poesia e fiz meus versos
 pra amenizar tristezas e tormentos,
 pois, hoje, ao vê-los por aí dispersos,
 me recordam amores ciumentos...

 Mas, se não foram, ao meu ver, perversos,
 representam os nobres sentimentos,
 não impossíveis nem também adversos,
 apesar de sofridos e violentos.

 Outrossim, me fizeram bem e mal,
 porquanto, no contexto da existência,
 vamos formando nosso cabedal...

 E tudo que tivermos computado,
 permanece no livro da existência,
 como um fiel registro do passado…
= = = = = = = = = = = = = =  

SONETO 15992

Procurei um soneto que tivesse
 algo de amor ao coração que sofre,
 e deparei-me na primeira estrofe
 com a rima perfeita que merece.

 Mas não faz mal, o texto é como a prece
 que já rezei outrora a Santo Onofre,
 cujo segredo guardo no meu cofre
 e divulgá-lo agora não carece.

 A vida é feita de altos e de baixos
 e o sofrimento dos criados guaxos
 permanece gravado em suas almas.

 Mas Deus que tudo vê lá das Alturas,
 estende Sua bênção às criaturas
 pra que vivam na paz e sejam calmas.
= = = = = = = = = = = = = =  

SONETO 15956

Sonetos, trovas, versos e canções,
 Que admiro ler de tardezinha, quando
 O sol vai no horizonte declinando
 E as horas nos envolvem de emoções...

 Se permaneço em sonhos meditando,
 Tudo vem me lembrar desilusões,
 Que ficaram das cálidas paixões
 De um passado sentido e quase brando.

 Se naveguei por mares de loucura,
 amei demais alguém que me feriu
 com a lança desleal da falsidade...

 Desejo sepultar essa amargura
 e seguir meu caminho como o rio
 que corre livremente... Ah! que saudade !
= = = = = = = = = = = = = =  
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
IALMAR PIO SCHNEIDER nasceu no município de Sertão/RS, em 1942. Residiu por mais de 20 anos na cidade de Canoas (RS) e, posteriormente, fixou residência em Porto Alegre (RS). Desenvolveu uma carreira profissional sólida dividida em duas frentes principais: formou-se em Direito pela UniRitter (Faculdade Ritter dos Reis) e atuou como advogado. Além disso, construiu carreira no setor financeiro, sendo hoje um bancário aposentado. 
Consagrou-se principalmente como trovador, poeta e cronista. A sua escrita é muito ligada à tradição lírica popular e ao tradicionalismo gaúcho, destacando-se na composição de quadras e trovas rimadas com foco no cotidiano, na melancolia, no amor e na valorização da própria poesia. Atua de forma independente e colaborativa em jornais regionais (como o Jornalecão) e círculos de trovadores. Na vertente de premiações formais e filiações acadêmicas institucionais de grande porte, o seu reconhecimento dá-se predominantemente no circuito de agremiações e coletivos dedicados à preservação da Trova e do Regionalismo Sul-Rio-Grandense.
A divulgação da sua obra é essencialmente descentralizada. Em vez de uma bibliografia focada em grandes catálogos comerciais, as suas produções literárias — que incluem poemas célebres como "Versos de Amor", "Chasque ao Negrinho do Pastoreio" e coletâneas de quadras — foram pulverizadas em antologias de trovas, coletâneas poéticas regionais, colunas de crônicas e periódicos gaúchos.
A relevância de Ialmar reside na sua dedicação em manter viva a tradição da trova e do lirismo simples em solo gaúcho. A trova é uma das formas poéticas mais democráticas e difíceis de se lapidar, pois exige condensar sentimento e métrica perfeita em apenas quatro versos. Ao unir a advocacia e a vida urbana ao fazer poético, Schneider contribui para o enriquecimento da literatura popular do Rio Grande do Sul, servindo como uma ponte que preserva a identidade cultural da poesia de raiz e a sensibilidade do homem do campo em meio à modernidade das grandes cidades gaúchas.

Fontes:
Sonetos enviados pelo autor

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