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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Téo Azevedo (Quadras Populares)


Para quem não sabe: Quadra Popular = Forma lírica comum entre o povo; foi também utilizada por poetas de renome. Composta por 4 versos de sete sílabas (redondilha maior), a rima surge geralmente no 2º verso e 4º versos, sendo os outros dois versos brancos (sem rima). A quadra popular pode ser composta por uma única estrofe ou por várias.

1
Mandei buscar na botica
remédio para uma ausência,
me mandaram uma saudade
coberta de paciência.
2
Sete e sete são catorze,
com mais sete vinte e um,
soletra quem sabe ler
a paixão de cada um.
3
Meu benzinho não é este,
nem aquele que lá vem.
Meu benzinho está de branco,
não mistura com ninguém.
4
Menina dos olhos pretos,
sobrancelhas de retrós,
dá um pulo na cozinha,
cá coar café pra nós.
5
Quem quiser pegar morena
Arma um laço na parede
Que inda ontem peguei uma
Morena dos olhos verdes
6
Atirei meu limão verde
lá atrás da sacristia,
Deu no ouro, deu na prata,
deu na moça que eu queria.
7
Limoeiro pequenino
carregado de limão,
eu também sou pequenino
carregado de ilusão.
8
A laranja de madura
caiu n'água foi ao fundo.
Os peixinhos estão gritando:
– Viva dom Pedro Segundo!
9
Esta noite à meia-noite
me cantava um gavião,
parecia que falava
Maria, meu coração.
10
Cravo branco na janela
é sinal de casamento…
Menina tira seu cravo,
inda não chegou seu tempo
11
Toda vez que considero
que tenho de te deixar,
me foge o sangue na veia
e o coração do lugar.
12
Lá do céu caiu um cravo,
de tão alto desfolhou…
Quem quiser casar comigo,
vai pedir quem me criou.
13
Eu joguei meu limão verde
numa moça na janela,
o limão caiu no chão
e eu caí no colo dela.
14
Limoeiro pequenino
carregado de “fulô”,
eu também sou pequenino
carregado de “amô”
15
A perdiz pia no campo
comendo seu capinzinho,
quem tem amor anda magro
quem não tem, anda gordinho.
16
Em cima daquela serra
passa boi, passa boiada,
também passa moreninha
de cabelo cacheada.
17
Batatinha quando nasce
esparrama pelo chão,
meu benzinho quando dorme
põe a mão no coração.
18
Um coqueiro de tão alto
que dá coco na raiz,
uma moça bonitinha
com três palmos de nariz.
19
Amanhã eu vou-me embora,
eu não vou-me embora não,
se eu tivesse de ir-me embora,
eu não estava aqui mais não.
20
O anel que tu me deste
era de vidro e quebrou,
o amor que tu me tinhas
era pouco e já acabou
21
Se essa rua fosse minha
eu mandava ladrilhar,
Ou de ouro, ou de prata,
para meu bem passear
22
Duas correntes pesadas
eu arrasto sem poder,
uma é do meu capricho,
outra é do meu dever.
23
Bate bate coração,
arrebenta este peito.
Como cabe tanta mágoa
num espaço tão estreito?
24
Ninguém viu o que vi hoje,
um macaco fazer renda
e também vi um peru
caixeirando numa venda.
25
Calango desceu pra baixo,
foi vender sua farinha.
Lagartixa respondeu:
– Vende a sua e deixa a minha!
26
Lá no céu tem três estrelas
vestidinhas de nobreza.
Quem quiser casar comigo,
não repare minha pobreza.
27
Eu não dou a mão, rapaz,
nem que seja meu parente,
porque rapaz tem o defeito
de apertar a mão da gente.
28
Em cima daquela serra
corre água sem chover,
os mocinhos da cidade
me namoram sem me ver.
29
Essas meninas d’agora
só sabem namorar, 
botam a panela no fogo
e não sabem temperar
30
Lá vai a garça voando
com as penas que Deus lhe deu…
Contando pena, por pena,
mais pena padeço eu
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Téo Azevedo (1943 – 2024)
TEÓFILO DE AZEVEDO FILHO, mundialmente conhecido pelo nome artístico de Téo Azevedo, foi um dos maiores baluartes, pesquisadores e defensores da cultura popular, do cordel e das tradições folclóricas do sertão mineiro. Nasceu no distrito de Alto Belo, no município de Bocaiúva, no Norte de Minas Gerais, em 1943 e faleceu em Montes Claros/MG, em 2024, aos 80 anos de idade. Nascido no ambiente rural de Alto Belo, mudou-se ainda na infância para Montes Claros. Mais tarde, residiu em Belo Horizonte e passou um longo e prolífico período em São Paulo frequentando estúdios e rádios, retornando a Montes Claros para viver seus últimos anos de vida. Vindo de uma família humilde de músicos e poetas, Téo precisou cantar em feiras aos 7 anos para ajudar no sustento de seus sete irmãos após a morte prematura de seu pai. Teve uma juventude multifacetada, chegando a ser tricampeão mineiro de boxe aos 17 anos. No entanto, sua verdadeira carreira consolidou-se na comunicação e na música: trabalhou como radialista por mais de uma década (com passagens marcantes pelas rádios Record e Atual), produtor fonográfico de mais de 3 mil trabalhos, além de atuar como cantor, compositor e violeiro com mais de 1.500 músicas gravadas por grandes nomes da MPB e do sertanejo.
Era um folclorista nato. Sua escrita literária debruçou-se intensamente sobre a salvaguarda da oralidade, das modas de viola e do cordel, gênero do qual publicou cerca de 500 folhetos de histórias. Téo foi um dos idealizadores, fundadores e presidente da Associação dos Repentistas e Poetas Populares do Norte de Minas, doando os direitos de suas recolhas folclóricas de domínio público para a instituição. Embora sua atuação estivesse mais ligada a entidades de preservação popular direta e sindicatos artísticos do que a academias de letras tradicionais, sua erudição sertaneja o tornou referência acadêmica em estudos sobre o folclore mineiro. Téo acumulou vitórias em festivais de música e poesia popular desde a década de 1960. O auge do reconhecimento de sua carreira artística e de sua escrita regional ocorreu em 2013, quando conquistou o prestigiado prêmio internacional Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música de Raízes Brasileiras com o trabalho "Salve Gonzagão 100 Anos".
Escreveu mais de 14 livros dedicados à cultura popular brasileira, com destaque para: Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos (1978) – sua grande obra de catalogação que mapeia as quadrinhas, sextilhas e as estruturas da poesia oral do sertão; Cultura popular do norte de Minas (1979); Tiófo, o cantador de um braço só (1987) – biografia em homenagem ao seu lendário pai, cuja história também inspirou o poema "Viola de Bolso" de Carlos Drummond de Andrade; Repente & Folclore; Cordel - Téo Azevedo (Coletânea de folhetos), etc.
A relevância de Téo Azevedo para a literatura brasileira é incomensurável por funcionar como uma ponte viva entre a oralidade do sertanejo e a palavra impressa. Através de seu clássico livro Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos, ele foi o responsável por estruturar de maneira teórica e registrar formalmente os padrões das rimas geraizeiras e o "Martelo Mineiro", impedindo que essa tradição puramente oral se perdesse com o tempo. Téo provou que o Norte de Minas Gerais, encravado entre os vales do Jequitinhonha e São Francisco, possui uma riqueza em cordel tão pulsante e sofisticada quanto o Nordeste brasileiro. Ele elevou a "poesia matuta" ao status de patrimônio literário nacional, eternizando as dores, as crenças e o linguajar do homem do cerrado. 

Fonte:
Azevedo,Teófilo de. Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos. São Paulo, Global Editora, 1978. Cultura Popular, 3.
Biografia = Dicionário MPB, Hedra, Memórias da Música Popular, Montes Claros (cultura), TV Saudades, Casa Rui Barbosa, etc.

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