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domingo, 6 de setembro de 2026

António Botto (Política)


Dizem que as lebres dormem com os olhos abertos. Não sei se é verdade, nem para o caso isso tem importância de maior. O que é certo é que esta lebre de que vou falar, dormia uma tarde, à beira de um rio, quando as águas a atingiram rodeando-a lentamente... Espavorida, debateu-se entre o lodo e a água, mas, por mais esforços que fizesse, não pôde libertar– se daquela inesperada ameaça mortal. E ficou-se quase morta estendida, inerente, mal podendo respirar. Valeu-lhe o vento ter mudado e as águas tomarem novo curso...

     Nisto, uma rã muito verdinha, vai ter com ela, sorrateira, e faz este comentário:

     - Que parva!, que grande parva! Nadava, e era tão simples!

     A lebre não estava morta. Com o sol, com o ar, tomou alento e ergueu-se até que chegou à sua toca. E desde então tomou tamanho susto pela água, que quando via uma gota de orvalho a faiscar nas relvas ou no arvoredo, ficava nervosa, perturbada, e já não sabia o que havia de fazer. Às vezes, recordava o palavreado da rã ouvido como um sonho e desejava encontrá-la para lhe contar duas tesas.

     E, se bem o desejou, melhor o conseguiu. A pobre rã apareceu-lhe na curva de um caminho a coxear e a gemer.

     - O que foi isso?, perguntou a lebre.

     - Ai, menina, deixe-me cá. Um cão, um maldito cão que encontrei à pouco, atirou-se a esta minha perna que por um triz não se partiu... Mas, repare: não posso andar... Ai, a minha rica perninha; ai que dor, não posso andar! E se o dono do cão não se opõe, era uma vez uma rã...

     - Idiota, grandessíssima idiota!, responde a lebre, desdenhosa: Se o remédio era tão simples, tão simples, tão natural: Correr, deitar a correr! Sim, correr e nada mais!

     Assim disse a lebre que não sabia nadar à rã que não sabia correr. Uma e outra se julgaram como, em geral, na vida, sempre sucede: cada qual pensando em si só por si avalia o que aos outros acontece.
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ANTÓNIO TOMÁS BOTTO nasceu no Casal da Concavada, concelho de Abrantes, Portugal, em 1897 e faleceu no Rio de Janeiro em 1959 (vítima de um atropelamento na região de Copacabana). Mudou-se na infância com a família para o bairro de Alfama, em Lisboa, local que influenciou profundamente o seu imaginário proletário. Residiu também por um breve período em Angola e passou os seus últimos anos de vida (a partir de 1947) exilado no Brasil, dividindo-se entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Oriundo de um meio humilde, começou a trabalhar cedo em Lisboa como ajudante de livraria. Mais tarde, ingressou na carreira pública como escriturário da Função Pública, servindo em Angola e em Portugal. Em 1942, acabou por ser expulso do funcionalismo público sob pretexto de indisciplina, mas motivado na realidade pela perseguição à sua homossexualidade assumida e pela censura à sua conduta. No Brasil, viveu de forma precária, colaborando com crônicas, poesias e textos para a imprensa e rádios locais. 
Fez parte da Segunda Geração Modernista portuguesa. Estreou em 1917 com Trovas, mas foi em 1921 que abalou o meio intelectual com Canções. Teve como grande defensor e amigo Fernando Pessoa, que editou, prefaciou e traduziu os seus poemas para o inglês. A sua poesia ficou marcada pela estética do decadentismo, esteticismo e, sobretudo, pelo pioneirismo da temática homoerótica tratada de forma direta. Devido ao forte preconceito da época e ao caráter marginal e escandaloso que a sociedade conservadora atribuiu à sua obra, António Botto não pertenceu a academias literárias formais nem recebeu os tradicionais prêmios institucionais do regime português. A sua consagração veio do reconhecimento crítico direto de gigantes da literatura, como o próprio Pessoa, João Gaspar Simões, José Régio e Jorge de Sena.
Botto foi um autor prolífico que transitou pela poesia, contos, teatro e literatura infantil, destaque para : Trovas (1917); Cantigas de Saudade (1918); Cantares (1919); Canções (1921 — a sua obra-prima e mais célebre); Curiosidades Estéticas (1924); Olimpíadas (1927); Ciúme (1934); A Vida que te Dei (1938); O Livro do Povo (1944); Os Contos de António Botto (1942), etc.
A importância de António Botto reside na sua imensa coragem e originalidade estética. Ele foi o primeiro autor português a assumir e cantar publicamente o amor homoerótico na poesia. Ao romper com os tabus e o puritanismo da sociedade da época, Botto enfrentou a apreensão de livros e autos de fé promovidos por grupos moralistas. Mais do que a polêmica, a sua escrita introduziu uma linguagem despida, musical, de tom coloquial e intimista, que antecipou caminhos da lírica moderna. Ele colocou a beleza física e o desejo no centro do debate literário, garantindo um lugar cimeiro e incontornável na história do Modernismo e na afirmação da liberdade de expressão na literatura de língua portuguesa.

Fonte:
Os Contos de António Botto. Publicado originalmente em 1942.
Biografia = Academia.edu, Wikipedia, Infopedia, Antonio Miranda, E-bografia, Revistas da USP, Portal da Literatura, etc.

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