Trovadores em Ordem Alfabética

  • A (49)
  • B (5)
  • C (22)
  • D (12)
  • E (14)
  • F (12)
  • G (9)
  • H (11)
  • I (4)
  • J (31)
  • L (34)
  • M (31)
  • N (8)
  • O (12)
  • P (11)
  • R (18)
  • S (13)
  • T (5)
  • V (5)
  • W (9)
  • Z (2)
Mostrando postagens com marcador Rio Grande do Sul. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rio Grande do Sul. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de agosto de 2025

Luiz Machado Stábile (Uruguaiana/RS)

1
A causa não foi à toa
de tão grande quebradeira:
– era o “gato” da patroa
e a “gata” da cozinheira.…
2
A criança abandonada,
sem pai, sem teto, sem pão,
tem a violência estampada
no rosto e no coração.
3
A dúvida do velhinho,
quanto ao filho da mulher,
é saber se é do vizinho,
do mordomo ou do chofer…
4
A mãe, mulata de festa,
o pai, português do Minho,
e a grande surpresa é esta:
– o filho nasceu loirinho…
5
A patroa se consome
ao descobrir que a empregada
sendo Pimenta no nome,
tem a língua apimentada…
6
A surpresa foi danada
para o pai, pois disse o filho:
-Tá curta, velho, a mesada,
vê se dispara o gatilho!.
7
A tua volta, querida,
é força que me renova,
põe amor em minha vida
e euforia em minha trova.
8
Chora a viúva do Honório
que morreu envenenado;
e o "veneno", no velório,
"mata" qualquer convidado!
9
Dançamos de passos certos,
mas a dança não nos faz
corrigir passos incertos
de tantos anos atrás.
10
Diante dos outros - carinhos.
Perto de estranhos - afagos.
E surra, se estão sozinhos,
depois de dois ou três tragos!
11
Ela tem barriga d'água?
pergunta a mãe, preocupada,
e o médico, sem ter frágua:
- Mas o peixinho já nada...
12
Eu sinto que este chamego
por ti é mais do que isso;
é mais do que amor e chego
a crer que é puro feitiço.
13
Eu duvidei, na verdade,
de tudo quanto afirmaste,
mas hoje, nesta saudade,
sinto que me enfeitiçaste.
14
Fazer trova com humor,
sobre escuro... não sei, não!...
Previna-se o trovador:
- é "humor negro" - eles dirão...
15
Fazia gato e sapato
com o marido. Coitado!
Mas, uma noite, seu “gato”
miou em outro telhado!…
16
Iniciou-se muito cedo
nossa história bela e grata
e o que pareceu brinquedo,
são hoje bodas de prata.
17
Mãe e filha são Pimenta,
e o velho, que é "vermelhão",
com santa paciência aguenta
a alcunha de "Pimentão".
18
Marujo, velho marujo,
na lábia dela não vais.
Conheces o dito cujo”
e é por isso que não cais.
19
Mesmo sendo pequenina,
com ela ninguém se meta,
pois sua língua ferina
é pimenta malagueta!
20
Na dança de roda existe
uma alegria sem fim,
que acorda a criança triste
que dorme dentro de mim.
21
Ninguém mais olhava a fita,
que o namorado e a Jurema
faziam cena inaudita
no escurinho do cinema!
22
Numa tarde fria e turva,
foi dar uma fugidinha:
Aí... “derrapou na curva”
na “condução” da vizinha…
23
O fandango dos Menezes
foi tão bem organizado,
que no fim de nove meses
começa a dar resultados…
24
O marujo acostumado
às ondas jamais tonteia,
mas na terra, se ‘molhado”,
anda tonto, volta e meia.
25
O patrão, com muita sede,
procurava água gelada,
mas foi achado na rede
lá no quarto da empregada.
26
O vizinho, eletricista,
ela, dada a calafrios,
bastou-lhe um golpe de vista
pra ter choques e arrepios…
27
Prometeu tudo pra ela:
– das joias à lua até.
Casados, deu-lhe panela
e um fogão com chaminé!
28
Quando daqui tu partiste,
de modo algum me abalei;
só uma coisa me fez triste:
– a surra que não te dei!
29
Quando partes, fico em trevas
e não sei se minhas queixas
vêm dos sorrisos que levas
ou das tristezas que deixas!
30
Que importa a dança das horas
que vão céleres passar?
Importa, quando demoras,
a hora em que vais voltar.
31
Querendo afogar as mágoas
vai à pinga, vai ao bar,
mas, como vive nas águas
elas já sabem nadar…
32
Se um dia calar meu canto
e eu não puder mais lutar,
que não me falte, no entanto,
coragem para sonhar.
33
Teus olhos são, em verdade,
a minha fonte de vida:
– são dois faróis de bondade
na minha noite sofrida…
34
Todos sabem que assim é,
como eu próprio também sei:
– vive o cristão, pela fé,
muito mais que pela lei.
35
Veloz, corria na praia,
despreocupado e ao léu...
Viu uma “curva” sem saia,
e só acordou no céu…
36
“Volto em breve” – eis a promessa
de todo marujo esperto,
e como promete à beça,
não volta nunca, por certo.

Cláudio Derli Silveira (Porto Alegre/RS)

1
Bebia tanto o Liminha,
que causava dó na gente,
pois a sede que ele tinha
era só por aguardente!…
2
Bebo uísque, vinho, rum,
bebo até cachaça pura.
Não bebo por ser bebum,
mas por gostar da tontura!
3
Calma, meu amigo, calma,
nem tudo é assolação;
às vezes, faz bem à alma,
um pouco de solidão...
4
Da Tribuna, manda o aviso:
- Não roubo por ser ladrão,
tampouco porque preciso,
mas por coceira na mão!
5
Discursava um orador...
e o gaiato da cidade...
- A propósito, doutor,
dá chute o “pé de igualdade”!
6
Do bom caminho, “seu” padre,
só me desvio um pouquinho,
pois as curvas da comadre
são "trechos" de mau caminho!
  7
Eis a vida, eis os caminhos...
na missão de precursores:
– o sábio evita os espinhos,
e o tolo... pisa nas flores!
8
Ela diz do namorado,
ao conversar com alguém,
que o rapaz é “bem armado”
mas não dá “tiro” em ninguém!
9
Eu deixo este amor desfeito
e busco novos caminhos,
levando sonhos no peito
e a esperança dos sozinhos!...
10
Foi de muitos...namorada
e o “xirú”: - Mas o que tem?
Mate com erva lavada,
sacia a sede também!…
11
Foi uma infeliz jogada
do goleiro Zé Maria:
– a bola que foi chutada
foi a que ele não queria!
12
Imitando o meu lamento
por quem não me preza mais,
ouço a voz triste do vento
na plataforma do cais!…
  13
Lua de mel...E o Menote
com idade a lhe pesar,
foi com tanta sede ao pote
que acabou por infartar!…
14
Meu sonho de piá desperto,
nas cinzas tardes de outono,
era laçar, campo aberto,
os ventos xucros, sem dono!...
15
Na feira do troca-troca,
o Juca ficou nervoso,
quando ouviu sua “Dondoca”
propondo troca de esposo!...
16
Na "madruga" o patrãozinho
vai ao quarto da empregada,
bate à porta e diz baixinho:
- "É o fantasma camarada..."
17
Os romances me comovem...
E, embora com pé na cova,
“gato” velho vira jovem
nos braços de “gata” nova!…
  18
Porto Alegre me sorri,
vestida de multicores...
Não sou natural daqui,
mas tenho aqui meus amores...
19
Sopra, ó vento, as nuvens rasas,
pelo verde pampa em flor,
transportando em tuas asas
meus sonhos de trovador.
20
Sou irmão dos vendavais,
dos mares que naveguei,
deixando de cais em cais
amores... que conquistei!
21
Tomo a cruz do meu destino
que me cabe, por missão,
sem deixar o desatino
sobrepujar-me a razão!...
22
Tua altivez te desbota
e a própria alma esvazia:
– fazer, da minha derrota
tua maior euforia...
23
Viúva quando assanhada,
apela pro desafogo.
É como lenha molhada 
que chora... mas prende fogo!

sábado, 21 de junho de 2025

Wilma Mello Cavalheiro (Pelotas/RS)

1
A festa estava prontinha,
mas tudo às vezes malogra;
pra surpresa da noivinha,
o noivo fugiu com a sogra!
2
"A luz purifica o escuro":
revela a casta Tereza;
e quando o "momento" é impuro,
faz tudo de luz acesa.
3
A minha infância distante
se reflete no meu filho,
por isso, no meu semblante,
o entardecer tem mais brilho.
4
A moça chora num brado
e o padre diz, em voz lenta:
- Pra lavar tanto pecado,
só um tanque de água benta!
5
Anoitece... a paz perdura
no aconchego do galpão;
galopa solta a ternura
em volta do chimarrão.
6
Ante a indecisa galinha,
diz o galo, convincente:
- Não troca o velho, joinha,
por um frango incompetente.
7
Brinquedos da minha infância
que foram meu universo,
hoje, rompendo distância,
são saudades do meu verso.
8
- Chega de versos, de prosa,
diz a garota ao noivinho,
pois tem coisa mais gostosa
pra se fazer no escurinho!
9
Chuta, menina, com jeito,
teu jogo é alegre... peralta.
Depois, apara no peito
porque peito não te falta!
10
Depois do vento ferino,
que me arrancou dos teus braços,
o barco do meu destino
navega roto... em pedaços…
11
Do teu palco iluminado,
ris de mim, sem ter ideia,
do quanto eu sofro calado
na penumbra da plateia.
12
Dulcifico meu sorriso,
louca euforia me invade,
quando chegas, sem aviso,
rompendo o nó da saudade.
13
Ela diz em tom brejeiro:
- Cumpro bem o meu papel.
Quero o amor do marinheiro
e o soldo do coronel.
14
Enfrento o vento malvado,
molhado de chuva e frio,
pois para estar ao teu lado
venço qualquer desafio.
15
Entre dúvidas e medos,
que a distância ocasionou,
fechada, dança em meus dedos
a carta que hoje chegou.
16
Esquece esta vida andeja,
vem tomar um chimarrão,
é cedo, a manhã boceja,
na longa esteira do chão!
17
Esqueço lei, preconceito,
e algum tabu superado,
só para ter o direito
de amanhecer ao teu lado.
18
Esqueço os dias tristonhos,
vou à luta, sem tardança;
ao porto azul dos meus sonhos
regressa a nau da esperança.
19
Esta saudade que é tua
dança no meu pensamento,
como a chuva lá na rua
sob a regência do vento.
20
Este sol fraco, inconstante,
trará luzes de outros sóis,
para amanhã, mais radiante,
te acordar nos meus lençóis.
21
Eu acredito e confesso
que a mais cruel das partidas
é a partida sem regresso,
para o rumo de outras vidas.
22
Feito de fugas e medo,
de regressos e partidas,
nosso amor, mesmo em segredo,
dá mais vida às nossas vidas.
23
Foi preciso muito brio,
quase a coragem faltou,
para enfrentar o vazio
que a tua ausência deixou.
24
Há sempre um rastro de luz
protegendo a caminhada
de quem abriga e conduz
a infância desamparada.
25
Hoje, no ocaso da vida,
tem sabor de eternidade
esta ternura incontida
que floriu na mocidade.
26
Meu chimarrão, tu retratas
meu pampa com perfeição:
por dentro, o verde das matas,
por fora, a cor do meu chão.
27
Minha alma se fortalece,
levo melhor minha cruz,
quando através de uma prece
acho o caminho da luz.
28
“Minuano”, teus intentos
comprovam, em forte estampa,
que és o corsário dos ventos
na imensidão do meu pampa.
29
Na bomba, o beijo deixado,
na entrega, o tremor da mão,
e o meu amor, tão guardado
se traiu no chimarrão!
30
Na lareira um fogo brando
e, entre doses de licor,
nossos corpos desenhando
todas as formas de amor.
31
Não há lei irrevogável,
se amparada na razão;
toda sentença é mutável,
se a luz rasga a escuridão.
32
Não precisa o trovador
ir à lua, ver estrelas,
na noite, em rimas de amor,
ele é capaz de entendê-las.
33
Nesta noite rosicler
a lua, tão feminina,
tem o charme da mulher
e a pureza da menina.
34
O barco da minha infância
cruzou mares... velejou...
chorou saudades... distância...
mas nunca mais regressou.
35
O destino arma ciladas
que só coragem e a fé,
conseguirão, se irmanadas,
manter-nos vivos, de pé.
36
Outrora, a paz benfazeja,
noites de amor sob a lua,
hoje, na noite viceja
o crime, solto, na rua.
37
Peço ao sol, em oração,
e à lua, em seu branco véu,
que não falte um chimarrão
na grande estância do céu!
38
Por tantos textos errados,
somos hoje, sem favor,
dois atores fracassados
no grande palco do amor.
39
Quando a paixão se agiganta,
tão feiticeira e felina,
cala-se a voz na garganta
e só o prazer nos domina.
40
Quando em serena cadência,
na dança que o amor requer,
desnudo sem resistência
meus anseios de mulher.
41
Quando minha alma mentiu,
ao jurar que te esqueceu,
o meu orgulho aplaudiu
a grande atriz que fui eu.
42
Quanto tempo posto fora,
numa procura sem jeito,
sem ver as luzes da aurora,
porque era noite em meu peito.
43
- Que fazias no escurinho,
junto àquele rapagão?
- Não penses mal, papaizinho,
fazia meditação!
44
Quero o torpor, a leveza,
que o licor me propicia,
para acalmar a tristeza
da minha vida vazia.
45
Regressa... tudo te espera...
os teus discos, teu licor,
e uma doce primavera
desfeita em beijos de amor.
46
Roda, criança querida,
teu carrinho... teu pião...
Enquanto a roda da vida
não levar tua ilusão…
47
São brinquedos fulgurantes,
que brilham soltos...ao léu...
as estrelas cintilantes
que a lua joga no céu.
48
Se a Lei Divina se encerra
na paz, no amor, no perdão,
por que rolam pela terra
crianças que não têm pão?
49
Se é feitiço ou se é magia,
não sei, nem quero saber,
só sei que virou mania
este amor que é o meu viver.
50
Sem coragem, dividida,
entre a paixão e a razão,
minha alma é folha caída,
num vendaval de emoção.
51
Sem guerrilha... sem debate...
rola o manto da cobiça,
quando a espada do combate
verga-se à Lei da Justiça!
52
Sem temor e sem ressábios
hoje enfrento o mar fremente,
para no cais dos teus lábios
aportar meu beijo ardente.
53
Se queres manter-te em pé,
ter mais luz em tua andança,
acende o incenso da fé
no castiçal da esperança.
54
Se sofro não perco a calma,
a fé meus passos conduz;
a força que guardo na alma
se renova e acende a luz.
55
Se te esqueceste do texto,
se foste péssimo ator,
não busques nenhum pretexto
para os teus erros no amor.
56
Seu chute ninguém olvida,
atleta bom e sarado,
por isso a “gata” o convida
pra jogar no seu gramado…
57
Tem tanta preguiça, tanta,
e modos tão indolentes,
que quando almoça, não janta,
pra não dar trabalho aos dentes.
58
Tentei fugir de mansinho,
devagar romper os laços;
desisti, qualquer caminho
sempre me leva aos teus braços.
59
Teus cílios, negra cortina,
escondem dos olhos meus,
toda a magia divina
que dança nos olhos teus.
60
Tu és, amor, a alegria,
o meu vinho, o meu licor,
ao raiar de um novo dia,
abrindo as portas do amor.
61
Voltei feliz para vê-la.
Frustração. Não me quis mais.
Somente os olhos da estrela
me viram chorar no cais.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Doralice Gomes da Rosa (Porto Alegre/RS)

1
A frágil rosa em seu galho
depois que o vento passou,
desfolhou-se sobre o orvalho
que a madrugada deixou.
2
A franga sente o perigo,
vendo o frango já galeto,
diz a ele: eu vou contigo
pra rodar no mesmo espeto.
3
A mulher grita, se zanga
quando o marido, afobado,
invés de soltar a franga,
solta um frango congelado.
4
Anda estranho meu gatinho,
parece coisa mandada,
na cama nenhum beijinho,
é só rom-rom e mais nada.
5
Ao Patrão Velho e buenacho,
pedindo, tiro o chapéu:
- Olha um pouco aqui pra baixo,
manda uma bênção do céu.
6
Ao ver o broto nadando,
o vovô, já bem caduco,
se joga na água, gritando:
"Tô maluco, tô maluco!"
7
Apeie, peão, se abanque,
venha tomar chimarrão!
Amarre o pingo ao palanque:
- Aqui, ninguém é patrão!
8
Aquela coroa enxuta,
mal anoitece, ela sai,
dizendo que vai à luta
- só Deus sabe onde ela vai!
9
As lembranças e euforia
dos folguedos de criança
gravei no peito em poesia
onde a saudade descansa.
10
Brigamos qual cão e gato
sem razão, sem um motivo.
Ele me arranha, eu lhe bato,
mas sem meu gato não vivo.
11
Cai a chuva e com malícia,
num jeito todo atrevido,
vai moldando com perícia
teu corpo sob o vestido.
12
Chimarrão, tem mais sabor
quando a bomba prateada
volta trazendo o calor
dos lábios da minha amada!
13
Diz, num porre, o coroinha,
na missa, ao Padre Pimenta:
- Eu só tomei umazinha,
o resto foi água-benta!
14
Hoje, nós dois, no abandono;
perdidos, sem mais escolhas:
– dois galhos secos no outono
que o vento varreu as folhas.
15
Já fui frango revoltado,
dono, rei do meu terreiro.
Hoje, velho, aposentado,
nem subo mais no poleiro.
16
Levando um chute o magrinho
ao jogar uma pelada,
o que já era pouquinho
acabou virando nada.
17
Magro dos pés ao pescoço,
feio do fim ao começo,
o Zeca era o próprio esboço
de uma caveira ao avesso.
18
Mais um Natal se anuncia
e em minha mesa hoje tem:
uma cadeira vazia
a esperar por quem não vem.
19
Marujo ao pisar na areia
traz do mar lendas estranhas,
nunca viu uma sereia
mas fisgou muitas piranhas.
20
Marujo velho, o Raimundo
quando em vez dá uma ensaiada,
levanta a vela e vai fundo
mas qual, só nada, mais nada!
21
Meninas, eis um conselho:
vêde bem por onde andais!
A honra é como um espelho,
se quebrar, não cola mais...
22
Minha gata por capricho
ronda o gato do vizinho.
Mas o danado bicho
sai miando e bem fininho.
23
Na ilusão de ser amado,
sonho a grandeza dos sábios,
bebo o licor do pecado
no cálice dos teus lábios.
24
Não quero saber de intriga
pois cheguei à conclusão:
é melhor viver sem briga,
do que brigar com razão!
25
Na solidão do meu rancho,
nossa rede, que ironia,
ainda presa no gancho,
embala a noite vazia.
26
Nesta taça de licor
transbordando de ternura,
brindaremos nosso amor,
nossos sonhos de ventura.
27
Nosso amor é um triste enredo
que o destino emaranhou,
fez de nós dois um brinquedo
que em tuas mãos se quebrou.
28
O bebum, num corrupio,
cheio de pinga e de mágoa,
não percebendo o desvio,
se foi com os burros n’água.
29
O capeta à Terra veio,
fugindo do fogo eterno
e ao ver o mundo tão feio,
voltou correndo pro inferno.
30
O frango muito fuleiro
pula o muro, canta grosso,
vai ciscar noutro terreiro
e acaba virando almoço.
31
Para brindar a partida
de alguém que já não me quer,
bebo o champanha da vida
nos lábios de outra mulher.
32
Pra sorrir não tenho hora...
nas mágoas não me concentro;
mostro um sorriso por fora,
mesmo chorando por dentro.
33
Quando a sogra vem chegando,
com olhar de cobra mansa,
eu corro, me desviando,
mas ela sempre me alcança!
34
Quando eu cruzar a porteira
para o plano do infinito,
levarei minha bandeira
com meu protesto e meu grito!
35
Que o velhinho em seu trenó,
campeando luas e luas,
tenha compaixão e dó
dos piás que vivem nas ruas!
36
Sogra boa - não se iluda!
Se existiu, morreu à míngua.
A não ser que seja muda
e a boca não tenha língua.
37
Teu amor é uma jangada
que aportou com muito jeito
e agora vive ancorada
nas amarras do meu peito.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Luiz Damo (Caxias do Sul/RS)

A face pode não ter
a mesma força do olhar,
mas, nela podemos ler,
o que o dono quer falar.

A mentira, então solteira,
foi juntar-se ao desrespeito
e a traição, filha primeira,
fez nascer um lar desfeito.

Ampla e plena liberdade
à humanidade Deus deu,
mas a sensibilidade
nem a todos concedeu.

Ante as rochas da imprudência
todo o sonho se tritura,
só resta à sobrevivência
destroços de uma aventura.

Às aves Deus tira o medo,
de voarem nas alturas,
diz aos homens, vos concedo:
luz para as noites escuras!

A velha e frágil escada,
quase perdeu seu valor
de conduzir à sacada
alguém pelo elevador.

A verdade que hoje buscas,
num passado tão distante,
está na imagem que ofuscas
todo o dia, a cada instante!

Ávida, à vida a alma segue,
busca o porvir tão sonhado,
num presente que prossegue
carregando o seu passado.

Cada dia que somamos
à caminhada vivida,
nova flor acrescentamos
no ramalhete da vida.

Conquistas vão se somando,
pela subtração da dor,
divide, multiplicando,
teu sentimento de amor.

Dentro e fora da família,
tudo gire em torno dela,
sirva ao mundo de estampilha
sendo à paz sua chancela.

Destemido, o sol mergulha,
no horizonte debruçado,
deita à terra, tal fagulha,
sendo por ela abraçado.

De uma indigesta amizade
muitas vezes nada resta,
nem arestas de saudade
sobram pra fazer seresta.

Diz quem ama, à parte amada:
esquecer-te eu não consigo,
sem ti sou menos que nada,
mais que tudo, eu sou contigo.

É depois de um tratamento
que o doente convalesce
e ao sumir o sofrimento
a saúde lhe aparece.

Faça a verdade imperar
sobre qualquer julgamento
e assim a chance de errar
pode ser zero por cento.

Frágil corpo os pais nos deram,
vida e sinais que eram seus,
o corpo, os filhos o enterram,
mas a essência volta a Deus.

Há quem queira ser modelo
de uma vivência exemplar,
luta tanto e por não sê-lo
passa a se autocontemplar.

Jamais posso imaginar,
ou projetar meu porvir,
sem ao passado voltar
e no agora me inserir.

Longínquas tardes amenas
com o rubor da pitanga,
trazem imagens serenas
do sol dormindo na sanga.

Livro! Tua estrela brilha,
sob o cosmos da cultura,
iluminas quem palmilha
as estradas da leitura.

Mantenha a chama do embate
na luta, sem se apagar,
siga em frente no combate
com o exemplo a propagar.

Mesmo fraca, a dor na luta,
avança e nos faz sofrer,
nunca, se a nossa conduta,
for mais forte e não ceder.

Na contramão do sucesso
segue lento o pessimista,
finge que exista progresso,
pensando ser otimista.

Nada igual, nem mais fecundo,
que plantarmos bons valores
deixando assim para o mundo
um legado aos sucessores.

Nada igual, nem parecido,
com a flor desabrochando,
o campo fica florido
na primavera chegando.

Não chores se a dor te aflige
e impede de à vida alçares,
qualquer luta esforço exige
para o objetivo alcançares.

Não tem criança que esconda
a predileção em ter,
um simples carro de lomba
pra brincar e se entreter.

Nas esquinas do passado
deixo um pedaço de mim,
por alguém vai ser juntado
depois de chegar meu fim.

Nas mãos dos transportadores
quantos frutos transportados!
Transportam grandes primores,
depois dos bens transformados.

Ninguém cai do seu cavalo
quando passa a conhecê-lo,
a não ser que sem domá-lo
pensa estar sobre um camelo.

Ninguém morra brutalmente
por qualquer bala perdida,
de uma escolha inteligente
surja a proteção da vida.

No campo, traça caminhos,
quem planta e supera o pranto
ceifa a dor do próprio espinho
que tenta ofuscar o encanto.

Num contexto mais moderno
o saber rompe a fronteira.
Não tem SIM que seja eterno,
nem um NÃO pra vida inteira.

O autor de um crime confesso,
quando aos tribunais, entrar,
tem nos autos do processo
tão pouco a lhe acrescentar.

O Brasil vê com reserva
as matas diminuírem,
enquanto o mundo as observa
de longe, também sumirem.

O leitor quando mergulha
no universo da leitura,
dela faz nova fagulha
a brilhar na noite escura.

Ontem, no homem, seu bigode,
era igual a um documento,
hoje, o que assina, mal pode,
dar aos atos provimento.

Os primeiros imigrantes
venceram hostilidades,
não foram beligerantes
mas guerreiros nas vontades.

O tempo transcorre ameno,
para quem a paz imprime,
nos traços de algo sereno
vê-se o bem que o mal suprime.

Para Deus jamais afirmes
que os grandes males são teus.
Aos males nunca confirmes
que eles são frutos de Deus.

Parta e desate as amarras,
busque do sol o esplendor,
pra colher noutras searas
os frutos de um sonhador.

Passam meses, surgem anos,
mudam séculos, milênios,
o homem elabora planos
não maiores que decênios.

Pedra solta, rola imersa,
na água turbulenta e fria,
rija, impune e controversa,
companheira à travessia.

Por trás dos ventos hostis
a varrerem a esperança,
ouve-se uma voz que diz:
não temeis, virá a bonança!

Quando ao consultório fores
buscando, à dor tratamentos,
não sejam somente às dores,
mas, também aos sentimentos.

Quando na vida avistares
fartas nuvens de ciúmes,
lembra, não passam de entraves,
sob a forma de tapumes!

Quem oferece uma flor
pode ser autor confesso,
dum ato que exprima amor
ou de carinho em excesso.

Quem tomar uma atitude
em não mais se alimentar,
vê enfraquecer a saúde
e o corpo debilitar.

Ramo algum é superior
que a planta, mas pode um dia,
se romper, se o vento for,
maior que a sua energia.

Se a luta parece insana
e a batalha perniciosa,
mude tal conduta humana
numa senda prazerosa.

Se beberes, não dirijas,
nem deixes que alguém o faça.
Para que, por nada erijas,
teu sepulcro numa taça.

Se calado alguém consente
não sente a mesma emoção,
de falar tudo o que sente
guardado em seu coração.

Se ensinares à criança
ser instrumento de paz,
no céu terás uma herança
que a ninguém a perderás.

Seja a luz da vida, o fulcro
e a morte um fruto tardio,
tudo o que ocupa o sepulcro
sejam restos de um vazio.

Seja como a vela acesa
num candelabro a brilhar,
siga à vida com firmeza,
sem medo de iluminar.

Se não mudas teu passado
muda o teu jeito de ser,
nisso podes ter mudado
o mundo sem perceber.

Só quem luta sabe o quanto
o dor pesa na derrota,
seu rosto banhado em pranto
reflete o que ela denota.

Surge o sol nos horizontes,
as estrelas vão dormir
e o lençol cobrindo os montes
retira-o pra se vestir.

Todo passo na alegria
se veste de brevidade,
mas, à dor, numa agonia,
parece uma eternidade.

Vejo à noite um lampadário
sempre à mesma hora a acender,
nunca muda de cenário
para o brilho acontecer.

Velho tronco decepado
com vestígios de abandono,
na impunidade, ceifado,
pelas mãos do próprio dono.

Vida plena, alguém alcança,
se calcada na virtude,
numa constante mudança
ascendendo à plenitude.

Vida, vivida com a alma,
é arte nas mãos do escultor,
chama que arde lenta e calma,
na imagem do Criador.

Vi nas areias, pegadas,
de alguém que me precedeu
e as minhas, quase apagadas,
ninguém as reconheceu.

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...