O céu sobre a Grande Floresta mudou de cor de repente, ficando de um cinza escuro e assustador. O vento começou a soprar forte, uivando entre as árvores e espalhando folhas secas por todos os lados. Todos os animais sabiam o que aquilo significava: uma grande tempestade estava chegando.
O coelho Leco correu para sua toca, que ficava embaixo das raízes de um velho carvalho. A toca de Leco era espaçosa, quentinha e cheia de confortos. Ele tinha um estoque generoso de cenouras, uma pilha de folhas macias para se cobrir e bastante espaço para pular.
— Ufa! Aqui dentro estou seguro — disse Leco, trancando a portinha de gravetos enquanto os primeiros pingos pesados de chuva começavam a cair no teto de terra. TOC! TOC! TOC!
De repente, Leco ouviu um barulho abafado vindo do lado de fora. Alguém batia desesperadamente em sua porta.
— Leco! Leco, por favor, me deixa entrar! — era a voz trêmula de Tatá.
Leco abriu a porta rapidamente. Tatá estava encharcada, tremendo de frio e com todos os seus espinhos encolhidos de medo.
— Tatá! O que aconteceu com a sua toca? — perguntou Leco, puxando a amiga para dentro.
— A chuva forte alagou tudo... a água entrou pela entrada e cobriu minhas folhinhas. Não sobrou nada seco lá dentro — explicou a ouriça, soltando os dentes de tanto frio.
— Puxa vida, que situação! — disse Leco. Mas, por um breve segundo, ele olhou para o seu espaço perfeitamente organizado. Ele pensou: "Minha toca é perfeita para um coelho, mas os espinhos da Tatá podem rasgar minhas folhas macias, e ela vai ocupar o lugar onde eu gosto de me alongar..."
Tatá percebeu o olhar hesitante do amigo e deu um passo para trás, perto da porta.
— Se... se for incomodar, Leco, eu posso tentar achar outra árvore...
Ao ver a amiga daquele jeito, o egoísmo de Leco sumiu na mesma hora. Ele sentiu vergonha do que havia pensado.
— De jeito nenhum, Tatá! Entra logo e sai dessa chuva. Minha toca é sua toca também.
Leco fechou a porta com firmeza contra o vento. Ele pegou metade de suas folhas secas e as estendeu em um canto seguro.
— Olha, se nós organizarmos assim, você pode ficar desse lado onde a parede de terra é mais firme. Seus espinhos não vão rasgar nada e você fica bem protegida.
— Obrigada, Leco. Você é um salva-vidas — agradeceu Tatá, acomodando-se e começando a se aquecer.
A tempestade lá fora apertou. O barulho dos trovões era forte e assustador: BRRUM! Tatá deu um pulinho de susto. Leco, percebendo o medo da amiga, pegou duas das suas melhores e mais crocantes cenouras e dividiu uma delas ao meio, entregando um pedaço para ela.
— Sabe o que cura medo de trovão? Mastigar coisas crocantes. O barulho da mastigação abafa o som lá de fora — disse Leco, sorrindo.
Os dois começaram a comer juntos. CRUNCH! CRUNCH! CRUNCH! Tatá começou a rir, e logo o medo do temporal diminuiu. Eles passaram o resto da tarde contando histórias, dividindo o espaço e compartilhando o alimento. Leco percebeu que, embora sua toca estivesse um pouco mais apertada do que o normal, ela parecia muito mais calorosa e feliz com a presença de sua melhor amiga.
Quando a noite caiu e a chuva finalmente parou, os dois olharam para fora e viram as estrelas voltando a brilhar no céu limpo.
— Amanhã eu te ajudo a tirar a água da sua toca e a colher folhas novas, Tatá — prometeu Leco.
— Obrigada por tudo, Leco. Dividir o que era seu salvou a minha noite — disse Tatá, com os espinhos totalmente relaxados.
Leco sorriu, ajeitando-se em seu pedaço de cama.
— Eu que agradeço, Tatá. Descobri que uma toca cheia de coisas não vale nada se a gente não tiver com quem compartilhar.
Nos momentos de dificuldade e tempestade, o egoísmo não nos protege. A verdadeira segurança e o verdadeiro calor vêm da nossa capacidade de abrir espaço no nosso coração e nos nossos recursos para ajudar quem precisa.
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José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores:
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos;
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor;
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.
(José Feldman. Contos para crianças e não tão crianças. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026)

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