Trovadores em Ordem Alfabética

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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Vanda Fagundes Queiroz


1
A criança tem mania,
quer ser grande, sem saber
que, na dura travessia,
dói tanto a gente crescer!
2
A mais sublime lição
de grandeza, amor e fé,
foi ver um homem sem mão
pintando flores com o pé.
3
A minha alma adolescente,
de braços dados com a vida,
parece nem ser parente
desta face envelhecida.
4
Antes que nossa atitude
maiores males cometa,
Deus convoca a juventude:
- Protejam esse planeta!
5
Ao voltar do burburinho
da rua – a humana agressão,
a meiguice de um cãozinho
vem receber-me ao portão.
6
A primavera, suponho,
que tendo sonhos de amor,
faz, sim, com que cada sonho
nasça em forma de uma flor.
7
Aquela duna imponente,
que na paisagem se alteia,
tem na origem, certamente,
minúsculos grãos de areia.
8
Arrumei minha bagagem
com sonhos e fantasia,
e agora, no fim da viagem,
abro a mala… está vazia.
9
A vitória que se alcança
tem lição para ensinar.
– Não fique na praia mansa,
saiba as ondas enfrentar!
10
Caso a sobremesa fosse
escassa, a mamãe mentia:
- Tomem! Não gosto de doce...
e, docemente, sorria.
11
Certas trovas são tão belas,
dão tal encanto e prazer,
que eu vejo, pensando nelas,
quanto preciso aprender!
12
Chinelinho na janela,
belo sonho de criança...
Antes de fugir por ela,
Noel deixou a esperança!
13
Chora o nenê. Fico olhando
e me enlevo, a refletir:
a sua emoção chorando
faz minha emoção sorrir.
14
Chuva a molhar nosso riso,
riso feliz e molhado…
qualquer tempo é paraíso,
quando o amor é partilhado.
15
Colheita, ainda guardada
num simples grão amarelo,
é uma obra a ser lançada,
mas que ainda está no prelo.
16
Contraste se manifesta,
a razão seja qual for:
- nem sempre o riso é de festa,
nem sempre o pranto é de dor.
17
– Corte o texto!… Longo assim,
A ideia até se desdoura.
– Pois não, mestre, corto sim,
vou procurar a tesoura…
18
Doce mistério de amar,
que me concede o talento
de abraçar-te com o olhar
e beijar-te em pensamento.
19
Duas taças sobre a mesa,
numa espera malograda…
Só veio Dona Tristeza,
que nunca foi convidada!
20
Enquanto, amor, tu demoras
e eu vou somando ansiedade,
a travessia das horas
é calculada em saudade.
21
Enquanto há bens passageiros
exibidos no aparato,
há tesouros verdadeiros
ocultos no anonimato.
22
Entro em casa e, no consolo
de ter, no lar, proteção,
piso o primeiro tijolo…
e sinto o céu, no meu chão!
23
Eu sempre lutei sentindo,
nesta arena em que se vive,
a mão de Deus, dirigindo
cada conquista que eu tive!
24
Fez plástica no nariz
e comprou peruca loura…
Pirracenta, a outra diz:
- Falta montar na vassoura…
25
Freio o carro, junto ao mar,
e o cenário é um esplendor,
que só faz acelerar
nossos impulsos de amor.
26
- Lá se foi meu pé-de-meia…
diz, desolado, o vovô.
Vovó se alarma e esperneia:
- Não diga que é o de tricô!
27
Maior prêmio, no decurso
da vida de um trovador,
bem mais que ganhar concurso,
é erguer o troféu do amor!
28
Meu caderno confidente,
primeiros versos de amor:
ilusão de adolescente…
que endeusava um professor!
29
Não basta apenas sonhar,
a vida requer firmeza
de agir, para transformar
uma esperança em certeza.
30
Não há recursos que domem
predação de tal grandeza,
quando é a própria mão do homem
que destrói a Natureza.
31
Na rua… tantos passantes…
e a marcha, incessantemente,
traça, em passos semelhantes,
tanta história diferente…
32
Neste mundo tão mesquinho,
é um prazer ouvir a voz
de quem faz o bem sozinho,
mas usa o pronome “Nós”.
33
No ditado, a turma estoura
de rir, quando, erguendo a mão,
Pergunta o aluno: – “tesoura”
é com “tezinho” ou “tezão”?
34
No meu Livro da Lembrança,
ainda sem conclusão,
saudade é aquela esperança
que compôs a introdução…
35
Num dos lances mais astutos
que a vida tem-me inspirado,
eu mostro os olhos enxutos,
e escondo o lenço molhado.
36
Num momento de magia,
nós dois ali, face a face…
e o meu coração pedia
para que o tempo parasse!
37
Olhando do meu terraço
o céu que ilumina a rua,
com enlevo um gesto eu faço…
e quase que abraço a lua!
38
Olhando o velho retrato
da praça, eu ouço à distância
acordes que são, de fato,
cirandas da minha infância.
39
Olhaste...Nada foi dito,
mas consegui decifrar
um conto de amor, escrito
no apelo do teu olhar!
40
O luar intenso me induz
a crer que Deus guarda o dia,
diz ao céu que acenda a luz…
mas nos cobra uma poesia.
41
O mar, a tarde silente,
a rede, a troca de afeto…
Um momento, simplesmente,
mas… um momento completo!
42
Para um garoto, os quintais
eram reinos de magia,
guardando tesouros reais
nos mapas de fantasia…
43
Poda as plantas, na lavoura,
Mas planeja, o tempo inteiro:
- vou crescer, vender tesoura…
Eu hei de ser tesoureiro!
44
Por mais que o progresso iluda,
deturpe e inverta valor,
o que Deus fez ninguém muda:
amor será sempre Amor.
45
Quatro abraços, meigos passos,
traços de amor e bonança,
infância: pequenos braços -
sustentam grande Esperança!
46
Que imenso mundo se esconde
na pena de intenso brilho
que torna em sábio Visconde
um sabuguinho de milho…
47
Quem crê não teme o fracasso
e nunca segue sozinho,
pois, quando quer dar um passo,
Deus já prepara o caminho.
48
Meu “eu” antigo encontrei…
sinto que não perdoou
por ver que não realizei
os sonhos que ele sonhou.
49
Meu lenço, meu companheiro,
saiba os segredos guardar.
Além do meu travesseiro,
só você me viu chorar…
50
Parece um conto de fadas
ver, em perfeita harmonia,
sete cores alinhadas,
no céu, jorrando poesia!
51
Por mais que o progresso iluda,
deturpe e inverta valor,
o que Deus fez ninguém muda:
o amor será sempre amor!
52
Praia tranquila, discreta…
Deus escuta, com certeza,
o silêncio do poeta
falando com a Natureza…
53
Prossigo em minha viagem,
ora alegre, ora tristonho…
levando em minha bagagem
pouca coisa e muito sonho.
54
Quando a vida é limitada
eu lhe amplio a dimensão:
cada coluna é bordada
com retalhos de ilusão…
55
Que este preceito se integre
ao meu simples dia-a-dia:
Melhor do que estar alegre,
só mesmo dar alegria
56
Revezam-se em nossas rotas
sombra e luz, contras e prós,
e as vitórias e derrotas
começam dentro de nós…
57
Se ausência é cena vazia,
guarda, invisível, latente,
a marca de algo que, um dia,
ali já esteve presente
58
Sinto imensa gratidão
por alguém que nunca vi,
mas que fez a plantação
dos frutos que hoje colhi!
59
Sombra e luz fazem nuança
no largo painel da vida.
Luz é o raio de esperança,
e sombra, a ilusão perdida”.
60
Somos heróis, sem medalhas,
vencendo, com valentia,
as anônimas batalhas,
na luta de cada dia.
61
Sou vaso, às vezes quebrado...
mas, cada vez, Deus permite
que eu volte a ser restaurado,
com Seu amor sem limite!
62
Tenho no meu peito um mar
de amor, imenso e profundo
sonho vê-lo transbordar,
causando enchentes no mundo.
63
Todos têm um potencial
diferente… é indiscutível.
O que importa é cada qual
tentar o melhor possível!
64
Uma alegria incontida,
por algo que a gente goste,
gera luz mais desmedida
que a luminária do poste.
65
Um barquinho deslizando
sobre a ondulação tão mansa…
parece um anjo levando
ao mundo paz e esperança.
66
Um casebre na favela…
o espaço ganhou fulgor,
quando alguém pôs na janela
um simples vaso de flor!
67
Velha torre escura, ao longe...
O seu perfil me insinua
a ideia de um velho monge
tomando conta da lua.

Selma Patti Spínelli (São Paulo/SP)

1
A crise nos invadiu…

pindaíba nacional:

não sei se o real caiu

ou se eu “caí na real”…

2

Amor de perdas e danos,

triste contabilidade:

resgate dos desenganos,

sobras de caixa da saudade!

3

Ao pecador, decaído,

se não podes fazer nada,

estende a mão, decidido,

e ajuda na caminhada!

4

Ao ver a filha enjeitada,

o “coronel manda-chuva”

diz:” – Não quero desquitada:

filha minha só viúva!”

5

A plateia se espantou:

o ator saiu do roteiro,

desesperado, e gritou:

“Meu reino por um banheiro!”

6

A Professora parece

um lavrador a colher

ouro puro em sua messe

no garimpo do Saber!

7

Aqueles a quem indago,

- e a resposta não me vem –

Será que apito de gago

a-pi-pi-ta assim tam-bém?

8

A ratazana e o ratinho

brigaram feio, de fato:

foi ciúme do vizinho,

que, na verdade, era um “gato”!

9

A saudade é, certamente,

sentimento eternizado,

um recado que o presente

manda de volta ao passado!

10

A semente, pequenina,

sob a terra protegida,

é assinatura divina

no grande livro da vida.

11

Até no “terreiro” em prece,

é preguiçoso, o farsante:

quando o “santo” dele desce,

só vem de escada rolante!

12

Brindemos à despedida,

que em nosso gesto imaturo,

ela é a única saída

para um amor sem futuro!

13

Carinhos de filhos, quero!

Fazem bem ao coração:

São frutos do amor sincero;

São frutos da gratidão!

14

Com a bagunça rolando,

sem ter mais o que falar,

chilique, de vez em quando,

bota tudo no lugar!

15

Com tanta delicadeza,

um gato a serra desce…

E eu tenho quase certeza

que a própria serra agradece!

16

Com todo dinheiro em jogo,

seguro não cobre a casa:

marido sempre ‘de fogo”,

e a mulher “mandando brasa”!

17

Das estrelas não esperes

mais que palavras ao vento;

as estrelas são mulheres

que piscam sem sentimento.

18

Deixa a lágrima rolar…

Deixa teu pranto fluir…

Quem nunca sabe chorar

não é capaz de sorrir.

19

De manhã sou funcionária,

à tarde mãe e chofer,

cozinheira, secretária…

À noite, enfim, sou mulher!

20

Desavenças de rotina;

palavras duras ao leito

o casamento termina

quando termina o respeito!

21

Disfarço meu sonho triste

nas cordas do bandolim,

porém o chorinho insiste,

sem querer, fala por mim!

22

Ela tarda mas não falha;

enfrentá-la é meu fadário...

A noite é como navalha

na carne do solitário!

23

Estou só… Mas sou feliz;

vou vivendo mesmo assim:

por escolhas que não fiz,

mas a vida fez por mim!

24

É tão esnobe, tão tolo,

o doutor, entre os decanos,

que até na vela do bolo

põe algarismos romanos!

25

Imagino a cena inteira:

um piano, um vinho quente,

nós dois ao pé da lareira,

e tudo que o amor consente!

26

Marinheiro! Escolhe o rumo!

Porque a vida é um mar errante...

Somente com o barco a prumo

é que se pode ir adiante!

27

Meu destino foi traçado

quando a onda, no convés,

veio forte, e de bom grado,

me fez cair aos teus pés!

28

Morena, que te amo tanto,

e desprezas meus desejos:

deixa afogar o meu pranto

nas ondas dos teus cabelos…

29

Na dança, que pantomima.

Deu-se o maior esculacho:

a moça era “tudo em cima”,

mas não tinha nada embaixo!

30

Não atires ao desterro

o teu irmão que pecou…

É bom combater o erro,

mas não aquele que errou!

31

Nas cartas, sê verdadeiro!

Cuida bem tudo o que dizes:

pois cartas são travesseiro

nas noites dos infelizes.

32

Nas fendas que o sol calcina,

da seca em rude aspereza,

os pingos da chuva fina

são beijos da natureza!

33

Nela é bonito, elegante…

Nele… esquisito, incomum:

gingada é interessante,

Mas não é pra qualquer um !!!

34

No embalo da serenata,

quisera ser como a lua

vestindo com tons de prata

os homens tristes da rua!

35

No lar do pobre indefeso,

relegado em agonia,

esperança é o fogo aceso

na panela ao fim do dia!

36

No refúgio desmanchamos,

quando ficamos a sós,

esses nós que carregamos

no fundo de todos nós!

37

Num concurso de comida,

quem concorreu foi otário,

porque o prêmio, ao fim da lida,

era um vaso sanitário!

38

Num concurso de embolada,

capricharam tanto, os dois,

que a dupla foi premiada

aos nove meses depois!

39

O dentista dedicado,

capricha na dentadura...

Mas não se dá por achado:

capricha mais na fatura!

40

O Poder, às vezes, cega...

e uma injustiça acontece;

mas a vida se encarrega

do castigo a quem merece!

41

O vento leve do estio

espalha as folhas do outono;

e a terra, fofa, no cio,

se entrega aos braços do outono.

42

O vento, zéfiro alado,

cavalga a onda e ponteia:

e a onda, num rendilhado,

vem descansar sobre a areia.

43

Paixão, por quem não esqueço;

(lembrança boa e ruim)

por quem me viro do avesso

e nem se lembra de mim!

44

Qual rio que em seu começo

procura um curso, um regaço,

no teu braço eu adormeço

e me esqueço do cansaço…

45

Quando a inspiração vagueia

à procura de um motivo,

o meu passado passeia

em cada verso que eu vivo.

46

Quando me pego tristonho,

de pensamento disperso,

tiro um sonho de outro sonho,

vou passear no universo!

47

Quando o pecado acontece

por algum amor insano,

o ser humano parece

que se torna mais humano!

48

- Que dança é essa, Maria,

que você se espatifou?

- Nós treinamos todo dia;

desta vez o Rock errou.

49

Quem dera se a vida fosse

mais simples de ser vivida:

nem todo regresso é doce,

nem sempre é amarga a partida…

50

Quem, no rumo desta vida,

se distrai na caminhada

pode acertar na partida,

mas pode errar na chegada.

51

Que tu sejas, nos teus brios,

quando buscares a glória,

altivo nos desafios

mas humilde na vitória!

52

Se é verdadeiro que é o cão

maior amigo da gente,

amigo de comilão

deve ser “cachorro quente”!

53

Segredos, quem não os tem?

Os meus segredos bendigo:

os maus – não conto a ninguém;

os bons – eu guardo comigo!

54

Ser dotado de Razão,

Um homem adulto sabe:

-não há virtude em vão;

-nem vício que não se acabe!

55

Serras íngremes, carpadas,

tão difíceis na subida,

são metáforas caladas

dos infortúnios da vida!

56

Sou fiel e não te nego

este dever que é uma lei:

Não pelo amor que foi cego,

mas pelo “sim” que te dei!

57

Sozinha em meu devaneio,

saudosa no meu queixume,

eu brindo ao vento que veio

devolver-me o teu perfume!

58

Tu chegas de madrugada,

cabisbaixo e sempre mudo…

E o silêncio da chegada,

sem palavras, já diz tudo!

59

Tu choravas... eu partia...

Os sonhos despedaçados;

e a garoa que insistia

em ter meus olhos molhados!

60

Tu lês os versos que eu faço,

e nem sequer adivinhas

o segredo que eu te passo

no espaço das entrelinhas…

61

- Vai um chopinho? É do bom!

- Eu só bebo destilado.

E o otário do garçom

pôs o copo do outro lado.

62

Vejo em frente, ali na praça,

só lixo, trapos e panos;

e, para a minha desgraça,

no meio – seres humanos!

63

Vendo o luxo da cigarra,

que não trabalha… faz “ponto”,

a formiga quer, na marra, 
alterar aquele conto!

Luiz Carlos Abritta (Tertúlia da Saudade)

A natureza se vinga de toda agressão sofrida e essa revolta respinga no centro de nossa vida! = = = = = = = = = = = = = Aos jovens dou um co...