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domingo, 10 de agosto de 2025

Joamir Medeiros (Natal/RN)

1
A natureza agredida
por queimadas criminosas,
perde os encantos da vida,
perde a beleza das rosas!
2
Ao gerar prosperidade
e bem estar social,
o trabalho é, na verdade,
o maior bem contra o mal.
3
Ao singrar em tuas águas
cristalinas ao luar,
Potengi! Afogo as mágoas
auscultando o teu cantar!
4
Ao ver a planta florida
tornar-se um preto-carvão,
a Terra, quase sem vida,
implora: - Queimadas, não!
5
As coisas boas da vida,
que nos dão felicidade
passam sempre de corrida,
deixando eterna saudade.
6
- A trova é o Sol que ilumina
os sonhos dos trovadores.
É também prece divina
que alivia nossas dores.
7
A trova – Musa divina,
é terna canção de amor…
É tão pura e cristalina,
que faz santo o trovador!
8
Buscando vencer obstáculos
com exemplar persistência,
os rios são sustentáculos
de nossa sobrevivência.
9
Busque enfrentar desafios,
preserve a mãe natureza:
- Nossa flora, fauna e rios,
fontes de nossa pureza.
10
Carnaval – Festa do povo,
dos prazeres, da folia…
Foliões buscam de novo
reviver sua alforria!…
11
Cartão-postal potiguar,
nosso Alberto Maranhão
é um TEATRO secular:
- Honra e Glória da Nação!
12
Cenário sombrio, esboço
da miséria...que tristeza:
- Ver famílias sem almoço
E sem jantar sobre a mesa!
13
Com saúde e educação,
sem drogas, fumo e bebida,
teremos livre a nação
nos seus direitos à vida.
14
Com sua fé inaudita,
São Francisco, na verdade,
fez a prece mais bonita
pela Paz da humanidade!
15
Corre lento, sem alarde,
Potengi - em seu trovar!
E os lábios rubros da tarde
com ardor vêm te beijar!…
16
Cumprindo bem cada meta,
ao longo de sua história,
nosso TEATRO completa
um Centenário de Glória.
17
É salutar passatempo,
trabalhar com otimismo:
O trabalho ocupa o tempo,
dissipando o pessimismo!
18
Este conceito traduz
um céu de muito esplendor:
– “amor é facho de luz”
– “perdão é bênção de amor!”
19
Eu creio em Deus, sou devoto,
amo o Brasil com fervor,
mas nunca mais dou meu voto
a quem não me dá valor.
20
Falar de feira... a saudade
pulsa em meu peito, tão forte,
que relembro a mocidade
das feiras livres do Norte!
21
Família exemplar, unida,
que busca honrar seus valores,
enaltece a própria vida:
e a vida entoa louvores…
22
Fonte de sabedoria
Que o mundo inteiro conhece,
A trova é a luz da poesia…
É a mais linda e doce prece!
23
Irmão, não mates a vida
usando drogas, maconha!
Tu perderás nesta lida:
- moral, saúde e vergonha!
24
Jorrando sabedoria
iluminando o universo,
a trova com maestria
é um hino de amor ao verso!
25
Leve a vida sem queixume,
plante amor por onde andar:
– Seja a fé o seu perfume.
– Seja a paz o seu altar!
26
Mesmo vencendo a contenda,
e os medos da tenra idade,
o lobisomem é a lenda
que vive em minha saudade!
27
Minha vida o que seria
sem o diploma de esteta,
pois sou filho da poesia
e a poesia me completa!
28
Mulher, encanto e ternura,
lindo poema de amor,
que ameniza a desventura
do poeta… sonhador!
29
Não há poema mais lindo
neste rincão potiguar:
– ver o Potengi dormindo
abraçado com o mar!
30
Natal – Cidade Sorriso
que ao mundo inteiro seduz,
tu és o meu paraíso,
meu paraíso de luz!…
31
Natureza... Templo Santo
onde Deus fez seu altar...
Em tudo há sublime encanto
que é preciso preservar!!!
32
O destino insano, ingrato,
me roubou você, enfim,
mas não roubou seu retrato:
- Presença que vive em mim.
33
O imortal desaparece
desta vida transitória,
mas seu verso permanece
nas letras vivas da história!
34
O silêncio, embora mudo,
tem poder envolvente
de, ao coração, dizer tudo
que passa na alma da gente!
35
O sonho em minha existência
perdeu seu brilho e valor,
ao sentir que tua ausência
sepultou o nosso amor!
36
Os sonhos da mocidade,
quase ninguém os esquece;
deixam fundo uma saudade
que nunca desaparece!
37
Padre João Maria, exemplo
de Fé, de Amor, Santidade:
- Da pobreza fez seu templo
em prol da Fraternidade!
38
Para afastar os abrolhos
do meu viver sufocante,
bastou-me fitar teus olhos
divinais… por um instante!
39
Perdi-te, sim, por ciúme,
mas inda guardo com zelo
a fragrância do perfume
de um fio do teu cabelo.
40
Preserve a Mãe-Natureza!
Combata sempre as queimadas...
Defenda o verde e a pureza
de nossas matas sagradas!
41
Primavera é a natureza
se revestindo de cores,
multiplicando a beleza
nos sonhos dos Trovadores!
42
Quando eu faço a travessia
sobre teu leito, risonho,
tudo respira poesia,
oh! Potengi do meu sonho!
43
Queimada… A verde floresta
perdeu no fogo a folhagem…
Hoje – só carvão nos resta,
e a saudade da paisagem!
44
Quem tem fé, tem esperança
num mundo novo, sem guerra,
pois com fé e confiança
haverá paz sobre a Terra!
45
Que o mais lindo sol desponte
sobre o milênio terceiro,
e que debaixo da ponte
ninguém ponha o travesseiro!
46
Relembrando a mocidade
te vejo a cada momento,
no feitiço da saudade
que adorna o meu pensamento.
47
Respeito, amor, lealdade,
temor a Deus sem medida,
eis a família, em verdade,
núcleo maior desta vida!
48
Sem passado e sem futuro,
a criança abandonada
vive num mundo obscuro,
sem esperança de nada…
49
Senhor Deus – Rei do Universo,
eis a prece que se encerra:
–  Mandai chuva... ouvi meu verso...
- Bani a seca da Terra!
50
Ser sóbrio, filho, é virtude
que gera felicidade...
Se queres gozar saúde,
cultiva a sobriedade.
51
Sertanejo, bravo e forte,
enfrenta a seca e os horrores
sem temer a própria morte,
vencendo os próprios temores!!!
52
Sou trovador, sou poeta,
vivo feliz –  tenho paz...
Esta é a prova mais completa
do bem que a Trova me faz!
53
Teatro de belo porte,
nosso Alberto Maranhão,
no Rio Grande do Norte
faz Cem anos de atração…
54
Teu doce beijo, querida,
que me acalma e tira o tédio,
é meu sol, é minha vida,
é meu sublime remédio!
55
Tua ausência indesejada
me causou tão forte dor,
que vivo abraçado ao nada,
no deserto desse amor.
56
Tua ausência, mãe querida,
o bom filho nunca esquece…
És o amor de Deus, és vida:
– Tu és a mais linda prece!
57
Vai seguindo o seu fadário
há milênios, junto ao mar.
Potengi, belo cenário,
cartão postal potiguar!

terça-feira, 17 de junho de 2025

Reinaldo Moreira de Aguiar (Natal/RN, 1921 – 2010)

1
A lágrima, na verdade,
por seu poder infinito,
traduz com fidelidade
o que não pode ser dito…
2
Após longa caminhada
de perigos e cansaços,
encontrei doce pousada
na maciez dos teus braços.
3
Com primoroso carinho,
usando formosa teia,
as nuvens fazem caminho
por onde a lua passeia.
4
Depois de muitas andanças,
e tanta ilusão perdida,
vejo lindas esperanças
orvalhando minha vida.
5
Desgosto grande, profundo,
que me entristece e consome,
é o de saber que, no mundo,
crianças morrem de fome.
6
Em branda calma e sozinho,
sou bem feliz em mirar
a aurora vir de mansinho
colorindo o imenso mar…
7
Escuto o acalanto antigo
com tão pura nitidez,
que às vezes penso comigo:
estou na infância outra vez!
8
Eu afirmo, não suponho,
e essa certeza me anima:
- Toda beleza de um sonho
pode caber numa rima!
9
Eu me sinto satisfeito
quando, em horas sossegadas,
vejo no cais do meu peito
as saudades ancoradas.
10
Mágoas... E para esquecê-las,
assim sempre faço e fiz:
olho, ansioso, as estrelas,
sou novamente feliz!
11
Minha cidade é tão linda!
Não há de certo outra igual.
- Ostenta beleza infinda
no próprio nome: Natal!
12
No esplendor da lua cheia,
vejo, no meu delirar,
a saudade que passeia
no verde dorso do mar!
13
No pôr-do-sol comovente,
que de tristeza me invade,
rezo, enternecidamente,
uma oração de saudade.
14
Nos percalços desta vida,
quando a maldade nos corta,
é graça bem recebida
se alguém nos abre uma porta.
15
O Ano Novo sempre faz
renovar nossa vontade,
de ver a bendita Paz
reinando na humanidade.
16
O meu peito é velho cais,
onde o barco da saudade
descarrega sempre mais
lembranças da mocidade.
17
Onda de espuma enfeitada,
que nos encanta e deleita,
vem de longe e tão cansada,
que sobre a areia se deita...
18
Os males do mundo encaro,
e pela vida me arrisco,
tendo sempre o forte amparo
na oração de São Francisco.
19
O tempo, com seu poder,
tudo altera sem clemência,
mas não me faz esquecer
os sonhos da adolescência.
20
Pessoas, casos, andanças,
lances de vários matizes...
é garimpando lembranças
que tenho as horas felizes.
21
Quando o vaqueiro valente
se encontra longe de casa,
no seu aboio plangente
toda a saudade extravasa.
22
Quem atinge longa idade
cumpre cruel penitência:
- levar a cruz da saudade
até o fim da existência.
23
Se, às vezes, alguma treva
a minha estrada domina,
a Trova surge e me enleva,
e tudo então se ilumina.
24
Sinto-me bem satisfeito,
quando, em horas sossegadas,
vejo no cais do meu peito
as saudades ancoradas.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Manoel Cavalcante (Pau dos Ferros/ RN)


1
A brisa bateu na porta
naquela noite abatida...
Trouxe uma esperança morta
pra minha face sem vida...
2
A cascata me interpela
questões das mais resolutas.
Por que a água doce e bela
cai beijando as pedras brutas??
3
A noite sai do espetáculo,
inerme, discreta e estranha;
o sol por trás de um pináculo
eriça a luz na montanha… (…)
4
Ao chegar neste recinto
das terras de Caicó,
com todo fervor eu sinto
que aqui não me sinto só.
5
Ao rever a sua imagem 
N’alma abri minhas cortinas 
e retoquei a tatuagem 
feita nas minhas retinas!
6
A trova levou-me aos céus,
pois entre joios e trigos
perdi pequenos troféus
mas ganhei grandes amigos.
7
A velhice, em tom sarcástico,
gosta de mostrar que sou
restos de sonhos de plástico
que o trem do tempo esmagou.
8
Cada gole de aguardente
traz um ardor vitalício,
queimando as queixas da mente
dentro do fogo do vício…!
9
Com desespero e irritado, 
apertou devagarzinho… 
– Quem é você seu safado????? 
– Eu sou Raimundo, o mudiiinho!!!!
10
Covarde, pobre e mesquinho;
quem durante a caminhada
ante às pedras do caminho,
decreta o final da estrada.
11
Disse a velha sem orgulho:
– no quarto, em horas de amor,
o velho que faz barulho
é só meu ventilador…
12
É duro olhar para o lado 
em meio ao redemoinho, 
no vento mais conturbado 
e ver… Eu estou sozinho!
13
É inverno… Choveu na mata…
E a lua, deusa sem fama,
penteia as tranças de prata
pelos espelhos de lama.
14
É queimada a Dona Benta
no bairro de Botafogo,
por já passar dos oitenta
e não ter baixado o fogo…!
15
– Já passaste, Primavera?!
Nenhuma flor me marcou!
Querendo ser quem eu era,
nunca mais fui quem eu sou...
16
Joguei na fonte a moeda…
Por ser a única que eu tinha,
antes que eu ouvisse a queda,
pedi pra você ser minha!
17
Joguei moedas no lago...,
mas meu desejo afundou
com as esmolas de afago
que você me renegou.
18
Junta-se o poeta aos loucos;
um diário vivo em versos,
expressando como poucos
os sentimentos diversos.
19
Na entrevista com rigor
que o tempo insiste em fazer,
se a pergunta é sobre amor,
eu me nego a responder…
20
Na madrugada sem fim,
a saudade, desvairada,
acende um confronto em mim
entre um ninguém e um nada!…
21
Não vens. Sozinho na sala,
na espera à luz do ciúme,
meu coração despetala,
mas não perde teu perfume.
22
Na realidade, o pecado
que me faz vagar a esmo,
foi na vida ter amado
outro alguém mais que a mim mesmo!
23
No lago seco onde o sol,
racha o chão e se esparrama,
o pobre de um rouxinol
bica fiapos de lama…
24
Nosso fim está, talvez
como um segredo escondido,
nas entranhas dos “porquês”
que você deu sem sentido…
25
No trem, a vida é mesquinha.
Pare! Não tema empecilhos.
Não há quem ande na linha
neste planeta sem trilhos.
26
Nunca temerei fracassos,
chegarei mesmo sozinho.
Quem segue do pai os passos
sabe as curvas do caminho…
27
O barco é movido a remos … 
E hoje, pai, longe de ti, 
eu só sei dizer: vencemos; 
é injusto eu dizer: venci.
28
Olhos fundos; enfadonhos,
tez crestada, mão ferida…
Só você, pai, por meus sonhos,
foi capaz de dar a vida…!
29
Passastes, trem, mas por que
deixastes ficar assim?!
Vagões cheios em você;
vagões vazios em mim…?!
30
Peço a “Noel”, com leveza,
que ao chegar do polo norte,
bote ao menos pão na mesa
dos que nasceram sem sorte.
31
Pela dor da decepção
eu já me recuperei,
só falta a devolução
de um amor que eu te entreguei!
32
Pode ir embora, querida...
Que eu guardo a dor compulsória
de ter que arrancar da vida
quem tatuei na memória.
33
Por uma acusação falsa 
fui levado pra cadeia. 
Lá ganhei a meia calça 
depois de uma surra e meia…!
34
Puseste-me na clausura!
E hoje, em sonhos sem sentido,
eu me alimento da jura
que murmuras noutro ouvido…
35
Quando a dor de raivas breves,
de ti, musa, não tem fim,
escreves com traços leves
mil versos de amor em mim…
36
Quando a família é rompida
por atos cegos, tiranos,
deixa destroços de vida,
restos de seres humanos...
37
Quando o céu, em nuvens rotas,
derrama a chuva em cascata,
as gotas dedilham notas
nas verdes liras da mata…
38
Sê cidadão! Pois é rara,
a virtude de quem sonha
em primeiro por na cara
os adornos da vergonha.
39
Se foi feitiço ou segredo,
pra mim não adianta, é tarde!
Quando alguém ama com medo,
esculpe um amor covarde!
40
Sempre te amei como um louco
bem mais do que se permite;
para quem é amado, é pouco,
pra quem ama é sem limite!
41
Sem saber o que fazer,
a prostituta, perdida,
vende prazer p’ra viver,
mesmo sem prazer na vida…!
42
Ser literato ele soube,
com "Os Sertões", obra lendária.
Foi tão grande que não coube
numa escola literária.
43
Seu olhar de sinceridade,
crava paz nesse meu peito.
Nosso laço de amizade
tem as fitas do respeito!
44
Sobre a estante, na sala,
teu velho retrato, mudo,
mostra que a saudade fala
num silêncio... que diz tudo!!
45
Sou como as uvas pisadas
pra fazer vinho e licor,
que mesmo sendo esmagadas
dão de presente o sabor.
46
Sua imagem é minha escolha,
dela assumo ser devoto,
pois por mais que eu vire a folha,
eu só vejo a mesma foto!
47
Sua imagem, na lembrança,
em mim se consolidou
num retrato de esperança
que a vida não revelou... 
48
Tantas lágrimas na face
de tantos que a vida ignora.
E cada aurora que nasce,
é apenas mais uma aurora.
49
Toda família suspende
em seu pilar, os fracassos;
quando um filho dela pende,
sempre se ampara em seus braços!
50
Trinam pássaros nos galhos,
a brisa é leve e sombria;
a aurora sobre os orvalhos,
abre as cortinas do dia.
51
Vim do chão de um interior
e hoje tenho visões novas.
Quão feliz é o Trovador
que vai das Trevas às Trovas…
52
Viro a chave...E a nostalgia
da solidão que me corta
é impressa na melodia
do lento ranger da porta…
53
Voando em sonhos dispersos,
sigo em louca diretriz
no céu do rastro dos versos
das trovas que nunca fiz.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Professor Garcia (Caicó/RN) Reflexões em Trovas * 1

 Ah, se essa distância fosse
ponte, entre a nascente e a foz;
como seria mais doce
essa distância entre nós!
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Ao vê-lo, em meio aos escombros,
a ajudá-lo, eu me propus,
sentindo o peso nos ombros
do peso daquela cruz!
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A sensação dos afetos
que recebi de meus pais...
Oferto aos filhos e netos,
por serem todos iguais!
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Busquei, na fonte de um templo,
a paz de um novo horizonte;
e achei essa paz no exemplo
que há no silêncio da fonte!...
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Da sorte, nunca lamente.
Ame a vida com seus ais,
que a sorte de muita gente
cresce em falsos pedestais!
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Dizem que a justiça é cega.
Não creio, é falsa premissa;
cega, àquele que se apega,
aos infiéis da justiça!
= = = = = = = = = = = = =

Em meio às indiferenças,
dar bons exemplos preciso,
jogando fora as ofensas
dentro da fonte do riso!
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Enquanto, tu buscas rindo,
a paz do azul desse mar...
Eu busco esse abismo infindo
do verde do teu olhar!
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Entre esperas e demoras,
vi passar tanta quimera!.,.
Que, a primavera das horas,
já nem é mais primavera!
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Essa constante ansiedade
que ao fim da tarde, caminha...
É a velha dor da saudade
que eu sinto toda tardinha!
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Eu amo as gotas serenas
do orvalho que beija a flor,
porque sei que são apenas
serenas gotas de amor!
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Eu ouço em tuas demoras,
vozes de outros rituais...
Na ressonância das horas
do martelar dos meus ais!
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Exemplo bom é o exemplo,
que as almas bondosas dão,
rezando no altar do templo
pelas outras que se vão!
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Lembrando canções antigas,
de volta ao meu velho chão...
Vi muitas sombras amigas
na orquestra da solidão!
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Meus dias!... Feliz por tê-los
na vida que se refaz,
no branco dos meus cabelos
aos ventos pedindo paz!
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Meu sertão não tem floresta,
é pobre o pó deste chão...
Mas esta paz que me empresta
me faz amar meu sertão!
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Na estrada em que a luz palmilha,
é que a verdade se inspira;
e ante a luz que, tanto brilha,
jamais se esconde a mentira!
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No mosteiro abandonado,
na solidão da clausura,
o silêncio é tão calado
que à solidão se mistura!
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Pelos teus gestos fanados,
para voltar não me peças;
sinto em teus sins camuflados,
o olhar de falsas promessas!
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Pobreza dói mas não mata,
não faz vergonha a ninguém;
pobre, é quem tem ouro e prata,
mas quer ter mais do que tem!
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Por longa que seja a espera,
calma, que tudo se alcança!
Enquanto houver primavera
não morre a flor da esperança!
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Pregado à cruz, por seus atos,
ante falsa acusação...
Jesus perdoa Pilatos
e ensina ao mundo o perdão!
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Se a esperança é paz no outono,
sê paciente na espera;
que a flor desperta do sono
na eclosão da primavera!
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Sei que a velhice me alcança;
e, entre uns sins e outros senões..,
Enquanto houver esperança
vou cultivando ilusões!
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Sem saber se tu me esperas,
cada verso que componho,
tem sabor das vãs quimeras
do tempero do meu sonho!
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Teu adeus, roubou-me a cena,
de toda a beleza agreste,
de tua pele morena
queimada ao sol do Nordeste!
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Velho mar, meu confidente,
entre nós, tudo se arruma,
quando a queixa que se sente
vaga entre os cachos de espuma!

Professor Garcia. Versos para refletir. Natal/RN: Trairy, 2021.
Livro enviado pelo trovador.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Auta de Souza (Macaíba/RN, 1876 - 1901, Natal/RN)

Ama e serve, sofre e luta…
Sem lâmina que a sublima,
a pedra largada e bruta
nunca seria obra-prima.
- - - - - –
 
As rosas também cobriram
o lenho santo da Cruz
quando os espinhos cingiram
a cabeça de Jesus!
- - - - - –

Caridade verdadeira,
em todos os seus caminhos,
quando oferece uma rosa
sabe tirar os espinhos.
- - - - - –

Colhi, entre amigos meus,
este conceito profundo:
– Mãe é um sorriso de Deus
nos sofrimentos do mundo.
- - - - - –

Como dois botões pequenos,
duas flores orvalhadas,
teus olhos dormem serenos
sob as pálpebras cansadas.
- - - - - –

Embora desiludida,
alma cansada e sincera,
por muito te doa a vida,
não desanimes!… Espera!
- - - - - -

Eu quero bem às crianças
porque não sabem mentir:
são pombas lindas e mansas,
passam na vida a sorrir.
- - - - - –

Eu amo as minhas lembranças,
minhas saudades e dores,
assim como amo as crianças,
os passarinhos e as flores.
- - - - - -

Mãe de filhinhos dos outros,
mulher de mãos benfazejas…
Diz o Mundo : – “Deus te guarde!…”
Diz o Céu : – “Bendita sejas!…”
- - - - - –

Não acredito que seja
assim como dizem, não...
Ai daquele que deseja
viver sem uma ilusão...
- - - - - –

Não te maldigas, querida,
mesmo se a dor te magoa:
é sempre feliz na vida
a alma que é pura e boa.
- - - - - –

Ó alma triste, chorosa
como uma dália no inverno,
despe da mágoa trevosa
o negro cilício eterno!
- - - - - –

Obsessão de quem ama,
ninguém consegue entendê-la:
parece vaso de lama
encarcerando uma estrela.
- - - - - –

Quando eu morrer, quero um manto
como o de Nossa Senhora,
que seja feito de pranto
do Céu quando nasce a aurora.
- - - - - –

São flores azuis boiando
à tona d'água, de leve,
esses dois olhos beijando
o teu semblante de neve.
- - - - - –

Segue o ideal que te aquece,
serve ao bem, seja onde for;
trabalho que permanece
é o que se faz por amor.
- - - - - –

Se há noites frias, escuras,
também há noites formosas;
há riso nas amarguras,
entre espinhos nascem rosas.
- - - - - –

Tenho a luz dos dias meus
nesta sentença concisa:
coração entregue a Deus
tem tudo de que precisa.


Fontes:
– Aparício Fernandes (org.). Trovadores do Brasil. 2. Volume. RJ: Ed. Minerva,
– Auta de Souza. Psicografia de Francisco Cândido Xavier

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Professor Garcia (Trovas em Preto & Branco)

                                    
1
A dor que se intensifica
e amedronta os dias meus,
é pensar na dor que fica
depois da palavra adeus!
2
A liberdade do poeta,
está num verso... Num grito...
No equilíbrio se completa,
vencendo o próprio infinito!
3
A musa chega e me inspira,
num delírio encantador...
Afina as cordas da lira
e enche o meu mundo de amor!
4
A solidão me angustia
e à noite aumenta o meu drama,
vendo a cadeira vazia
que a tua ausência reclama!
5
Cada tropeço me ensina
que a vida é eterno sonhar.
Na vida nada termina,
muda de forma e lugar.
6
Cadeira velha!...Esquecida,
sem dono e sem mais ninguém...
Só a saudade atrevida
reclama a ausência de alguém!
7
Dai-nos ó, Pai, a razão,
desta santa imagem tua…
e que eu reparta o meu pão,
com quem não tem pão na rua!!!
8
Esta aliança que um dia,
já guardou nossos segredos;
hoje guarda a nostalgia
das digitais de outros dedos!
9
Já pronta e de vela içada
tremulando de ansiedade,
vai para o mar a jangada
carregada de saudade!
10
Morre a flor na flor da idade,
padece a planta de dor;
a ausência deixa saudade,
até na morte da flor!
11
Ninguém é pedra polida,
se não mudar de conduta;
pois, a pedreira da vida
é feita de pedra bruta!
12
O mundo é roda gigante,
girando sempre a girar,
e eu sou passageiro errante
procurando meu lugar!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

SOBRE AS TROVAS DO PROFESSOR GARCIA
por José Feldman

As "Trovas do Professor Garcia" revelam uma rica reflexão sobre sentimentos universais, como a dor, a saudade, a liberdade e a busca por significado na vida. Cada estrofe aborda temas profundos e humanos, utilizando imagens poéticas para transmitir emoções.

TEMAS PRINCIPAIS

Saudade e Ausência: Muitas trovas expressam a dor da ausência, seja de uma pessoa amada ou de momentos passados, como na cadeira vazia e na aliança que guarda nostalgia.

Liberdade e Criatividade: A liberdade do poeta é um tema recorrente, mostrando como a arte e a expressão criativa são formas de superar limites e encontrar significado.

Reflexão sobre a Vida: Há uma contemplação sobre o aprendizado que vem com as dificuldades e a transitoriedade da vida, sugerindo que nada é permanente.

Solidão e Conexão: A solidão é uma constante, mas também é um espaço onde a conexão com a própria essência e com a arte pode florescer.

AS TROVAS, UMA A UMA

1. A dor que se intensifica
Reflete a dor emocional que acompanha a despedida. A repetição da palavra "dor" enfatiza a profundidade do sofrimento. A ideia de que a dor persiste após o adeus sugere que as memórias são difíceis de esquecer.

2. A liberdade do poeta
Esta trova destaca a relação entre a criação poética e a liberdade. O verso e o grito representam a expressão autêntica. A conclusão sobre vencer o infinito sugere que a arte transcende limitações.

3. A musa chega e me inspira
A musa é uma figura clássica que simboliza a inspiração. A metáfora da lira afina as emoções, indicando que a arte é um meio de conectar-se ao amor e à beleza.

4. A solidão me angustia
A solidão é personificada através da cadeira vazia, simbolizando a presença da ausência. Essa imagem é poderosa, evocando tristeza e uma forte conexão emocional com quem foi perdido.

5. Cada tropeço me ensina
Reflete a ideia de que cada dificuldade é uma oportunidade de aprendizado. A vida como um eterno sonhar sugere que as transformações são constantes e necessárias.

6. Cadeira velha!... Esquecida
A cadeira representa a solidão e a saudade. A descrição de uma cadeira sem dono evoca a perda e a nostalgia, mostrando como objetos podem carregar memórias.

7. Dai-nos ó, Pai, a razão
Uma invocação à divindade, pedindo compreensão e compaixão. A imagem de repartir o pão enfatiza a importância da solidariedade e da empatia em tempos de necessidade.

8. Esta aliança que um dia
A aliança simboliza promessas e segredos compartilhados. A mudança de quem toca a aliança indica a passagem do tempo e o que foi perdido, trazendo um tom melancólico.

9. Já pronta e de vela içada
A jangada simboliza a jornada emocional. Carregada de saudade, sugere que as lembranças e sentimentos ainda influenciam o presente, mesmo em novos começos.

10. Morre a flor na flor da idade
A morte da flor na juventude é uma metáfora para a efemeridade da vida. A ausência deixa saudade, mostrando que até a beleza tem um fim, mas deixa lembranças.

11. Ninguém é pedra polida
A metáfora da pedra sugere que o crescimento pessoal exige mudança e adaptação. A "pedreira da vida" simboliza os desafios que moldam quem somos.

12. O mundo é roda gigante
A roda gigante representa a ciclicalidade da vida e a busca incessante por um lugar no mundo. O "passageiro errante" reflete a incerteza e a busca por identidade e pertencimento.

ESTRUTURA POÉTICA
Rimas e Ritmo: As trovas possuem uma musicalidade que facilita a leitura e a memorização. Isso é típico da poesia popular, tornando-as acessíveis a um público amplo.

Imagens Visuais: As metáforas e imagens, como a cadeira vazia e a jangada, criam cenários que evocam emoções profundas. Essas imagens tornam as experiências universais e relatáveis.

IMPACTO 
As trovas têm um poder emocional significativo. Ao abordar temas como dor, saudade e liberdade, elas podem tocar o coração dos leitores, provocando reflexão e empatia. A simplicidade das palavras contrasta com a profundidade dos sentimentos, permitindo uma conexão imediata.

CONCLUSÃO
As trovas se destacam pela sua simplicidade, musicalidade e conexão emocional. Elas servem como uma ponte entre a tradição poética e a experiência cotidiana, fazendo com que sentimentos universais sejam facilmente compartilhados e apreciados. Enquanto outros estilos podem exigir uma leitura mais atenta ou interpretação, as trovas convidam à reflexão de maneira direta e acessível.

O uso de trovas é comum em várias culturas, onde a poesia é utilizada para expressar sentimentos e contar histórias de forma concisa e impactante.

As "Trovas do Professor Garcia" não são apenas poemas; são reflexões sobre a condição humana. Elas capturam a essência da vida, com suas dores e alegrias, e convidam o leitor a se conectar com suas próprias experiências.

Fonte: José Feldman. 50 Trovadores e suas Trovas em preto e branco. vol.1. Maringá/PR: IA Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul. 2024.

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

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