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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

José Feldman (Os Espinhos de Tatá e as Orelhas de Leco)

(do livro “Contos para crianças e não tão crianças”)

Na Grande Floresta, todos sabiam que o coelho Leco tinha muito orgulho de suas longas orelhas e a ouriça Tatá andava sempre encolhida por causa de seus muitos espinhos. Mas, às vezes, eles reclamavam de suas aparências.

— Ai, Tatá, essas orelhas enormes só servem para eu tropeçar nelas quando corro rápido — queixava-se Leco, tentando prendê-las com um elástico de cipó.

— E eu, Leco? — suspirava Tatá. — Esses espinhos espetam em tudo. Eu queria ser macia e peludinha como os outros bichos. Nossas características só atrapalham!

Em uma tarde de outono, os dois decidiram ir até o Vale dos Cogumelos para colher frutinhas. O caminho era lindo, mas cheio de arbustos altos. No meio da caminhada, Leco parou de repente. Suas orelhas longas se ergueram sozinhas e começaram a virar para os lados, como duas antenas.

— Shh... Tatá, espere! — sussurrou Leco, preocupado.

— O que foi, Leco? Eu não estou vendo nada — disse a ouriça, tentando olhar por cima da grama alta.

— Minhas orelhas captaram um som... É um barulho pesado esmagando os galhos secos. E está vindo bem na nossa direção! É o passo do Lobo Guará! — avisou o coelho, com os olhos arregalados.

As orelhas compridas de Leco, que ele tanto criticava, tinham uma audição superpotente e conseguiram ouvir o perigo antes de qualquer um.

— Ah, não! Não dá tempo de correr para a minha toca! — desesperou-se Leco, tremendo as patinhas. — O que a gente faz?

Tatá olhou ao redor. Eles estavam em um descampado e o lobo estava quase aparecendo entre as árvores. Foi aí que a ouriça teve uma ideia corajosa.

— Leco, confia em mim! Fique bem quietinho e se encolha atrás de mim. Rápido!

Leco obedeceu, encolhendo-se o máximo que pôde. Tatá deu um passo à frente, respirou fundo e ativou seu mecanismo de defesa: ela se transformou em uma bola perfeita, eriçando todos os seus centenas de espinhos afiados para fora, cobrindo o coelho completamente como um escudo vivo.

Segundos depois, o grande Lobo Guará apareceu entre os arbustos. Ele olhou para os lados, farejou o ar e viu apenas o que parecia ser um enorme e perigoso cacto silvestre cheio de espinhos pontiagudos. O lobo, sabendo que se machucaria se tentasse morder aquilo, deu meia-volta e seguiu outro caminho floresta adentro.

Quando o silêncio voltou a reinar, Leco ergueu as orelhas devagar e Tatá relaxou seus espinhos, voltando ao normal.

— Puxa vida, Tatá! Você foi incrível! — exclamou Leco, dando pulos de alegria. — Seus espinhos salvaram a nossa pele! Eles são como uma armadura de super-herói!

Tatá sorriu, corando de leve sob os pelos do focinho.

— E as suas orelhas nos salvaram primeiro, Leco. Se você não tivesse esse superouvido, o lobo teria nos pego de surpresa.

Sentados na grama do vale, os dois amigos olharam um para o outro com admiração. Leco soltou o elástico e deixou suas orelhas balançarem livres ao vento. Tatá acariciou suas próprias costas, orgulhosa de cada pontinha que possuía. Eles finalmente entenderam que a natureza não erra em nada do que faz.
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Nossas características únicas e diferenças não são defeitos. Cada detalhe do nosso corpo e do nosso jeito de ser tem um valor especial e serve para nos proteger e ajudar quem amamos quando mais precisamos.
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Fonte:
José Feldman. Contos para crianças e não tão crianças. Floresta/PR: Biblioteca Sunshime, 2026.

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