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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Arthur de Azevedo (Assunto para um Conto)

Como sou um contador de histórias, e tenho que inventar um conto por semana, sendo, aliás, menos infeliz que Scherazade, porque o público é um sultão Shariar menos exigente e menos sanguinário que o das Mil e Urna Noites, sou constantemente abordado por indivíduos que me oferecem assuntos, e aos quais não dou atenção, porque eles em geral não têm uma ideia aproveitável.

Entre esses indivíduos há um funcionário aposentado, que na sua roda é tido por espirituoso, o qual, todas as vezes que me encontra, obriga-me a parar, diz-me, invariavelmente, que estou ficando muito preguiçoso, e, com um ar de proteção, o ar de um Mecenas desejoso de prestar um serviço que aliás não lhe foi pedido, conclui, também invariavelmente:

- Deixe estar, que tenho um magnífico assunto para você escrever um conto! Qualquer dia destes, quando eu estiver de maré, lá lh'o mandarei.

Há dias, tomando o bonde para ir ao Leme espairecer as ideias, sentei-me por acaso ao lado do meu Mecenas, que na forma do costume começou por invectivar a minha preguiça, e prosseguiu assim:

- Creio que já lhe disse que tenho um assunto para o amiguinho escrever um conto...

- Já m'o disse mais de vinte vezes!

- Qualquer dia lá lh'o mandarei.

- Não! Há de ser agora! O senhor tem me prometido esse assunto um rol de vezes, e não cumpre a sua promessa. Nós vamos a Copacabana, estamos ao lado um do outro, temos multo tempo... Venha o assunto!...

- Não; agora não!

- Pois há de ser agora, ou então convenço-me de que tal assunto não existe, e o senhor mentiu todas as vezes que m'o prometeu!

- Ora essa!

- Sim, que o senhor tem feito como aquele cidadão que prometia ao Eduardo
Garrido, todas as vezes que o encontrava, um calembour para ser encaixado na primeira peça que ele escrevesse. Até hoje o Garrido espera pelo calembour!

- Eu tenho o assunto do conto, explicou o Mecenas, mas queria escrevê-lo...

- Para quê? Basta que m'o exponha verbalmente.

- Então lá vai: é a história de uma herança falsa, um sujeito residente na Espanha escreve a outro sujeito residente no Rio de Janeiro uma carta dizendo
que morreu lá um homem podre de rico, chamado, por exemplo, D. Ramon, e que esse homem não deixou herdeiros conhecidos: a herança foi toda recolhida pela nação; mas o tal sujeito residente na Espanha, que é um finório, manda dizer ao tal sujeito residente no Rio de Janeiro, que é um simplório, que existem aqui herdeiros, cujos nomes ele não revelará ao simplório sem que este mande pelo correio tantas mil pesetas. O simplório manda-lhe o dinheiro, e fica eternamente à espera dos nomes dos herdeiros. - Que tal?

- Muito bom!

- Você não acha aproveitável este assunto?

- Acho-o magnífico, interessantíssimo, espirituoso! Tanto assim que vou escrever o conto e publicá-lo no próximo número d'O Século!

- Ora, ainda bem! Quando lhe faltar assunto, venha bater-me à porta: o que não me falta é imaginação!

- Muito obrigado; não me despeço do favor.

Como vê o leitor, aproveitei o assunto do imaginoso Mecenas.
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Arthur de Azevedo (1855 – 1908)
ARTHUR NABANTINO GONÇALVES DE AZEVEDO (conhecido universalmente como Arthur de Azevedo) foi um dos maiores dramaturgos, jornalistas, poetas e contistas do Brasil. Irmão do célebre romancista Aluísio de Azevedo, ele se consagrou como a figura central e mais popular do teatro brasileiro na transição do século XIX para o XX, sendo o grande mestre do Teatro de Revista e da comédia de costumes. Nasceu em 1855, em São Luís/MA, e faleceu aos 53 anos, em 1908, no Rio de Janeiro. Passou a infância e a juventude no Maranhão. Em 1873, aos 18 anos, mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro (então capital do Império), onde residiu e produziu intensamente até o fim da vida. Em São Luís, trabalhou no comércio e como amanuense (copista) na Secretaria de Governo. No Rio de Janeiro, ingressou como funcionário público no Ministério da Agricultura. Deixou o funcionalismo para viver exclusivamente de sua produção escrita. Foi um jornalista incansável, tendo fundado e dirigido publicações marcantes como A República e O Diário de Notícias. Colaborou também com O Paiz, Gazeta de Notícias e A Estação. Usava suas colunas diárias para analisar espetáculos, traduzir peças estrangeiras e defender apaixonadamente a profissionalização e a valorização dos artistas nacionais.
Escreveu cerca de 4.000 crônicas, centenas de contos, poesias líricas e satíricas, e mais de 100 peças teatrais (entre comédias, dramas, operetas e revistas). Teve papel crucial na fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1897. Foi membro fundador e ocupou a Cadeira nº 29, escolhendo como patrono o também dramaturgo Martins Pena. Em sua época, os maiores prêmios eram o estrondoso sucesso de bilheteria nos teatros e o reconhecimento crítico nos jornais. Arthur de Azevedo era o autor mais encenado e aplaudido do país, considerado uma verdadeira unanimidade popular.
Devido à sua enorme produção para os palcos e jornais, muitas de suas obras foram reunidas em volumes ao longo do tempo ou publicadas como folhetos de cordel e libretos teatrais: 
A Capital Federal (1897) — Sua obra-prima, uma comédia hilária sobre as transformações urbanas do Rio de Janeiro; O Mambembe (1904) — Uma belíssima e cômica homenagem à vida das companhias de teatro itinerantes; O Badejo (1886). Contos Efêmeros (1897); Contos Cariocas (1928, publicação póstuma); Carapuças (1878) — Poesias satíricas; Sonetos (1876).
A relevância de Arthur de Azevedo para a cultura brasileira é inestimável porque ele moldou a identidade do teatro brasileiro. Ao lado de Martins Pena, tirou os palcos da dependência cega de melodramas franceses, criando uma dramaturgia autenticamente brasileira, focada no cotidiano, na fala e nos tipos humanos do Rio de Janeiro. Elevou o gênero da "revista de ano" (espetáculos musicais que satirizavam os acontecimentos do ano anterior) a um patamar de alta qualidade literária e humor refinado, influenciando toda a comédia musical brasileira do século XX. Dedicou as últimas décadas de sua vida a uma intensa campanha jornalística para que a capital federal construísse um grande teatro público. Infelizmente, faleceu poucos meses antes da inauguração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (em 1909), que hoje abriga um busto em sua homenagem.

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos possíveis. Publicado originalmente em 1908.

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