Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:
- Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.
- Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?
- Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom; vá.
O sogro, a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:
- Vai, meu bem.
Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.
- Primeiro me tragam um vidro de éter, e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.
Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos, no pescoço.
E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.
Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse, ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.
No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.
- Ui!
Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?
- Ele estava precisando mesmo era de éter - concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.
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Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE foi um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa, considerado por críticos e intelectuais o mais influente poeta brasileiro do século XX. Principal nome da segunda geração do Modernismo brasileiro (a Geração de 30), sua obra traduz com ironia, ceticismo e profunda sensibilidade a angústia do homem moderno diante do mundo. Nasceu na cidade de Itabira/MG, em 1902. Faleceu no Rio de Janeiro em 1987, aos 84 anos. Ele partiu apenas 12 dias após a morte de sua única filha, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade, vítima de uma insuficiência respiratória agravada pelo profundo luto. Passou a infância em Itabira, estudou como interno em Belo Horizonte/MG e Nova Friburgo/RJ. Fixou residência prolongada em Belo Horizonte na juventude. Em 1934, mudou-se em definitivo para a cidade do Rio de Janeiro, onde morou no icônico bairro de Copacabana pelo resto da vida. Embora tenha se graduado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte em 1925, Drummond nunca exerceu a profissão. Sua vida profissional dividiu-se em duas grandes frentes: Funcionalismo Público: Ingressou no serviço público em Minas Gerais e, ao mudar-se para o Rio, tornou-se Chefe de Gabinete de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação e Saúde (1934–1945). Mais tarde, trabalhou como oficial no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) ao lado de Rodrigo Melo Franco, aposentando-se em 1962; e Jornalismo: Atuou como redator e colunista em periódicos como o Diário de Minas, Correio da Manhã e Jornal do Brasil, construindo uma sólida carreira paralela como cronista diário.
Sua estreia no Modernismo ocorreu na década de 1920, ajudando a fundar A Revista em Belo Horizonte, veículo de afirmação do movimento em solo mineiro. Em 1928, chocou a crítica nacional ao publicar o poema "No meio do caminho" na Revista de Antropofagia de São Paulo, gerando um debate histórico sobre a estética poética. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar do prestígio monumental e dos apelos para que se candidatasse, ele recusou polidamente concorrer a uma cadeira na instituição, preferindo manter sua posição de escritor e funcionário público independente. Ao longo de sua madura trajetória, foi condecorado com as honrarias mais importantes do país: Prêmio de Conjunto de Obra (1946): Concedido pela Sociedade Felipe de Oliveira; Prêmio Jabuti (1968): Na categoria Poesia; Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA (1973); Prêmio Morgado de Mateus (1980): Entregue em Portugal, reconhecendo sua imensa relevância internacional para a Língua Portuguesa.
Drummond teve uma produção torrencial e diversificada (entre poesia, crônica, contos e traduções). Suas obras fundamentais são: Alguma Poesia (1930): Estreia poética que contém clássicos como "Poema de Sete Faces" e "No meio do caminho"; Sentimento do Mundo (1940): Obra de tom político e social que reflete as angústias da Segunda Guerra Mundial; José (1942): Contém o antológico poema "José" ("E agora, José? A festa acabou..."); A Rosa do Povo (1945): Seu livro poético de maior fôlego, marcado pelo lirismo social e engajamento antibelicista; Claro Enigma (1951): Fase madura de retorno à tradição clássica, com reflexões filosóficas, metafísicas e pessimistas; Contos de Aprendiz (1951): Sua célebre estreia no universo dos contos ficcionais.
A importância de Carlos Drummond de Andrade reside no fato de ele ter consolidado e amadurecido o Modernismo no Brasil. Se a primeira geração de 1922 precisou ser destrutiva e polêmica, Drummond provou que a nova estética era perfeitamente capaz de atingir a mais alta profundidade filosófica e formal. Revolucionou a poesia ao introduzir o "gauche" — o indivíduo deslocado, desajeitado e introspectivo —, despindo o fazer poético de qualquer falsa solenidade. Drummond transformou o cotidiano banal, a província, a família, o tédio burocrático e o amor em reflexões universais sobre a própria existência humana. Traduzido no mundo inteiro, sua linguagem ágil e irônica moldou a identidade da poesia brasileira contemporânea e influenciou virtualmente todas as gerações de escritores que vieram depois dele.
Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. Caminhos de João Brandão. Publicado originalmente em 1970.

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