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domingo, 24 de agosto de 2025

Sylvio Ricciardi (Ribeirão Preto/SP, 1920 – 2008)

1
Achou o carro roubado
e na "Loto" fez a quina!
Nasceu pra lua virado...
"Vá ter sorte assim na China!”
2
À deriva, neste mundo,
meu coração sofredor
não se esquece, um só segundo,
do teu beijo abrasador.
3
A máscara de alegria
em meu rosto com frequência,
é apenas a fantasia
no carnaval da existência
4
A Pafúncia, dorminhoca,
cozinha, vendo a novela...
e, suspirando, a coroca
deixou queimar a panela!
5
A preguiça era tamanha
que, ao te esperar na porteira,
sentei numa pedra estranha;
me estrepei! Pedra não cheira…
6
Atirado em fria estiva,
sem bússola, em pleno mar,
meu coração, à deriva,
morre de tanto te amar…
7
Deixe de orgulho e me abrace
que vai ser melhor assim!...
Tire a máscara da face,
que eu sei que és louca por mim.
8
Dentre as flores do jardim
e escondido nas ramadas,
é o espinho o espadachim
das rosas despreocupadas.
9
Ela me chamou de bobo,
porque eu olhei, da janela,
quando o vento, com afobo,
levantou a saia dela.
10
Em minha lira tão pobre,
não achei a sutileza
de uma rima ou verso nobre
para cantar-te a beleza!
11
Em tua lira, a paixão
canta meiguice e magia!
Até os anjos, na amplidão,
batem palmas de alegria!
12
Entre espinhos e entre flores,
em seus dias tão cruentos,
é nas mãos dos professores
que desabrocham talentos.
13
Falo sempre, em meu delírio,
que a natura é caprichosa!
Do lodo é que vem o lírio,
e entre espinhos surge a rosa.
14
Meu salário é tão pequeno,
não dá pra nada comprar;
não dá nem para o veneno,
se eu quiser me suicidar!
15
Meu salário,eu nem te conto!
Ele ficou tão em baixa,
que se tiram o "desconto",
fico devendo pro Caixa!
16
Nesta ansiedade aflitiva
procurei-te sem cessar...
Meu coração à deriva,
nem sabe onde procurar.
17
No cristal da fonte brilha
espelho espetacular!
E a lua cheia, andarilha,
vaidosa... vem-se espelhar…
18
O talento é dom latente,
ou melhor, ouro em jazida;
que sobressai, de repente,
entre os cascalhos da vida!
19
Partiste... e a angústia em surdina,
gerando a cumplicidade,
veio morar, clandestina,
no meu plantão de saudade.
20
Que grande dádiva encerra
a mão de Deus, onisciente,
quando acende aqui na terra
a chama do sol nascente.
21
Quero que poupem dinheiro,
comprando apenas um pão!
E passem o pão no cheiro
da panela do Chefão!
22
Triste sorte a do seu Lessa:
casou com loura "branquinha"
e hoje tem chifres à beça!
... E uma filha mulatinha…
23
Tua constante evasiva
fez de mim, ano após ano,
um barco triste, à deriva,
no mar do meu desengano…
24
Tuas mãos, tão delicadas,
sobre a lira, de mansinho,
são pombinhas namoradas
construindo um lindo ninho!

Sérgio Corrêa Miranda Filho (Nova Friburgo/RJ)

1
A glória não mais me acena...
Mas, por amor à ribalta,
eu sou artista que encena,
mesmo se o público falta!…
2
Ao ver, com creme vermelho,
da esposa o rosto emplastado,
teve impressão o Botelho
de que entrou no inferno errado!
3
A vida nada me entrega...
mas quando durmo, a teu lado,
sonho ter o que ela nega
sempre que sonho acordado!!!
4
Carteiro, que se desculpa
por frustrar o meu anseio,
esquece... Tu não tens culpa
se a carta dela não veio!…
5
Celular eu não tolero
desde um pré-pago que eu tinha,
que tocou "Mamãe eu quero..."
no velório da vizinha!
6
Comprovo, num pranto mudo,
após a espera frustrada,
que o depois promete tudo
mas não cumpre quase nada!
7
Depois de um sonho frustrado
que a própria vida desfez,
insiste... volta ao passado
e sonha tudo outra vez!…
8
"Depois", disseste... E apreensivo,
lembrando o amor de nós dois,
hoje eu sinto que só vivo
porque espero esse depois!
9
Depois... muralha inclemente
que insiste em nos separar
do sonho de amor que a gente
não pode ainda alcançar!…
10
Desde o namoro ao casório,
a sogra foi sentinela.
E hoje, enfim, no seu velório,
sou eu quem "segura a vela"!…
11
Envelhecemos... Nós dois...
E hoje é que voltas, por fim...
Não pensei que o teu "depois"
fosse tão depois assim…
12
Falta-me a fé...e, na estrada
onde sigo, não me iludo,
pois não me faltando nada
eu sei que me falta tudo!…
13
Feitos de instantes tristonhos,
se os meus dias são banais,
não é porque faltam sonhos,
mas porque há mágoas demais!…
14
Fico ante a vida calado,
sem pergunta... sem proposta...
- Meu sonho já está cansado
de ouvir 'não" como resposta!
15
Meu sonho, num louco intento,
quis o céu e, em gesto aflito,
prendeu-se à pipa que o vento
despedaçou no infinito!…
16
Na campa do tal rapaz
que no batuque era um bamba,
em vez de pôr: – "Aqui jaz"...
alguém gravou: – "Aqui samba"…
17
Na espera a angústia me invade...
E depois, num devaneio,
vejo chegar a saudade,
trazendo alguém que não veio!…
18
Na festa de caridade,
Zé, com cara de tragédia,
tirando a média de idade,
foi parar na Idade Média!
19
Nas cavalgadas que eu faço
quando a insônia não aceito,
apanho os sonhos a laço
e arrasto o sono a meu leito!…
20
Nas horas de desencanto,
não me falta um bom amigo
que, se não seca o meu pranto,
ao menos, chora comigo!…
21
Num sonho envolto em ternura,
de tua ausência hoje farto,
viajo à tua procura,
sem deixar o nosso quarto!…
22
O candidato: - Em quem votas?
- Em você!, diz, sem engodos...
E explica: - Dos idiotas,
prefiro o maior de todos…
23
O Pacote é bom, Batista?
- Pra mim é, pois dá dinheiro...
- Ah, o amigo é economista?
q Não, senhor... sou pipoqueiro!
24
O Zé segue o enterro... E ao ver
seu rosto, um verme diz, sério:
– Quando esse "troço" morrer,
eu fujo do cemitério!…
25
Piada foi quando o Augusto
entrou no armário, apressado,
e quase morreu de susto
quando alguém disse: - Ocupado!
26
"Procuro amor"... deixo escrito
no meu sonho... mas, quem vê,
se eu ponho este anúncio aflito
num jornal que ninguém lê?!
27
Quando um cão grã-fino olhou
sua cadela, de esguelha,
meu cão pulguento ficou
"com a pulga atrás da orelha"!
28
Se estás num sonho indagando
se te adoro, e eu digo sim,
crê, amor, mesmo sonhando,
no que o sonho diz por mim!
29
Sempre que a vida me assalta,
eu luto com tanto empenho,
que é quando a força me falta
que eu meço a força que tenho!
30
Se o meu sonho vem errado,
acordo... e, insone, bendigo
poder sonhar acordado
um sonho inteiro contigo!…
31
Silêncio!  Dorme a saudade
e acordá-la não convém...
Já é demais a ansiedade
para esperar quem não vem!
32
Tudo alcancei, com ardor...
E, hoje, a mágoa que me assalta
é sentir falta de amor
quando mais nada me falta!…
33
Velório estranho, comadre,
o da sogra do Miranda...
em vez de chamar um padre
ele chamou uma banda!

Sotero Silveira de Souza (Raul Soares/MG, 1957 - 2010)

1
A cruzinha da estrada,
toda enfeitada de flor,
Faz lembrar-me a doce amada,
que morreu por meu amor!
2
Ah! Se Deus me desse sorte,
de escolher onde expirar,
eu quisera ter a morte,
no abismo de teu olhar!
3
A lembrança mais sentida
que trago nos dias meus,
foi o dia de sua partida,
sem dizer-me um só adeus!
4
Alguém diz que de amar tanto,
vai o homem para o inferno;
Há porém o amor santo,
e também o amor materno!
5
Alguém diz que não esquece
na vida o primeiro amor,
É uma chama que aquece,
a alma do sofredor!
6
A mulher é criticada,
pelos lindos dotes seus;
Do demônio não tem nada,
é a obra prima de Deus!
7
A palmeira solitária,
lá no alto da colina,
já a quase centenária,
pois te vi quando menina!
8
A pérola tão luzidia,
que hoje brilha e reluz,
foi a lágrima de maria,
que correu ao pé da cruz!
9
Aquele beijo envolvente,
de lembrança tão querida,
foi o beijo mais ardente,
que roubei na minha vida!
10
A vida é cheia de males,
às vezes é cheia de dor;
Por isso eu peço que cales,
eu sofro mal de amor!
11
Bate o sino na capela,
na tarde serena e calma;
Quando a vejo na janela,
bate o sino da minha alma!
12
Caminhei muitos caminhos,
Por estradas mil passei,
Só achei dores, espinhos,
Até que eu te encontrei!
13
Chegaste na minha vida,
como ave de arribação,
dei-te agasalhos e comida,
só me deste desilusão!
14
Certa vez eu vi um amigo,
que chorou para morrer!
Até hoje eu não consigo,
a sua lágrima entender!
15
Certa vez eu vi um cego,
puxado por um menino;
Eu tive inveja, não nego,
do gesto do pequenino!
16
Deixaste-me por dinheiro,
e trocaste o meu amor,
por um vil aventureiro,
que não tem nenhum valor!
17
Disse o poeta que a saudade,
é espinho cheirando flor;
Eu penso que é crueldade,
a lembrança de um amor!
18
Diz alguém que eu sou culto,
de carreira promissora;
Deve tudo a um vulto,
minha santa professora!
19
Dizem que o amor é um ninho,
macio igual algodão;
Eu creio ser feito de espinho,
e coça igual tinhorão!
20
Dizem que o homem de idade,
volta a fazer criancice,
claro, pois sente saudade,
do tempo da meninice!
21
Dizem que o mel é doce,
e que tem um bom sabor;
Quem dera que ela fosse,
como os lábios do meu amor.
22
Dizem que para se amar,
deve-se ter coração;
Assim não posso explicar,
por que tu me amaste então?
23
Do milionário, triste sina,
saber que ele vai morrer,
pode comprar a medicina,
e nada lhe vai valer!
24
Essa trova tão singela,
que exprime amargor,
foi composta por ela,
que negou-me o seu amor!
25
Esta vida é banal,
a grande verdade encerra;
O homem que é mortal,
é um transeunte na terra!
26
Eu não posso te querer,
pois sou pobre, sem valor,
vou lutar para merecer,
o teu dote, o teu amor!
27
Eu nunca aprendi a nadar,
e jamais eu quis fazê-lo,
só para um dia afogar,
nas ondas do teu cabelo!
28
Eu quero na sepultura,
onde um dia eu repousar,
este dito de ternura:
Voltarei para te buscar!
29
Eu sei que não posso dizer,
o calor que tem seu olhar,
mas sei que pode ferver
todas as águas do mar!
30
Eu sei que vou padecer,
uma tortura tão louca,
mas não me deixes morrer,
sem antes beijar tua boca!
31
Gameleira mutilada,
que faz sombra pelo chão,
vou vingar a machadada,
que lhe deu aquela mão!
32
Garimpei por entre escolhos,
à procura de um tesouro;
Vi diamantes nos teus olhos,
e nos teus cabelos, ouro!
33
Guardo comigo um queixume,
e jamais pude dizê-lo,
quisera ser vagalume,
na noite do seu cabelo!
34
Há homem culto e bronco,
para nós não é segredo;
Um nasceu para ser o tronco,
o outro simples arvoredo!
35
Há muita gente que insiste,
em só reclamar da sorte;
Mas a pior vida que existe,
é bem melhor do que a morte!
36
Irmã gêmea da tristeza,
e talvez, prima do amor,
a saudade é dureza,
e um peito sofredor!
37
Já tive muitos amores,
no curso da minha vida,
são estes os meus valores,
que levo para outra vida!
38
Meu amor, a minha vida
está toda condenada;
Sou a triste ilusão perdida,
um vulto só, e mais nada!
39
Meu laço de fita verde,
de tão velho desbotou,
esperando na parede,
um amor que não voltou!
40
Meu querido arvoredo,
meu destino agora é seu,
você sabe o meu segredo,
foi aqui que aconteceu!
41
Minha mãe, quando nasci,
contemplou-me a chorar,
desde então sempre segui,
o fulgor daquele olhar!
42
Muito eu já tenho rogado,
se não lhe desse desgosto,
eu quisera ser enterrado,
na covinha do teu rosto!
43
Não permita o meu fado,
que eu morra de solidão,
deixe que eu seja enterrado,
dentro do teu coração!
44
Não sei dizer o que sinto,
quando beijo aos lábios teus;
Para mim, juro, não minto,
é a maior graça de deus!
45
Não sei porque tu me olhaste,
se eu não posso te amar;
Por acaso já pensaste,
como fere o teu olhar?
46
Na vida há muita gente,
que nos sorri de alegria;
Por dentro é diferente,
é tudo hipocrisia!
47
Nem sempre a rara beleza,
felicidade irradia;
Carinho e delicadeza,
é que nos traz simpatia!
48
Nesta vida muita gente,
sofre muito por amar,
minha dor é diferente,
eu só quero te deixar!
49
O homem que tem juízo,
e bondoso de coração,
responde com um sorriso,
as afrontes que lhe dão!
50
O homem vive em carreira,
numa luta insofrida;
Tudo! De qualquer maneira,
chegará ao fim da vida!
51
Olhai as aves do céu,
não plantam, não sabem ler,
vivem felizes ao léu,
e deus lhes dá o que comer!
52
O olhar que tem mais brilho,
e penetra mais profundo,
é o olhar da mãe pro filho,
quando este vem ao mundo!
53
O ser mais rico que existe,
aqui na face da terra,
a sua riqueza consiste,
em sete palmos de terra!
54
Os lírios níveos do mato,
que vicejam na solidão,
tem muito mais aparato,
que as vestes de Salomão!
55
Os prazeres indizíveis,
que adornam o meu passado,
são dias inesquecíveis,
que vivi, só a teu lado!
56
Por ambição eu deixei,
minha mãe, anjo de luz;
Hoje, saudoso voltei,
e só encontrei sua cruz!
57
Por que choras passarinho,
à hora do pôr-do-sol?
Eu também estou sozinho,
ó meu triste rouxinol!
58
Quando eu não mais existir,
e talvez só cinzas for,
creio que alguém há de sentir,
saudades do trovador!
59
Quando miro nos teus olhos,
às vezes fico pensando,
se olho verdes abrolhos,
ou se eles estão me olhando!
60
Quando vejo um beija-flor,
nas roseiras do jardim,
corro e beijo o meu amor,
que também perfuma assim!
61
Quisera com emoção,
feliz, carregar-te em dia
na palma da minha mão,
onde teu nome inicia!
62
Quisera ser passarinho,
para voar na amplidão,
e depois, pousar de mansinho,
na palma de tua mão!
63
Relógio da minha vida,
por que disparas assim?
Para que tanta corrida,
se tem que chegar ao fim?!
64
Saudade levo comigo,
contigo deixo também,
a saudade é o inimigo,
mais cruel que a gente tem!
65
Se eu parar de fazer trova,
por faltar inspiração,
quero do doutor a prova,
que morri foi de paixão!
66
Sem pensar e sem maldade,
eu esbanjei gastando à bessa,
um tesouro, a mocidade,
que acabou-se tão depressa!
67
Se o mundo fosse um canteiro,
e você fosse uma rosa,
eu queria ser jardineiro,
para beijá-la, cheirosa!
68
Se pudesse o meu destino,
conceder-me uma esmola,
eu quisera ser um menino,
pra voltar à minha escola!
69
Se quiseres ver ao certo,
um oásis de bonança,
observe bem de perto,
os olhos de uma criança!
70
Se você ver a alvorada,
quando vai romper o dia,
é uma sombra desbotada,
da beleza de Maria!
71
Sofro muito e me consolo,
porque tenho esperança,
de deitar-me no teu colo,
e dormir igual criança!
72
Teve a boa mãe natureza,
com você carinho e gosto;
Deu-lhe uma rara beleza,
e linda pinta no rosto!
73
Tenho sido humilhado
muita dor meu peito encerra;
Bem diz o velho ditado;
ninguém é rei em sua terra!
74
Tinha tudo e me casei,
minha mãe ficou chorando,
até hoje não encontrei,
o que estava procurando!
75
Todos tem o seu destino,
até o rio que corre,
mas o pobre peregrino,
só no dia em que ele morre!
76
Trouxe saudade, desgosto,
da terra onde nasci,
mas sepultei-as em teu rosto,
tão logo, te conheci!
77
Uma coisa neste mundo
que o meu coração palpita,
é dormir sono profundo,
no colo de moça bonita!
78
Vim para matar saudade,
consolar meu coração,
hoje volto pra cidade,
mais pesado de paixão!
79
Vou lhe dar o seu presente,
é tão lindo e delicado,
feito de couro reluzente,
um rico anel de noivado!

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...