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sábado, 12 de setembro de 2026

J. G. de Araújo Jorge (Quatro Damas)


 SONETINHO 

Não tenho jeito pra trova
apesar das que já fiz,
a quadra lembra uma cova
com a cruz dos versos em x...

Ainda estou vivo e feliz
e do que digo dou prova:
- tentei cantar numa trova,
e meu amor pediu bis.

Bem sei que é meu o defeito
mas uma trova é tão, pouco
que ao meu cantar não dá jeito

Só mesmo um poema é capaz
de conter o amor demais
que trago dentro do peito.
= = = = = = = = = = = = = =  

SORRIO...

Ah! vieste me falar de antigamente
desse tempo em que fui sentimental,
quando o amor era um sonho puro e ardente
vestido em véu de espumas, nupcial...

Quando me dava, perdulariamente,
vivendo o mal sem conhecer o mal,
a levar a alma inquieta de quem sente
e de quem busca uma conquista ideal...

Era sestro da idade essa existência...
Sinal de pouca vida e muito sonho,
de muito sonho... e pouca experiência...

Hoje, no entanto, se a pensar me ponho:
- sorrio... Um vão sorriso de indulgência...
...Sinal de muita vida... e pouco sonho…
= = = = = = = = = = = = = =  

SORTE... 

Está aí, amor, uma coisa que às vezes me pergunto,
(naqueles dias de silenciosa ternura
naqueles momentos sem assunto,)
- uma coisa tola que eu penso
e que você não advinha:

- como podem os outros homens ser felizes,
se Você é uma só...
... e se Você é só minha ?…
= = = = = = = = = = = = = =  

TEMPO PERDIDO 

Quanto tempo perdido, e como dói
pensar que nunca mais o reaveremos...
Vivemos longe um do outro, como extremos,
que o tempo, - um moinho - lentamente mói...

Quanto tempo perdido... Eu, já mudado,
sem aquele entusiasmo, aquelas ânsias
que ficaram perdidas no passado
e se vão diluindo nas distâncias...

Tu, sem aquela expressão ingênua e pura
aquela ar de menina, que pedia
proteção para um sonho de ventura
que seu olhar inquieto refletia...

Tanto tempo perdido... E houve um momento
quando nos vimos a primeira vez,
que o amor seria belo, como o vento
como o mar, como a terra, o sol, talvez !
= = = = = = = = = = = = = =  

TEMPOS... 

I
E dizer
que eu não podia passar um segundo sequer
sem saber onde estavas...

Hoje,
nem sei se existes...

II
Houve um tempo, em que eras
o Presente, o Mais-que-Perfeito
o Infinitivo...

Hoje...
nem és Passado…
= = = = = = = = = = = = = =  

TEREZINHA 

Terezinha
Terezinha,
que não é de Jesus
nem será minha...

De quem será?
De quem será?
Que inveja eu sinto
de alguém que está
não sei bem onde,
de alguém que um dia
certo virá
e levará
a Terezinha

É a Padroeira
de antigo sonho
que em minha alma
em vão se aninha...

Terezinha
Terezinha,
que não é de Jesus
nem será minha…
= = = = = = = = = = = = = =  

TEUS CABELOS 

Estamos quietos amor, em bonança
esquecidos de nós
viajando por nós mesmos, sem nós mesmos...

Distraída e imprevidente
te recostas em meu peito
e estás leve e alheia como uma criança sem sono.

De repente, minha mão encontra teus cabelos
e como estranha aranha se esconde em tua nuca,
e meus dedos se entranham e se emaranham
como raízes profundas, silenciosas.

São teus cabelos, sim,
não posso mais tocá-los...

Tem estranhos eflúvios que me fazem estremecer
até o fundo de mim mesmo,
e... já não me reconheço...

Tua cabeça em minha mão 
acende-se como uma tocha loura,
e olhos em teus olhos as chamas que ardem, sopradas
por que misteriosos ventos?

Gosto de encher as mãos com os teus cabelos,
como um lavrador, a recolher, feliz,
as louras messes de uma farta colheita.

Ah, teus cabelos, amor,
são um incalculável tesouro...

Quero morrer sempre e cada vez mais
como um rei Midas afogado em ouro
perdido neles, como em mar de sonhos...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
J. G. de Araújo Jorge (1914 – 1987)
JOSÉ GUILHERME DE ARAÚJO JORGE, imortalizado na literatura como J. G. de Araújo Jorge, foi um influente poeta, escritor, jornalista e político brasileiro. Nascido em Tarauacá, no Acre, em 1914, faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 1987, aos 72 anos. Conhecido carinhosamente como o "Poeta do Povo e da Mocidade", ele equilibrou ao longo da vida o lirismo romântico e o forte engajamento social. Em Rio Branco (AC) viveu toda a sua infância, realizando os estudos primários. Mudou-se na juventude para o Rio de Janeiro para dar continuidade aos estudos secundários e superiores. Permaneceu radicado no Rio de Janeiro (antigo Distrito Federal e Estado da Guanabara) durante a maior parte de sua vida adulta e profissional. J. G. teve uma atuação profissional multifacetada e dinâmica Atuou como jornalista, publicitário, locutor e redator em importantes emissoras da era de ouro do rádio, como a Rádio Nacional, Rádio Tupi, Cruzeiro do Sul e Eldorado. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ). Dotado de forte vocação pública, elegeu-se Deputado Federal em 1970 pelo antigo Estado da Guanabara. Exerceu três mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, onde chegou a ocupar a presidência da Comissão de Comunicação e a vice-liderança do partido de oposição à época (MDB).
Sua trajetória literária começou excepcionalmente cedo. Ainda estudante do tradicional Colégio Pedro II, foi eleito o "Príncipe dos Poetas" da instituição em 1932, sendo saudado pessoalmente pelo escritor Coelho Neto. Sua escrita se consolidou por meio de uma linguagem simples, fluida, musical e profundamente voltada aos sentimentos populares e às angústias sociais de sua época. Foi fundador e presidente da Academia de Letras do Internato Pedro II e fundador e primeiro presidente da Academia de Letras da Universidade. Foi também um dos grandes articuladores e fundadores da União Brasileira de Trovadores (UBT) ao lado de Luiz Otávio, consolidando o movimento da trova no país. Logo na estreia, seu primeiro livro recebeu uma prestigiosa Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras (ABL). Durante seus anos de estudante na Europa, recebeu o título de "Estudante Honorário" da renomada Universidade de Coimbra, em Portugal.
Autor de uma obra vasta com mais de 30 títulos publicados, destacam-se: Meu Céu Interior (1934) – Obra de estreia poética ; Bazar de Ritmos (1935); Cântico dos Cânticos (1937); Amo! (1938); Cântico do Homem Prisioneiro (1941); Os Versos Que Te Dou (1949) – Um de seus maiores sucessos de público; etc.
J. G. de Araújo Jorge ocupa um lugar singular na literatura brasileira como o poeta do afeto e da acessibilidade. Embora muitas vezes combatido ou preterido pela crítica modernista mais rígida devido ao seu estilo assumidamente neorromântico, ele alcançou um feito raro: uma imensa e duradoura popularidade com o povo. Seus poemas e trovas eram amplamente recitados por jovens, apaixonados e estudantes de norte a sul do Brasil. Ao unir o lirismo romântico à poesia de protesto social e político, ele provou que o fazer poético não precisava ficar restrito aos círculos acadêmicos fechados. Sua contribuição fundamental ajudou a estruturar e eternizar a trova como um patrimônio cultural vibrante e democrático na Língua Portuguesa.

Fonte:
J. G. de Araujo Jorge. Quatro Damas. 1. ed. 1964.

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