Trovadores em Ordem Alfabética

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Alvitres do Professor Renato Alves* n. 116

“A poesia está guardada nas palavras” – dizia o grande poeta da simplicidade, Manoel de Barros*. Da mesma forma, penso que uma árvore que dá origem a um instrumento musical, também já deve guardarem si seu nobre destino.

Conheci, no Rio de Janeiro, um “luthier”* que fabricava alaúdes e outros instrumentos para música antiga. Costumava embrenhar-se em matas densas, no Sul do país, para escolher pessoalmente as árvores que poderiam servir de matéria prima para o seu mister*. Igualmente, nos arcos de violino, ele utilizava crina de cavalo importada de regiões frias, como o Canadá, para a maior qualidade do som.

Muitas vezes, a trova, um poema minúsculo em seu formato, pode conter alguns tesouros ligados a vários aspectos do conhecimento humano que muitos enriquecem os achados poéticos. Vejamos:

Toma a árvore… Eis o impasse!
(Quão singular seu destino):
seu corpo, ao morrer, renasce
no corpo de um violino.
(Marília Oliveira, Porto Alegre/RS)

Arco de crina, o destino
nunca me fez a vontade,
tira do meu violino
uma canção de saudade!
(Max Reis, Belém/PA)
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* Notas do Blog:
Manoel de Barros = Manoel Wenceslau Leite de Barros foi um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao pós-Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas europeias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Nasceu em Cuiabá/MT, 1916 e faleceu em Campo Grande/MS, 2014.

"Luthier" = é um artesão especializado na fabricação, restauração e reparo de instrumentos musicais de corda (como violões, violinos, violoncelos, guitarras) e, por vezes, outros instrumentos (como de sopro ou percussão). A palavra vem do francês "luth", que significa alaúde, e o trabalho exige habilidade técnica, artística e conhecimento em marcenaria e acústica.

Mister = Trabalho, ocupação profissional ou ofício.

Renato Alves = é do Rio de Janeiro/RJ. Professor, trovador e poeta. Licenciado em Letras pela UFRJ, dedicou-se ao magistério nas redes pública e privada  até 2005, quando se aposentou.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Baú de Trovas 45



Ah, poeta, como é lindo
teu trabalho, e quão fecundo...
– Noite e dia produzindo
sonhos novos para o mundo!
A. A. de Assis
Maringá/PR
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Almoço e janto poesia.
E neste meu universo,
mastigo um pão todo dia
amanteigado de verso.
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN
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Que bom. chegando aos setenta,
saber, revendo os meus passos.
que é o bom DEUS que me sustenta
e me carrega em SEUS braços...
Almir Pinto de Azevedo
Cambuci/RJ
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Rompem-se os elos na terra,
(conteste quem for capaz).
No lugar de luta e guerra
nascerão lírios da paz!
Augusto Gasparini Filho
Salto/SP
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Amor de mulher no todo
é um anjo posto de rastros;
desce mais baixo que o lodo
ou sobe acima dos astros.
Colombina
São Paulo/SP, 1882 – 1963
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Numa página, a saudade;
no verso - não tem escolha -
quase sempre a mocidade
faz parte da mesma folha!...
Domitilla Borges Beltrame
Araxá/MG, 1932 – 2025, São Paulo/SP
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Minha sogra não reclama
do bom trato que lhe dou;
até de filho me chama,
só não diz que filho eu sou.
Élton Carvalho
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1994
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O poeta é a eterna criança
correndo atrás da ilusão,
que lhe foge, e ele não cansa
de tanto correr em vão!
Emiliano Perneta
Curitiba/PR, 1866 – 1921
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Morreu depois de uma sova,
e, como não tinha campa,
de uma orelha fez a cova
e da outra fez a tampa.
Emílio de Meneses
Curitiba/PR, 1816– 1918
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"Casamento... - alguém já disse -
é chegar à encruzilhada
onde acaba a criancice
e começa...a criançada..."
Izo Goldman
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP
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Sou da ética inimigo,
imoral na sociedade
se na mentira me abrigo
e silencio a verdade.
Jessé Nascimento
Angra dos Reis/RJ
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Surpreendente maravilha
a que agora me acontece:
Minha mãe é minha filha
na medida em que envelhece!
Jesy Barbosa
Campos/RJ, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ
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Fonte de sabedoria
que o mundo inteiro conhece,
a trova é a luz da poesia...
É a mais linda e doce prece!
Joamir Medeiros
Natal/RN
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Na insistência do carinho
de um amor que é quase incerto,
vou traçando o meu caminho
nas areias de um deserto!
Joana D'Arc da Veiga
Nova Friburgo/RJ
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No fim do túnel a luz
simboliza uma esperança;
quem a seu brilho conduz
a vitória sempre alcança.
João Batista Xavier Oliveira
Presidente Alves/SP, 1947 – 2025, Bauru/SP
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Ante o vazio que a invade,
eu penso, em meus devaneios,
que a praça sente saudade
também dos nossos passeios...
João Costa
Saquarema/RJ
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Toda noite ela regressa
em meus sonhos erradios…
Não há distância que a impeça
de estar… em meus desvarios...
João Freire Filho
Rio de Janeiro/RJ, 1941 – 2012
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Minha ventura retrata
pobre brinquedo distante;
- carrinho de velha lata,
puxado por um barbante!
Josué de Vargas Ferreira
Leopoldina/MG, 1925 - 2017, Ribeirão Preto/SP
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Cessa a luta na colina...
E Deus, ante o horror da guerra,
põe o algodão da neblina
sobre as feridas da terra.
Joubert de Araújo Silva
Cachoeiro de Itapemirim/ES, 1915 - 1993, Rio de Janeiro/RJ
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Morre o amor... E, em árduas cenas,
toda a herança que eu carrego
é a dor de ter sido apenas
um descuido do meu ego!
Manoel Cavalcante
Pau dos Ferros/RN
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Que a lei com todo o seu porte,
seja um escudo do bem...
E que a justiça do forte,
seja a do fraco também!
Mara Melinni
Caicó/RN
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Não vamos alongar prosa,
porque todo mundo vê:
a careca mais gostosa
é a careca do bebê.
Márcia Jaber
Juiz de Fora/MG
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Não te abras com teu amigo,
que ele um outro amigo tem,
e o amigo do teu amigo
possui amigos também...
Mário Quintana
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS
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Nos momentos de emoção,
quebro as regras que me imponho
e deixo que o coração
viaje ao mundo do sonho.
Marisa Vieira Olivaes
Porto Alegre/RS
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Mesmo que um poeta morra,
ele deixa a sua herança:
um verso seu que socorra
quem já perdeu a esperança!
Plácido Ferreira do Amaral Jr.
Caicó/RN
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Pelas manhãs vou buscando
minha esperança perdida...
Há sempre um sonho vagando
nas alvoradas da vida!
Professor Garcia
Caicó/RN
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Acendo estrelas do nada
com meu condão de magia,
derramo luzes na estrada
com o farol da poesia.
Raul Poli
Coronel Pilar/RS, 1946 – 2004, Caxias do Sul/RS
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A tristeza em minha casa
está num quarto vazio:
de dia. a saudade abrasa,
à noite, mata de frio...
Roberto Pinheiro Acruche
Sâo Francisco de itabapoana/RJ
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Mesmo quando se fracassa
e a vida é um mar de incerteza,
a esperança, embora escassa,
é sempre uma vela acesa!
Roberto Resende Vilela
Pouso Alegre/MG
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Tabagista de pijama,
distraído e matusquela...
Jogou "pituca" na cama
e se atirou da janela!
Roberto Tchepelentyky
São Paulo/SP
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Nosso encontro... o beijo a medo…
a carícia fugidia…
- Nosso amor era segredo,
mas, todo mundo sabia!…
Rodolpho Abbud
Nova Friburgo/RJ, 1926 – 2013
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Fim do meu rumo... Eu grisalho...
Dos netos, entre os carinhos,
pareço um velho espantalho
cercado de passarinhos!
Romeu Gonçalves da Silva
Juiz de Fora/MG, 1914 – 1984, Rio de Janeiro/RJ
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A atitude petulante
que eu lia na sua face
foi de fato relevante...
Destruiu nosso enlace!
Sá de Carvalho
Angra dos Reis/RJ
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Detalhes, quantos e quantos,
vão nossas vidas marcando.
Mas nenhum, em meio a tantos,
dói mais que um lenço acenando...
Sandro Pereira Rebel
Niterói/RJ
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Meu palhacinho de pano,
quantas vezes te surrei!
Hoje a vida e o desengano
dão-me as surras que eu te dei!
Sarah Mariany Kanter
São Paulo/SP
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Quando uma vida se passa
sem virtudes... sem pecados...
é como festa sem graça,
vazia de convidados!
Sebas Sundfeld
Pirassununga/SP, 1924 – 2015, Tambaú/SP
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De filigranas bordadas,
brilham no céu as estrelas
como joias lapidadas,
que o luar vem acendê-las.
Sônia Maria Sobreira da Silva
Rio de Janeiro/RJ
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Foi para o campo o migrante,
sonhador, plantou, colheu...
E agora é parte integrante
daquele chão que o acolheu,
Sônia Regina Rocha Rodrigues
Santos/SP
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Não sei se tenho alegria
ou se tenho um desprazer,
mas minha alma se arrepia,
à noite, ao escurecer.
Talita Batista
Campos dos Goytacazes/RJ
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Rica e doce língua minha
feita de arrulhos e brados,
és mãe, fadista e rainha
cuja voz canta meus fados!
Telma Tavares
São Simão/SP
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É noite... a cama arrumada...
o rádio de pilha mudo...
Sua foto... e, nesse "nada",
a sua presença... em tudo!
Therezinha Dieguez Brisolla
São Paulo/SP
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São três os símbolos santos
de um drama sem paralelo,
molhados de sangue e prantos:
a Cruz, o Cravo e o Martelo...
Vera Vargas
Curitiba/PR, 1922 - 2000
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Euforia, minha gente,
faz inveja ao coração,
pois sempre que alguém a sente,
vem logo a desilusão.
Verlaine Terres
Gravataí/RS

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...