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segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Lairton Trovão de Andrade (Pinhalão/PR)


01.
Destrua a melancolia,
pois a vida se renova!
Contra a tristeza, Maria,
beba chazinho de trova!

02.
O plagiário é caricato
que no mundo se repete;
é escritor co'a mão do gato
e pintor que pinta o sete.

03.
Ninguém é tão educado
como o fino do Joaquim;
nas lojas, mesmo calado,
saúda até manequim.

04.
Só de ver a sucuri,
adoentou-se a saracura;
com licor de licuri*
nada sara, nada cura.
= = = = = = = = = 
* licuri = coquinho
= = = = = = = = = 

05.
Diz a crença popular:
Não há coisa que enlouqueça
mais que a boca a relinchar
de uma mula-sem-cabeça!

06.
O pobre incauto eleitor
feliz ficou na procura;
diz que o voto é do doutor
que lhe deu uma dentadura.

07.
O símio, bem natural,
exclama ao réptil, de pé:
"Oh, que boquinha sensual
tem o amigo jacaré!"

08.
- Masculino ou feminino?
Perguntou o frei José;
– “Marculino ou Felisbino
não, não! É Zé que o pai qué"!

09.
No velório do riquinho,
há, no íntimo, festança;
"Choro, sim, por meu padrinho,
(mas que venha logo a herança)".

10.
Aquele gato é baiano,
assim nos diz o Lalau;
ouça o miado do bichano:
"Me-au, me-au, me-au, meau"!

11.
É, na Internet, o namoro
paixão que "dá choque"... e muito;
A cada abraço - um suadouro...
e ao beijar - curto-circuito!

12.
Foi assim que aconteceu
entre meu tio e o Mansur;
– Você, meu filho, é ateu?!
- Não, senhor, eu sou Artur!

13.
Era boa caipirinha
de esquentar qualquer "moringa"*.
- O que de bom é que tinha?
- "Açúcar, limão e pinga".
= = = = = = = = = 
* Moringa: Orelha, ouvido (regionalismo).
= = = = = = = = = 

14..
Depois de muito ovo por,
a angola* aguça a matraca
e, festejando com suor,
canta: "tô fraca, tô fraca"!
= = = = = = = = = 
*Angola: Galinha d'angola.
= = = = = = = = = 

15.
Quanta gente cuja obra
é cheia de desatino!
- Tem no cérebro, de sobra,
o que é próprio do intestino.

16.
O cravo brigou co'a rosa,
a rosa despetalou-se;
chora a rosa escandalosa;
- Minha corola encravou-se!

17.
Gosta muito de "pregar"
a mulher do seu Mané;
repete "né", sem parar...
e, no fim, diz "né, né, né".

18.
Neste Brasil brasileiro,
lê-se coisas de arrepiar;
num comércio está o letreiro:
"Volto já, fui ao mossar".

19.
Quão exímia pensadora
é a coruja que se cala;
é tão nobre esta doutora,
que besteira nunca fala.

20.
Para o torcedor fanático,
jogador profissional
é um exemplo claro e prático
de mercenário ideal.

21.
O velhote tagarela,
sozinho em sua viuvez,
propaga muita balela
de mil feitos que não fez.

22.
Às vezes, nem tudo passa
como nem tudo se pode;
nos dias de grande arruaça
pode dar cabra ou dar bode.

23.
- Sou honesto no meu bar,
nada de interrogatório!
De vocês, só vou cobrar
a bebida e o "conversório"!

24.
Pergunta-se, volta e meia,
para quem pouco estudou;
- “Quem deixou a Lua cheia?"
- “Foi o Sol que a engravidou!”

25.
Aquele curvo nariz
é coisa descomunal;
escorre qual chafariz
e, ao assoar, é um temporal.

26.
- Minha cara, dá-me a mão!
É por ti que vivo e morro!
Dá-me afeto, sim, do cão,
não, porém, de um cão cachorro.

27.
Tal paixão te custou caro,
com a mais cega insistência;
esta "coisa", não tão raro,
leva otário pra falência.

28.
Se em toda Literatura
a obra fosse de algum crítico,
carecia sepultura
pra enterrar livro raquítico.

Fonte> Lairton Trovão de Andrade. Perene alvorecer. 2016. Livro enviado pelo autor.

domingo, 24 de agosto de 2025

Neide Rocha Portugal (Bandeirantes/PR)

1
A carranca, na janela,
tanto medo produzia,
que ao passar em frente dela
o diabo se benzia...!
2
A família, com seus “trancos”,
às vezes não é perfeita...
Mas aplainando os “barrancos”
com jeitinho ela se ajeita!...
3
- A fechadura enguiçou!
Grita o bêbado na rua;
Quando um vizinho alertou:
- Esta casa não é sua!...
4
A glória, em nenhum momento,
vale pela caminhada
de quem, sem discernimento,
pisa os fracos pela estrada!
5
A mulher, em vigilância,
põe o “gajo” no porão,
pois conhece, na distância,
o ronco do caminhão!...
6
Ante a decisão errada
de um momento, em desatino,
a resposta não pensada
altera qualquer destino!
7
Ante a dor e a nostalgia
surge a luz... e, de repente
parece que um novo dia
surge na vida da gente!
8
Ao ler “FECHADO POR LUTO”
o bebum se envaideceu:
- eu bebi todo o “produto”...
e o boteco é que morreu!
9
A primavera dá cores
e o destino me dá tranco,
por isso é que as minhas flores
são todas em preto e branco!...
10
Até o destino chorou
ao ver tantos embaraços
que depressa colocou
você de novo em meus braços!!
11
A velha revirou tudo,
mas no escuro ela não via
que atrás do criado-mudo
a dentadura... sorria!!!
12
A vida parece um rio
neste universo sem fim;
quanto mais me distancio
mais eu me afasto de mim!
13
Caminho em qualquer estrada,
atento aos princípios meus:
- nem sempre aquilo que agrada,
agrada aos olhos de Deus!...
14
Causa tristeza maior,
ante o muito que se almeja,
quando a surpresa é menor
que aquilo que se deseja!
15
Caxias, em luta armada,
mostra que ao pacificar,
quem quer a paz esperada
precisa saber lutar!...
16
Contemplando, ao fim da vida,
só lembranças... nada mais,
a minha alma, entristecida,
ronda sempre o mesmo cais!
17
- Dei um suspiro, mais nada!
Mas o filhinho, matreiro,
pergunta, dando risada:
- Mamãe, suspiro tem cheiro???
18
Dilemas, frases mesquinhas,
melhor que acabem de vez,
se existem duas rainhas
no teu jogo de xadrez!...
19
Diz o doutor, sem mancada:
- Tire a blusa de veludo.
E a velha bem assanhada:
- Não é melhor tirar tudo?
20
Em conversa, me dizia,
Zé Fernandes, o Doutor,
que o sonho que mais queria
era ser um trovador!
21
Em nosso mundo restrito,
a liberdade é criança
que ergue os pés para o infinito
mas o braço não alcança!!!
22
Entre o barro e o pó da estrada
das lavouras de onde eu venho,
minha herança, na jornada,
são esses calos que eu tenho!
23
Esperança é um galho torto
numa floresta esquecida:
por fora, parece morto;
por dentro, cheio de vida!
24
- Fazer prédio? Desperdício!
Diz o caipira a sorrir:
- Se embaixo diz “Edifício”,
como é que se vai subir?
25
Foi tão falso o teu apreço,
que no instante em que fui tua,
esqueceste o endereço,
o meu nome... e a minha rua!
26
Lá no asilo começaram
a briga, e nas “bofetadas”,
os velhinhos acordaram
de dentaduras...trocadas!
27
Lutando em busca de espaço,
naqueles tempos de outrora,
era menor o cansaço
do que o cansaço de agora!
28
Mantendo a calma, na espera
pelo teu amor eterno,
minha vida é primavera
que nem se lembra do inverno!
29
Meus filhos, que eu não renego,
mesmo que os dias feneçam,
são primaveras que eu rego,
para que sempre floresçam!
30
Não bastam as mãos erguidas
pedindo paz e união:
- as distâncias são vencidas
quando a ponte é o coração.
31
Não chore e nem perca a calma,
querendo um rosto perfeito;
quem traz a meiguice na alma,
não mostra nenhum defeito!...
32
Não entendo olhares falsos
que desviam, nos caminhos,
quando encontram pés descalços...
sangrando sobre os espinhos!
33
Não faça de um nó no peito
motivo de pessimismo:
- é graças a um nó bem feito
que se transpõe um abismo!
34
Não há paixão que descarte
a despedida sem mágoas:
todo veleiro que parte,
deixa um rastro sobre as águas!
35
Não me assuste se eu te assusto,
que dois sustos assustados,
vão provocar grande susto
em dois sustos desmaiados!
36
Não me peças esperanças
Perdidas em vendavais,
se eu não posso ter lembranças
do que eu já nem lembro mais!
37
Não me prendo à realidade
mais por questão de direito:
- quem chega na minha idade
já fez tudo... e fez bem feito!...
38
Não sou artista, sequer,
nem tenho vida notória,
mas o teu corpo, mulher,
eu esculpo na memória!
39
Nas madrugadas de frio,
o circo deixa a cidade...
E, no terreno vazio,
Sobram restos de saudade!...
40
No casório da vizinha,
uma invejosa insinua:
- quem nasceu pra ser galinha,
nunca chega a ser perua!
41
No Norte, o povo valente
pede a chuva em oração
para que brote a semente
e que nunca falte o pão!
42
No velho sonho dourado,
a liberdade é ilusão:
- seja qual for o reinado,
quem manda é sempre o leão!
43
O caixão do aposentado
era curto, e ele, comprido:
na vida... foi “apertado”
na morte... foi “espremido”!
44
O rio passa...arrebenta,
causando estragos, desgostos,
e, quando passa a tormenta,
brotam riachos... nos rostos.
45
Os agrados de verdade
que você me prometeu,
me fazem sentir saudade
do que não aconteceu!...
46
O tempo, em suas mensagens,
poliu tanto o camafeu,
que eu não sei, nestas imagens,
quem é você...quem sou eu!
47
- O teu ovo... não repico!
Diz a galinha peteca.
- Menor que o do tico-tico
e dentro não tem meleca!
48
O velho mar sente o cheiro
e redobra o seu carinho
ao perceber que o cargueiro
está transportando vinho!
49
O vinho, em nosso passado,
por mais tinto que ele fosse,
em nosso beijo, molhado,
não era tinto... era doce!
50
Para rever quem ficou,
voltei à mesma janela.
E o tempo, que em mim passou,
nem tocou no rosto dela!...
51
Pelo mapa, ninguém nega,
e ao medir os seus assombros,
vê que o gaúcho carrega
todo o Brasil em seus ombros!...
52
Quando a sogra sente dor,
o genro bem “solidário”,
nunca lhe traz o doutor,
traz sempre o veterinário!
53
Quando a vida não descora
a identidade dos brilhos,
o nosso brilho de outrora
se reflete em nossos filhos.
54
Quando penso estar partindo
por estar velho e sozinho,
o tempo vai permitindo
que eu viva mais um pouquinho!...
55
Quanta energia perdida
ao longo de uma jornada,
de quem passou pela vida,
teve tempo... e não fez nada!
56
- Quanto custa a dentadura?
- Eu cobro vinte por dente.
E a velhinha, na “pindura”:
- Então põe só os da frente!...
57
Quem vive igual “parafuso”
só no “aperto”, vive em pânico:
de oficina, não faz uso...
e desvia de mecânico!!!
58
Se agora vivo sozinho
carrego a culpa, fui falho,
ao trocar o bom caminho
pela ilusão de um atalho!...
59
Sem ver o pão sobre a mesa,
eu não reclamo, porque,
em meio a tanta pobreza,
minha fortuna é você!...
60
Silêncio nas madrugadas...
e enquanto adormece a flor,
brotam searas molhadas
dos nossos beijos de amor!
61
Sinto, aos apelos em vão,
quando minha mão acena,
que aos homens falta visão...
ou minha mão é pequena!
62
Solidão, cerveja quente
e espera de quem não vem...
somente quem prova... sente
o gosto amargo que tem!
63
Sorrateiro... sem fumaça,
arrasador, inclemente,
é aquele fogo que passa...
- Queimando os sonhos da gente!
64
Teu adeus foi muito grave,
mas o destino conforta:
perdeste a cópia da chave
e voltaste à mesma porta!...
65
Tua cantiga de amor
adormece em tempos idos,
mas o vento, a meu favor,
vem soprá-la em meus ouvidos!
66
Vem Trovador, vem correndo
ao meu Paraná, porquê,
o Pinheiro está morrendo...
-De saudades de você!

Adalberto Dutra Rezende (Cataguazes/MG, 1913 – 1999, Bandeirantes/PR)

1
A esperança sempre tem
um jeitinho enganador:
é tão verde quando vem,
depois vai mudando a cor...
2
A missão será cumprida,
quer tu acertes ou falhes;
Deus traça as linhas da vida,
e o destino, seus detalhes...
3
Ao céu eu faço, baixinho,
um pedido, o dia inteiro:
que seja sempre vizinho
do meu o teu travesseiro…
4
Ao chegar a abolição,
que surgiu com falso enleio,
foi se embora a escravidão
e a liberdade não veio!
5
Ao julgardes os humildes,
não o façais com rigor,
porque estais sendo julgado
ante os olhos do Senhor.
6
Aquele sonho secreto,
que minha alma acalentou,
foi seu brinquedo dileto
e o meu destino o quebrou!
7
As curvas e encruzilhadas
quantas mudanças contém,
modificando as estradas
e os transeuntes também!...
8
A uma alegria alcançada
vem a tristeza, em seguida...
Estrada toda manchada
de sombra e luz - nossa vida!
9
A vida é ponte comprida
por onde nós caminhamos…
pouco a pouco é destruída
à medida que passamos!
10
Como a sombra é muita gente
que, em horas boas ou más,
ou nos vai fugindo à frente
ou nos vem seguindo atrás.
11
Conta-me histórias, às pressas,
a esperança e eu fico a ouvi-las...
e, contando-as, faz promessas
sem intenção de cumpri-las!
12
De tédio o rio enlouquece
na solidão das quebradas...
e a cachoeira parece
ser as suas gargalhadas.
13
Era a minha fantasia
toda verde, sem mudança,
quando a saudade vestia
a roupagem da esperança!…
14
Esperança – voam aves…
Galhos, cascas flutuando…
Colombo comanda as naves
cheias de nautas cantando.
15
Medita o velho tristonho
e, em monólogo, baixinho,
parece chamar um sonho
que se perdeu no caminho...
16
Minha vida transcorreu
em tão louca disparada,
que o poente apareceu
e era, ainda, madrugada!...
17
Muitos metais que há na terra
teriam grandes destinos
se, ao invés de canhões de guerra,
tomassem forma de sinos.
18
Na infância eu ia cantando
uma canção terna e amiga,
mas a vida foi mudando
toda a letra da cantiga!...
19
Não passa o tempo, ao contrário,
todo passado é presente:
se passa no calendário,
não passa dentro da gente.
20
Nossos destinos evitam
nos unir, pelas estradas,
e os meus passos se limitam
a seguir tuas pegadas...
21
O que faz triste uma ausência
é a brevidade da vida,
por isso é curta a existência
para conter despedida.
22
O tempo vai se arrastando...
o seu pêndulo balança
e a gente vai se agarrando
em pedaços de esperança!...
23
Por uma falta de senso
eu a deixei... que tolice!
E o nosso amor era imenso
- foi a saudade quem disse...
24
Primeiro amor... era inverno,
nós dois saindo da infância...
Fica mais puro, mais terno,
visto através da distância!
25
Quando minha alma se atreve
a sonhar um pouco mais,
a esperança diz: "em breve"
e o destino diz: "jamais"!
26
Quem oprime o pensamento,
a inteligência de escol,
é nuvem, no firmamento,
tentando esconder o Sol.
27
Quem seu ciúme proclama,
fazendo questão de expô-lo,
insulta aquela a quem ama,
e ainda faz papel de tolo…
28
Que o negro ao branco revele
sentenças deste teor:
a alma humana não tem pele
e a virtude não tem cor.
29
Se uma nuvem tem por meta
vedar do Sol o clarão,
não veda, apenas projeta
a própria sombra no chão.
30
Sob a luz do Sol nascente
segue o velho, estrada a fora...
- É uma gota de poente
vagando dentro da aurora...
31
Unidos, nunca dispersos,
vivem brincando os meninos.
Depois... caminhos diversos,
encruzilhadas, destinos!
32
Vida, canção que se esgota
com o tempo que a castiga...
e cada sonho é uma nota
a compor essa cantiga!

Clodoaldo de Abreu Filho (Antonina/PR)

AMOR
O vento carrega areia,
o vento carrega o pó.
O vento carrega, creia,
todo amor que vive só.

ARAPONGA
Martelando, martelando,
a araponga quer dizer:
– É somente trabalhando
que o bem se pode fazer!

BALEIA
Baleia jamais foi peixe,
nem se pesca com anzol;
baleia é caça, não deixe
que suma da luz do sol!

BEIJA-FLOR
Por mais formosa que seja,
a mulher não será flor…
– Esta verdade dardeja
no bico do beija-flor!

BEM-ESTAR
Vendo a beleza do mar
e nuvens no céu sereno,
sentimos o bem estar
e o dia se torna ameno.

CARNAVAL
No carnaval desta vida,
um é feliz, outro não,
mas todos querem guarida
e teto firme no chão!

COLIBRI
Depois de tanta meiguice,
de beijar flor-e-mais-flor,
o colibri, que doidice,
beijou você, meu amor!

CORAGEM
Meu filho, tenha coragem
para poder enfrentar
a vida, que é só voragem,
e pensa nos derrotar.

ESTRADA
Ao perguntarem por mim
digam que estou caminhando…
Minha estrada não tem fim
e por isso eu vou andando…

ESTUDO
Estude, estude, menino,
para algo realizar…
Até um sonho pequenino
é necessário alcançar!

ETERNIDADE
O passo mais importante
é galgar a eternidade
e com Deus levar avante
os sonhos da mocidade!

FELICIDADE
Apesar da minha idade
e de tantos desenganos
eu sinto a felicidade
e não ligo para os anos!

GUERRA
A guerra só dá vitória
àquele que não morrer…
Aos mortos só cabe a glória
de ter cumprido o dever!

INIMIGO
Em tudo vejo perigo
e insegurança total,
mas o maior inimigo
é nossa vida mental!

IPÊ
Amarelo, amarelinho,
florido como um buquê…
de flores parece um ninho,
o meu lindo e nobre Ipê!

JUSTIÇA
É verdade, meu amigo,
você pode acreditar:
a justiça é bom artigo,
mas difícil de encontrar.

PÁSSARO   
Pobre pássaro cativo
esquecido na prisão:
o teu lamento é estar vivo
sem o gozo da amplidão…

RECIFE

Mauricéia, hoje Recife,
teve seus dias de glória:
mil heróis em cada esquife,
lembrados por nossa história!…

SANTO
Santo forte, santo fraco,
todos santos, são iguais…
– O que importa, meu amigo,
é nunca pedir demais!

SECA
Muito sonho é malogrado
quando a seca cresta o chão:
– O pasto morre queimado
e o gado, de inanição!

SINA
Você vive na campina,
eu vivo cá na cidade:
cada qual tem sua sina
e sua felicidade!

VOCAÇÃO
Na profissão, o destino
é seguir a vocação,
por isso, pense, menino,
e siga o seu coração!

Vidal Idony Stockler Castro/PR, 1924 – 2014, Curitiba/PR)

1
Abelha vai se achegando,
ao zangão, seu encantado…
mas ele diz confessando:
eu não fui “bem programado”.
2
Abraço a sabedoria,
pelo caminho, sorrindo,
eternizando alegria
nesse caminhar tão lindo.
3
Abraço, linda maneira,
de transmitir o calor,
da bela luz verdadeira
cheia de paz e de amor!
4
A brisa afaga a ramagem
leva o perfume e canção;
gotas de orvalho desprendem
em descida para o chão.
5
A cigarra canta e fala
na floresta do sertão,
nos folguedos não se cala,
porque gosta de canção.
6
Adeus é forte tensão,
tido com raro vigor
e machuca o coração
mas tem a força do amor!
7
Adeus, lágrima que brilha,
vestida com forte dor!
A fé e luz compartilha
dando a paz da linda flor!
8
A lembrança de repente
se consagra na emoção
de alegria comovente
que nos fala ao coração.
9
Alma linda esplendorosa,
forte luz do pensamento,
perene, maravilhosa,
tem o brilho por sustento.
10
A memória traz lembrança
de vivência tão querida
desde os tempos de criança
aos demais dias de vida.
11
Ante aplausos da menina
na restinga do sertão,
rolam as águas da mina
cantando sua canção.
12
As águas com alegrias
percorrem os seus caminhos,
pássaros com melodias
extravasam seus carinhos.
13
As águas dançam no rio,
festejam ida pro mar,
haja inverno, haja estio,
com o sol ou com luar.
14
A semente livre dorme,
dorme num  manso esplendor,
seu poder é sempre enorme,
acorda, volta a ser flor.
15
A tapera que outro dia
só vivia festejada
hoje curte nostalgia…
só cantar… da passarada.
16
A tarde chegando ao fim,
o crepúsculo a se impor;
a noite aparece assim…
lua, estrelas, esplendor!
17
A tarde tranquila e calma,
os pássaros a cantar,
há doces enleios n’alma,
melodias de ninar…
18
Chuá, chuá, lindo tom,
cachoeira a murmurar,
no seu esplêndido som,
dia ou noite de luar.
19
Correm águas do riacho,
cantam aves na campina,
as uvas formam o cacho
e esmeraldas vêm da mina.
20
Desponta no horizonte,
com o brilho sem igual,
o sol, a mais pura fonte
de força transcendental.
21
Diz-se que o poeta não morre,
uma assertiva bonita!
Verdade que não ocorre,
mas é mentira bendita!
22
Do passado, só saudade
e não há outro caminho,
mesmo tendo liberdade
não se volta àquele ninho!
23
Escorre água da cascata,
com sua bela brancura
e grita na orla da mata
a pernalta saracura.
24
É só da noite o luar;
dos pássaros, os gorjeios;
é do dia, o ensolarar,
mas do homem, os receios.
25
Eu rebusco água da mina
pra minha sede matar
e encontro linda menina
que faz a fonte cantar!
26
Eu rememoro a saudade
de minha mãe, as carícias:
serena necessidade
de seu carinho e delícias…
27
Eu sonho no meu viver
e vivo no meu sonhar…
Na saudade o reviver,
no presente o caminhar…
28
Florescência do rincão
com aurora enluarada
cobre as matas do sertão
e a cabana abandonada.
29
Fonte d’água cristalina,
vapores soltos no ar,
beijam a bela menina
que desabrocha a cantar.
30
Lembranças, ricas lembranças,
volta e meia veem a mim
dos bons tempos de crianças,
saudade…que não tem fim !
31
Lembro da mãe a ternura,
inda criança em seus braços;
hoje vivo a desventura,
sem calorosos abraços.
32
Lenço branco desdobrado,
acenando com amor,
em adeus lacrimejado
como os orvalhos da flor!
33
Lépida abelha engenhosa
carrega o néctar e voa,
é mansa e muito mimosa
porém, se apertar, ferroa.
34
Louve a Deus o criador,
do mar, do sol e da terra
e da vida em esplendor
que tanta beleza encerra.
35
Mãe! A doçura querida,
serena amabilidade,
legou-nos a própria vida
a paz e a felicidade!
36
Marumbi serra do mar,
cúmulos e cirros há;
é imponência secular
nas terras do Paraná.
37
Mesmo no sereno adeus,
em viagem de despedida,
rebrilham nos olhos seus
lágrimas de ação querida.
38
Na bateia das poesias
lindas pedras coloridas,
vislumbram em alegrias
e enfeitam as nossas vidas.
39
Na colmeia só rainha,
tem abraços dos zangões;
as operárias “tadinhas”
choram faltas de afeições.
40
Na floresta da poesia,
a trova canta feliz;
encanta pela magia
e também pelo que diz.
41
Na plenitude da paz
em manhã ensolarada
a leveza bem se faz
no cantar da passarada.
42
Nas campinas, em florada
leve brisa toca o chão
e com voz aveludada
o sabiá dobra canção.
43
Nas praias, brancas areias
limitam águas do mar,
nelas dançam as sereias
tal qual a brisa a rodar.
44
No silêncio da floresta,
forte, ereto, sobranceiro,
a beleza bem atesta:
é o nosso rico pinheiro.
45
No jardim a branca palma,
de perfume tão profundo…
Beija-flor com toda calma,
inspira... sou rei do mundo!..
46
Numa riqueza sem fim,
nasce a força da bondade,
como as flores do jardim
na sua simplicidade!
47
O barco singra no mar
caminhada de lazer,
sob as luzes do luar,
flutuar é seu prazer.
48
O flerte de tempos idos,
olhares bem distanciados,
mas hoje, abraços unidos
e muito e muito apertados.
49
Olhos são janelas d’alma
a mostrar os bons caminhos
estruture vida calma
evite pisar espinhos.
50
Olhos são os brilhos d’alma,
as essências são das flores
brancura da linda palma,
jardim de ricos primores.
51
O macuco canta as horas
em que o tempo vai andando.
Deixa atrás velhas auroras,
mas continua cantando.
52
Ouça o murmurar das águas
e o cantar da suave brisa;
jogue fora suas mágoas
e tenha a paz por divisa.
53
Risos, fogueiras, quentão,
mulheres, moças, meninas,
músicas, danças, pinhão.
Toques das festas juninas.
54
Robusteça a vida calma
no decorrer da existência
projete a justiça n’alma
e vencerá por prudência.
55
Rolam as águas da altura,
denominadas de chuva,
para ficar na secura
use capa ou guarda-chuva.
56
Saudade, novo pensar,
um pensar do que passou,
querendo até resgatar
a beleza que ficou!
57
Seja estrela sorridente
no seu modo de viver,
e com força transcendente
faça o bem acontecer!
58
Sorriso música d’alma
carregado de carinhos
vai mantendo a doce calma
com flores pelos caminhos.
59
Tenha sempre vida calma,
praticando sempre o bem
e pondo doçura n’alma,
dos anjos receba amém.
60
Ternura do coração
verte n’alma linda luz
trazendo grande emoção
que a vida sempre produz.
61
Tranquila e linda lagoa
é rico espelho a brilhar,
quando chove, canta, entoa,
louvor às águas do ar.
62
Verte lágrima contida,
quando enfrentamos o adeus,
é a saudade já nascida
instituída por Deus!
63
Vê-se lágrimas rolando,
num adeus de despedida,
o cruzeiro vai zarpando
lenços falam na saída.

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

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