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domingo, 6 de setembro de 2026
Cornélio Pires (Trovas da Vida)
Desejava ter comigo
uma joia de alto preço.
Não tendo, porém, o ouro
esse propósito, esqueço...
Mas tendo fé em mim mesmo
lembro-me, com razão
de ofertar-lhes este livro,
que me expressa a gratidão
AMBIÇÃO
Conserva a simplicidade,
observa onde te pões,
a ambição domina os homens,
em todas as direções.
AMOR
Amor puro é qual diamante
de beleza singular,
mas se é vendido ou tem preço,
qualquer um pode comprar.
AMOR NO ALÉM
De alma para outra alma
o amor é um laço tão forte,
que vejo muitos casais
unidos depois da morte.
BARULHO
Para quem pensa e trabalha
em benefícios reais,
qualquer barulho atrapalha,
silêncio nunca é demais.
BENDITA SEJA
Já que o mal nasce de nós
como vem e quando vem,
bendita seja a pessoa
que apoia a força do bem.
CLONAGEM
Clonagem é um feito antigo;
fala a Bíblia com razão.
Nosso pai criou Mãe Eva
numa costela de Adão.
DESENGANO
Ele ajuntou prata e ouro,
porém, não achou transporte,
quando buscou pensativo,
a grande agência da morte.
DESEQUILÍBRIO
Há mulheres arruinadas
na luta em que se consomem.
Não por fraqueza ou maldade,
mas por desprezo do homem.
DINHEIRO
Registro esta nota sábia
do Doutor Joaquim de Malta:
“Riqueza não traz ventura,
mas o dinheiro faz falta.”
DOENÇA
Muitas vezes, a doença,
por mais que aborreça e doa,
é socorro necessário
para guardar a pessoa.
DURAÇÃO DO AMOR
O amor é uma luz do céu,
dizia o mestre Joaquim.
Sem a praga do ciúme,
tem duração do “sem-fim”.
ECONOMIA
O dono de muitas capas
da mais rica às mais singelas,
nas horas de frio ou chuva
veste somente uma delas.
EXTRA-TERRESTRES
Extra-terrestre? Existem.
Não são notícia sem fundo;
Elias saiu da Terra
numa nave de outro mundo.
FELICIDADE
Casais ricos e felizes
vivem de festa e rumor…
No entanto, a felicidade
conhece apenas o amor.
FORÇA
Avistando a força bruta
ferindo ou pisando alguém,
age em silêncio e auxilia
à nobre força do Bem.
GUERRA
A guerra surge por vezes
de nação para nação,
mas é constante
nos casos de opinião.
LIBERDADE
Virtude alta e sublime
ninguém quer viver sem ela:
É a liberdade, no entanto,
que exige muita cautela.
LIÇÃO SIMPLES
Uma lição clara e simples
a que a verdade nos chama:
- Por força de obediência,
realmente ninguém ama.
MÃOS NOBRES
Branca, amarela ou morena,
nos sofrimentos da estrada,
se é mão que dá socorro,
será sempre abençoada.
MORTO VIVO
Ao morrer, disse Romário:
“Volto já...”, falando a custo.
Após seis meses, voltou...
a esposa caiu de susto.
NÃO PODE
Deixou milhões para os órfãos
o avarento João Lasmar,
deixou para a caridade
porque não pode levar.
NO ALÉM
Em nosso estado no Além,
seja em luz, penumbra ou treva,
o que importa é a consciência
da vida que a gente leva.
PROGRAMA
Quem quiser ter vida longa
pelos caminhos terrenos,
no curso do dia a dia
coma pouco e fale menos.
PRUDÊNCIA
Falta pouco. Não critiques.
Deixa os outros tais quais são.
Há quem passe a noite em festa
e amanheça em provação.
RACISMO
Em qualquer grupo racista
de sábios crentes e ateus,
perguntemos seriamente,
de que forma é a cor de Deus.
REALIDADE
“O homem deixou milhões”,
falei ao sábio Jomar.
Disse-me o sábio: “Deixou
porque não pode levar”.
RECADO FRATERNO
Se caíste em provação
por falha de outra pessoa,
em favor da própria paz,
trabalha, ora e perdoa.
REFLEXÃO
O homem é sempre poder,
faz tudo quanto ele quer.
No entanto, não nos esqueçamos:
somos filhos de mulher.
REMÉDIO
Joel gritava xingando,
na Fazenda Terra Oca;
O tio deu-lhe um remédio:
O xarope “calaboca”!
SALÁRIO
Salário pobre e pequeno?
Não consigo ser ingrato.
Se tenho montes de arroz,
ao comer, só tenho um prato.
SE QUERES
Se queres cooperação
para qualquer obra do Bem,
não afastes a esperança
do coração de ninguém.
TUDO PASSA
O tempo corre apressado
no campo, na rua, em casa.
Tudo passa velozmente
se a pessoa não se atrasa.
= = = = = = = = = = = = = =
CORNÉLIO PIRES nasceu na cidade de Tietê (SP), em 1884 e faleceu na cidade de São Paulo (SP), em 1958, aos 73 anos, em decorrência de um câncer de laringe. Embora tenha nascido no interior e mantido uma ligação umbilical com a cultura caipira, viveu grande parte de sua vida na capital paulista, São Paulo, viajando constantemente pelo interior dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás para realizar suas pesquisas e espetáculos. Foi um profissional multifacetado e um verdadeiro pioneiro da indústria cultural brasileira. Atuou como jornalista, cronista, humorista, etnógrafo, palestrante e empresário. Em 1929, fez história ao se tornar o responsável pela primeira gravação de música caipira (sertaneja raiz) em disco no Brasil, financiando do próprio bolso o lançamento de uma série de discos de 78 RPM pela gravadora Columbia, após a gravadora se recusar a investir por achar que a música caipira não teria público. A iniciativa foi um sucesso comercial absoluto. Nos seus últimos anos de vida, converteu-se ao Espiritismo, dedicando-se à filantropia e escrevendo obras mediúnicas.
Foi o maior divulgador da alma e do dialeto caipira na literatura e na cultura brasileira. Estreou na literatura na década de 1910, coligindo piadas, causos, trovas e poemas que retratavam o caipira paulista com dignidade, distanciando-se do estereótipo caricato e preguiçoso do "Jeca Tatu" de Monteiro Lobato. Cornélio via o caipira como um homem honesto, astuto e dono de uma rica cultura oral. Por sua dedicação à cultura popular, folclore e dialetologia, foi membro da Academia Paulista de Letras (APL). Devido ao caráter popular e pioneiro de sua obra, que circulava à margem do circuito literário erudito e acadêmico tradicional da época, Cornélio Pires não recebeu os grandes prêmios oficiais da alta literatura. Seu maior "prêmio" foi o reconhecimento massivo do público e o respeito de intelectuais modernistas da Semana de 22 (como Amadeu Amaral e Mário de Andrade), que reconheciam nele um legítimo pesquisador do folclore nacional.
Publicou mais de duas dezenas de livros, entre poesia, causos, estudos linguísticos e obras religiosas: Musa Caipira (1910 — livro de estreia que o consagrou como trovador e poeta); As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bento (1912); Quem Conta um Conto... (1916); Conversas ao Pé do Fogo (1921); Scenas da Roça (1924); Tarrafadas (1926); Mixórdia (1927); Patacoadas (1928); Sambas e Cururus (1932); Coisas de Minha Terra (1949), O Sol da Imortalidade (1951 — obra espírita), etc.
A importância de Cornélio Pires para a literatura e para a cultura brasileira é imensurável, pois ele foi o principal responsável por salvar o folclore e o dialeto caipira do esquecimento. Antes dele, a literatura brasileira muitas vezes enxergava o homem do interior com desdém ou sob uma ótica estritamente regionalista e romântica. Cornélio levou a sério a linguagem oral da roça, registrando com precisão fonética a fala e as trovas paulistas da época, servindo de base para estudos de dialetologia e linguística no Brasil. Ao registrar em livros os causos, provérbios, modas de viola e desafios em verso (cururus), ele deu dignidade literária à cultura caipira. Sua obra pavimentou o caminho para que, anos mais tarde, o universo sertanejo fosse assimilado definitivamente pela literatura brasileira e pela bilionária indústria fonográfica do país.
Fonte:
Francisco Cândido Xavier (psicografia). Livro Trovas da Vida. Digitalizado por Aparecida Tognato.
José Feldman (Contos para crianças e não tão crianças) A Grande Corrida
Era o dia da Grande Corrida de Primavera da floresta. O prêmio era uma enorme cesta cheia das cenouras mais doces do Vale Verde. Todos os animais sabiam que o coelho Leco era o favorito. Ele treinou a semana toda, dando saltos velozes e correndo em zigue-zague entre as árvores.
Minutos antes da largada, Leco encontrou a ouriça Tatá sentada perto da linha de partida, amarrando um pequeno lenço na cabeça.
— Você vai correr, Tatá? — perguntou Leco, surpreso, enquanto alongava as orelhas.
— Vou sim, Leco! — respondeu Tatá, com um sorriso calmo. — Sei que minhas patinhas são curtas e que não sou veloz como você, mas adoro o caminho da colina. Quero ver o tapete de flores que se formou lá em cima.
BUM! O gongo da floresta ecoou, anunciando o início da prova.
Em um piscar de olhos, Leco disparou na frente. Vapt! Vupt! Ele parecia um raio cinzento, deixando uma nuvem de poeira para trás. Logo, ele ultrapassou os esquilos, passou voando pelos gambás e liderava a corrida com folga. O vento batia em seu rosto e o coração batia acelerado de pura adrenalina.
No meio da subida da colina, Leco olhou para trás. Não havia ninguém por perto. Ele estava prestes a dobrar a curva final para pegar o troféu quando, de repente, olhou para o lado e viu o famoso tapete de flores mencionado por Tatá. Eram milhares de pequenas orquídeas douradas que só floresciam naquele dia do ano.
Leco parou. O silêncio ali em cima era lindo. Ele olhou para a linha de chegada, que estava a poucos metros, e depois olhou para baixo, na direção do início da subida.
— A Tatá vai perder isso... — pensou Leco em voz alta. — Se ela andar no ritmo dela, quando chegar aqui, o sol já vai ter se posto e as flores vão se fechar.
Sem pensar duas vezes, Leco deu meia-volta. Ele começou a correr na direção contrária, descendo a colina. Os outros animais, que vinham subindo cansados, olhavam para ele sem entender nada.
— Leco! A linha de chegada é para o outro lado! — gritou o teixugo.
— Você está maluco, coelho? Vai perder o primeiro lugar! — avisou o esquilo.
Leco apenas sorriu e continuou descendo até encontrar Tatá. A pequena ouriça estava no início da subida, respirando calmamente, dando um passo firme de cada vez.
— Leco?! — Tatá piscou os olhos, confusa. — O que aconteceu? Você se machucou? Por que não ganhou a corrida?
— Não me machuquei, Tatá. Mas percebi que correr muito rápido estava me fazendo perder a melhor parte — disse Leco, recuperando o fôlego e sentando-se ao lado dela.
— Mas... e as cenouras doces? E o troféu?
Leco olhou para as patinhas curtas da amiga e depois para o topo da colina.
— As cenouras a gente colhe depois. O troféu de verdade é ver aquele tapete de flores lá em cima. Mas eu só quero ver se for com você.
Tatá sentiu o coração aquecer. Seus espinhos relaxaram completamente.
— Mas eu ando bem devagar, Leco. Você vai ficar entediado.
— Então eu vou aprender a andar devagar também — respondeu o coelho, estendendo a pata. — Vamos juntos?
E assim eles foram. Leco diminuiu o passo. Pela primeira vez na vida, em vez de focar apenas na linha de chegada, ele começou a notar as coisas ao redor. Tatá lhe mostrou as formas das nuvens, o som dos grilos escondidos nas folhas e o perfume de árvores que Leco sempre passava batido por correr demais.
Quando os dois finalmente alcançaram o topo da colina, a corrida já havia terminado e outro animal havia levado a cesta de cenouras. Mas as orquídeas douradas ainda estavam abertas, brilhando sob o sol da tarde.
— Puxa... — sussurrou Leco, maravilhado com a vista. — É a coisa mais linda que já vi.
— Obrigada por me esperar, Leco — disse Tatá, encostando sua cabecinha no ombro do amigo.
— Obrigado você, Tatá — sorriu Leco. — Se eu estivesse correndo, teria chegado primeiro, mas teria visto tudo sozinho. Caminhar com você foi muito melhor.
A vida não é uma competição de velocidade. Às vezes, precisamos desacelerar o nosso próprio ritmo para apreciar a paisagem e desfrutar da companhia daqueles que amamos.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores:
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos;
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor;
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.
Fonte:
José Feldman. Contos para crianças e não tão crianças. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
Cecília Meireles (Natal na Ilha do Nanja)
Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas. Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenças, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperança, o consolo, a certeza do Bem, da Justiça, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam “substantivos próprios” e se escreviam com letras maiúsculas. Lá, elas continuam a ser denominadas e escritas assim. Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova — mas uma roupinha barata, pois é gente pobre — apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade.
Além da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque nós, humanos, quase sempre associamos à alegria da alma um certo bem-estar físico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porém, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja é muito sóbria. Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ninguém ofende o seu vizinho — antes, todos se saúdam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial: “Boas Festas! Boas Festas!” E ninguém, pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes — mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe — trata-se de uma ilha, com praias e pescadores ! — uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel...
É como se a Ilha toda fosse um presépio. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol! Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o coração repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias só esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dúvida sobre a vitória das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, vê-se a luz gloriosa do Céu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lágrimas nos olhos.
Na Ilha do Nanja é assim. Arvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com. pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. Lá também ninguém lê histórias em quadrinhos. E tudo é muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vêm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, reúne, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa só.
É assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.
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CECÍLIA BENEVIDES DE CARVALHO MEIRELES foi uma das mais importantes escritoras e poetas do Brasil, amplamente reconhecida como a voz feminina mais expressiva da segunda geração do Modernismo brasileiro. Marcou a história do país não apenas pela profundidade de seus versos metafísicos, mas também por sua atuação pioneira na educação e no jornalismo cultural. Nasceu em 1901, na cidade do Rio de Janeiro (RJ) e faleceu nesta mesma cidade em 1964 (aos 63 anos), vítima de câncer. Órfã de pai antes de nascer e de mãe aos 3 anos, foi criada por sua avó materna açoriana, Jacinta Garcia Benevides. Passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro (inclusive residindo no bairro do Cosme Velho). Devido ao seu prestígio intelectual, passou temporadas no exterior dando palestras e cursos, como na Universidade do Texas (EUA), além de viajar por Portugal, Índia, México, Israel e outros países das Américas. Formou-se professora primária em 1917 pela Escola Normal do Rio de Janeiro. Lecionou no ensino básico e, mais tarde, foi professora de Literatura Luso-Brasileira na Universidade do Distrito Federal (1936-1938). Em 1934, fundou o Centro de Cultura Infantil no Rio de Janeiro, a primeira biblioteca infantil do Brasil. O espaço acabou fechado anos depois pela censura do regime de Getúlio Vargas. Escreveu intensamente sobre educação e cultura para jornais como o Diário de Notícias e produziu crônicas para programas da Rádio MEC e Rádio Roquette-Pinto.
Cecília estreou na literatura aos 18 anos com o livro Espectros (1919). Embora tenha surgido na época do Modernismo, sua poesia possuía características muito singulares. Teve forte influência do Simbolismo e Neosimbolismo (através do grupo da Revista Festa). Seus temas centrais giravam em torno da efemeridade do tempo, a solidão, a melancolia, a transitoriedade das coisas, o misticismo e a busca espiritual. Destacou-se pela musicalidade rigorosa e pelo uso de sinestesia (mistura de sentidos) em seus versos. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Cecília Meireles não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva — as mulheres só foram admitidas na instituição a partir de 1977. Contudo, manteve uma relação próxima com a ABL, que reconheceu oficialmente sua genialidade por meio de prêmios máximos. Ela fez parte de comissões de folclore e agremiações culturais pelo mundo. Prêmio de Poesia Olavo Bilac (1939) – Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo livro Viagem (foi a primeira mulher a receber uma distinção desse nível pela instituição). Título de Doutora Honoris Causa (1953) – Concedido pela Universidade de Délhi (Índia) em reconhecimento à sua relevância literária e traduções da obra de Rabindranath Tagore. Prêmio Jabuti de Poesia (1943/1964) – Pelo livro Solombra. Prêmio Machado de Assis (1965) – Concedido postumamente pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Cecília publicou mais de 50 obras ao longo da vida, englobando poesia, crônicas e literatura infantil:
Poesia Lírica/Metafísica: Espectros (1919), Viagem (1939), Vaga Música (1942) e Mar Absoluto (1945).
Obra-Prima Histórica: Romanceiro da Inconfidência (1953), um longo poema épico-narrativo que recria a história da Inconfidência Mineira com lirismo impecável.
Literatura Infantil: Ou Isto ou Aquilo (1964), um clássico absoluto da poesia para crianças, que explora a sonoridade e o lúdico sem o tom moralista da época.
Cecília rompeu barreiras em um cenário literário majoritariamente masculino, consolidando-se pelo puro rigor técnico e estético, sem precisar se prender a panfletarismos. Ela rejeitava o termo "poetisa" por considerá-lo segregador, definindo-se simplesmente como "poeta". Enquanto o Modernismo de 1922 buscava romper radicalmente com o passado, Cecília uniu a liberdade moderna com a tradição clássica e a musicalidade simbolista, criando um estilo único e atemporal. Foi responsável por humanizar o livro didático e a poesia infantil no Brasil, tratando a criança como um ser poético e inteligente. Sua poesia trata de dores humanas universais — o tempo que passa, a perda, o sonho —, o que faz com que sua obra continue atual, viva e traduzida no mundo inteiro.
Fontes:
Cecília Meireles. “Quadrante 1”. RJ: Editora do Autor, 1966.
Biografia = Prefeitura Municipal de Caraguatatuba, de São Paulo, Brasil Escola, Wikipedia, Toda Materia, Grupo Ediotorial Global, Ebiografia, Museu da Educação, etc.
Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa * 3 *
(Lisboa, 1855 – 1886)
LÚBRICA
Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás de por mim morrer,
Morrer muito contente.
Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um papel
De cenas de rapazes!
Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!
Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:
Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.
Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.
As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...
Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!
= = = = = = = = = = = = = =
Alice Gomes
(Tabuaço, 1910 – 1983, Lisboa)
NA IDADE DOS PORQUÊS
Professor diz-me porquê?
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?
Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...
Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!
Tu falas falas, professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.
É a luta, professor
a luta em vez de amor.
Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.
Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes, professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.
Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...
E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.
= = = = = = = = = = = = = =
David Mourão-Ferreira
(Lisboa, 1927 – 1996)
NATAL, E NÃO DEZEMBRO
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
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Bocage
(Setúbal, 1765 – 1805, Lisboa)
O CORVO E A RAPOSA
É fama que estava um corvo
Sobre uma árvore pousado
E que no sôfrego bico
Tinha um queijo atravessado.
Pelo faro àquele sítio
Veio a raposa matreira
A qual, pouco mais ou menos
Lhe falou desta maneira:
- Bons dias, meu lindo corvo;
És glória desta espessura;
És outra fénix, se acaso,
Tens a voz como a figura.
A tais palavras o corvo
Com louca, estranha afoiteza
Mor mostrar que é bom solfista
Abre o bico e solta a presa.
Lança-lhe a mestra o gadanho
E diz: - Meu amigo, aprende
Como vive o lisonjeiro
à custa de quem o atende.
Esta lição vale um queijo,
Tem destas para teu uso.
Rosna então consigo o corvo
Envergonhado e confuso:
- Velhaca, deixou-me em branco
Fui tolo em fiar-me dela
Mas este logro me livra
De cair noutra esparrela.
= = = = = = = = = = = = = =
António Gedeão
(Lisboa, 1906 – 1997)
POEMA DA AUTO-ESTRADA
Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta
Vai na brasa de lambreta.
Leva calções de pirata,
Vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.
Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.
Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.
Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.
Foge, foge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.
= = = = = = = = = = = = = =
Al-Berto
(Coimbra, 1948 – 1997, Lisboa)
RECADO
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
Graciliano Ramos (A Última Noite de Natal)
Os grandes olhos claros e aguados boiavam na sombra nevoenta, cheios de espanto. Esfregou-os, arrastou-se pesado e entanguido, mal seguro à bengala, sentou-se num banco do jardim, fatigado, suspirando, examinou a custo os arredores. Gastou uns minutos passeando as mãos desajeitadas na gola do casaco. 0 exercício penoso enfureceu-o. Resmungou palavras enérgicas e incompreensíveis, esforçou-se por dominar a tremura.
Com certeza era por causa do frio que os dedos caprichosos divagavam no pano esgarçado e os queixos banguelos se moviam continuamente. Era por causa do frio, sem dúvida. Se conseguisse abotoar o casaco e levantar a gola, os movimentos incômodos cessariam.
Em que estava pensando ao chegar ali? Ia jurar que pensava em coisas agradáveis. Ou seriam desagradáveis? Pedaços de recordações incoerentes dançavam-lhe no espírito, acendiam-se, apagavam-se, como vaga-lumes, confundiam-se com os letreiros verdes, vermelhos, que se acendiam e apagavam também quase invisíveis na poeira nebulosa. Tentou reunir as letras, fixar a atenção nas mais próximas, brilhantes, enormes.
A igreja toda aberta resplandecia. O incenso formava uma neblina perturbadora. E, através dela, os altares refugiam como sóis, a luz das velas numerosas chispava nas auréolas dos santos.
Que doidice ! Não é que estava imaginando ver ali, nas transitórias claridades, a igreja vista sessenta anos antes? Tresvariava. Sacudiu a cabeça, afastou a lembrança importuna. De que servia desenterrar casos antigos, alegrias e sofrimentos incompletos?
O que devia fazer... Pôs-se a mexer os beiços, procurando nas trevas úmidas e leitosas que o envolviam o resto da frase. O que devia fazer... Repetiu isto muitas vezes, numa cantilena, distraiu-se olhando a chuva amarela, verde, vermelha, dos repuxos. Impossível distinguir as cores. Ultimamente a cidade ia escurecendo. As pessoas que transitavam junto aos canteiros sem flores eram vultos indecisos; .os prédios se diluíam nas ramagens das árvores, manchas negras; os letreiros vacilantes não tinham sentido.
O que devia fazer... De repente a ideia rebelde surgiu. Bem. Devia meter os botões nas casas e agasalhar o pescoço. Depois cruzaria os braços, aqueceria as mãos debaixo dos sovacos, ficaria imóvel e tranquilo. Mas os dedos finos e engelhados avançavam, recuavam, não havia meio de governá-los. Se pudesse riscar um fósforo, chegá-lo a um cigarro, esqueceria os inconvenientes que o aperreavam: o frio, a dureza das juntas, o tremor, a zoeira constante, sussurro de maribondos assanhados. Dores errantes andavam-lhe no corpo, entravam nos ossos e vinham à pele, arrepiavam os cabelos, fixavam-se nas pernas, esmoreciam.
Agora não estava no banco do jardim, perto das estátuas, das árvores, do coreto, dos esguichos coloridos. Estava longe, a sessenta anos de distância, ajoelhado na grama, diante da igreja da vila. Os rostos embotados, que se dissociavam, juntaram-se no largo onde um padre velho dizia a missa da meia-noite. Fervilhavam matutos em redor das barracas, num barulho de feira, e uma sineta badalava impondo em vão respeito e silêncio. Os cavalinhos rodavam. Esgueiravam-se casais pelos cantos. O padre velho dirigia olhares fulminantes àquela cambada de hereges. Uma figura pequenina cantava os hinos ingênuos, de versos curtos, fáceis. Tudo parecera de chofre muito sério, eterno. Os hinos capengas elevavam-se, estiravam-se. A mulher tinha um rosto de santa e exigia adoração. Sessenta anos. As fachadas enfeitavam-se com lanternas de papel, janelas escancaradas exibiam presépios, listas de foguetes cortavam o céu negro. A sineta badalava, zangada. E o burburinho da multidão não diminuía.
Sessenta anos. Da cinza que ocultava os olhos frios saltou uma faísca; os alfinetes pregados na carne trêmula embotaram-se; o espinhaço curvo endireitou-se; um débil sorriso franziu os beiços murchos; os braços ergueram-se lentos, buscando a imagem de sonho.
Imagem de sonho, que doidice! Era apenas uma bonita criatura de bom coração. Ligara-se a ela. E dezenas de vezes tinham-se os dois ajoelhado ali na grama, olhando as lanternas, os presépios, os foguetes, o padre que dizia a missa da meia-noite. Algumas esperanças, muitos desgostos. Os meninos cresciam, engordavam. E no jardim da casa miúda um jasmineiro recendia.
Depois tudo fora decaindo, minguando, morrendo. Achara-se novamente só. Os filhos e os netos se haviam espalhado pelo mundo. Agora... Que extensa caminhada, que enormes ladeiras, pai do céu ! Já nem se lembrava dos lugares percorridos.
Conseguiu abotoar o casaco e levantar a gola.
Andar tanto e afinal chegar ali, arriar num banco, não perceber as letras que se acendiam . e apagavam. Certamente àquela hora, diante duma igreja aberta, outro homem novo admirava outra pessoinha ajoelhada, sentia desejos imensos, formava planos absurdos. Os desejos e os planos iam desfazer-se como a fumaça luminosa dos repuxos.
(20 de dezembro de 1941).
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GRACILIANO RAMOS DE OLIVEIRA nasceu em Quebrangulo, no interior de Alagoas, em 1892. Faleceu no Rio de Janeiro em 1953, aos 60 anos, em decorrência de um câncer de pulmão. Passou a infância migrando pelo Nordeste devido às secas, morando em fazendas e cidades como Buíque (PE), Viçosa (AL) e Palmeira dos Índios (AL). Teve duas estadias marcantes no Rio de Janeiro: a primeira na juventude (1914-1915) e a segunda de forma definitiva a partir de 1937, após ser libertado da prisão política. Sua trajetória profissional foi bastante diversificada. Na juventude, trabalhou no comércio do pai, foi jornalista e revisor de imprensa. Ingressou na política e foi eleito Prefeito de Palmeira dos Índios (1928-1930) — cargo do qual ficou famoso pelos relatórios administrativos impecáveis e literários que enviava ao governador. Posteriormente, foi Diretor da Imprensa Oficial e Diretor de Instrução Pública de Alagoas. Em 1936, durante a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, foi preso sem acusação formal sob a falsa suspeita de ligação com a Intentona Comunista de 1935, permanecendo quase um ano encarcerado. Mais tarde na vida, filiou-se formalmente ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Principal expoente do Romance de 30 (a vertente regionalista da Segunda Geração do Modernismo brasileiro). Sua carreira literária começou cedo com contos e sonetos publicados sob pseudônimos na imprensa escolar e em revistas. Estreou no romance em 1933. Teve o reconhecimento de críticos fundamentais como Antonio Candido. ao seu espírito crítico, antirretórico e avesso às vaidades intelectuais, Graciliano Ramos nunca quis pertencer à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele ironizava formalismos institucionais. Décadas após sua morte, a própria ABL criou o ciclo de palestras "Cadeira 41" justamente para homenagear os gigantes da literatura que nunca foram imortais da casa, abrindo o projeto com o nome de Graciliano. Recebeu importantes distinções em vida, incluindo: Prêmio Lima Barreto (da Revista Acadêmica), em 1936, pelo romance Angústia; Prêmio de Literatura Infantojuvenil (do Ministério da Educação), em 1939, por A Terra dos Meninos Pelados; Prêmio Felipe de Oliveira, em 1942, concedido pelo conjunto de sua obra.
Livros Publicados: Caetés (1933 — romance de estreia); São Bernardo (1934); Angústia (1936 — escrito pouco antes e finalizado na prisão); Vidas Secas (1938 — sua obra-prima máxima); A Terra dos Meninos Pelados (1939 — literatura infantojuvenil); Brandão Entre o Mar e o Amor (1942 — romance escrito em conjunto com Jorge Amado, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e Aníbal Machado); Infância (1945 — livro de memórias); Insônia (1947 — contos); Memórias do Cárcere (1953 — publicado postumamente, relata os horrores dos porões da ditadura Vargas); Viagem (1954 — crônicas de suas impressões sobre a URSS e Europa Ocidental, póstumo).
Graciliano Ramos é fundamental para a literatura de língua portuguesa porque promoveu uma verdadeira revolução estética e ética na prosa de ficção. Conhecido como o "mestre da palavra exata", ele eliminou da escrita os adjetivos desnecessários, os floreios românticos e o sentimentalismo fácil, inaugurando um estilo seco, direto, conciso e cortante, espelho da própria rigidez do sertão. Mais do que retratar a miséria socioeconômica do Nordeste e a tragédia dos retirantes (como fez magistralmente na saga da família de Fabiano em Vidas Secas), Graciliano investigou as profundezas da psique humana mutilada pela opressão. Seus livros denunciam como as estruturas sociais violentas desumanizam o indivíduo, tirando-lhe a fala e a dignidade. Sua honestidade intelectual intransigente fixou o patamar mais alto do realismo crítico na literatura brasileira.
Fontes:
Linhas Tortas. Publicado originalmente em 1962 (livro póstumo).
Biografia = E-Biografia, Wikipedia, Guia do Estudante Abril, USP (Jornal do Câmpus), Itaú Cultural, Brasil Escola, Toda Materia, Academia Brasileira de Letras, etc.
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