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sábado, 12 de setembro de 2026

Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho (Semeando Trovas)


1
Ao dar tudo o que ela quer,
a evitar que o amor se perca,
o corno cerca a mulher
mas a mulher pula a cerca.
2
Após a noite que embaça
a janela do viver,
ressurge a luz na vidraça
com um novo amanhecer.
3
Aprenda bem a lição, 
desde bem cedo, menino,
pois na vida a Educação
é base do seu destino.
4
Canta o galo de matina
na Cantagalo florida,
saudando o sol que ilumina
duzentos anos de vida.
5
Capiau faz dentadura
sem ter o dente frontal,
pois deste modo assegura
um sorriso natural.
6
Com saudade do gramado,
da função desempenhada,
o gandula aposentado
corre atrás de uma pelada.
7
 Dia das Mães! Não se esqueça
dos presentes de ninguém:
por incrível que pareça,
sua sogra é mãe também!
8
Enquanto a gente descansa
na metade de um caminho,
um outro qualquer alcança
a outra metade sozinho.
9
Ensinando ao aprendiz,
nosso professor Raimundo,
no quadro negro e com giz
sonhava mudar o mundo.
10
Galopando sem receio
um indomável equino,
vou pela vida em rodeio
no cavalo do destino.
11
Há uma lição que sem cola
pelo estudante é sabida:
– na vida a melhor escola
é a grande escola da vida.
12
Luminar Academia,
plena de vitalidade,
a tua luz irradia,
a cultura na cidade.
13

Manassés compositor,
com suas belas canções,
canta a vida, canta o amor,
despertando as emoções.
14
Mostra a vida, mostra a história,
que a prática da coerência,
determina a trajetória
de uma correta existência.
15
Natal! Campos do Jordão,
cidade em que o amor reluz,
faz de cada coração
o berçário de Jesus.
16
O amanhecer se vislumbra
quando o sol em sua ida,
se elevando da penumbra
irradia a luz da vida.
17
O autêntico jornalista,
expressa nos seus relatos,
correto ponto de vista
da realidade dos fatos.
18
O garoto se insinua
perante a namoradinha:
– Minha sombra com a sua
será que fazem sombrinha?
19
O jogador e a torcida
têm que ser disciplinados,
pois toda copa é vencida
dentro e fora dos gramados!
20
O migrante em sua andança
parte do amado rincão.
Leva consigo a esperança
mas deixa o seu coração.
21
O vovô vai à balada
e sem muito lero-lero,
na pista dança lambada
em compasso de bolero.
22
Parece o craque Coalhada
com o galã falastrão:
- não aguenta uma pelada
mas diz que joga um bolão.
23
Peão ardiloso paca,
do seu intento dá cabo:
- usa o cheirinho da vaca
para amansar touro brabo.
24
Pela sua grande crença,
salvou-se, na Arca, Noé:
- não há dilúvio que vença
um homem cheio de fé!
25
Proteja Deus o migrante
que com seu labor fecundo
faz de uma terra distante
a melhor terra do mundo.
26
Quando a vejo na calçada,
de passagem pela rua,
minha sombra inconformada
ainda vai atrás da sua.
27
Quando me sinto estressado,
fugindo da realidade,
vou do presente ao passado
pelo túnel da saudade.
28
Quando toca Manassés
as canções de tempos idos,
tem o público aos seus pés
para os aplausos devidos.
29
Se alastrando lentamente
qual um glaucoma, o rancor,
impede os olhos da gente
de enxergar a luz do amor.
30
Seja de que modo for
e sem qualquer preconceito,
na casa onde mora o amor,
mora também o respeito.
31
Teu corpo ardente, formosa,
caminho da perdição,
é uma rua perigosa
que eu subi na contramão.
32
Toda natureza atesta
que esta vida é uma pintura,
onde Deus se manifesta
sem a Sua assinatura.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO é um renomado engenheiro, gestor público e um dos mais ativos e premiados trovadores contemporâneos do estado de Minas Gerais. Com forte atuação na comunidade lírica nacional, ele se destaca pela precisão métrica e sensibilidade de suas composições. Nascido e radicado em Juiz de Fora/MG, cidade polo cultural que historicamente abriga uma forte tradição de trovadores. Graduado em Engenharia, atuou profissionalmente no serviço público do município de Juiz de Fora. Exerceu cargos de grande relevância executiva e técnica, tendo sido Superintendente da GETTRAN (Subsecretaria/Gerência de Transporte e Trânsito de Juiz de Fora), liderando o planejamento de mobilidade urbana e trânsito da cidade nos anos 2000.
Dulcídio estruturou sua trajetória literária sob o gênero da Trova É um membro proeminente da UBT - Seção Juiz de Fora. Além de produzir e competir, atua frequentemente como jurado e avaliador técnico em múltiplos certames nacionais de poesia e Jogos Florais. Reconhecido no meio poético como um "premiadíssimo vencedor de Concursos", acumula honrarias em todo o país.
Sua obra é publicada predominantemente em regime de coletâneas especializadas, antologias dos Jogos Florais e compilações de Academias de Letras que reúnem as trovas vencedoras e selecionadas ao redor do Brasil. Na tradição da trova, o registro impresso costuma ocorrer de forma compartilhada nessas antologias e portais dedicados à preservação da memória lírica. 
Dulcídio é fundamental para a manutenção da tradição da trova clássica no Brasil. Sua importância reside em: Manter acesa a chama literária da Zona da Mata mineira, conectando a nova geração à herança deixada por ícones locais como Belmiro Braga; Suas composições transitam com maestria entre o lirismo filosófico, as temáticas cotidianas da fé, as belezas das cidades brasileiras e a sensibilidade social para com os menos favorecidos; Ao atuar ativamente em entidade trovadoresca e em comissões julgadoras, ajuda a garantir o rigor técnico e a vitalidade da trova poética em língua portuguesa.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Renato Alves (Plantando Trovas)


1
A água pura não tem cor,
nem branca, nem amarela;
não tem cheiro, nem sabor...
Mas ninguém vive sem ela!
2
Agradeço a quem quiser-me
como eu sou, como um irmão...
Não é na cor da epiderme
que se vê meu coração!
3
Ao receber tuas cartas
uma frustração me invade:
tu me dás notícias fartas,
mas me matas de saudade!
4
Ao repensar minha história,
encontrei com emoção
por trás de cada vitória
um mestre no coração!
5
Ao te encontrar, velha agenda,
lá no fundo da gaveta,
meu passado se desvenda...
És a minha “caixa-preta”!
6
Beleza de mais efeito
que este colar de rainha
tu não tens sobre o teu peito,
dentro dele é que se aninha...
7
Com esplendor natural
e fulgor exuberante,
de uma gota no varal
o sol faz um diamante.
8
“Conhecer não é saber”
- ensina a douta ciência...
”Pôr alma no que aprender” ,
isto, sim, é sapiência!
9
Coração, relógio louco
que registra o meu desejo,
bate muito ou bate pouco,
na medida em que te vejo!
10
De meu pai herdei o nome,
de minha mãe, a ternura;
da pobreza herdei a fome,
a minha herança mais dura!
11
Eis meu desejo ideal,
minha utopia e quimera:
– Ver teus braços, afinal,
abrirem-se à minha espera!
12
Escute a voz da razão:
– Nunca esmoreça, persista!...
É com determinação
que o sonho vira conquista.
13
Mais rápido do que a luz,
através do imaginar,
pensamento nos conduz
a todo e qualquer lugar,
14
Mesmo em meio à dura lida,
fazer versos nos renova:
– Cabe todo o bem da vida
nas quatro linhas da trova!
15
Mil livros já devorei,
mas neles não achei graça,
até hoje eu nada sei...
– Muito prazer, sou a traça!
16
Minha vida era rotina
tão amarga quanto fel,
mas transformou-se, menina,
com sua chegada, em mel!
17
Não diga que é velho alguém
pela idade transcorrida...
Só é velho quem não tem
mais sonhos em sua vida!
18
Ninguém há que saiba tudo,
nem tudo pode saber...
Muito se aprende e, contudo,
há sempre o que se aprender!
19
No campo foi algodão,
tornou-se fio e tecido,
ganhou cor e confecção...
Está pronto o seu vestido!
20
Nunca condenes o irmão
sem de provas ter ciência;
dá-lhe, sem contestação,
a presunção da inocência.
21
O gajo, sendo um velhaco,
engajou-se bem no ofício:
– um cargo de puxa-saco
pra puxar palma em comício!
22
O mar geme nos rochedos
prantos tão desconsolados,
pois guarda muitos segredos
e sonhos dos afogados...
23
O mestre faz da alma um templo
para ouvir nossa oração,
e, assim, mostra que é o exemplo
que ensina qualquer lição!
24
O muro é separação,
produto de preconceito;
se você quer união,
construa pontes no peito!
25
O trabalho é punição,
uma herança do passado...
Deus quis castigar Adão,
e sobrou pro nosso lado!..
26
“O vinho seco faz bem!”
- recomendou sua avó...
E ele foi ao armazém,
e lá pediu: “Vinho em pó!”
27
Pandorga... cafifa... pipas...
tens nomes em abundância,
mas com todos participas
dos sonhos da nossa infância!
28
Planto o grão com uma meta:
- Gerar vida em profusão...
E este ciclo se completa
quando o trigo vira pão.
29
Pode ser pobre ou poeta,
sem perder a autoestima;
mas há de ter como meta
não ter pobreza na rima.
30
Quando a feia se “embeleza” ,
mas o resultado é trágico,
diz o espelho, que se preza:
– Ela pensa quer eu sou mágico!...
31
Quando a humana insensatez
dissemina a poluição,
para ter sol outra vez,
só com imaginação...
32
Quando do meu lar amado
transpus o velho portão,
pedaços do meu passado
espalharam-se no chão!
33
Quando estou no teu regaço,
tu me dás consolo e mel...
Como há sonho em teu espaço,
livro, amigo de papel!
34
Quando o amor é inconsequente,
nas mais tórridas paixões,
pode fundir-se a corrente
que liga os dois corações!
35
Quem de si não cede nada,
no céu não terá lugar.
Coisa mais abençoada
do que receber... é dar!
36
Quem não tem medo da morte,
quem nunca faz nada em vão,
quem, antes de tudo é um forte...
Este é o homem do sertão!
37
Que nome você daria
ao que sente a mãe que chora
ao pé da cama vazia
de um filho que foi embora?...
38
Razão e Emoção, na gente,
são irmãs, mas não se dão:
a primeira habita a mente,
a segunda, o coração!
39
Se és de fato um vencedor
deves sempre ter em vista,
não o prêmio e seu valor,
mas o prazer da conquista!
40
Se és duro de coração,
não perdes por esperar:
do céu só terá perdão
quem é capaz de perdoar.
41
Ser poeta é transformar
a palavra em brasa ardente
para com ela queimar
a emoção que está na gente!
42
Se tens pela vida apreço,
não entres na droga braba!
Tu decides o começo,
mas não sabes como acaba.
43
Sigo, no delírio infindo
da saudade que me arrasa,
uma só música ouvindo:
os teus passos pela casa!
44
Sob chuva ou sol que abrasa,
como nos tempos antigos,
o portão da minha casa
não se fecha aos meus amigos!
45
Tal qual pérola valiosa
que na ostra tem morada,
minha alma tão pretensiosa
mora no peito da amada.
46
Te enfeiticei, fui omisso,
quis um “caso” passageiro;
mas o Amor fez o feitiço
virar contra o feiticeiro!
47
Ter fé, amor, otimismo
e uma inabalável crença
nos faz saltar sobre o abismo
de qualquer indiferença!
48
Terrível palavra é o “não”
que corta, poda, cerceia...
Feliz quem, no coração,
traz o “sim” que a paz semeia!
49
Trovador que espalha o sonho
que lhe mora n’alma inquieta
confessa ao mundo, risonho,
a bênção que é ser poeta!
50
Tua pele o vento alisa,
sensual, com seu frescor.
Como eu invejo esta brisa
que te alisa, meu amor!...
51
Tu me prendes, me agrilhoas,
me escravizas sem sentir,
mas destas algemas boas
eu não pretendo fugir..
52
“Vitamina está na casca!”
- De um comilão eu ouvi...
E quase que ele se enrasca
ao comer abacaxi!
53
Voltei a ter confiança
neste mundo tão ruim
ao descobrir a criança
que ainda habitava em mim!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Renato Alves (1939)
    O professor e trovador RENATO ALVES é uma das figuras mais respeitadas e influentes do movimento trovadoresco contemporâneo no Brasil, reconhecido por sua erudição técnica e sensibilidade lírica. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 1939. Filho de Alberto Alves e da portuguesa Maria Thereza Alves. Desenvolveu toda a sua vida e trajetória intelectual radicado na própria capital fluminense. Renato Alves graduou-se como Licenciado em Letras pela Universidade do Brasil (a atual UFRJ). Dedicou grande parte de sua vida ao magistério, atuando como professor de Língua Portuguesa e Literatura nas redes pública e privada de ensino do Rio de Janeiro. Ele permaneceu ativo nas salas de aula até sua aposentadoria, ocorrida em 2005.
Sua inserção no meio literário confunde-se com a história da própria Trova no Brasil. Destacou-se como um profundo estudioso da redondilha maior (versos de sete sílabas poéticas) e das estruturas de rima e ritmo da trova tradicional. Teve papel de liderança na diretoria da UBT - Seção Rio de Janeiro. Tornou-se também o editor do Informativo desta seção. Possui forte colaboração com certames e academias literárias fluminenses e nacionais (como a Academia Fluminense de Letras e a Academia Brasileira da Trova). É detentor de inúmeras premiações de relevância, incluindo medalhas de Ouro nos concursos de trovas da Academia de Letras e Artes de Paranapuã (ALAP), classificações de destaque nos Jogos Florais e primeiros lugares em disputas como o Concurso de Poesia da Bauernfest.
Sua produção poética está espalhada em dezenas de antologias oficiais da trova, almanaques trovadorescos e publicações coletivas. É muito reconhecido por sua faceta didática, sendo o autor de colunas críticas importantes como a "Comentando Trovas" e o "Manual de Orientação para Julgadores”. 
A relevância de Renato Alves para a literatura brasileira reside em sua atuação como guardião e pedagogo da Trova. Ele não se limitou a escrever poemas; ele dedicou-se a ensinar os critérios técnicos para que uma trova atinja o chamado "achado poético" (a imagem original condensada em 28 sílabas). Como uma das principais "cabeças pensantes" do movimento trovadoresco fluminense, ele moldou as diretrizes modernas de julgamento de concursos literários, ajudando a manter viva uma das manifestações mais tradicionais e populares da poesia em língua portuguesa.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

João Costa (Falando de Amor)


Num mar de pura magia
o umbral do tempo transponho,
rumo ao reino da utopia,
na caravela do sonho.

Um gosto de fim de festa,
tristeza, desilusão
É tudo, enfim, que nos resta
depois que os sonhos se vão...

Em meu delírio, cansado
de tanto em vão te esperar,
a saudade canta um fado
e faz minha alma chorar.

Peço-te perdão, querida ,
pela audácia de querer-te,
de sonhar-te em minha vida,
de imaginar merecer-te.

Nossas emoções primeiras,
sob o efeito da paixão,
são fortes, mas passageiras,
como chuvas de verão.

Viva intensamente quem
tem um sonho a ser vivido
que a saudade sempre vem
atrás de um sonho perdido…

Não me indagues por que te amo.
Não saberia dizer.
Eu te amo só porque te amo.
Que outra razão pode haver?

A vida é triste, sombria,
nesta minha solidão.
Sem a tua companhia,
é inverno em pleno verão.

A noite é perfeita e bela,
a lua encanta e seduz,
tecendo em nossa janela
uma cortina de luz.

Poesia, vida, beleza,
bem-aventurança, dor,
felicidade, tristeza…
É isso e bem mais o amor.

Jurei que não voltaria,
ao partir, e assim o fiz.
Lamento essa teimosia
que só me fez infeliz…

De príncipe me chamava
e a gente era tão feliz.
E quando não mais se amava,
nem como escravo me quis.

Tu me prendes com abraços,
torturas com tal paixão,
que, sendo algemas teus braços,
bendita seja a prisão!

Nem ouro nem o fulgor
dos diamantes trago, e sim,
no peito, a rosa do amor;
nas mãos, carinhos sem fim.

Passa o tempo… Passa a vida…
E eu não consigo esquecer-te.
Não me perdôo, querida,
pelo crime de perder-te.

É noite… Insone, penando,
nesta triste solidão,
ouço o silêncio gritando
dentro do meu coração.

Na despedida, confiei
na promessa que fizeste:
– Espera-me, eu voltarei!
Mas quando… não me disseste.

Dos bons acontecimentos
de minha vida, bendigo
aqueles doces mementos
que pude viver contigo.

Desiludido da vida,
do amor – em total entrega -,
sou folha no chão caída
que nem o vento carrega.

Desfeito o sonho mais puro,
longe de quem tanto quis,
para não sofrer, procuro
esquecer que fui feliz…

Não ambiciono o Eldorado.
Meu mundo, embora singelo,
contigo sempre ao meu lado,
é dos mundos o mais belo.

Relembramdo tempos idos,
abro a agenda da memória
e encontro sonhos perdidos,
pedaços da nossa história.

Quero um relógio, querida,
cujo mágico processo,
atrase a tua partida
e abrevie o teu regresso.

– Eu volto! – me consolava.
Mas, em profunda agonia,
meu coração pressagiava
que ela jamais voltaria…

Somos metades perdidas
e eu espero te encontrar.
E esperarei quantas vidas
ainda tiver que esperar…

Cansado de tanto errar,
nessa procura infeliz,
já nem sei se ao te encontrar
eu me sentirei feliz.

Que te amo ao mundo proclamo.
Duvidas, mas eu insisto.
Se é mentira, amor, que eu te amo,
é mentira que eu existo.

O tempo passa…Demoras…
E eu aqui a te esperar.
Meu amor, quantas auroras,
nessa espera, vi chegar!…

Voltarás…Que importa quando?
Eu só sei que voltarás…
Estarei sempre esperando
o dia em que tu virás.

Por esta senda de espinhos,
vou sufocando meus ais,
pois eu sou, sem teus carinhos,
o mais triste dos mortais.

Quis-te para sempre, amor,
mas me deste a solidão.
Hoje és saudade e esta dor
é eterna em meu coração…

Quando as almas são unidas
pelo amor, completamente,
deixam de ser duas vidas
para ser uma somente.

A noite é toda poesia.
Lua e estrelas a brilhar…
Mas, sem tua companhia
de que me serve o luar?…

De exuberância suprema,
que nos encanta e extasia,
cada alvorada é um poema
que Deus compõe todo dia.

Tua presença é poesia,
tudo de bom para mim;
teu sorriso pressagia
felicidade sem fim…

Os meus dias são tristonhos.
Tu não vens e o tempo avança.
Nem mesmo no mar dos sonhos
vislumbro a nau da esperança.

Quando eu me for desta vida,
irei a meu Deus pedir
que ele me faça, querida,
reencontrar-te no porvir.

Descobri, ao te perder,
que, sem direito a perdão,
fui condenado a viver
algemado à solidão.

De saudade angustiado,
faço versos soluçando
e cada trova é um recado
por teu regresso implorando.

Mais triste e pior castigo
do que o meu não pode haver:
- Não pode viver contigo,
sem ti não saber viver...

Nós dois... A felicidade...
Muito amor... Sonhos... Depois,
a distância e a saudade
como abismo entre nós dois...

Que importa o tempo passado,
se é tão grata a descoberta?
- Ao ver-te ainda ao meu lado,
sei que fiz a escolha certa!

Dei a ti meu coração,
muito te amei e te quis.
Se tudo foi ilusão,
não importa, eu fui feliz!...

Os meus versos se calaram,
à saudade sucumbi,
minhas lágrimas secaram
de tanto chorar por ti...

Ao partires, me disseste:
- Espera-me, eu voltarei!
O tempo passou... Não vieste...
E o pior: eu te esperei.

Recomeça a nostalgia
quando o dia vai morrendo.
Não suporto esta agonia.
Volta, amor, estou sofrendo!

O tempo que tudo apaga,
promovendo o esquecimento,
em vez de apagar afaga
teu nome em meu pensamento.

Que em tua ausência dispare,
eu apelo ao tempo; e quando
estivermos juntos, pare,
o momento eternizando.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
João Costa (1952)
O poeta e trovador conhecido no meio literário como o "Trovador de Saquarema" é o escritor fluminense João Costa. Conhecido por sua dedicação irretocável à trova, ele marcou seu nome na história dos Jogos Florais do estado do Rio de Janeiro. Nascido no distrito de Monnerat, no município de Duas Barras, estado do Rio de Janeiro, em 1952. Embora tenha nascido em Duas Barras, viveu grande parte de sua infância, juventude e início de carreira na cidade de Nova Friburgo (RJ). Posteriormente, mudou-se para o município litorâneo de Saquarema (RJ), localidade onde se estabeleceu permanentemente e que lhe rendeu o carinhoso título regional. Antes de se dedicar integralmente à preservação e ensino da trova, João Costa construiu uma carreira sólida na comunicação. Trabalhou durante anos no meio radiofônico, atuando com destaque na histórica Rádio Nova Friburgo AM. Seu trabalho na radiodifusão foi o elo principal que o aproximou de intelectuais, poetas e do movimento trovadoresco do estado.
Sua caminhada na literatura é intimamente ligada ao resgate histórico e prático da trova fluminense. Em Nova Friburgo, conviveu e aprendeu com grandes referências do gênero, como Rodolpho Abbud, Aloízio de Moura, Nádia Huguenin e o próprio J. G. de Araújo Jorge (um dos maiores pilares da trova nacional). A partir dessa convivência, João Costa transformou-se em um embaixador do gênero, organizando e participando ativamente de tertúlias, saraus e oficinas para crianças em escolas públicas. Ao longo de décadas de dedicação à poesia, foi premiado e recebeu menções honrosas em diversos Jogos Florais (concursos específicos de trovas de âmbito nacional e estadual). Além disso, sua maior honraria é o reconhecimento pedagógico, sendo constantemente homenageado por redes municipais de ensino fluminenses através de projetos como a "Manhã Literária".
Sua publicação mais célebre funciona simultaneamente como uma autobiografia e um documento historiográfico, relatando minuciosamente a história e a evolução da trova em Nova Friburgo e no estado do Rio de Janeiro. A obra compila dezenas de trovas autorais marcantes, como os versos dedicados ao principal monumento rochoso friburguense. 
A relevância de João Costa para a literatura brasileira concentra-se em seu papel como guardião de uma tradição poética genuína. A trova é uma das formas de poesia mais democráticas e populares da língua portuguesa, e o trabalho de João Costa impede que ela caia no esquecimento. Ao levar o formato para dentro das salas de aula e registrar a memória histórica dos antigos trovadores fluminenses, ele atua não apenas como criador de beleza estética, mas como um educador patrimonial e incentivador da leitura para as novas gerações de poetas.

Fonte:
João Costa. Meu Caderno de Trovas. Saquarema, RJ: Edição Artesanal, 2011. Enviado pelo trovador.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Wanda de Paula Mourthé (Semeando Trovas)


Ao se casar o carteiro,
o bebê chega depressa;
— Comigo o tiro é certeiro,
e a encomenda, via expressa!
= = = = = = = = =

A Raimunda chega ao baile,
e logo se esquenta o clima,
pois alguns "cegos" em braile,
querem só tocar na rima!
= = = = = = = = =

A toda pergunta feita
respondeu com tanto "não"
que lhe aplicou a Receita
multa por "só... negação"!
= = = = = = = = =

A vendedora ladina
jura que não é trapaça:
— Olha o véu que a Messalina
"não" usou por ser devassa!
= = = = = = = = =

Com Adão no paraíso,
Eva pensa ao ir pra cama;
— Ah! Se eu tivesse juízo,
dava pra ele... um pijama!
= = = = = = = = =

Com tristeza e desencanto,
vejo um mundo injusto e louco;
Há tão poucos tendo tanto,
e há tantos tendo tão pouco!
= = = = = = = = =

Convidado a ver pelada,
diz, irado, o garanhão;
— Mulher pelada? Que nada!
Só vi homem de calção!
= = = = = = = = =

Diz a galinha-d'angola:
— Meu marido é mesmo um saco!
Quando tiro a camisola,
logo ele grita: — "Tô fraco"!
= = = = = = = = =

Em meu sonho, a sogra berra:
— Joga mil no burro e dobra! —
Mas seu palpite me ferra;
burro fui eu... deu a cobra!
= = = = = = = = =

Em teu amor não confio...
Já se acabou a ilusão,
pois ele é vento vadio:
sopra em qualquer direção.
= = = = = = = = =

Fujo em estrada penosa,
temendo um amor adverso,
mas a saudade, teimosa,
percorre o caminho inverso.
= = = = = = = = =

Imperfeita é minha lira:
meu "muso" é manco, coitado!
O verso que ele me inspira
sempre sai de pé quebrado!
= = = = = = = = =

Mesmo em flagrante apanhado,
o malandro finca o pé:
— Trambique? Foi, delegado...
mas com toda a boa fé...
= = = = = = = = =

Minha alma se enleva ao vê-las
em seu fulgor que seduz;
piscapiscando as estrelas
parecem ilhas de luz!…
= = = = = = = = =

Minha mulher é nanica,
mas na cama é colossal:
ronca mais do que cuíca
em bloco de carnaval!
= = = = = = = = =

Na feira de antiguidade,
ao ancião combalido,
perguntam, não sem maldade:
— Vem comprar ou ser vendido?
= = = = = = = = =

Na noite do seu casório,
sendo um noivo muito antigo,
usou até suspensório,
mas não suspendeu o artigo...
= = = = = = = = =

Não receio o que vier,
pois já vislumbro a partida...
mas luto, enquanto eu tiver
uma fagulha de vida!
= = = = = = = = =

No escuro, sente a "mão-boba"...
Grita a velha: — Patifão! —
Mas, entre os dentes, diz: — Oba!
Bendito seja o apagão!
= = = = = = = = =

O ladrão me deu pancada,
me roubou e saiu rindo...
Pra vingar, xinguei, danada,
cada nome feio lindo!
= = = = = = = = =

— O meu marido é carteiro,
porém bem cedo aprendeu
que, no lar, o tempo inteiro,
só quem dá as cartas sou eu!
= = = = = = = = =

O meu problema é pagar
altos custos de energia;
basta a luz eu apagar
que acesa fica a Maria!…
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— O que te disse o Doutor?
Te deu muita informação?
— Informação? Não, amor,
é bebê... "em formação!"
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Pão-duro, o cara declara:
— Ter cara-metade é asneira.
Se a metade já é cara,
imagina a esposa inteira!
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Pensa o luso: — Um pesadelo!
Tudo meu em hipoteca...
É de arrepiar cabelo!
A sorte é que sou careca...
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Pode a vingança depressa
ter consequências fatais.
Sabe-se como começa,
como termina, jamais!
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Quando a Zazá sai da linha,
o Zezé nunca se importa;
a mulher é uma galinha,
mas ele, um galinha-morta!
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Quis apagar a queimada,
mas caiu numa esparrela,
pois, estando "alambicada",
a mais queimada foi ela!
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— Que injustiça aos meus instintos!
Amo o galo, ando na linha,
choco ovos, cuido dos pintos
e me chamam de "galinha"?!!!
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Sem teu amor, meu fanal,
naufraguei entre os escolhos
na profundeza abissal
do mar azul dos teus olhos!
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Sendo tão feia a encalhada,
com reza só conseguiu
um cego, que, na "largada"
pelo braile... desistiu!
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— Senhor, escutai meu rogo,
dai-me um exímio parceiro!
— Filha, pra apagar seu fogo
só lhe arranjando um bombeiro!
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Suja o muro o pichador.
Preso, grita e faz baderna;
— Isto é um engano, Doutor!
Só fiz arte pós-moderna.
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Tendo o Zé imensa pança,
queixa-se sua mulher
que a barriga dele avança,
porém nunca o que ela quer.
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— Tenho grande novidade:
estou grávida. Que apuro!
— Foi contra sua vontade?
— Que nada! Foi contra o muro.
= = = = = = = = =

— Vem furar onda comigo! —
propõe, na praia, a faceira,
Diz o luso; — Que castigo!
Eu não trouxe a furadeira...
= = = = = = = = = =  

— Vendo pipoca, que é o fraco
da criançada, no recreio,
e de tanto que encho saco,
já estou de saco cheio!
= = = = = = = = = = 
Wanda de Paula Mourthé (1929)
WANDA DE PAULA MOURTHÉ é uma das mais proeminentes e premiadas trovadoras e poetisas do estado de Minas Gerais. Reconhecida nacionalmente por sua sensibilidade e domínio técnico da trova, sua trajetória une a erudição acadêmica internacional à leveza da poesia popular. Wanda Lucca de Paula (nome de batismo) / Wanda de Paula Mourthé (nome de casada), nasceu na cidade de Miraí/MG, em 1929. Embora tenha nascido no interior mineiro, fixou residência de longo prazo em Belo Horizonte, além de ter morado e trabalhado no exterior por anos devido à sua carreira docente (notadamente em países como Argélia e França). Wanda Mourthé construiu um vasto e respeitado currículo no ambiente acadêmico internacional. Licenciada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Graduou-se também pela Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de Argel, na Argélia. Atuou profissionalmente como professora de Língua Portuguesa na Université de la Sorbonne Nouvelle, em Paris, na França.
Sua jornada literária começou curiosamente no exterior: a primeira trova que escreveu foi uma reação de felicidade ao receber, de longe, notícias sobre o seu time de futebol, o Atlético Mineiro. Ao retornar ao Brasil, mergulhou de cabeça no universo dos certames literários, tornando-se uma figura indispensável no movimento da trova brasileira.
Acumula diversas distinções em torneios e Jogos Florais por todo o Brasil. Entre suas conquistas de destaque, recebeu o 1º lugar nacional no prestigiado Torneio Lilinha Fernandes (2014) e figurou constantemente nas classificações principais de eventos tradicionais como os Jogos Florais de Curitiba. A produção literária de Wanda encontra-se ricamente pulverizada em centenas de antologias oficiais, coletâneas de Jogos Florais nacionais, além de periódicos e portais especializados em trovas.
A importância de Wanda para a literatura reside em sua capacidade de transitar com maestria pelo humor e pelo lirismo. Ela ajudou a manter viva e pulsante a tradição da trova, provando que uma estrutura poética clássica e rígida pode expressar sentimentos cotidianos de forma profundamente acolhedora, moderna e acessível.

Fonte:
Wanda de Paula Mourthé. Com…passos de emoções. Belo Horizonte: Flux, 2013. Enviado pela trovadora.
Biografia = Revista Encontro, Genealogia de Minas, Recanto das Letras, etc.

Gislaine Canales (Tertúlia da Saudade)

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