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sábado, 5 de setembro de 2026

Nemésio Prata (Plantando Trovas)


1
A droga foi seu arpéu,
sem destino, destroçado,
vagueia na rua, ao léu,
até quando for "levado"!
2
Antes do quebrar da barra,
ao canto do caboré,
sussurrando, ela me agarra,
dizendo: hora do café!
3
Ao relento, relegado,
negado pelo destino;
hoje vive escravizado,
coitado; que desatino!
4
Ao ver a imagem singela
do barco, tranquilo, ao mar,
lembrei-me: não há procela
que Deus não possa acalmar!
5
Chorando, segue o andarilho
solitário, a sua dor;
de deixar pra trás um filho,
fruto de um fugaz amor!
6
Com talento e sutileza
no salão, "a media luz",
o casal mostra a leveza
do belo tango andaluz!
7
Coração, enquanto bate,
é vida, amor e paixão;
mas depois que ele se abate,
é vela, choro e caixão!
8
Correndo, desesperado,
de mala e chapéu na mão,
o passageiro, coitado,
perdeu o trem... e a razão!
9
Deixe a Natureza em paz,
rapaz, tenha mais juízo; 
pois isso que você faz
demonstra falta de siso!
10
Descendo esta escadaria
Onde ela vai me levar?
Se eu soubesse eu desceria;
Como não sei, vou ficar!
11
Despertando, reparei
a "louça" já preparada
em nossa cama, e tomei
o "Café" da madrugada!
12
De toda trova legenda
que já fiz na minha vida
esta veio de encomenda,
pois não dei nem a partida!
13
De tudo que eu aprendi
pra chegar a ser “doutor”,
se, bem, eu o compreendi:
devo muito ao Professor!
14
Deus me livre, por um dia
me faltar um Livro a mão;
de tristeza eu morreria,
em pungente solidão!
15
Deus, o Poeta dos Poetas,
é TROVADOR; e em poesias
manda-nos netos e netas
para encher-nos de alegrias!
16
Dizem, com propriedade,
que a saudade é inexplicável;
explica-se: na verdade,
o senti-la é indecifrável!
17
Dois minutos, Cinderela;
está chegando o momento!
Não vá cair na esparrela
de esquecer o encantamento!
18
É noite, e a brisa do sono
sopra, mansa e sorrateira;
em seus braços me abandono,
enroscado, a noite inteira!
19
Entre lágrimas e risos,
respostas às emoções,
liberamos sentimentos
represos nos corações!
20
Férias! Ah, sim, bem eu sei,
que és bem merecedora;
mas, cá, não esquecerei
de ti, grande trovadora!
21
Homem, mau, vil e perverso;
toda vez que tu desmatas,
mesmo em nome do progresso,
é a ti mesmo que tu matas!
22
Já não suportamos mais
ver os nossos pequeninos,
nas mãos destes marginais:
traficantes-assassinos!
23
Lancei minha rede ao mar
e pesquei bela sereia
que comigo foi deitar
noutra rede, em plena areia!
24
Maranguape a tua glória
são teus filhos de valor;
foi Capistrano, na História,
e Chico Anísio, no Humor!
25
Na mata o machado bate
forte pra tirar "madeira";
e assim o "homem" abate,
uma a uma, a mata inteira!
26
Na mão o toco de giz,
na outra, o apagador;
na assistência o aprendiz,
no tablado o Professor!
27
Não "curta" a sua velhice
dando voz ao seu lamento;
deixe dessa "caduquice"
seu "velhote" rabugento!
28
Não queiras por teu amigo
quem não pode ser provado
no dar água, pão e abrigo,
para alguém necessitado!
29
Na solidão do meu eu,
fugindo da realidade,
meu pensamento varreu
da mente toda verdade!
30
No céu, as nuvens, e as flores,
no campo; um quadro sem par.
É Deus tingindo de cores
a Primavera a chegar!
31
Nos bailes não dava trela,
e a todos dizia não;
mas no fim foi a donzela
quem "dançou": ficou na mão!
32
Nos braços do seu amor,
loucamente apaixonada,
ela sente o seu calor
mesmo sob a chuvarada!
33
O ato de ler praticado
com prazer, pelo leitor;
no final, seu resultado,
assemelha-se ao do amor!
34
O bailarino, indeciso,
na chuva, dá mil volteios;
e o lampião diz, bem preciso:
homem, deixe de rodeios!
35
O envelhecer é sublime
presente a nós concedido
por Deus; o que bem exprime:
Dele, ninguém é esquecido!
36
Olhando com bem clareza
pras marcas do seu herdeiro,
já não tem tanta certeza
de ser o pai verdadeiro!
37
Olho azul, branco e lourinho
o filho do "Zé Negão"
lembrava mais o vizinho;
coitado, tinha razão!
38
Os dois silentes, colados,
corações a palpitar;
olhares apaixonados...
já pensou no que vai dar?
39
Para cuidar da saúde
com desvelo e competência
busco Médico amiúde,
amigo, de preferência!
40
Passei horas meditando,
pensando no que dizer;
terminei nada compondo,
sem nada para escrever!
41
Perdido na multidão
das ruas, sem ter alguém
que ao menos lhe estenda a mão;
não passa de um "Zé Ninguém"!
42
Pintor, por que teimas ver
o teu sol onde ele não
pode mais aparecer,
vítima da poluição?
43
Por aqui passava um rio
caudaloso e pleno em vida;
hoje mal se vê um fio
d'água suja e poluída!
44
Quando chove no sertão
o sertanejo se apega
ao santo de devoção,
esperando pela sega!
45
Quem ama a literatura,
e a ela se entrega, tem
prazer não só na leitura,
mas, no produzir, também!
46
Quem busca noiva, é preciso
que tome muito cuidado;
procure uma de bom siso,
pra não terminar "ornado"!
47
Quem corta, na natureza,
árvores sem precisão,
destrói-a e deixa-a indefesa;
é um ser sem coração!
48
Selva: bela e exuberante;
cria, de rara beleza,
de Deus que, naquele instante,
nominou-a... Natureza!
49
Sem um "pingo" de pudor
o mar fita a lua, arfante,
clamando: vem meu amor,
quero te ter por amante!
50
Ser Poeta neste mundo
é cultivar nele o Amor;
sentimento mais fecundo
na vida do TROVADOR!
51
Se tu estás velho, também,
mais perto de Deus tu estás;
tem tu, pois, por grande bem
ser velho, e bem viverás!
52
Se você anda amargado,
tristonho, ou com grande dor,
procure ser "medicado"
por um Doutor TROVADOR!
53
Se você sofre de tédio
só tem um jeito: tomar
TROVADOR, santo remédio;
e seu tédio vai passar!
54
- Solta-me! Clama o navio
ao cais que o faz prisioneiro;
- deixa-me sair vadio
pelo mar... que é meu parceiro!
55
Tem coisas que não se explica
na vida de um TROVADOR;
uma: é quanto ele mais fica
só, mais cultiva o Amor!
56
Tem Poeta nesta terra
que seus versos dão prazer
de lê-los, pois ele encerra
numa Trova o seu dizer!
57
Tem quem só quer receber
para si o que é melhor,
porém ao aparecer
chance pra dar: dá o pior!
58
Toda noite o seresteiro
aguardava a madrugada
para declarar, faceiro,
seu amor à sua amada!
59
Todo livro deve que ter
"título" bem eficaz...
pois não é que o meu vai ser:
Leia-me... (se for capaz).
60
Triste sina a da criança
deste meu Brasil gigante;
vive “presa” na esperança
de escapar do traficante!
61
Uma folha de caderno,
um lápis, e a inspiração,
bastam ao trovador terno
pra lhe abrir o coração!
62
Vendo a imensidão do mar
pensei cá, com meus botões:
se esta turbina falhar
tem "janta" pros tubarões!
63
Vindo de tão longe, não
se deu conta que chegara
ao seu velho e antigo chão,
que há muito tempo deixara!
64
Voa, canário indeciso,
o que esperas; afinal
seres liberto é preciso,
mesmo pensando irreal!
Três Trovas sem Pé nem Cabeça
65
Sem barulho, corta o céu
por entre as nuvens, um trem,
levando pro beleléu
a lua, e o sol também!
66
Era noite e a lua cheia,
viu chegar a madrugada,
trazendo o sol, em candeia,
deixando-lhe "encandeada"!
67
Não deixe a coisa ficar
do jeito que já não dê
pra você, um jeito dar,
no sujeito que é você!
Teia de Trovas sobre o Limão
68
No meio do laranjal
que plantei lá no sertão
deu-se um fato especial:
só foi colhido limão!
69
Recebendo este recado
do presidente Alencar
vou tomar maior cuidado
quando limão for provar!
70
Trovando e tirando as provas
deste fato memorável;
provei, brincando com trovas,
de que o limão é saudável!
71
Ao tomar a limonada
vá bebendo devagar
sorvendo cada golada
pro seu gosto apreciar!
72
Pode até não ser remédio
mas não dê cavaco não;
agora, ao chegar o tédio
o remédio é... com limão!
73
Cabe a cada cidadão
interpretar os pontinhos
desde que o "velho" limão
não falte nos pingadinhos!
74
Se você não é chegado
a quaisquer pingas, então:
esqueça logo o pingado
e chupe, puro, o limão!
75
Quem muito chupa limão,
dizem alguns entendidos,
melhora a "disposição":
aceito seus desmentidos!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Nemésio Prata
NEMÉSIO PRATA CRISÓSTOMO é um destacado poeta e trovador cearense, amplamente reconhecido no meio literário da trova nacional. Embora sua produção literária seja bastante ativa e premiada É associado a Fortaleza/CE, cidade onde reside e desenvolveu grande parte de suas atividades culturais e estudantis (consta, por exemplo, na lista histórica de alunos do Colégio Militar de Fortaleza. Nemésio é uma figura carimbada e altamente premiada em Jogos Florais pelo Brasil. Entre suas marcas registradas estão premiações de destaque no Prêmio de Poesia e Trovas Juvenal Galeno, no Concurso de Trovas de Maranguape, no Prêmio Chico Anysio, além de participações em eventos de destaque como os Jogos Florais de Viçosa/MG (2024). Suas trovas e poemas aparecem com frequência em coletâneas especializadas e almanaques literários de circulação nacional, como o conceituado Almanaque Literário O Voo da Gralha Azul
A relevância de Nemésio Prata Crisóstomo reside na preservação e fomento da trova, uma das formas poéticas mais tradicionais, exigentes e populares da Língua Portuguesa. Ao produzir trovas que combinam rigor formal com temas cotidianos, sociais e filosóficos, ele ajuda a manter viva a tradição dos menestréis e trovadores no Nordeste e no Brasil, garantindo que essa rica herança poética continue alcançando novas gerações.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Jessé F. Nascimento (Plantando Trovas)


1
A formiga, na labuta,
nos dá profunda lição;
não se curva ao peso e à luta,
vive em perfeita união.
2
Ah, relógio, meu amigo,
teus ponteiros, como correm!
O tempo voa contigo
e com ele os sonhos morrem...
3
Após tantos desenganos
e conselhos não ouvidos,
chego ao final dos meus anos
sem ter meus dias vividos.
4
“Aproveite a promoção”,
na loja, a faixa dizia;
aproveitou-a o ladrão,
num cochilo do vigia.
5
À sombra dos arvoredos,
dos meus sonhos de criança,
na rua dos meus folguedos
havia a placa: Esperança.
6
Caminhos, jardins e praças,
flores, cores - que beleza!
Deus derrama suas graças
dando graça à natureza!
7
Chora o coração sentindo
tristeza, nunca revolta;
os amigos vão partindo
numa viagem sem volta.
8
Com meus sonhos mais singelos,
embalados na esperança,
venho erguendo meus castelos
desde os tempos de criança.
9
Com respeito e amor, de fato,
um mundo melhor se faz;
e simbolizando o ato:
– a pomba branca da paz.
10
Corres tanto, mocidade,
és pela vida levada:
– amanhã, serás saudade,
serás velhice, mais nada.
11
Curtindo muita amargura,
trancado na solidão,
anônimo, sou figura
no meio da multidão.
12
Da infância alegre e sadia
guardo uma eterna lembrança.
“Meu Deus, oh, quanto queria
ser novamente criança."
13
Dos meus sonhos de criança
e dos folguedos, saudade!
E na rua da lembrança,
a placa: – Felicidade!
14
Em seu pensamento insano,
vindo a tudo destruir,
como pode o ser humano
a arara azul extinguir?
15
Extraí toda a beleza
de uma vida bem vivida;
e a velhice, com certeza,
vai adiando a partida...
16
Galgo nuvens montanhosas,
sou na vida um alpinista;
mesmo em trilhas perigosas,
busco os sonhos da conquista.
17
Leu “Campanha do Agasalho”,
quando por ali passou;
o espertalhão ou paspalho
em vez de deixar, pegou.
18
Não adormeças teus sonhos,
não os esqueças, jamais;
os dias são mais risonhos
pra aqueles que sonham mais.
19
Não censuro o teu pecado,
não me censures também;
de vidro é o nosso telhado,
pecados... quem não os têm?
20
Não há glória, com certeza,
nem desafio maior,
que a conquista da riqueza
com trabalho e com suor.
21
Não viva em sonhos somente,
mas com todo o seu ardor,
viva mais intensamente
os seus momentos de amor.
22
Navegando nas poesias,
nas ondas da inspiração,
iço as velas de alegrias
deixo o rumo ao coração.
23
Navego em ondas serenas
ou mar às vezes cruel;
consciente, sou apenas
um barquinho de papel.
24
Nesta vida, de passagem
sem morada permanente,
numa tão breve viagem,
sou um turista somente.
25
Noite bela e enluarada,
vejo-me em sonho bonito,
numa tênue caminhada
rumando para o infinito.
26
No meu sonho mais profundo,
em pensamentos imerso,
eu fui além do meu mundo,
viajei pelo universo.
27
No silêncio dos meus dias,
alheio a tudo e à razão,
eu vivo as noites vazias
abraçado à solidão...
28
Num cenário colorido,
cheio de encanto e alegria,
a vida tem mais sentido:
– a primavera extasia!
29
O céu de nuvens ornado,
as ondas vêm e se vão;
na areia, um carro isolado:
– o mar...dois jovens...paixão...
30
O genro sempre é quem dança,
a minha sogra é um porre;
o nome dela é "Esperança"
que é a última que morre.
31
Pôr do sol... em frente ao mar,
na rede os jovens, sentados,
num cenário singular,
trocam segredos e agrados.
32
Pra acreditar foi um custo;
na primeira gravidez,
levou um tremendo susto;
foram cinco de uma vez!
33
Pressuroso em meu afã
de projetar minha ação,
sempre esqueço: é o amanhã
ponto de interrogação.
34
Semelhante a um quartel
tem sido assim minha casa;
minha mulher, coronel
e eu sempre patente rasa.
35
Sempre fui um sonhador,
sonhos...por que não os ter?
Vivo meus sonhos de amor
porque sonhar é viver.
36
Ser solteiro é livre estar,
jamais me vejo casado;
para subir ao altar,
só vou mesmo acorrentado...
37
Tenho ciúme e desgosto,
quando, à noite, leve brisa
afaga o teu meigo rosto
e os teus cabelos alisa.
38
Teu olhar, quanta ternura! 
Tuas mãos, quanto carinho! 
Teu amor, oh, que ventura
pôs a vida em meu caminho.
39
Velhice, andar vacilante;
noite... a sombra descortina
o seu passado distante:
– os tempos de bailarina.
40
Viçosas, plantas e flores,
a natureza se esmera.
É o despertar dos amores,
tudo é belo. É primavera!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
JESSÉ FERNANDES DO NASCIMENTO nasceu em 1944, em Ibiraçu/ ES. Filho de José Antonio do Nascimento e Júlia Fernandes Nascimento. Mudou-se para o estado do Rio de Janeiro, onde residiu por mais de 50 anos na capital fluminense. Posteriormente, transferiu sua residência fixa para a cidade histórica de Angra dos Reis (RJ). Atuou e aposentou-se como jornalista. Descobriu o encanto pela trova ainda na adolescência, quando ganhou de presente de uma prima o livro "Meus irmãos, os Trovadores". Aos 16 anos, participou e foi premiado em seu primeiro concurso de trovas (promovido pela Rádio Mayrink Veiga). Escreve de forma prolífica e possui mais de uma centena de crônicas, contos e poesias publicados em plataformas de leitura literária digital, como o Recanto das Letras. É um trovador premiado e veterano em concursos nacionais de grande relevância na cultura da trova. Entre suas distinções, destacam-se posições laureadas em certames como o Concurso de Trovas de Maranguape/CE, o Prêmio Capistrano de Abreu, os Jogos Florais e concursos de São Gonçalo/RJ, Caicó/RN e Itaocara/RJ. Na Coleção Terra e Céu, antologia poética que reúne suas principais e mais celebradas trovas. Ele também possui participação em dezenas de coletâneas e coletivos de Jogos Florais impressos por todo o Brasil.
A importância de Jessé Fernandes do Nascimento concentra-se na preservação e difusão da Trova no Brasil. Como jornalista e delegado, Jessé atua como um verdadeiro guardião dessa herança cultural, ajudando a descentralizar a poesia e levando oficinas, concursos e visibilidade literária para a região de Angra dos Reis. Sua escrita é reconhecida entre seus pares pela extrema precisão métrica e capacidade de emocionar através da concisão lírica e filosófica. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Octávio Babo Filho (Trovas Avulsas)


1
A diferença que vejo
entre a virtude e o pecado:
– virtuoso - peca a varejo,
pecador - por atacado.
2
A facilidade imensa
com que os homens são julgados
simboliza bem a crença
de sermos todos culpados.
3
A força do inevitável,
já pela força que tem,
faz o destino imutável,
sem indagar quem é quem.
4
Ante a vinda inesperada
da indesejável cegonha,
de susto morre a empregada,
morre o patrão... de vergonha!
5
Ao partires, mãe querida,
deixaste a imagem comigo:
nem durante toda a vida
eu te segui como sigo!
6
A paz verdadeira e pura,
que a consciência enobrece,
é a que sente a criatura
que, para subir, não desce.
7
As desventuras da vida,
eu não as conto a ninguém,
pois mágoa, que é transmitida,
se multiplica por cem.
8
Bem que procuro ser santo,
mas não consigo, porque
eu encontro em cada canto
alguém que lembra você...
9
Buscando falsa razão
para razão que não tem,
ninguém ilude o irmão
sem iludir-se também.
10
Construíste mil castelos...
E a tua imaginação,
depois de sonhos tão belos,
quis morar num barracão...
11
Convém às vezes fugir,
porque a presença frequente   
não deixa a gente sentir
se sentem falta da gente.
12
Creio que ninguém duvida
desta inconteste verdade:
há mundo, mas não há vida,
quando falta a liberdade!
13
Dentro da imensa tristeza
que a minha alma sempre invade,
o que me mata é a certeza
de não sentires saudade.
14
Dois destinos são iguais,
na proporção em que dois,
sofrendo menos ou mais,
sofrerão juntos, depois.
15
Enquanto os povos discutem
a teoria da paz,
os mais fracos se desnutrem
e os mais fortes comem mais…
16
Esta Fé que hoje me invade,
traz tanto alento à minha alma
que, dentro da tempestade
sinto a natureza calma!
17
Eu perdi muita amizade,
defendendo injustiçados.
- É que o vento da maldade
sopra de todos os lados.
18
Eu rezo em casa, na igreja,
na rua, em qualquer lugar...
Duvido Deus não esteja
onde costumo rezar!
19
Façamos logo um acordo,
sem queixa, mágoa ou rancor:
– dividamos o ciúme,
multipliquemos o amor.
20
Gosto de moça formosa,
sabendo embora o perigo
- Eu não desprezo uma rosa,
temendo o espinho inimigo…
21
Mãe - é palavra sem rima,
buscá-la é inútil, não tente,
pois mãe está muito acima
de tudo, coisas e gente.
22
Minha mulher não perdoa
a quem me faça maldade.
Não porque ela seja boa:
– pretende é exclusividade!  
23
Na mentira a se perder,
não sabe aquele infeliz
que ele nunca se faz crer
nem nas verdades que diz.
24
Não dou ouvido ao lamento
e não escondo o porquê:
tudo, na vida, é um momento
- e o meu momento é você...
25
Não há calvários iguais,
toda cruz é diferente,
e as cruzes que pesam mais
são sempre as cruzes da gente.
26
Não lhe adivinhando o nome,
batizei-a de Maria.
E o remorso me consome:
– nunca vi tanta heresia!
27
Não nos feneçam os sonhos,
deles precisamos tanto!
Mudam pensares tristonhos
e secam fontes de pranto.
28
Nascemos sentenciados:
“Os que vierem se vão”.
E nem somos informados
do dia da execução...
29
Os santos de antigamente
só foram santos, porque,
conhecendo tanta gente,
não conheceram você...
30
Penetrei fundo demais
no poço das ambições.
Vejo, agora, o mal que faz
um sonho sem proporções.
31
Poeta mau não conheço,
mau poeta ah, isto sim!
Conheço e digo onde mora:
bem aqui… dentro de mim.
32
Por que será que você,
tendo os defeitos que tem,
os seus defeitos não vê,
vendo os dos outros tão bem?
33
Quando penso em falsidade,
teu nome logo me vem:
Teu nome: Felicidade!
- Felicidade? De quem?...
34
Quanta alegria semeia
quem vive sempre contente:
- A felicidade alheia
também faz feliz a gente.
35
Quem da riqueza faz praça,
muito cedo se esqueceu
de que Deus tira de graça
o que, de graça, nos deu.
36
Quem constrói seu barracão
no do vizinho apoiado,
pelo sim e pelo não,
confia... desconfiado!
37
Saber não ocupa espaço,
mas é preciso que a gente,
ao caminhar, passo a passo,
modere o passo da frente...
38
Saudade, o mundo embalando,
dói, de modo tão diverso,
que o poeta, mesmo chorando,
pode cantá-la em seu verso.
39
Se a morte nos avisasse
a respeito do seu dia,
não creio que nos matasse:
a gente é que morreria...
40
Se é por simples gentileza
que a mim você se anuncia,
não me leve a mal, Tristeza!
Prefiro a casa vazia!
41
Se o trabalho me enfastia,
eu dele logo me vingo,
fazendo, de cada dia,
a sucursal de domingo…
42
Se querer fazer mistério
de coisas tão triviais:
- É na paz do cemitério
que vivem todos em paz…
43
Se toda gente soubesse
como custa querer bem,
quanta gente gostaria
de não gostar de ninguém!
44
Tenham medo é dos medrosos
- fugidios, reticentes -,
mil vezes mais perigosos
que os atrevidos valentes...
45
Teus encantos, criatura,
mexeram tanto comigo
que eu vivo da desventura
de sonhar sempre contigo…
46
Toda mulher tem seu quê,
tem um encanto qualquer.
Não tendo, é o que a gente vê
naquela que a gente quer.
47
Trabalho, sem me cansar.
E é tão bom que seja assim!
- Chego, às vezes, a pensar
que Deus trabalha por mim.
48
Ventura... Felicidade...
Duas palavras vazias
que, depois de certa idade,
não enchem mais nossos dias.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
OCTÁVIO BABO FILHO, intelectual carioca de múltiplos interesses que uniu a agudeza do direito à sensibilidade da poesia e da música popular brasileira, nasceu em 1915, na cidade do Rio de Janeiro (RJ)  e faleceu na mesma cidade em 2003, aos 88 anos de idade. Viveu e construiu toda a sua história pessoal e profissional na cidade do Rio de Janeiro. Formou-se em Direito e foi um advogado criminalista e trabalhista altamente conceituado na capital fluminense. Teve um papel de vanguarda social marcante: entre as décadas de 1950 e 1970, tornou-se um dos pioneiros na defesa dos direitos civis e na luta pelos direitos do consumidor no Brasil, antecipando discussões que só viriam a se consolidar juridicamente anos mais tarde. 
Primo do compositor Lamartine Babo, Octávio carregava a veia artística na família. Na literatura, dedicou-se apaixonadamente à arte da trova. Paralelamente, atuou na música popular como compositor e letrista. Sua obra musical mais famosa é a clássica marchinha natalina "O Velhinho" (composta em 1953), eternizada pelos versos "Botei meu sapatinho na janela do quintal...". Seu maior reconhecimento na poesia se deu pelo acolhimento de suas trovas na comunidade literária e em saraus fluminenses. Na música, a canção "O Velhinho" ficou originalmente em 3º lugar em um concurso natalino na voz de João Dias, mas obteve o maior prêmio possível: a consagração absoluta e atemporal do público brasileiro. 
Livros de trovas publicados: Cantigas das Horas Vagas; Ao Correr das Horas  
A relevância de Octávio Babo Filho reside na sua capacidade de manter viva e sofisticar a tradição da trova e da lírica popular brasileira. Em seus livros e escritos, ele demonstrava uma precisão cirúrgica para sintetizar grandes dilemas existenciais — como a melancolia, a finitude, o amor e a ironia do cotidiano — em pequenos blocos rimados de extrema beleza e acessibilidade. Além disso, sua contribuição cruza fronteiras literárias e musicais: ao compor "O Velhinho", ele ofereceu ao Brasil uma das raras e mais emblemáticas identidades de folclore natalino genuinamente nacionais, regravada por nomes que vão de Simone a Caetano Veloso e Roupa Nova.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Henriette Effenberger (Trovas Temáticas)


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SAUDADE
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Para falar de saudade
sempre se vai precisar
ter um pouquinho de idade
e coisas para lembrar...

Saudade de nossa infância,
saudade de tempos idos...
Saudade pela distância
dos nossos entes queridos.

Saudade de gargalhadas,
saudades da adolescência,
das noites enluaradas,
plenas de efervescência...

Saudade não é lembrança,
saudade não é sofrer.
Lembrança sem esperança,
isso ela pode até ser.…

A campa tão nua e fria
do morto desconhecido
recebeu a cortesia
de um ipê todo florido.

A saudade, envelhecida,
virou apenas lembrança
não dói mais como ferida,
pois já perdeu a esperança…

Na quietude da noite
onde até o silêncio dorme,
a saudade, qual açoite,
retalha o sonho disforme.

Nos meus momentos de insônia,
minha saudade acalanto
e ela, sem cerimônia,
repousa sobre meu pranto.

Pra espantar felicidade,
a maldade tanto fez
que se vestiu de saudade
pra machucar outra vez.

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DESTINO
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A vida que tenho agora
é apenas resultado
de escolhas de outrora,
de opções do passado...

Dizem que eu tive sorte,
que o destino me sorriu,
ao escolher o meu norte
todo caminho se abriu.

O que chamam de destino,
boa, má sorte ou maré
eu apenas denomino
fruto de trabalho e fé.

Sei que fiz o meu destino,
palmo a palmo, linha a linha,
nada veio repentino
nem tive fada madrinha...

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PAZ
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A paz nem sempre é perfeita,
esconde-se em descaminhos,
entre dores, fica à espreita,
como rosa entre os espinhos.

Paz: muitas vezes usada
para gerar tanta guerra,
palavra tão desgastada,
não a vemos cá na Terra.

Pedir paz é tão vulgar,
lugar comum, um clichê;
melhor mesmo é desejar
que a paz habite em você...

Viver na Paz do Senhor,
nos dizia a tia Sila,
só mesmo com muito amor
e com fé que não vacila.

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ESTAÇÕES DO ANO
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Bom seria cada dia
viver como a primavera,
trazendo luz e alegria,
pois o verão nos espera..

Na primavera me aninho,
sou colibri, beija-flor,
sou menina-passarinho
buscando por teu amor...

Gosto de verão “caliente”,
sol daqueles de rachar,
que aquece a alma da gente
e nos convida a amar.

Verão agora é assim
chove, chove, sem parar.
Essa água não tem fim,
parece o céu a chorar...

Às vezes penso que o outono
por vir depois do verão
é uma estação de sono,
de invernos que chegarão...

O  verão com sol brilhando
e um azul no céu sem fim;
no fundo está preparando
o outono que existe em mim...

Não gosto de tempo frio
nem daquele céu cinzento.
O inverno, eu avalio,
é um velho rabugento...
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HENRIETTE EFFENBERGER é uma romancista, contista, poeta, memorialista e autora de literatura infantil da cena contemporânea brasileira. Destaca-se não apenas pela sensibilidade de sua produção, mas também por seu papel combativo na valorização das vozes femininas e como uma forte ativista cultural. Nasceu em 1952, na cidade de Bragança Paulista (SP). Desenvolveu toda a sua trajetória pessoal e profissional em sua terra natal, onde reside e mantém firme sua atuação na comunidade artística local. Formou-se professora primária (Magistério) em 1970. Em 1972, concluiu o curso Técnico em Contabilidade e, em 1975, graduou-se em Administração de Empresas pela Universidade São Francisco (USF). Conciliou suas formações técnicas com o engajamento social e cultural. Trabalhou inicialmente na APAE de sua cidade e, ao longo dos anos, uniu sua veia profissional ao resgate da memória e da história de diferentes instituições regionais por meio de livros encomendados e pesquisas históricas.
Henriette construiu uma carreira sólida na literatura independente nacional. É amplamente reconhecida como uma das criadoras e entusiastas do Mulherio das Letras, um coletivo literário feminista de grande relevância nacional que joga luz sobre a produção de escritoras mulheres. Pertence à ASES (Associação de Escritores de Bragança Paulista): sócia-pioneira, ex-presidente e diretora da instituição. Com uma produção vasta e diversificada, Henriette passeia por diferentes gêneros:
Romances e Ficção: A Ilha dos Anjos (2002, em coautoria com Maria Dulce N. K. Louro) e Quase nada de azul sobre os olhos (2022, seu elogiado primeiro romance solo).  
Contos: Linhas Tortas (2008): composto por contos premiados em concursos literários nacionais e internacionais, com apresentação de Ignácio Loyola Brandão e Fissuras (2018, publicado pela Editora Penalux). Em 2017, organizou a coletânea de contos: Horas partidas e a coletânea de contos e crônicas do Movimento Mulherio das Letras.
Literatura Infantil: As Aventuras do Superagora (2008) e Vida de Sabiá – O que sabiam os sabiás além de assobiar. vencedor do Prêmio João de Barro de Literatura Infantil, editado em 2009, pela Fundação Cultural de Belo Horizonte.
A autora acumula dezenas de prêmios em concursos literários nacionais e internacionais de poesia e prosa. Entre as principais honrarias, destacam-se: Prêmio João de Barro de Literatura Infantil (um dos mais tradicionais e importantes do segmento no Brasil); Prêmio Manaus de Literatura. Sua obra transcendeu as livrarias e tornou-se objeto de pesquisas universitárias. Seu livro Fissuras foi indicado como leitura na pós-graduação em Crítica Feminista da Universidade Federal Fluminense (UFF), e sua produção foi catalogada e estudada na obra acadêmica Vozes Femininas na Literatura Brasileira.
importância de Henriette Effenberger está profundamente atrelada à resistência da literatura descentralizada e ao fortalecimento da autoria feminina no Brasil. Ao criar narrativas que mergulham em fraturas cotidianas (como em Fissuras) e debater as complexidades do universo da mulher, ela subverte estruturas tradicionais e abre espaço para que temas intimistas e sociais caminhem juntos. Além disso, sua dedicação na liderança da ASES e no movimento Mulherio das Letras funciona como uma ponte fundamental para acolher, divulgar e pavimentar o caminho para as novas gerações de escritoras fora dos grandes eixos metropolitanos.

Biografia = Típico Local, Ser Mulher Arte, Papo D’Oro. Editora Penalux. Seção Bragança Paulista, etc.

Hely Marés de Souza (Tertúlia da Saudade)

A neve, o frio, a trincheira... o pracinha suportou. Pela honra brasileira ele não se intimidou. A nossa brava Nação, em festa de aniversári...