A formiga, na labuta,
nos dá profunda lição;
não se curva ao peso e à luta,
vive em perfeita união.
2
Ah, relógio, meu amigo,
teus ponteiros, como correm!
O tempo voa contigo
e com ele os sonhos morrem...
3
Após tantos desenganos
e conselhos não ouvidos,
chego ao final dos meus anos
sem ter meus dias vividos.
4
“Aproveite a promoção”,
na loja, a faixa dizia;
aproveitou-a o ladrão,
num cochilo do vigia.
5
À sombra dos arvoredos,
dos meus sonhos de criança,
na rua dos meus folguedos
havia a placa: Esperança.
6
Caminhos, jardins e praças,
flores, cores - que beleza!
Deus derrama suas graças
dando graça à natureza!
7
Chora o coração sentindo
tristeza, nunca revolta;
os amigos vão partindo
numa viagem sem volta.
8
Com meus sonhos mais singelos,
embalados na esperança,
venho erguendo meus castelos
desde os tempos de criança.
9
Com respeito e amor, de fato,
um mundo melhor se faz;
e simbolizando o ato:
– a pomba branca da paz.
10
Corres tanto, mocidade,
és pela vida levada:
– amanhã, serás saudade,
serás velhice, mais nada.
11
Curtindo muita amargura,
trancado na solidão,
anônimo, sou figura
no meio da multidão.
12
Da infância alegre e sadia
guardo uma eterna lembrança.
“Meu Deus, oh, quanto queria
ser novamente criança."
13
Dos meus sonhos de criança
e dos folguedos, saudade!
E na rua da lembrança,
a placa: – Felicidade!
14
Em seu pensamento insano,
vindo a tudo destruir,
como pode o ser humano
a arara azul extinguir?
15
Extraí toda a beleza
de uma vida bem vivida;
e a velhice, com certeza,
vai adiando a partida...
16
Galgo nuvens montanhosas,
sou na vida um alpinista;
mesmo em trilhas perigosas,
busco os sonhos da conquista.
17
Leu “Campanha do Agasalho”,
quando por ali passou;
o espertalhão ou paspalho
em vez de deixar, pegou.
18
Não adormeças teus sonhos,
não os esqueças, jamais;
os dias são mais risonhos
pra aqueles que sonham mais.
19
Não censuro o teu pecado,
não me censures também;
de vidro é o nosso telhado,
pecados... quem não os têm?
20
Não há glória, com certeza,
nem desafio maior,
que a conquista da riqueza
com trabalho e com suor.
21
Não viva em sonhos somente,
mas com todo o seu ardor,
viva mais intensamente
os seus momentos de amor.
22
Navegando nas poesias,
nas ondas da inspiração,
iço as velas de alegrias
deixo o rumo ao coração.
23
Navego em ondas serenas
ou mar às vezes cruel;
consciente, sou apenas
um barquinho de papel.
24
Nesta vida, de passagem
sem morada permanente,
numa tão breve viagem,
sou um turista somente.
25
Noite bela e enluarada,
vejo-me em sonho bonito,
numa tênue caminhada
rumando para o infinito.
26
No meu sonho mais profundo,
em pensamentos imerso,
eu fui além do meu mundo,
viajei pelo universo.
27
No silêncio dos meus dias,
alheio a tudo e à razão,
eu vivo as noites vazias
abraçado à solidão...
28
Num cenário colorido,
cheio de encanto e alegria,
a vida tem mais sentido:
– a primavera extasia!
29
O céu de nuvens ornado,
as ondas vêm e se vão;
na areia, um carro isolado:
– o mar...dois jovens...paixão...
30
O genro sempre é quem dança,
a minha sogra é um porre;
o nome dela é "Esperança"
que é a última que morre.
31
Pôr do sol... em frente ao mar,
na rede os jovens, sentados,
num cenário singular,
trocam segredos e agrados.
32
Pra acreditar foi um custo;
na primeira gravidez,
levou um tremendo susto;
foram cinco de uma vez!
33
Pressuroso em meu afã
de projetar minha ação,
sempre esqueço: é o amanhã
ponto de interrogação.
34
Semelhante a um quartel
tem sido assim minha casa;
minha mulher, coronel
e eu sempre patente rasa.
35
Sempre fui um sonhador,
sonhos...por que não os ter?
Vivo meus sonhos de amor
porque sonhar é viver.
36
Ser solteiro é livre estar,
jamais me vejo casado;
para subir ao altar,
só vou mesmo acorrentado...
37
Tenho ciúme e desgosto,
quando, à noite, leve brisa
afaga o teu meigo rosto
e os teus cabelos alisa.
38
Teu olhar, quanta ternura!
Tuas mãos, quanto carinho!
Teu amor, oh, que ventura
pôs a vida em meu caminho.
39
Velhice, andar vacilante;
noite... a sombra descortina
o seu passado distante:
– os tempos de bailarina.
40
Viçosas, plantas e flores,
a natureza se esmera.
É o despertar dos amores,
tudo é belo. É primavera!
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JESSÉ FERNANDES DO NASCIMENTO nasceu em 1944, em Ibiraçu/ ES. Filho de José Antonio do Nascimento e Júlia Fernandes Nascimento. Mudou-se para o estado do Rio de Janeiro, onde residiu por mais de 50 anos na capital fluminense. Posteriormente, transferiu sua residência fixa para a cidade histórica de Angra dos Reis (RJ). Atuou e aposentou-se como jornalista. Descobriu o encanto pela trova ainda na adolescência, quando ganhou de presente de uma prima o livro "Meus irmãos, os Trovadores". Aos 16 anos, participou e foi premiado em seu primeiro concurso de trovas (promovido pela Rádio Mayrink Veiga). Escreve de forma prolífica e possui mais de uma centena de crônicas, contos e poesias publicados em plataformas de leitura literária digital, como o Recanto das Letras. É um trovador premiado e veterano em concursos nacionais de grande relevância na cultura da trova. Entre suas distinções, destacam-se posições laureadas em certames como o Concurso de Trovas de Maranguape/CE, o Prêmio Capistrano de Abreu, os Jogos Florais e concursos de São Gonçalo/RJ, Caicó/RN e Itaocara/RJ. Na Coleção Terra e Céu, antologia poética que reúne suas principais e mais celebradas trovas. Ele também possui participação em dezenas de coletâneas e coletivos de Jogos Florais impressos por todo o Brasil.
A importância de Jessé Fernandes do Nascimento concentra-se na preservação e difusão da Trova no Brasil. Como jornalista e delegado, Jessé atua como um verdadeiro guardião dessa herança cultural, ajudando a descentralizar a poesia e levando oficinas, concursos e visibilidade literária para a região de Angra dos Reis. Sua escrita é reconhecida entre seus pares pela extrema precisão métrica e capacidade de emocionar através da concisão lírica e filosófica.




