O MACIEL BARBOSA resolveu, de última hora, que tinha de participar da corrida que acontecia todos os anos. Assim, foi até o local da inscrição e mandou brasa. Não esperava ganhar o primeiro lugar, claro, nem reunia condições físicas para isso. A coisa só ficaria na brincadeira, ao menos aliviaria um pouco o estresse do dia-a-dia e de roldão os muitos problemas com a rotina enervante da vida, sem contar com a falta de serviço, contas para pagar, telefone cortado, celular mudo, prestações do carro vencidas, etc., etc...
Pegou o número que a moça lhe estendeu num pedaço de papel e voltou ligeiro para casa. No caminho, antes de chegar para o almoço, resolveu tomar uma cervejinha. Lugar comum, de costume: o barzinho do Fred Frederico – amigo das peladas de todos os sábados no campinho da ferroviária e no tempo das vacas gordas, das malhações na academia “Mens sana in corpore sano” de um outro da turma, o Leandro “Olho Saltado”. Mal sentou, chegou atrás, no vácuo, o Tadeu Fantini, dono da lanchonete perto da Praça da Prefeitura.
O Fantini, agiota sem escrúpulos (não perdoava nem a mãe). Maciel devia a ele os juros de um cheque sem fundos, (no tempo em que os cheques se faziam moedas de troca) barganhados a vinte por cento há anos. Por conta desse “voador inesperado” o capital há muito havia sido pago, só em “costurar buracos na colcha”, ou seja, nas prorrogações, a título de juros, afora o cara ter abocanhado uma televisão de vinte polegadas, anel de formatura, relógio, vídeo cassete um Fusca bem conservado e até a mesa de escritório com cadeiras e escrivaninha de computador. Maciel Barbosa tremeu na base.
Fugiu tanto do infeliz e eis que, de repente, saído dos quintos do inferno, a sua frente aparece o Fantini como urubu magro secando a carniça gorda.
— Estava passando, vi você, resolvi parar.
— Fez bem. Ia te ligar daqui a pouco...
— E a “baba”?
— Segunda-feira, sem falta.
— Tudo?
— Só uma refrescada, com o restante para mais trinta dias.
— Passa lá em casa.
— Com certeza.
O diálogo se encerrou aí. Mas os problemas de Maciel só começavam. Pintou o Guerinto, da barbearia e senhorio da casa onde ele morava de aluguel com a mãe e mais cinco irmãos menores. O velhote trazia consigo, uma dessas garotas de programa, sustentadas por seus bolsos, graças ao aluguel das espeluncas que ele mantinha em constante atividade de comodato, onde, aliás, por debaixo dos panos, formigava, nos fundos da barbearia, uma casa conhecida como o “Reduto da luz vermelha”.
— Seu mês venceu dia cinco. Hoje são dezoito.
O Maciel, apesar das dívidas, não se fazia de rogado.
— Segura as pontas. Segunda-feira a gente acerta. Vou correr domingo, na Oitava aqui do Bairro contra Bairro.
— E o que eu tenho a ver com isso?
— Pretendo ganhar o prêmio. Aliás, vou...
— Se der zebra?
— Pense positivo. Torça por mim.
— Com certeza. Boa sorte. Até mais ver.
Mal e porcamente o Guerinto virou as costas, apareceu o abutre do Milton Creto, acompanhado do sobrinho Oduvaldo Mata Sete. A esse cavalheiro Maciel devia uma soma considerável. Milton não entrara no Bar do Fred Frederico para cobrar, mas para comprar cigarros e fósforos. Bateu sem querer os olhos, por acaso no Maciel, e, por conta, não custava marcar presença.
— O companheiro anda meio afastado lá do prédio ou é impressão minha?
— Impressão.
— E a conta?
— Terça-feira.
— Não dá mais para ficar só nos acessórios. Necessito, com certa urgência, do principal.
—Terça-feira.
— Palavra?
— De escoteiro.
— Passe bem.
— Espero que sim.
O dia da corrida, um domingo ensolarado chegou ligeiro. Um inferno. Gente de todos os lados vinda de muitos lugares abarrotava a pequena cidade suburbana. A galera se acotovela por todas as partes, mal dava para se atravessar uma rua sem esbarrar em algum desconhecido (conhecido) especificamente que ele, o Maciel, não devesse uma grana. Em vista disso, o desgraçado se escondia disfarçado de fujão inveterado. Pois bem! Por sorte, ou azar, sabe-se lá como, chegou em primeiro lugar e ganhou a corrida. Ao subir ao pódium para receber a medalha e o mais importante, a grana preta do prêmio milionário, um dos muitos a quem ele devia, por azar, o doutor Bisteca Mal Passado, o reconheceu em meio a tumultuada multidão.
O doutor Bisteca Mal Passado, era o delegado de polícia da localidade e ao vê-lo dando sopa e, tendo em vista um ocorrido inesquecível e imperdoável, além da grana que o sujeito havia tomado, o Maciel “papara” a única filha do temido homem da lei”. Ao vê-lo, o delegado se encheu de razão, puxou do bolso um apito, e claro, quase o engoliu, afoito. Forte, raivoso e encapetado, apitou. Como num passe de mágica, uma galera de policias a paisana que estavam a serviço, ao ouvirem o som da autoridade maior, se juntaram e saíram correndo nos calcanhares do pobre e infeliz Maciel.
— Ali, ali, ali, lembrem-se... quero o meliante vivo, vivo...
Maciel, por seu turno, deu linha à pipa. Botou sebo nas canelas e desembestou rua abaixo, se esquivando de uns desmiolados que ao também ouvirem o apito do chefe da unidade policial, se uniram para botar-lhe as mãos em seus esqueletos. Ninguém conseguiu tal proeza. Maciel, entretanto, careceu de correr novamente. Correr não, voar, só que desta feita, para se livrar de uma turba de homens e mulheres em polvorosa que levada pelo som de um “pega esse safado, pega esse infeliz” se viu obrigado a sair da cidade suando em bicas e nunca mais foi visto. Até hoje, ninguém sabe em que buraco o pobre abestado se meteu.
O delegado encheu a cidade de canto a canto com cartazes num acirrado “Procura-se vivo ou morto”. Enquanto o Maciel não é capturado, e lá se vão mais de três anos, o doutor Bisteca Malpassada desfila pela cidade com a netinha à tiracolo, a linda e fofa Iasmim puxada pelo braço. De vez em quando, dá uma parada diante de uma foto do pai da menina pendurada aqui e acolá e sussurra no ouvido da mocinha:
— Esse malandro aí é seu pai. Um dia o vovô pega ele...
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Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para importantes veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
O autor participa ativamente do movimento de academias virtuais de letras e coletivos de poetas e trovadores na internet. Tem poemas e trovas publicados em periódicos de academias regionais e boletins literários nacionais (como o Almanaque o Voo da Gralha Azul). Suas distinções e prêmios concentram-se em concursos de contos e crônicas promovidos por portais de literatura independente (como o Recanto das Letras) e em premiações da imprensa regional capixaba e paranaense, celebrando sua capacidade de comunicação direta com as massas.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.
Texto enviado pelo autor.

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