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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Roseana Murray (Poemas Avulsos)


O LAMBE-LAMBE

O lambe-lambe lambe o tempo
(como se o tempo fosse
uma bala, um doce)
e vai pregando seus retratos.

No canto da praça
um velho, um menino,
lado a lado
o mesmo desbotado sorriso.

Atrás do pano preto
o lambe-lambe
e seus misteriosos pensamentos:
onde foi parar a moça
que ele fotografou um dia?
A moça rasgou seu coração
como uma velha fotografia
e partiu junto com o vento.

Num canto da praça
o lambe-lambe
e sua estranha galeria.
= = = = = = = = = = = = = =  

O MÉDICO

Para o médico, o corpo
não tem segredos:
é como uma fábrica,
uma orquestra,
uma casa com os móveis
todos no lugar.

O sangue corre nas veias
como um disciplinado rio.
O pulso bate com precisão,
afiado relógio marcando a vida.

Se alguma coisa se move
erradamente,
se alguma coisa se quebra,
o médico bota o corpo de castigo,
e vai escrevendo receitas
como cartas que o corpo entendesse.
= = = = = = = = = = = = = =  

A RENDEIRA

A rendeira... seu ofício de aranha
tecendo beleza
me ajuda a tecer meus poemas.

Tem mãos de maga,
a rendeira,
tem mãos de espuma.

Não assina seu trabalho
com um nome,
mas com magia,
como um voo de pássaro
assina o céu.
= = = = = = = = = = = = = =  

O VENDEDOR DE COCADA

Lá vai o vendedor de cocada
com seu tabuleiro,
pano branco na cabeça.

Lá vai o vendedor de cocada
vendendo um mundo de coco:
cocada branca ou queimada
pra vida ficar mais gostosa.

Lá vai o vendedor,
tabuleiro na cabeça,
adoçando a calçada.
= = = = = = = = = = = = = =  

A ARQUITETA

A arquiteta gostaria
de projetar mil casas
por dia,
aéreas, subterrâneas,
casas de vidro e de paina,
redondas, de esvoaçantes
telhados.

Em frente à prancheta
a arquiteta sonha
o justo sonho
de todo mundo ter
onde morar.
= = = = = = = = = = = = = =  

OS CATADORES DE PAPEL

Pela cidade afora,
noite ou dia,
a qualquer hora,
os catadores de papel
são triste paisagem.

Vão juntando papel e pobreza,
moram assim,
nas praças, nos vãos,
em casa feita de nada.

Tenho tanta pena
dos catadores de papel,
agora moram aqui,
no meu poema.
= = = = = = = = = = = = = =  

OS MÚSICOS

Na casa dos músicos
as paredes são sonoras,
no teto moram acordes,
e nos vãos sustenidos se escondem.

Os pensamentos dos músicos
não são como os pensamentos comuns,
moram em outras altíssimas esferas.

Para nós, os outros,
eles constroem algodoados
caminhos de sons.

Para que nossa vida
fique mais leve,
fique mais bela.
= = = = = = = = = = = = = =  

A ATRIZ

No camarim a atriz
cola uma outra alma
na sua,
um outro rosto
no seu,
e vão pro palco
assim tão grudados,
que é como um rio
navegando em outro
rio.

O palco suspenso
por um fio de magia
é a casa da atriz.
= = = = = = = = = = = = = =  

A BAILARINA

A bailarina,
como frágil lamparina,
como pequeno colar,
faz do ar sua casa,
sua estrada pontilhada
de água.

Entre uma estrela e outra
a bailarina descansa.
Ali onde os humanos
não podem ir,
só os loucos, os loucos
e os que sabem
que com um desejo
se constrói um planeta.
= = = = = = = = = = = = = =  

O PESCADOR

Os sonhos do pescador
são feitos de espuma, de sal,
de muitos milhares de peixes,
como feixes de girassol.

Na rede do pescador
pedaços de luz e de prata,
seus sonhos materializados.

Em terra firme o pescador
é habitante provisório,
anda meio de lado,
cheio de silêncios marinhos,
suas mãos de alga.
= = = = = = = = = = = = = =  

OS CARTEIROS

Abrir uma carta,
o coração batendo,
é precioso ritual.
O que terá dentro?
Um convite, um aviso,
uma palavra de amor
que atravessou oceanos
para sussurrar em meu ouvido?

São como conchas as cartas,
guardam o barulho do mar,
o ar das montanhas.
Para mim os carteiros
são quase sagrados,
unicórnios ou magos
no meio dessa vida barulhenta.
= = = = = = = = = = = = = =  

O POETA

O poeta vai tirando da vida
os seus poemas
como pássaros desobedientes
e amestrados.

A palavra é o seu castelo,
sua árvore encantada,
abracadabra construindo o universo.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

Roseana Murray (1950)
ROSEANA KLIGERMAN MURRAY (Rio de Janeiro, 1950) é uma poetisa e escritora de obras infanto-juvenis brasileira. Quando criança, Roseana gostava muito de ler, "tudo o que tinha disponível", segundo a própria autora. Gostava muito do Sítio do Pica-Pau Amarelo, Tesouro da Juventude, Contos de Fadas, entre outros. Roseana é formada em Lingua e Literatura Francesa, pela Aliança Francesa, Universidade de Nancy. Morava em Saquarema, cidade de que é cidadã honorária, Atualmente a escritora vive em Visconde de Mauá. Casada com Juan Arias, jornalista e escritor espanhol, correspondente, no Brasil, do jornal El País, de Madrid. 
Começou a escrever poesia para crianças em 1980, com o livro Fardo de Carinho, influência direta de Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles. A autora publicou mais de cinquenta livros , entre eles Classificados Poéticos (Ed. Miguilim, 1984), Falando de Pássaros e Gatos (Edições Paulus, 1987) e Receitas de Olhar (Ed. F.T.D, 1992). Recebeu por três vezes o Prêmio de Melhor de Poesia pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, o Prêmio APCA, o Prêmio da Academia Brasileira de Letras de melhor livro infantil e faz parte da Lista de Honra do I.B.B.Y. Trabalha em Saquarema com o Projeto Uma Onda de Leitura junto com a Secretaria de Educação. Roseana, procura em suas obras mostrar maneiras de viver melhor, ela expressa seu dia a dia.
Alguns livros: 1981- No País das Coisas Impossíveis; 1983- No Mundo da Lua; 1987- Um avô e seu Neto; 1991- Criança é Coisa Séria; 1995- De que Riem os Palhaços?; 1996- O Mar e os Sonhos; 1998- Uma História de Fadas e Elfos; 2001- Caminhos da Magia; 2004- Um Gato Marinheiro; 2006- O Xale Azul da Sereia; 2009- Arabescos no Vento; 2016- Livros e Leitores; 2024- O Braço Mágico, etc.

Fontes:
Murray, Roseana. A bailarina e outros poemas. 1. ed. - São Paulo : FTD, 2001. (Coleção literatura em minha casa ; v. 1)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Roseana_Murray 

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