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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Júlia Cortines Laxe (Poesias Escolhidas)


COLOMBINA

Mascarada mulher o rabecão trouxera.
Morrera em pleno baile a frágil Colombina
E, no egrégio salão de culto à Medicina,


O professor leciona, em voz veemente e austera:
-"Rapazes, contemplai! É rameira e menina.
Tombou ébria novicio e com certeza era
Devassa meretriz, mistura de anjo e fera,
Flor de lama e prazer, Vênus e Messalina.”.

Em seguida, a cortar, rompe a seda sem custo,
Desnuda-lhe, solene, a alva pele do busto,
Afasta, indiferente, as flores de rendilha...

No entanto, ao descobrir-lhe a face triste e bela,
O mestre cambaleia e chora junto dela...
Encontrara na morta a sua própria filha.
= = = = = = = = = = = = = =  

INTERROGAÇÃO

Contemplo a noite: a cúpula estrelada
do firmamento sobre mim palpita;
meu olhar, que a interroga, embalde fita
o olhar dos astros, que não veem nada:

“Nessa amplitude lôbrega e infinita
que inteligência ou força inominada
numa elipse traçou a vossa estrada,
estrelas de ouro, que o mistério habita?

Dizei-me se, transpondo a imensidade,
alguma cousa a vós minha alma prende,
um vínculo de amor ou de verdade.

Dizei-me, o fim da nossa vida agora:
para que serve a luz que em vós resplende,
e a oculta mágoa que em meu seio mora?...”
= = = = = = = = = = = = = =  

O LAGO

Um pouco d'água só e, ao fundo, areia ou lama,
Um pouco d'água em que, no entanto, se retrata
O pássaro que o voo aos ares arrebata,
E o rubro e infindo céu do crepúsculo em chama.

Água que se transmuda em reluzente prata
Quando do bosque em flor, que as brisas embalsama,
A lua, como uma áurea e finíssima trama,
Pelos ombros da noite a sua luz desata.

Poeta, como esse lago adormecido e mudo
Onde não há, sequer, um frêmito de vida,
Onde tudo é ilusório, e passageiro é tudo,

Existem, sobre um fundo, ou de lama ou de areia,
Almas em que tu vês, apenas, refletida
A tua alma, onde o sonho astros de ouro semeia!
= = = = = = = = = = = = = =  

ÚLTIMA PÁGINA

Antes de mergulhar no silêncio da morte,
Ou da idade sentir a fraqueza e o torpor,
Eu quisera lançar, num supremo transporte,
Meu grito de revolta e meu grito de horror.

Mas sei que por mais forre e por mais estridente
Que ela corra através do infinito, até vós,
Ó céus, que além brilhais numa paz inclemente,
Nem qual brando rumor chegará minha voz!

Mas sei que não há dor que a natureza vença,
E que nunca a fará de leve estremecer
Na sua eternidade e sua indiferença
O lamento que vem dum transitório ser.

Mas sei que sobre a face execrável da terra,
Onde cada alma sente, em torno, a solidão,
Esse grito, que a dor duma existência encerra,
Não irá ressoar em nenhum coração.

Contudo, num clamor de suprema energia,
Eu quisera lançar minha voz! Mas a quem
Enviar esse brado imenso de agonia,
Se para o compreender não existe ninguém?!
= = = = = = = = = = = = = =  

FRACOS

Fracos, odeio a inércia e detesto a fraqueza.
Prefiro a mão que esmaga ou que vibra o punhal
À doce e inconsciente e nefasta moleza,
Que é para a alma do forte um veneno mortal.

Como de encontro à costa, em ondas remansadas
Chora o mar, ou se atira em bravos vagalhões,
Assim de encontro a vós, almas adormentadas,
Fremem de ódio e de amor os nossos corações.

Almas fracas, fugindo à aspereza das lides,
Sem um esforço para às correntes opor,
Pelo rio do tempo arrebatadas ides,
Desta ou daquela vaga a boiar ao sabor.

Que vos importa a vós a agonia da luta,
A ânsia de possuir, o infinito aspirar?
Que vos importa a vós a decepção que enluta,
Se não sabeis querer, nem sabeis adorar?!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Júlia Cortines Laxe (1868-1948)
Júlia Cortines Laxe nasceu em Rio Bonito, RJ, em 1868, e faleceu no Rio de Janeiro (então Capital Federal), em 1948. Apesar de sua longevidade (viveu quase oitenta anos), pouco se sabe de sua vida, supondo-se que haja sido professora
Não reconhecida devido ao preconceito de então, visto que o crítico literário, José Veríssimo, após a publicação de seu segundo livro, em 1905, tenha declarado que "Os poemas de Júlia Cortines distanciam-se magnificamente da poesia de água-de-cheiro e de pó-de-arroz da musa feminina brasileira, e revelam em Júlia, mais que uma mulher que sabe sentir, alguém que sente com alma e coração e de forma que disputa primazias com nossos melhores poetas contemporâneos.”
Sua poesia é carregada e vibrante, como se pode ver no poema “Fracos”.
Poeta parnasiana, como Francisca Júlia, Júlia Laxe também colaborou em revistas como A semana e A Mensageira, da paulista Presciliana Duarte de Almeida, lançada em 19 de outubro de 1897, que se tornou um dos principais espaços da mulher escritora do final de século XIX/início de XX e onde também escreveram a citada Narcisa Amália, Anália Franco, Júlia Lopes de Almeida, Francisca Júlia (link para minha postagem), Auta de Souza (confira a postagem), nomes igualmente de peso na época. (Informação in Revistas em revista: imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922)) de Ana Luiza Martins – Fapesp – Edusp – pág. 374-375)
Obras: Versos (1894) e Vibrações (1905), a respeito do qual, José Veríssimo fez os elogios.
“Júlia Cortines” – diz Péricles Eugênio da Silva Ramos (Pan.III, pág.246) – “é uma das poetisas selecionadas por Valentim Magalhães para figurarem na parte antológica de A Literatura Brasileira (1870 -1895). Sua poesia afigura-se realmente parnasiana, de um comedimento e boleio de frases semelhantes ao de Francisca Júlia.” É ela, segundo afirma o poeta e ensaísta Darcy Damasceno (in A Lit. no Brasil, III. T.1, pág.376). quem “abre o desfile dos epígonos parnasianos”.
Sentimento, emoção, cuidado da forma, beleza expressional e correção étrica caracterizam-lhe os poemas, levando José Veríssimo a compará-la a celebre poetisa italiana Ada Negri (Apud E. Werneck, Ant. Brasileira pág. 507. (Rio Bonito, Estado do Rio, 12 de Dezembro de 1868 – Desencarnou em 19 de março de 1948.)

Fontes:
Frâncisco Cândido Xavier. Antologia dos Imortais.
Biografia = Literatura em Vida 2 (blog), Antonio Miranda, Global Editora.

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