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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Guerra Junqueiro (O Rico e o Pobre)


Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um dia, tornando de uma aldeia muito distante da sua, morto de fadiga, deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma estalagem, na beira da estrada. Principiava a comer um bocado de pão que tinha trazido para jantar, quando chegou uma bela carruagem, em que vinha um fidalguinho, com o seu preceptor. O estalajadeiro correu logo a perguntar aos viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não havia tempo, e que lhes trouxesse ali mesmo um frango assado e uma garrafa de vinho.

O Martinho ficou pasmado a olhar para eles; olhou depois a sua côdea de broa, a sua velha jaqueta, o seu chapéu todo roto, e suspirando exclamou baixinho:

– Quem me dera a mim no lugar daquele menino tão rico! Antes ele aqui estivesse, e eu dentro da sua carruagem!

O preceptor ouviu o Martinho e repetiu as palavras dele ao seu aluno; este, lançando a cabeça fora da berlinda, chamou pelo Martinho com a mão.

– Diz-me lá é rapaz: ficavas satisfeito, podendo trocar a minha sorte pela tua?

Desculpe, meu senhor, replicou o Martinho corando, aquilo que eu disse não foi por mal.

– Olha que me não zango, tornou o fidalguinho. Ao contrário, vamos fazer a troca.

– Isso é mangação!... tornou o Martinho; um menino tão rico punha-se mesmo agora no meu lugar! Papo muitas léguas ao dia, como broa e batatas, e o senhor fidalguinho anda de carruagem, janta frangos e bebe do melhor.

– Pois se me dás o que tens e que eu não tenho, levas em troca e de boa vontade a minha riqueza toda.

O Martinho ficou de olhos pasmados, sem saber o que havia de responder; mas o preceptor continuou:

– Aceitas a troca?

– Ora essa! concluiu o Martinho, é boa a pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada quando me virem rodar numa carruagem tão bonita.

Então o fidalguinho chamou o trintanário, que abriu a portinhola e o ajudou a descer. Mas qual foi o espanto do Martinho, vendo-lhe uma perna de pau e a outra tão fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas! Depois observando-o de mais perto, notou que era muito pálido, com cara triste de doente.

O fidalguinho sorriu e acrescentou com ar benévolo:

– Vê Já, sempre desejas a troca? Darias, se pudesses, as tuas pernas valentes e as tuas faces vermelhas, pelo gozo de ter uma carruagem e de andar bem vestido?

Oh! não, já não quero! replicou o Martinho.

– Pois eu, antes desejaria ser pobre e ter saúde. Mas, quis o destino que fosse aleijado e doente; sofro os achaques com paciência, dando graças a Deus pelos bens que me entregou na sua infinita misericórdia. Faz tu o mesmo, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, tens força e saúde, coisas que valem bem uma carruagem, e que não podem comprar-se com dinheiro.
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Guerra Junqueiro (1850 – 1923)
ABÍLIO MANUEL GUERRA JUNQUEIRO foi o poeta mais popular e politicamente influente de sua época em Portugal. Conhecido como o "Victor Hugo português", suas sátiras afiadas e seu profundo lirismo social atuaram como verdadeiros combustíveis ideológicos para a queda da monarquia e a subsequente implantação da República Portuguesa. Nasceu em Freixo de Espada à Cinta, na região de Trás-os-Montes, em Portugal, em 1850  e faleceu em Lisboa, Portugal, em 1923 (aos 72 anos), vitimado por problemas de saúde decorrentes da idade. Passou a infância em Trás-os-Montes e mudou-se para Bragança e depois Coimbra para realizar seus estudos. Ao longo de sua vida adulta e carreira política, alternou residências entre Lisboa e Porto. Também morou temporariamente em Berna (Suíça) devido às suas funções diplomáticas. Filho de um lavrador abastado, Junqueiro inicialmente foi direcionado à vida eclesiástica por sua família conservadora. No entanto, abandonou o seminário para cursar Direito na Universidade de Coimbra, formando-se em 1873. Sua carreira foi altamente multifacetada. Atuou como jornalista e cronista em periódicos influentes de sua época. Trabalhou como alto funcionário administrativo do Estado, atuando como Secretário-Geral Civil em Angra do Heroísmo (Açores) e em Viana do Castelo. Teve uma ativa carreira parlamentar, sendo eleito Deputado nas cortes portuguesas pelo partido progressista e, mais tarde, um dos principais defensores das causas republicanas. Com a consolidação da República, foi nomeado Ministro Plenipotenciário (Embaixador) de Portugal na Suíça entre os anos de 1911 e 1914.
Guerra Junqueiro despontou para o mundo das letras na efervescente Coimbra do fim do século XIX, integrando o movimento acadêmico e revolucionário conhecido como a Geração de Coimbra. Inicialmente influenciado pelo romantismo tardio, ele rapidamente migrou para o Realismo e o Naturalismo, integrando o grupo de intelectuais do Cenáculo. Diferente de outros autores de sua era, a atuação de Junqueiro concentrou-se mais em associações políticas, grêmios intelectuais e revistas de vanguarda (como a Lanterna Mágica e A Folha) do que em academias de letras formais. Ele recusava formalismos institucionais tradicionais por sua postura altamente rebelde, anticlerical e antimonárquica. No século XIX e início do século XX, o sistema de premiações literárias oficiais em Portugal quase não existia nos moldes atuais. O maior "prêmio" de Guerra Junqueiro foi o imenso clamor público e popularidade inédita, tornando-se o poeta mais lido e declamado do país. (Nota: Atualmente, seu legado batiza o prestigioso [Prémio Literário Guerra Junqueiro Lusofonia, instituído para condecorar grandes nomes da literatura em língua portuguesa).
Principais Livros: A Morte de D. João (1874) – Obra que o consagrou no realismo satírico; A Velhice do Padre Eterno (1885) – Forte e polêmica sátira anticlerical; Finis Patriae (1890) e Pátria (1896) – Poemas panfletários de protesto contra o declínio da monarquia e o Ultimato Britânico; Os Simples (1892) – Transição para uma poesia mais mística, panteísta e voltada à exaltação da vida rural e dos camponeses.
A importância de Guerra Junqueiro reside no fato de ele ter transformado a poesia em uma arma cívica e de intervenção social de massa. Ao unir a ironia corrosiva e a caricatura social a um domínio estético grandioso, ele conseguiu fazer com que a poesia saísse das elites e ecoasse diretamente no sentimento popular de indignação pública. Suas sátiras desmistificaram as instituições da Coroa e da Igreja, abrindo caminho cultural e psicológico para as transformações democráticas modernas em Portugal e marcando definitivamente a transição estética para o século XX. 

Fontes:
Guerra Junqueiro. Contos para a infância. Publicado originalmente em 1877..
Biografia = Wikipedia, Enciclopedia Britannica, E-Biografia, Infopedia, Instituto Camões, Brasil Escola, Jornal de Poesia, etc.

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