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domingo, 24 de agosto de 2025

Tobias de Sousa Pinheiro (Brejo/MA, 1926 - 2019, Engenheiro Coelho/SP)

1
A felicidade, em norma
bem acertada, nos diz:
- se és infeliz, te conforma,
que o conformista é feliz.
2
A lembrança é muito boa,
recordar não nos faz mal,
desde os banhos da lagoa
às goiabas do quintal.
3
Aprendi co’um poeta persa
que o silêncio é grande assunto:
quando não quero conversa
não respondo nem pergunto.
4
As coisas não andam pretas
como dizem por aí:
ainda existem borboletas
na blusa da Sueli.
5
Cantor do Brejo que eu canto,
às canções dás o fulgor
que deita em meus olhos, pranto
e em meu coração, amor.
6
Com qualidade total
o Brejo há de ser, Eugênio,
a cidade vertical,
voz do terceiro milênio.
7
Do pensamento não foge
o Brejo nesta distância:
penso nos jovens de hoje,
e nos problemas da infância.
8
Economizo a saudade
e me chamam de avarento;
guardo minha mocidade
no cofre do pensamento.
9
E no cofre da memória
guardei as suas lições:
a base de minha história
é o livro Recordações.
10
Entre cochilos e arrancos
de sonhos e pesadelos,
deito meus cabelos brancos
na noite dos teus cabelos.
11
É o peso de uma saudade
que trago dentro de mim,
os recantos da cidade
e o Bairro do Bandolim.
12
E, se a previsão não erra,
após tão difíceis dias,
vão dizer que o Brejo é a terra
do Eugênio e do Tobias.
.13
Jornalista, não confundo,
tem destino muito ingrato:
vive a promover o mundo
e morre no anonimato.
14
Lá vejo a célula-mater
de uma vida em linha reta,
na firmeza do caráter
para a vitória completa.
15
Lições de vida e de amor,
lições de fé e esperança,
dadas por meu professor,
quando eu era uma criança.
16
Mato Grosso, escuto o som
de teu batuque febril:
– A terra que deu Rondon
nada mais deve ao Brasil!
17
Meu Caro Eugênio de Freitas
glória a teus “Sonhos em Rimas”,
são eles grandes colheitas
nos campos das obras-primas.
18
Morre um ano, nasce um ano,
e vem à nossa lembrança
a morte de um desengano
e a vida de uma esperança.
19
O país vai prosperando,
crescendo e exibindo provas.
São dez milhões trabalhando
e o resto fazendo trovas.
20
O reflexo dos espelhos,
da orientação e do apoio
resplende como conselhos,
é o trigo isento do joio.
21
Padre José Paulo Salles,
minhas palavras tão rudes
buscam entre acerbos males
os alpes de suas virtudes.
22
Quando penso em meu destino,
sempre recordo um pião
a girar, em desatino,
na palma da tua mão.
23
Recordações! Com que brilho
no meu coração enjaulo
lições do preclaro filho
de São Vicente de Paulo.
24
Sonho em ver labor fecundo,
crença, amor, paz e união:
Brejo - um espelho do mundo
e a glória do Maranhão!
25
Vacilo pisando escolhos,
quis prosseguir, mas em vão:
nunca mais terão meus olhos
o espelho que os teus me dão.
26
Vê que arrasto os passos lentos
por onde estes sonhos vão,
com o Brejo dos documentos,
com a terra em meu coração.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Santiago Vasques Filho (Teresina/PI, 1921 - 1992, Fortaleza/CE)

1
A chuva traz à lembrança
uma janela quebrada,
a casa humilde e a criança
olhando, triste, a enxurrada.
2
Agora, sem mais nem quando,
sofrendo porque fugiste,
eu sonho que estás voltando,
para eu deixar de ser triste…
3
A jangada, quando alcança
dos mares a imensidade,
leva no bojo a esperança,
deixa na praia a saudade.
4
- Algo impede o casamento?
Se alguém sabe, agora fale!...
- Eu sei, seu padre... - Um momento!
Você é o noivo, e assim não vale!
5
Ao migrante maltrapilho,
que cruza o adusto sertão,
só resta, ao morrer-lhe o filho,
o consolo da oração…
6
Ao te encontrar, sem querer,
tarde linda, sol morrente,
mais triste que te perder
foi te rever novamente.
7
Apregoa o Zé Seráfico,
que a mulher está na dela:
- como um filme fotográfico,
só no escuro se revela…
8
Buscando esperanças vãs
no descompasso dos prazos,
gastei, sem ver, mil manhãs
e não sei quantos ocasos.
9
Cai a chuva fina e mansa,
e, na janela, que graça:
- O nariz de uma criança
achatado na vidraça!…
10
Casa assombrada... sombria...
Portas rangendo... Arrepio...
E o Zé tremia, tremia,
dizendo que era de frio!…
11
Coragem!... Sua mulher
tem poucos dias... Lamento...
- Doutor, se o destino quer,
mais uns dias eu aguento...
12
Da loja um ladrão levou
cristais valiosos ao léu,
e o lojista assim rezou:
- Pai nosso cristais no céu...
13
Das mágoas, dos sacrifícios,
das dores, dos sofrimentos,
fiz enormes edifícios
onde alugo apartamentos.
14
De longe, não desconfias
que, esperando tua volta,
tua ausência de mil dias
traz mil noites de revolta.
15
De repente este conflito,
quando a ausência me revolta,
por tudo que não foi dito
para trazer-te de volta!
16
Desconfio que a velhice
chega sempre bem depressa
quando se faz a tolice
de pensar que ela começa...
17
Descrente, maldigo até
meus atos de contrição,
por não ter, a minha fé,
o tamanho da oração!…
18
De volta à casa paterna,
revejo os vitrais antigos,
por onde a saudade eterna
repassa rostos comigo…
19
Diz, de cabeça enfaixada
- Não brigue, nem se aborreça.
Sua mulher, se é charada,
a minha é quebra-cabeça !...
20
Diz que vai me abandonar,
cai em pranto mas, depois,
perdoa e põe-se a rezar,
pedindo aos céus por nós dois…
21
Eis-me no inverno da vida
velando ocasos tristonhos,
mantendo a mão estendida,
tentando alcançar meus sonhos…
22
Ela se foi manhã cedo,
furtiva, sem que eu a visse,
guardando o rumo em segredo
para que eu não a seguisse.
23
Em passos e contrapassos,
ao som de acordes tristonhos
sempre foges dos meus braços
no bailado dos meus sonhos...
24
Endoidou e, em seus chiliques,
diz que é um relógio em destaque,
por isso vai, com seus tiques,
repetindo - tique-taque…
25
E o marido da Mercedes,
pintor sagaz, com seus trecos,
de dia pinta paredes,
de noite... "pinta os canecos".
26
Eu baterei na janela...
Confia em mim! - prometeu...
Mas foi a saudade dela
quem na vidraça bateu…
27
Grita a mulher do ladrão:
- Por onde andaste, cretino ?...
Não vejo qualquer menção
de assaltos, no matutino!
28
Há muita gente enganosa
qual goiaba sazonada:
- Por fora, a casca sedosa;
por dentro, podre ou bichada!
29
Maria!... grito, encantado,
quando me encontro sozinho.
Mas, quando estou ao seu lado,
só sei dizê-lo baixinho...
30
Não fosse a dor no traseiro,
numa corrida recorde,
diria, ainda, o carteiro,
que "cão que ladra não morde!...’
31
Não quis ver tua partida
nem teus acenos de adeus,
quando, agora, a tua vida
tem rumos que não são meus.
32
Não vivas com tanto orgulho
em razão do teu talento,
o tambor, que faz barulho,
tem, por dentro, apenas vento!
33
Na tua mão estendida
para este aperto de adeus,
vejo que a linha da vida
tem rumos que não são meus.
34
Nestas horas de sol-posto,
na saudade mais atroz,
nas fotos, beijo-te o rosto;
nas cartas, ouço-te a voz.
35
No forró do Zé Pancada,
que acabou no maior pau,
o Chicão desceu a escada
sem pisar nenhum degrau!
36
No peito a amargura cresce,
quando o caboclo, tristonho,
pede o inverno para a messe
e o inverno é apenas um sonho!
37
Numa farmácia, a freguesa
- Tem sal de frutas aí ?
Tem ? Então, por gentileza,
me dá um de abacaxi...
38
Nunca vi almas! - diz rindo.
E um cara na sua frente,
foi sumindo... foi sumindo...
transparente... transparente...
39
Os teus vestidos, Vitória,
e os lindos sapatos altos,
representam promissória
pela qual dou muitos saltos!
40
O velhinho monologa
contra o remédio, no leito:
- De que me adianta esta droga,
se o resto não tem mais jeito?!…
41
O velho galo, à noitinha,
ouviu a franga assanhada
dizendo para a galinha :
- Ele ainda "canta"... e mais nada!
42
Pago as vidraças quebradas,
que quebrei quando menino,
com as violentas pedradas
que hoje levo do destino!
43
Pelo espaço onde flutua,
nas noites claras de estio,
a lua ri de outra lua
que faz caretas no rio.
44
Pintora boa, de fato,
tem talento a Elizabete,
pois pintando o auto-retrato,
pintou-o "pintando o sete".
45
Por ser muito procurada
pra fazer qualquer trabalho,
foi, na loja, apelidada
de "garota quebra-galho"…
46
Promessa, cheia de graça,
de regressar, ela fez...
... Mas quem bateu na vidraça
foi a saudade, outra vez…
47
Quando teus olhos eu fito,
rezo neles a oração
de um monge em transe, contrito,
num ato de adoração!
48
Realismo mesmo mostrou
o pintor sacro Gregório,
que óleo de rícino usou
pra pintar... o purgatório!
49
Sem rival na adulação,
Belarmino Guararapes
chega a usar mata-borrão
no que o chefe escreve a lápis!…
50
Se não tens mais esperanças,
tantos são os teus fracassos,
muda o curso das andanças...
toma o rumo dos meus braços!
51
Se o patrão conta piada,
puxa-saco faz assim:
solta logo a gargalhada,
sem esperar pelo fim.
52
Se o tormento, como dizes,
é a remissão dos pecados,
por te amar - é bom que frises -
eu tenho os meus perdoados.
53
Socialite na butique:
Qual é a moda, seu Andrada?...
Agora, madame, o chique
é pagar conta atrasada...
54
Sofrendo tuas demoras,
com meus sonhos moribundos,
maldigo a fuga das horas
na precisão dos segundos!…
55
Tendo aos braços o serão
de nove meses atrás,
Marília exclamou: Patrão,
fazer serão... nunca mais!
56
Teus olhos nos meus pousados,
em silente confissão,
são dois monges deslumbrados,
rezando a mesma oração!
57
Tua ausência, tão sentida,
seria menor castigo
se eu soubesse repartida
minha saudade contigo.
58
Tu partes... mas, por piedade,
ao me deixares sozinho,
tira o espinho da saudade
do rumo do meu caminho!
59
Vendo o galã na TV
beijar a sua parceira,
grita o garoto: - Mãiêêê,
igual papai e a copeira!…
60
Verdade que se proclama
pelo efeito contraposto:
- quem joga pedra na lama,
recebe lama no rosto.
61
Vê, Rosário, o que me aprontas!
Eu te conheço do berço.
Tens um rosário de contas
do qual não pagaste um terço!...
62
Vive o rio seu conflito
no dolente marulhar,
marulho que é quase um grito
por nunca poder voltar.

sábado, 2 de agosto de 2025

Fernando Câncio de Araújo (Fortaleza/CE, 1922 - 2013)

1
Adeus... e foste saindo,
dizendo que voltarias...
E a saudade entrou sorrindo,
da mentira que dizias...
2
A ilusão da meninice
com meus netos se refez:
– agora, em plena velhice,
eu sou criança outra vez!…
3
A mão triste, vacilante,
de porta em porta estendida,
é o troféu mais humilhante
que o pobre ganha na vida.
4
A mulher do seu Ventura
tem o beijo tão sugante,
que engoliu a dentadura
do dito... 'naquele instante"…
5
Ao ver-te assim neste encanto,
mãos postas em oração,
fiquei invejando o santo
que olhavas com devoção.
6
A vida de faz-de-conta
que levo desde menino,
é brinquedo de desmonta
nas peças do meu destino...
7
Bimbalham sinos tristonhos
entre as horas esquecidas,
como a lembrar velhos sonhos
perdidos em nossas vidas…
8
Enquanto o sino da igreja
martela o bronze perfeito,
minha saudade solfeja
na catedral do meu peito…
9
Entre velhos e crianças
há dois sinos na medida.
Quando um bimbalha: – Esperanças.
O outro bate o “pôr-da-vida”.
10
Era um poeta de mão cheia,
hippie, cabelos revoltos...
Só poetava na cadeia,
detestava versos soltos!
11
Meus olhos cheios de mágoa
buscam as pedras do chão,
são dois riachos sem água
perdidos na imensidão…
12
Nas tardes calmas sentidas
Bem-te-vi - que afinidade:
– tu a cantar - tristes vidas
eu, vida triste - saudade!
13
Na velha igreja em ruína,
desprezada em abandono,
a cruz cansada se inclina,
boceja o sino de sono.
14
Nesta saudade abrangente
que maltrata qual açoite,
vejo teu vulto silente
passando dentro da noite!
15
No palco azul desta vida
toda paixão é uma fraude,
pois no ato da despedida
somente a saudade aplaude...
16
O morro grita o seu nome
num frenesi sem igual
e vai sambando com fome
a deusa do carnaval!
17
O nosso sonho termina
num adeus triste, exaltado,
deixando no chão da esquina
o teu retrato rasgado!
18
O que me importa a saudade
se os netos brincam lá fora,
a renovar a ansiedade
dos velhos sonhos de outrora?!...
19
Pescador dos verdes mares,
quando embarca em procissão,
nos lábios leva cantares
e no peito uma oração…
20
Saudade, marcas doridas
de um momento que passou;
bandeirinhas coloridas
que o tempo nunca rasgou.
21
Se de lágrimas brotasse
a água carente do agreste,
talvez nunca mais faltasse
inverno no meu Nordeste.
22
Sertanejo, envelheceste,
tal cardo nascido ao léu:
– quantas secas tu venceste
com os olhos postos no céu.
23
Tarde sem chuvas, de estio.
Cigarras, que afinidade,
passamos horas a fio
cantando a mesma saudade...

sábado, 19 de julho de 2025

Orlando Brito (Niterói/RJ, 1927 - 2010, São Luís/MA)

1
A botina na janela
não deu sorte ao Manoel.
O chulé que havia nela
espantou Papai Noel...
2
A cidade acorda os ais
quando a chuva enche os caminhos,
chorando pelos beirais
a falta dos passarinhos...
3
A cidade bufa e sua!
Sedento, a pedir socorro,
eu vi um poste na rua
correndo atrás de um cachorro!...
4
A família do Trindade,
que de vinho enchia a tripa,
fez-lhe a última vontade:
enterrou-o numa pipa.
5
Ah, coração, tem piedade...
Batendo tão forte assim,
vais acordar a saudade
que dorme dentro de mim...
6
Amor à primeira vista?
Nosso bolso anda tão raso,
que até mesmo uma conquista
deve ser a longo prazo.
7
Antes que o sol, com seu brilho,
das trevas rompesse o véu,
um galo comeu o milho
que a noite espalhou no céu.
8
Certa vez com Dr. Lopes
caso raro aconteceu:
- receitou alguns xaropes
e o doente não morreu...
9
Com crianças tagarelas
em meu rancho alegre e lindo,
até portas e janelas
vivem cantando e sorrindo!
10
Como é linda, sobre as casas,
a melodia que evola
de um alegre par de asas
que foge de uma gaiola...
11
Contra a fome, contra a guerra,
que geram mortes e escombros,
marchai, soldados da terra,
levando a enxada nos ombros!
12
Corre a seiva em chão bravio
como o sangue em cada artéria.
São as valas do plantio,
trincheiras contra a miséria.
13
Coveiro, choremos juntos
nossos destinos tristonhos.
Pior que enterrar defuntos
é ser coveiro de sonhos…
14
De livros encham-se as casas,
eis um conselho excelente,
pois o livro, aberto em asas,
põe asas na alma da gente.
15
Dentadura, novo preço
e chifre, - diz o Paluma,
sempre doem no começo,
- depois a gente acostuma...
16
Deus marca os sons e o compasso,
não há mais linda canção!
Bater de sinos no espaço,
bater de enxadas no chão...
17
É da luz que o sol envia
que nasce o brilho da lua.
Assim é minha alegria:
depende sempre da tua!
18
Em meus calos ninguém pisa.
Se topo um cabra indigesto,
por bem me tira a camisa,
e por mal me tira o resto...
19
Esses teus olhos, amada,
deve a polícia prendê-los.
São dois ladrões de emboscada,
à sombra dos teus cabelos…
20
Eu, trabalhar desse jeito,
com a força que Deus me deu,
pra sustentar um sujeito
vagabundo que nem eu?
21
Foi num bar de certa esquina,
que, sem beber, quando pus
meus olhos nos teus, menina,
fiquei bêbado de luz.
22
Grita o coveiro, com mágoa,
na sepultura do André:
- Na cova deste pau-d'água
nem a cruz fica de pé !
23
Há nos jardins, entre arranjos
de passarinhos e abelhas,
candelabros onde os anjos
acendem rosas vermelhas...
24
Li teu livro. Um desconsolo!
Em papel fino, agradável,
se ele fosse feito em rolo,
seria um livro passável...
25
Madrugada, tem piedade
deste meu frio abandono,
e acalenta esta saudade
que não quer pegar no sono…
26
Marujo quando namora,
lembra a onda em seu vaivém.
O seu amor não ancora
no coração de ninguém...
27
Meu destino, casa velha,
com o teu é parecido.
Há sempre um furo na telha,
há sempre um cano entupido...
28
Meu livro de cabeceira
é o teu, de efeito excelente.
Logo à página primeira
que sono ele dá na gente...
29
Não pisco os olhos ao vê-la
para não correr o risco
de, por momentos, perdê-la,
a cada instante em que pisco.
30
Nem é mister que decifres
quem da fazenda é o patrono.
- Na porteira um par de chifres
já identifica o seu dono.
31
No norte, onde o sol abrasa,
e o calor queima sem dó,
só defunto sai de casa
de gravata e paletó.
32
No porto dos meus anseios
esperanças são navios,
que de manhã partem cheios
e à tarde voltam vazios...
33
No velório, alguém pergunta:
- Todo mundo já bebeu?
É quando uma voz defunta
diz do caixão: - Falta eu!
34
O doutor não teve escolha
quando o ébrio entrou ali,
e operou com saca-rolha
no lugar do bisturi...
35
O falso amigo, ao mostrar-se,
nas ciladas que prepara,
sempre muda o seu disfarce,
mas conserva a mesma cara.
36
O mapa do marinheiro
difere de outro qualquer:
cada porto, em seu roteiro,
tem um nome de mulher.
37
Para ter paz e harmonia
no lar, é mais importante,
não o pão de cada dia,
mas o amor de cada instante!
38
Passam tropeiros, tristonhos...
Assim vou eu, sem guarida,
tangendo a tropa dos sonhos
pelas encostas da vida.
39
Passou... Bonita de fato!
E o mar, ao vê-la, tão bela,
sentiu não ser um regato
para correr atrás dela!
40
Por muito que ela nos fira,
tristeza encanta e consola,
se é tristeza de um caipira,
chorada ao som da viola.
41
Poupou, viveu que nem rato,
e hoje tem a burra cheia.
- Foi andando sem sapato
que ele fez seu pé de meia.
42
Primavera... Vai-se o estio,
chega o outono. Solitário,
assisto ao cair sombrio
das folhas do calendário...
43
Procura estrelas num poço
quem no passado se abisma.
Sonhar é coisa de moço,
pois velho não sonha, cisma...
44
Problemas? Eu cá não acho
problema algum que me oprima.
Se é grande – passo por baixo,
pequeno – pulo por cima.
45
Quando nós formos defuntos,
e Deus nos der alvará,
para o céu só iremos juntos,
pois, separados, nem lá!
46
Quando quer prender a gente,
sem dar laço ou fazer nó,
usa o amor uma corrente
que possui um elo só.
47
Relógio, em seu tique-taque,
ligeira a vida se esvai.
- A cada segundo, o baque
de um sonho que morre e cai…
48
São iguais seus idiomas,
há semelhança em seus dons:
a rosa – sino de aromas,
o sino – rosa de sons.
49
Seguindo a lei do progresso,
depois do fio dental
dois maiôs farão sucesso:
o sem fio e o digital...
50
Sobrevivendo ao calvário
de uma queimada funesta,
um sabiá solitário
chora a morte da floresta…
51
Tento em vão, desde menino,
mudar da vida a estrutura,
mas no Livro do Destino
Deus não permite rasura...
52
Teu livro, que eu li com tédio,
não o pus na minha estante
mas na caixa de remédio,
com o rótulo: purgante!
53
Teu vulto lindo e risonho
surge em meus dias desertos,
como se fosses um sonho
que eu sonho de olhos abertos!
54
Uma atitude maluca
e até mesmo temerária:
- desejar “bom dia” ao Juca,
o dono da funerária…
55
Um médico e dois coveiros
uniram-se, em sociedade.
Em um ano os três parceiros
deram cabo da cidade...
56
Vaso de aromas dispersos,
incenso queimado em brasa,
assim é um livro de versos
aberto dentro de casa...
57
Vê, querida, - entre as cantigas
dos filhos em algazarras,
nós somos duas formigas
numa casa de cigarras...

Revista Crestomatia de Trovas nº 3 – junho de 2026 (download gratuito)

Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 37 páginas: * Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa ...