Trovadores em Ordem Alfabética

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domingo, 13 de setembro de 2026

Versos Esparsos * 15 *

 

Luiz Damo (Semeando Trovas)


A face pode não ter
a mesma força do olhar,
mas, nela podemos ler,
o que o dono quer falar.

A mentira, então solteira,
foi juntar-se ao desrespeito
e a traição, filha primeira,
fez nascer um lar desfeito.

Ampla e plena liberdade
à humanidade Deus deu,
mas a sensibilidade
nem a todos concedeu.

Ante as rochas da imprudência
todo o sonho se tritura,
só resta à sobrevivência
destroços de uma aventura.

Às aves Deus tira o medo,
de voarem nas alturas,
diz aos homens, vos concedo:
luz para as noites escuras!

A velha e frágil escada,
quase perdeu seu valor
de conduzir à sacada
alguém pelo elevador.

A verdade que hoje buscas,
num passado tão distante,
está na imagem que ofuscas
todo o dia, a cada instante!

Ávida, à vida a alma segue,
busca o porvir tão sonhado,
num presente que prossegue
carregando o seu passado.

Cada dia que somamos
à caminhada vivida,
nova flor acrescentamos
no ramalhete da vida.

Conquistas vão se somando,
pela subtração da dor,
divide, multiplicando,
teu sentimento de amor.

Dentro e fora da família,
tudo gire em torno dela,
sirva ao mundo de estampilha
sendo à paz sua chancela.

Destemido, o sol mergulha,
no horizonte debruçado,
deita à terra, tal fagulha,
sendo por ela abraçado.

De uma indigesta amizade
muitas vezes nada resta,
nem arestas de saudade
sobram pra fazer seresta.

Diz quem ama, à parte amada:
esquecer-te eu não consigo,
sem ti sou menos que nada,
mais que tudo, eu sou contigo.

É depois de um tratamento
que o doente convalesce
e ao sumir o sofrimento
a saúde lhe aparece.

Faça a verdade imperar
sobre qualquer julgamento
e assim a chance de errar
pode ser zero por cento.

Frágil corpo os pais nos deram,
vida e sinais que eram seus,
o corpo, os filhos o enterram,
mas a essência volta a Deus.

Há quem queira ser modelo
de uma vivência exemplar,
luta tanto e por não sê-lo
passa a se autocontemplar.

Jamais posso imaginar,
ou projetar meu porvir,
sem ao passado voltar
e no agora me inserir.

Longínquas tardes amenas
com o rubor da pitanga,
trazem imagens serenas
do sol dormindo na sanga.

Livro! Tua estrela brilha,
sob o cosmos da cultura,
iluminas quem palmilha
as estradas da leitura.

Mantenha a chama do embate
na luta, sem se apagar,
siga em frente no combate
com o exemplo a propagar.

Mesmo fraca, a dor na luta,
avança e nos faz sofrer,
nunca, se a nossa conduta,
for mais forte e não ceder.

Na contramão do sucesso
segue lento o pessimista,
finge que exista progresso,
pensando ser otimista.

Nada igual, nem mais fecundo,
que plantarmos bons valores
deixando assim para o mundo
um legado aos sucessores.

Nada igual, nem parecido,
com a flor desabrochando,
o campo fica florido
na primavera chegando.

Não chores se a dor te aflige
e impede de à vida alçares,
qualquer luta esforço exige
para o objetivo alcançares.

Não tem criança que esconda
a predileção em ter,
um simples carro de lomba
pra brincar e se entreter.

Nas esquinas do passado
deixo um pedaço de mim,
por alguém vai ser juntado
depois de chegar meu fim.

Nas mãos dos transportadores
quantos frutos transportados!
Transportam grandes primores,
depois dos bens transformados.

Ninguém cai do seu cavalo
quando passa a conhecê-lo,
a não ser que sem domá-lo
pensa estar sobre um camelo.

Ninguém morra brutalmente
por qualquer bala perdida,
de uma escolha inteligente
surja a proteção da vida.

No campo, traça caminhos,
quem planta e supera o pranto
ceifa a dor do próprio espinho
que tenta ofuscar o encanto.

Num contexto mais moderno
o saber rompe a fronteira.
Não tem SIM que seja eterno,
nem um NÃO pra vida inteira.

O autor de um crime confesso,
quando aos tribunais, entrar,
tem nos autos do processo
tão pouco a lhe acrescentar.

O Brasil vê com reserva
as matas diminuírem,
enquanto o mundo as observa
de longe, também sumirem.

O leitor quando mergulha
no universo da leitura,
dela faz nova fagulha
a brilhar na noite escura.

Ontem, no homem, seu bigode,
era igual a um documento,
hoje, o que assina, mal pode,
dar aos atos provimento.

Os primeiros imigrantes
venceram hostilidades,
não foram beligerantes
mas guerreiros nas vontades.

O tempo transcorre ameno,
para quem a paz imprime,
nos traços de algo sereno
vê-se o bem que o mal suprime.

Para Deus jamais afirmes
que os grandes males são teus.
Aos males nunca confirmes
que eles são frutos de Deus.

Parta e desate as amarras,
busque do sol o esplendor,
pra colher noutras searas
os frutos de um sonhador.

Passam meses, surgem anos,
mudam séculos, milênios,
o homem elabora planos
não maiores que decênios.

Pedra solta, rola imersa,
na água turbulenta e fria,
rija, impune e controversa,
companheira à travessia.

Por trás dos ventos hostis
a varrerem a esperança,
ouve-se uma voz que diz:
não temeis, virá a bonança!

Quando ao consultório fores
buscando, à dor tratamentos,
não sejam somente às dores,
mas, também aos sentimentos.

Quando na vida avistares
fartas nuvens de ciúmes,
lembra, não passam de entraves,
sob a forma de tapumes!

Quem oferece uma flor
pode ser autor confesso,
dum ato que exprima amor
ou de carinho em excesso.

Quem tomar uma atitude
em não mais se alimentar,
vê enfraquecer a saúde
e o corpo debilitar.

Ramo algum é superior
que a planta, mas pode um dia,
se romper, se o vento for,
maior que a sua energia.

Se a luta parece insana
e a batalha perniciosa,
mude tal conduta humana
numa senda prazerosa.

Se beberes, não dirijas,
nem deixes que alguém o faça.
Para que, por nada erijas,
teu sepulcro numa taça.

Se calado alguém consente
não sente a mesma emoção,
de falar tudo o que sente
guardado em seu coração.

Se ensinares à criança
ser instrumento de paz,
no céu terás uma herança
que a ninguém a perderás.

Seja a luz da vida, o fulcro
e a morte um fruto tardio,
tudo o que ocupa o sepulcro
sejam restos de um vazio.

Seja como a vela acesa
num candelabro a brilhar,
siga à vida com firmeza,
sem medo de iluminar.

Se não mudas teu passado
muda o teu jeito de ser,
nisso podes ter mudado
o mundo sem perceber.

Só quem luta sabe o quanto
o dor pesa na derrota,
seu rosto banhado em pranto
reflete o que ela denota.

Surge o sol nos horizontes,
as estrelas vão dormir
e o lençol cobrindo os montes
retira-o pra se vestir.

Todo passo na alegria
se veste de brevidade,
mas, à dor, numa agonia,
parece uma eternidade.

Vejo à noite um lampadário
sempre à mesma hora a acender,
nunca muda de cenário
para o brilho acontecer.

Velho tronco decepado
com vestígios de abandono,
na impunidade, ceifado,
pelas mãos do próprio dono.

Vida plena, alguém alcança,
se calcada na virtude,
numa constante mudança
ascendendo à plenitude.

Vida, vivida com a alma,
é arte nas mãos do escultor,
chama que arde lenta e calma,
na imagem do Criador.

Vi nas areias, pegadas,
de alguém que me precedeu
e as minhas, quase apagadas,
ninguém as reconheceu.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Luiz Damo (1954)
Luiz Damo é um destacado poeta, intelectual e trovador gaúcho, amplamente reconhecido no Rio Grande do Sul e no cenário nacional por sua intensa atuação na preservação e difusão da trova literária. Nasceu na cidade de Casca/RS, em 1954. Reside e concentra suas principais atividades literárias em Caxias do Sul/RS, desde fevereiro de 1976. Construiu uma sólida trajetória multidisciplinar de formação acadêmica realizada na Universidade de Caxias do Sul e outras instituições da região. Atuou como Técnico em Contabilidade. Possui Licenciatura Plena em Filosofia, com pós-graduação em Moral e Ética em Kant, além de formação em Teologia. Cursou também as faculdades incompletas de Ciências Contábeis e Ciências Jurídicas (Direito). 
O autor é um ferrenho defensor da trova literária. Ele atua distinguindo-a com clareza da trova repentista de gaudérios. Sua poética abrange temas tradicionais da trova, reflexões filosóficas, o cotidiano e a identidade cultural do imigrante. É uma figura central na Seção Caxias do Sul, exercendo papel de liderança e presidência na organização de concursos. Membro efetivo da Academia Caxiense de Letras (ACL), onde ingressou no ano de 1991. Integra também diversas outras confrarias e academias brasileiras de caráter literário. Possui dezenas de condecorações e classificações de destaque em importantes certames nacionais, como os conceituados Jogos Florais pelo Brasil. Conquistou prêmios, menções honrosas e classificações em concursos tradicionais como o Concurso de Trovas de Cachoeira do Sul e os Jogos Florais de Curitiba.
O poeta possui 11 obras editadas de forma individual e participação em mais de 50 antologias no Brasil e no exterior. Entre seus principais títulos de destaque estão: As Faces da Trova (Obra de referência conceitual sobre a trova literária); Celebrando com Trovas (Coletânea poética de sua autoria); Academia Caxiense de Letras: 40 Anos de História (Livro historiográfico sobre a instituição literária caxiense).
A relevância de Luiz Damo para a literatura reside em ser um guardião ativo da memória e da técnica formal da trova. Em uma época de modernizações estéticas, ele dedica sua trajetória a ensinar e popularizar as regras rígidas da trova lírica e da cartrova por meio de oficinas, projetos subsidiados (como "As faces da Trova") e concursos integrados à grande Feira do Livro de Caxias do Sul. Sua atuação ajuda a descentralizar e manter viva a produção literária no interior do Rio Grande do Sul, fomentando novos talentos na poesia.

José Feldman (A Vida aos Tropeços)


"A vida não é nunca tropeçar, mas o que fazemos depois de tropeçar."

Há quem caminhe como se o chão lhe devesse respeito. Pisa com cuidado, calcula cada passo, desvia das pedras e acredita que a prudência pode negociar com o acaso. Mas o caminho, esse velho professor sem diploma, não costuma avisar quando prepara uma queda.

Tropeçamos em palavras mal escolhidas, em pessoas que pareciam abrigo, em decisões tomadas com a coragem de quem ainda não conhecia as consequências. Às vezes, tropeçamos em nós mesmos: no orgulho, na pressa, no medo de tentar. E, quando caímos, o mundo parece continuar andando sem a menor consideração. Os outros passam. O relógio insiste. A vida, indiferente e generosa, não interrompe seu curso para que possamos lamentar.

É nesse instante que descobrimos quem somos.

Não no equilíbrio perfeito, nem nos dias em que tudo dá certo, mas no momento em que permanecemos sentados no chão, com a poeira nas mãos e a dignidade amassada junto aos joelhos. Podemos culpar a pedra, amaldiçoar o caminho ou fingir que não doeu. Também podemos olhar para o obstáculo e perguntar: “O que isso veio me ensinar?”

Levantar não apaga a queda. A cicatriz continua sendo uma espécie de memória escrita no corpo e na alma. Mas há uma diferença entre carregar uma ferida e morar dentro dela. Quem se levanta não nega o sofrimento; apenas decide que ele não terá a última palavra.

Talvez amadurecer seja isso: aprender a cair sem transformar a queda em identidade. Entender que um erro é um acontecimento, não uma sentença. Que perder uma batalha não significa perder a guerra — e que, às vezes, significa apenas descobrir que estávamos lutando no lugar errado.

Depois do tropeço, mudamos o passo. Ficamos mais atentos às pedras, mas também mais compassivos com quem cai. O chão, que antes parecia inimigo, passa a ser testemunha. Foi nele que choramos, respiramos fundo e encontramos força para tentar novamente.

A vida não exige que caminhemos sem tropeçar. Exige apenas que, quando o pé falhar, ainda sejamos capazes de escolher: permanecer no chão ou transformar a queda no primeiro movimento de uma nova caminhada.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
José Feldman (1954)
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (27.set.1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Casado desde 1994 com a Ph.D. Alba Krishna Topan, professora e coordenadora do curso de letras em língua inglesa da Universidade Estadual de Maringá. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. 
        Possui 10 livros publicados, entre eles : Alquimia do Tempo, Labirinto da Vida, Caleidoscópio da Vida, Ecos do Deserto, Peripécias de um Jornalista de Fofocas, Almanaque Poético Brasileiro (poetas do Brasil), 35 Trovadores em Preto & Branco (análise de trovas de 35 trovadores brasileiros), Canteiro de Trovas, etc. e mais 5 a caminho (Minhas Irmãs de 4 patas; Guirlanda de Versos; Pérgola de textos; Contos para crianças e não tão crianças, Chafariz de Versos). Todos disponibilizados gratuitamente.
        É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Alma de Poeta)


ALUCINAÇÃO

Tentei em vão suavizar a vida,
Tornar mais leve o fardo tão pesado,
Fazer da volta o ponto de partida,
Buscar na ida o amor tão cobiçado!

Eu quis fazer da pauta a partitura
De um canto leve, doce e tão suave,
Cantar a vida com toda a ternura,
Voar em sonhos como uma ave!

Eu quis da luz o raio de esperança
Mas, por castigo, só me veio a treva.
Não me atrevo e guardo na lembrança
O que a serpente aprontou pra Eva...

E desse jeito fico aqui quietinho,
No meu cantinho, bem acompanhado,
Pois não será por falta de carinho
Que comerei a fruta do pecado!
= = = = = = = = = = = = = =  

CONTRASTE

Você é fogo, a chama mais ardente,
Semente a germinar em pleno cio,
É luz que o sol espalha suavemente,
É toque de prazer, é arrepio...

É água cristalina da nascente
Que corre lentamente para o rio,
Paixão que vem assim, tão de repente,
Deixando o coração por quase um fio.

Você é o meu passado mais presente...
Calor a me aquecer durante o frio,
Loucura que enlouquece loucamente!

Você é como um sonho inocente,
É brisa mansa em manhã de estio
E muitas vezes temporal fremente!
= = = = = = = = = = = = = =  

MANHÃ

Boceja o sol nessa manhã risonha
No céu brilhante de nuvens esparsas.
E no cenário do alto da montanha
Em revoada bailam lindas garças.

Na estrada estreita desponta um vaqueiro
Pelo aceiro tocando a boiada
Sob o comando de um feitor faceiro
Todo enfeitado para a namorada.

A manhã rompe enquanto a tarde brota,
E mais um dia foge se esvaindo...
O lusco – fusco no sertão se aporta,

E a cigarra, com seu cantar tão triste,
Dá boas – vindas à noite surgindo
O tempo avança - meu sonho persiste…
= = = = = = = = = = = = = =  

RUMO DA VIDA

Tirei o traço na trena,
Toquei fogo na fornalha,
Saí de foco, de cena,
Rezei com fé a novena,
Dei flores pra namorada...

Afinei minha viola,
Recitei o meu poema
Confessei o meu dilema,
Pra vida eu nem dei bola.
Fugi cedo da escola
E o filme da minha vida
Projetei no meu cinema...

Arrumei as minhas tralhas,
Fiquei perdido na trilha,
Refugiei-me na ilha
Desse mundo de ilusão.
Doei pra você todinho
O meu pobre coração!
= = = = = = = = = = = = = =  

SOL POENTE

Quando contemplo ao longe o sol poente
atrás do monte lá no infinito
sonho acordado o sonho mais bonito,
e tenho a fé de um homem forte e crente.

A luz suave, quase se apagando,
acende em mim um fogo tão ardente,
e ao pensar eu fico imaginando
o amor se pondo assim tão de repente.

O tempo passa e vem a madrugada
como um açoite castigando a gente
na aurora fria, escura e tão calada!

Oh... breve tempo tenha dó de mim
por que flagela um coração carente,
me machucando tanto, tanto, assim!
= = = = = = = = = = = = = =  

VIL METAL

Nessa vida só descobre
Quem usa a sabedoria
Para entender que o nobre
Nem sempre se avalia
Usando o ouro e o cobre
Para dizer quem é rico
Ou indicar quem é pobre!

A pobreza e a riqueza
não se veem pelo metal!
Esse juízo é fatal,
é vil, cruel e perverso;
é como julgar poema
simplesmente por um verso!

A riqueza está na alma,
no cerne, no interior,
no âmago de cada um...
por isso digo sem medo
e sem receio nenhum:
(observa e descobre)
tem muito "pobre" que é rico,
tem muito "rico" que é pobre!
= = = = = = = = = = = = = =  

VOZ DA RAZÃO

Quando minha razão fala,
com a voz do coração,
tudo em mim então se cala
e minha vida se embala
na mais sublime canção.

E quando a luz matutina
vem meiga me despertar,
a esperança descortina
e a fé, então, me ensina:
é hora de agradecer,
é momento de rezar!

E quando o silêncio cala
profundo dentro da gente,
sem querer a alma sente
que por nós é DEUS quem fala!
= = = = = = = = = = = = = =  
Antonio Manoel Abreu Sardenberg (1947)
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG é um expressivo poeta, trovador e jurista fluminense, amplamente reconhecido por sua profunda ligação cultural e afetiva com o município de São Fidélis. Nasceu em Santo Antônio de Pádua, RJ, em1947. Embora tenha nascido em Pádua, viveu sua infância no distrito de Ipuca, em São Fidélis / RJ, cidade que adotou como seu verdadeiro lar, onde construiu sua família e estabeleceu suas principais raízes comunitárias. Atuou como Advogado Civilista e Consultor Jurídico. Devido à sua intensa participação social, serviços e relevância cultural na "Cidade Poema", recebeu o título de Cidadão Honorário de São Fidélis, concedido formalmente pela Câmara Municipal.
Conhecido pelo pseudônimo e marca de seu espaço lírico "Alma de Poeta", Sardenberg destaca-se como um exímio trovador e poeta romântico. Sua escrita é marcada pelo lirismo clássico, versos rimados e temas bucólicos. Ele canta com sensibilidade sobre a natureza (pássaros, flores), as reminiscências da infância, o amor e, acima de tudo, a profunda saudade de sua terra natal e do cotidiano interiorano. Teve forte atuação e inserção nos movimentos de difusão poética do início da era digital, integrando núcleos como a Academia Virtual Brasileira de Letras (AVBL). No cenário regional e físico de São Fidélis, representou patronos e cadeiras em comemorações e saraus históricos de fomento às letras (como a representação do Patrono nº 21, Theodoro Gouvêa de Abreu). Suas conquistas se concentram no reconhecimento público regional. Ele foi um dos idealizadores, apoiadores e organizadores de destaque do I Encontro Nacional de Poesias de São Fidélis, evento que movimentou e premiou a vertente da trova nacional e uniu poetas de diversos estados brasileiros.
Dedicou-se intensamente tanto ao formato físico quanto à transição para a literatura digital, sendo pioneiro na criação de plataformas virtuais para poetas independentes: Reminiscências Poéticas (Livro Virtual/Antologia de poesias e trovas); Publicou dezenas de folhetos, coletâneas em formato multimídia (poemas declamados e apresentações em PPS), além de possuir vasta participação em Antologias Poéticas coletivas ao lado de outros trovadores do Rio de Janeiro e de Minas Gerais; Seu site, o Sardenberg Poesias (Alma de Poeta)  (http://www.sardenbergpoesias.com.br/principal.htm), tornou-se uma espécie de biblioteca viva que imortalizou sua produção literária ao longo dos anos.
A relevância de Antonio Manoel Abreu Sardenberg reside no seu papel de preservador e dinamizador da identidade cultural de São Fidélis. Em uma época em que a poesia regional corria o risco de ficar restrita aos saraus físicos de interior, ele utilizou a internet e encontros nacionais para projetar o município fluminense de volta ao cenário nacional como a legítima "Cidade Poema". Sua importância se consolida em duas frentes: a manutenção da tradição da Trova (uma das formas poéticas mais democráticas e populares da nossa língua) e a sua generosidade em abrir espaços em seus portais e eventos para que novos e antigos poetas pudessem publicar suas obras, descentralizando a produção literária dos grandes eixos capitais.

(Poemas enviados pelo poeta)

Carolina Ramos (Santinha)


Faminto de asfalto o carro engolia quilômetros com voracidade insaciável. A vontade de chegar levava a moça a pisar firme, incentivando a gula da máquina. Sentiu a boca seca.

O último povoado ficara para trás, não muito longe. Arrependia-se de ter seguido as determinações da pressa, não parando sequer para um refrigerante. Partira para um fim de semana campestre, ameno e repousante, flecha disparada em rumo certo, sem direito a desvios, nem interrupções.

Com alívio, vislumbrou, à beira da estrada, a tabuleta convidativa. Sugestão, alentadora: - "Água potável". Diminuiu a marcha ao cruzar a ponte.

Deixou o carro no acostamento e embrenhou-se pela trilha estreita, em declive, chegando até a grota gorgolejante descoberta ao fundo, sob o frescor da ramagem. Dois ipês floridos denunciavam a chegada da primavera, atapetando o pequeno oásis com flores macias vestidas de ouro.

Perdida a pressa após matar a sede, a jovem deixou, deliciada, que a água fresca escorresse, por algum tempo, por entre os dedos, "inodora e sem sabor", como aprendera na escola, e, também, insubstituível! Que bebida, por mais saborosa e perfumada, pode substituir um gole dessa linfa pura, quando o demônio da sede ateia fogo aos sentidos?!

Ajoelhou-se novamente junto à fonte, mergulhando o rosto na concha das mãos, deleitada com a ablução refrescante. Voltou-se sem urgência e sem enxugar a face.

Foi quando descobriu a pequena cruz, adornada de flores, escondida sob a ponte. A curiosidade levou-a até lá.

Em letras rústicas, o nome - Rosalinda - atravessava os braços de madeira pintados de branco.

Uma figura agachada sob a ponte, até o momento não pressentida, movimentou-se na penumbra. Sobressaltada, a jovem recuou.

- Num carece tê medo, dona. Ninguém vai lhe molesta. Reze uma prece préla ...e num dexe de rezá uma prece prêle, tamém.

Encorajada pelo tom pacífico daquela estranha e soturna voz, a moça arriscou:

- Mas... quem é ela?… E ele, quem é?!

Um instante de silêncio, um suspiro... e a voz roufenha fez-se ouvir de novo:

- Ela é Rosalinda. Ele... é o disgraçado qui matô ela...aqui mesmo, nesse lugá onde tá a cruz! A história é cumprida... mas si a dona tivé tempo, eu posso contá.

Arrepiada até a alma, a moça levou a mão à boca, arrependida de ter feito as perguntas. Teve ímpetos de fugir, mas a curiosidade, maior que os temores, fez com que ali ficasse. Assentiu:

- Conte... Conte logo... Tenho um tempinho de sobra...

A voz do homem fez-se mais grave.. Sob o peso da emoção... ele sussurrou, como se falasse consigo mesmo:

- Rosalinda era uma rosa! Uma rosa linda de morrê...! E pur causa disso memo, é qui ela morreu! Tinha só quinze ano! Era um botão cumeçando a se abri! Os cabelo era longo... dessa cô aí dos da moça. Bem talhadinha! Pura que nem a água dessa grota! Tudo o mundo amava Rosalinda! Mas, tinha um disgraçado que amava ela mais qui tudo esse mundo junto! Era o Tião! Cabôco sacudido, já cuns trinta e pocos ano de idade.

Home feito, Tião sabia o qui quiria! Num era mau sujeito, não... mai era grossêro... i num sabia perdê!

Pra mor dos seus pecado, Tião garrô de querê Rosalinda! Querê cum locura... e de quarqué jeito! Ele sabia e seguia tudos passo que a minina dava! Chego inté a propô casamento préla. I ela se riu dele... de gargaiada! Isso doeu dimais no coração do coitado!

Tudos dia, Rosalinda, cada vez mais linda, vinha, muntada num burrico, buscá um garrafão de água nesse memo corguinho. Tião sabia disso! Naquele dia, ele chegô bem in antes dela... i ficô amoitado bem aí, onde ocê tá agora.

Presa da emoção, a moça ouvia sem coragem de interromper o narrador, que prosseguia, em voz arrastada:

– Daquela veiz, a minina chegô alegrinha!... Vinha cantando baxinho... sem suspeitá o que ia acuntecê. I aí mêmo, onde tá fincada essa cruiz, Tião matô ela! Matô in disispêro pruquê ela nun quis sê dele! Matô... i fugiu, cubrindo a cara cô' as mão! Adispois, foi preso... mó di pagá... i amargá seu pecado entre as grade!

Trêmula, a moça conscientizou-se de que estava bem no meio do palco onde uma tragédia, há algum tempo, se consumara entre dois protagonistas - um homem e uma mulher... E que essa tragédia poderia bem ser repetida, a qualquer momento!

Tentou amenizar a gravidade da situação, simulando calma:

- O senhor conhecia Rosalinda?

- Mai é craro que sim! Tudo o mundo cunhecia ela! Rosalinda era uma santinha! Pur isso, dona, é qui eu sempre trago frô aqui onde ela drumiu pra sempre!

O adeus apressado não deixava dúvidas quanto à urgência da moça em se retirar de cena. Assim mesmo, apesar da penumbra, pôde notar que o maltrapilho tinha aspecto desagradável, possuindo apenas um olho, o que lhe tomava a aparência ainda menos atrativa.

De volta à rodovia, a amena temperatura do ocaso devolveu-lhe parte da tranquilidade. Baixou a janela do carro, deixando que as mãos finas da brisa penteassem para trás seus cabelos castanhos... da cor dos de Rosalinda - estremeceu com a lembrança!

Pouco depois, chegava à fazenda, onde era esperada. Só então, entre perplexa e estarrecida, tomou conhecimento da história completa.

A tragédia acontecera há quase vinte anos, Rosalinda fora morta exatamente como lhe contara o homem amoitado sob a ponte. Era mesmo, Tião, o nome do assassino - Tião Caolho! Preso porque, na mão fechada da vítima, fora encontrado o seu olho, arrancado na luta pelas unhas e pelo desespero da moça!

Dizia-se que, depois de muitos anos de confinamento, Tião, há pouco, fora posto em liberdade. Todos os dias levava flores para a menina morta! Um pobre coitado roído pelo remorso! Espécie de alma penada, que nem mais chegava a assustar!

Ninguém sabia dizer onde... e nem do quê o pobre vivia! O mais certo é que morasse lá mesmo, debaixo daquela ponte. Ninguém o via pedir esmolas... ou qualquer ajuda. Tião só pedia flores e rezas! Flores para enfeitar a cruz de Rosalinda. Rezas para aguentar a consciência pesada... na esperança de um dia (quem sabe?) conseguir o perdão de Deus... e o da sua Santinha!
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Carolina Ramos (1924)
CAROLINA RAMOS DE OLIVEIRA, popularmente conhecida no meio literário como Carolina Ramos, é a “Primeira-Dama da Trova Brasileira” ou “Princesa da Trova”. Nascida em Santos/SP, em 1924, é um dos maiores nomes da literatura de quadras rimadas (trovas) no país e completou seu centenário em 2024 mantendo-se ativa na cultura.
Carolina Ramos nasceu, cresceu e reside até hoje na cidade de Santos (SP). Sua infância foi vivida em um lar singelo na Vila dos Andradas, área que atualmente abriga a Rodoviária de Santos. Ela possui um vínculo afetivo profundo e histórico com a baixada santista. Sua formação é múltipla e abrange diversas vertentes da educação e da arte. Formou-se professora pela Escola Normal do tradicional Colégio São José, onde também estudou Secretariado. Atuou lecionando e compondo hinos para instituições educacionais e culturais. Formou-se em piano, teoria, pedagogia e história da música no Instituto Musical Santa Cecília. Estudou também folclore no Instituto Musical Carlos Gomes. Atuou como artista plástica autodidata, conquistando reconhecimento e premiações em exposições nacionais e internacionais. Além disso, realizou curso de enfermagem socorrista pela Cruz Vermelha. Serviu como administradora cultural de destaque, tendo inclusive presidido o Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS) entre os anos de 2001 e 2007.
O despertar literário definitivo de Carolina ocorreu durante suas noites de insônia após o nascimento de sua segunda filha. Ela começou a compor versos tradicionais e, rapidamente, o seu domínio técnico da trova chamou a atenção dos grandes nomes da época. Em um episódio célebre, o lendário poeta Luiz Otávio (fundador da União Brasileira de Trovadores) apresentou-a publicamente sacramentando seu talento. Carolina Ramos é considerada uma verdadeira guardiã da trova no Brasil. Ela dedicou décadas a ensinar, divulgar e estruturar o movimento trovadoresco, aproximando a poesia clássica e popular do leitor comum e influenciando gerações de novos escritores. Ocupa cadeiras de prestígio em importantes sodalícios culturais do país, como União Brasileira de Trovadores: Presidiu a seção municipal de Santos e alcançou o topo da liderança institucional ao presidir o Conselho Nacional em 2011; Academia Santista de Letras; Academia Cristã de Letras (ACL), com sede em São Paulo; Academia Feminina de Letras; Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS), onde ocupa a cadeira número 46.
Acumulou incontáveis premiações nos gêneros de poesia, conto, crônica e trova ao redor do mundo. No universo da trova, recebeu as maiores honrarias possíveis do movimento nacional: Título máximo de Magnífica Trovadora nos renomados Jogos Florais de Nova Friburgo (RJ), conquistado em 1973; Menção e título de Notável Trovadora concedido pelas cidades de Divinópolis e Pouso Alegre, em Minas Gerais.
Com uma vasta produção literária, a autora publicou 16 livros transitando com maestria entre a prosa e a poesia. Entre alguns de seus títulos estão: Cantigas Feitas de Sonho;  Peregrinação; ‘O Príncipe da Trova — livro biográfico e afetivo no qual narra a vida, a morte e o convívio poético com Luiz Otávio, o fundador do movimento trovadoresco nacional.
Carolina Ramos é considerada uma das maiores instituições vivas da literatura popular e clássica brasileira, exercendo um papel fundamental na preservação da memória literária nacional. A sua importância para a literatura se resume em que atuou na linha de frente para que a trova, vinda da Idade Média, ganhasse temáticas modernas, urbanas e cotidianas, mantendo o gênero atraente para as novas gerações. Ao publicar obras como O Príncipe da Trova, Carolina Ramos registrou a história viva e os bastidores da era de ouro da poesia nacional. Ela documentou o legado de Luiz Otávio e de outros grandes intelectuais do século XX, servindo como uma fonte histórica essencial para pesquisadores da literatura brasileira. Em uma época em que o ambiente acadêmico e literário era predominantemente dominado por homens, Carolina Ramos conquistou os títulos máximos da poesia brasileira por mérito técnico incontestável. Ela abriu portas para que mulheres escritoras ocupassem cadeiras de prestígio nas academias de letras e assumissem cargos de liderança cultural e intelectual.

Fonte:
Carolina Ramos. Canta… Sabiá! (folclore). Santos/SP, 2021. conto integrante do capítulo 5: Contos rústicos, telúricos e outros mais. p. 253. Livro enviado pela autora.

Guerra Junqueiro (O Fato Novo do Sultão)


Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário todo o seu rendimento.

Quando passava revista ao exército, quando ia aos passeios ou ao teatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como se diz de um rei: Está no conselho, dizia-se dele: está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças à quantidade de estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá um dia dois larápios, que, dando-se por tecelões, disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não eram só extraordinariamente ricos os desenhos e as cores, mas além disso, os vestuários, feitos com esse estofo, possuíam uma qualidade maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para todos aqueles que não exercessem bem o seu emprego.

– São vestuários impagáveis, disse consigo o sultão; graças a eles, saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso desse estufo.

E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada, para. que pudessem começar os trabalhos imediatamente.

Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras.

Requisitavam seda e ouro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isto muito bem guardado, trabalhando até à meia-noite com os teares vazios.

– Necessito saber se a obra vai adiantada.

Mas tremia de medo, lembrando-se de que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E por mais que confiasse na sua inteligência, achou em todo o caso prudente mandar alguém adiante.

Todos os habitantes da cidade conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exato.

– Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um grande talento; ninguém melhor do que ele pode avaliar o estofo.

Entrou o honrado ministro na sala em que os dois impostores trabalhavam com os teares vazios.

– Meu Deus! disse ele para si arregalando os olhos, não vejo absolutamente nada! Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a opinião sobre os desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, olhava, mas não via nada, pela razão simplíssima de nada lá existir...

– Meu Deus! pensou ele, serei realmente estúpido? É necessário que ninguém o saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.

– Então que lhe parece? perguntou um dos tecelões.

– Encantador, admirável! respondeu o ministro, pondo os óculos. Este desenho... estas cores.., magnífico!... Direi ao sultão que fiquei completamente satisfeito.

– Muito agradecido, muito agradecido, disseram os tecelões, e mostraram-lhe de novo as cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe deles uma descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois repetir tudo ao sultão.

Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata, e mais ouro; precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no bolso, é claro; o tear continuava vazio, e apesar disso, trabalhavam sempre.

Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funcionário, homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não via nada.

– Não acha um tecido admirável? perguntaram os tratantes, mostrando o magnífico desenho e as belas cores, que tinham apenas o inconveniente de não existir.

– Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois não serei eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! mas deixá-lo, não o deixo eu.

Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo desenho e o bem combinado das cores.

– É de uma magnificência incomparável, disse ele ao sultão.

E toda a cidade começou a falar desse tecido extraordinário.

Enfim, o próprio sultão quis vê-lo enquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois honrados magnatas, dirigiu-se para as oficinas, em que os dois velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de ouro, nem de espécie alguma.

– Não acha magnífico? disseram os dois honrados funcionários. O desenho e as cores são dignos de Vossa Alteza.

E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali estavam pudessem ver alguma coisa.

– Que é isto! disse consigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível! serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que desgraça que me acontece! Depois, de repente, exclamou: É magnífico! Testemunho-vos a minha real satisfação.

E meneou a cabeça com um ar prazenteiro, e olhou para o tear, sem se atrever a declarar a verdade, Todas as pessoas do séquito olharam do mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem verem coisa alguma, e no entanto repetiam como o sultão:

«É magnífico!» Deram-lhe de conselho que se apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnífico! é encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas; e a satisfação era geral.

Os dois impostores foram condecorados e receberam o título de fidalgos tecelões.

Na véspera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à luz de dezesseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fio, e declaram, ao cabo, que estava o vestuário concluído.

O sultão com os seus ajudantes de campo foi examiná-lo, e os impostores levantando um braço, como para sustentar alguma coisa, disseram:

– Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha; é a principal virtude deste tecido.

– Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.

– Se Vossa Alteza se dignasse despir-se, disseram os larápios, provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.

O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do espelho.

– Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortesãos. Que desenho! que cores! que vestuário incomparável!

Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias:

– Está à porta o dossel sob o qual Vossa Alteza deve assistir à procissão, disse ele.

– Bom! estou pronto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.

E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçá-la.

É, enquanto o sultão caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a gente na rua e às janelas exclamava: «Que vestuário magnífico! Que cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguém queria dar a perceber que não via nada, porque isso equivalia a confessar que era tolo. Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.

– Mas parece que vai em cuecas, observou um pequerrucho, ao colo do pai.

– É a voz da inocência, disse o pai.

– Há ali uma criança que diz que o sultão vai em cuecas.

«Vai em cuecas! vai em cuecas!» exclamou o povo finalmente.

O sultão ficou muito aflito, porque lhe pareceu que realmente era verdade. Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até ao fim e os camaristas submissos continuaram a levar com o máximo respeito a cauda imaginária.
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Guerra Junqueiro (1850 – 1923)
ABÍLIO MANUEL GUERRA JUNQUEIRO foi o poeta mais popular e politicamente influente de sua época em Portugal. Conhecido como o "Victor Hugo português", suas sátiras afiadas e seu profundo lirismo social atuaram como verdadeiros combustíveis ideológicos para a queda da monarquia e a subsequente implantação da República Portuguesa. Nasceu em Freixo de Espada à Cinta, na região de Trás-os-Montes, em Portugal, em 1850  e faleceu em Lisboa, Portugal, em 1923 (aos 72 anos), vitimado por problemas de saúde decorrentes da idade. Passou a infância em Trás-os-Montes e mudou-se para Bragança e depois Coimbra para realizar seus estudos. Ao longo de sua vida adulta e carreira política, alternou residências entre Lisboa e Porto. Também morou temporariamente em Berna (Suíça) devido às suas funções diplomáticas. Filho de um lavrador abastado, Junqueiro inicialmente foi direcionado à vida eclesiástica por sua família conservadora. No entanto, abandonou o seminário para cursar Direito na Universidade de Coimbra, formando-se em 1873. Sua carreira foi altamente multifacetada. Atuou como jornalista e cronista em periódicos influentes de sua época. Trabalhou como alto funcionário administrativo do Estado, atuando como Secretário-Geral Civil em Angra do Heroísmo (Açores) e em Viana do Castelo. Teve uma ativa carreira parlamentar, sendo eleito Deputado nas cortes portuguesas pelo partido progressista e, mais tarde, um dos principais defensores das causas republicanas. Com a consolidação da República, foi nomeado Ministro Plenipotenciário (Embaixador) de Portugal na Suíça entre os anos de 1911 e 1914.
Guerra Junqueiro despontou para o mundo das letras na efervescente Coimbra do fim do século XIX, integrando o movimento acadêmico e revolucionário conhecido como a Geração de Coimbra. Inicialmente influenciado pelo romantismo tardio, ele rapidamente migrou para o Realismo e o Naturalismo, integrando o grupo de intelectuais do Cenáculo. Diferente de outros autores de sua era, a atuação de Junqueiro concentrou-se mais em associações políticas, grêmios intelectuais e revistas de vanguarda (como a Lanterna Mágica e A Folha) do que em academias de letras formais. Ele recusava formalismos institucionais tradicionais por sua postura altamente rebelde, anticlerical e antimonárquica. No século XIX e início do século XX, o sistema de premiações literárias oficiais em Portugal quase não existia nos moldes atuais. O maior "prêmio" de Guerra Junqueiro foi o imenso clamor público e popularidade inédita, tornando-se o poeta mais lido e declamado do país. (Nota: Atualmente, seu legado batiza o prestigioso [Prémio Literário Guerra Junqueiro Lusofonia, instituído para condecorar grandes nomes da literatura em língua portuguesa).
Principais Livros: A Morte de D. João (1874) – Obra que o consagrou no realismo satírico; A Velhice do Padre Eterno (1885) – Forte e polêmica sátira anticlerical; Finis Patriae (1890) e Pátria (1896) – Poemas panfletários de protesto contra o declínio da monarquia e o Ultimato Britânico; Os Simples (1892) – Transição para uma poesia mais mística, panteísta e voltada à exaltação da vida rural e dos camponeses.
A importância de Guerra Junqueiro reside no fato de ele ter transformado a poesia em uma arma cívica e de intervenção social de massa. Ao unir a ironia corrosiva e a caricatura social a um domínio estético grandioso, ele conseguiu fazer com que a poesia saísse das elites e ecoasse diretamente no sentimento popular de indignação pública. Suas sátiras desmistificaram as instituições da Coroa e da Igreja, abrindo caminho cultural e psicológico para as transformações democráticas modernas em Portugal e marcando definitivamente a transição estética para o século XX. 

Fontes:
Guerra Junqueiro. Contos para a infância.
Biografia = Wikipedia, Enciclopedia Britannica, E-Biografia, Infopedia, Instituto Camões, Brasil Escola, Jornal de Poesia, etc.

Versos Esparsos * 15 *