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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

José de Alencar (Ao Correr da Pena I)


A primavera – Eclipse de uma estrela – Espetáculo de graça – As três graças dos gregos e as desgraças de um diletante – Importe de um espetáculo gratuito – o baile do Cassino – A valsa – Nova pomba da arca.

17 de setembro

Estamos na primavera, dizem os folhetins dos jornais, e a folhinha de Laemmert, que é autoridade nesta matéria. Não se pode por conseguinte admitir a menor dúvida a respeito. A poeira, o calor, as trovoadas, os casamentos e as moléstias, tudo anuncia que entramos na quadra feiticeira dos brincos e dos amores.

Que importa que o sol esteja de icterícia, que a Charton enrouqueça, que as noites sejam frias e úmidas, que todo o mundo ande de pigarro? Isto não quer dizer nada. Estamos na primavera. Os deputados, aves de arribação do tempo do inverno, bateram a linda plumagem; a Sibéria fechou-se por este ano, os buquês de baile vão tomando proporções gigantescas, as grinaldas das moças do tom são perfeitas jardineiras, a Casaloni recebe uma dúzia de ramalhetes por noite, e finalmente os anúncios de salsaparrilha de Sands e de Bristol começam a reproduzir-se com um crescendo animador.

Come, gentil spring! Vem, gentil quadra dos prazeres! Vem encher-nos os olhos de pó! Vem amarrotar-nos os colarinhos da camisa, e reduzir-nos à agradável condição de um vaso de filtrar água. Tu és a estação das flores, o mimo da natureza! Vem perfumar-nos com as exalações tépidas e fragrantes da Rua do Rosário, da Praia de Santa Luzia, e de todas as praias em geral!

Doce alívio dos velhos reumáticos, esperança consoladora dos médicos e dos boticários, sonho dourado dos proprietários das casinhas dos arrabaldes! Os sorveteiros, os vendedores de limonadas e ventarolas, os donos dos hotéis de Petrópolis, os banhos, os ônibus, as gôndolas e as barracas, te esperam com a ansiedade, e de suspirar por ti quase estão ficando tísicos (da bolsa).

Esta semana já começamos a sentir os salutares efeitos de tua benéfica influência! Vimos uma estrela do belo céu da Itália eclipsada por uma moeda de dois vinténs, e tivemos a agradável surpresa de ouvir o 1º ato do Trovatore e um speech (sirenes) da polícia, tudo de graça.

Alguns mal intencionados pretendem que a noite não foi tão gratuita como se diz; mas deixai-os falar; eu, que lá estive, posso afiançar-vos que o espetáculo foi todo de graça, como ides ver.

A autoridade policial depois de participar que ficava suspensa a representação e que os bilhetes estavam garantidos, sendo por conseguinte aquela noite de graça, como esta notícia excitasse algum rumor, declarou formalmente, e com toda a razão, que se acomodassem, porque a polícia, quando tratava de cumprir o seu dever, não era para graças.

Os namorados que tiveram duas noites de namoro pelo custo de uma, os donos de cocheira que ganharam o aluguel por metade do serviço, o boleeiro que empolgou a sua gorjeta sem contar as estrelas até a madrugada, aqueles que lá não foram, não só riram-se de graça, como acharam nisto uma graça extraordinária.

Muito olhar suplicante vi eu nos últimos momentos, humilhando-se diante de um rostozinho orgulhoso e ofendido, clamar com toda a eloquência do silêncio: grazia! grazia! É preciso advertir que o olhar estava no Teatro Provisório, e por isso não se deve admirar que falasse italiano; além de que, o olhar é poliglota e sabe todas as línguas melhor do que qualquer diplomata.

Finalmente, para completar a graça deste divertimento, as graças com os seus alvos vestidinhos brancos se reclinavam sobre a balaustrada dos camarotes, cheias de curiosidade, para verem o desfecho da comédia. E a este respeito lembra-me uma reflexão que fiz a tempos, e da qual não vos quero privar, porque é curiosa.

Os gregos, como gente prudente e cautelosa, inventaram unicamente três graças, e consta que viveram sempre muito bem com elas. Nós, de mal avisados que somos, queremos ter em todos os divertimentos, nos bailes, nos teatros e nos passeios uma porção delas, sem refletir que, logo que se ajuntarem muitas, podem formar necessariamente um grupo de dez graças.

Maldito calembur! Não vão já pensar que pretendo que as graças tenham sido a causa de tudo isto, nem também que todo aquele desapontamento fosse produzido por alguma graça da Charton. A Primadona estava realmente doente, e, aqui para nós, suspeito muito os meus colegas folhetinistas de serem a causa daquela súbita indisposição com o formidável terceto de elogios que entoaram domingo passado. Lembrem-se que os elogios e os aplausos comovem extraordinariamente um artista. Ainda ontem vi como ficaram fora de si as tímidas coristas, unicamente porque lhe deram duas ou três palmas!

Em toda esta noite, porém, o que houve de mais interessante foi o fato que vou contar-vos. Um velho diletante do meu conhecimento, ainda do tempo do magister dixit (o mestre disse), e para quem a palavra da autoridade é um evangelho, teve a infeliz lembrança de justamente nesta noite encomendar um magnífico buquê para oferecer à Charton no fim da representação. Apenas se declarou o relâche par indisposition (espetáculo cancelado por motivo de doença), o homem perdeu a cabeça, e, o que foi pior, com os apertos da saída perdeu igualmente a bengala, que lá deixou ficar com os ares de novo um chapéu comprado pela Páscoa.

No outro dia, o homem, que tinha seus hábitos antigos de comércio, viu-se em sérias dificuldades. Não podia deixar de acreditar, à vista da declaração da polícia, que o espetáculo da noite antecedente fora de graça; mas, ao mesmo tempo, tinha de dar saída no livro de despesas ao dinheiro que gastara com o aluguel do carro, com a gorjeta do boleeiro, com o par de luvas, com o buquê da Charton, o custo da bengala e o estrago do chapéu. Coçou a cabeça, tomou a sua pitada, e afinal escreveu o seguinte assento: Importe de um espetáculo gratuito no Teatro Provisório – 26$000!

O meu diletante ainda não sabia que a palavra grátis é um anacronismo no século XIX, e, quando se fala em qualquer coisa de graça, é apenas uma graça, que muitas vezes torna-se bem pesada, como lhe sucedeu. Provavelmente, depois deste dia, o velho lhe aditou ao seu testamento um codicilo proibindo terminantemente ao seu herdeiro os espetáculos gratuitos.

Assim a crônica futura desta heroica cidade consignará nas suas páginas que, pelo começo da primavera do ano de 1854, tivemos um divertimento de graça. Os nossos bisnetos, não falo dos militares de boca aberta , hão de pasmar quando lerem um acontecimento tão extraordinário, e, se nesse tempo ainda estiver em uso o latim, clamarão com toda a força dos pulmões: Miserabile dictu! (contar miserável!)

Depois de uma semelhante noite, era natural que os dias da semana corressem, como correram, monótonos e insípidos, e que o baile do Cassino estivesse tão frio e pouco animado. Entretanto aproveitei muito em ir, pois consegui perder as minhas antipatias pela valsa, a dança da moda. É verdade que não era uma mulher que valsava, mas um anjo. Um pezinho de Cendrillon, um corpinho de fada, uma boquinha de rosa, é sempre coisa de ver-se, ainda mesmo em corrupios.

Fiz a amende honorable (pedido público de desculpas) de minhas opiniões antigas, e, vendo nos rápidos volteios da dança voluptuosa passar-me por momentos diante dos olhos aquele rostinho iluminado por um sorriso tão ingênuo, não pude deixar de fazer uma comparação meio sentimental e meio cosmogônica, que talvez classifiqueis de original, mas que em todo o caso é verdadeira. Quando o mar, que Shakespeare disse ser a imagem da inconstância, revolveu o globo num cataclisma e cobriu a terra com as águas do dilúvio, foi uma pomba o emblema da inocência, que anunciou aos homens a bonança, trazendo no bico um raminho de oliveira. Se algum dia uma paixão de loureira vos revolver a alma, e deixar-vos o desgosto e a desilusão, há de ser um anjinho inocente como aquele quem vos anunciará a paz do coração, trazendo nos lábios o sorriso do amor o mais casto e mais puro.
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JOSÉ MARTINIANO DE ALENCAR nasceu em Messejana (CE), em 1829. Faleceu prematuramente de tuberculose na cidade do Rio de Janeiro em 1877, aos 48 anos. Mudou-se ainda na infância (aos 9 anos) com a família para o Rio de Janeiro, então capital do Império. Passou também temporadas em São Paulo e Olinda (PE) durante seus anos de formação acadêmica. No fim da vida, buscou tratamento para a saúde na Europa, mas retornou ao Rio de Janeiro pouco antes de morrer. Teve uma carreira multifacetada de grande destaque na vida pública do Brasil Império. Formou-se em Direito pelas Faculdades de São Paulo e Olinda. Atuou como advogado, jornalista (redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro) e teve uma expressiva carreira na política. Foi deputado geral pelo Ceará, líder partidário e chegou ao cargo de Ministro da Justiça (1868–1870) no gabinete do Partido Conservador. 
Iniciou sua trajetória escrevendo folhetins para jornais, formato no qual publicou suas primeiras grandes obras. Alencar liderou o movimento do Romantismo brasileiro, assumindo o projeto consciente de fundar uma literatura genuinamente nacional. Buscou criar uma língua literária que se distanciasse do português castiço de Portugal, incorporando o falar brasileiro, as paisagens locais, a fauna, a flora e as lendas nativas. Faleceu duas décadas antes da fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1897. No entanto, por sua magnitude, foi escolhido por Machado de Assis como o Patrono da Cadeira nº 23 da instituição. Em vida, participou de grêmios intelectuais importantes do século XIX, como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Na época em que viveu (século XIX), não existiam prêmios literários nos moldes modernos (como o Prêmio Jabuti ou Camões). O maior reconhecimento que um autor recebia era o sucesso de público (comercialização dos folhetins), o prestígio na corte e o aval de intelectuais contemporâneos e da família imperial (como o próprio Dom Pedro II, que acompanhava a produção cultural).
Sua vasta produção literária é dividida e categorizada pelo público e pela crítica em quatro vertentes temáticas principais:
Romances Indianistas: O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874).
Romances Urbanos (ou de Costumes): Cinco Minutos (1856), A Viuvinha (1857), Lucíola (1862), Diva (1864) e Senhora (1875).
Romances Regionais: O Gaúcho (1870), O Tronco do Ipê (1871), Til (1872) e O Sertanejo (1875).
Romances Históricos: As Minas de Prata (1865) e A Guerra dos Mascates (1873).
Também escreveu comédia e drama para o Teatro, como as peças O Demônio Familiar (1857) e Mãe (1860).
Ele é considerado o "arquiteto" da literatura brasileira autônoma, pois compreendeu que uma nação recém-independente precisava de uma identidade cultural própria para se consolidar. Ao criar a trilogia indianista, transformou o indígena no herói mítico nacional e no símbolo da gênese do povo brasileiro. Com seus romances urbanos, mapeou e criticou a burguesia fluminense do Segundo Reinado (especialmente o papel da mulher e as relações por interesse, como o casamento por dote). Por fim, ao escrever os romances regionais, realizou um inventário geográfico e cultural do vasto território brasileiro. Alencar inventou uma forma de narrar o Brasil para os próprios brasileiros.

Fonte:
ALENCAR, José de. Ao correr da pena. Publicado originalmente em 1874.

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