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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Carlos Leite Ribeiro (Este Nosso Bairro)


Minha boa amiga, como hoje está a chover e não podemos sair, podíamos coscuvilhar aqui mesmo à nossa porta…

Olhe que este nosso bairro precisa de dar uma grande volta! Olha que precisa, precisa, pois antigamente, não se viam coisas como estas que hoje se veem. 

Sabe que no outro dia, a Isaltina (que é uma verdadeira fera para a filha), implicou com ela por causa de um refrigerante que tinha guardado num dos armários da cozinha? 

– Micas, aonde está o refrigerante que estava aqui, ainda ontem?

A moça corou muito, pensou, e como pode respondeu-lhe: 

– Minha mãe, despejei-o hoje… 

Logo a mãe quis saber “aonde”. A Micas já mais confiante, replicou com ela: 

– Tu também queres saber tudo. Olha, despejei-o na sanita.

Coisas chocantes, chocantes, como vês minha boa amiga!
*****

Também a Francelina perguntou à filha: 

– O que aconteceria se tu estivesses grávida?

O que a filha logo lhe respondeu: – 

– Era um grande problema, minha mãe, pois, não sabia quem era o pai.
Isto sem comentários!
*****

Olha, a Emengárdia comentava no outro dia, em altos gritos: 

– O raio do gato comeu o bife que era para o meu marido. O que é que o pobrezinho agora vai comer?

Logo o inocente do seu filho, o Ernestinho, a aconselhou: 

– Agora, o papá terá de comer o gato…

Como vês, minha boa amiga, cá no bairro é tudo tão inocente.
*****

A calhandreira da Rita, comentou com uma vizinha: 

– O meu canário farta-se de cantar quando eu estou calada. Não sei o que lhe hei de fazer? A vizinha ouviu, ouviu, pensou e depois aconselhou-a: 

– Olhe vizinha, fale você para ver se o canário se cala.

O certo é que o canário nunca mais cantou.
*****

Ai, antes que me esqueça: O Bertolino, aquele que anda sempre “vinicamente" bêbado no outro dia entrou em casa em altos berros: – Sou um puro sangue – sou um cavalo de corrida!. 

A Venância, a companheira que está com ele, logo lhe perguntou: 

– Para tu seres um cavalo, o que serei eu? 

O descarado olhou para ela com desdém e, entre os dentes, sarcasticamente, respondeu-lhe: 

-Tu é que sabes, mas é conveniente que sejas uma égua…

Como vês, minha querida amiga, é preciso ter um grande descaramento. Isto só no nosso bairro!
*****

E a Leonilde, que no outro dia entrou no café vestida não sei de quê, e o Roberto, que tem a mania de ser esperto, perguntou-lhe: 

– Olha lá, tu estás mascarada de quê? 

A Leonilde olhou para ele com desprezo e logo lhe respondeu: 

– Estou mascarada de Lady Godiva!

Como o Roberto que não é estúpido de todo, voltou à carga: 

– Para isso tens o cabelo muito curto! 

Ela sorriu e retorquiu-lhe: – 

– É por isso que estou toda vestida.

Enfim, minha querida amiga!
*****

E a Micaela, que começou a andar em volta de um canteiro, em volta de um canteiro, e quando lhe perguntaram o que andava a fazer, respondeu: 

– Ando a ver se encontro o centro da gravidade…

Vê lá tu, minha boa amiga, como ela ainda tivesse o “centro da gravidade”!

Neste mundo ainda existem pessoas muito desavergonhadas, como por exemplo, a Felismina, que na semana passada perguntou à Márcia como estava o marido. Ela, naturalmente, respondeu-lhe que estava bem. Foi então que a desavergonhada lhe atirou com esta: 

– Minha querida amiga, o que é que acontecia, se eu aparecesse toda nua ao pé do teu marido?!

A Márcia, não ficou nada contente com a pergunta. Pensou um pouco e em tom de gozo, retorquiu-lhe:

– Com certeza que o meu marido morreria de susto ao ver uma mulher tão malfeita

A Felismina sorriu desavergonhadamente e, secamente, respondeu-lhe: 

– Mas tu ainda agora mesmo disseste que ele estava vivo…

Ho minha querida e boa amiga, isto só à bofetada, só à pancada!

*****
Mas a melhor é a daquela Isabel, que tem a mania de ser púdica. Comentava noutro dia com a mãe: 

– Não sei aonde ontem meti os collants?

A mãe, tentou lembrar a filha: 

– Olha, minha filha, talvez as tivesses perdido…Como ontem o teu patrão te deu boleia, não te lembras? 

A filha logo concordou: 

– Tens razão mãe – e logo acrescentou: 

– Mas olha que não é o que tu pensas. Eu só tirei os collants… Porque, porque a correia da ventoinha se estragou e eu enrolei-as na poli, compreendes, na poli. – A mãe encolheu o nariz, e continuou: “

– E o que é que aconteceu às calcinhas? 

A filha ficou muito atrapalhada e, como pode, respondeu-lhe: 

– Agora me recordo, tirei-as para limpar o para-brisas, pois estava a chover…

Ai… Isto de mulheres… Os homens que as aturem! 

Nota: com tudo os gostos que as aturamos (pelo menos é a minha opinião.)
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CARLOS LEITE RIBEIRO foi um professor, investigador, ensaísta e produtor cultural português. Embora tenha forte ligação afetiva e residencial com a cidade de Marinha Grande, ele nasceu em Lisboa, em 1937 e faleceu em Marinha Grande, em 2018. Sua trajetória destaca-se principalmente no campo da pesquisa histórico-literária e na promoção da união cultural entre Portugal e o Brasil. Passou a juventude em Lisboa e, desde setembro de 1967, fixou residência na Marinha Grande, concelho do Distrito de Leiria, na região central de Portugal, terra que adotou e onde desenvolveu grande parte de sua vida madura. Construiu uma carreira acadêmica e pedagógica diversificada, atuando como Professor Mestre. Possui o Curso de Educação Física (1962), Curso Geral de História com Mestrado (1976), e Curso Geral de Geografia com Mestrado (1984). Também possuía ampla formação em Radiodifusão, tendo realizado múltiplos cursos na área entre 1986 e 1992.
Começou a escrever precocemente, aos 14 anos de idade, quando trabalhou no Jornal do Comércio (em Lisboa). Sua primeira tarefa regular consistia em redigir a rubrica "Nomes e Figuras que deram seu nome a ruas de Lisboa", o que despertou seu profundo gosto pela pesquisa documental e biográfica. Ele teve como uma de suas grandes influências e referências intelectuais o mestre modernista Almada Negreiros. Seu primeiro grande ensaio investigativo foi focado na vida e obra de Luís de Camões. A produção escrita de Carlos Leite Ribeiro está expressivamente concentrada em ensaios históricos, artigos de divulgação biográfica, pesquisas geográficas e crónicas de época. 
Sua maior obra e legado público é o Portal CEN ("Cá Estamos Nós"), fundado por ele em 15 de julho de 1998. Trata-se de uma das maiores enciclopédias e repositórios digitais independentes de cultura da Língua Portuguesa, onde publicou centenas de monografias e investigações originais sobre grandes vultos literários e eventos históricos (como estudos sobre Fernando Pessoa, António Aleixo, e revoluções locais da Marinha Grande).
A importância de Carlos Leite Ribeiro para a literatura reside na sua dedicação como preservador da memória cultural e ponte viva entre os países lusófonos. Em vez de focar apenas na ficção isolada, ele escolheu o caminho da investigação literária acessível e da democratização da informação. Ao fundar o Portal CEN no final da década de 1990, ele antecipou a importância da internet como espaço de arquivamento cultural. Ele ofereceu uma vitrine internacional para poetas contemporâneos, resgatou biografias esquecidas do interior de Portugal e fortaleceu o intercâmbio de fraternidade intelectual entre autores portugueses e brasileiros.

Fonte:
Enviado pelo autor em 27 de dezembro de 2012
Biografia = Portal CEN, 

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