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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Lima Barreto (Quase ela deu o "sim", mas…)


 João Cazu era um moço suburbano, forte e saudável, mas pouco ativo e amigo do trabalho.

Vivia em casa dos tios, numa estação de subúrbios, onde tinha moradia, comida, roupa, calçado e algum dinheiro que a sua bondosa tia e madrinha lhe dava para os cigarros.

Ele, porém, não os comprava; “filava-os” dos outros. “Refundia” os níqueis que lhe dava a tia, para flores a dar às namoradas e comprar bilhetes de tômbolas, nos vários “mafuás”, mais ou menos eclesiásticos, que há por aquelas redondezas.

O conhecimento do seu hábito de “filar” cigarros aos camaradas e amigos, estava tão espalhado que, mal um deles o via, logo tirava da algibeira um cigarro; e, antes de saudá-lo, dizia:

—Toma lá o cigarro, Cazu.

Vivia assim muito bem, sem ambições nem tenções. A maior parte do dia, especialmente a tarde, empregava ele, com outros companheiros, em dar loucos pontapés, numa bola, tendo por arena um terreno baldio das vizinhanças da residência dele ou melhor: dos seus tios e padrinhos.

Contudo, ainda não estava satisfeito. Restava-lhe a grave preocupação de encontrar quem lhe lavasse e engomasse a roupa, remendasse as calças e outras peças do vestuário, cerzisse as meias, etc., etc.

Em resumo: ele queria uma mulher, uma esposa, adaptável ao seu jeito descansado.

Tinha visto falar em sujeitos que se casam com moças ricas e não precisam trabalhar; em outros que esposam professoras e adquirem a meritória profissão de “maridos da professora”; ele, porém, não aspirava a tanto.
Apesar disso, não desanimou de descobrir uma mulher que lhe servis convenientemente.

Continuou a jogar displicentemente, o seu futebol vagabundo e a viver cheio de segurança e abundância com os seus tios e padrinhos.

Certo dia, passando pela porteira da casa de uma sua vizinha mais ou menos conhecida, ela lhe pediu:

— “Seu” Cazu, o senhor vai até à estação?

— Vou, Dona Ermelinda.

— Podia me fazer um favor?

— Pois não.

— É ver se o “Seu” Gustavo da padaria “Rosa de Ouro”, me pode ceder duas estampilhas de seiscentos réis. Tenho que fazer um requerimento ao Tesouro, sobre coisas do meu montepio, com urgência, precisava muito.

— Não há dúvida, minha senhora.

Cazu, dizendo isto, pensava de si para si: ,’É um bom partido. Tem montepio, é viúva; o diabo são os filhos!” Dona Ermelinda, à vista da resposta dele, disse:

— Está aqui o dinheiro.

Conquanto dissesse várias vezes que não precisava daquilo — o dinheiro — o impenitente jogador de futebol e feliz hóspede dos tios, foi embolsando os nicolaus, por causa das dúvidas.

Fez o que tinha a fazer na estação, adquiriu as estampilhas e voltou para entregá-las à viúva.

De fato, Dona Ermelinda era viúva de um contínuo ou cousa parecida de uma repartição pública. Viúva e com pouco mais de trinta anos, nada se falava da sua reputação.

Tinha uma filha e um filho que educava com grande desvelo e muito sacrifício.

Era proprietária do pequeno chalé onde morava, em cujo quintal havia laranjeiras e algumas outras árvores frutíferas.

Fora o seu falecido marido que o adquirira com o produto de uma “sorte” na loteria; e, se ela, com a morte do esposo, o salvara das garras de escrivães, escreventes, meirinhos, solicitadores e advogados “mambembes”, devia-o à precaução do marido que comprara a casa, em nome dela.

Assim mesmo, tinha sido preciso a intervenção do seu compadre, o Capitão Hermenegildo, a fim de remover os obstáculos que certos ” águias” começavam a pôr, para impedir que ela entrasse em plena posse do imóvel e abocanhar-lhe afinal o seu chalezinho humilde.

De volta, Cazu bateu à porta da viúva que trabalhava no interior, com cujo rendimento ela conseguia aumentar de muito o módico, senão irrisório montepio, de modo a conseguir fazer face às despesas mensais com ela e os filhos.

Percebendo a pobre viúva que era o Cazu, sem se levantar da máquina, gritou:

— Entre, “Seu” Cazu.

Estava só, os filhos ainda não tinham vindo do colégio. Cazu entrou.

Após entregar as estampilhas, quis o rapaz retirar-se; mas foi obstado por Ermelinda nestes termos:

— Espere um pouco, “Seu” Cazu. Vamos tomar café.

Ele aceitou e, embora, ambos se serviram da infusão da “preciosa rubiácea” , como se diz no estilo “valorização”.

A viúva, tomando café, acompanhado com pão e manteiga, pôs-se a olhar o companheiro com certo interesse. Ele notou e fez-se amável e galante, demorando em esvaziar a xícara. A viuvinha sorria interiormente de contentamento. Cazu pensou com os seus botões: “Está aí um bom partido: casa própria, montepio, renda das costuras; e além de tudo, há de lavar-me e consertar a roupa. Se calhou, fico livre das censuras da tia…”

Essa vaga tenção ganhou mais corpo, quando a viúva, olhando-lhe a camisa, perguntou:

— “Seu ” Cazu, se eu lhe disser uma cousa, o senhor fica zangado?

— Ora, qual, Dona Ermelinda?

— Bem. A sua camisa está rasgada no peito. O senhor traz ” ela” amanhã, que eu conserto “ela”.

Cazu respondeu que era preciso lavá-la primeiro; mas a viúva prontificou-se em fazer isso também. O player dos pontapés, fingindo relutância no começo, aceitou afinal; e doido por isso estava ele, pois era uma ” entrada” , para obter uma lavadeira em condições favoráveis.

Dito e feito: daí em diante, com jeito e manha, ele conseguiu que a viúva se fizesse a sua lavadeira bem em conta.

Cazu, após tal conquista, redobrou de atividade no futebol, abandonou os biscates e não dava um passo, para obter emprego. Que é que ele queria mais? Tinha tudo…

Na redondeza, passavam como noivos; mas não eram, nem mesmo namorados declarados.

Havia entre ambos, unicamente um “namoro de caboclo”, com o que Cazu ganhou uma lavadeira, sem nenhuma exigência monetária e cultivava-o carinhosamente.

Um belo dia, após ano e pouco de tal namoro, houve um casamento na casa dos tios do diligente jogador de futebol. Ele, à vista da cerimônia e da festa, pensou: “Porque também eu não me caso? Porque eu não peço Ermelinda em casamento? Ela aceita, por certo; e eu…”

Matutou domingo, pois o casamento tinha sido no sábado; refletiu segunda e, na terça, cheio de coragem, chegou-se à Ermelinda e pediu-a em casamento.

— É grave isto, Cazu. Olhe que sou viúva e com dois filhos!

— Tratava “eles” bem; eu juro!

— Está bem. Sexta-feira, você vem cedo, para almoçar comigo e eu dou a resposta.

Assim foi feito. Cazu chegou cedo e os dois estiveram a conversar. Ela, com toda a naturalidade, e ele, cheio de ansiedade e, apreensivo.

Num dado momento, Ermelinda foi até à gaveta de um móvel e tirou de lá um papel.

— Cazu — disse ela, tendo o papel na mão — você vai à venda e à quitanda e compra o que está aqui nesta “nota”. É para o almoço.

Cazu agarrou trêmulo o papelucho e pôs-se a ler o seguinte:

1 quilo de feijão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .600 rs.
1/2 de farinha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
1/2 de bacalhau. . . . . . . . . . . .. . . . . . . .1.200 rs.
1/2 de batatas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 360 rs.
Cebolas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
Alhos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .100 rs.
Azeite. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 300 rs.
Sal. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
Vinagre. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3.260 rs.

Quitanda:
Carvão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 280 rs.
Couve. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
Salsa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  .100 rs.
Cebolinha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .100 rs.

Tudo: . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . .3.860 rs.

Acabada a leitura, Cazu não se levantou logo da cadeira; e, com a lista na mão, a olhar de um lado a outro, parecia atordoado, estuporado.

— Anda Cazu, fez a viúva. Assim, demorando, o almoço fica tarde…

— É que…

— Que há?

— Não tenho dinheiro.

— Mas você não quer casar comigo? É mostrar atividade meu filho! Dê os seus passos… Vá! Um chefe de família não se atrapalha… É agir !

João Cazu, tendo a lista de gêneros na mão, ergueu-se da cadeira, saiu e não mais voltou…
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AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO foi um dos maiores escritores da literatura brasileira, conhecido por sua crítica social contundente e sua narrativa realista e inovadora. Nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1881, e faleceu precocemente em sua cidade natal, em 1922, aos 41 anos, vítima de um colapso cardíaco ligado a problemas crônicos de saúde e ao alcoolismo. Viveu a maior parte de sua vida no subúrbio carioca, especialmente no bairro de Todos os Santos, local que serviu de grande inspiração para suas obras. Ingressou no curso de Engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, mas precisou abandonar os estudos para sustentar a família após o adoecimento mental de seu pai. Trabalhou como amanuense (copista e escriturário) na Secretaria da Diretoria Geral do Comércio do Ministério da Guerra. Atuou intensamente na imprensa, escrevendo crônicas, reportagens e sátiras políticas para diversos periódicos da época, como A Lanterna e Correio da Manhã.
Utilizava uma linguagem simples e direta, o que gerava resistência nos círculos acadêmicos da época, que preferiam o academicismo rebuscado. Sua escrita focava nos marginalizados, no preconceito racial e nas hipocrisias da República Velha. O escritor nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele se candidatou três vezes à instituição, mas foi rejeitado em todas devido ao teor agressivo de suas críticas ao sistema literário e pelo racismo institucional da época. Não recebeu prêmios literários expressivos em vida, tendo grande parte de seu reconhecimento consolidada apenas postumamente.
Entre romances, sátiras e memórias, destacam-se: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909); Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911) – sua obra-prima; Numa e a Ninfa (1915); Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919); Clara dos Anjos (publicado postumamente em 1948); Diário Íntimo e Cemitério dos Vivos (publicações póstumas de caráter autobiográfico).
Lima Barreto é uma figura fundamental do Pré-Modernismo brasileiro. Sua importância reside na coragem de romper com o formalismo da Belle Époque para dar voz e dignidade aos subúrbios, aos negros e aos pobres. Ele foi um dos primeiros a denunciar abertamente o preconceito racial e as desigualdades sociais do Brasil pós-abolição. Sua linguagem jornalística e coloquial antecipou as inovações que os modernistas consolidariam em 1922. Hoje, ele é celebrado como um autor indispensável para entender as raízes da formação social e cultural brasileira.

Fonte:
Lima Barreto. O homem que sabia javanês e outros contos. Publicado originalmente em Revista “Careta” – Rio de Janeiro, edição de 29/01/1921. 

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