Todo homem, também.
Ser amado é fácil. Basta encontrar alguém que não nos conheça a fundo.
Quem escreve quer mais que ser amado: quer ser compreendido.
Quer dizer “A” e ter a ilusão não apenas de que o leitor entenda “A”, mas que “A” signifique para quem lê algo parecido com o que significa para ele, que escreve.
Por isso é que, mais que inspiração e domínio do idioma, o escritor precisa de bons leitores.
Pode parecer uma paulocoelhice, mas o bom leitor é aquele que lê.
A maioria das pessoas não lê. Apenas foi alfabetizada – seja pelo método fonético do Ivo viu a uva ou pela pedagogia do oprimido, na qual é o patrão explorador de Ivo quem vê, vende ou devora a uva, e Ivo fica a ver navios.
O verbo “ler” vem de “legere”, que significava, originalmente, “colher, escolher”, selecionar os melhores frutos no pé, na parreira.
Ivo não só viu a uva. Ao ler a palavra “uva”, Ivo a colheu.
Assim como “cultura”, que era apenas o ato de cultivar plantas (cultura de café, cultura de cana de açúcar) e adquiriu depois o sentido de cultivar o intelecto (cultura artística, cultura geral), o verbo “ler” passou a designar o que se colhe com os olhos, o que se percebe através das letras, das palavras.
De uns tempos para cá, “ler” começou a ser uma colheita seletiva às avessas – não dos melhores frutos, mas dos bichados, bicados, imaturos, apodrecidos. Lê-se o que se quer ler, não o que se quis dizer ou o que está dito. Lê-se por meio de falácias, de silogismos. Nas entrelinhas, nas entreletras, pelo avesso.
Ler deveria ser uma forma de aprender (trazer para junto de si, levar para a memória), não de aprisionar.
Ambos – aprender e aprisionar – vêm do verbo “prehendere” (agarrar, prender), que também (como “ler” e “cultura”) tem origem rural: “prae” (à frente) + “hedera” (hera) = a trepadeira que se agarra às paredes para crescer.
Quem escreve quer ser lido (colhido), compreendido (acolhido) e amado (de “amare”, verbo que gerou amor, amigo, mãe). Talvez porque escrever (do latim “scribere”) seja, lá na sua gênese, o mesmo que cortar, fazer uma incisão.
Ao escrever, o escritor se abre. É preciso ter olhos amorosos (de mãe, de amigo, de amante) para ler (colher) os melhores frutos dessa vinha, dessa ferida.
Ler o que está fora de nós, e que o outro nos trouxe, é compreensão, aprendizado.
Ler no que o outro escreveu o que já trazemos dentro é uma forma de prisão.
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O professor, cronista e arquiteto mineiro EDUARDO AFFONSO é uma das vozes mais originais e bem-humoradas da crônica contemporânea brasileira. Ele se destaca nacionalmente por suas reflexões irônicas sobre o comportamento humano, sua análise lúdica das redes sociais e sua paixão pela etimologia e pelo aportuguesamento criativo de termos estrangeiros. Nasceu em 1959, em Belo Horizonte/MG. Mudou-se para o Rio de Janeiro /RJ, onde se estabeleceu profissionalmente, graduou-se e fixou sua residência de longo prazo. Graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ). Embora tenha atuado como arquiteto no passado, acabou se distanciando da profissão ao ser seduzido pelos estudos da psicanálise, da linguística e da escrita criativa. Atua há anos na imprensa de grande circulação, mantendo uma prestigiada coluna semanal/quinzenal na página 3 do jornal O Globo. Escreve também crônicas para revistas e portais de destaque, como a Veja Rio. Destaca-se fortemente no ambiente digital como palestrante, tendo ministrado apresentações marcantes como o TEDxSaoPaulo sobre a "estantologia" (a ciência das estantes de livros nas transmissões de vídeo).
Sua trajetória na escrita começou pela poesia. No entanto, após o que ele define ironicamente como "um pé na bunda da poesia", consolidou-se como cronista urbano. Tornou-se um formador de novos talentos e um articulador cultural focado no ambiente democrático e independente. Ele é o idealizador e coordenador da Oficina Literária Eduardo Affonso, um projeto focado em estimular a escrita criativa e orientar novos produtores de crônicas. É um dos fundadores da FLIQUE (Feira Literária de Quem Escreve). Não possui filiação a academias de letras tradicionais, preferindo manter sua atuação voltada à literatura de imprensa, à internet e ao mercado de oficinas livres. Não é conhecido por acumular prêmios institucionais ou acadêmicos clássicos. Seu grande reconhecimento reside na altíssima fidelidade e engajamento de seus leitores, na circulação massiva de seus textos que viralizam organicamente pelas redes sociais e pelo respeito conquistado na grande imprensa carioca.
Durante anos, construiu sua reputação literária quase inteiramente por meio de textos em jornais, blogs e redes sociais. Posteriormente, começou a estruturar e organizar seus livros e antologias de forma impressa: Crônicas de A a Z – Livro coletivo do qual é coautor e organizador, editado em parceria com a FLIQUE; Antologias e publicações em formato de livro digital/físico reunindo suas centenas de crônicas de cotidiano de O Globo.
A relevância de Eduardo Affonso para a literatura atual está em sua capacidade de renovar a crônica jornalística na era digital. Autodenominado por críticos como um "inventalínguas", ele chama a atenção pela forma genial com que aborda a língua portuguesa viva: em vez de adotar estrangeirismos corporativos e tecnológicos em inglês, ele os abrasileira sistematicamente em seus textos — criando expressões divertidas como "romiófice" (home office), "feiquenius" (fake news), "apigreide" (upgrade) e "pleiliste" (playlist). Com um estilo que evoca o olhar arguto de crônicas clássicas misturado à agilidade da comunicação pós-moderna, ele consegue democratizar o acesso à literatura por meio de suas oficinas, ensinando que o cotidiano mais banal e as contradições do comportamento humano são matérias-primas ricas para a alta literatura.
Fonte:
Blog do Autor
https://tianeysa.wordpress.com/2019/08/06/o-pior-leitor-e-aquele-que-nao-quer-ler/

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