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domingo, 30 de agosto de 2026

Mário Quintana em Prosa e Verso * 1 *


5005618942

Não existe no mundo tanta gente como o número de ordem que me deram no cartão de identidade, que não vou te mostrar porque não poderias lê-lo antes de o ter dividido da direita para a esquerda em grupos de três, para depois o pronunciares cuidadosamente da esquerda para a direita. Sei que o mesmo acontece contigo, mas que te importa, que nos importa isso — antes que um dia nos identifiquem a ferro em brasa, como fazem os estancieiros com o seu gado amado?

Esse número, de quintilhões ou quatrilhões, não me lembro mais, me faz recordar que venho desde o princípio do mundo, lá do fundo das cavernas, depois de pintar nas suas paredes, com uma habilidade hoje perdida, aqueles animais que vejo nos álbuns, milagre de movimento e síntese. Agora sou analítico, expresso-me em símbolos abstratos e preciso da colaboração do leitor para que ele “veja” as minhas imagens escritas.

Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando os problemas dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!
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A BELA E O DRAGÃO

As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos... Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA DESDENHOSA. E ei-la rotulada, classificada, exorcizada, simples marionete agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de boneca de pau. E no dia em que chamares a um dragão de JOLÍ, o dragão te seguirá por toda parte como um cachorrinho...
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AH! ESSAS PRECAUÇÕES...

Para desespero de seus parentes, o velho rei Mitridates, como todo mundo sabe, conseguiu tornar-se imune a todos os venenos... até que um bom tijolaço na cabeça liquidou o assunto.
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APARIÇÃO

Tão de súbito, por sobre o perfil noturno da casaria, tão de súbito surgiu, como um choque, um impacto, um milagre, que o coração, aterrado, nem lhe sabia o nome: a lua! - a lua ensanguentada e irreconhecível de Babilônia e Cartago, dos campos malditos de após-batalha, a lua dos parricídios, das populações em retirada, dos estupros, a lua dos primeiros e dos últimos tempos.
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EPÍLOGO

Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada aguenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade.
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ESTUFA

Que imaginação depravada têm as orquídeas! A sua contemplação escandaliza e fascina. Vivem procurando e criando inéditos coloridos, e estranhas formas, combinações incríveis, como quem procura uma volúpia nova, um sexo novo...
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HISTÓRIA URBANA

Dona Glorinha lê o convite de enterro de João, cujo sobrenome não declaro aqui, para evitar essas divertidas e constrangedoras explicações e declarações de nome igual, mera coincidência etc. Dona Glorinha conhecera João “no seu tempo” de ambos e depois nunca mais o tinha visto — pois constitui um dos mistérios labirínticos das cidades grandes isso de conhecidos e namorados se perderem definitivamente de vista. Dona Glorinha, pensando isto mesmo com outras palavras, vai ao velório de João, encaminha-se direto a ele, ergue-lhe o lenço da face, exclama: “Mas como ele está bem conservado!”
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INFERNO

Em suave andadura de sonho, sob uma infinita série de arco-íris celestiais, anjos me conduziam num palanquim dourado, entre um curioso povo de profetas e virgens, que formavam alas para me ver passar. Mas eu me debruçava inquieto a uma e outra janela: faltava-lhe alguma coisa. Faltava... Faltavam os meus desafetos. Eu só queria era ver a cara deles, ver a cara que eles fariam quando me vissem passar, tirado por anjos num palanquim de ouro!
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O ESPIÃO

Bem o conheço. Num espelho de bar, numa vitrina ao acaso do footing, em qualquer vidraça por aí, trocamos às vezes um súbito e inquietante olhar. Não, isto não pode continuar assim. Que tens tu de espionar-me? Que me censuras, fantasma? Que tens a ver com os meus bares, com os meus cigarros, com os meus delírios ambulatórios, com tudo o que não faço na vida!?
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TRÁGICO ACIDENTE DE LEITURA

Tão comodamente que eu estava lendo, como quem viaja num raio de lua, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO. Que momento passei!... O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se posta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda... O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: Fogo!
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MÁRIO DE MIRANDA QUINTANA foi um dos poetas mais queridos e traduzidos da literatura brasileira. Conhecido por sua simplicidade, ironia sutil e sensibilidade para as pequenas coisas do cotidiano, ele transformou o comum em poesia mágica. Nasceu em 1906, em Alegrete/RS, e faleceu em 1994 (aos 87 anos), em Porto Alegre/RS. Embora tenha nascido em Alegrete e estudado temporariamente em Curitiba, ele passou a maior parte de sua vida em Porto Alegre. Morou grande parte de sua vida adulta em hotéis, sendo o mais famoso deles o Hotel Majestic, no centro da capital gaúcha (espaço que hoje abriga a Casa de Cultura Mario Quintana). Trabalhou como jornalista, tradutor e funcionário público. Passou por jornais importantes como O Estado do Rio Grande e o Correio do Povo, onde manteve por décadas a famosa coluna "Caderno H". Como tradutor renomado, verteu para o português obras de grandes autores mundiais como Marcel Proust, Virginia Woolf, Voltaire e Graham Greene.
Estreou oficialmente na literatura em 1940 com a publicação de A Rua dos Cataventos, uma coletânea de sonetos que foi muito bem recebida pela crítica. Ele nunca se casou e não teve filhos, dedicando sua vida quase que inteiramente às palavras e à observação poética do mundo. Quintana tentou por três vezes uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL), mas não foi eleito em nenhuma delas. Ao ser convidado a se candidatar uma quarta vez com a promessa de unanimidade, ele recusou, imortalizando o episódio com o famoso "Poeminho do Contra" ("Todos esses que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho!"). Ele fez parte, no entanto, da Academia Rio-Grandense de Letras. Obteve Prêmio Fernando Chinaglia (1966) pelo livro Antologia Poética ; Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano (1980); Prêmio Machado de Assis (1980), concedido pela ABL pelo conjunto de sua obra.
Sua vasta produção literária incluiu poesia, prosa poética e literatura infantojuvenil. Entre suas principais obras destacam-se: A Rua dos Cataventos (1940); Canções (1946); Sapato Florido (1948); Caderno H (1973); Apontamentos de História de Galpão (1976); A Vaca e o Hipogrifo (1977); Esconderijos do Tempo (1980); Baú de Espantos (1986); Preparativos de Viagem (1987).
Mário Quintana ocupa um lugar único na literatura brasileira por sua capacidade de democratizar a poesia sem perder a profundidade. Ele rompeu com o formalismo rígido e aproximou o leitor de temas universais — como a morte, o tempo, a infância e o amor — usando uma linguagem fluida, bem-humorada e despretensiosa. Sua importância reside em ter humanizado a figura do poeta; ele provou que o lirismo não precisa ser erudito ou inacessível para ser genial. Quintana transformou a melancolia em beleza e a rotina urbana em arte, consolidando-se como o "poeta das coisas simples" e uma das vozes mais autênticas e atemporais da cultura nacional. 

Fontes:
Mário Quintana. A Vaca e o Hipogrifo. Publicado originalmente em 1977.
Mario Quintana. Sapato florido. Publicado originalmente em 1948.
Biografia = Wikipedia, etc.

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