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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Denise Emmer (Caderno de Poesias)


O MEU ESTRANHO AMOR

Um espectro que passa enquanto chora
Por minha ausência ele se consome

E quando chega vem como quem some
E bate as asas universo afora

É o meu estranho amor que longe mora
E dorme no altar da cabeceira

Quando me ama arde sem fogueira
Para partir na arca da memória

Foge com o sol e leva nossa estória
Tão docemente me acena uma vertigem

Sequências de montanhas impossíveis
Escarpas adversas giratórias

Quando ele chega o mundo é uma sala acesa
O seu sorriso ofusca a cena da aurora

Não tarda ele se cala e vai embora
Para morar na plácida tristeza.
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O BEIJO

Levou-me sem feitas frases
Somente passo e camisa
Roubou-me um beijo de brisa
Na quadratura da tarde

Jogou-me contra a parede
Rasgou-me a blusa de linho
Roubou-me um beijo de vinho
Diante das aves vesgas

Puxou-me para seu fundo
Rompeu a rosa pirâmide
Roubou-me um beijo de sangue
E bateu asas no mundo.
= = = = = = = = = = = = = =  

VIAS AVESSAS

Chegas por vias avessas escuto teus passos surdos
Deuses que movimentam a incoerência do mundo
Regem relógios quietos de horas que não existem
Feliz a insanidade das multidões irascíveis

Se há mares em teus abraços mergulho em sóis afundados
Decifro a nova linguagem que inutiliza tratados
E despedaça países fundidos em calmarias
O amor desgoverna os ventos assombros em abadia

Viajo os rumos trocados as ruas que se invertem
Distâncias que se encontram pernas que se perseguem
Olhos que confabulam dentro de rios quentes
Percebo outras cidades nos vãos de uma nova lente

O que me faz alcançar as caravelas aéreas
Andaimes velozes cumes a indizível matéria
São teus incêndios a luz que espalhas pelo Universo
E por meu corpo acendendo meus lampiões submersos.
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À NOITE

A noite ela se embriaga
e vai bailar nos espaços
usando um traje de pássaros
viaja para o infinito

abro a janela do mundo
e já não vejo seu rastro
me leva lagoa lua
à grande festa das águas

em que outra madrugada
esconderás teu espelho

nas esquinas que não vejo
onde a noite vira asa?
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SINAL DE ALERTA

Faça a noite que faça
as fábricas soltam fumaça
e como avistar quem passa
através de um claro vidro?

Os operários levitam
seus espíritos vencidos
ao cume das chaminés;
que flutuam ente os telhados
marés de moços causados
qual uma cinza tristeza.

E esta pálida natureza
vai colorindo de morte
os jardins de nossos filhos
os fios de nossos pássaros.

E enquanto as mulheres abraçam
crianças de olhos fundos
vão se calando o mundo
como um velho homem com tosse.

Tão curvado e solitário
um moribundo canário
canta a manhã da cidade
que a todo dia reage.
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AS GALÁXIAS

As galáxias
se expandem
e nem ouvimos
seus gritos

os labirintos
se aprofundam
sem que saibamos
seus números
esperamos
que um cão azul
decifre
o infinito

e que nos esclareça
a álgebra
do abismo

a lógica
do insondável

a física
do ilimitado.

Por que é tão dramática
a visão de um céu estrelado?
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NOITE MAGA

Andei contigo nas dunas
Nas páginas das areias
Pensei avistar sereias
Mas eram sóbrias escunas

E ao perguntar quem eras
O mar moveu seus navios
Olharam-se as éguas no cio
Voaram fêmeas sem sela

Enquanto me assombravas
Os sais trocavam segredos
Abraçava-me com medo
Torpor, o que me falavas

Então comecei morrer
Por rua mão de veludo
Que me levava entre surdos
No tênue amanhecer

Desmanches de beijo e vício
Aroma de folha e chuva
Teu sorriso atrás da curva
Na ponta do precipício

Longe vai a noite maga
Em seu palácio estranho
Não te decifro és sonho
A povoar minhas águas.
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TARDE NO MAR

Tarde e moleza marolas e mascavo
Nada suponho nada sei nada respondo
Não sei o nome do mundo
E seu patrono

Leio jornais em branco folhas velhas
Cartas passadas notícias reviradas
Do que me valem as novas utopias
Se o que me traz o mar
É uma garrafa vazia.
= = = = = = = = = = = = = =  

NAVIOS

Venho ao cais esperar navios
Sucedem-se as altas vagas
Aceno sinais de estio
Às vésperas adiadas

Te aguardo e quando te espreito
Arrastam-se os segundos
O vento esticou o mundo
Nos cárceres dos estaleiro

Passam veios, horas largas
Nenhum sinal de teu fardo
Busco-te a cada entrada
O que me passas – passado.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
DENISE EMMER DIAS GOMES GERHARDT nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1958. Filha de dois dos maiores dramaturgos e escritores da história do país: Janete Clair e Dias Gomes. Toda a sua base de vida, formação e atuação se concentra na cidade do Rio de Janeiro, embora tenha uma forte ligação com as regiões serranas fluminenses (como Petrópolis) e áreas de montanhismo. Construiu uma carreira sólida e diversa. Graduou-se em Física pela Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE) e possui pós-graduação em Filosofia pela UFRJ. No campo musical, formou-se em Violoncelo pelo Conservatório Brasileiro de Música. Profissionalmente, atua como violoncelista (tendo integrado a Orquestra Rio Camerata), compositora e cantora. No fim dos anos 1970, alcançou enorme projeção nacional ao interpretar a canção "Alouette", que foi tema da novela Pai Herói e lhe rendeu um Disco de Ouro.
Embora tenha iniciado pela música, sua transição para a literatura consolidou-se a partir de 1976 com o lançamento de seu primeiro livro. Na década de 1980, afastou-se temporariamente das gravações fonográficas para se dedicar integralmente à poesia. Sua obra literária é marcada por um lirismo profundo, que muitas vezes mescla o rigor e a estrutura cósmica de sua mente de física com a sensibilidade musical de violoncelista, flertando com o realismo mágico e temas existenciais. Não ocupa uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), mas é intimamente ligada e amplamente reconhecida pela instituição, que já lhe concedeu várias de suas honrarias mais importantes. Ela faz parte de respeitadas entidades literárias, com destaque para o PEN Clube do Brasil (onde também foi premiada). Seu trabalho é amplamente laureado no Brasil e no exterior. Entre os seus prêmios mais importantes estão: Prêmio Olavo Bilac (Academia Brasileira de Letras); Prêmio ABL de Poesia (2009); Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte); Prêmio Internacional José Martí (Unesco); Prêmio Alceu Amoroso Lima Poesia e Liberdade (2021); Prêmio Nacional de Literatura do PEN Clube do Brasil
Autora de uma vasta produção que ultrapassa 20 volumes publicados entre poesia, romances e contos, destacam-se: Geração Estrela (1976) — Estreia literária; Invenção para uma Velha Musa (1990); Memória da Montanha; Lampadário (2008); Discurso para Desertos (2018); O Amor Imaginário (2022); O Barulho do Fim do Mundo (2023) — Romance aclamado pela crítica; Só os Loucos Batem Palmas para o Céu (2025) — Livro de contos em prosa poética.
A relevância de Denise Emmer reside na sua capacidade de dissolver as fronteiras entre diferentes linguagens artísticas e científicas. Ela não é apenas uma escritora que faz versos; sua poesia carrega a métrica e a harmonia da música erudita (o ritmo do violoncelo) combinadas com as metáforas abstratas e grandiosas do cosmos herdadas da física (como o conceito de entropia explorado em sua prosa). Em um cenário contemporâneo muitas vezes factual, a escrita de Denise preserva a força do lirismo puro e resgata a tradição do realismo mágico latino-americano, dando voz ao assombro da finitude humana, à solidão e à natureza de forma singular e sofisticada.

Fontes:
Teatro dos elementos, 1993; Cantares de amor e abismo, 1995; Canções de acender a noite, 1982; O Inventor de enigmas, 1998; Lampadário, 2008.
Biografia = Wikipedia, Dicionário MPB, Por Onde Canta, O Globo, Record, Recanto do Poeta, Revista Forum, Antonio Miranda, Academia Brasileira de Letras, etc.

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