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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Humberto de Campos (O Gato e o Passarinho)


A encantadora Palmirinha Camargo havia concluído o seu curso de datilografia na Escola Remington, quando, uma tarde, participou, contente, a Dona Brasília:

- Sabe, mamãe, arranjei um emprego excelente. O ordenado é de trezentos mil réis!

A bondosa senhora deixou a costura, endireitou os óculos, e, chamando a filha para perto de si, ordenou:

- Senta aí. E onde é esse emprego?

A moça, risonha e inocente, explicou:

- É no escritório do Dr. Alexandre.

- E quem é esse Dr. Alexandre? É aquele que esteve, outro dia, no baile da Violeta?

Palmirinha confirmou, ingênua, e Dona Brasília, tomando-lhe as, mãos, retorquiu, sensata:

- Queres que te fale com franqueza, minha filha? Esse emprego não te convém.

A menina fixou com os seus grandes olhos claros e puros a doçura do rosto materno, e a boa senhora continuou:

- Tu és uma jovem inexperiente, um anjo que não conhece os espinhos do mundo. O Dr. Alexandre é um moço esperto, um homem habituado a lidar com as fraquezas alheias. Se se tratasse de um escritório grande, de uma casa em que trabalhassem outras moças ou outros advogados, eu não teria receio; mas, assim, com ele e tu, sozinhos, no escritório, o meu coração não poderia ficar descansado.

- Oh, mamãe! - estranhou a moça, corando. - A senhora não tem confiança em mim?

Dona Brasília compreendeu a ofensa que fizera àquele pedaço do seu coração, e, para não insistir, atalhou:

- Tenho, minha filha, tenho toda a confiança em ti.

E concordou, beijando-a nos olhos:

- Está bem, vai. Amanhã, podes ir para o teu novo emprego.

A moça pulou, contente, beijando sofregamente a testa, a cabeça, a face, a boca e os olhos maternos, e, à noite, ia recolher-se, quando D. Brasília chamou:

- Palmira?

- Senhora! - acudiu a, mocinha.

Bondosa e grave, a digna senhora pediu:

- Traze daí a gaiola do teu canário.

A moça foi à copa, e voltou com a gaiola, onde um canarinho dormia, sossegado, muito encolhido, muito amarelo.

D. Brasília abriu a portinhola daquele carcerezinho de ouro, e, indo à cozinha, voltou com o gato na mão.

- Para que é isso, mamãe? - indagou a moça, espantada.

Para meter na gaiola, com o canário.

- Oh, mamãe! - gemeu a mocinha, horrorizada.

- Que mal faz? - indagou D. Brasília, sorrindo significativamente para a filha. Tu não tens confiança no teu canário?

Palmirinha compreendeu o alcance da lição, e atirou-se nos braços maternos, prometendo, entre soluços:

- Eu não irei, minha mãezinha; deixe estar, eu não irei!

E não foi. No dia seguinte, contrariando as esperanças do gato, o canário amanheceu feliz e simples, cantando na sua gaiola…
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HUMBERTO DE CAMPOS VERAS nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.
Sua importância para as letras nacionais combina o sucesso comercial de massa à ocupação de um espaço central na cultura oficial da época. Humberto de Campos alcançou um feito raro para a sua época: viver exclusivamente de seus direitos autorais. Seus livros alcançavam tiragens impressionantes e esgotavam rapidamente. Ele conseguiu aproximar o grande público da literatura por meio de uma escrita acessível, fluida e cativante, tornando-se o cronista mais lido do Brasil nos anos 1920 e 1930. Como jornalista e escritor, ele refinou e popularizou a crônica urbana e humorística. Sob o pseudônimo de Conselheiro XX, publicava textos repletos de ironia, sátira política e observações do cotidiano. Ele dominava a arte de contar anedotas históricas e fofocas dos bastidores da corte e da República, humanizando figuras históricas e tornando o passado atraente para o leitor comum. Sua presença ajudou a consolidar o prestígio da ABL perante a sociedade civil, usando sua enorme projeção nos jornais para aproximar a Academia do público e valorizar a carreira do escritor profissional no Brasil. Suas obras autobiográficas, em especial Memórias (1933) e Os Olhos Comidos pelo Peixe, são consideradas primores do memorialismo brasileiro. Nestes livros, ele registrou com sensibilidade e crueza a sua infância pobre no Maranhão e as dificuldades da juventude, deixando um retrato sociológico e histórico valioso sobre a vida nas províncias e na capital federal no início da República. Mesmo após a sua morte em 1934, o nome de Humberto de Campos continuou no centro de um dos episódios mais singulares da história literária e jurídica do Brasil. O médium Chico Xavier começou a psicografar livros de crônicas e mensagens atribuídas ao espírito do escritor (assinando como Humberto de Campos e, posteriormente, Irmão X). O estilo literário dessas obras psicografadas (como Crônicas de Além-Túmulo e Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho) era tão fiel ao estilo irônico e refinado do autor vivo que a família de Humberto de Campos moveu um famoso processo judicial nos anos 1940 para reivindicar os direitos autorais. Esse fenômeno estendeu a influência do seu estilo literário por mais várias décadas, integrando o seu nome de forma definitiva à cultura popular e religiosa do país.

Fonte:
Humberto de Campos. A Serpente de Bronze. 1925.

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