Ao Prof Guido Battelli
Horas mortas… Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!
E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!
Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
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QUEM SABE?…
Ao Ângelo
Queria tanto saber por que sou Eu!
Quem me enjeitou neste caminho escuro?
Queria tanto saber por que seguro
Nas minhas mãos o bem que não é meu!
Quem me dirá se, lá no alto, o céu
Também é para o mau, para o perjuro?
Para onde vai a alma que morreu?
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!
A estrada de Damasco, o meu caminho,
O meu bordão de estrelas de ceguinho,
Água da fonte de que estou sedenta!
Quem sabe se este anseio de Eternidade,
A tropeçar na sombra, é a Verdade,
É já a mão de Deus que me acalenta?
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A MINHA PIEDADE
A Bourbon e Meneses
Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,
Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensanguentam na subida!
Tenho pena de mim… pena de ti…
De não beijar o riso duma estrela…
Pena dessa má hora em que nasci…
De não ter asas para ir ver o céu…
De não ser Esta… a Outra… e mais Aquela…
De ter vivido e não ter sido Eu…
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SOU EU!
À minha ilustre camarada Laura Chaves
Pelos campos em fora, pelos combros,
Pelos montes que embalam a manhã,
Largo os meus rubros sonhos de pagã,
Enquanto as aves pousam nos meus ombros…
Em vão me sepultaram entre escombros
De catedrais duma escultura vã!
Olha-me o loiro sol tonto de assombros,
as nuvens, a chorar, chamam-me irmã!
Ecos longínquos de ondas… de universos..
Ecos dum Mundo… dum distante Além,
Donde eu trouxe a magia dos meus versos!
Sou eu! Sou eu! A que nas mãos ansiosas
Prendeu da vida, assim como ninguém,
Os maus espinhos sem tocar nas rosas!
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PANTEÍSMO
Ao Botto de Carvalho
Tarde de brasa a arder, sol de verão
Cingindo, voluptuoso, o horizonte…
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão
Dum verso triunfal de Anacreonte!
Vejo-me asa no ar, erva no chão,
Ouço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Marão
É o meu corpo transformado em monte!
E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo
Nos meus sentidos postos e absortos
Nas coisas luminosas deste mundo,
A minha alma é o túmulo profundo
Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!
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MINHA TERRA
À J. Emídio Amaro
Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa…
Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha… a dormitar…
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!
Minha terra onde meu irmão nasceu…
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada…
Truz… truz… truz… Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite…
Terra, quero dormir… dá-me pousada!
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A UMA RAPARIGA
À Nice
Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.
Nessa estrada da vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!
Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!
Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste duma flor!…
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MINHA CULPA
A Artur Ledesma
Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém…
Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem
Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!…
Sou um verme que um dia quis ser astro…
Uma estátua truncada de alabastro…
Uma chaga sangrenta do Senhor…
Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de vaidades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador…
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TEUS OLHOS
Olhos do meu Amor! Infantes louros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesouros:
Meus anéis. minhas rendas, meus brocados.
Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d’Além-Mundos ignorados!
Olhos do meu Amor! Fontes… cisternas..
Enigmáticas campas medievais…
Jardins de Espanha… catedrais eternas…
Berço vinde do céu à minha porta…
Ó meu leite de núpcias irreais!…
Meu sumptuoso túmulo de morta!…
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FLOR BELA LOBO, adotou literariamente o nome de Florbela d'Alma da Conceição Espanca, foi uma das figuras mais celebradas e intensas da literatura em língua portuguesa. Conhecida por sua poesia confessional e de altíssima sensibilidade, ela revolucionou a escrita feminina ao tratar do amor, do desejo e do sofrimento com uma entrega visceral e sem precedentes. Nasceu em 1894, em Vila Viçosa (região do Alentejo), em Portugal, filha ilegítima, fruto da relação de seu pai com uma camponesa, mas foi criada pelo pai e pela madrasta. Faleceu em 1930, no dia em que completava 36 anos, em Matosinhos/Portugal, suicídio por overdose de barbitúricos, após anos batalhando contra uma profunda depressão. Viveu sua infância em Vila Viçosa. Na juventude, mudou-se para Évora para estudar. Também residiu na vila de Redondo, na capital Lisboa (durante seus estudos universitários) e passou seus últimos anos em Matosinhos. Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso liceal (secundário). Mais tarde, fez história ao se tornar a primeira mulher a ingressar no curso de Direito da Universidade de Lisboa, embora não tenha chegado a exercer a advocacia. Para além da escrita de seus livros, Florbela trabalhou como professora particular e de ensino primário (tendo aberto uma escola com seu primeiro marido em Redondo), além de atuar como jornalista colaboradora em jornais locais e tradutora de romances franceses.
Florbela não pertenceu a nenhuma academia de letras e não recebeu prêmios literários em vida. O conservadorismo e o machismo da sociedade portuguesa da época marginalizaram sua produção e sua conduta pessoal (ela divorciou-se duas vezes, algo escandaloso para o período). O reconhecimento oficial veio de forma póstuma — hoje, a Câmara Municipal de Vila Viçosa organiza o prestigiado Prémio Literário Florbela Espanca em sua homenagem. Começou a escrever poesias ainda na infância, aos 8 anos. Sua obra é célebre pelo formato do soneto e dividida entre a dor profunda (acentuada pela trágica morte de seu irmão Apeles) e o panteísmo erótico.
Livros publicados em vida: Livro de Mágoas (1919); Livro de Sóror Saudade (1923).
Principais publicações póstumas: Charneca em Flor (1931 — sua obra-prima, enviada para publicação pouco antes de morrer); As Máscaras do Destino (1931 — livro de contos e prosas; Juvenília (1931).
A importância de Florbela Espanca reside no fato de ter sido a pioneira da poesia intimista e erótica feminina na literatura portuguesa. Em um cenário dominado por homens, onde se esperava que as escritoras mantivessem um tom recatado, Florbela ousou colocar o corpo, o desejo, o orgulho de ser mulher e a emancipação sentimental no centro de seus sonetos. Sua poesia antecipou discussões do movimento feminista em Portugal ao recusar o papel de musa passiva e assumir o de sujeito desejante. Com uma técnica técnica impecável, musicalidade única e uma capacidade rara de transformar o sofrimento psicológico em arte, ela influenciou gerações de poetas e permanece como uma das vozes líricas mais cultuadas e viscerais de todos os tempos.
Fontes:
Florbela Espanca. Charneca em Flor. Publicado originalmente em 1931.
Biografia = Wikipedia, Wikisource, E-biografia, Jornal de Poesia, Brasil Escola, Recanto das Letras, Mar Alto, Jornalismo Júnior, etc.

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