Trovadores em Ordem Alfabética

  • A (49)
  • B (5)
  • C (22)
  • D (12)
  • E (14)
  • F (12)
  • G (9)
  • H (11)
  • I (4)
  • J (30)
  • L (30)
  • M (31)
  • N (8)
  • O (12)
  • P (4)
  • R (18)
  • S (12)
  • T (5)
  • V (5)
  • W (9)
  • Z (2)

domingo, 30 de agosto de 2026

Carolina Ramos (A Cadeira Velha)


Pela segunda vez, passou pela calçada oposta. Agora, em sentido contrário.

Aquela cadeira velha, abandonada à porta do casarão, atraia-o, irresistivelmente. Jogada fora, não havia dúvida. E o que é jogado fora, não é de ninguém. E o que era de ninguém, bem que poderia vir a ser seu.

Cruzou a rua. Não em linha reta. Faltou-lhe coragem.

Andou um pouco para adiante do objeto da sua fascinação e, então, atravessou. Voltou, sem pressa, em direção à cadeira. Pisava macio, como quem não quer nada.

Parou diante dela. Namorou-a. Linda! Forro de veludo cor de ouro. Desbotado. E o que importava? Quantos dias de glória já teria tido! Tocou-a com carinho. Só tinha um braço. A cadeira, naturalmente. E para que mais? Pernas finas, torneadas com requinte. Uma delas rachada. Este, possivelmente, o estigma da condenação. Prometia um tombo de surpresa. Rico não conserta. Remediado, sim. Pobre, como ele, não despreza sobras. A cadeira tinha estirpe. Vinha, por certo, de família abastada. Tomou a acariciá-la. Experimentou-lhe o peso. Não seria difícil carregá-la. Acomodou-a sobre os ombros. Chegou a assobiar, enquanto caminhava.

Ao pé do morro, a coisa complicou-se. O peso e a ladeira podem tornar-se aliados temíveis.

Engoliu a vontade de assobiar. O suor a escorrer em bagas. Os ombros a reclamar do peso. Entrar no barraco, pela porta estreita, também não foi fácil. Venceram o jeito e a determinação.

A visão da cadeira à cabeceira da tosca mesa, compensou qualquer esforço. Desbotada, rachada, sem um braço, mas, sua! A sua cadeira. O trono de um rei! Nem ousou experimentá-la. Antes, um bom banho. Caprichou na aparência, como nunca o fizera. Só então, sentiu-se digno de ocupar tão nobre assento.

Sentou-se com extremo cuidado. Divina!

Sentiu-se um rei! Um rei sem coroa, sem súditos, mas, em pleno domínio de sua propriedade.

Lembrou-se da "coroa". Aquela "coroa" bonita, que não lhe saía da cabeça... a viúva do vizinho.

Era só: — Oi, bom dia... ou: — Oi, boa tarde...

Nunca lhe dissera nada de mais íntimo, nem mesmo quando sentia dois olhos tigrados, procurando os seus.

Gostaria de convidá-la para conhecer o barraco. Perdia a coragem, tão logo a via.

E lá estava ela, com toda a exuberante graça de mulher vívida, a acarinhar a cabeça do cachorro pulguento. Chegou a invejá-lo!

— Ei, dona, quer ver o que eu trouxe, lá de baixo?

Ela sorriu. Pela primeira vez, via o vizinho lavado, penteado e de roupa limpa. Com um misto de malícia e brejeirice, cruzou a porta do barraco.

Orgulhoso, ele mostrou-lhe a cadeira, o seu trono.

E, por toda uma noite, foi verdadeiramente um rei!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
CAROLINA RAMOS DE OLIVEIRA, popularmente conhecida no meio literário como Carolina Ramos, é a “Primeira-Dama da Trova Brasileira” ou “Princesa da Trova”. Nascida em Santos/SP, em 1924, é um dos maiores nomes da literatura de quadras rimadas (trovas) no país e completou seu centenário em 2024 mantendo-se ativa na cultura.
Carolina Ramos nasceu, cresceu e reside até hoje na cidade de Santos (SP). Sua infância foi vivida em um lar singelo na Vila dos Andradas, área que atualmente abriga a Rodoviária de Santos. Ela possui um vínculo afetivo profundo e histórico com a baixada santista. Sua formação é múltipla e abrange diversas vertentes da educação e da arte. Formou-se professora pela Escola Normal do tradicional Colégio São José, onde também estudou Secretariado. Atuou lecionando e compondo hinos para instituições educacionais e culturais. Formou-se em piano, teoria, pedagogia e história da música no Instituto Musical Santa Cecília. Estudou também folclore no Instituto Musical Carlos Gomes. Atuou como artista plástica autodidata, conquistando reconhecimento e premiações em exposições nacionais e internacionais. Além disso, realizou curso de enfermagem socorrista pela Cruz Vermelha. Serviu como administradora cultural de destaque, tendo inclusive presidido o Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS) entre os anos de 2001 e 2007.
O despertar literário definitivo de Carolina ocorreu durante suas noites de insônia após o nascimento de sua segunda filha. Ela começou a compor versos tradicionais e, rapidamente, o seu domínio técnico da trova chamou a atenção dos grandes nomes da época. Em um episódio célebre, o lendário poeta Luiz Otávio (fundador da União Brasileira de Trovadores) apresentou-a publicamente sacramentando seu talento. Carolina Ramos é considerada uma verdadeira guardiã da trova no Brasil. Ela dedicou décadas a ensinar, divulgar e estruturar o movimento trovadoresco, aproximando a poesia clássica e popular do leitor comum e influenciando gerações de novos escritores. Ocupa cadeiras de prestígio em importantes sodalícios culturais do país, como União Brasileira de Trovadores: Presidiu a seção municipal de Santos e alcançou o topo da liderança institucional ao presidir o Conselho Nacional em 2011; Academia Santista de Letras; Academia Cristã de Letras (ACL), com sede em São Paulo; Academia Feminina de Letras; Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS), onde ocupa a cadeira número 46.
Acumulou incontáveis premiações nos gêneros de poesia, conto, crônica e trova ao redor do mundo. No universo da trova, recebeu as maiores honrarias possíveis do movimento nacional: Título máximo de Magnífica Trovadora nos renomados Jogos Florais de Nova Friburgo (RJ), conquistado em 1973; Menção e título de Notável Trovadora concedido pelas cidades de Divinópolis e Pouso Alegre, em Minas Gerais.
Com uma vasta produção literária, a autora publicou 16 livros transitando com maestria entre a prosa e a poesia. Entre alguns de seus títulos estão: Cantigas Feitas de Sonho;  Peregrinação; ‘O Príncipe da Trova — livro biográfico e afetivo no qual narra a vida, a morte e o convívio poético com Luiz Otávio, o fundador do movimento trovadoresco nacional.
Carolina Ramos é considerada uma das maiores instituições vivas da literatura popular e clássica brasileira, exercendo um papel fundamental na preservação da memória literária nacional. A sua importância para a literatura se resume em que atuou na linha de frente para que a trova, vinda da Idade Média, ganhasse temáticas modernas, urbanas e cotidianas, mantendo o gênero atraente para as novas gerações. Ao publicar obras como O Príncipe da Trova, Carolina Ramos registrou a história viva e os bastidores da era de ouro da poesia nacional. Ela documentou o legado de Luiz Otávio e de outros grandes intelectuais do século XX, servindo como uma fonte histórica essencial para pesquisadores da literatura brasileira. Em uma época em que o ambiente acadêmico e literário era predominantemente dominado por homens, Carolina Ramos conquistou os títulos máximos da poesia brasileira por mérito técnico incontestável. Ela abriu portas para que mulheres escritoras ocupassem cadeiras de prestígio nas academias de letras e assumissem cargos de liderança cultural e intelectual.
= = = = = = = = = = = = = =  
Fonte:
Carolina Ramos. Interlúdio: contos. São Paulo: EditorAção, 1993.
Biografia = Confraria Brasileira de Letras, etc.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Versos Esparsos * 2 *