Cornélio Basso fez uma pausa. Agarrou o copo e o levou aos lábios. Na plateia houve inquietação. Alguém tossiu. Da primeira fila de cadeiras pareceu sair um homem agachado, ou pequeno. Uma criança, talvez. Pôs-se de quatro, de costas para o orador, no início do corredor atapetado. Cornélio voltou a falar. Os desejos recalcados não deixam de ter uma existência no inconsciente. No entanto, a platéia se mostrava inquieta. Ouviram-se sussurros. O homem agachado pôs-se a andar pelo carpete vermelho, rumo à saída. Subiu o primeiro degrau, caminhou, subiu o segundo. No inconsciente os desejos inconciliáveis podem coexistir. Na primeira fila uma cabeça olhou para trás. O fugitivo já ia quase ao meio do corredor, a passos lentos e cadenciados. Os desejos inconscientes não são modificados nem pela realidade exterior nem no decorrer do tempo.
À saída, uma hora depois do início destes acontecimentos, Terêncio Floro perguntou a Helvídio Lucano se vira um vulto deixar a sala. Não, não vira nada, a não ser Cornélio. Vira e ouvira. Pois fora ali para ver e ouvir Cornélio Basso. Por acaso esse vulto tinha alguma importância? Terêncio desculpou-se.
Pensou tratar-se do vulto de Torquato Gélio. Porém Torquato jamais faria aquilo. Nunca se retiraria de uma conferência. Ainda mais se o conferencista fosse Cornélio Basso. A não ser que tivesse sentido algum mal-estar.
Lélio Silvano chegou à calçada, olhou para os grupinhos formados aqui e ali, e optou por Terêncio e Helvídio. Deram-se palmadinhas nas costas. Cornélio estivera magnífico. Sim, o inconsciente só obedece ao princípio do prazer. Ele disse isso? Não lembro de ter ouvido isso. Provavelmente falou isso no exato momento em que acontecia aquilo. Lélio sorriu, ensaiou uma risada, conteve-se.
Referia-se Terêncio ao cachorro? Helvídio olhou, espantado, para Lélio e, em seguida, para o chão.
Cachorro? Que cachorro? Ora, não entendia como haviam deixado um animal entrar no anfiteatro.
Desleixo total dos diretores. Descuido gravíssimo. E se se tratasse de um cão raivoso? Terêncio tomou a palavra: Esse animal não era um homem? Lélio sorriu. Estando na primeira fila, podia esclarecer o fato. O cão dormia recostado ao estrado. Ao ouvir a voz de Cornélio, acordou. Helvídio não gostou da frase. Se o cão dormia, não podia ouvir a voz de Cornélio. Seja como for — continuou Lélio — , olhou para a plateia, teve medo e meteu o rabo entre as pernas.
Terêncio levou as mãos aos olhos: estou ficando cego.
Muito sério, Lélio imitou o cão. Saiu pé ante pé pelo corredor e mansamente desapareceu.
Lívio e Júlia retiravam-se, saídos de outro grupinho. Passaram por Terêncio, Helvídio e Lélio, deram boa-noite e pararam. Lívio se voltou para os três amigos. Vocês viram o vexame desta noite?
Lamentável, horrível, inexplicável. Como trazer uma criança para a palestra de Cornélio Basso?!
Nervosa, Júlia arrastou Lívio para o grupo. De quem será filho esse pobre menino? Helvídio parecia horrorizado, embora sorrisse. Afinal, o vulto visto por todos mudava de figura a cada momento.
Aproximou-se deles um rapaz. Disse chamar-se Torquato Basso. Lívida, Júlia recuou. O moço gargalhou. Se quisessem, chamassem-no Cornélio Gélio. Ou Terêncio Lucano. Ou Lélio Floro. Ou Helvídio Silvano. Afinal, o inconsciente só obedece ao princípio da dor. Os desejos inconscientes são modificados a cada momento e de acordo com a realidade exterior.
Pôs-se a gritar o estranho. Aterrorizados, os espectadores saíram em disparada pela rua.
Um cão pôs-se a latir diante do anfiteatro.
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O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)
Fonte:
Nilto Maciel. Pescoço de girafa na poeira. Publicado originalmente em 1999.

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