Trovadores em Ordem Alfabética

  • A (49)
  • B (5)
  • C (22)
  • D (12)
  • E (13)
  • F (12)
  • G (9)
  • H (11)
  • I (4)
  • J (27)
  • L (30)
  • M (31)
  • N (8)
  • O (11)
  • P (4)
  • R (18)
  • S (12)
  • T (5)
  • V (5)
  • W (9)
  • Z (2)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Francisca Júlia (Cristais Poéticos)


ADAMAH
(à Júlia Lopes d’Almeida)

Homem, sábio produto, epítome fecundo
Do supremo saber, forma recém-nascida,
Pelos mandos do céu, divinos, impelida,
Para povoar a terra e dominar o mundo;

Homem, filho de Deus, imagem foragida,
Homem, ser inocente, incauto e vagabundo,
Da terrena substância, em que nasceu, oriundo,
Para ser o primeiro a conhecer a vida;

Em teu primeiro dia, olhando a vida em cada
Ser, seguindo com o olhar as barulhentas levas
De pássaros saudando a primeira alvorada,

Que ingênuo medo o teu, quando ao céu calmo elevas
O ingênuo olhar, e vês a terra mergulhada
No primeiro silêncio e nas primeiras trevas…
= = = = = = = = = = = = = =  

CARLOS GOMES

Essa que plange, que soluça e pensa,
Amorosa e febril, tímida e casta,
Lira que raiva, lira que devasta,
E que dos próprios sons vive suspensa,

Guarda nas cordas uma escala imensa,
Que, quando rompe, espaço fora arrasta
Ora do mar as queixas, ora a vasta
Sussurração de uma floresta densa.

Ei-la muda; mas tal intensidade
Teve a música enorme do seu choro,
O dilúvio orquestral dos seus lamentos,

Que, muda assim, rotas as cordas, há de
Para sempre vibrar o eco sonoro
Que su’alma lançou aos quatro ventos.
= = = = = = = = = = = = = =  

NATUREZA

Um contínuo voejar de moscas e de abelhas
Agita os ares de um rumor de asas medrosas;
A Natureza ri pelas bocas vermelhas
Tanto das flores más como das boas rosas.

Por contraste, hás de ouvir em noites tenebrosas
O grito dos chacais e o pranto das ovelhas,
Brados de desespero e frases amorosas
Pronunciadas, a medo, à concha das orelhas…

Ó Natureza, ó Mãe pérfida! tu, que crias,
Na longa sucessão das noites e dos dias,
Tanto aborto, que se transforma e se renova,

Quando meu pobre corpo estiver sepultado,
Mãe! transforma-o também num chorão recurvado
Para dar sombra fresca à minha própria cova.
= = = = = = = = = = = = = =  

A UMA SANTA

Foge, sem ódio, ao mal; o bem pratica;
Se a dor lhe dói, cuida-a gostosa e boa,
Ou faz então com que ela lhe não doa;
Na pobreza em que está julga-se rica;

O mal, sabe que passa, o bem, que fica;
Por isso o bem acolhe e o mal perdoa.
Quanto mais vive, mais se aperfeiçoa,
Quanto mais sofre, mais se glorifica.

Por essa alta moral os atos regra;
Em nenhum outro esforço em vão se cansa,
Por nenhum outro ideal se bate em vão.

E é feliz, mais feliz porque se alegra
Não com o muito que a sua mão alcança,
Porém com o pouco que já tem na mão.
= = = = = = = = = = = = = =  

A UM VELHO

Por suas próprias mãos armado cavaleiro,
Na cruzada em que entrou, com fé e mão segura,
Fez um cerco tenaz ao redor do Dinheiro,
E o colheu, a cuidar que colhia a Ventura.

Moço, no seu viver errante e aventureiro,
O peito abroquelou dentro de uma armadura;
Velho, a paz vê chegar do dia derradeiro
Entre a abundância do ouro e o tédio da fartura.

No amor, de que é rodeado, adivinha e pressente
O interesse que o move, o anima e o faz ardente;
Foge por isso ao mundo e busca a solidão.

O passado feliz o presente lhe invade,
E vive de gozar a pungente saudade
Das noites sem abrigo e dos dias sem pão.
= = = = = = = = = = = = = =  

DE VOLTA

Mais encanto que a mais populosa cidade,
Dentre tantas que viu, a sua aldeia encerra,
— Uma nesga de gleba e socalcos de serra
Sob um céu sempre azul, de ampla serenidade.

Por tudo o olhar derrama ungido de saudade,
E, evocando o passado, os tristes olhos cerra.
Neste instante feliz, nada há que mais lhe agrade
Que sentir-se entre os seus em sua própria terra.

Chega. O primeiro amigo a quem a mão aperta,
Quase à meiga pressão se esquiva, indiferente,
E de outras efusões mais vivas se liberta.

Nessa mão, que recua, outras, frias, pressente…
Antes exílio e dor, pão duro e vida incerta,
Que o desprezo arrostar da sua própria gente.
= = = = = = = = = = = = = =  

PÉRFIDA

Disse-lhe o poeta: “Aqui, sob estes ramos,
Sob estas verdes laçarias bravas,
Ah! quantos beijos, trêmula, me davas!
Ah! quantas horas de prazer passamos!

Foi aqui mesmo, — como tu me amavas!
Foi aqui, sob os úmidos recamos
Desta aragem, que uma rede alçamos
Em que teu corpo, mole, repousavas.

Horas passava junto a ti, bem perto
De ti. Que gozo então! Mas, pouco a pouco,
Todo esse amor calcaste sob os pés”.

“Mas, disse-lhe ela, quem és tu? De certo,
Essa mulher de quem tu falas, louco,
Não, não sou eu, porque não sei quem és…”
= = = = = = = = = = = = = =  

NO BAILE

Flores, damascos… é um sarau de gala.
Tudo reluz, tudo esplandece e brilha;
Riquíssimos bordados de escumilha
Envolvem toda a suntuosa sala.

Moços, moças levantam-se; a quadrilha
Rompe; um suave perfume o ar trescala;
E Flora, a um canto, envolta na mantilha,
Espera que o marquês venha tirá-la…

Finda a quadrilha. Rompe a valsa inglesa.
E ela não quer dançar! ela, a marquesa
Flora, a menina mais formosa e rica!

E ele não vem! Enquanto finda a valsa,
Ela, triste, a sonhar, calça e descalça
As finíssimas luvas de pelica!
= = = = = = = = = = = = = =  

OUTRA VIDA

Se o dia de hoje é igual ao dia que me espera
Depois, resta-me, entanto, o consolo incessante
De sentir, sob os pés, a cada passo adiante,
Que se muda o meu chão para o chão de outra esfera.

Eu não me esquivo à dor nem maldigo a severa
Lei que me condenou à tortura constante;
Porque em tudo adivinho a morte a todo instante,
Abro o seio, risonha, à mão que o dilacera.

No ambiente que me envolve há trevas do seu luto;
Na minha solidão a sua voz escuto,
E sinto, contra o meu, o seu hálito frio.

Morte, curta é a jornada e o meu fim está perto!
Feliz, contigo irei, sem olhar o deserto
Que deixo atrás de mim, vago, imenso, vazio…
= = = = = = = = = = = = = =  

NOTURNO

Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo funéreo
Se arrasta em direção ao negro cemitério…
À frente, um vulto agita a caçoula do incenso.

E o cortejo caminha. Os cantos do saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao lenço;
Chora no ar o rumor de um misticismo aéreo.

Uma ave canta; o vento acorda. A ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da lua…
Uma estrige soluça; a folhagem farfalha.

E enquanto paira no ar esse rumor das calmas
Noites, acima dele, em silêncio, flutua
O lausperene mudo e súplice das almas.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
FRANCISCA JÚLIA CÉSAR DA SILVA MÜNSTER foi uma das vozes do Parnasianismo brasileiro, reconhecida por sua técnica impecável, rigor formal e objetividade poética. Elogiada por grandes nomes da crítica, como Olavo Bilac, ela se destacou em um cenário literário predominantemente masculino. Nasceu em 1871, em Xiririca (atual município de Eldorado), no estado de São Paulo e faleceu em 1920 (aos 49 anos), em São Paulo (SP), em decorrência de uma overdose de sedativos, logo após o sepultamento de seu marido, o telegrafista Philadelpho de Castro, que havia morrido de tuberculose no mesmo dia. Nascida no interior paulista, mudou-se na juventude com a família para a capital, São Paulo, e também residiu por algum tempo em Barretos (SP). Dedicou-se ao magistério, trabalhando como professora, além de colaborar intensamente com a imprensa da época. 
Estreou no jornal O Estado de S. Paulo em 1891, sob a tutela do crítico literário Júlio Mesquita. Inicialmente, sua poesia era tão técnica, fria e perfeita que o crítico Raimundo Correia chegou a duvidar de que os versos tivessem sido escritos por uma mulher, suspeitando que fossem obra de algum poeta experiente sob pseudônimo. Ela colaborou com diversos periódicos importantes, como A Mensageira. Foi uma das fundadoras da Academia Paulista de Letras (APL). Na Academia Brasileira de Letras (ABL), ela não pôde ingressar, pois a instituição não aceitava mulheres na época. Contudo, na sessão de instalação da ABL em 1897, seu nome foi publicamente elogiado por Olavo Bilac. 
Livros Publicados: Mármores (1895) – Livro de estreia que a consagrou no Parnasianismo; Livro de Infância (1899) – Versos dedicados ao público infantil e escolar; Esfinges (1903) – Coletânea ampliada que consolidou sua técnica; Alma Infantil (1912) – Escrito em parceria com seu irmão, Júlio César da Silva; Versos Áureos (1921) – Publicação póstuma organizada por seus familiares.
Ocupa um lugar de destaque na história literária brasileira por demonstrar o domínio absoluto da estética parnasiana. Em uma época na qual as escritoras eram frequentemente associadas apenas à poesia sentimental ou confessional, ela rompeu barreiras ao entregar uma obra marcada pelo impassibilismo, precisão métrica e descrições plásticas e visuais (daí o título de seu primeiro livro, Mármores). Ela provou a força da autoria feminina no ambiente intelectual da República Velha, tornando-se uma referência de rigor formal na poesia nacional.

Fonte:
Elson Froes. Sonetário

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Versos Esparsos * 7 *