Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dois passos só estou da morte.
Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua f’licidade
E amanhã nem — um bem que nos conforte.
Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,
É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs — outrora.
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TERRA DO BRASIL
Espavorida agita-se a criança,
De noturnos fantasmas com receio,
Mas se abrigo lhe dá materno seio,
Fecha os doridos olhos e descansa.
Perdida é para mim toda a esperança
De volver ao Brasil; de lá me veio
Um pugilo de terra; e neste creio
Brando será meu sono e sem tardança…
Qual o infante a dormir em peito amigo,
Tristes sombras varrendo da memória,
ó doce Pátria, sonharei contigo!
E entre visões de paz, de luz, de glória,
Sereno aguardarei no meu jazigo
A justiça de Deus na voz da história!
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I – À MORTE DO PRÍNCIPE D. PEDRO
Pode o artista pintar a imagem morta
Da mulher, por quem dera a própria vida.
À esposa que a ventura vê perdida
Casto e saudoso beijo inda conforta.
A imitar-lhe os exemplos nos exorta
O amigo na extrema despedida…
Mas dizer o que sente a alma partida
Do pai, a quem, oh Deus, tua espada corta.
A flor de seu futuro, o filho amado;
Quem o pode, Senhor, se mesmo o Teu
Só morrendo livrou-nos do pecado,
Se a terra à voz do Gólgota tremeu
E o sangue do Cordeiro Imaculado
Até o próprio céu enegreceu!
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III – A IDEIA CONSOLADORA
Vendo as ondas correr para o ocidente,
Corre mais do que elas a saudade,
Mas espero que a minha enfermidade
O mesmo me consinta brevemente.
Com saúde mais lustre dar à mente
É cousa que enobrece a humanidade;
Contudo agora o paga a amizade
Da pátria, e da família, cruelmente;
Mas consola-me a ideia, — que mais forte
Lhes voltarei para melhor amá-los,
Pois mais anos assim até a morte
Eu mostrarei que sempre quis ligá-los
Na feliz, e também na infeliz sorte
Para, amando-os, ainda consolá-los.
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IV – SEMPRE O BRASIL
Nunca noite dormi tão sossegado,
Quem nem mesmo sonhei com o meu Brasil,
Porém, vendo infinito mar d’anil,
Lembra-me a aurora dele nacarada.
Cada dia que passa não é nada,
E os que faltam parecem mais de mil.
Se o tempo que lá vivo é um ceitil,
Aqui é para mim grande maçada.
E a doença porém me consentir,
Sempre pensando nele, cuidarei
De tornar-me mais digno de o servir,
E, quando possa, logo voltarei;
Pois na terra só quero eu existir
Quando é para bem dele que eu o sei.
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V – A VIDA E O BARCO
Andar e mais andar é a vida a bordo;
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a música entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.
Saudosíssimo a pátria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras só aquela vendo,
E para não chorar os lábios mordo.
Enfim há de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo só pensei,
Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
'Té que nele encontre o último repouso.
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VII – A MEUS NETINHOS IMPRESSORES DE MEUS VERSOS
Versos feitos por mim na mocidade
O mérito só tem sentimento.
Eram, pra assim dizer, um instrumento
Mais que o prazer ecoando-me a saudade.
Pospondo a fantasia sempre à verdade
Melhor encontrei nesta o ornamento
E, no estudo apurando o sentimento,
Quanto tenho a saber disse-me a idade.
É isso o que vos quero eu ensinar,
Amando-vos qual pode um terno avô,
A quem para as suas cãs engrinaldar
Melhor só poderia o que eu vou
Em carícias tão vossas procurar,
Sentindo que de vós inda mais sou.
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DOM PEDRO II (Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança) é lembrado como o último monarca do Brasil, mas sua faceta artística e intelectual também o consagrou como um ávido poeta, tradutor e o maior mecenas da cultura e da literatura do país em sua época. Conhecido por sua erudição, ele dominava diversos idiomas e usou a poesia, para canalizar seus sentimentos de nostalgia pelo Brasil. Nasceu em 1825, no no Rio de Janeiro (RJ) e faleceu em 1891, em Paris (França), aos 66 anos, em decorrência de uma pneumonia no exílio. Passou a maior parte de sua vida na cidade do [Rio de Janeiro e na cidade imperial de Petrópolis (RJ). Após o golpe que proclamou a República em 1889, viveu seus últimos dois anos exilado na Europa, dividindo-se principalmente entre Portugal e a França. Sua "profissão" foi a de Chefe de Estado. Tornou-se imperador aos 5 anos com a abdicação de seu pai, Dom Pedro I, e governou efetivamente o Brasil por quase 50 anos, de 1840 a 1889. Devido à sua posição de monarca, ele não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL), que só viria a ser fundada anos após sua morte, em 1897. No entanto, foi o patrono e presidente de honra do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e membro honorário de prestigiadas instituições internacionais, como a Academia de Ciências da França e a Royal Society do Reino Unido. Nunca concorreu e nem recebeu prêmios literários, pois sua produção poética era predominantemente de cunho íntimo e não comercial.
Como escritor, Dom Pedro II dedicou-se intensamente aos sonetos clássicos e às traduções de grandes obras mundiais (traduzia do árabe, hebraico, grego e latim). Ele mantinha correspondência ativa com intelectuais globais, como Victor Hugo e Henry Wadsworth Longfellow. Em vida, relutava em publicar seus poemas por modéstia, preferindo que ficassem restritos aos seus diários. A principal compilação de seus versos foi publicada em 1889 sob o título Poesias (Originais e Traduções) de S. M. o Senhor D. Pedro II, impressa em Petrópolis como uma homenagem organizada por seus netos. Suas cadernetas de exílio revelaram sonetos viscerais que expressavam a dor do desterro.
A importância de Dom Pedro II para a literatura brasileira vai muito além de seus próprios versos. Como governante erudito, ele foi o principal arquiteto do amadurecimento cultural da nação no século XIX. Ele financiou do próprio bolso os estudos e as carreiras de grandes escritores do Romantismo e do Realismo, sendo crucial para que autores como Gonçalves Dias e Manuel Antônio de Almeida pudessem produzir suas obras. Suas traduções pioneiras expandiram o horizonte literário do Brasil, trazendo a tradição oriental para a língua portuguesa. Na sua própria produção escrita, ele deixou registrado um sensível retrato psicológico e melancólico da transição política do Brasil Império, transformando a saudade de sua terra natal em poesia intimista de alto valor histórico e documental.
Fontes:
Dom Pedro II. Poesias. Publicado originalmente em 1889.
Biografia = Academia Brasileira de Letras, Wikipedia, E-biografia, Mundo Educação, Wikisource, etc.

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