O milho caía em granulações de ouro, por entre os dedos rugosos, curtos, cor de fumo seco, do velho Samé.
Os bisnetos riam-se às escâncaras, acompanhando o andar vacilante do bisavô, que mal arrastava os pés doentes sobre os laivos azinhavrados do chão úmido. Chovera, e o campo abria-se por ali fora, nu, só com uns velhos tocos de madeira podre, onde zumbiam abelhas e despontavam róseas orelhas-de-pau pra lhes ouvir a música.
O tio Samé fizera cem anos pelo S. Miguel; dera de enfraquecer, pelos últimos tempos; estava a acabar todos os dias.
Nos seus olhinhos garços já havia a névoa da idiotia, a ausência da alma, que se lhe desprendia do corpo aos pedaços.
Caíam-lhe falripas brancas, ásperas e lisas, como pálida moldura às carquilhas do seu rostinho sumido, de maxilas salientes e pele azeitonada. Todo ele era miúdo e enrugado. O pobre tinha perdido a fé e a memória das coisas, menos do tempo das sementeiras e das colheitas. Contava as luas, sabia de cor o calendário. Não atinava com os nomes dos netos nem da criançada. Confundia todos: já nem sabia o número dos filhos nem a graça da sua defunta mulher, que o fora por longuíssimos anos, nem mesmo saberia responder pelo seu nome – Samuel, que lhe valera o doce apelido de Samé; contudo, aconselhava do seu canto quando se devia cortar a mandioca, bater o arroz, colher o feijão ou a batata, e o seu aviso era ouvido como de sábio, seguido como de Deus!
Inda assim, se morria alguma criança em casa, a mãe, desesperada, ressumava rancor contra esse velho, teimoso em viver e que bem poderia ter-se ido embora, em lugar do filhinho inocente. E nesses dias a comida era-lhe atirada como a um cão intruso, sem direito ao carinho de ninguém.
Com cem anos e cinco meses, ainda o Samé quis ajudar numa sementeira de milho. A lua era boa, grossas carradas haveriam de ranger por ali, atulhadas de espigas maduras, secas, aos montões.
Os netos enchiam a roça de barulho; uma gralhada! Ele media os passos, silencioso; de tempos a tempos entreabria os dedos e os grãos de milho caíam, um a um, como contas de um rosário de ouro partido por um santinho velho, das antigas lendas.
E foi andando assim, devagar, devagar, com as pernas em tesoura, os pés cada vez mais inchados, o olhar embebido no sol, que abria no fundo horizonte um enorme meio círculo vermelho.
Os netos cantavam alto, os bisnetos riam ao longe, ruidosamente; e aquela bulha era para ele como a do vento que passasse, arrastando folhas mortas, varrendo caminhos, abrindo ramadas, carregando sementes e fecundando a terra. Sorria o velhinho para o sol poente como a um amigo velho de quem se despedisse com um afago, quando os pés já dormentes lhe negaram outras passadas e ele caiu para a frente, sobre o peito chato.
Não lhe doeu a queda; a terra estava fofa, a carne amortecida; teve uma tontura, sumiu-se-lhe tudo da lembrança; mas a pouco e pouco voltou-lhe a ação e procurou levantar-se, tateando um velho tronco negro, cavernoso, que ali estava em frente, roído de bichos, mal ligado à terra.
Tio Samé não conseguiu mover-se, mas reparou que irrompia daquela ruína um galhinho verde e tenro, macio ao tato, doce à vista, e quedou-se a olhá-lo espantado, com a boca aberta, a baba em fio, as falripas brancas caídas sobre as largas orelhas.
Julgara aquela árvore morta havia muito, e num relance fugitivo invejou as coisas que duram longo tempo, ou que não morrem nunca, como aquele sol vermelho sempre quente e aquele tronco que nas suas fibras despedaçadas ainda encontrava seiva para novas gerações! E o tio Samé beijou a terra, o seu único amor verdadeiro, beijou-a uma, duas, muitas vezes, com os braços abertos, as unhas fincadas no chão.
– Bisavô morreu! gritaram de longe; e vieram buscá-lo ao colo, como a uma criança.
Levaram-no para dentro, afirmando que ele estava no fim. Uma neta fez-lhe a cama de limpo, outra vazou-lhe o caldo pela boca, alagando-lhe o peito, com impaciência. A nora acendeu o oratório e baixou da parede o crucifixo de ébano.
Samé passeava os seus olhinhos de cem anos por tudo, como a perguntar – para quê?
Estavam feitos os preparativos para a morte.
Quando ela entrasse encontraria chamas de velas, toalhas de crivo, ramos de flores, imagens de santos e uma alma abençoada pelo padre, que um dos bisnetos fora chamar à pressa.
O padre veio e, perguntando ao Samuel pelos seus pecados, ouviu em resposta que as sementes germinariam depressa, porque a terra estava úmida e o sol ardente...
Riram-se uns, sorriam outros. O padre afastou-os e, tornando à cabeceira do velhinho, disse-lhe:
– Todo homem vive sujeito à tentação do inimigo; confessa sem pejo os teus pecados!
Samuel respondeu, sorrindo, que a lua ia ser propícia: os pescadores fariam boas pescas, os agricultores ótimas colheitas. A estação seria favorável aos pobres.
Caiu a absolvição sobre a cabeça branca do velho.
Filhos e netos rezaram uma ladainha arrastada e tristonha. Samé ouvia aquele ruído sem determinar-lhe o sentido, como se fora o de vento passando à noite fora das portas de sua casinha rústica. Depois da ladainha a ceia, depois da ceia o sono – todos adormeceram; só o tio Samé ficou abrindo para a lamparina os seus olhinhos de cem anos e foi assim que ele viu uma sombra esguia, longa, desenrolar-se das traves do teto e descer devagar, devagar, pela parede fronteira, sem barulho, com a cautela de um assassino...
Tio Samé tremeu. Uma das netas dormia ali mesmo, no chão, com o seio nu, os braços nus, o queixo erguido, a garganta bem iluminada. A cobra desceu e sumiu-se entre os lençóis, sem nem mesmo fazer rumor na esteira... Samé abanava os braços, mudo, inerte e espavorido, até que a rapariga, sacudida por uma convulsão tremenda, gritou alto, e o réptil fugiu, cascalhando, pela parede acima...
Na manhã seguinte morria a neta do velho Samé; mas ele ficou ainda, movendo os dedos trêmulos sobre o lençol branco, no gesto de semear a terra e aproveitar a boa lua…
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A escritora, cronista e teatróloga Júlia Lopes de Almeida é uma das figuras mais importantes da literatura brasileira da virada do século XIX para o XX, sendo considerada a primeira mulher a viver profissionalmente de seus direitos autorais e de sua escrita no Brasil. JÚLIA VALENTINA DA SILVEIRA LOPES DE ALMEIDA, nasceu em 1862, no Rio de Janeiro/RJ, onde faleceu em 1934 (aos 71 anos), vítima de malária. Embora tenha nascido na capital fluminense, mudou-se na infância com a família para Campinas/SP, onde cresceu e iniciou sua carreira. Morou temporariamente em Lisboa e Porto/Portugal, onde se casou em 1887, e viajou extensamente por países da Europa, África e América do Sul. Posteriormente, fixou residência definitiva no Rio de Janeiro. Ao contrário da maioria das mulheres de sua época, Júlia teve uma intensa atuação no jornalismo de grande circulação, escrevendo crônicas e artigos de opinião para periódicos de peso, como o O Paiz, Gazeta de Notícias e o Jornal do Commercio. Foi uma atuante ativista social, trabalhando ativamente em prol do abolicionismo, da causa republicana e do direito das mulheres à educação formal e ao voto. Em 1919, uniu-se a Berta Lutz para fundar a Legião da Mulher Brasileira, exercendo o cargo de presidente honorária.
Sua estreia ocorreu em 1886 com o livro de crônicas Traços e Iluminuras, publicado em Lisboa. Ela alcançou enorme prestígio crítico e comercial na chamada Belle Époque brasileira, sendo aclamada como a "Rainha das escritoras". Júlia foi uma das idealizadoras e fundadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1897. Seu nome constava na lista original de fundadores ao lado de nomes como Machado de Assis e Olavo Bilac. No entanto, na reunião de instalação, os acadêmicos decidiram seguir o modelo estrito da Academia Francesa, permitindo apenas homens. Impedida de ocupar sua própria cadeira (a de número 3) por ser mulher, os membros elegeram em seu lugar o seu marido, o poeta Filinto de Almeida — que anos mais tarde admitiria o absurdo da exclusão. Na virada do século XIX para o XX, as premiações literárias institucionais no Brasil eram quase inexistentes. O verdadeiro prêmio da autora foi o sucesso comercial sem precedentes para uma mulher. Ela era uma das autoras mais publicadas da Primeira República, disputando tiragens e vendagens diretamente com os maiores romancistas masculinos da época.
Escreveu mais de 40 títulos, incluindo romances de fôlego, peças de teatro, contos e livros didáticos: Contos Infantis (1887) – Escrito em parceria com sua irmã Adelina Lopes Vieira, foi adotado por décadas nas escolas primárias brasileiras; A Família Medeiros (1892) – Romance que aborda a transição da sociedade escravocrata para o trabalho livre no interior paulista; A Falência (1901) – Sua obra-prima. Um romance realista de crítica social demolidora que narra a derrocada financeira e moral de uma família burguesa envolvida no comércio de café no Rio de Janeiro; Eles e Elas (1910) – Livro focado nas complexidades das dinâmicas psicológicas e matrimoniais; A Silveirinha (1913) – Obra que discute as limitações impostas às mulheres na sociedade urbana.
A importância de Júlia Lopes de Almeida vai muito além de sua excelente prosa realista-naturalista. Ela foi uma pioneira na profissionalização da escritora mulher no Brasil, provando que a literatura produzida por mãos femininas poderia ter apelo comercial de massa e alta densidade psicológica e intelectual. Em seus romances, ela ousou retirar a idealização romântica das relações familiares e expôs as hipocrisias da burguesia carioca. Foi uma das primeiras vozes literárias a defender abertamente o divórcio, a emancipação financeira feminina e a urgência de educar as mulheres não para o casamento, mas para a autonomia. O resgate moderno de sua produção corrige uma das maiores injustiças históricas da história cultural do Brasil.
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Fontes:
Júlia Lopes de Almeida. Ânsia eterna. 2. ed. rev. Brasília : Senado Federal, 2020. Publicada originalmente em 1903.
Biografia = Brasiliana Fotografica (Acervo da Biblioteca Nacional), Periodicos da UNESP, E-biografia, Brasil Escola, Wikipedia, Mundo Educação, etc.

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