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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Lima Barreto (Mais uma vez)


Este recente crime da rua da Lapa traz de novo à tona essa questão do adultério da mulher e seu assassinato pelo marido.

Na nossa hipócrita sociedade, parece estabelecido como direito, e mesmo dever do marido, o perpetrá-lo.

Não se dá isto nesta ou naquela camada, mas de alto a baixo.

Eu me lembro ainda hoje que, numa tarde de vadiação, há muitos anos, fui parar com o meu amigo, já falecido Ari Toom, no necrotério, no largo do Moura por aquela época.

Uma rapariga - nós sabíamos isso pelos jornais - creio que espanhola, de nome Combra, havia sido assassinada pelo amante e, suspeitava-se, ao mesmo tempo maquereau (cafetão) dela, numa casa da rua de Sant'Ana.

O crime teve a repercussão que os jornais lhe deram e os arredores do necrotério estavam povoados da população daquelas paragens e das adjacências do beco da Música e da rua da Misericórdia, que o Rio de Janeiro bem conhece. No interior da morgue 2, era a frequência algo diferente sem deixar de ser um pouco semelhante à do exterior, e, talvez mesmo, em substância igual, mas muito bem vestida. Isto quanto às mulheres - bem entendido!

Ari ficou mais tempo a contemplar os cadáveres. Eu saí logo. Lembro-me só do da mulher que estava vestida com um corpete e tinha só a saia de baixo. Não garanto que estivesse calçada com as chinelas, mas me parece hoje que estava. Pouco sangue e um furo bem circular no lado esquerdo, com bordas escuras, na altura do coração.

Escrevi - cadáveres - pois o amante-cáften se havia suicidado após matar a Combra - o que me havia esquecido de dizer.

Como ia contando, vim para o lado de fora e pus-me a ouvir os comentários daquelas pobres pierreuses (prostitutas) de todas as cores, sobre o fato.

Não havia uma que tivesse compaixão da sua colega da aristocrática classe. Todas elas tinham objurgatórias (condenações) terríveis, condenando-a, julgando o seu assassinato coisa bem feita; e, se fossem homens, diziam, fariam o mesmo - tudo isto entremeado de palavras do calão obsceno próprias para injuriar uma mulher. Admirei-me e continuei a ouvir o que diziam com mais atenção. Sabem por que eram assim tão severas com a morta?

Porque a supunham casada com o matador e ser adúltera.

Documentos tão fortes como este não tenho sobre as outras camadas da sociedade; mas, quando fui jurado e, tive por colegas os médicos da nossa terra, funcionários e doutos de mais de três contos e seiscentos mil réis de renda anual como manda a lei sejam os juízes de fato escolhidos, verifiquei que todos pensavam da mesma forma que aquelas maltrapilhas rôdeuses (vagabundas) do largo do Moura.

Mesmo eu - já contei isto alhures - servi num conselho de sentença que tinha de julgar um uxoricida (assassino da própria esposa) e o absolvi. Fui fraco, pois a minha opinião, se não era falhe comer alguns anos de cadeia, era manifestar que havia, e no meu caso completamente incapaz de qualquer conquista, um homem que lhe desaprovava a barbaridade do ato. Cedi a rogos e, até, alguns partidos dos meus colegas de sala secreta.

No caso atual, neste caso da rua da Lapa, vê-se bem como os defensores do criminoso querem explorar essa estúpida opinião de nosso povo que desculpa o uxoricídio quando há adultério, e parece até impor ao marido ultrajado dever de matar a sua ex-cara-metade.

Que um outro qualquer advogado explorasse essa abusão (superstição) bárbara da nossa gente, vá lá; mas que o Senhor Evaristo de Morais, cuja ilustração, cujo talento e cujo esforço na vida me causam tanta admiração, endosse, mesmo profissionalmente, semelhante doutrina é que me entristece. O liberal, o socialista Evaristo, quase anarquista, está me parecendo uma dessas engraçadas feministas Brasil, gênero professora Daltro, que querem a emancipação da mulher unicamente para exercer sinecuras (emprego ou cargo rendoso que exige pouco trabalho) do governo e rendosos cargos políticos; mas que, quando se trata desse absurdo costume nosso de perdoar os maridos assassinos de suas mulheres, por isso ou aquilo, nada dizem e ficam na moita.

A meu ver, não há degradação maior para a mulher do que semelhante opinião quase geral; nada a degrada mais do que isso, penso eu. Entretanto...

Às vezes mesmo, o adultério é o que se vê e o que não se vê são outros interesses e despeitos que só uma análise mais sutil podia revelar nesses lagos.

No crime da rua da Lapa, o criminoso, o marido, o interessado no caso, portanto, não alegou quando depôs sozinho que a sua mulher fosse adúltera; entretanto, a defesa, lemos nos jornais, está procurando "justificar" que ela o era.

O crime em si não me interessa, senão no que toca à minha piedade por ambos; mas, se houvesse de escrever um romance, e não é o caso, explicaria, ainda me louvando nos jornais, a coisa de modo talvez satisfatório.

Não quero, porém, escrever romances e estou mesmo disposto a não escrevê-los mais, se algum dia escrevi um, de acordo com os cânones da nossa crítica; por isso guardo as minhas observações e ilusões para o meu gasto e para o julgamento da nossa atroz sociedade burguesa, cujo espírito, cujos imperativos da nossa ação na vida animaram, o que parece absurdo, mas de que estou absolutamente certo - O protagonista do lamentável drama da rua da Lapa.

Afastei-me do meu objetivo, que era mostrar a grosseria, a barbaridade desse nosso costume de achar justo que o marido mate a mulher adúltera ou que a crê tal.

Toda a campanha para mostrar a iniquidade de semelhante julgamento não será perdida; e não deixo passar vaza que não diga algumas toscas palavras, condenando-o.

Se a coisa continuar assim, em breve, de lei costumeira, passará a lei escrita e retrogradamos às usanças selvagens que queimavam e enterravam vivas as adúlteras.

Convém entretanto lembrar que, nas velhas legislações, havia casos de adultério legal. Creio que Sólon e Licurgo os admitia; creio mesmo ambos. Não tenho aqui o meu Plutarco. Seja, porém, como for, não digo que todos os adultérios são perdoáveis. Pior do que o adultério é o assassinato; e nós queremos criar uma espécie dele baseado na lei.
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AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO foi um dos maiores escritores da literatura brasileira, conhecido por sua crítica social contundente e sua narrativa realista e inovadora. Nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1881, e faleceu precocemente em sua cidade natal, em 1922, aos 41 anos, vítima de um colapso cardíaco ligado a problemas crônicos de saúde e ao alcoolismo. Viveu a maior parte de sua vida no subúrbio carioca, especialmente no bairro de Todos os Santos, local que serviu de grande inspiração para suas obras. Ingressou no curso de Engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, mas precisou abandonar os estudos para sustentar a família após o adoecimento mental de seu pai. Trabalhou como amanuense (copista e escriturário) na Secretaria da Diretoria Geral do Comércio do Ministério da Guerra. Atuou intensamente na imprensa, escrevendo crônicas, reportagens e sátiras políticas para diversos periódicos da época, como A Lanterna e Correio da Manhã.
Utilizava uma linguagem simples e direta, o que gerava resistência nos círculos acadêmicos da época, que preferiam o academicismo rebuscado. Sua escrita focava nos marginalizados, no preconceito racial e nas hipocrisias da República Velha. O escritor nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele se candidatou três vezes à instituição, mas foi rejeitado em todas devido ao teor agressivo de suas críticas ao sistema literário e pelo racismo institucional da época. Não recebeu prêmios literários expressivos em vida, tendo grande parte de seu reconhecimento consolidada apenas postumamente.
Entre romances, sátiras e memórias, destacam-se: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909); Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911) – sua obra-prima; Numa e a Ninfa (1915); Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919); Clara dos Anjos (publicado postumamente em 1948); Diário Íntimo e Cemitério dos Vivos (publicações póstumas de caráter autobiográfico).
Lima Barreto é uma figura fundamental do Pré-Modernismo brasileiro. Sua importância reside na coragem de romper com o formalismo da Belle Époque para dar voz e dignidade aos subúrbios, aos negros e aos pobres. Ele foi um dos primeiros a denunciar abertamente o preconceito racial e as desigualdades sociais do Brasil pós-abolição. Sua linguagem jornalística e coloquial antecipou as inovações que os modernistas consolidariam em 1922. Hoje, ele é celebrado como um autor indispensável para entender as raízes da formação social e cultural brasileira.

Fonte:
Lima Barreto. Bagatelas. s.d.

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