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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Gonçalves Crespo (Poemas Escolhidos)


QUIMERAS

O mar já me tentou: aspirações fogosas
Fizeram-me idear fantásticas viagens;
Eu sonhava trazer de incógnitas paragens
Notícias imortais às gentes curiosas.

Mais tarde desejei riquezas fabulosas,
Um palácio escondido em múrmuras folhagens,
Onde eu fosse ocultar as cândidas imagens
Das virgens que evoquei por noites silenciosas.

Mas, tudo isso passou: agora só me resta
Das quimeras que tive, uma visão modesta,
Um sonho encantador, de paz e de ventura.

É simples: uma alcova, um berço, um inocente,
E uma esposa adorada, envolta, a negligente!
De um longo penteador na imaculada alvura…
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SONETO DO OCASO

Sara, quando me vês, suave e brando,
Repelir os teus beijos amorosos,
Talvez julgues, mulher, ir declinando
O alegre sol dos dias teus formosos.

Como te enganas, flor! choro pensando
Que foste irmã dos lírios cetinosos,
E que talvez o céu fulgiu brilhando
De teus olhos nos raios luminosos…

Quem te colheu o beijo primitivo?
Que Fausto ou Mefistófeles altivo
Te enodoou as vestes, Margarida?

Escuta: enquanto dormes, impudente,
Talvez nalguma estrela resplendente
Chore tua alma triste e arrependida.
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FERVET AMOR
(ao Dr. Antônio Cândido)

Dá para a cerca a estreita e humilde cela
Dessa que os seus abandonou, trocando
O calor da família ameno e brando
Pelo claustro que o sangue esfria e gela.

Nos florões manuelinos da janela
Papeiam aves o seu ninho armando,
Veem-se ao longe os trigos ondulando…
Maio sorri na pradaria bela.

Zumbe o inseto na flor do rosmaninho;
Nas giestas pousa a abelha ébria de gozo;
Zunem besouros e palpita o ninho.

E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
Do seu catre virgíneo sobre o linho
Um par de borboletas amoroso.
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NA ALDEIA
(a Cristóvão Aires)
 
Duas horas da tarde. Um sol ardente
Nos colmos dardejando, e nos eirados.
Sobreleva aos sussurros abafados
O grito das bigornas estridente.

A taberna é vazia; mansamente
Treme o loureiro nos umbrais pintados;
Zumbem à porta insetos variegados,
Envolvidos do sol na luz tremente.

Fia à soleira uma velhinha: o filho
No céu mal acordou da aurora o brilho
Saiu para os cansaços da lavoura.

A nora lava na ribeira, e os netos
Ao longe correm seminus, inquietos,
No mar ondeante da seara loura.
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MODESTA
(À minha irmã)

Se lembro esse momento
Mais belo d’esta vida!
Voava desprendida
A tua coma ao vento…

O teu olhar, querida,
Desceu ao meu tormento,
E após enternecida
Disseste em brando acento:

“Tua alma sofre e chora,
Quando o porvir se inflora,
Quando a teu lado estou!…”

Doce te olhei tremendo;
A noite ia descendo,
Um beijo se escutou.
= = = = = = = = = = = = = =  

MODESTA (II)

Um beijo se escutou,
E eu via mal seguro
A luz que ele traçou
No azul do meu futuro.

Um beijo se escutou.
Depois… teu lábio puro
Mais brando suspirou
Que a pomba em ermo escuro.

Voz doce e piedosa!
Não fujas, mariposa,
Não tremas, Galatéia!

Gwinplaine, extasiado,
De um ósculo sagrado
Os pés ungia a Déia…
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O CAMARIM

A luz do Sol afaga docemente
As bordadas cortinas de escumilha,
Penetrantes aromas de baunilha
Ondulam pelo tépido ambiente.

Sobre a estante do piano reluzente
Repousa a “Norma”, ao lado uma quadrilha;
E do leito francês nas colchas brilha
De um cão de raça o olhar inteligente.

Ao pé das longas vestes, descuidadas
Dormem nos arabescos do tapete
Duas leves botinas delicadas.

Sobre a mesa emurchece um ramalhete,
E entre um leque e umas luvas perfumadas
Cintila um caprichoso bracelete.
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NA ROÇA

Cercada de mestiças no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco a pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Brilham insetos no capim rasteiro
E vêm das matas os negros colhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto de um tropeiro.

Atrás das grades, pardas borboletas
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabiá gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada.
= = = = = = = = = = = = = =  
ANTÓNIO CÂNDIDO GONÇALVES CRESPO foi um dos principais poetas luso-brasileiros da segunda metade do século XIX, amplamente reconhecido por introduzir a estética do Parnasianismo em Portugal. Nascido no Brasil, ele viveu e construiu toda a sua aclamada trajetória literária em solo europeu, atuando na transição entre o Romantismo e o Realismo. Nasceu em 1846, no [Rio de Janeiro (RJ), então capital do Império do Brasil. Ele era filho de um comerciante português e de Francisca Rosa da Conceição, uma brasileira de origem mestiça e escrava. Faleceu em 1883 (aos 37 anos), em Lisboa/Portugal, vítima de complicações da tuberculose. Viveu sua infância no Rio de Janeiro. Aos 10 ou 14 anos de idade, mudou-se para Portugal por razões de saúde e para prosseguir com seus estudos. Em solo português, viveu em cidades como Porto e Coimbra (durante seu período universitário) e, por fim, Lisboa onde se fixou e casou com a renomada escritora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Embora tenha adquirido a nacionalidade portuguesa (requisito legal na época para advogar), atuou pouquíssimo no âmbito jurídico. Dedicou-se intensamente ao jornalismo, trabalhando como redator e colaborador de grandes periódicos, como o Diário das Câmaras, o Jornal do Commercio de Lisboa e a revista de artes O Occidente. Além disso, construiu uma carreira política, sendo eleito deputado às Cortes lusitanas entre 1879 e 1881.
Iniciou suas publicações ainda estudante, na revista poética A Folha (dirigida por João Penha), veículo essencial para a difusão da nova estética antirromântica em Portugal. Juntamente com sua esposa, comandou um dos salões intelectuais e literários mais concorridos de Lisboa, frequentado por gigantes da literatura portuguesa como Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco. Faleceu de forma muito prematura em 1883, décadas antes da fundação oficial da Academia Brasileira de Letras (1897) e da Academia das Ciências de Lisboa abrir uma classe literária nos moldes modernos. Portanto, não pertenceu a academias formais de letras, mas foi figura central de influentes agremiações e tertúlias intelectuais de sua época.
Sua obra poética solo é breve, porém de alto impacto técnico: Miniaturas (1870) – Livro de estreia que marcou o início do movimento parnasiano em Portugal e ecoou fortemente no Brasil; Noturnos (1882) – Coletânea que consolidou sua escrita madura, marcada por melancolia e precisão formal; Contos para os nossos filhos (1886) – Obra de literatura infantil publicada de forma póstuma, escrita em coautoria com sua esposa, Maria Amália Vaz de Carvalho.
A importância de Gonçalves Crespo reside no fato de ele ser o elo de ligação e o pioneiro do Parnasianismo em Portugal. Ao lado de João Penha, ele liderou o rompimento com os excessos sentimentais do Ultra-Romantismo, propondo uma poesia focada no rigor métrico, na perfeição formal, na visualidade e na precisão técnica. Além de sua enorme relevância para o cenário português, ele é uma figura fundamental para a história da literatura afro-brasileira e luso-afro-brasileira. Sendo filho de mãe escravizada, Gonçalves Crespo trouxe para a rigorosa poesia parnasiana traços de recordações íntimas do Brasil, retratando o cotidiano de forma realista e abordando de maneira terna e musical figuras como as mucamas e a vida colonial. Ele provou que o rigor clássico europeu poderia perfeitamente caminhar lado a lado com a sensibilidade e a ancestralidade brasileiras.

Biografia = Universidade Federal de Minas Gerais, Wikipedia, Infopedia, Educação.uol, Escritas.org, Antônio Miranda, Portal da Literatura, etc.

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